<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Resultados da pesquisa por &#8220;tarifa&#8221; &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/search/tarifa/feed/rss2/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Thu, 29 Jan 2026 14:23:23 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>
	<item>
		<title>Good Bye, Kapital!? A Alemanha em queda</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/01/158595/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/01/158595/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 12:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Alemanha]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158595</guid>

					<description><![CDATA[ As crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema. Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O celebre filme “Adeus, Lênin!” retrata o fim da chamada Alemanha Oriental de uma forma tragicômica. O dedicado Alex tenta a todo custo esconder de sua mãe o fim da Alemanha socialista. No limite, após uma grande propaganda da Coca-Cola cobrir a lateral do prédio ao lado, de frente a sua janela, grava um telejornal com ajuda de um taxista e seus amigos informando a mãe que a Coca-Cola é uma criação comunista. Um lindo e amoroso filme que carrega nossa melancólica mágoa da derrota <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando a contemporaneidade, parece que na Alemanha de 2025 a vida voltou a imitar a arte, porém com os sinais contrários e uma população inteira como coadjuvante. Literalmente tá entrando muita água no chopp da Alemanha capitalista. A principal economia do bloco derrete.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento da Fábrica da Volkswagen em Desdren e a demissão de 35.000 operários é o símbolo maior desse grande rearranjo capitalista. A máquina capitalista mais potente da Europa começa a falhar. O país que há décadas importa migrantes do mundo inteiro hoje tem a mesma taxa de desemprego da última crise. No geral, parece uma operação complexa para a burguesia alemã esconder de milhões de trabalhadores que as suas vidas estão em risco. Sua propaganda é a clássica demagogia do inimigo externo o risco do comunismo invadir as ruas da Europa é sempre um ótimo argumento para justificar mudanças <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158606" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1536x864.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-681x383.png 681w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Produção industrial em queda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Marx no capítulo 1, do livro 1 do Capital diz que “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma &#8216;enorme coleção de mercadorias&#8217;”. Nós acrescentamos que a capacidade de manutenção e ampliação da produção determina os limites da dominação da burguesa e as possibilidades de luta dos trabalhadores <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, a situação da Alemanha merece atenção. Sua produção manufatureira, o motor da economia, vem decaindo e isto se espelha na política. Vamos aos dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Produção Anual da Manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2010</strong></td>
<td class="col1">90.5</td>
<td class="col2"><strong>2018</strong></td>
<td class="col3">105.0</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2011</strong></td>
<td class="col1">98.2</td>
<td class="col2"><strong>2019</strong></td>
<td class="col3">101.7</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2012</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2020</strong></td>
<td class="col3">92.7</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2013</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2021</strong></td>
<td class="col3">97.1</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>2014</strong></td>
<td class="col1">99.0</td>
<td class="col2"><strong>2022</strong></td>
<td class="col3">96.9</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>2015</strong></td>
<td class="col1">100.0</td>
<td class="col2"><strong>2023</strong></td>
<td class="col3">95.8</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0"><strong>2016</strong></td>
<td class="col1">101.1</td>
<td class="col2"><strong>2024</strong></td>
<td class="col3">91</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0"><strong>2017</strong></td>
<td class="col1" colspan="3">103.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte : OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Produção trimestral da manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2024-T4</strong></td>
<td class="col1">92.5</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2025-T1</strong></td>
<td class="col1">93.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2025-T2</strong></td>
<td class="col1">92.8</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2025-T3</strong></td>
<td class="col1">91.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;">Na série histórica iniciada em 2015 até o 3° trimestre de 2025, observamos que a produção da economia alemã caiu quase 9%. Pode parecer pouco, mas precisamos ter em mente que o capital é acumulação, é investimento em cima de investimento, é aumento da máquina produtiva. Caso contrário a feroz concorrência pode levar a chama da acumulação a se apagar. Instantaneamente, o reflexo na vida do povo trabalhador é direto: aumento do desemprego, queda no poder de compra, políticas de austeridade, redução do Estado de bem-estar social, etc. A situação é tão delicada para os burgueses alemães que a névoa da guerra volta a assombrar os trabalhadores na Europa <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico 1 temos na linha laranja as despesas de consumo das famílias, linha verde investimentos em máquinas e equipamentos e a linha investimentos em construção civil. O mais relevante para nós é a linha verde, importante indicador da acumulação de Capital, que, como podemos ver, está em franca queda e bem distante do ponto máximo atingido em 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 1: Investimentos e consumo na economia alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158604" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png" alt="" width="967" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-269x300.png 269w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-917x1024.png 917w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-768x858.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-376x420.png 376w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-640x715.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-681x761.png 681w" sizes="(max-width: 967px) 100vw, 967px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">Além do fechamento de fábricas, queda da produção e investimentos, outra coisa que será difícil a classe dominante alemã esconder dos trabalhadores é a queda nas exportações. No gráfico 2, temos na cor laranja o índice de crescimento das exportações e em azul o crescimento das importações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 2. Crescimento da exportação e importação</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158601" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png" alt="" width="1080" height="1466" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-221x300.png 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-754x1024.png 754w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-768x1042.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-309x420.png 309w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-640x869.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-681x924.png 681w" sizes="(max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">No meio desse baque econômico a burguesia alemã tenta esconder dos trabalhadores sua habilidade ímpar em fazer a vida virar morte. “Adeus, Lênin” é fichinha perto do que vem pela frente. Mesmo uma das opções clássicas para sair da crise, o desemprego, parece não estar funcionado. Segundo a chefe da Agência Federal de Emprego do país, Andrea Nahle, <a class="urlextern" title="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" href="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as chances de desempregados na Alemanha encontrarem trabalho nunca foram tão baixas</a>. A taxa de desemprego está em 6.3%, igualando ao ponto mais alto durante a crise econômica de 2020, como podemos ver no gráfico abaixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 3 — desemprego na Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158602" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png" alt="" width="922" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png 922w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-300x151.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-768x386.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-835x420.png 835w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-640x322.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-681x343.png 681w" sizes="auto, (max-width: 922px) 100vw, 922px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" href="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Bundesagentur für Arbeit</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A combalida saúde da economia Alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2025 <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" href="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma notícia no jornal DW destacou</a>: “A indústria automobilística emprega mais de um milhão de pessoas e há muito tempo é um termômetro da saúde econômica alemã”. A notícia segue com um preciso diagnóstico “as vendas estão encolhendo, empregos estão sendo cortados e fábricas enfrentam ameaças de fechamento”. Ou seja, como verificamos nos dados acima a saúde da economia alemã não vai bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um do motivos é que sua menina dos olhos era o mercado chinês, isso mesmo, “era”. Segue o DW:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Houve tempos em que a participação de mercado da Volkswagen se aproximava de 50%. Até alguns anos atrás, as montadoras alemãs vendiam um em cada três carros no país asiático”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porém, após 2008, o governo chinês passou a incentivar a produção de veículos elétricos, sendo o principal tipo de carro vendido na China atualmente.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Hoje, a cada dois <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" href="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">carros vendidos na China</a>, um é elétrico — e quase todos são de marcas chinesas. As vendas alemãs despencaram em seu mercado mais importante”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a notícia relata que diante da derrota sofrida pela burguesia alemã no mercado chinês, eles se voltam para a Índia, porém, enfrentando a concorrência dos carros indianos, coreanos, japoneses e agora dos carros chineses.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra notícia que explica o desengavetamento do empoeirado acordo com o Mercosul, parado há 25 anos, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" href="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vem do próprio DW</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Para os defensores, como Alemanha e Espanha, este acordo, ao contrário, revitalizará uma economia europeia em dificuldades, enfraquecida pela concorrência chinesa e pelas tarifas dos Estados Unidos (…) Ao eliminar grande parte das tarifas, o pacto impulsionaria as exportações europeias de automóveis, máquinas, vinho e queijo”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Levando em consideração a grande importância da indústria automobilística que “há muito tempo é um termômetro da saúde economia alemã”, vamos focar um pouco mais em seus dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 4- Produção de veículos automotores: Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158603" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png" alt="" width="1200" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-300x125.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1024x427.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-768x320.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1008x420.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-640x267.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-681x284.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" href="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CEICDATA</a></p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico acima, observamos a grande queda vinda junto da última crise cíclica. Como de praxe, o padrão/patamar produtivo foi alterado, agora os carros elétricos são a bola da vez e a Alemanha não está acompanhando a toada. A queda em relação ao ápice ocorrido em 2025 é de 33%.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria da BBC NEWS</a> observamos o busílis:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Todas as &#8216;três grandes&#8217; montadoras viram seus lucros antes dos impostos despencarem em cerca de um terço nos primeiros nove meses de 2024, e cada uma delas avisou que seus ganhos para o ano como um todo seriam menores do que o previsto anteriormente”, ou seja o cerne é a queda da taxa de lucro. Também pode ser verificado na queda vendas: “Entre 2017 e 2023, as vendas da VW caíram de 10,7 milhões para 9,2 milhões, enquanto, no mesmo período, as da BMW passaram de 2,46 milhões para 2,25 milhões, e as da Mercedes-Benz, de 2,3 milhões para 2,04 milhões, conforme mostram os relatórios das empresas”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para encerrar esse mapeamento das notícias no jornalão burguês, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" href="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais uma notícia do DW</a>, segundo Jan Brorhilker, sócio de umas das maiores consultorias empresariais do mundo, a Ernst &amp; Young:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“As empresas industriais estão sob imensa pressão” e “concorrentes agressivos, especialmente da China, estão forçando a queda dos preços, os principais mercados consumidores estão enfraquecendo, a demanda na Europa está estagnada em um nível baixo e há uma grande incerteza em torno de todo o mercado dos EUA”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158596" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg" alt="" width="1661" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg 1661w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1024x740.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1536x1110.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-640x462.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1661px) 100vw, 1661px" />Conexões e conclusões </strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os cortes de gastos são mais fáceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma noção generalizada de eficiência. Ainda assim, esse não é o propósito da defesa, e os políticos devem insistir neste ponto. O objetivo é a sobrevivência. O chamado “capitalismo liberal” precisa sobreviver e isso significa reduzir os padrões de vida para os mais pobres e gastar dinheiro para ir à guerra. Do estado de bem-estar social ao estado de guerra…”.</p>
<p style="text-align: justify;">E vão nesta toada: reduzindo gastos sociais, aumentando a capacidade de endividamento e, numa nova rodada, tendem a retomar a retirada de direitos dos trabalhadores <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Fechamos assim nosso último material sobre a Europa e com os dados acima sobre a Alemanha tudo se encaixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os investidores, governos, economistas, analistas, jornalistas e demais ideólogos burgueses se acostumaram com o fato de que em cada fim de ciclo econômico fosse sacrificada uma economia da periferia do capital. Foi assim com Argentina, Venezuela, Brasil, Grécia e outras. Dessa vez as coisas estão ocorrendo de outra maneira. Além das tradicionais vítimas da periferia do capital, entrou para o seleto grupo de economias combalidas a cada rodada de ciclo econômico uma importante economia do centro do capital, desde a crise de 2020 a economia da Alemanha continua em declínio. Em resumo, as crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra importante conclusão, a China durante décadas foi mercado de trabalho e consumo para as grandes empresas da Europa, porém em alguns setores as coisas começam a mudar, como vimos no caso dos carros elétricos. Nesse importante mercado a economia chinesa consegue praticar preços de produção bem menores que os seus concorrentes, porém, pelo fato da taxa de lucro tendencialmente diminuir, ela precisará de um mercado consumidor muito maior, como muito bem nos ensinou Marx no livro 3 do Capital e Rosa Luxemburgo em seu <em>Acumulação de Capital</em>. Nessa busca por mercados, além dos alemães, ela encontrará empresas dos EUA, França, Coreia do Sul e Japão. Se a tendência atual for confirmada e o capital sair do estado estacionário, veremos outra rodada de superação, ápice, crise e estagnação com retomada se iniciando.</p>
<p style="text-align: justify;">Levando em conta que nessa quadratura histórica as disputas por mercados assumem cada vez mais as características militares. Ou seja, a guerra e o protecionismo tomam a frente da economia-política, tudo fica às claras (arma na mesa e dedo em riste!).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste novo momento do capital, com a necessidade do império-do-terror/coração-do-sistema se salvar, uma crise no coração do sistema tende a estar mais próxima. Com tudo isso no jogo, nos resta saber onde explodirá a nova destruição do capital a fim de retomar suas taxas de lucros perdidas e se agora com o velho e experiente proletariado europeu ameaçado ele há de se tornar classe para si novamente. No berço das revoluções ainda há muitos bebês para serem gerados e o céu, meus amigos, o céu deve ser atacado.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguimos afiando nossas armas para quando o carnaval chegar e nós descer! Até a próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Derrota iniciada em 1921 com o massacre de Kronstadt. O pior é que nos lembra nossos amigos que tentam com todas as maneiras mostrar que os “socialistas de mercado” ou sem mercado (como Cuba) são superiores e tem ou tiveram vitórias que, se não fossem o malvado Capitalismo imperialista, seria a salvação do povo pobre do mundo. Este debate é complicado, mas partimos do pressuposto que estamos derrotados. Imóveis não, derrotados.<br />
<strong>[2]</strong> <strong>Charles Júnior e Antônio Carlos</strong>, <em>“Europa – do estado de bem-estar ao estado de guerra”</em>. In: <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Chama</a> (03/06/2025)<br />
<strong>[3]</strong> Quando está tudo bem (emprego em alta, todo mundo comendo, pagando seus alugueis, bebendo seu chopp, comprando uma peita nova pro mozão e se reproduzindo a felicidade reina, quando as demissões começam a aparecer a vida aperta e os questionamentos ganham força.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/01/158595/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Chile: da &#8220;Plaza de la Dignidad&#8221; à &#8220;Colonia Dignidad&#8221;</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/01/158450/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/01/158450/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jan 2026 12:30:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158450</guid>

					<description><![CDATA[ Eventos como o estallido social podem interromper por um momento a lógica individualista dominante; mas, sem a capacidade de se enraizar e de durar no tempo, essa lógica tende inevitavelmente a se reafirmar. Por Alessandro Peregalli ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Alessandro Peregalli</h3>
<p style="text-align: justify;">No último dia 14 de dezembro, minutos após o triunfo eleitoral do candidato da extrema direita chilena, José Antonio Kast, com contundentes 58,2% dos votos, um dos memes que apareceram repetidamente nos meus grupos de WhatsApp ou no meu <em>feed</em> do Instagram dizia a seguinte frase: <em>2019 Dignidad, 2025 Colonia Dignidad</em>. Em outubro de 2019, de fato, o conceito de “dignidade” havia sido colocado no centro de uma série de reivindicações, materiais e simbólicas, durante o <em>estallido social</em> que fez tremer os alicerces do modelo neoliberal chileno — a ponto de os manifestantes terem rebatizado como “Plaza de la Dignidad” a Plaza Italia de Santiago, que por meses havia sido seu principal ponto de encontro. Apenas seis anos depois, aquela “dignidade” que o Chile prometia recuperar transformou-se tragicamente no seu oposto.</p>
<p style="text-align: justify;">“Colônia Dignidade” foi uma comunidade agrícola isolada e autossuficiente fundada em 1961 pelo ex-militar nazista Paul Schäfer, que funcionava como uma seita religiosa e ideológica na qual os membros eram submetidos a trabalho escravo, separação forçada de crianças de suas famílias e abusos sexuais constantes. Durante a ditadura de Pinochet, a colônia serviu também como centro clandestino de detenção, tortura e extermínio de opositores políticos. Embora não provenha exatamente dessa experiência, o pai do recém-eleito presidente Kast, Michael Martin Kast Schindele, era um ex-nazista que fugiu clandestinamente para o Chile em 1950, onde fundou uma empresa de embutidos chamada Bavaria. Seu irmão mais velho, Miguel, foi um influente <em>Chicago Boy</em>, como eram chamados os economistas que ditavam a linha econômica do regime militar, inspirados pela escola neoliberal de Chicago. No referendo de 1988, José Antonio Kast votou a favor da continuação da ditadura e posteriormente sempre reivindicou a herança da experiência de Pinochet. Após uma longa militância no partido da direita pós-pinochetista UDI (União Democrata Independente), Kast fundou em 2019 o mais radical Partido Republicano, com o qual foi eleito presidente, depois de ter sido derrotado nas duas eleições anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158452 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.jpg" alt="" width="512" height="284" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed-300x166.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />Não é fácil, hoje, compreender as razões de uma reviravolta política tão radical ocorrida no Chile em tão pouco tempo. Meu propósito, nestas linhas, é tentar reconstruir os acontecimentos mais importantes dos últimos seis anos, para depois traçar algumas pistas de interpretação, articuladas em torno de três nós fundamentais: a capacidade de resiliência do neoliberalismo chileno, sobretudo no plano subjetivo do corpo social chileno; a natureza fundamentalmente contrarrevolucionária daquela “nova esquerda” chilena que chegou ao governo com Gabriel Boric em 2021, não tanto como “produto” mas sobretudo como “reação” ao <em>estallido social</em>; e o impasse vivido hoje, em nível global, pelo pensamento e pela estratégia revolucionários, bem como pela própria ideia de revolução, que o caso chileno evidenciou de maneira paradigmática.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Pacto de 15 de novembro e o processo constitucional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O <em>estallido social</em> chileno eclodiu em 18 de outubro de 2019, quando, após a repressão a um protesto de secundaristas contra o aumento da tarifa do metrô de Santiago, várias estações foram incendiadas. A revolta se espalhou rapidamente por todo o país, com ocupações de praças e destruição de agências bancárias, estabelecimentos comerciais, prédios públicos, igrejas e monumentos associados à longa história de colonialismo. O então presidente de direita Sebastián Piñera reagiu decretando o Estado de Emergência, que causou — segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) — 45 mortes e quase 500 traumas oculares (com 82 pessoas que perderam completamente a visão), além de 1.082 casos de tortura e tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, e 282 agressões sexuais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resposta à repressão, no dia 25 de outubro realizou-se a maior manifestação da história do Chile, com a participação de 3 milhões de pessoas em todo o país, em uma população total de 19 milhões. Apesar do toque de recolher decretado pelo governo, a mobilização continuou por semanas, com confrontos diários com os <em>C</em><em>arabineros</em> e a participação extraordinária de jovens provenientes das periferias urbanas que constituíram a chamada <em>primera línea</em>, um cordão dedicado a manter a polícia ocupada para permitir a participação das famílias nas manifestações.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, multiplicaram-se as greves, sobretudo de trabalhadores portuários que, considerando a extensão marítima do país, representam um setor extremamente estratégico para a economia nacional. No dia 12 de novembro, a plataforma Unidade Social, uma coalizão de sindicatos e organizações sociais, convocou uma greve geral por tempo indeterminado, com forte participação no serviço público (especialmente educação e saúde), além dos setores bancário, comercial, mineiro, da construção civil e, justamente, portuário.</p>
