<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Economia &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/tag/economia/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:52 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>
	<item>
		<title>Good Bye, Kapital!? A Alemanha em queda</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/01/158595/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/01/158595/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 12:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Alemanha]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158595</guid>

					<description><![CDATA[ As crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema. Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O celebre filme “Adeus, Lênin!” retrata o fim da chamada Alemanha Oriental de uma forma tragicômica. O dedicado Alex tenta a todo custo esconder de sua mãe o fim da Alemanha socialista. No limite, após uma grande propaganda da Coca-Cola cobrir a lateral do prédio ao lado, de frente a sua janela, grava um telejornal com ajuda de um taxista e seus amigos informando a mãe que a Coca-Cola é uma criação comunista. Um lindo e amoroso filme que carrega nossa melancólica mágoa da derrota <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando a contemporaneidade, parece que na Alemanha de 2025 a vida voltou a imitar a arte, porém com os sinais contrários e uma população inteira como coadjuvante. Literalmente tá entrando muita água no chopp da Alemanha capitalista. A principal economia do bloco derrete.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento da Fábrica da Volkswagen em Desdren e a demissão de 35.000 operários é o símbolo maior desse grande rearranjo capitalista. A máquina capitalista mais potente da Europa começa a falhar. O país que há décadas importa migrantes do mundo inteiro hoje tem a mesma taxa de desemprego da última crise. No geral, parece uma operação complexa para a burguesia alemã esconder de milhões de trabalhadores que as suas vidas estão em risco. Sua propaganda é a clássica demagogia do inimigo externo o risco do comunismo invadir as ruas da Europa é sempre um ótimo argumento para justificar mudanças <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158606" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1536x864.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-681x383.png 681w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Produção industrial em queda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Marx no capítulo 1, do livro 1 do Capital diz que “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma &#8216;enorme coleção de mercadorias&#8217;”. Nós acrescentamos que a capacidade de manutenção e ampliação da produção determina os limites da dominação da burguesa e as possibilidades de luta dos trabalhadores <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, a situação da Alemanha merece atenção. Sua produção manufatureira, o motor da economia, vem decaindo e isto se espelha na política. Vamos aos dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Produção Anual da Manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2010</strong></td>
<td class="col1">90.5</td>
<td class="col2"><strong>2018</strong></td>
<td class="col3">105.0</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2011</strong></td>
<td class="col1">98.2</td>
<td class="col2"><strong>2019</strong></td>
<td class="col3">101.7</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2012</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2020</strong></td>
<td class="col3">92.7</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2013</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2021</strong></td>
<td class="col3">97.1</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>2014</strong></td>
<td class="col1">99.0</td>
<td class="col2"><strong>2022</strong></td>
<td class="col3">96.9</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>2015</strong></td>
<td class="col1">100.0</td>
<td class="col2"><strong>2023</strong></td>
<td class="col3">95.8</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0"><strong>2016</strong></td>
<td class="col1">101.1</td>
<td class="col2"><strong>2024</strong></td>
<td class="col3">91</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0"><strong>2017</strong></td>
<td class="col1" colspan="3">103.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte : OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Produção trimestral da manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2024-T4</strong></td>
<td class="col1">92.5</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2025-T1</strong></td>
<td class="col1">93.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2025-T2</strong></td>
<td class="col1">92.8</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2025-T3</strong></td>
<td class="col1">91.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;">Na série histórica iniciada em 2015 até o 3° trimestre de 2025, observamos que a produção da economia alemã caiu quase 9%. Pode parecer pouco