<p style="text-align: justify;">As duas principais reivindicações que emergiram nessa conjuntura — e que articularam todas as demais, desde o fim do sistema de privatização das aposentadorias, da água e dos recursos naturais até a luta contra o extrativismo; da defesa dos direitos sindicais à legalização do aborto; do acesso universal e gratuito à universidade à defesa dos direitos territoriais dos povos originários — foram a renúncia de Piñera e a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, que permitisse superar a Constituição imposta por Pinochet em 1980 e todo o seu correlato de políticas neoliberais. A resposta do poder político articulou-se então em torno desses dois eixos, buscando por um lado garantir a continuidade institucional do governo e, por outro, conceder às ruas o início de um processo de reforma constitucional que pudesse ser limitado, canalizado e controlado pelo marco institucional vigente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que isso funcionasse, contudo, era necessária a colaboração da oposição política. Na noite entre 14 e 15 de novembro, a grande maioria dos partidos representados no Congresso assinou o Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição, após muitas horas de negociações transmitidas ao vivo pela televisão. Endossaram a decisão a ex-Concertação de Partidos pela Democracia — uma coalizão da esquerda neoliberal chilena, com protagonismo dos partidos Socialista (PS) e Democrata-Cristão (PDC) — e, à sua esquerda, uma parte da Frente Ampla (FA), entre eles o jovem deputado Gabriel Boric, enquanto outra parte da FA e o Partido Comunista (PC) rejeitaram o acordo. Já a partir do próprio nome, este evidenciava, em primeiro lugar, a necessidade de restabelecer a paz social no Chile, em troca da promessa de um processo constituinte a ser realizado segundo regras extremamente restritivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-135392" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/12/Chile-Ivan-Alvarado-2.jpg" alt="" width="1230" height="819" />Embora os protestos tenham continuado de forma constante nas semanas seguintes, o acordo atingiu o objetivo de superar a fase mais dura das mobilizações, encerrando a greve geral, salvaguardando a presidência da República e a impunidade dos <em>C</em><em>arabineros</em>, e deslocando a atenção de parte dos movimentos sociais para o processo constituinte. As assembleias territoriais que haviam se constituído ao longo da revolta começaram a se dividir quanto à adesão ou não a esse caminho, enquanto a chegada do verão passou a esvaziar as ruas. Em 8 de março de 2020, uma enorme manifestação feminista prometia reabrir o ciclo de mobilizações, mas o governo foi salvo pela eclosão da pandemia da Covid-19, que permitiu restabelecer — desta vez com maior legitimidade social, dada a ameaça sanitária — o estado de exceção e o toque de recolher. O longo período de confinamento doméstico, além de evidenciar o agravamento da crise social e psicológica da sociedade, teve evidentemente um efeito de desagregação daqueles vínculos que haviam se formado de maneira intensa, porém breve, no calor da insurreição popular. Ao mesmo tempo, a pandemia permitiu adiar de abril a outubro o início do processo constituinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Este último, na forma prevista pelo acordo de 15 de novembro, apresentava enormes limitações. Em primeiro lugar, porque se baseava em uma Convenção Constitucional convocada pelo Parlamento e coexistente com a plena continuidade institucional dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vigentes. Não se tratava, portanto, de uma Assembleia Constituinte plenamente soberana, cujo poder emanasse diretamente do povo. Em segundo lugar, o cronograma estabelecido — agravado pela pandemia — abria o risco de um desgaste institucional, canalizando grande parte das energias populares para eventos eleitorais contínuos, como os plebiscitos de início e de encerramento do processo e, entre eles, um ciclo de eleições municipais, regionais, parlamentares e presidenciais. Em terceiro lugar, a Convenção estava limitada por um altíssimo quórum de dois terços para a aprovação de cada artigo, o que garantia à direita e à ex-Concertação um poder de veto permanente. Por fim, todos os tratados internacionais — entre eles cerca de trinta acordos de livre comércio assinados pelo Chile nas últimas décadas — eram considerados intocáveis e não passíveis de revisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desses obstáculos, após a fase mais dura do primeiro ano da pandemia — durante o qual, em todo caso, a iniciativa política popular não cessou totalmente, dando origem a experiências de cozinhas comunitárias nos bairros, greves de trabalhadores da saúde, protestos pela libertação dos presos políticos da revolta, a greve de fome de um grupo de detentos mapuches e diversas insubordinações nas prisões — o início do processo constituinte parecia sancionar uma mudança radical nos equilíbrios políticos do país. No plebiscito de 25 de outubro de 2020, um ano após o <em>estallido</em>, 78,3% da população votou a favor da abertura do processo constituinte, e 78,9% a favor de uma Convenção escolhida integralmente pela cidadania, e não por uma assembleia mista, eleita metade por sufrágio universal e metade pelo Parlamento. Nas eleições seguintes, em 11 de abril de 2021, para a composição dessa Convenção, as forças progressistas e independentes obtiveram uma ampla maioria. A Lista do Povo e a lista Independentes por uma Nova Constituição, promovidas por movimentos organizados fora dos partidos políticos, conquistaram respectivamente 26 e 11 dos 155 assentos; a lista Aprovo Dignidade, composta por uma aliança entre a FA e o PC, elegeu 28; 17 cadeiras foram reservadas a representantes dos povos indígenas e 11 foram conquistadas por candidatos independentes eleitos fora das listas eleitorais. Os partidos tradicionais saíram duramente derrotados, com 26 cadeiras para os partidos da ex-Concertação e 37 para a coalizão das direitas. No mesmo dia, candidatos comunistas e da FA venceram as eleições municipais nas principais cidades do país. A nota dissonante, contudo, foi a participação eleitoral de apenas 43% da população, um dado por muito tempo subestimado, mas que já prenunciava os limites do processo constituinte em curso.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses limites emergiram com força ao longo de todo o período de trabalhos da Convenção. Apesar das intenções iniciais dos movimentos sociais de exercer uma pressão constante sobre a assembleia, esta rapidamente passou a funcionar segundo lógicas semelhantes às do Congresso Nacional, atuando como um espaço separado do clamor popular que, apesar de tudo, a havia instaurado. Ao mesmo tempo, seu prestígio foi rapidamente abalado por alguns escândalos — o mais emblemático envolvendo o membro da Lista do Povo, Rodrigo Rojas Vade, que durante a campanha eleitoral havia se apresentado falsamente como doente terminal, o que lançou um enorme descrédito justamente sobre os setores mais radicais da Convenção —, pela campanha contrária dos grandes meios de comunicação e pela guerrilha digital de uma série de <em>bots</em> nas redes sociais, que exploraram polêmicas geradas pelo uso de linguagem inclusiva nos trabalhos parlamentares, como o emprego do termo “pessoa menstruante” em vez de “mulher”. Paralelamente, um acordo entre eleitos da FA, do PS e do PDC freou a iniciativa dos setores mais radicais de forçar os limites previamente impostos à Convenção — como a exigência de maioria simples em vez de dois terços, o questionamento da legitimidade das instituições vigentes e a inviolabilidade dos tratados internacionais — e deslocou o eixo das discussões dos temas econômicos para questões culturais e identitárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A eleição de Boric e a vitória do “</strong><em><strong>Rechazo</strong></em><strong>“</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O desgaste da Convenção Constitucional — com a desintegração da Lista do Povo após o escândalo Vade e uma série de conflitos internos — e o refluxo progressivo das mobilizações de rua conduziram o cenário político-eleitoral chileno a uma estabilização institucional, recolocando os partidos políticos tradicionais no centro da iniciativa política. Nas primárias para escolher o candidato da aliança Aprovo Dignidade, em julho de 2021, Gabriel Boric &#8211; que havia sido um dos responsáveis pelo acordo de pacificação de 15 de novembro de 2019 e, por isso, era duramente rejeitado pelos setores sociais protagonistas do <em>estallido social &#8211;</em> derrotou de forma surpreendente o candidato comunista Daniel Jadue, considerado mais próximo das demandas da revolta. Para a vitória de Boric contribuíram numerosos eleitores dos partidos da ex Concertação. Nas eleições de 21 de novembro de 2021, Boric ficou em segundo lugar, com 25,8% dos votos, sendo superado pelo candidato de extrema direita José Antonio Kast, que obteve 27,9%. Em terceiro lugar, a grande surpresa foi Franco Parisi, fundador do Partido da Gente, uma força “antipolítica” e tecno-populista, cujas principais propostas econômicas apontavam para um liberalismo radical e para a redução da burocracia pública (Estado mínimo). Parisi era uma figura ambígua, consultor econômico residente nos Estados Unidos, que acumulava uma dívida milionária por se recusar a pagar pensão alimentícia aos filhos. No segundo turno, em 19 de dezembro, Boric venceu com 55,87% dos votos, graças ao aumento da participação eleitoral de 47% para 56%, impulsionado sobretudo pelo voto dos setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-128743" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Pinera-chile.jpg" alt="" width="980" height="551" />A figura de Boric havia emergido no movimento pela gratuidade do acesso ao sistema universitário em 2011. Junto à comunista Camila Vallejo e a Giorgio Jackson, da Frente Ampla, Boric fazia parte de uma geração política de elite no Chile, cujos membros se destacaram como figuras responsáveis e pacifistas, em oposição às práticas de ação direta dos coletivos anarquistas e insurrecionalistas, que no Chile têm uma forte presença especialmente entre estudantes do ensino médio das escolas das periferias urbanas.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória política de Boric, assim como o seu governo, passou por um deslocamento constante à direita. Para vencer o segundo turno das eleições presidenciais, Boric moderou suas posições, e uma vez eleito nomeou o neoliberal Mario Marcel para o Ministério da Economia e vinculou o debate sobre reformas à negociação parlamentar, descartando qualquer apelo à mobilização social. Dado que sua base parlamentar original — a aliança entre a Frente Ampla e o Partido Comunista — havia obtido pouco mais de um quarto dos assentos, Boric passou a depender do apoio dos partidos da esquerda neoliberal, como o Partido Socialista (PS), a Democracia Cristã (DC) e o Partido pela Democracia (PPD), cujo peso se tornou cada vez mais central também dentro do próprio governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de se apresentar como defensor da aprovação da nova Constituição que estava sendo elaborada naquele período pela Convenção, desde o início do mandato, em março de 2022, o governo Boric não fez senão obstaculizar o processo constituinte, que já se encontrava em crise por dinâmicas próprias. Isso ocorreu tanto por escolhas políticas estruturais que iam na direção oposta às reivindicações expressas no <em>estallido social</em>, quanto por erros grosseiros decorrentes da total inexperiência política da classe dirigente que chegou ao governo com ele. A soma desses fatores — frequentemente entrelaçados — acabou não apenas comprometendo a nova Constituição, mas também facilitando, quatro anos depois, a chegada da direita neo-pinochetista ao Palácio da Moneda.</p>
<p style="text-align: justify;">Apenas quatro dias após a posse do governo, a nova ministra do Interior, Izkia Sassen — que, como presidenta do Colégio Médico, havia se destacado pelo bom trabalho no enfrentamento da pandemia e havia feito campanha por Boric — decidiu entrar no território mapuche de Temucuicui, na região da Araucania, sem diálogo prévio com as autoridades locais. Sua delegação foi recebida com barricadas, um veículo incendiado e disparos de armas de fogo, sendo forçada a evacuar a área. No entanto, o erro mais grave cometido pelo governo foi, sem dúvida, a recusa em permitir o quinto saque dos fundos das AFP. As AFP (Administrações de Fundos de Pensão) são entidades financeiras encarregadas de gerir integralmente as aposentadorias dos chilenos, em um sistema previdenciário totalmente privatizado desde o governo Pinochet. Durante a pandemia, sob pressão da oposição, o governo Piñera havia aceitado permitir quatro retiradas dos valores mensalmente confiscados dos salários pelas AFP. Uma vez no governo, Boric recuou e bloqueou novos saques, justificando a decisão com a necessidade de proteger a economia de pressões inflacionárias. Essa decisão contribuiu para reduzir rapidamente o apoio popular ao governo, que se manteve em torno de 38% durante os meses que antecederam o plebiscito final da Constituição — um resultado idêntico ao percentual obtido pelo voto favorável à nova Carta no plebiscito de 4 de setembro (38,1% para o <em>Apruebo</em> contra 61,9% para o <em>Rechazo</em>). Durante toda a campanha eleitoral do referendo constitucional, além disso, Boric contribuiu para deslegitimar os trabalhos da Convenção ao assegurar que, após a eventual aprovação do texto, seria aberta uma discussão sobre correções a serem feitas na Carta.</p>
<p style="text-align: justify;">Considerada por muitos como estrondosa, a derrota no referendo de 4 de setembro foi objeto de inúmeras interpretações. Segundo <a class="urlextern" title="https://lalineadefuego.info/sergio-grez-tras-la-victoria-del-rechazo-chile-seguira-viviendo-una-especie-de-reforma-constitucional-permanente/" href="https://lalineadefuego.info/sergio-grez-tras-la-victoria-del-rechazo-chile-seguira-viviendo-una-especie-de-reforma-constitucional-permanente/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o historiador Sergio Grez</a>, as causas da vitória do <em>Rechazo</em> são certamente complexas, sobretudo “porque não houve um único <em>Rechazo</em>, mas múltiplos <em>rechazos</em>, ou seja, diversas razões que, somadas, constituíram uma esmagadora maioria de rejeição ao texto proposto”. Entre os motivos apontados, destaca-se o voto de castigo contra o governo Boric e suas políticas de continuidade neoliberal, a rejeição do desempenho da Convenção Constitucional — e de alguns convencionais em particular — e uma reação conservadora de amplos setores da população, sobretudo das classes populares, diante de propostas como o Estado plurinacional, o direito ao aborto aparentemente sem limites, além das já mencionadas polêmicas em torno da chamada “linguagem inclusiva”. A questão da plurinacionalidade, em especial, proposta pelos convencionais com o objetivo de imitar as constituições equatoriana de 2008 e boliviana de 2009, deu margem a uma série de alertas sobre o risco de “desintegração” da unidade nacional (habilmente explorados pela campanha da direita); não levou em conta a especificidade da presença indígena no Chile, muito menor em termos absolutos e muito mais concentrada geograficamente em algumas regiões; e foi contestada também por amplos setores do próprio movimento mapuche, como a histórica Coordinadora Arauco Malleco (CAM), que boicotou os trabalhos da Convenção ao reivindicar uma independência política plena em relação ao Estado chileno.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140958" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1.jpg" alt="Kast e a bolsonarização da política chilena" width="900" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />De modo geral — argumenta Grez — todos os temas baseados em questões identitárias (ambientalismo, feminismo, plurinacionalidade, regionalismo e “territórios”) não geraram adesão para além dos respectivos “nichos” que haviam possibilitado a eleição de alguns convencionais. Em contraste com a hiperabundância de temas identitários, as questões relacionadas aos trabalhadores e à sua relação com o capital ocuparam um papel marginal: dos 388 artigos, apenas seis eram dedicados a esses temas. Isso refletia também a própria composição da Convenção, formada majoritariamente por advogados e jovens profissionais, com ausência quase total de dirigentes sindicais ou pessoas oriundas dos setores populares. Tudo isso foi habilmente explorado pela propaganda do <em>Rechazo</em>, a partir da qual se construiu uma campanha de <em>fake news</em> que muitos apoiadores do governo apontam como causa principal da derrota. No entanto, para Grez, o fator decisivo do fracasso do projeto de nova Constituição foi o fato de que ela não representava uma ruptura com a ordem neoliberal, nem garantia as reivindicações mais sentidas que emergiram na rebelião de outubro. Com efeito, “embora o texto redigido pela Convenção Constitucional proclamasse direitos como saúde, educação, moradia e seguridade social, entre muitos outros, ele não os assegurava, pois não incluía nenhuma norma que permitisse seu financiamento (como a nacionalização dos recursos naturais, expressamente descartada pelos convencionais)”. Por fim, um motivo frequentemente apresentado para explicar o amplo voto no <em>Rechazo</em> foi a decisão do governo — iludido pelo aumento da participação eleitoral no segundo turno presidencial que lhe garantiu a vitória contra Kast — de introduzir o voto obrigatório no Chile, com a previsão de multas elevadas para quem não comparecesse às urnas, levando muitos eleitores a votar pelo “não” como forma de reagir a essa imposição, punindo o governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo após o plebiscito, os partidos acordaram um novo processo constitucional, com um Conselho Constitucional eleito pela cidadania, porém sem possibilidade de candidaturas independentes, e acompanhado por um comitê de especialistas. Nas eleições para definir esse Conselho, a extrema direita saiu vitoriosa, com o Partido Republicano conquistando 22 das 50 cadeiras em disputa. Como consequência, o texto constitucional produzido por essa nova assembleia era ainda mais à direita do que a própria Constituição pinochetista vigente. No entanto, em um segundo plebiscito, realizado em dezembro de 2023, os chilenos rejeitaram novamente (55,7%) essa segunda proposta, encerrando — ao menos por ora — as tentativas de mudança constitucional e mantendo em vigor a Constituição de 1980.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O longo crepúsculo do governo Boric</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com a derrota no referendo, o governo Boric entrou precocemente em uma longa fase crepuscular, renunciando explicitamente a qualquer tentativa — ainda que mínima — de transformação social, e concentrando-se na estabilização e na normalização do país. Ao longo dos quatro anos de mandato, o Executivo não apresentou nenhuma iniciativa de relevo que o diferenciasse dos governos anteriores. Além disso, os setores da ex-Concertación conquistaram, no dia seguinte ao plebiscito, cada vez mais espaço dentro do governo, a começar pela nomeação, em setembro de 2022, de Carolina Tohá (PPD) para o Ministério do Interior, em substituição a Izkia Siches.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez o que mais revele esse deslocamento à direita seja a mudança de postura em relação aos <em>Carabineros</em>. Se antes de ser eleito Boric afirmava que era urgente uma “refundação” dessa corporação — que no Chile goza, aliás, de enormes privilégios econômicos e políticos desde a ditadura —, após a eleição passou a falar de “reforma” e, uma vez empossado, a manteve totalmente inalterada. A ponto de que, enquanto o próprio Piñera havia afastado 29 generais por atos de corrupção, Boric não substituiu sequer um. Como argumenta <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/o-chile-e-a-pedagogia-das-derrotas/" href="https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/o-chile-e-a-pedagogia-das-derrotas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gabriel Teles</a>, durante o governo Boric foram aprovadas dezenas de leis voltadas à segurança pública, leis que aumentaram penas, limitaram ocupações, reforçaram as atribuições policiais e endureceram o tratamento penal dos protestos. Ao mesmo tempo, nos territórios mapuche, o estado de exceção e a militarização foram mantidos e renovados repetidas vezes, com operações policiais letais, detenções preventivas prolongadas e continuidade da criminalização da luta territorial. Segundo Grez, Boric chegou inclusive a tentar algo que nem mesmo o governo Piñera havia ousado fazer: promover um projeto de lei para que as forças armadas pudessem vigiar a chamada “infraestrutura crítica” sem necessidade de solicitar ao Parlamento a autorização do Estado de Emergência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158451" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.png" alt="" width="512" height="325" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.png 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed-300x190.png 300w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />Essa posição do governo contribuiu para criar uma verdadeira fissura entre o Executivo e os setores sociais que haviam sido protagonistas do <em>estallido</em>. Um episódio menor, e até ridículo, é demonstrativo dessa distância afetiva e simbólica: em maio de 2024, entrevistado sobre a figura do <em>perro matapacos</em> (“cão mata-policiais”) — um cachorro preto que estava na linha de frente de todas as manifestações, com um lenço vermelho no pescoço, e que se tornou um símbolo contra a repressão durante a revolta —, Boric o qualificou como uma figura <a class="urlextern" title="https://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2024/05/02/presidente-boric-sobre-imagen-del-perro-matapacos-es-burda-ofensiva-y-denigrante/" href="https://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2024/05/02/presidente-boric-sobre-imagen-del-perro-matapacos-es-burda-ofensiva-y-denigrante/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“ofensiva e denegrinte”</a>. Essa distância entre o governo e as ruas tornou-se totalmente evidente em 11 de setembro de 2023, durante a manifestação pelos 50 anos do golpe de Estado de Pinochet, quando, para que os membros do governo pudessem marchar sem sofrer contestações, o centro de Santiago foi completamente militarizado, proibindo-se o acesso de quase todos os manifestantes à Alameda central, reservada apenas a militantes de partidos e organizações de direitos humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano das reformas que, segundo as promessas iniciais do governo, deveriam contribuir para superar o modelo neoliberal, os resultados efetivos foram extremamente limitados. No início de 2023, o projeto de uma reforma tributária progressiva — uma das principais promessas econômicas do governo — foi rejeitado pela Câmara dos Deputados e rapidamente arquivado. O principal êxito do governo foi a aprovação de uma reforma trabalhista limitada, que permite introduzir, até 2028, a jornada semanal de 40 horas, em substituição às atuais 45, mas que não altera em nada os (escassos) direitos e as (precárias) condições de trabalho. A outra reforma que avançou foi a do sistema previdenciário, que não altera a gestão privada das aposentadorias pelas AFP, mas busca introduzir alguns benefícios solidários, com atenção à compensação de gênero e aos anos de contribuição. Ambas as reformas tiveram como principal articuladora a ministra do Trabalho, Jeannette Jara, do Partido Comunista, que depois foi escolhida nas primárias do centro-esquerda como candidata presidencial, sendo derrotada por Kast. Em sentido oposto a esses tímidos avanços, o governo ratificou, no final de 2022, o tratado de livre comércio transpacífico TPP-11, duramente criticado pelo próprio Boric quando ainda era deputado.</p>
<p style="text-align: justify;">Abundantes, por outro lado, foram os <a class="urlextern" title="https://www.theclinic.cl/2025/12/14/la-serie-de-errores-que-cometio-el-gobierno-de-gabriel-boric-que-pavimento-el-camino-para-la-holgada-victoria-de-su-antiguo-rival-republicano/" href="https://www.theclinic.cl/2025/12/14/la-serie-de-errores-que-cometio-el-gobierno-de-gabriel-boric-que-pavimento-el-camino-para-la-holgada-victoria-de-su-antiguo-rival-republicano/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">escândalos que envolveram a administração Boric</a> ao longo do mandato e contribuíram para desgastar sua imagem. Em junho de 2023, foi aberta uma investigação sobre mais de 50 fundações ligadas a políticos do campo governista por desvio de recursos públicos da ordem de 100 milhões de dólares, enquanto uma interceptação telefônica revelava o envolvimento do próprio presidente no caso. Em julho de 2023, veio à tona um furto no Ministério do Desenvolvimento Social, no qual os ladrões se fizeram passar pelo ministro Giorgio Jackson, braço direito de Boric. O escândalo foi enorme e levou à renúncia do ministro. Em janeiro de 2024, foram reveladas uma série de reuniões — não registradas na plataforma de lobby — realizadas na casa do político de direita Pablo Zalaquett, entre os ministros do Trabalho, do Meio Ambiente e da Economia com empresários das AFP e da indústria do salmão. Em fevereiro de 2024, um incêndio devastador destruiu milhares de moradias na Região de Valparaíso e causou centenas de mortes e, embora o desastre não tenha sido responsabilidade direta da administração, quase dois anos depois registra-se apenas cerca de 50% de avanço na reconstrução habitacional, com mais de 2.500 moradias em construção ou ainda por iniciar as obras.</p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2024, dois verdadeiros terremotos atingiram o governo, sobretudo no plano simbólico. O primeiro envolveu uma de suas principais bandeiras de luta: o feminismo. Em 17 de outubro, o jornal <em>La Segunda</em> publicou que o subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, enfrentava uma denúncia por abuso sexual. Tanto Carolina Tohá quanto o próprio Boric tinham conhecimento do caso há dois dias, mas não tinham tomado providências, enquanto a ministra da Mulher, Antonia Orellana, e a porta-voz do governo, Camila Vallejo, foram mantidas à margem da situação. O segundo escândalo envolveu nada menos que o nome de Salvador Allende. No fim de 2024, o Estado decidiu comprar a casa de Allende para transformá-la em um museu, mas estourou um escândalo porque entre os proprietários havia uma ministra (Maya Fernández Allende, neta do ex-presidente socialista), algo proibido pela Constituição chilena. Isso levou à renúncia da ministra dos Bens Nacionais, Marcela Sandoval, à perda do mandato da senadora Isabel Allende, filha de Salvador Allende e envolvida na operação, e ao depoimento do próprio Boric perante a Justiça.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto de desgaste do governo e de refluxo das mobilizações sociais, o crescimento da extrema direita — já visível desde a derrota do primeiro plebiscito constitucional e das eleições para o segundo projeto de nova Constituição — consolidou-se, apoiando-se em um deslocamento da atenção midiática das questões relativas ao modelo econômico-social para temas como segurança e imigração. De fato, a imigração no Chile, que nos anos 2010 havia registrado um aumento de haitianos, colombianos e peruanos, facilitado por uma série de leis permissivas do Estado chileno, cresceu de forma significativa a partir de 2017-2018 com o forte fluxo de venezuelanos após o início da crise econômica no país caribenho. Esse fluxo aumentou ainda mais depois da pandemia, levando a uma crise humanitária em 2023 na fronteira com o Peru e a um aumento da percepção de insegurança nas principais cidades chilenas, amplamente explorado pela propaganda da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Como analisou Andrés Kogan Valderrama no <a class="urlextern" title="https://avispa.org/triunfo-de-kast-del-cambio-de-epoca-al-retorno-conservador-en-chile/" href="https://avispa.org/triunfo-de-kast-del-cambio-de-epoca-al-retorno-conservador-en-chile/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Avispa Midia</a>, “essas eleições se desenvolveram em um clima político fortemente orientado para a ultradireita, no qual discursos repressivos em matéria de segurança — ao estilo Bukele —, a criminalização da migração — ao estilo Trump — e a ideia de que o setor público é intrinsecamente corrupto — ao estilo Milei — penetraram profundamente na sociedade chilena; por isso, a ideia de um governo de emergência liderado por José Antonio Kast ganhou força”. Os resultados das eleições presidenciais de 2025 são representativos desse novo clima político: no primeiro turno, em 16 de novembro, atrás de Jeannette Jara — candidata de todo o campo governista, que obteve apenas 26,8% dos votos — ficaram, em sequência, Kast com 23,9%, Parisi com 19,7%, Johannes Kaiser (autoproclamado “reacionário” e “paleolibertário”, protagonista em 2024 de uma cisão ainda mais à direita do Partido Republicano, com a fundação do Partido Nacional Libertário) com 13,9%, e a candidata da direita tradicional, Evelyn Matthei, com 12,5%. No segundo turno, em 14 de dezembro, os votos dos três últimos se transferiram majoritariamente para Kast, permitindo-lhe uma vitória histórica de 58,8%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2019-25: resiliência neoliberal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se agora afastarmos o olhar da rígida cronologia dos fatos que levaram à transformação de um símbolo — a dignidade — no seu oposto — Colônia Dignidade —, podemos tentar elaborar algumas hipóteses sobre as razões de uma tão clamorosa reviravolta. Me limito a considerar três questões fundamentais: a resiliência neoliberal dentro e para além do <em>estallido</em> chileno, a função reacionária desempenhada pelo reformismo da Frente Ampla e do governo Boric, e o fechamento dramático do horizonte revolucionário nas práticas e nos conteúdos da revolta de 2019. Todos esses elementos, a meu ver, não são de forma alguma exclusivos do Chile, mas representam, talvez neste caso de maneira mais paradigmática do que em outros, o cenário atual — o “espírito do tempo”? — em várias partes do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um artigo publicado em 2019, logo após a vitória eleitoral de Bolsonaro, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">um grupo de militantes brasileiros</a> perguntava-se como era possível que, cinco anos após a maior revolta social da história do Brasil, com reivindicações populares como a redução do custo do transporte público, a defesa dos territórios e a exigência de melhorias na educação e na saúde, quem tivesse colhido politicamente os frutos desse movimento fosse um <em>outsider</em> de extrema direita nostálgico da ditadura militar. Segundo esses militantes, “Jair Bolsonaro é um nome impreciso, mas potente, porque foi capaz de combinar a escalada repressiva com a rebeldia social liberada em 2013”. Nesse sentido, Bolsonaro — mas aqui podemos traçar um paralelismo com Kast —, após o refluxo da revolta, soube interpretar ao mesmo tempo uma frustração popular difusa, que havia sido um elemento importante do <em>estallido</em>, e uma demanda igualmente difundida por ordem, segurança e “normalidade”, que estava na base das exigências de repressão dessa mesma revolta. Nesse sentido, Kast conseguiu, desde 2019, apresentar-se como o candidato mais intransigente contra a rebelião popular, mas ao mesmo tempo manter seu perfil radical, de outsider, que foi capaz de captar, não necessariamente de maneira entusiasmada, mas às vezes como “mal menor”, uma parte do descontentamento social que não havia sido convencida por uma proposta ideológica de esquerda e que acabou frustrada em relação ao governo de Gabriel Boric.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128740 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/191024000948-01-chile-protests-1022-large-169.jpg" alt="" width="460" height="259" /></p>
<p style="text-align: justify;">Um dos slogans mais comuns surgidos durante o período do <em>estallido</em> foi a ideia de que ”<em>Chile despertó</em>”. Seria fácil dizer que o Chile parecera ter logo voltado a adormecer. Talvez uma chave para essa sonolência esteja no profundo enraizamento da racionalidade neoliberal na sociedade chilena, um enraizamento que, no calor da revolta de 2019, talvez tenha sido subestimado. Em um artigo publicado após as eleições, <a class="urlextern" title="https://www.turno.live/el-chile-que-no-voto-por-la-izquierda" href="https://www.turno.live/el-chile-que-no-voto-por-la-izquierda" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Nelson Alvear</a> relativiza o consenso antineoliberal que emergiu no Chile após o <em>estallido</em> social. Para ele, fora do núcleo duro de movimentos, coletivos e comitês militantes formados na década anterior — do movimento estudantil dos “pinguins” em 2006 à luta pela gratuidade universitária em 2011, passando mais recentemente pelas grandes manifestações feministas e pelo movimento No+AFP —, “existe um outro Chile, ainda mais amplo: um país que não foi politizado pelas mobilizações estudantis nem pelo discurso antineoliberal, mas que acreditou sinceramente no relato do progresso individual. Para esses setores, o problema não é o mercado como princípio, mas o seu fracasso prático: salários insuficientes, serviços públicos deficientes, insegurança cotidiana. Daí o apoio a candidaturas &#8216;antissistema&#8217;, como a de Franco Parisi: expressões difusas de mal-estar que não oferecem um projeto, mas que marcam uma distância radical em relação à política tradicional”. Segundo Alvear, a rejeição da nova Constituição e o posterior deslocamento eleitoral para a direita “não expressam uma adesão entusiasmada ao conservadorismo, mas sim uma punição. Uma mensagem clara: a esquerda não soube falar com esse Chile majoritário. O problema não foi apenas político, mas também cultural. Uma parte da esquerda falou a partir de uma posição de incômoda superioridade moral, colocando em questão aspirações materiais elementares — ordem, estabilidade, segurança — como se fossem valores menores ou reacionários”.</p>
<p style="text-align: justify;">A resiliência do neoliberalismo tem a ver com o caráter de “racionalidade” deste último, que — como argumenta a teoria foucaultiana — o torna algo muito mais profundo do que uma simples ideologia ou um conjunto de dogmas e políticas específicas. A profundidade dessa racionalidade foi evidenciada pelo livro <em>Realismo Capitalista</em>, de Mark Fisher, que analisa a percepção difundida segundo a qual o capitalismo não é apenas o sistema dominante, mas é percebido como o único possível. Para Fisher, o capitalismo apresenta-se como natural e inevitável, produzindo, por meio de um complexo sistema de dispositivos de medo, avaliação constante e precariedade, uma subjetividade individualista que tende a se opor e a neutralizar visões alternativas que busquem enfrentar os problemas sociais e psíquicos que ele provoca a partir de uma perspectiva sistêmica e não individual. O resultado é que, embora o sistema econômico — baseado em um constante processo de destruição criativa — não possa deixar de produzir crises sociais contínuas, torna-se cada vez mais provável que essas crises sejam enfrentadas com uma demanda por mais neoliberalismo, competitividade e mérito. Nesse contexto, eventos como o <em>estallido</em> social podem, de fato, interromper por um momento a lógica individualista dominante e — na ruptura radical com a ordem política e com o fetiche da mercadoria, assim como na constituição de embriões de formas organizativas coletivas — criar prefigurações de uma possível sociedade alternativa; mas, sem a capacidade de se enraizar e de durar no tempo, para além do momento explosivo e efêmero da revolta, essa lógica tende inevitavelmente a se reafirmar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Progressismo como reação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a que se deve a incapacidade desse “outro mundo possível”, surgido no <em>estallido</em>, de se enraizar, de se tornar uma nova hegemonia? Provavelmente as razões são muitas, mas gostaria de me concentrar aqui na função reacionária desempenhada pelo reformismo, tanto antes quanto durante o governo de Gabriel Boric. Em oposição à vulgata comum, no marxismo tradicional, de um fascismo entendido como instrumento da burguesia para esmagar uma revolução nascente, João Bernardo argumenta que o sucesso do fascismo sempre ocorreu não diretamente “contra”, mas “depois” da liquidação das forças revolucionárias pela ordem política existente, afirmando-se como alternativa “antissistema” (uma “revolta na ordem”) no contexto de desilusão e refluxo gerado pelo fracasso da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pensarmos na história do fascismo — se de fato aceitarmos mobilizar esse paralelo discutível para descrever hoje a plataforma política de Kast no Chile — e, mais recentemente, em algumas experiências da extrema direita contemporânea, podemos identificar a sucessão cronológica proposta por Bernardo. Tanto o fascismo quanto o nazismo emergiram — de maneira mais ou menos rápida — no refluxo do Biênio Vermelho de 1919-20, na Itália, e da revolução espartaquista e da breve experiência da República Soviética da Baviera, na Alemanha — sendo que, neste segundo caso, a repressão foi inclusive orquestrada pelo governo social-democrata de Friedrich Ebert com o apoio das tropas paramilitares <em>freikorps</em>. Mais recentemente, são bastante emblemáticos o caso, já citado, do Brasil, e o dos Estados Unidos, onde Trump se afirmou, em 2016, no refluxo de um período de contestação social inaugurado em 2011 pelo Occupy Wall Street e prolongado em 2014 com o movimento Black Lives Matter. Em todos esses casos, antes da ascensão do fascismo, o levante social já tinha sido liquidado, seja pelo esgotamento da sua dinâmica interna como pelo trabalho sujo da elite liberal ou progressista no poder.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128742 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Chile-688x400.jpg" alt="" width="688" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;">Retomando o exemplo chileno, é possível argumentar que o <em>estallido</em> social de 2019 não foi derrotado pela extrema direita de Kast, mas pela ação do governo de Gabriel Boric — aclamado por muitos, de forma equivocada, como um aliado, senão um produto direto, da revolta social — à qual se somam uma série de fracassos estratégicos internos e uma boa dose de acaso e imprevisibilidade. Essa função “reacionária” do progressismo chileno manifestou-se tanto antes da chegada ao governo quanto durante os quatro anos de exercício do poder executivo, como podemos observar na sucessão de acontecimentos apresentada neste texto. <em>Antes</em>, o progressismo de Boric e da Frente Ampla salvou o sistema político (a queda iminente do governo Piñera era considerada altamente provável em novembro de 2019), freando a articulação entre motins urbanos e greve geral e permitindo canalizar as energias liberadas pela revolta para um percurso — tortuoso, desgastante e institucionalmente dirigido e limitado — de reforma constitucional. Nesse sentido, o início da hegemonia da extrema direita chilena não começou em 14 de dezembro de 2025, com a vitória eleitoral de Kast, nem em 4 de setembro de 2022, com a derrota do plebiscito constitucional, mas em 15 de novembro de 2019, quando Boric, setores da Frente Ampla, partidos da ex-Concertación e o governo Piñera assinaram o Acordo pela Paz e a Nova Constituição. Como argumenta Teles, com o processo constituinte e eleitoral, o conflito foi retirado do terreno em que produzia efeitos imediatos — a rua — e transferido para espaços onde tudo precisa ser convertido em linguagem jurídica, calendário político e negociação permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Durante</em> seu período de governo, por sua vez, Boric criou as condições para o retorno da extrema direita. Realizando reformas de fachada que, em vez de atacar o modelo econômico, o modernizaram; defendendo instituições chilenas em crise de legitimidade, em primeiro lugar o Exército e os <em>Carabineros</em>; cooptando uma parte dos movimentos sociais e reprimindo com força os setores não alinhados, militarizando a Araucania contra a insurgência mapuche e garantindo um novo marco legal para a proteção das infraestruturas estratégicas; e mostrando constantemente, por meio de uma série interminável de escândalos, o profundo nível de corrupção e de cumplicidade com a classe empresarial da nova geração progressista no poder. Segundo Teles, a experiência chilena deixa uma lição desconfortável: “o progressismo não é uma etapa intermediária rumo à ruptura. Ele é, muito frequentemente, o mecanismo que impede que a ruptura avance. Governar uma crise estrutural sem enfrentá-la significa estabilizá-la em favor da ordem existente”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Revoltas sem revoluções</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o progressismo representou uma barreira fundamental ao <em>estallido</em> social, se conseguiu deslocar as energias da rua para um caminho controlado e desgastante como o processo constituinte, chegando inclusive a cooptar muitas assembleias territoriais para reprimir com maior facilidade os setores mais radicais, isso não significa, contudo, que a revolta expressa em 2019 não tivesse limites próprios que a impediram de superar essas barreiras: de evitar a cooptação, o isolamento, a repressão e, em última instância, de não permitir que a raiva social fosse canalizada para propostas populistas e de direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Se aceitarmos a ideia de que as revoltas tendem a proliferar no capitalismo global a partir de ciclos, influenciando-se mutuamente nas práticas, nos símbolos e nos objetivos, é fácil enquadrar o <em>estallido</em> social chileno em um segundo ciclo de tumultos globais que se seguiu à grande crise de 2008. Após uma primeira fase de insurreições e proliferação de lutas anti-austeridade, que viu a rápida sucessão, em 2011, das primaveras árabes, dos <em>indignados</em> espanhóis, do Occupy Wall Street, das insurgências sociais na Grécia e, depois, em 2013, na Turquia e no Brasil, um novo ciclo parece ter se aberto em 2018 com o movimento dos coletes amarelos na França, a insurreição no Sudão e a luta pela independência de Hong Kong, para no ano seguinte deslocar seu epicentro para a América Latina com as revoltas no Equador, na Colômbia e, justamente, no Chile. A essa lista poderíamos acrescentar uma série de outros casos, além de considerar que, em 2025, com a chamada Geração Z, já se fala em um novo ciclo de revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um artigo recente, <a class="urlextern" title="https://illwill.com/revolts-without-revolution" href="https://illwill.com/revolts-without-revolution" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Adrian Wohlleben</a> sustentou que o que mais caracteriza a nossa época é o fato de se tratar de um período rico em tumultos e insurreições globais que foram incapazes de encontrar uma bússola estratégica que conduzisse à revolução. Em um contexto de crise estrutural do capitalismo neoliberal, no qual a violência e as relações de força substituem cada vez mais o crescimento econômico como principal motor das dinâmicas globais, as revoltas contemporâneas, embora difundidas e por vezes espetaculares, também geraram novas formas de auto-organização e autonomia, mas permaneceram incompletas, detendo-se muitas vezes na simples denúncia da corrupção ou da austeridade, sem enfrentar a própria estrutura do capitalismo, e acabando por deixar espaço para um retorno negociado ao <em>status quo</em>. De fato, não é difícil imaginar que, se essas revoltas tivessem ocorrido — com o mesmo grau de participação, violência e capacidade de bloqueio dos fluxos produtivos — em um período anterior aos anos 1970, ou ao menos antes de 1989, provavelmente teriam desembocado em revoluções políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez pela potência simbólica de ter sido o laboratório das políticas neoliberais em escala global, o Chile entusiasmou muitas pessoas no final de 2019 quanto à possibilidade de também ser o país capaz de reinventar um caminho para a revolução. Provavelmente, o bloqueio do pensamento estratégico revolucionário revelou-se, ao contrário, como outra face da resiliência do neoliberalismo, aquela síndrome do realismo capitalista que nos torna mais fácil, como dizia Mark Fisher, imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Por outro lado, não é surpreendente constatar que o amplo movimento anarquista e radical chileno — crescido no proletariado juvenil durante os trinta anos de frustração com os governos do período pós-democratização — pratique uma prática política fortemente niilista e estética, resumível no conceito, proposto pelo coletivo Vitrina Dystópica, de “subjetividade ACAB (<em>All Cops Are Bastards</em>)”. Trata-se de um movimento que produziu uma enorme capacidade de ruptura do consenso, mas também um impasse estratégico quando foi chamado a dar uma resposta à altura do desafio revolucionário. Um exemplo disso foi a total incapacidade daqueles setores que se opunham ao Acordo de 15 de novembro de 2019 de propor um caminho de luta sério que fosse alternativo ao processo constituinte em curso. O Chile que, no início dos anos 1970, havia sido tomado como modelo de um experimento revolucionário de tipo novo — que ao mesmo tempo em que recusava o modelo da ditadura do proletariado ou do totalitarismo burocrático dos socialismos reais, era dinamizado por processos inovadores de construção de poder popular — representa hoje, de maneira exemplar, o curto-circuito histórico de um capitalismo cada vez mais destrutivo, que alterna continuamente progressismos cada vez mais limitados e fascismos cada vez mais audazes, e uma incapacidade constante de transformar a revolta em revolução.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/01/158450/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Alienista de Washington</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158393/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/12/158393/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 12:18:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158393</guid>

					<description><![CDATA[ A pergunta que fica é: porque o problema da estagnação da maior economia do planeta continua? Por Charles júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">Era um efervescente outubro de 1881 na capital do Império tupiniquim, em meio a um novo sistema eleitoral, debates abolicionistas e manifestações nas ruas. O Império estava ruindo. Já no Morro do Livramento, centro da cidade, Machado de Assis expressara o sentimento do imperador através do conto O Alienista <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto, Dr. Simão Bacamarte decide internar todos que considerava loucos. Chegando a querer internar a cidade inteira, exceto a si próprio. No final das contas, ou todos estavam loucos ou só ele seria o desajustado. Mais uma vez, a arte expressava a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Convenhamos, comparando com os acontecimentos da política mundial contemporânea seu conto seria bem menor que a realidade. Nos EUA, nosso amigo laranja vem matando a pau nas taxações de pessoas, países (empresas concorrentes) e políticos. Para alguns o pato estaria insano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, esta é a forma como aparecem as atitudes de Trump e também nos mostra a limitada capacidade de observação do mundo pela esquerda democrática e outros reformadores sociais, os adeptos de que apenas a forma em sua simplicidade revela a totalidade das relações sociais (se fosse assim o papel da ciência seria nulo) <strong>[2]</strong>. Por isso, importam mais os escândalos pessoais, os berros e o teatro do que as intrínsecas relações na luta de classes mundial. <a class="urlextern" title="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" href="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Já nos avisava nosso amigo Zé</a>: “depois do <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">período macarthista</a> nos EUA [e no ocidente] a política tornou-se apenas uma monótona sucessão de fofocas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Inversamente, em nosso último material demonstramos que Trump foi um cadim melhor sucedido que seu antecessor, o decrépito Biden; que as tarifas são utilizadas de tempos em tempos nos EUA e Trump é sim a aposta da classe dominante estadunidense — sempre tendo em vista que o Capital é global, mas a burguesia é nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que fica é: mesmo taxando boa parte das economias do mundo, mandado a polícia intervir em cidades importantes, demitindo trabalhadores do Estado em massa (junto a eles a chefe de estatísticas do Departamento do Trabalho), mediando guerras, explodindo barquinhos e ameaçando <a class="urlextern" title="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" href="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">invadir a Venezuela</a>, brigando e desbrigando com gregos e troianos porque o problema da estagnação (e da ingovernabilidade) da maior economia do planeta continua?</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, onde está seu voo de condor na maior economia do planeta Sr Bacamarte?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158395" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png" alt="" width="984" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png 984w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-300x200.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-768x511.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-631x420.png 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-640x426.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-681x453.png 681w" sizes="auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px" />Para finalizar essa introdução, no conto machadiano, Dr. Bacamarte acaba descobrindo que o louco era ele próprio e determina sua própria internação. Na vida real, nosso Alienista de Washington também está tendo um momento de lucidez.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As razões do irracional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo o irracional tem sua racionalidade. Trump incorporou Dr. Bacamarte não à toa, no atual ciclo econômico ele enfrenta um contexto de economia estacionária , sem os mesmos instrumentos dos ciclos econômicos anteriores para se defender, pois a economia dos EUA tem graves problemas de dívida pública, déficit orçamentário e da conta-corrente. Problemas esses herdados das saídas das crises anteriores, restou a Trump, como diz o jargão “trocar a roda com o carro andando”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Side note</em>: a bola de neve que Trump enfrenta hoje se inicia com a chamada crise das empresas ponto.com, na virada do milênio. Esta marca um ponto importante para nós — naquele ano tivemos a volta das crises econômicas similares às que ocorriam no período anterior a segunda guerra mundial, desde então, a cada nova crise cíclica, a próxima é sempre pior.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, as tentativas de fugas clássicas para o estado atual da economia americana vêm de longa data. No entanto, agora nada parece funcionar. Guerras, comerciais e bélicas, caça às bruxas com o ICE e injeção de bilhões no mercado para segurar a chegada do urso em Wall Street.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso havia segurado a pletora de capital no coração do sistema, mas em alguma parte ela sempre estoura. E quem está pagando o pato (sic) desta vez são os derrotados da guerra da Ucrânia, a Alemanha e o resto da OCDE <strong>[3]</strong>. A corrida armamentista que <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">adiantamos em junho</a> é um sinal da possível derrocada do bloco europeu: tende a retirar direitos, intensificar a exploração dos trabalhadores, aumentar impostos e rasgar dinheiro para tentar segurar seu declínio.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos EUA, tivemos <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a maior paralisação do Estado Americano na história</a>. <strong>“Ele ocorreu pela falta de acordo entre Republicanos e Democratas no Senado, que precisa de três quintos dos votos da Casa para avançar em matérias relativas ao orçamento.”</strong> Paralisou boa parte da máquina estatal estadounidense. Foi tão surpreendente que paralisou até nossa análise (risos). Os dados não foram publicados na data prevista, quiçá organizados ou metrificados pelas agências responsáveis. Mas agora saiu. Vamos a eles:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Indústria de Bens duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1">0.4</td>
<td class="col2">-1</td>
<td class="col3">-1.5</td>
<td class="col4">4.4</td>
<td class="col5">3.9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1">6.6</td>
<td class="col2">7.2</td>
<td class="col3">0.6</td>
<td class="col4">7.1</td>
<td class="col5">0.5</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1">3.2</td>
<td class="col2">3.5</td>
<td class="col3">0.3</td>
<td class="col4">4.1</td>
<td class="col5">0.9</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Indústria de Bens não duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1 centeralign">0.4</td>
<td class="col2 centeralign">0.2</td>
<td class="col3 centeralign">-0.1</td>
<td class="col4 centeralign">2.8</td>
<td class="col5 centeralign">2.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1 centeralign">-0.2</td>
<td class="col2 centeralign">-0.2</td>
<td class="col3 centeralign">0.0</td>
<td class="col4 centeralign">4.8</td>
<td class="col5 centeralign">5.0</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1 centeralign">1.9</td>
<td class="col2 centeralign">1.3</td>
<td class="col3 centeralign">-0.6</td>
<td class="col4 centeralign">5.1</td>
<td class="col5 centeralign">3.1</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;">No estado estacionário, os indicadores de produção e produtividade crescem em ritmos muito baixos, próximos de zero, a manufatura funciona a passos de siri, apenas pra não afundar. Porém, essa é uma situação que não pode durar muito tempo e é exatamente o problema que enfrenta a economia reguladora do sistema global.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano de 2024 a produtividade de manufatura de bens duráveis <strong>[4]</strong> cresceu míseros 0.4% e a produção ficou abaixo de zero, situação que observamos de maneira mais clara desde 2023. Porém, nos dois primeiros trimestres de 2025, os indicadores ficaram bem acima dos anos anteriores, como podemos ver na tabela 1. Produtividade e produção com robustos crescimentos! Muita atenção, como dizia o saudoso Silvio Luiz “OLHO NO LANCE!” O custo unitário do trabalho apresentou um crescimento bem abaixo do ocorrido nos últimos anos. Afinal, o que esses dados representam?</p>
<p style="text-align: justify;">Existem duas hipóteses em discussão: seria a elevação da produtividade, aumento da produção e diminuição do ritmo de crescimento do custo unitário um efeito da implementação da IA nas empresas e/ou seria apenas um VOO de galinha, um último suspiro antes do afundamento da economia reguladora. Em defesa da primeira hipótese temos vistos estudos e dados de empresas, como o resumo de um estudo do MIT <a class="urlextern" title="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" href="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">publicado na revista Exame</a>, que diz :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os pesquisadores identificaram duas camadas de risco. A parte mais visível, associada a demissões e mudanças em tecnologia e TI, responde por 2,2% da exposição salarial, cerca de US$ 211 bilhões. A maior parte está em funções rotineiras de RH, logística, finanças e administração, que somam o restante do total estimado.” (Tradução livre)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma publicação da Infomoney mostra que as demissões nos EUA aumentaram bastante em 2025, essa publicação cita o relatório da consultora de recursos humanos Gray &amp; Christmas, que diz: <strong>“Períodos anteriores com tantos cortes de empregos ocorreram durante recessões ou, como foi o caso em 2005 e 2006, durante a primeira onda de automações que custou empregos na manufatura e tecnologia.”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o estudo do MIT acima realmente se comprovar na prática, com a implementação da IA eliminando boa parte dos funcionários de RH, logística, finanças e administração implicará em eliminação de trabalhadores improdutivos e diminuição da composição orgânica do capital. Generalizando esse cenário em toda a manufatura, ocorrerá uma elevação da taxa de lucro <strong>[5]</strong>. Menos custos, maior produtividade e mais mais-valia para o capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria simples assim? Claro que não (risos). Aqui entra a parte sensível de nosso texto, pois a resposta para essas questões define todo o cenário que a classe trabalhadora enfrentará. Observamos que alguns dados melhoraram, os mais importantes do setor de ponta da economia dos EUA. Porém, estaremos atentos à evolução dos indicadores nos próximos trimestres.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos estar vendo a nova bolha da IA se manifestar antes da queda ou a elevação da produtividade sendo resultado da implementação da IA. Veremos a retomada da economia reguladora, uma exuberante expansão da produção e consequentemente o abafamento da luta de classes no centro do sistema, restando possibilidades de ruptura nos elos mais fracos, principalmente da periferia capitalista. Muito porque, em todo período de crise cíclica há queima de capital, seja onde for, há queima de capital (armamentos, cidades, fábricas, máquinas, rodovias, satélites, seja o que for que compõem o sistema produtivo global, capital fixo e variável &#8211; haverá queima).</p>
<p style="text-align: justify;">Caso o cenário de economia estacionária continue, nessa esteira teremos cada vez mais claro a velha dialética: aumento da ingovernabilidade, crise, guerras e revoluções!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Final note: A nova bolha, sic.</strong></em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com Paul Kedrosky, um VC de longa data atualmente na SK Ventures, a bolha de IA é como se cada bolha anterior fosse lançada em uma outra (?). Há o elemento imobiliário. Há o elemento tecnológico. E, cada vez mais, há estruturas de financiamento exóticas sendo colocadas em prática para financiar tudo. <strong>[6]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a farra de investimento insustentável. E depois, além disso, fala-se de resgates e apoios do governo. A velha corrida contra a queda da taxa de lucro em seu atual contexto. Quem viver, verá!</p>
<p style="text-align: justify;">Neste episódio, percorremos algumas das matemáticas que seriam necessárias para justificar todos esses gastos e como as apostas aparentemente existenciais de “ganhar a corrida da IA” estão causando uma farra de investimento insustentável. Para que lado vai a crise e quem vai estourar será decidido nos próximos passos dos sanguessugas globais.</p>
<p style="text-align: justify;">A possível derrocada da Alemanha (leia-se OCDE) pode se alastrar pelo globo como epidemia, imaginem nos EUA, seria avassalador. O laço no pescoço da burguesia está se apertando, esperamos que continue. Algumas revoltas e pontos isolados continuam a estourar: Bulgária, Ásia, e até Portugal teve uma grande greve por estes dias.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas de uma coisa nós (e nossos amigos do Sinuca de Bico) temos certeza:</p>
<p style="text-align: right;"><em>O dia em que o morro descer e não for carnaval</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Na entrada, rajada de fogos pra quem nunca viu</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Guerra civil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O povo virá de cortiço, alagado e favela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mostrando a miséria sobre a passarela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sem a fantasia que sai no jornal</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser uma única escola, uma só bateria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que desfile assim não vai ter nada igual</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nem autoridade que compre essa briga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém sabe a força desse pessoal </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a class="urlextern" title="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" href="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">(Wilson das Neves &#8211; O dia em que o morro descer e não for Carnaval)</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> A Revolta dos Malês , a Guerra dos Farrapos, a Revolta da Balaiada, as Revoltas Liberais e a Revolução Praieira foram algumas marcas do descontentamento popular no império de D Pedro II. Tendo a Revolta dos Malês conquistado o retorno a África.<br />
<strong>[2]</strong> A forma é a expressão necessária do conteúdo, a porta de entrada para a investigação. Necessária, mas o ponto de partida, não o fim.<br />
<strong>[3]</strong> Ao que tudo indica, analisaremos a situação da Alemanha e da OCDE no próximo boletim.<br />
<strong>[4]</strong> Trataremos do setor de bens duráveis pois é o motor da economia estadunidense. Na tabela 02 é retratado o setor de bens de consumo não duráveis. Este é a base da manutenção da força de trabalho: alimentos, bebidas, cosméticos, produtos de limpeza e vestuário, atendendo necessidades diárias e imediatas dos trabalhadores. Ou seja, força de trabalho futura.<br />
<strong>[5]</strong> “Este é o maior total para outubro em mais de 20 anos e o maior total para um único mês no quarto trimestre desde 2008. Assim como em 2003, uma tecnologia disruptiva está mudando o cenário”, <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">diz o relatório</a>.<br />
<strong>[6]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" href="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one</a></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/12/158393/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A centralidade do território</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158381/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/12/158381/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Dec 2025 13:15:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158381</guid>

					<description><![CDATA[Pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Por Thiago Canettieri
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p style="text-align: justify;">Em um texto já <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="noopener">clássico deste site</a>, Caio Martins e Leonardo Cordeiro refletem sobre a experiência do Movimento Passe Livre (MPL), já em um rescaldo de 2013, quando, definitivamente, a fervura entornou do caldeirão. Quem se lembra das ruas, já há mais de dez anos, sabe muito bem que ali era confronto — a imediatidade com que explodiam, os rojões de um lado e as balas de borracha de outro não deixam espaço para dúvidas. O conflito contra a tarifa do transporte público. Como notam, acertadamente, a natureza dessa luta em específico, diferentemente de “outros movimentos urbanos — de moradia, por exemplo — dificilmente ultrapassam o limite de sua ocupação ou bairro, nas lutas contra o aumento, a mobilização tem a tendência a tomar conta de toda a cidade, a se generalizar como revolta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para eles, a revolta — palavrinha-chave para compreender 2013 — se refere a “um processo de fôlego curto, mas explosivo, intenso, radical e descentralizado. As primeiras manifestações atuam como ignição de uma mobilização que extrapola o controle de quem a iniciou – que perde toda a capacidade de interrompê-la. Há uma escalada de ações diretas: ocupação massiva e travamento de importantes artérias da cidade, enfrentamento com a polícia, ataques ao patrimônio público e privado, saques”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os jovens militantes do MPL sabiam muito bem o que poderia acontecer quando lançavam a primeira marcha contra o aumento de 20 centavos. Uma manifestação pequena aqui, que explode e incendeia todo um país. Era essa a intencionalidade por trás da mobilização. Claro, não há ingenuidade em acreditar que a explosão ocorra espontaneamente — “depende quase sempre de um polo altamente organizado da luta, uma organização que elabora e formaliza seu sentido e lhe garante alguma coesão”, escrevem Caio e Leonardo.</p>
<p style="text-align: justify;">A medida que junho avança, a revolta esquenta o inverno brasileiro daquela longínqua data:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Greve geral, ocupação dos prédios públicos, tomada da cidade por barricadas em cada bairro, expropriação de frotas… eis alguns desdobramentos que o ascenso popular abria à imaginação às vésperas do anúncio da revogação do aumento. É precisamente a ameaça de um enorme salto organizativo dos trabalhadores que alarma a classe dominante – o “caos social” bate à porta e deve ser contido pelo governo, cedendo. A tática histórica das lutas contra o aumento, que aqui chamamos de “revolta popular”, aposta para seu sucesso nessa ameaça e, no entanto, depende, ao mesmo tempo, de que ela não se realize. Para conquistar a reivindicação central, a revolta deflagra um processo explosivo, que é necessariamente freado no momento em que se atinge a conquista.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a tática é eficiente, o salto organizativo já nasce castrado e vai existir apenas como vislumbre. A breve perda de poder sobre as ruas permite entrever outro poder, um poder popular, tão palpável quanto inalcançável naqueles dias. Ao existir justamente na tensão entre uma minoria altamente organizada e uma maioria não organizada, a revolta popular limita a si mesma. Pois, ao mesmo tempo que, na luta contra o aumento de São Paulo, a população agiu diretamente sobre sua vida, não é menos certo que existia um comando que decidia o que fazer. Se depois de junho uma parte da esquerda avaliou que o problema no processo era a carência de uma “direção revolucionária”, nos parece o contrário: nas revoltas contra o aumento, o que falta – e por isso se trata de revoltas – é horizontalidade, ou seja, poder direto dos que estavam nas ruas sobre o que estavam fazendo, algo que depende da existência de estruturas enraizadas no dia a dia dos trabalhadores.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta popular deve sair do controle — é nessa perda de controle que se permite conceber, pensar, sentir, viver uma transformação social, ainda que inconstante e muito breve. E, assim, junho passou; a revolta arrefeceu e foi administrada. Por um lado, forças repressivas aprenderam a dispersar as marchas, a destruir barricadas. Por outro lado, de dentro das revoltas, despontaram interesses partidários institucionais que colocaram essa energia para girar a máquina de disputa de votos. “Os protestos entram nos cálculos dos políticos, da imprensa e das seguradoras. A rua como fim em si mesma é um beco sem saída”. Dessa maneira, Caio e Leonardo apontam para o esgotamento da tática da revolta popular, não por deixar de existir, mas porque não foi possível ir além dela.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dizer que a tática histórica que aqui chamamos de “revolta popular” se esgotou não é, em nenhuma instância, decretar o fim da revolta – aquela atitude que há séculos pulsa entre os dominados. Ao contrário, esta nunca esteve tão presente: desde junho, a disposição à luta só cresceu. Mas o que construímos além dessa disposição? Milhões saíram às ruas e, de volta à casa, ao bairro, ao local de trabalho, voltaram à rotina de sofrimentos e humilhações (talvez um pouco mais indignados)? Embora tenha produzido ecos, o momento de mobilização não conseguiu ir além de si mesmo, não encontrou continuidade em um momento de organização.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alguns anos mais tarde, Francesc e El Quico escreveram<a href="https://passapalavra.info/2021/03/136271/" target="_blank" rel="noopener"> outro texto para este site</a> que ecoa as formulações apresentadas. Com um ano de pandemia e dois de governo Bolsonaro, os conflitos na sociedade brasileira se acumulavam. O trabalho urbano ganhava uma nova fisionomia, marcada agora pela<a href="https://blogdaboitempo.com.br/2020/07/30/breque-no-despotismo-algoritmico-uberizacao-trabalho-sob-demanda-e-insubordinacao/" target="_blank" rel="noopener"> gestão algorítmica do trabalho precarizado</a>, que aumentou na pandemia. E nesse cenário, Francesc e El Quico identificam que a esquerda se retirava do conflito &#8211; para eles, há nas fileiras da esquerda, um temor pelo conflito que acabam “imobilizando sua capacidade de imaginar conflitos que não terminem por voltar-se contra ela mesma”. Daí se deriva o caráter restauracionista do progressismo brasileiro, enquanto “os reacionários se tornaram progressistas no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro”, como escreve <a href="https://blogdaboitempo.com.br/2019/07/23/a-decisao-fascista-e-o-mito-da-regressao-o-brasil-a-luz-do-mundo-e-vice-versa/" target="_blank" rel="noopener">Felipe Catalani</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a esquerda via-se enredada na manutenção governamental da administração securitária do colapso social — o que necessariamente resulta na incapacidade de transformar o mundo. Mais do que isso, como se olha essa situação com os olhos de um passado idílico, carece na esquerda os instrumentos epistemológicos e organizacionais para pensar a partir desse novo terreno social. O mapeamento cognitivo que fez sentido para a esquerda, baseado num mundo do trabalho relativamente estável e em instituições democráticas e republicanas mais ou menos consolidadas, parecia dar régua e compasso à ação da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">O capital, enquanto processo cego, automático e contraditório, não permite que sua existência seja sempre idêntica ao longo da história. Enquanto forma social, o capital se reproduz de modo contraditório. Na medida em que busca aumentar a produtividade do trabalho para abocanhar uma fatia sempre crescente de mais-valor, ele impede a valorização de acontecer, pois, no mesmo golpe, expulsa o trabalho vivo das tramas produtivas. Assim, em sua ânsia de valorização, acaba tornando a si mesmo anêmico de valor. Essa dinâmica contraditória foi primeiramente exposta por Marx, mas foi mantida como contribuição marginal à esquerda marxista. O diagnóstico de Marx envolveu reconhecer a necessidade da crise. Contudo, essa leitura foi negligenciada pelas organizações políticas que se diziam inspiradas em seus escritos. Há causa para essa situação controversa: o diagnóstico não cabia na gramática política, que, desde antes de Marx, já colocava o trabalho como categoria privilegiada da ação política. Colocar ênfase na crise do trabalho e em sua obsolescência significaria a dissolução de sua gramática política — o que definitivamente aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, essa interpretação marxiana ficou relegada às correntes subterrâneas do marxismo e apenas germinou novamente quando se tornou patente a situação descrita por Marx um século antes. A crise se instalou à medida que os desenvolvimentos das forças produtivas, propiciados pela revolução da robótica, da programação e da microeletrônica, se disseminavam: a elevação da produtividade é tamanha que o trabalho, enquanto mediação social, torna-se estruturalmente supérfluo ao capital. Situação percebida não só pelos marxistas subterrâneos, mas também pelo nosso presidente-sociólogo tucano: agora há os inempregáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses estão fora do mundo do trabalho — a sobrevivência dessa classe crescente depende da viração. Uma vez que uma massa de “<a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/12/04/mais!/18.html" target="_blank" rel="noopener">ex-proletários virtuais</a>” já não encontra como se inserir nessa gramática política, o mapeamento cognitivo que permitia estruturar a prática política por meio das organizações vai ao chão. A despeito, é claro, do sincero apego de muitos em relação a essas formas, o que ocorre nas últimas décadas do século XX e se intensifica ao longo do século XXI é a dissolução dessas formas sociais. As categorias que determinaram a existência social por muito tempo vêm se erodindo. Trata-se de uma impossibilidade lógica de continuar a utilizá-las para substancializar o mapeamento cognitivo de nossa realidade em crise.</p>
<p style="text-align: justify;">A complexidade não diminuiu em nada — o mundo não se tornou mais transparente porque as determinações de existência impostas pelo processo social do capital entraram em debacle. Ao contrário, a situação embaralha ainda mais nossa capacidade de tomar ações comensuráveis à realidade social. Embaralha-se porque as formas pelas quais era possível estabelecer a transitividade entre as escalas, do local ao global, do específico ao geral, também são corroídas pela crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo de crise contemporâneo colocou um desafio, podemos dizer, metapolítico para a tradição que se dedica não só à interpretação do mundo, mas também à sua transformação. Para pensar uma resposta comensurável com a realidade do <a href="https://sentimentodadialetica.org/dialetica/catalog/book/132">novo tempo do mundo</a> é preciso pensar uma resposta comensurável com a realidade em que uma organização política se encontra.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem mais um mapa da realidade, “É por aí que se deve compreender a ressurreição periódica e intempestiva do trabalho de base e certas noções meio franciscanas de solidariedade e autodisciplina” &#8211; como escrevem Franscesc e El Quico. Curiosamente, às vezes, as saídas são mais fetichistas do que a porta de entrada nessa realidade social em desagregação.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, por motivos de desposessão originária, as pessoas em todo o mundo tornaram-se trabalhadoras, durante um tempo, essa condição de reprodução social compartilhada servia de âncora política para a ação. Agora, parece que “a única alternativa é seguir na correria sem fim, se virando em condições mais e mais adversas”, como ensina a <a href="https://www.xn--estilhao-y0a.com.br/masterclassdofimdomundo" target="_blank" rel="noopener"><i>Masterclass de fim do mundo</i></a>. A reprodução social passa agora por uma miríade de estratégias que frequentemente prescindem da forma-trabalho, o que, claro, produz efeitos políticos profundos, como tentei escrever em um texto anterior para este site. Nessas condições, a ação política toma a forma de motins que não permite o acúmulo de forças:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sem o antigo “horizonte de ‘conquistas’ a serem acumuladas, numa perspectiva mais ampla de integração progressiva”, o que resta às lutas do nosso tempo é refluir aos poucos ou escalar imediatamente, assumindo, sem qualquer mediação, formas insurrecionais (sem antes e depois).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há luta, insurgência e conflito na sociedade, “tão intensos quanto descontínuos, sem jamais assumir formas estáveis” &#8211; continua a <i>Masterclass</i>.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na viração das esquinas, entre “empregos de merda” e “trampos” temporários – ali onde não há nada de promissor à vista a não ser cair fora –, a insubordinação irrompe com a mesma urgência, o mesmo imediatismo da produção just in time. Os conflitos explodem como um gesto desesperado, um grito de “foda-se” em que se misturam “sofrimento, frustração e revolta”, frequentemente sob a forma de um ato de desforra individual – ou, quando muito, coletiva. Assim como a recente onda de deserções do trabalho nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, a debandada dos call centers nos primeiros dias da pandemia no Brasil era um sinal de recusa a uma rotina que, para arcar com a “normalidade” em colapso, torna-se ainda mais infernal. A cada nova emergência – sanitária, ambiental, econômica, social –, gira o parafuso da intensificação do trabalho, todos integralmente mobilizados num esforço sem fim em que não se formam senão “experiências negativas”. Se os “não-movimentos” trazem uma boa notícia, contudo, ela é justamente essa: eles “indicam que o proletariado já não tem nenhuma tarefa romântica”, sem ter nada a esperar e também nada a perder.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltemos a 2013. Caio e Leonardo, no primeiro texto resenhado aqui, notam que “ Se não saímos de 2013 com um aumento na organização dos de baixo, talvez o terreno para essa organização esteja mais fértil. Ao apontar para algo vivo para além do cotidiano morto de consensos e consentimentos, junho quebrou o feitiço”. Se essa afirmação “envelheceu mal” como se diz, não é por erro de análise dos camaradas no calor do momento, mas porque a própria realidade agudizou suas contradições em direção ao cenário de desagregação social e de motins sem acúmulo. O que interessa, contudo, é o questionamento levantado pelos autores ao final do texto: “Como fazer com que o vislumbrado passe do possível para o real? É, no mínimo, indispensável superar a centralidade da tática de revolta e formular uma perspectiva estratégica mais ampla, a perspectiva de uma recusa mais potente, enraizada no cotidiano. É preciso construir o que se tornou imaginável.” Questão que foi acompanhada por outras colocadas por Leo Vinicius, em um <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/#comment-232857" target="_blank" rel="noopener">comentário ao texto</a>: “É possível ir além da ‘revolta popular’ quando a tarifa aumenta (e lembrando que são relativamente poucas vezes que há manifestações com forte adesão quando elas aumentam), em direção a uma construção/situação de conflito permanente? É possível ir da greve na cidade-fábrica à construção do conflito permanente na cidade-fábrica? É possível construir um conflito cotidiano, permanente no transporte coletivo, que torne cada vez mais insustentável a forma de organização/gestão do transporte, abrindo caminho para a tarifa zero? Se sim, como?”</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se navega de dentro da crise, encontramos um cenário de crise que acumula adversidades, dificultando a construção da centralidade da tática da revolta. O mundo do trabalho entre o emprego de merda, a uberização, e o empreendedorismo; a renda familiar carcomida por pagamento de juros dos endividamentos sucessivos ou da fantasia nas apostas online; a presença irremediável de recursos dos programas assistenciais do Estado ou das igrejas, entre tantos outros. Contudo, essa mesma crise parece oferecer possibilidades de ação que não colocam a centralidade no conflito, mas sim no território.</p>
<p style="text-align: justify;">Por território, entendo o conjunto de relações de reprodução social que ocorrem em um determinado espaço. O território é o lugar onde o cotidiano acontece. São várias as experiências militantes que parecem produzir uma sobrevida temporal das experiências de luta a partir da construção de um vínculo territorial. As ZADs, as ocupações, os territórios liberados. <a href="https://www.glacedicoes.com/product-page/casa-encantada-renato-baruq" target="_blank" rel="noopener">Baruq</a>, da ocupação em BH, Kasa Invisível, compreende a importância de se construir infraestruturas reprodutivas para liberar pessoas das relações sociais capitalistas, permitindo que mais energia seja dispendida em organização e em luta (inclusive na produção de revoltas populares) do que a energia gasta no trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desta maneira, pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Um território pode surgir de uma revolta — não foi isso que aconteceu, por exemplo, na <a href="https://fpabramo.org.br/editora/wp-content/uploads/sites/17/2021/05/Luxo-Comunal.pdf" target="_blank" rel="noopener">Paris de 1870</a> ou em <a href="https://web.archive.org/web/20200610164217/https://industrialworker.org/the-birth-of-the-capitol-hill-autonomous-zone/" target="_blank" rel="noopener">Capitol Hill, de 2020</a>? É no território que é possível a fusão entre política e cotidiano, militância e reprodução. Nessas condições, a ação política não se torna um momento de interrupção dos fluxos da cidade, mas estende-se ao cotidiano. Mesmo nos casos efêmeros, como a Comuna (72 dias) ou a Capitol Hill Autonomous Zone (23 dias), há um saldo: a transformação se colou ao cotidiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro, se um determinado território vai se tornar uma plataforma eleitoral, de comércio ou mais um bairro comum — perdendo seu vínculo com uma política de transformação social —, o tempo revelará. Ou então, pode ser massacrado, despejado e perdido. Frequentemente, esse parece ser o destino dos territórios.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata aqui de negar os conflitos — ou não apostar nos conflitos como faíscas para incendiar o rastilho de pólvora de uma vida desgraçadamente incorporada ao colapso que vivemos. Por exemplo, <a href="https://illwill.com/memes-without-end" target="_blank" rel="noopener">Wohleben </a>reconhece que “O que importa é identificar, nesta ou naquela situação, como práticas anônimas, sem dono e inapropriáveis, originárias da vida cotidiana, são magnetizadas por conflitos, e qual o alcance potencial que cada uma delas ainda pode ter.”</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos, mais uma vez, a 2013. No dia 27 de junho de 2013, numa ocupação da prefeitura de São Paulo convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL) no contexto da onda de grandes manifestações que tomou as ruas de todo o Brasil, ocorreu uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=QyPBUDlV4d4" target="_blank" rel="noopener">aula pública com Paulo Arantes</a>. O professor tratou de responder a seguinte questão: Como se explica o fato de que um milhão de pessoas tomaram as ruas das metrópoles brasileiras em menos de uma semana? O próprio filósofo já descarta a resposta usual que atribuía importância à internet e às novas redes sociais, que tentava explicar Occupy Wall Street, Primavera Árabe ou a experiência das acampadas dos Indignados espanhóis. Para tanto, Paulo Arantes faz uma resenha de um <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/a-revolucao-nao-sera-tuitada/" target="_blank" rel="noopener">artigo de Gladwell</a> no qual busca pensar as condições da livre associação com potência de transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">Gladwell então recupera uma pequena história do movimento negro por direitos civis na segunda metade do século XX nos Estados Unidos, uma sociedade profundamente segregada.  A história é sobre quatro jovens negros, calouros na North Carolina A&amp;T, uma faculdade para negros. Eles entraram numa lanchonete e se sentaram na área destinada aos brancos (os negros deviam se alimentar de pé no balcão). Um deles pediu: “um café por favor”. A atendente recusou e lembrou os jovens que não poderiam se sentar naquele local, mas insistiram no pedido e não saíram da posição a despeito do risco de serem linchados. Brancos, que provavelmente estavam dispostos a tomarem tal atitude, se colocaram logo atrás dos jovens negros e proferiram as ameaças mais terríveis contra eles, mas, ainda assim, continuaram sentados até o fechamento da lanchonete e, no dia seguinte, retornaram ao mesmo local e repetiram o pedido. Continuaram durante a semana inteira, enquanto corria a notícia por todo o Estado, e, em menos de dez dias, caravanas de negros que se organizavam foram até a pequena cidade do interior de 50.000 habitantes, até o momento em que esses peregrinos militantes eram equivalentes a metade da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O que interessa é notar as condições que permitiram tal ato de existir e de lograr sucesso. Paulo percebe três características fundamentais: i. vínculos fortes entre os envolvidos, de amizade e camaradagem &#8211; ou seja, uma rede através das quais ações podem repercutir e se acumular; ii. a implicação do corpo de cada um em uma situação de risco compartilhado com seus amigos &#8211; uma vez que o corpo negro faz diferença no sistema de opressão racializada e; iii. o envolvimento em uma mesma causa, ou seja, a capacidade de adotar uma perspectiva comum, a partir da qual as perturbações sociais produzidas pelo “experimento” dos estudantes podiam ser reconhecidas e transmitidas entre todos os que se engajaram na luta.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas características marcaram, por exemplo, a experiência política dos Black Panther Party: trata-se de uma forma de organização comunitária para que jovens negros permaneçam vivos, atrelada fortemente aos vínculos cotidianos, aos riscos corridos e ao compartilhamento da pauta. Frequentemente esquecidos, os Panteras Negras organizaram, por mais de uma década, <a href="https://blackpast.org/african-american-history/black-panther-partys-free-breakfast-program-1969-1980/" target="_blank" rel="noopener">o programa de cafés da manhã</a> para as crianças das comunidades negras onde atuavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tipo de atuação desloca o eixo que tradicionalmente caracterizou a prática política. Nesse formato clássico, o espaço da política é um espaço separado da vida cotidiana — baseado nas ideias de representação que informaram tanto a democracia formal quanto a ação de muitas das organizações revolucionárias por aí. Uma forma de organização da política, direcionada ao que estou chamando aqui de território, produz uma aproximação, um amálgama entre o gesto político e a prática reprodutiva cotidiana. Como escreve Wohleben, “Podemos até dizer que o verdadeiro movimento começa no momento em que as pessoas deixam de procurar alguma fonte externa para legitimar suas ações e passam a confiar e agir de acordo com sua própria sensibilidade, sua própria percepção do que faz sentido e do que é intolerável. A partir desse momento, todo o aparato da política oficial começa a entrar em colapso, permitindo que todos vejam que ele é o inferno gerencial que realmente é.” O mesmo autor reconhece que o verdadeiro horizonte dessas ocupações do espaço não é interromper o fluxo da economia, mas “produzir bases territoriais habitadas” e que, assim, permita colocar a ação política no “mapa da vida cotidiana”.</p>
<p style="text-align: justify;">Duas citações podem, talvez, iluminar meu argumento. A primeira, de Marx, nos <a href="https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap05.htm" target="_blank" rel="noopener">Manuscritos de 1844</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quando artesãos comunistas formam associações, o ensino e a propaganda são seus primeiros objetivos. Mas, sua própria associação cria uma necessidade nova &#8211; a necessidade da sociedade &#8211; o que parecia ser um meio torna-se um fim. Os resultados mais notáveis desse fato prático podem ser vistos quando operários socialistas franceses se reúnem. Fumar, comer e beber não mais são meios de congregar pessoas. A sociedade, a associação, o divertimento tendo também como fito a sociedade, é suficiente para eles; a fraternidade do homem não é frase vazia, mas uma realidade, e a nobreza do homem resplandece sobre nós vindo de seus corpos fatigados.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cento e setenta e cinco anos depois, <a href="https://illwill.com/print/memes-with-force" target="_blank" rel="noopener">Torino e Wohleben</a>, escrevem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Foram estas últimas lutas que mais claramente provaram a eficácia estratégica de armar “lugar” como elemento de ataque, de converter a habitação vital de um território de vida intensa em um meio de deslegitimação da gestão estatal e econômica. Ao mesmo tempo, a manobra dos Coletes Amarelos é diferente. Em vez de muitas pessoas de toda a Europa convergindo em duas ou três “zonas a defender”, as rotundas de Coletes Amarelos permanecem próximas da vida cotidiana. Esta proximidade à vida cotidiana é a chave para o potencial revolucionário do movimento: quanto mais próximos os bloqueios estiverem da casa dos participantes, mais provável é que esses lugares se tornem pessoais e importantes de um milhão de outras formas. E o fato de ser uma rotunda que é ocupada em vez de uma floresta ou um vale retira o conteúdo prefigurativo ou utópico desses movimentos. Embora isto possa parecer, à primeira vista, uma fraqueza, pode revelar-se uma força.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Apesar da distância histórica, elas se encontram ao elucidar uma questão de método: é no compartilhamento de um território, a partir de práticas cotidianas de reprodução da vida, que reside a possibilidade de transformação. Como escrevem Torino e Wohleben, “É a constituição de lugares coletivos que forma o núcleo destituinte/revolucionário do movimento, que supera a oposição entre a revolta e a vida cotidiana”.  A ação política transformadora não estaria fundamentada essencialmente no local de trabalho ou na figura do trabalhador, nem na identidade territorial delimitada, nem em um evento de verdade, muito menos em uma campanha eleitoral apoteótica, mas sim em questões de reprodução social que atravessam o tecido social e constituem um território. Talvez esteja aí o lugar para pensarmos uma estratégia política para o tempo presente.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/12/158381/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>9</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Invisíveis: um caminho, uma saída</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/08/157325/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/08/157325/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Aug 2025 12:04:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157325</guid>

					<description><![CDATA[Por José Abrahão Castillero Há mais ou menos um ano atrás, ocorria a ocupação de estudantes contra os AEDAS (atos executivos de decisão administrativa) da reitoria de Gulnar Azevedo e Bruno Deusdará da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), que limitavam o acesso a auxílios e bolsas. A ocupação do Pavilhão João Lyra [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por José Abrahão Castillero</h3>
<p style="text-align: justify;">Há mais ou menos um ano atrás, ocorria a ocupação de estudantes contra os AEDAS (atos executivos de decisão administrativa) da reitoria de Gulnar Azevedo e Bruno Deusdará da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), que limitavam o acesso a auxílios e bolsas. A ocupação do Pavilhão João Lyra Filho, do Campus Maracanã, estava em processo de esvaziamento e desgaste diante das negociações, levando a uma pequena resistência diante da convocação da tropa de choque da Polícia Militar. Uma participante da luta disse, em uma conversa informal: só dois coletivos saíram fortalecidos dessa ocupação, o <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/invisiveistrabalhador?igsh=MWVzNmFyZG5jajBiaA==" href="https://www.instagram.com/invisiveistrabalhador?igsh=MWVzNmFyZG5jajBiaA==" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Invisíveis</a> e o <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/coletivocriarj?igsh=Nml3bnBiYWQyMjJ1" href="https://www.instagram.com/coletivocriarj?igsh=Nml3bnBiYWQyMjJ1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Cria</a>. Independente da razão dessa afirmação, é possível entender ao ver a maioria das correntes estudantis entrarem em contradição e desgaste com suas premissas. Do espectro mais radical (marxista e anarquista) ao mais reformista, encontraram o esvaziamento da luta: a participação na greve estudantil não correspondeu ao apoio à ocupação. A necessidade da luta pelo auxílio não correspondeu à radicalização motivada pela solidariedade. A oposição a uma reitoria com gestores do PT e PSOL criminalizando e perseguindo servidores e alunos, não gerou dispositivos de luta que articulassem uma greve com ações diretas de forma mais duradoura. O “Cria”, na época recém rachado com o DCE (Diretório Central dos Estudantes), atualmente ligado ao PT, havia <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/reel/C5tzgxKpfXS/?igsh=dGU0c2N0eHhlcnZ5" href="https://www.instagram.com/reel/C5tzgxKpfXS/?igsh=dGU0c2N0eHhlcnZ5" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">expulsado</a> alunos que <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2023/09/149998/" href="https://passapalavra.info/2023/09/149998/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ocupavam</a> sua sede desde 2023 e tinham denunciado membros que haviam recebido mensalidades de 5 mil reais. Isso diante de parceria política com a gestão do ex-reitor Ricardo Lodi (PT). Quando atuaram na ocupação, a contradição de agirem como conciliadores, foi um dispositivo que se apresentou como mecanismo de conquista contra a reitoria atual, que se isolava do governo estadual de Cláudio Castro (Partido Liberal). Algo que foi colocado à prova posteriormente, mas deu projeção, mesmo com os percalços: esfriamento da mobilização estudantil</p>
<p style="text-align: justify;">E o Invisíveis? Foi em 2024 que o coletivo se projetou mais na universidade, atuando também na UNIRIO, UFRJ e UFF. Além de outros lugares, como na Rede Pública Estadual de Ensino do Rio de Janeiro com <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DNEUTGLyJGx/?igsh=bWk0a292czZtMXc2" href="https://www.instagram.com/p/DNEUTGLyJGx/?igsh=bWk0a292czZtMXc2" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">merendeiras terceirizadas.</a> Na ocupação da UERJ, onde a relação com trabalhadores terceirizados rendeu em táticas temporárias de unificação de pautas. Desde o setor da manutenção denunciando assédios e falta de EPI(equipamento de proteção individual) da empresa <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/mpe_engenharia/" href="https://www.instagram.com/mpe_engenharia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">MPE Engenharia</a>, até auxiliares denunciando calotes e atrasos das empresas <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/cns.nacional/" href="https://www.instagram.com/cns.nacional/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CNS</a> e <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/conquista.grupo/" href="https://www.instagram.com/conquista.grupo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Conquista</a>. E a limpeza, com mobilizações contra atrasos dessa empresa, até o final de seu contrato, quando usou sua sede como um <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/03/156097/" href="https://passapalavra.info/2025/03/156097/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">galpão de enclausuramento para forçar pedidos de demissão</a> e não pagar rescisões de demitidos. Além dessa, rendeu um bom contato com vigilantes e seu sindicato, para tentar constranger a repressão patrocinada pela reitoria, diante da falta de salário: contratar seguranças patrimoniais para reprimir os estudantes. Ao colocar em primeiro lugar os relatos e demandas desses trabalhadores, o reconhecimento não veio somente de alunos buscando se solidarizar, que passaram a propagar o coletivo. Terceirizados interceptavam membros na ocupação e diziam: “Você é do Invisíveis? Queria te agradecer pelo apoio que vocês estão dando aqui pra gente”. Assim, o Invisíveis se posicionou como possível alternativa de construção de diálogo e mobilização com setores que antes eram ignorados (invisibilizados) ou inacessíveis para boa parte da esquerda. Isso se fortaleceu à medida que servia como contraponto às atrocidades das empresas. Mas até onde isso vai?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157226" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2.jpg" alt="" width="1599" height="899" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2.jpg 1599w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho2-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1599px) 100vw, 1599px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O pós-ocupação trouxe desafios, mas aparentemente, enquanto o movimento estudantil não via outras saídas a não ser focar em discussões com a burocracia da universidade, o Invisíveis apontou para a luta contra as atrocidades cometidas por empresas. Essas são tratadas como cotidianas e banais na medida em que as técnicas de mobilização e comunicação são privadas dos setores precarizados de trabalhadores. Seria esse um debate que traria uma radicalização contra a privatização da UERJ? A luta por propagar de um jeito mais direto possível, a partir de relatos, trouxe a necessidade de métodos de investigação e análise nesse mesmo formato. Os relatos viram denúncia e discurso político, como início de uma atuação como um “jornal operário” formado a partir de falas, trazidas pelo método da “enquete operária”. Mas principalmente, incentivadas e protegidas com o anonimato, promoveram uma articulação em torno dassas resistências. Logo, passou de circulador de relatos a investigador das empresas, até plataforma de discussão, como a organização de paralisações e protestos dos terceirizados. Mas para onde cresce o coletivo, se não possui uma base estudantil, nem de servidores e nem de terceirizados? Aqui, a solidariedade corre o risco de se tornar espetáculo, viração de tragédias pela rede. Logo, enquanto o Invisíveis cresce, ao mostrar que denúncias trazem necessidade de luta, é onde se coloca o teste para a combatividade. E essa ocorre mostrando que sua perspectiva é a negação do corporativismo e da <a class="urlextern" title="https://guy-debord.blogspot.com/2009/06/da-miseria-no-meio-estudantil.html" href="https://guy-debord.blogspot.com/2009/06/da-miseria-no-meio-estudantil.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“miséria do meio estudantil”.</a> Daí a dificuldade em crescer numericamente, mesmo que se projete como plataforma de luta eficiente diante do contexto atual.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157225" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3.jpg" alt="" width="1600" height="1204" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-300x226.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-1024x771.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-768x578.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-1536x1156.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-558x420.jpg 558w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-640x482.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho3-681x512.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não faltam críticas que formam o método do Invisíveis, no quesito em que a voz do trabalhador terceirizado é sempre uma voz ausente. Em textos de autores pensando a tragédia da terceirização, não faltam apontamentos colocando em primeiro lugar a disputa jurídica e como os gestores decidem pelo enxugamento de gastos e como os sindicatos são retirados de cena. Mas como se deu essa desmobilização na base? Não se trata aqui de discutir academicamente, mas citando a academia e a mesma universidade que explora terceirizados, é preciso apontar a crítica à forma e conteúdo dessas colocações. Não é simplesmente a decisão jurídica que preparou a consolidação da terceirização, mas um processo de neutralização política de um movimento operário, destruindo suas organizações de base, sua capacidade de subverter relações e a disciplina de trabalho. Basta a recuperação dessas perdas como solução? O que pode ser recuperado e o que pode ser deixado para trás? O Invisíveis não é simplesmente uma “subversão da linguagem” ou uma confrontação dos relatos como uma alternativa para cartilhas políticas. É um chamado desses mesmos terceirizados para participação política. E para isso, é preciso discutir sua eficiência na luta de classes. Pensando nisso, o texto <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/06/132737/" href="https://passapalavra.info/2020/06/132737/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Para que serve o Invisíveis?”</a> foi uma resposta trazendo não somente um conteúdo de debate com o texto <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/06/132518/" href="https://passapalavra.info/2020/06/132518/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Carta ao Invisíveis: investigação, cotidiano e insurreição”</a>, mas também uma demonstração de prioridade pela forma: a construção direta com trabalhadores e análises de suas experiências. Ponto de partida da discussão feita com o <a class="urlextern" title="https://invisiveisluta.milharal.org/no-invisivel/" href="https://invisiveisluta.milharal.org/no-invisivel/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Nó Invisível”</a>. Então, em vez de entrar num debate teórico partindo dos termos intelectuais da militância de um campo, a resposta a isso foi a busca por uma forma de luta para ganhos reais aos trabalhadores mais precarizados e afetados pela fragmentação, repressão e isolamento político. A discussão teórica é importante para o entendimento das relações capitalistas, sua exploração e repressão. Assim como é para entender mecanismos de resistência. Então, aqui começa com foco nas demandas trazidas de uma análise em conjunto com essa luta. É onde o debate fica mais profundo do que parece.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157224" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4.jpg" alt="" width="1600" height="1204" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-300x226.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-1024x771.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-768x578.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-1536x1156.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-558x420.jpg 558w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-640x482.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho4-681x512.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A atuação do Invisíveis lembra uma reflexão com as lutas contra a violência policial. No quesito em que trabalhadores precisam não somente projetar sua dor como solidariedade, mas, também, na apropriação de técnicas de comunicação e investigação. Como ocorria com membros da<a class="urlextern" title="https://redecontraviolencia.org/Atividades.html" href="https://redecontraviolencia.org/Atividades.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência </a>, que é uma organização de favelas do Rio de Janeiro, apoiada por militantes e formada a partir de moradores, principalmente familiares e vítimas de violência policial.</p>
<p style="text-align: justify;">Saindo de casa uma vez, em 2005, recebi uma ligação de <a href="https://youtu.be/RQlGQJOVTTM?si=RTHBYx4jJCtCX74F" target="_blank" rel="noopener">Márcia Jacinto.</a> Demorei para entender quem era, mas me lembrava dela, de termos nos falado rápido numa reunião da Rede e em atividades nas universidades, de como tinha me emocionado com o peso da tristeza de sua luta: pela condenação dos policiais militares, assassinos de seu filho. Ela disse:<em> “Meu querido, queria te contar que eu consegui. Tô ligando pra todo mundo para contar. É que nessa luta, as pessoas acham que não vai dar em nada, que não adianta correr atrás. Mas eu consegui ó, consegui a condenação dos policiais que mataram meu filho. Peguei as provas e comprovei, agora o PM vai ser processado.” . </em>Isso se desenrolou para <a class="urlextern" title="https://extra.globo.com/noticias/brasil/faz-diferenca-mae-de-hanry-silva-aplaudida-ao-dizer-que-estado-do-rio-criminaliza-pobreza-257237.html" href="https://extra.globo.com/noticias/brasil/faz-diferenca-mae-de-hanry-silva-aplaudida-ao-dizer-que-estado-do-rio-criminaliza-pobreza-257237.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reconhecimentos</a> maiores e merecidos, sobre sua capacidade investigativa. O que também foi trágico, porém previsto, é que ela foi ameaçada antes, durante e depois da condenação dos PM assassinos. Sabendo que passaria por todas essas dificuldades, nada superou a dor que ela já tinha passado. E não há mensuração possível para entender isso. Mas a luta de Márcia, trazida num texto sobre o Invisíveis, que atua em locais de trabalho, tem um sentido. É sobre como uma tragédia seria silenciada por ser cotidiana, se não fosse a busca por técnicas que são reduzidas a especialistas do Estado ou das empresas. Enquanto ela investigou, à revelia do silenciamento da polícia civil e militar, sua ação foi um exemplo de que trabalhadores podem se apropriar dessas tecnologias.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado mais importante foi a projeção do que já ocorria: os elementos de resistência e auto organização dos trabalhadores. São os grupos de WhatsApp, conversas de corredor. O coletivo não pretende levar consciência ou resolver os problemas com um programa político formado. A ação de publicar as colocações e articulação de redes de solidariedade virou instrumento de pressão, que foram potencializadas por um mecanismo de contato e mídia. Sem ilusão de gerar uma cultura de organização, algo que já havia entre os terceirizados, foi possível trabalhar com o que se tem. E mesmo assim, foi possível fazer tanto, com tão pouco. Principalmente: com muito trabalho de militância. Tal situação gerou um estranhamento entre meios de militância, que podemos tratar como “tradicionais”, apesar de não se considerarem assim. Por exemplo, o zelo e profundidade que os diálogos com trabalhadores são promovidos, como base para elaboração de publicações, materiais e denúncias… Foi palco de estranhamento entre espaços de militantes que esperavam uma “autonomia” dos terceirizados agindo como militantes sindicais. O fato de não colocar uma “proposta de luta” publicada. Porém, ao mesmo tempo, o ritmo das conversas e relatos que vêm se tornando cada vez mais acelerados. Gerou perguntas de alguns militantes, de campos políticos diversos: “Onde estava a assembléia? Cadê os debates? Cadê o terceirizado se auto representando? Cadê a luta? Cadê a &#8216;autonomia&#8217;?”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157223" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5.jpg" alt="" width="1600" height="1204" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-300x226.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-1024x771.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-768x578.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-1536x1156.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-558x420.jpg 558w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-640x482.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho5-681x512.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Houve casos em que o Invisíveis foi convidado a “levar terceirizados para falar”, como se houvesse um exotismo nessas pessoas ou uma padronização do que significa a participação política desse setor. É possível pensar “autonomia” como uma prática da classe trabalhadora em busca da socialização dessas técnicas. E não como incorporação em modelos feitos.. Até aqui, foi citado a luta contra atrocidades de empresas, na sua ilegalidade, como motor dessas mobilizações. E já havia uma clareza: a importância desse trabalho permanente de militância, como exposição e disposição perante os terceirizados, protegidos pelo anonimato. Daí, numa discussão, um militante de outra organização, de outra cidade, foi corrigido pelo Invisíveis quando ele disse que o coletivo estava envolvido em lutas no Rio de Janeiro. Estavam fazendo militância, isso é diferente, pois é um trabalho que se coloca além das revoltas. Infelizmente, um setor político sustenta uma ilusão “espontaneísta”, onde as técnicas de mobilização e comunicação estariam hoje já socializadas. Portanto, tal atuação seria dispensável ou até nociva para a auto-organização dos trabalhadores. No entanto, uma organização que parte dos trabalhadores, também atua em separado, é a prova de uma técnica demandada para ser socializada, para construir lutas. Por isso, jornais, páginas, panfletos colocados à disposição para publicar demandas, dúvidas e anseios dos trabalhadores, acabam sendo um exercício radical de política. Mais do que cartilhas políticas prontas. E esse é o desafio. Nesse momento, a mobilização adquire contornos próximos das lutas contra a repressão, por direitos civis e humanos. Enquanto isso, afasta-se do modelo tradicional de lutas sindicais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>“Take easy, my friend”</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157222" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6.jpg" alt="" width="1600" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6-1024x461.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6-768x346.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6-1536x691.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6-933x420.jpg 933w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6-640x288.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho6-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Durante a repressão pela Polícia militar da Manifestação na Praça da Sé em São Paulo, de 1978, organizada com apoio da Oposição Sindical Metalúrgica (OSM), do Movimento Contra Carestia e do Movimento do Custo de Vida (MCV), um operário deu entrevista. Ela apareceu nas cenas finais do documentário <a class="urlextern" title="https://youtu.be/W49uzPHOer4?si=Pibbu6cscCy5E47I" href="https://youtu.be/W49uzPHOer4?si=Pibbu6cscCy5E47I" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Braços Cruzados, Máquinas Paradas”</a>. Ele respondeu diante da pergunta do entrevistador sobre a “Frente Democrática”, nesse momento: ”<em>stop please looking, love. Take easy my friend</em>“ (”<em>Pare de olhar, por favor, amor. Pega leve meu amigo“)</em>. E o homem corta a entrevista, demonstrando medo para falar sobre isso e vai embora. Isso depois de falar sobre a assembléia do movimento com a empresa, onde o sindicato foi chamado sem o consentimento dos representantes das Comissões de Fábrica, que era uma unidade de organização por local de trabalho dos metalúrgicos <strong>[1]</strong>. E se o medo para falar sobre a frente democrática pelo “Diretas já” prevaleceu, o filme conta que depois desse conflito, em Novembro, durante o dissídio coletivo, a sede do Sindicato dos Metalúrgicos foi tomada por 35 mil operários e exigiram votar a greve geral. Joaquim dos Santos Andrade, dirigente Sindical, apoiado pelos patrões, pelo Ministério do Trabalho, conseguiu que grande parte das reivindicações não sejam atendidas. Mas, não impediram a maior greve metalúrgica dos últimos 14 anos, naquela época: 300 mil operários cruzaram os braços.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157326" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Invisiveiscaminho7.jpg" alt="" width="425" height="191" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Invisiveiscaminho7.jpg 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Invisiveiscaminho7-300x135.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Se o “Take easy” (referência com Música de Jorge Ben: “Take Easy my brother Charles”) é a expressão ideal para evitar discursos que os exponham para a repressão, a ação clandestina conta como uma luta pela apropriação coletiva do dispositivo, que é uma negociação sindical. Tal situação é importante, tanto que membros da OSM foram agredidos à correntadas por militantes do PCB e do jornal “Hora do Povo”.<strong>[2]</strong> Pegando essa inspiração e experiência, o coletivo Invisíveis não se coloca como mediador de negociação, mas a situação de luta já o colocou em uma mesa de apresentação de propostas, como foi com a <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DDNBN9HOok0/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA==" href="https://www.instagram.com/p/DDNBN9HOok0/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA==" rel="ugc nofollow">DESEG-UERJ</a> (Departamento de Serviços Gerais). Responsável por alguns serviços de função meio, queria que o coletivo interrompesse atividades, prometendo fiscalizar e garantir a legalidade na gestão do trabalho por empresas terceirizadas. Essa chamada de reunião seria resultado da barganha de provocar constrangimento na gestão. Mas seria essa disposição como “Frente Democrática”, no sentido de que uma gestão constrangida se declare como pretendente a respeitar direitos mínimos e a legalidade dos trabalhadores terceirizados? Não é pela semelhança com lutas por direitos civis e contra repressão, que o poder de pressão seja pela classe dominante estar constrangida por violar direitos. Se dá pelo medo constante dessa explanação se tornar uma força de insubordinação no trabalho: com sucessivas “operações tartarugas” (diminuição do ritmo de trabalho), sabotagens, paralisações e até a deflagração de greves.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157221" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8.jpg" alt="" width="1600" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8-1024x461.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8-768x346.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8-1536x691.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8-933x420.jpg 933w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8-640x288.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho8-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A citação da OSM foi para ilustrar como uma mobilização construída também de forma invisível (clandestina) desde o golpe de 1964, apresenta uma disposição de “Frente democrática” para compor a luta do “Diretas já!”. Porém, sem confiança de que os setores empresariais e burocráticos do movimento levariam a luta das comissões de fábrica adiante. No Invisíveis, a disposição de relatos constantes gera uma ilustração de intenção: participação direta de trabalhadores e olhar imediato sobre suas necessidades. Isso faz uma comoção que preocupa sindicatos e departamentos de gestão de uma autarquia fundacional (como é a UERJ). Os inimigos de classe (supervisores de empresas, gestores públicos, coordenadores) apresentavam uma clara inquietação com a impossibilidade do conflito ser mediado ou contido em dinâmicas formais de negociação. Depois da reunião com a DESEG-UERJ, ocuparam a sede da empresa “CONQUISTA” e apoiaram uma paralisação da limpeza. E se a partir das atrocidades promovidas pela empresa, gerou-se uma comoção e apoio aos terceirizados, a ponto da situação ficar assim, ela percebe que a comunicação e publicação de escândalos precisa ser interrompida. O limite é a fragilidade dessas publicações, onde ações dos gestores e empresários podem atacar essa forma de atuação ao dificultar o alcance delas. Por exemplo, se tais ilegalidades trouxeram solidariedade, a legalização e estabilidade poderiam acabar com isso. Isso foi reconhecido nas ações da instituição (UERJ), como “grande corporação” , onde o Estado atua como um elemento racional que limita a busca voraz por lucros, em nome da manutenção das exploração e por maior produtividade. Mesmo assim, isso não impediu a empresa “Conquista” de usar o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/03/156097/" href="https://passapalavra.info/2025/03/156097/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">galpão para forçar pedidos de demissão.</a> <strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157220" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9.jpg" alt="" width="1599" height="899" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9.jpg 1599w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho9-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1599px) 100vw, 1599px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É no jornalismo e na viração que está o limite. Não tanto como “digital influencer”, mas uma página anônima de relatos proletários pode se projetar como uma propagação “espetaculosa” de tragédias. E os relatos tomarem traços “românticos”, que exaltam o terceirizado enquanto vítima. A ponto de a única força para conter a exploração ser o constrangimento. Então, a empresa passa a contar com o distanciamento e dificuldade daqueles trabalhadores se mobilizarem. É isso que está sendo feito pela empresa “SOLL”, que ficou no lugar da empresa “Conquista” na gestão da limpeza na UERJ. Ela paga salários em dia e reconhece alguns direitos: adicional de insalubridade máximo (40%) para 46 funcionários, negando para 229 deles. Isso tirou de cena os protestos e revoltas contra atrasos de salário. Criando situações já descritas no pós trauma do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/03/156097/" href="https://passapalavra.info/2025/03/156097/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Galpão”</a> <strong>[4]</strong>. O Invisíveis assume seu papel de realizar ações por fora da mediação sindical, mas também o seu limite como agitador de conflitos. Esse passa mais pela construção de apoio a possibilidades de resistência além de explosões contra as atrocidades dos patrões. Mas, se há um limite, há um caminho. E se há um caminho, há uma saída.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Escuta: a arte de desencapar fios </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Antes de eleger se a solidariedade com trabalhadores é de confiança perante uma avaliação supostamente elevada (vanguarda?) de um grupo de militantes, é preciso primeiro organizar a atividade militante para a escuta. E para isso é preciso paciência e disciplina. É preciso construir uma organização, que passa pela busca dos elementos dos trabalhadores conhecidos como “fios desencapados”, são os que têm reclamações e relatos que podem fazer faíscas e “explodir um compartimento fechado”. Esse é um ambiente tóxico de local de trabalho, cuja solidariedade pode superar desavenças através do apontamento de lutas concretas. Não se trata de busca por uma espiritualidade dos trabalhadores, como divagações pela consciência de classe, que levam a alguma revolta. Mas de uma atividade militante permanente, que se coloca presente para promover o elemento incendiário primário: a escuta. Assim, apesar do Invisíveis não se apresentar como uma organização de local de trabalho, sua força está nessa disponibilidade permanente no local.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157214" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10.jpg" alt="" width="1600" height="1204" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-300x226.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-1024x771.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-768x578.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-1536x1156.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-558x420.jpg 558w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-640x482.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho10-681x512.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É abandonada aqui a cartilha do “trabalhador massa”, que o marxismo “ortodoxo” elegeu como suposto elemento decisivo para paralisar cadeias produtivas. No entanto, não traz o equívoco otimista de valorizar o “trabalhador social” da “autonomia operária” como a revolta que se realiza como suposta negação da estrutura de proteção social que havia no “fordismo” <strong>[5]</strong>. A amplitude do trabalhador social é um elemento de abertura de campos de luta para além da unidade de produção, não de negação de estruturas de seguridade e direitos. Isso é fundamental para entender como foi a luta do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/10/134588/" href="https://passapalavra.info/2020/10/134588/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Invisíveis pelo auxílio emergencial</a>. Aqui foi percebido os avanços nessa reivindicação, que aponta para maiores exigências dos trabalhadores para sua proteção contra os limites colocados por capitalistas (incluindo o Estado), condicionado aos ganhos de produtividade no trabalho. Aconteceu em contraposição com alguns militantes, que viram na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/04/130886/" href="https://passapalavra.info/2020/04/130886/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">austeridade bolsonarista, uma possibilidade de chamados por revoltas</a>. Não por acaso, essa crença coincidiu nos reflexos das lutas em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/03/130296/" href="https://passapalavra.info/2020/03/130296/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">”call centers”</a> e ignorando tropeços dos <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/08/133817/" href="https://passapalavra.info/2020/08/133817/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“breques dos apps”.</a> A luta de mães solteiras, de desempregados e informais que trouxeram lembranças de que avançamos para além de revoltas imediatas, exigindo uma estrutura de solidariedade contra ameaças de miséria e demissões. Apostar numa revolta resultante do afunilamento da proteção social é uma regressão política pior do que a redução ao “trabalhador massa”, que é uma confusão teórica anterior às discussões sobre o “Junho de 2013”, que discutiu os <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">limites da revolta popular contra tarifas no transporte público</a>. Nem o “sindicalismo de resultados”, que se tornou patronal, e nem a “rede de recusa” contempla essas necessidades. Antes de revoltas é preciso estruturar solidariedade e buscas por estruturas de apoio.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157215" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11.jpg" alt="" width="1599" height="899" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11.jpg 1599w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho11-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1599px) 100vw, 1599px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É exatamente na busca pela permanência da atuação, que ela se estabelece. O Invisíveis, como foi dito, não se definiu e criou laços com trabalhadores pelo estabelecimento de roteiros fechados, muitos menos buscando focos de revolta. Foi com a escuta como método e elaboração política delas. Isso é de certa forma definido e desenvolvido em sua<a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DEVlmidSduo/?igsh=dmE4Z2Q0enBkZnBo" href="https://www.instagram.com/p/DEVlmidSduo/?igsh=dmE4Z2Q0enBkZnBo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> “carta de política e método”</a>. Assim, pela investigação se permanece próximo e atento a escutar vozes de trabalhadores. Os relatos trazem pautas de lutas, mas também elementos para entender os conflitos. Esse último é fundamental, para que os relatos não se percam, mesmo que imprevistos possam ser trazidos. Assim, os materiais e diálogos podem trazer soluções organizativas e medidas para fortalecer a coletividade. A partir da questão “como manter a luta para além do constrangimento das empresas e gestores com suas atrocidades?”, chega a uma importante perspectiva: as comissões de fábrica da OSM, que se torna “comissão de base” entre trabalhadores do setor de serviços. Isso parte do “nó invisível”, mas também da discussão sobre como lidar com os sindicatos pelegos ou satélites da Ditadura, em 1978, ou com o atual capitalismo sindical, num contexto de desfiliação em massa do período pós reforma trabalhista de 2017. Ao mesmo tempo que cabe lutar por fora dessas instituições, cabe reivindicar e exigir a presença sindical no sentido de defender mesas de negociação e paralisações. Mas além disso, aí cabe a escuta e investigação para unir necessidades dos terceirizados com as contradições a partir das análises dos contratos e processos das empresas com o cliente: a autarquia, a fundação, que são as entidades públicas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>“Zapatismo operário”?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Muitas vezes, pessoas externas ou até dentro do coletivo já pensaram em propor coisas aos terceirizados em termos de propostas de lutas mais radicalizadas. Como se fosse uma questão de conhecimento, esses trabalhadores não a realizaram. Mas a substância política é exatamente a repressão. A fragmentação dos trabalhadores não aconteceu por distração ou opção dessas pessoas. Foi pelo mesmo mecanismo da expropriação ou da “assim chamada acumulação primitiva” (volume 1 do Capital, Karl Marx), da primeira fase da Revolução industrial, que hoje são empurrados a trabalhar na terceirização. A falta de meios de subsistência não se dá por meios pacíficos, mas pela brutal violência de classe. A terceirização é inseparável da precarização e da austeridade do Estado “Neoliberal”, que é o processo de acumulação capitalista. O além disso é que essa fragilidade é acelerada pelo controle dos gestores públicos e privados.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157219" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12.jpg" alt="" width="1600" height="1204" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-300x226.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-1024x771.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-768x578.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-1536x1156.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-558x420.jpg 558w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-640x482.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho12-681x512.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Pegando como exemplo o que ocorreu entre terceirizados da limpeza da UERJ, com a empresa SOLL, é onde a sofisticação da repressão e controle social se mostram. Se a apresentação de projetos de gestão como compartimentação das funções meios, para a redução de gastos, ou de lucros rápidos de empresas, é importante para o seu funcionamento normal, elas também buscam manter o silêncio dos trabalhadores de diversas formas. Superar os atrasos de salários e negação de direitos é também a melhor forma de silenciar denúncias. Isso levou a uma redução dos conflitos, tratada como vitória por alguns funcionários. No entanto, a disposição capitalista não saiu de cena: a busca por intensificação do trabalho levou ao aumento da carga horária e por redução de custos levou a negação de adicional de insalubridade para a maioria. Se essas pautas foram apontadas pelo Invisíveis, mesmo sem lutas acontecendo, elas serviram para se manter como referência de plataforma que se movimenta para apoiar esses trabalhadores. Quando ocorreu os cada vez mais recorrentes assédios, os materiais do coletivo serviram como um aviso permanente de sua disposição de luta. Assim, foi o conjunto das ações da empresa, nessa relação capitalista, que gerou a manutenção dessa mobilização, mediada pela organização militante.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual o modelo ideal? Se pegamos a referência da OSM ou da autonomia operária, percebemos que há um fosso: a terceirização passou pelo silenciamento de mobilizações onde demandam a representação e identificação dos trabalhadores. E se o Invisíveis é uma resposta a isso, como já se apresentou como alternativa às lutas sindicais, qual seria o modelo, se também reconhece o limite de mobilizações baseadas no constrangimento dos patrões? Essas últimas trazem o tom de movimentos contra a violência policial e contra a repressão, mas apresentando a autonomia da insubordinação no trabalho como potencial constante. E percebendo na <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/invisiveistrabalhador?fbclid=PAQ0xDSwMLlEhleHRuA2FlbQIxMQABp0kgaNxQA1v_dcHZf_bMZ1mBYDqqDkKzzEa0Ph8wWFL6jwNhvrtJVlm3eBwq_aem_-pLV_2ZVKVsfjBULI77p_Q" href="https://linktr.ee/invisiveistrabalhador?fbclid=PAQ0xDSwMLlEhleHRuA2FlbQIxMQABp0kgaNxQA1v_dcHZf_bMZ1mBYDqqDkKzzEa0Ph8wWFL6jwNhvrtJVlm3eBwq_aem_-pLV_2ZVKVsfjBULI77p_Q" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">linktree</a> do coletivo, os contratos e processos de empresas na UERJ, vemos que ocorre um momento de reajustes salariais, a partir de reajustes de gastos. Isso seria uma forma de amenizar os conflitos, mas já fazem mobilizações apontando que manter a exigência de direitos e remunerações, pode ser potencializada quando gestores buscam lucros, assim pode-se atropelar a domesticação dos trabalhadores. Assim como atingir uma “epidemia de não pagamento de FGTS e INSS” ocorrendo em diversas categorias (jardinagem, limpeza do Hospital Pedro Ernesto, motoristas <em>intercampi</em>, vigilantes). Rompendo o costume de mobilizações defensivas, para almejar lutas ofensivas. Ou seja, serve como apontador de novos problemas, além de simplesmente reagir às atrocidades.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157218" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho13.jpg" alt="" width="1024" height="617" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho13.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho13-300x181.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho13-768x463.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho13-697x420.jpg 697w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho13-640x386.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho13-681x410.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A estrutura militante atua de forma permanente, mesmo que não se apresentem lutas. Mantendo um acompanhamento e escuta, estudando a relação de trabalho. Pode ser acusada de não ser uma forma “horizontal” ou “autônoma” almejada por alguns setores da política ideológica. Mas é exatamente na transicionalidade da atual classe trabalhadora, que sabemos que não há categoria permanente. E que estudantes atuando no Invisíveis, estão nessa condição temporária (que não exclusiva: estudantes trabalhadores), para atuar em seu emprego. Criando uma poderosa forma de articulação. Uma forma de aprimorar essa aproximação pode ser a melhor forma de preparar conflitos presentes e futuros. Pensando num formato, há algumas semelhanças com o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em como obedece as assembléias e autonomia das comunidades indígenas zapatistas, mas atua como organização separada e à serviço delas. Composta por essas comunidades também. Mas também pela discussão que existe sobre a luta midiática, para fazer recuar as brutalidades da repressão, com o anonimato, rostos cobertos e como a maior pressão realizada pelo movimento é o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2009/04/2280/" href="https://passapalavra.info/2009/04/2280/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">controle coletivo dos meios de produção. </a>É dessa mesma forma difusa e disciplinada que tal luta demanda, que promove uma reviravolta sobre a pressão entre mídia e paralisação do trabalho. Uma difusão entre<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2009/04/2677/" href="https://passapalavra.info/2009/04/2677/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> luta de imagens e “luta de armas concretas”. </a>É algo que o Invisíveis, sem querer e sem coincidência, faz possuir semelhanças que podem trazer boas inspirações. Não é uma luta por demarcação de terra, ou com grupos armados, mas é por controle coletivo. Mas dada a realidade de repressão permanente e violenta, aliada a construção de organização de base no local de trabalho, com uma organização que se estabelece como interlocução direta. Buscando uma horizontalidade, ao mesmo tempo que se mantém como espaço que estimula organização e luta. Seria esse um “zapatismo operário”, ou “urbano”, próprio ao operariado dos serviços?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho14.jpg" alt="" width="1024" height="609" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho14.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho14-300x178.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho14-768x457.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho14-706x420.jpg 706w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho14-640x381.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho14-681x405.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os desafios são grandes, mas se a incorporação das lutas parecem um apocalipse sem fim, que estabelece a barbárie da precarização como manobra empresarial diante da queda da taxa de lucro… é na permanência do conflito social e da necessidade por recuperação de produtividade dos capitalistas, que não é permitido falar em derrota. E isso estabelece na própria necessidade de sobrevivência, abrindo todo dia um novo capítulo na luta de classes. Os terceirizados da limpeza da UERJ passaram por uma empresa como a “Conquista”, reduzindo salários e adiando pagamentos, para chegar a “SOLL” pagando em dia e colocando assédios, aumentando carga horária e intensificando o trabalho como norma. Apontar a tragédia não pode ser um paralisador, é para olhar o futuro como ele é. Da mesma forma com esse processo local, a nível nacional a campanha do <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DNWagXtO3BB/?igsh=cGdqaTljZzIzcTky" href="https://www.instagram.com/p/DNWagXtO3BB/?igsh=cGdqaTljZzIzcTky" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">VAT (“Vida Além do Trabalho”) contra a jornada 6&#215;1</a> virou um <a class="urlextern" title="https://plebiscitopopular.org.br/" href="https://plebiscitopopular.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">plebiscito popular</a>, que não possui impacto direto na votação do <a class="urlextern" title="https://www.congressonacional.leg.br/materias/materias-bicamerais/-/ver/pec-8-2025" href="https://www.congressonacional.leg.br/materias/materias-bicamerais/-/ver/pec-8-2025" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">projeto de emenda constitucional n°8/2025</a>. Ressuscitando ares das campanhas do “campo democrático popular”, já desgastado, porém servindo para contenção da extrema direita. Se a solução seria uma “greve geral”, que é algo distante do desafio de pensar organizações em local de trabalho, além da projeção de revoltas pontuais, já fizeram também um <a class="urlextern" title="https://www.esquerdadiario.com.br/Por-uma-Greve-Geral-pelo-fim-da-escala-6x1?amp=1" href="https://www.esquerdadiario.com.br/Por-uma-Greve-Geral-pelo-fim-da-escala-6x1?amp=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">abaixo assinado</a> para isso. Garantindo a demonstração de toda a banalização possível que a esquerda estabelece nesse assunto. Assim, quando falam em decadência de uma luta, não é responsabilidade desse setor (trabalhadores em precarização), é das relações capitalistas e da esquerda, com suas instituições e intelectuais. São parte de uma sociedade, que estamos participando e construindo resistência, aceitando todas as dificuldades. Por isso, alguns apontamentos, quando tendem a tirar a visão da realidade, para se entorpecer com alegorias teóricas, são tratados como mero barulho. Pois o ruído dos equipamentos, do falatório dos serviços, do esporro de chefes, dos áudios com fone de ouvido, da marcenaria do porão, são sempre mais altos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157216" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15.jpg" alt="" width="2500" height="1406" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15.jpg 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/invisiveiscaminho15-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2500px) 100vw, 2500px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong><em>“1978: Em junho e julho os metalúrgicos de São Paulo cruzam os braços, reivindicando 20% de aumento e melhoria das condições de trabalho. (…) A Oposição Metalúrgica de São Paulo destaca-se na organização do movimento grevista. (…) Em Novembro, 250 mil metalúrgicos voltam a paralisar o trabalho, reivindicando 70% de aumento e o reconhecimento das Comissões de Fábrica. Após dois dias de greve, a diretoria do sindicato impõe a aceitação do acordo. Logo após o término do movimento são demitidos 1200 trabalhadores, em sua maioria pertencentes às Comissões de Fábricas formadas no meio do ano, sem que o Sindicato mobilizasse a categoria para enfrentar as demissões” </em>página 15, “Cadernos do Trabalhador n°4”, “Oposição Sindical, 1982”, “Nas Raízes da Democracia Operária (História da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo)”, de Grupo de Educação Popular do Instituto de Planejamento Regional e Urbano da PUC &#8211; São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> “Após a greve de 1979, os pelegos do sindicato e seus aliados políticos do Partido Comunista e &#8216;Hora do Povo&#8217; estavam dispostos a intimidar o conjunto da Oposição. No final do ano, na saída de uma assembléia de prestação de contas do sindicato, fomos agredidos à correntadas por partidários do jornal &#8216;Hora do Povo&#8217;.”, pag.63, Cadernos do Trabalhador nº 4, Nas Raízes da Democracia Operária (A História da Oposição Sindical Metalúrgica).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> “A UERJ e o governo do Estado podem aqui representar a “grande corporação”, que agiram e agem como os reguladores da gestão de um trabalho, que é precário e explorado com rigidez para o lucro particular. Mantendo uma gerência racional, que preza pela harmonia dos negócios, priorizando o controle e disciplina da exploração em acordo com os proprietários. Passa pela apropriação privada de recursos públicos. Porém as unidades de produção, geridas normalmente por empresas, devem ser eficientes, respeitando um limite de garantias de contrato trabalhista, enquanto garantem a racionalidade de gastos estatais. Ou seja, na medida em que o poder público é cúmplice das atrocidades da Conquista, a sua ansiedade em lucrar e retirar valores dos trabalhadores até na rescisão de contrato, reflete seu comportamento de atrasar salários, sonegar reajustes, benefícios etc. Isso poderia estar normalizado e silenciado (invisível), mas é na mobilização entre funcionários denunciando e publicando com o Invisíveis que isso tende a se precipitar em protestos e greves. Constrangendo a empresa e também a administração pública. Portanto, é possível dizer que as atrocidades da Conquista estavam politizando a massa de trabalhadores e dando margem de atuação para o Invisíveis. Então, o Estado agir como grande corporação seria a intervenção dos gestores: regular a agressividade e burlas de direitos promovidas por uma empresa. E, assim, despolitizar a mobilização através de uma exploração baseada na intensificação da carga horária, mais do que na redução do salário e na degradação do trabalhador.”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> “A “Soll” entrou na exploração e gerenciamento dos terceirizados da limpeza como o “reino da banalidade” exigida pelo comportamento de “grande corporação” da UERJ. O que isso significa? É que para despolitizar a relação de trabalho, diferente do que a Conquista fazia, a nova empresa chegou dando salários e benefícios em dia, mas intensificou o trabalho. Como? Limitando o tempo de café da manhã, acabando com as escalas alternadas (dia sim e dia não nos sábados), ampliando mais 1 hora na saída, ou até detalhes percebidos por terceirizados: distribuição de capas de chuva e chapéus para proteção solar, para que trabalhem em local aberto. Ou a proibição de sair com uniforme, para evitar atrasos no retorno de intervalos. Ou até a bota que machuca o pé, onde a “Soll” burocratiza a troca exigindo laudo médico. Todas essas medidas não afetam ou burlam um direito trabalhista específico, mas garantem a intensificação do trabalho e a “banalização” das reclamações dos trabalhadores. Recebemos muitos relatos de que a resposta de encarregados (chefes) e supervisores da empresa diante da reclamação de terceirizados foi: “A gente cobra, mas paga direitinho” ou “não gosta de trabalhar aqui, é só pedir demissão”.”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> “Segundo tais conceitos, o “operário social” sucede o “trabalhador-massa”. Como tal, o operário social não está mais acantonado nas usinas, mas presente em toda a sociedade. Trata-se de jovens, estudantes proletarizados, desempregados, excluídos do reino do trabalho e, ao mesmo tempo, indiferentes ao trabalho e à luta sindical. São definidos como rejeitadores dos valores da civilização industrial, da cultura do trabalho e do progresso pela indústria. O trabalhador social deseja satisfazer suas necessidades imediatamente e não crê mais no esforço que lhe asseguraria mais tarde, assim como não crê mais no militantismo do “amanhã que canta”. Ele é um agente central das lutas do amanhã, pois é explorado mais do que qualquer outro.” do texto <a class="urlextern" title="https://www.glacedicoes.com/post/os-autonomos-na-franca-jean-baptiste-casanova" href="https://www.glacedicoes.com/post/os-autonomos-na-franca-jean-baptiste-casanova" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">OS AUTÔNOMOS NA FRANÇA PÓS MAIO DE 68 &#8211; Jean-Baptiste Casanova.</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/08/157325/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>4</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Precisamos usar mais o Fediverso</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/08/157230/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/08/157230/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Aug 2025 03:05:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157230</guid>

					<description><![CDATA[Redes descentralizadas nas mãos de cidadãos, com as do Fediverso, são uma forma de diminuir problemas com possíveis interrupções arbitrárias. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana [1]</h3>
<p style="text-align: justify;">As redes sociais têm influenciado a geopolítica internacional de tal modo que nos força a considerar as relações internacionais nas nossas discussões tecnológicas, de modo quase obrigatório. Além da segurança técnica de dados, como fazer <em>backup</em>, até questões jurídicas locais como a Lei Geral de Proteção de Dados, precisamos considerar as tentativas de interferência internacional como as sanções a Ministros do Supremo Tribunal Federal e aplicação de tarifas por questões políticas arbitrárias e unilaterais que visam ferir a soberania do Brasil. Na atual configuração tecnológica mundial, o Brasil também não tem soberania tecnológica pois muitos dos serviços em nuvem computacional estão com os dados armazenados em outros países, e para saber como isso nos afeta é só lembrar um ou outro dia que houve problemas em servidores de nomes DNS quando muitos serviços, como os do Google, ficaram indisponíveis por questões puramente técnicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de um boicote digital por outros países é baixíssima mas não nula, e se torna preocupante quando percebemos um líder de um único país prejudicar outras nações somente com uma caneta na mão. Na prática, nenhuma empresa quer ter seus serviços interrompidos em qualquer país pois uma interrupção arbitrária afetaria a confiança no uso de serviços digitais em empresas estrangeiras, o quê pode representar uma perda de clientes e capital em longo prazo, ou seja, na prática o interesse de lucro também protege o funcionamento desses serviços digitais e não precisamos entrar em paranóia por conta disso. Mesmo assim, é sempre importante buscar modos de vida digital alternativa para que num eventual abuso de poder não sejamos prejudicados nem por um dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso é também uma questão de retenção de dados pessoais nesses serviços, incluindo as redes sociais, que já conseguem ter toda nossa vida privada guardada em seus servidores (muitas vezes somente neles) &#8211; e esses serviços são feitos para serem assim. É evidente que serviços em nuvem proporcionam muita comodidade em segurança de dados, mas gera um ponto de falha muito importante que é a possibilidade de proibição de acesso por ser tecnicamente centralizado. Aqui vale retomar a discussão feita no artigo “A importância das redes federadas públicas” [2] e relembrar que redes descentralizadas nas mãos de cidadãos, com as do Fediverso, são uma forma de diminuir problemas com possíveis interrupções arbitrárias porque desestimulam qualquer ação negativa pela complexidade da descentralização.</p>
<p style="text-align: justify;">Os serviços digitais contam com diversas técnicas computacionais para continuarem funcionando independente do problema, podendo até ser um ataque cibernético. No entanto, há um tipo de problema que pode parar qualquer serviço, chamado de ordem executiva ou judicial quando esta é abrangente demais. Isso nem de longe é o quê acontece no Brasil, pois existe um processo histórico de ordens do STF para conteúdos específicos que foram desrespeitadas, caracterizando o desrespeito de empresas à Lei brasileira, portanto, totalmente legítimo. O quê vemos nesse momento da história é o poder executivo estadunidense aplicar tarifas arbitrárias baseada em mentiras que lhe são convenientes e atacar também uma tecnologia brasileira, o PIX, como se o Brasil não tivesse soberania para desenvolver suas próprias tecnologias. Esse exemplo sugere que é muito fácil uma única pessoa atacar tecnologias e desconectar países alegando, por exemplo, questões de segurança. No meu trabalho utilizamos ambientes em nuvem que estão hospedados fora do Brasil, uma atitude dessa poderia prejudicar a Educação brasileira, e como vimos também a perseguição a estudantes nos Estados Unidos por exercerem sua liberdade de expressão em redes sociais, não há mais porque desconsiderar que haveria algum escrúpulo em se tentar uma manobra dessa, por mais remoto que parece ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, as redes federadas tornam esses atos unilaterais mais difíceis pois seria necessário muito esforço para fechar serviços em diversos países, e mesmo que um ou outro fique isolado ainda será possível que a rede funcione internamente, desde que os dados necessários ao funcionamento também estejam no país. Serviços como o Signal, apesar de serem confiáveis, têm na centralização de servidores um grave ponto de falha na geopolítica atual, e por isso precisamos refletir e começar a usar mais serviços como XMPP, por ser um serviço de mensagens rápidas descentralizado. Faz tempo que não uso esse serviço e pode até que o Signal seja mais prático de usar, mas é necessário que tenhamos serviços que funcionam como redundância de comunicação quando for necessário, mesmo que deem um pouquinho mais de trabalho para configurar ou usar. Aumentar o uso de redes federadas e diminuir o de redes sociais empresariais pode inclusive funcionar como um recado da sociedade civil dizendo que não está gostando do que está acontecendo, que não é tonta e que quer respeito. Particularmente, acredito que o Fediverso seja um caminho inevitável para uma humanidade mais justa pois as empresas sempre criarão novas técnicas para atender seus interesses de concentração de dados e riqueza dela e de seus acionistas, e toda hora governos sérios terão que criar novas legislações numa eterna e muito cansativa corrida pelo cumprimento das leis; a não ser que milagrosamente as empresas assumam sua responsabilidade como grandes publicadoras de conteúdo e que aceitem leis com esse teor.</p>
<p style="text-align: justify;">O tema é extenso e o momento é para ação. Como forma de ampliarmos o uso do Fediverso, vamos focar no XMPP nas tarefas sugeridas para as próximas semanas:</p>
<ul>
<li>semana 1: pesquise sobre sobre o XMPP na Wikipedia e outros locais;</li>
<li>semana 2: pesquise e instale programas, veja &lt;<a href="https://xmpp.org/getting-started/" target="_blank" rel="noopener">https://xmpp.org/getting-started/</a>&gt;;</li>
<li>semana 3: pesquise e crie conta em algum provedor XMPP, veja &lt;<a href="https://providers.xmpp.net/" target="_blank" rel="noopener">https://providers.xmpp.net/</a>&gt;;</li>
<li>semana 4: utilize criptografia ponta-a-ponta no aplicativo escolhido, o recurso OTR é um dos protocolos mais tradicionais para isso.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Também vou retomar o uso do XMPP, e voltaremos a falar sobre ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Bora pro Fediverso!</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p><strong>[1] </strong>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
<p><strong>[2]</strong> <a href="https://passapalavra.info/2023/01/147005/" target="_blank" rel="noopener">https://passapalavra.info/2023/01/147005/</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/08/157230/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>The Tax Driver</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/07/156936/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/07/156936/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Jul 2025 11:53:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=156936</guid>

					<description><![CDATA[Donald, o homem que não mudou o mundo.  Por Charles júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Charles júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: right;">“O crescimento do emprego na indústria se acelerou no país em seus primeiros três anos na Casa Branca, somando quase 500 mil vagas”</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3></h3>
<p>O ovo vem antes ou depois da galinha?</p>
<p style="text-align: justify;">Perguntinha simplória, né meus lindus? Mas, quando não se tem o arcabouço científico adequado, a coisa encrenca, nos detalhes da vida cotidiana, até os caminhos tortuosos dos donos do planeta e do modo de produção totalizante. Somos da posição que, para analisar a luta de classes mundial (entre as classes e intra burguesa), só economia política dos trabalhadores desvela com precisão os detalhes sórdidos do jogo<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>. Muito porque, ao contrário de nós, quem está jogando esconde bem suas cartas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Nesses sete meses expondo nossa produção, uma das coisas que temos tentado apresentar é que quase nada nesse mundo organizado a partir do modo de produção capitalista é por acaso. Principalmente a escolha do gestor do Estado nacional burguês mais poderoso na produção de mais-valia e de armas que já existiu. E, principalmente, que o momento da economia mundial é delicado, que ainda não há crise nos EUA e que quando ela chegar não será um raio caído em céu azul ou devido a atividades “políticas” do seu gestor, mas sim de superprodução de valor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Há uns meses pontuamos as promessas de Trump e adiantamos que a burguesia local não estava nada interessada em algumas insanidades. Convenhamos, ele é um bom artista, entretanto os entraves da economia reguladora do planeta são uma coisa muito séria para aventureiros e isso ele não é. Mas Donald, o Trump, sabe bem disso. A 1ª bala passou raspando, e sabemos bem que ajustes podem ser feitos. Mas, vamos ao que interessa, porque de louco e herói todo Trump tem um pouco, CHAMA!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sim, as taxas, voltemos as taxas, essa novidade tão requentada. Vamos iniciar com um artigo do economista Rafael Cabral Maia para o Diplomatique, sobre a história econômica dos EUA<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>. Em sua conclusão, ele afirma que:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="padding-left: 40px;">“<strong>Os Estados Unidos são um país construído sim com ajuda da sociedade , dos imigrantes e dos empreendedores [aqui ele quer dizer trabalho, trabalhadores e muita exploração do homem pelo homem, sic], mas com muita participação do Estado e do orçamento federal e mais alinhamento prático com a visão econômica de Keynes do que com iniciativas governamentais de promoção do livre mercado.   </strong></p>
<p style="padding-left: 40px; text-align: justify;"><strong>A confusão política atual assimilada pelo senso comum a respeito do alinhamento americano com a política neoliberal pode ser fruto tanto da propaganda exercida por FMI, Banco Mundial e pelo próprio governo dos Estados Unidos quanto à emergência de medidas de liberalização econômica nos países em desenvolvimento na década de 1980 quanto pela miscelânea de discursos equivocados que parte da liderança política mundial dissemina atualmente pelas redes sociais, cientes ou não dos fatos históricos da América e que em grande parte servem ao reforço da polarização entre aqueles que são pró-mercado e os que defendem maior participação do Estado, mas que em nada contribuem para o crescimento da reflexão econômica.”</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Voltando um cadim no texto e na história, temos a seguinte constatação:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="padding-left: 40px;">“… <strong>as barreiras tarifárias nos Estados Unidos visando à proteção de sua indústria nascente chegavam a 45% em 1820 e foram de até 48% em 1931 e só a partir de 1950, com uma indústria já desenvolvida e as forças geopolíticas e econômicas consolidadas, começam a diminuir…”</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida, Rafael mapeia o histórico da interferência estatal na economia através das medidas de cada presidente norte-americano até Biden. No histórico nos mostra desde presidentes que ganharam as eleições com um discurso liberal anti-intervencionismo — Nixon e George Bush pai (que logo caíram na real iniciando a injeção de recursos), até os defensores da prática intervencionista.</p>
<p style="text-align: justify;">O resumo da ópera é que desde Alexander Hamilton, o pai da teoria protecionista moderna e primeiro secretário do Tesouro estadunidense, entre 1789 e 1795, os EUA são protecionistas e intervencionistas, utilizam tarifas e incentivos em sua economia, ou seja, visando suas empresas e produtores rurais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vamos mais a fundo, só para mostrar que o nosso Travis Bickle da Casa Branca veio pronto para todo tipo de guerra: das tarifas, das narrativas, das bombas e qualquer outra que se apresente contra seu chamado: salvar seus chefes ou, pelo menos, tentar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4>O 1⁠º reinado das Tarifas de Donald Travis Bickle, o Trump</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156938" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.24.08.png" alt="" width="572" height="399" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.24.08.png 572w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.24.08-300x209.png 300w" sizes="auto, (max-width: 572px) 100vw, 572px" /></p>
<p>As principais<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a> promessas para inglês ver:</p>
<p>&nbsp;</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;">O Muro na Fronteira: quem não lembra do muro na fronteira com o México! Até vaquinhas para o tal muro foram feitas.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a></li>
<li style="text-align: justify;">Deportação de imigrantes sem documentos: sua taxa de deportação foi menor que a de Biden e de Obama.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a></li>
<li style="text-align: justify;">Veto total aos muçulmanos: passou de veto a exame minucioso.</li>
<li style="text-align: justify;">Revogação e substituição do Obamacare.</li>
<li style="text-align: justify;">Distanciamento da OTAN.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Em levantamento minucioso, o site <a href="https://www.politifact.com/" target="_blank" rel="noopener">politifact.com</a> levantou que Trump descumpriu 53% das promessas, efetuou parcialmente 23% e cumpriu integralmente 22% no primeiro mandato.</p>
<p>Agora vamos ao que foi pra valer, as tarifas:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">Os EUA impuseram tarifas sobre US$ 250 bilhões em produtos chineses em 2018. Pequim retaliou com taxas sobre US$ 110 bilhões em mercadorias americanas. A partir de junho, a taxa também mais que dobra — de 10% para 20% ou 25% — sobre US$ 60 bilhões em mercadorias dos EUA, a exemplo de cervejas, roupas e gás natural liquefeito. O governo dos EUA também quer exportar mais para conter seu elevado <strong>déficit comercial com a China (que em 2018 era de US$ 419 bilhões, já em 2024 de US$ 295,4 bilhões).</strong></li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p>Das tarifas sobre as importações do México, do Canadá e da União Europeia.</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Canadá impôs tarifas sobre US$ 12,6 bi em mercadorias dos EUA</li>
<li style="text-align: justify;">A União Europeia aplicou tarifas de 25% sobre US$ 2,8 bi em mercadorias dos EUA,</li>
<li style="text-align: justify;">O México impôs tarifas de 25% sobre aço, carne suína, queijo, batata e maçã dos EUA,</li>
<li style="text-align: justify;">A Turquia triplicou o imposto sobre produtos dos EUA, após os EUA dobrar tarifas sobre aço e alumínio.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p>E o resultado?</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">Uma análise feita pela CNBC sobre os dados do Departamento do Tesouro classifica a receita combinada de US$ 72 bilhões de todas as tarifas do presidente como um dos maiores aumentos de impostos desde 1993<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a>. O 5⁰ maior aumento de imposto da história dos EUA.</li>
<li style="text-align: justify;">Aumentos substanciais nos preços de produtos intermediários e finais, mudanças drásticas em sua rede de cadeia de suprimentos, reduções na disponibilidade de variedades importadas e o repasse completo das tarifas para os preços domésticos de produtos importados<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>.</li>
<li style="text-align: justify;">Após contabilizar a receita tarifária e os ganhos para os produtores nacionais, a perda agregada de renda real foi de US$ 7,2 bilhões, ou 0,04% do PIB. As tarifas de importação favoreceram setores concentrados em condados politicamente competitivos, e o modelo implica que os trabalhadores do setor comercializável em condados fortemente republicanos foram os mais afetados negativamente devido às tarifas retaliatórias<a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a>. Portanto, a incidência total das tarifas recaiu sobre consumidores e importadores domésticos até o momento, e nossas estimativas implicam uma redução na renda real agregada dos EUA de US$ 1,4 bilhão por mês até o final de 2018.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas há uns pequenos detalhes que ficam quase sempre de fora, o crescimento do emprego e da indústria, coisa simples:</p>
<p style="padding-left: 40px; text-align: justify;">«O crescimento do emprego na indústria se acelerou no país em seus primeiros três anos na Casa Branca, somando quase 500 mil vagas, mas os grandes beneficiados não foram os centros tradicionais, e sim os polos manufatureiros mais avançados, apontando para a difícil tarefa de “devolver a grandeza” para um setor em um mundo transformado pela globalização.</p>
<p style="padding-left: 40px; text-align: justify;">Por exemplo, dos 20 condados que registraram os maiores aumentos de 2016 a 2018, quatro são na Califórnia, quatro no Texas, dois na Flórida e três em Michigan, sendo o único pertencente ao chamado “cinturão industrial”, segundo análise do centro de estudos Economic Innovation Group.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a>»</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Junto ao crescimento do emprego, o mais próximo que a economia dos EUA chegou de ultrapassar os patamares de produção pré-2008 foram com Trump. No gráfico abaixo selecionamos alguns indicadores de produção mais relevantes</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156943" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.08.png" alt="" width="766" height="265" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.08.png 766w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.08-300x104.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.08-640x221.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.08-681x236.png 681w" sizes="auto, (max-width: 766px) 100vw, 766px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O que pouco se considera é que os EUA não precisam trazer fábricas de volta, eles já as têm e precisam é mantê-las e ampliá-las: O “Rust Belt” (Cinturão da Ferrugem)<a href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a>, região histórica, localizada no Nordeste e Meio-Oeste, ao redor dos Grandes Lagos. Obama e Biden também priorizaram estas regiões e só se alçaram à Casa Branca a partir de promessas a esses trabalhadores e esses burgueses, além, claro, de manter as mesmas tarifas (James David Vance, o vice de Trump em 2025, é dessa região).</p>
<p style="text-align: justify;">Os EUA são o 4⁰ maior produtor bruto de aço, atrás só de China, Japão e Índia. O Brasil é o 9⁰ e o 2⁰ que mais exporta para os EUA<a href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a>. Matéria-prima direta em setores como defesa, infraestrutura, naval, construção e automotiva, a siderurgia é uma indústria estratégica e nos EUA tem um forte componente da composição da classe trabalhadora. Historicamente é um setor que aceitava trabalhadores pretos<a href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a>. Ali os sindicatos têm peso e são bem corporativos. Há uma concorrência direta com a China. Já o Brasil exporta produtos semi acabados para serem finalizados nos EUA ou no México. Um dia, quem sabe, escreveremos um material específico sobre o tema. Por hoje, há um pouco disso em outro texto nosso.<a href="#_ftn13" name="_ftnref13">[13]</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<h4>O segundo reino de Donald Travis Bickle, o Trump</h4>
<h5><strong>Mais intenso e mais necessário</strong></h5>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156939" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.16.png" alt="" width="573" height="283" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.16.png 573w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.16-300x148.png 300w" sizes="auto, (max-width: 573px) 100vw, 573px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A promessa foi grande, o teatro maior ainda. No início do mandato, Trump coloca 10% de tarifa sobre os produtos chineses e o governo chinês retalia  com tarifas entre 10% e 15%<a href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a>. No dia 02 de abril, Trump aplicou tarifas contra 185 países, dia que ficou conhecido como o “Dia da Libertação” <a href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a> <a href="#_ftn16" name="_ftnref16">[16]</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Após as bombásticas apresentações de tarifas por Travis, cravamos esta aqui:</p>
<p style="padding-left: 40px; text-align: justify;">“Ao contrário do que tagarela, Trump convidou Xi Jinping para sua posse, sinalizando um acordo entre cavalheiros. Muito porque, além da desvalorização das principais empresas, segundo a Bloomberg, esta simples medida pode reduzir a participação dos EUA no comércio mundial de 20% para 16% até 2028 e aumentar a inflação. <strong>E isto será impossível de ser aceito pelos reis das minas e das fornalhas.”[grifo nosso]<a href="#_ftn17" name="_ftnref17">[17]</a></strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156940" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.25.png" alt="" width="263" height="313" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.25.png 263w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.25-252x300.png 252w" sizes="auto, (max-width: 263px) 100vw, 263px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Poucos dias depois, Trump anuncia uma lista de produtos que não serão tarifados, como celulares, computadores, semicondutores, chips de memória, monitores de tela plana, etc. Beneficiando principalmente as grandes empresas de eletrônicos e tecnologia da informação, as chamadas Big Techs.<a href="#_ftn18" name="_ftnref18">[18]</a></p>
<p style="text-align: justify;">Após o anúncio das tarifas, elas foram suspensas por 90 dias para realização de acordos bilaterais com os países. O prazo se encerrará em 9 de julho e até o momento (início de julho), somente dois acordos foram realizados.<a href="#_ftn19" name="_ftnref19">[19]</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;">Reino Unido: os EUA mantiveram uma tarifa de 10% sobre os produtos britânicos importados. O Reino Unido reduziu as taxas sobre os produtos americanos de 5,1% para 1,8%, além de ampliar o acesso dos EUA aos seus mercados.</li>
<li style="text-align: justify;">China: o tratado determinou uma taxa de 10% da China sobre os produtos americanos; e uma tarifa de 55% ao que os EUA importam dos chineses. Também suspendeu as tarifas de softwares de design<a href="#_ftn20" name="_ftnref20">[20]</a></li>
<li style="text-align: justify;">Brasil<a href="#_ftn21" name="_ftnref21">[21]</a>: sem acordo firmado, Trump anunciou nesta quarta-feira, 9, “tarifas de 50% sobre produtos importados do Brasil. As tarifas passarão a valer a partir do dia 1º de agosto<a href="#_ftn22" name="_ftnref22">[22]</a>.</li>
<li style="text-align: justify;">“Argélia, Líbia, Iraque e Sri Lanka divulgou a taxa de 30%, 25% sobre produtos de Brunei e Moldávia e uma taxa de 20% sobre produtos das Filipinas.<a href="#_ftn23" name="_ftnref23">[23]</a>”</li>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">E mais recentemente o governo americano anunciou a elevação das tarifas sob o aço e o alumínio de 25% para 50%, sendo os principais atingidos Brasil, México e Canadá.  As importações de aço e alumínio representam 25% e 50% do total consumido nos EUA, respectivamente. As tarifas na importação de alumínio e aço tem uma importância política fundamental tratadas acima<a href="#_ftn24" name="_ftnref24">[24]</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Resumidamente, o anúncio de Trump marcou somente uma nova negociação das tarifas de importação para seus setores estratégicos. Proteger suas indústrias estratégicas para fora da crise que se avizinha, nada de novo para a maior democracia do mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4>O que pode e o que não pode</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156941" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.36.png" alt="" width="644" height="362" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.36.png 644w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.36-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.36-640x360.png 640w" sizes="auto, (max-width: 644px) 100vw, 644px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Podemos sintetizar que as tarifas estão direcionadas principalmente a alguns setores da economia americana, em suas principais cadeias de produção,  além do objetivo mais geral  de arrecadar  divisas  para diminuir o déficit do orçamento. Elas visam proteger setores da economia, como as indústrias produtoras de bens não duráveis e a siderurgia, que contribuem para a governabilidade interna e o projeto político do MAGA.</p>
<p style="text-align: justify;">Não nos enganemos com vai e vem dos cassinos apelidados de bolsas de valores, com o desespero de quem foi taxado e sobre a qualidade dos economistas estadunidenses. O presidente do FED, Jerome Powell, tem seu valor e Trump não escolhe seus assessores na esquina de casa. Eles sabem que o trem vai estourar mais dia menos dia e a tentativa é uma retomada da economia após exportar a crise para o resto do mundo ou, no mínimo, uma aterrissagem regulada. Dissemos tentativa!</p>
<p style="text-align: justify;">Argumentos que mecanicamente imputam a política protecionista, o inchaço de setores industriais, ineficiência, aumento dos custos e perda de competitividade caem por terra<a href="#_ftn25" name="_ftnref25">[25]</a>. Muito porque, a concorrência no maior mercado do mundo (25%) é brutal o suficiente para impor avanços tecnológicos em toda cadeia global e potencializar a acumulação de capital. Outra política que tem ajudado é o arrefecimento do “strong dollar<a href="#_ftn26" name="_ftnref26">[26]</a><a href="#_ftn27" name="_ftnref27">[27]</a>”: encarece os preços dos concorrentes estrangeiros e barateia os preços dos que vão exportar. É o salve-se quem puder, protecionismo econômico e exportação da crise, que tem dado certo para os EUA (lembremos dos dados da Europa penúltimo material<a href="#_ftn28" name="_ftnref28">[28]</a>) e arrefecido o momento de baixa que estão.</p>
<p style="text-align: justify;">É o fim da globalização? Por que isso é tão impossível? Esse tudo ou nada nos parece sensacionalista.  A globalização foi a resposta encontrada para saída da crise cíclica na década de 1970. <strong>Será o fim de uma era? Mais provável que seja a adaptação para uma nova, muito porque o capitalismo se renova para tentar suplantar os patamares de acumulação de Capital do ciclo anterior.</strong> A exemplo, a Índia havia conseguido satisfazer 18% da demanda global por iPhones no início deste ano, dois anos depois que a Foxconn começou a fabricar os celulares no país. Até o final de 2025 a previsão é de que a empresa monte de 25% e 30% dos iPhones na Índia.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao que tudo indica, a China  já não é mais a queridinha dos capitalistas e a Índia aparece  como a nova vedete dos investimentos das imundas cadeias globais de produção, como já podemos ver no 2025 World Investment Report da United Nations20, tema que trataremos em breve:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="padding-left: 40px; text-align: justify;"><strong>A Ásia continuou sendo a principal região receptora, apesar de um declínio geral de 3% e uma queda de 29% nos fluxos para a China. O Sudeste Asiático se destacou, com um aumento de 10% nos países da ASEAN, atingindo um recorde de US$ 225 bilhões em IED. A Índia registrou um forte impulso nos investimentos em novos projetos, mesmo com uma leve queda no total de fluxos.</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156944" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.47-1.png" alt="" width="762" height="431" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.47-1.png 762w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.47-1-300x170.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.47-1-743x420.png 743w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.47-1-640x362.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Captura-de-Tela-2025-07-14-as-18.27.47-1-681x385.png 681w" sizes="auto, (max-width: 762px) 100vw, 762px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Nota: no dia de enviarmos este trabalhoso boletim, Travis Trump envia sua carta a vários governos. A do Brasil se destacou com tarifas de 50%, impactando 15% das exportações brasileiras, ou 2% do Produto Interno Bruto. Uma bela pancada em setores da siderurgia e do agro. Chamados de mafiosos e irresponsáveis pelo tabloide da CNI<a href="#_ftn29" name="_ftnref29">[29]</a> a extrema direita no Brasil assistirá outro ganho de popularidade dos Keynesianos/pseudo-marxistas na campanha eleitoral para 2026, primeiro com a campanha por justiça social (jornada 6&#215;1 e pela taxação dos “ricos”), agora com o nacionalismo, ou seja, “<em>The tax”</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4>Notas</h4>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> O que não afasta a possibilidade do erro ou equívoco nas análises.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a><a href="https://diplomatique.org.br/protecionismo-deficits-e-intervencao-estatal-na-economia-dos-estados-unidos/" target="_blank" rel="noopener"> https://diplomatique.org.br/protecionismo-deficits-e-intervencao-estatal-na-economia-dos-estados-unidos/</a></p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> <a href="https://www.politifact.com/truth-o-meter/promises/trumpometer/?ruling=true" target="_blank" rel="noopener">https://www.politifact.com/truth-o-meter/promises/trumpometer/?ruling=true</a></p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a><a href="https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/02/11/ex-assessor-de-trump-bannon-se-declara-culpado-de-fraude-no-caso-de-muro-na-fronteira-com-mexico.ghtml" target="_blank" rel="noopener">https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/02/11/ex-assessor-de-trump-bannon-se-declara-culpado-de-fraude-no-caso-de-muro-na-fronteira-com-mexico.ghtml</a></p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/numero-de-deportacoes-sob-trump-e-menor-do-que-durante-administracao-obama/" target="_blank" rel="noopener">https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/numero-de-deportacoes-sob-trump-e-menor-do-que-durante-administracao-obama/</a></p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a><a href="https://www.cnbc.com/2019/05/16/trumps-tariffs-are-equivalent-to-one-of-the-largest-tax-increases-in-decades.html" target="_blank" rel="noopener">https://www.cnbc.com/2019/05/16/trumps-tariffs-are-equivalent-to-one-of-the-largest-tax-increases-in-decades.html</a></p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> <a href="https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/jep.33.4.187" target="_blank" rel="noopener">https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/jep.33.4.187</a></p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a><a href="https://academic.oup.com/qje/article-abstract/135/1/1/5626442?redirectedFrom=fulltext&amp;login=false" target="_blank" rel="noopener">https://academic.oup.com/qje/article-abstract/135/1/1/5626442?redirectedFrom=fulltext&amp;login=false</a></p>
<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54640224" target="_blank" rel="noopener">https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54640224</a></p>
<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/cinturao-da-ferrugem-entenda-o-que-e-e-qual-a-importancia-dessa-area-dos-eua/" target="_blank" rel="noopener">https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/cinturao-da-ferrugem-entenda-o-que-e-e-qual-a-importancia-dessa-area-dos-eua/</a></p>
<p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/fernando-nakagawa/economia/macroeconomia/brasil-e-2o-fornecedor-de-aco-e-ferro-aos-eua-fatia-nunca-foi-tao-grande/" target="_blank" rel="noopener">https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/fernando-nakagawa/economia/macroeconomia/brasil-e-2o-fornecedor-de-aco-e-ferro-aos-eua-fatia-nunca-foi-tao-grande/</a></p>
<p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a> Afinal, é um trabalho sujo e perigoso — para mais informações ler nossa tradução das memórias de Noel Ignatiev, Acceptable man [Homem aceitável], em <a href="https://passapalavra.info/2022/01/141818/" target="_blank" rel="noopener">https://passapalavra.info/2022/01/141818/</a>) e também Hammer and Hoe: Alabama Communists during the Great Depression is a 1990 [Martelo e Enxada: Comunistas do Alabama durante a Grande Depressão], de Robin D. G. Kelley.</p>
<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13">[13]</a> Disponível em inglês em <a href="https://heatwavemag.info/blog/brazil-061825/" target="_blank" rel="noopener">https://heatwavemag.info/blog/brazil-061825/</a></p>
<p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/02/04/china-retalia-trump-e-impoe-tarifas-de-10percent-e-15percent-em-importacoes-de-produtos-dos-eua.ghtml" target="_blank" rel="noopener">https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/02/04/china-retalia-trump-e-impoe-tarifas-de-10percent-e-15percent-em-importacoes-de-produtos-dos-eua.ghtml</a></p>
<p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/04/02/tarifas-reciprocas-veja-a-lista-de-taxas-cobradas-pelos-eua-por-pais.ghtml" target="_blank" rel="noopener">https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/04/02/tarifas-reciprocas-veja-a-lista-de-taxas-cobradas-pelos-eua-por-pais.ghtml</a></p>
<p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16">[16]</a>Um estudo da organização apartidária Tax Foundation calculou no ano passado que uma tarifa universal de 10% — que acabou sendo a conclusão de Trump pelo período de 90 dias — geraria US$ 2 trilhões em aumento de receita para os próximos 10 anos. <a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/04/18/trump-tinha-5-metas-com-as-tarifas-ele-atingiu-alguma-delas.ghtml" target="_blank" rel="noopener">https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/04/18/trump-tinha-5-metas-com-as-tarifas-ele-atingiu-alguma-delas.ghtml</a></p>
<p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17">[17]</a><a href="https://passapalavra.info/2025/02/155840/" target="_blank" rel="noopener">https://passapalavra.info/2025/02/155840/</a></p>
<p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18">[18]</a><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/04/12/trump-isenta-celulares-e-computadores-de-tarifas-reciprocas.ghtml?utm_source=whatsapp&amp;utm_medium=canais&amp;utm_campaign=g1" target="_blank" rel="noopener">https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/04/12/trump-isenta-celulares-e-computadores-de-tarifas-reciprocas.ghtml?utm_source=whatsapp&amp;utm_medium=canais&amp;utm_campaign=g1</a></p>
<p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19">[19]</a><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/06/28/tarifaco-de-trump-a-dias-do-fim-da-tregua-eua-so-firmou-dois-acordos-comerciais-brasil-nao-e-um-deles.ghtml" target="_blank" rel="noopener">https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/06/28/tarifaco-de-trump-a-dias-do-fim-da-tregua-eua-so-firmou-dois-acordos-comerciais-brasil-nao-e-um-deles.ghtml</a></p>
<p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20">[20]</a> <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/eua-suspendem-restricoes-de-softwares-de-design-de-chips-e-etano-a-china/?utm_source=social&amp;utm_medium=facebook&amp;utm_campaign=macroeconomia&amp;fbclid=IwY2xjawLTaS9leHRuA2FlbQIxMQABHpJqITlBSroCBPl0avnuggx_2Qmn3iU-LCuyLPCrTb9YNz2eEanSlA3Z0d8h_aem_VRxr7G-tqyEQxqXWFUta6A" target="_blank" rel="noopener">https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/eua-suspendem-restricoes-de-softwares-de-design-de-chips-e-etano-a-china/?utm_source=social&amp;utm_medium=facebook&amp;utm_campaign=macroeconomia&amp;fbclid=IwY2xjawLTaS9leHRuA2FlbQIxMQABHpJqITlBSroCBPl0avnuggx_2Qmn3iU-LCuyLPCrTb9YNz2eEanSlA3Z0d8h_aem_VRxr7G-tqyEQxqXWFUta6A</a></p>
<p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21">[21]</a><a href="https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/07/06/brasil-e-eua-tentam-fechar-acordo-tarifario-antes-de-prazo-final-de-trump.htm" target="_blank" rel="noopener">https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/07/06/brasil-e-eua-tentam-fechar-acordo-tarifario-antes-de-prazo-final-de-trump.htm</a> e  <a href="https://www.estadao.com.br/economia/celso-ming/analise-trump-taxacao-50-brasil/" target="_blank" rel="noopener">https://www.estadao.com.br/economia/celso-ming/analise-trump-taxacao-50-brasil/</a></p>
<p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22">[22]</a><a href="https://www.estadao.com.br/economia/o-que-o-brasil-mais-exporta-para-os-estados-unidos-nprei/" target="_blank" rel="noopener">https://www.estadao.com.br/economia/o-que-o-brasil-mais-exporta-para-os-estados-unidos-nprei/</a></p>
<p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23">[23]</a><a href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-07-09/trump-unveils-latest-tariff-rates-with-the-philippines-at-20?srnd=homepage-americas&amp;embedded-checkout=true" target="_blank" rel="noopener">https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-07-09/trump-unveils-latest-tariff-rates-with-the-philippines-at-20?srnd=homepage-americas&amp;embedded-checkout=true</a></p>
<p><a href="#_ftnref24" name="_ftn24">[24]</a><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/06/04/tarifas-aco-e-aluminio-eua-impactos-brasil.ghtml" target="_blank" rel="noopener">https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/06/04/tarifas-aco-e-aluminio-eua-impactos-brasil.ghtml</a></p>
<p><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/cinturao-da-ferrugem-entenda-o-que-e-e-qual-a-importancia-dessa-area-dos-eua/" target="_blank" rel="noopener">https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/cinturao-da-ferrugem-entenda-o-que-e-e-qual-a-importancia-dessa-area-dos-eua/</a></p>
<p><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/cinturao-da-ferrugem-eleicao-eua-importancia/" target="_blank" rel="noopener">https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/cinturao-da-ferrugem-eleicao-eua-importancia/</a></p>
<p><a href="https://www.paulogala.com.br/a-historia-do-cinturao-da-ferrugem-nos-eua/" target="_blank" rel="noopener">https://www.paulogala.com.br/a-historia-do-cinturao-da-ferrugem-nos-eua/</a></p>
<p><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54640224" target="_blank" rel="noopener">https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54640224</a></p>
<p><a href="#_ftnref25" name="_ftn25">[25]</a><a href="https://br.investing.com/analysis/trump-e-o-protecionismo-licoes-do-passado-e-implicacoes-para-o-futuro-200468840" target="_blank" rel="noopener">https://br.investing.com/analysis/trump-e-o-protecionismo-licoes-do-passado-e-implicacoes-para-o-futuro-200468840</a></p>
<p><a href="#_ftnref26" name="_ftn26">[26]</a><a href="https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/06/25/dolar---2025.htm#:~:text=Dólar acumula queda de 10,o comando da Casa Branca" target="_blank" rel="noopener">https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/06/25/dolar&#8212;2025.htm#:~:text=D%C3%B3lar%20acumula%20queda%20de%2010,o%20comando%20da%20Casa%20Branca.</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref27" name="_ftn27">[27]</a><a href="https://exame.com/invest/mercados/dolar-tem-pior-comeco-de-ano-em-mais-de-cinco-decadas-o-que-esperar-para-o-2o-semestre/" target="_blank" rel="noopener">https://exame.com/invest/mercados/dolar-tem-pior-comeco-de-ano-em-mais-de-cinco-decadas-o-que-esperar-para-o-2o-semestre/</a></p>
<p><a href="#_ftnref28" name="_ftn28">[28]</a> <a href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="noopener">https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/</a></p>
<p><a href="#_ftnref29" name="_ftn29">[29]</a> <a href="https://www.estadao.com.br/opiniao/coisa-de-mafiosos/" target="_blank" rel="noopener">https://www.estadao.com.br/opiniao/coisa-de-mafiosos/</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/07/156936/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>4</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>[Brasil] Por uma marcha Nacional pela Tarifa Zero em Outubro de 2025</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/07/156923/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/07/156923/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Jul 2025 11:21:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=156923</guid>

					<description><![CDATA[Convidamos geral a lutar pela Tarifa Zero no  transporte de todo Brasil. Por Movimento Passe Livre]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Movimento Passe Livre</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><b>Resumo: </b>convidamos organizações de todo Brasil pra manifestações nacionais pela tarifa  zero. Faremos campanha popular pra conquistar a mobilidade paga pelos ricos e controlada  pelo povo em todo Brasil. Teremos ações desde junho até novembro, à qual convidamos  sua organização a aderir. Nossa tarefa é conquistar nosso modelo pelo poder popular, com  empresas públicas, gestão popular e ótimas condições de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;"><i>A todas pessoas que usam transporte coletivo </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>A todas pessoas que trabalham no transporte coletivo </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>Às organizações da mobilidade, </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>Às organizações da esquerda brasileira e internacional, </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>Aos movimentos sociais, </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>Às mulheres, população negra, LGBTQIA+, habitantes das periferias Às crianças, idosas, ciclistas, </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>A todo mundo que trabalha em jornadas horríveis com salários escrotos A toda classe trabalhadora e suas organizações </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>A Parlamentares municipais, estaduais e federais </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>A todo mundo que acredita na necessidade da construção do transporte como direito de  fato </i></p>
<p style="text-align: justify;"><i>Enfim, a toda comunidade catraqueira. É nóis </i></p>
<p style="text-align: justify;">Vamos marchar, vamos pressionar, vamos lutar. Que tal?</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>Começar a fortalecer uma articulação nacional</li>
<li>Várias atividades locais nos próximos meses</li>
<li>Uma marcha nacional em Outubro de 2025</li>
<li>Ações Internacionais em Novembro de 2025</li>
</ul>
<h4 style="text-align: justify;"><b>Uma pauta Nossa </b></h4>
<p style="text-align: justify;">A conjuntura atual é favorável à Tarifa Zero. Cada vez mais municípios estão  implementando a política de forma total ou parcial criando espaços institucionais e sociais  de debate sobre o fim da tarifa como forma de financiamento do transporte coletivo. O  Passe Livre Universal é uma conquista que se expande num momento de ataque  generalizado aos nossos direitos, sobretudo porque é uma pauta popular: pesquisa recente  <strong>[1]</strong> informa que 86,7% da população é favorável ao financiamento público dos transportes;  60% apoiam a Tarifa Zero Universal e 21,8% defendem passe livre para grupos específicos  (CNT, 2024).</p>
<p style="text-align: justify;">Foram décadas de trabalho de base, luta social e mobilização nas ruas para que a  Tarifa Zero torne-se uma realidade possível. Não foi por meio de conchavos politico empresaiais ou números engravatados de orçamentos em seminários. Trata-se de uma  construção coletiva dos de baixo.</p>
<p style="text-align: justify;">O cenário institucional da disputa está em aberto. A partir de 2015, como  consequência das lutas sociais e levantes de rua, o transporte foi inserido na constituição  como direito social constitucional. A regulamentação deste direito, porém, ainda não  ocorreu. Há um projeto de emenda constitucional que defende a criação do Sistema Único  de Mobilidade com tarifa zero, alguns projetos de lei que criam subsidios pras empresas  sem tarifa zero e um marco regulatório do transporte que melhora a gestão mas não garante  melhorias do serviço.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><b>Eles querem se apropriar de nosso esforço </b></h4>
<p style="text-align: justify;">No entanto, apesar do grande crescimento de cidades com Tarifa Zero nos  transportes, a forma como esse processo está se dando enfrenta várias contradições. Ao  mesmo tempo em que o direito social se amplia, o sistema de transporte brasileiro enfrenta  uma grave crise de financiamento. Ela é fruto do modelo exploratório da mobilidade,  baseado nas tarifas (cada vez mais caras) pagas pela parcela mais pobre da sociedade. A  classe trabalhadora está com salários menores, crescentemente na informalidade e  adoecida pelas jornadas precárias. Esse cenário gerou uma redução de 41% no número de  passageiros nsas últimas décadas<strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Além de aumentar tarifas, as empresas pioraram os serviços: cortaram linhas,  lotaram os veículos, aumentaram o desconforto, reduziram manutenções. Tudo isso pra  aumentar seus lucros. Dados recentes demonstram que 21% de quem trabalha gasta até  duas horas dentro de transporte público para chegar ao do trabalho, 7% passam até 3 horas  e 8% ficam mais de 3 horas no buzão, trem ou metrô (CNT, 2023) <strong>[3]</strong>. Ou seja, quem paga,  vive e sente a crise do transporte somos nós!</p>
<p style="text-align: justify;">Políticos da extrema-direita, centro-reacionário estão buscando apropriação da  política de gratuidades. Empresários estão tentando costurar uma forma de financiamento  que amplie seus lucros, falcatruas e caixas pretas. Neste sentido diversas cidades estão buscando nos subsídios dos transportes uma maneira de proteger o lucro dos donos das  empresas de ônibus e garantir a suposta &#8220;viabilidade do sistema” (SIC). Além disso, o  modelo de financiamento de parte das experiências de Tarifa Zero ainda é a remuneração  por número de passageiros. Isso incentiva que o transporte esteja sempre lotado e precário,  e que os empresários recebam cada vez mais do nosso dinheiro por um péssimo serviço.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse modelo de Tarifa Zero, construído de cima para baixo, financiando empresas  privadas e sem poder popular, mantém um dos principais responsáveis pelo transporte hoje  em dia ser ruim e não atender toda a vida da cidade: a necessidade dele continuar dando  lucro através de ônibus lotados. Além disso, há gerações esses empresários interferem na  política local e regional, financiam campanhas, controlam prefeituras. Ou seja, um modelo  de Tarifa Zero que ainda haja empresariado está sujeito à sua chantagem.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><b>Construir nosso modelo </b></h4>
<p style="text-align: justify;">Mesmo estas experiências corrompidas de de Tarifa Zero tem efetivas conquistas  materiais para a população. Não é à toa que em todas as cidades com gratuidades o  número de viagens cresceu muito. Isso expressa quantos de nós ficamos sem circular pela  cidade por culpa da tarifa. Mas não temos nenhum motivo pra celebrarmos migalhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa tarefa é retirar o transporte do da operação privada, do financiamento  exploratório, da gestão elitista. Falamos de um transporte pago pelos ricos, controlado pelo  povo, operado por empresas públicas ou autogeridas, com excelentes condições de  trabalho e extrema qualidade. Lutamos por uma mobilidade que seja convertida de  instrumento de opressão em ferramenta de luta contra o sistema capitalista, racista e  patriarcal.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, que construímos a pauta desde quando todos eles eram contra, não podemos  nos deixar enganar pelos inimigos do povo: transporte sem cobrança na catraca é nosso  direito. A pilantragem capitalista não pode nos fazer ser contrários à Tarifa Zero. Ao contrário,  ela é um convite pra reafirmarmos mais forte e mais alto nossa perspectiva por meio do  poder popular.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><b>Chamado à Luta </b></h4>
<p style="text-align: justify;">Um transporte verdadeiramente público é nosso direito e vamos continuar lutando  pra que a Tarifa Zero seja pra geral e todos os dias. Por isso devemos ir às ruas pra realizar  nosso poder e fortalecer nosso projeto de Tarifa Zero, de mobilidade e de sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossas lutas, apesar dos impactos nacionais, sempre foram mobilizações locais que  se somaram. É hora de acrescentar às ações municipais uma pauta federal. Por isso  convocamos todas organizações a construir um ciclo de lutas que resulte em uma <b>Marcha  Nacional pela Tarifa Zero, a ser realizada em Brasília (DF), em outubro de 2025</b>,  <b>durante a Conferência das Cidades em um dia entre 05 a 10 de Outubro</b>. Além disso  devemos realizar mobilização pelo transporte como direito na Cúpula dos Povos da COP30  de Belém, em novembro próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Até lá temos um conjunto de ações a serem realizadas: oficinas, debates,  manifestações e campanhas locais; viabilização de delegações de várias cidades que  participem das marchas; constituição de uma coordenação nacional da campanha; ações  de comunicação, diálogo e ocupação do debate nas redes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Convidamos todas organizações que quiserem somar a esta luta a articular conosco.  Realizaremos atividades nos próximos dias para construir coordenação nacional para a  campanha. Sua organização quer participar? Vincule-se como uma referência local a esta  luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><i>Por uma vida sem catracas </i></p>
<p style="text-align: justify;"><b>Movimento Passe Livre – Brasil </b></p>
<p style="text-align: justify;">Brasil, Junho de 2025</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana (2024):  <a href="https://www.gvbus.org.br/wp-content/uploads/2024/08/Pesquisa-CNT-de-Mobilidade-da-Populacao-Urbana.pdf">https://www.gvbus.org.br/wp-content/uploads/2024/08/Pesquisa-CNT-de-Mobilidade-da-Populacao-Urbana.pdf </a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> <a href="https://ntu.org.br/novo/NoticiaCompleta.aspx?idArea=10&amp;idNoticia=1807" target="_blank" rel="noopener">https://ntu.org.br/novo/NoticiaCompleta.aspx?idArea=10&amp;idNoticia=1807</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> <a href="https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer_public/ed/22/ed22859e-718c-4952-9ab2-ecbe500f9e11mobilidade_urbana_no_brasil.pd" target="_blank" rel="noopener">https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer_public/ed/22/ed22859e-718c-4952-9ab2-ecbe500f9e11mobilidade_urbana_no_brasil.pd</a>f</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/07/156923/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Trajetórias incertas no urbano da crise</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/06/156881/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/06/156881/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2025 12:42:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=156881</guid>

					<description><![CDATA[A vida de Douglas representa as trajetórias incertas que tantos outros moradores das periferias estão sujeitos. Por Thiago Canettieri]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas, um jovem adulto negro, estava me esperando com o portão aberto, sentado na calçada. Ao me apresentar, Douglas sorriu e cumprimentou de volta, apontando para entrar no seu “negócio”, como ele se referia. “É só não reparar na bagunça, está bem?”, falou enquanto entrava pelo portão. Atravessando o portão dava para um pátio, com dois barracões: um de alvenaria, com porta e janelas, onde Douglas estava morando e outro, ainda menor, estavam guardados os materiais de trabalho de Douglas: baldes, flanelas, cera veícular. Neste estava a inscrição Lava-jato Mil Grau também em estilo grafite. Havia um carro estacionado e rapidamente Douglas comentou: “esse daí fica para amanhã, hoje já encerrei o expediente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas usava uma bermuda e era possível ver uma tornozeleira eletrônica. Ele já adiantou: “estou respondendo em liberdade por tráfico”. Quando já sentamos, ele explicou: “Pois é, eu rodei e peguei cana por um tempo. Estava traficando. Mas graças a Deus isso ficou para trás. Agora estou no caminho certo, graças a Deus”.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o ensino médio completo, Douglas trabalhava como caixa de supermercado na região central da cidade desde 2012. Certo dia de outubro de 2016 foi chamado pelo gerente que o despediu. “Assim, sem mais nem menos”. Lembrando da época de carteira assinada, o discurso de Douglas é repleto de ambiguidades. Embora reconhecesse a importância da estabilidade e do seu salário, mesmo que diminuto, lembra das sucessivas humilhações que recebia dos clientes do supermercado: “Cliente é foda. Acha que pode tudo. E aí desrespeita demais, né?”. Em determinado momento diz: “Foi até bom deixar isso para trás”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele conta que chegou a procurar emprego por quase cinco meses, mas era em vão. As notícias da época apontavam para o aumento do desemprego. A situação o deprimiu e passou outros 03 meses “ficando só em casa”. Douglas é pai de duas filhas com a ex-esposa e, em sua situação, não estava conseguindo ajudar na criação das meninas. “Sorte das meninas que a mãe delas é fichada, é empregada, doméstica que fala, né? E a patroa é muito boa para as meninas, dá muita coisa para elas, porque se dependessem de mim, não dava” — confidenciou, encabulado.</p>
<p style="text-align: justify;">A plataforma Uber chegou ao Brasil no segundo semestre de 2014. A plataforma cresceu continuamente, em especial, com as restrições do mercado de trabalho de 2016, rapidamente se tornou uma das “maiores empregadoras do país” &#8211; mesmo que não se reconheça dessa maneira. Douglas foi um desses. Assim, uma vez despedido do trabalho como caixa de supermercado, Douglas “entrou no negócio da Uber” no final de fevereiro de 2017 &#8211; aproveitaria o carnaval, momento de maior demanda por corridas. No primeiro momento foi uma explosão de usuários — tanto de clientes, como de motoristas parceiros (como são tratados pelo aplicativo). Apesar de não ser um emprego formal, a Uber rapidamente começou a figurar entre as opções para a reprodução das pessoas, sobretudo aquelas recém-despedidas — ao menos para aquelas que dispunham de um carro. Douglas já tinha sua carteira de motorista, mas não tinha um carro seu. Recorreu ao seu pai, mecânico, que estava com um Gol 1.0 do ano 2012. Lavou o carro com cuidado em um final de semana e, com o cartão de crédito, encheu o tanque do veículo. Na segunda cedo baixou o aplicativo da Uber em seu smartphone e disse “estou indo trabalhar”.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu primeiro cliente apareceu mais de uma hora depois que estava rodando — “eu lembro”, falou. Fez a viagem, ofereceu a bala que havia comprado no sinal. O aplicativo apitou uma notificação: “recebi uns oito reais e uns quebrados”. As corridas chegavam uma atrás da outra e Douglas trabalhava das dez da manhã até às dez da noite. Parava para almoçar, e às vezes, encontrando uma rua calma, desligava o aplicativo para um cochilo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pô, o esquema é interessante… você faz seu horário, você trabalha o quanto quer e o aplicativo te paga. Não tem chefe falando na sua cabeça, não tem que bater ponto. O negócio funciona mesmo. Teve mês que tirei dois mil reais, pô. Vê se não vale. Claro, tem os custos com o carro, tem a gasolina, mas mesmo assim. E eu aproveitei que meu pai não cobrava nas manutenções do carro.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar da jornada de trabalho expandida, Douglas se sentia mais livre do que antes. E conseguia uma remuneração maior pelo seu trabalho. Quando questionado sobre o seu ritmo de trabalho, ele não hesita: “ah, é puxado né… pesado dirigir por tanto tempo, pegar cliente de tudo que é jeito. Peguei gente que vomitou no carro voltando de baladinha, só aí morre cinquenta pau para colocar o carro para rodar de novo. Você tromba com cada um”. Contudo, rapidamente ele completa: “Mas era bom!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas narrou longamente sua jornada como motorista de aplicativo, e relatou que a partir de um determinado momento, que ele atribuiu a uma “enchente de novos motoristas” que entraram para o negócio, ficou “mais difícil fazer grana”. Rapidamente ele lembra: “o aplicativo começou a fazer sacanagem” — a inflação galopante crescia e a remuneração das viagens permanecia a mesma, com eventuais reduções da fração repassada ao motorista. Para lidar com as reduções da tarifa que recebia, Douglas passou a trabalhar cada vez mais como motorista de aplicativo.</p>
<p style="text-align: justify;">A condição em que vivia, na casa dos pais, com o trabalho autônomo do pai, a aposentadoria por invalidez da mãe, permitia uma vida, ainda que sem luxos, muito digna. O dinheiro do Uber ajudava em casa, mas sobrava uma parte para que Douglas pudesse curtir. “Trabalhava demais, né? Então precisava despressurizar, ir curtir um pouco” — disse. Começou a frequentar o baile funk do bairro. Trata-se de uma grande festa, que começa sábado de madrugada e vai até domingo cedo, organizado pelos “meninos do corre”, isto é, os traficantes locais. O termo “menino”, dito em uma entonação específica, designa os jovens responsáveis pelo tráfico de drogas na região.</p>
<p style="text-align: justify;">Começou como um frequentador casual, mas rapidamente se tornou um frequentador assíduo, enquanto ia se relacionando com as pessoas da festa. Entre garrafas de Skol Beats e de Red Label, Douglas se aproximou dos “meninos”. Alguns eram conhecidos de infância dele, estudaram juntos na Escola Estadual do bairro. No vai e vem das festas, Douglas recebeu uma proposta: “o cara, falou assim: você já roda para cima e para baixo nessa cidade, por que não busca umas encomendas para nós? A gente pode te pagar legal”. Já não era só uma questão de “ganha-pão”, mas de aproveitar o momento. Seria uma espécie de complementação de renda. O crime, muitas vezes, é uma forma de garantir um recurso a mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, ele começou a transportar maconha. Era final do ano de 2018 &#8211; ou seja, em pouco mais de um ano rodando como parceiro da Uber, ele estava fazendo essa função. No começo, não circulava com mais de 1 kg. Sempre muito bem embalada e escondida no bolso frontal do banco do motorista. À medida que “a grana começou a entrar, os olhos foram ficando grandes”: começou a transportar até 5 kg por dia, indo em diferentes biqueiras na cidade para a distribuição. Depois da maconha chegou a transportar cocaína. “Nunca peguei cliente com droga no carro, seria sacanagem” — completou. Segundo ele, sempre foi algo muito tranquilo: “Era suave, bastava olhar no Waze e no Facebook onde tinha blitz e evitar esses locais. A grana era fácil”. Tudo correu bem até o momento que Douglas foi parado em uma: “aí rodei, né? Peguei por tráfico. Eu fiquei nervoso, os homens começaram a perguntar e eu estava saindo de um lugar cheio da droga. Resolveram revistar o carro e aí rodei”. Douglas foi preso em janeiro de 2020. Seu “trampo” de “mula do tráfico” durou pouco mais de um ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não entrou em detalhes sobre o seu tempo na prisão. Apenas falou que “viveu o inferno lá dentro”. A maior parte do seu período de reclusão foi durante a pandemia de COVID-19, que tornou a experiência ainda mais traumática. As visitas semanais da mãe (somente da mãe, Douglas fez questão de frisar que, desde então, nunca mais falou com seu pai) foram interrompidas pelo isolamento social e ele pegou COVID-19 duas vezes enquanto esteve lá dentro: “fiquei mal, mal mesmo. A febre não baixava e não tinha muito o que fazer”.</p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2021, Douglas saiu da prisão, indo para o regime aberto monitorado. Ficou sabendo pela mãe que o pai vendeu o carro para pagar um advogado para ele que atuou para garantir a progressão de sua pena como réu primário. Contudo, apesar do pai ter investido em sua soltura do sistema carcerário, ele cortou o contato por completo com o filho.</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas cumpriu quase três anos encarcerado e, desde que saiu, tenta se restabelecer. “Mas fica muito difícil para quem passou um tempo na prisão, ninguém contrata”. Depois de alguns segundos de pausa, Douglas continuou:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A saída então foi vir para cá. Esse lote é de um amigo, ele também já esteve enrolado com a justiça, mas quando saiu, parou de mexer. A família dele deixou esse lote para ele e aí ele começou a oferecer lava-jato. Como ele viu que eu estava precisando, ele me chamou para trampar com ele. A gente divide os dias e cada um tira o seu. Aqui atrás tem um barraco que eu estou dormindo por enquanto.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas refletia sobre a precariedade que estava inserido: O emprego anterior, a demissão, a impossibilidade de encontrar novas oportunidades, o trabalho de Uber, a entrada para o tráfico, a cana e, agora, o lava-jato. “É, não é fácil, não”, concluiu. A vida de Douglas representa as trajetórias incertas que tantos outros moradores das periferias estão sujeitos no urbano da crise contemporânea.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/06/156881/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A perda de militantes e lideranças para o capital</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/06/156763/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/06/156763/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Jun 2025 10:56:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=156763</guid>

					<description><![CDATA[ A tendência é que os quadros com maiores capacidades políticas precisem de uma moral franciscana mais forte e fundamentalista num contexto de precarização generalizada e de ausência de um horizonte de expectativa de transformação social. Por Leo Vinicius.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">Quando um militante ou uma liderança faz uma escolha de direcionamento político a partir de um ganho financeiro pessoal de algum tipo, ou quando simplesmente aceita receber renda de uma organização externa enquanto militante ou liderança, normalmente isso é tratado em termos morais em organizações e entre militantes anticapitalistas. É a ideia de que o sujeito “se vendeu”, isto é, por um ganho financeiro deixa de dizer o que pensa politicamente ou redireciona a prática política enquanto militante ou liderança.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que se espera em organizações anticapitalistas, é que os militantes possuam uma moral elevada, de modo a não caírem na tentação de capitalizarem sua militância. Pelo menos não de modo que comprometa as ideias e direcionamentos políticos de sua militância. Que uma moral elevada seja uma qualidade muito desejável e até importante na militância, não há dúvidas. Porém, que organizações políticas anticapitalistas dependam que seus membros ou que seu entorno de militantes e lideranças sociais sejam franciscanos, é uma demonstração de fragilidade e de falta de política (policy) dessas organizações. Uma ausência de política que faça frente a um fenômeno que mina seus quadros e as práticas militantes antagonistas ao capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Num contexto de aprofundamento generalizado da precarização econômica e do trabalho, e sem um horizonte de expectativa revolucionária nos curto e médio prazos – de modo que pelo menos ver um ascenso das lutas pudesse ser uma compensação por um ascetismo militante – depender da condenação moral e do franciscanismo militante parece ser não apenas uma má estratégia para lidar com o problema, mas uma completa ausência de estratégia, isto é, de política.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre entregadores de aplicativo, a frequente sobreposição num mesmo indivíduo da figura da liderança, influencer/youtuber e comunicador pago pelo iFood, certamente tem como um dos fatores a busca de uma melhoria financeira. Nesse sentido, fundamentalmente não se difere do conhecido fenômeno, entre operários industriais militantes e de outras categorias, da busca de mobilidade social ou de se afastar do ambiente e ritmos nocivos de trabalho através da eleição para cargos sindicais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outro lugar fiz uma descrição de como um dos principais articuladores da Campanha pelo Passe Livre em Florianópolis na década de 2000, rachou com o movimento buscando capitalizar financeiramente através dele <strong>[1]</strong>. Na minha avaliação, como escrevi na época, sua ânsia em ganhar dinheiro com a “militância” a qualquer custo (político) teve como fator importante o fato de ele ter uma situação econômica precária naqueles anos de juventude, em função, em grande parte, da sua militância. A negligência desse aspecto da vida, relacionada à construção da vida econômica e financeira individual, pode cobrar seu preço mais tarde, com implicações políticas deletérias.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-156765 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527.jpg" alt="" width="723" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527.jpg 723w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-300x280.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-450x420.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-640x598.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-681x636.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 723px) 100vw, 723px" />A sangria e desvio de militantes e lideranças pelo e para o capital não se resumem, evidentemente, a fatores econômicos e de precariedade financeira na vida. Porém, acrescentar fatores individuais de cunho psicológico ou moral, em vez de ajudar que as organizações anticapitalistas pensem sobre o assunto e tentem constituir políticas para lidar com o problema, obstruem o pensamento e a possível constituição dessas políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">E o problema se torna mais claro, e talvez maior, uma vez que a capacidade política que faz alguns militantes e lideranças se destacarem, constituindo quadros cuja perda é ainda mais sentida, abrem possibilidades mais fáceis e evidentes, e até mesmo convites, para adentrar no carreirismo sindical e parlamentar, ou para se enquadrarem nos limites de ONGs e outras organizações que ofereçam a possibilidade de uma melhoria ou estabilidade financeira. Ou seja, a tendência é que os quadros com maiores capacidades políticas, com habilidades e competências políticas mais desenvolvidas, precisem de uma moral franciscana (ou militante, como se queira), mais forte e fundamentalista num contexto de precarização generalizada e de ausência de um horizonte de expectativa de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira resposta a esse problema que pode vir à cabeça é a chamada “liberação” de militantes. Porém, a organização pagar uma renda a militantes ou lideranças para “liberá-los”, na forma como muitas vezes é feito em organizações de esquerda, resulta em problemas até mais graves. Implica o estabelecimento de um princípio de hierarquia na organização e implica numa profissionalização da militância. A profissionalização da militância, além de ser um fator para geração das burocracias, tende a gerar dependência econômica do indivíduo em relação à organização, o que traz um constrangimento individual para manter ideias e posições políticas que não o incompatibilizem com a organização que lhe paga.</p>
<p style="text-align: justify;">Não trago soluções, mas apenas o problema. É preciso pensar. Se é que é possível encontrar uma forma de mitigá-lo. Talvez um caminho de pensamento seja o de como estabelecer um princípio de solidariedade econômica na organização que não comporte ou que minimize os riscos da tradicional “liberação” de militantes. Outro caminho seria pensar soluções caso a caso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver Guerra da Tarifa 2005, pp. 25-26, em: <a class="urlextern" title="https://editorafaisca.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/leo-vinicius-guerra-da-tarifa-20051.pdf" href="https://editorafaisca.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/leo-vinicius-guerra-da-tarifa-20051.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://editorafaisca.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/leo-vinicius-guerra-da-tarifa-20051.pdf</a></p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Cildo Meireles (1948 &#8212;)</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/06/156763/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>6</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
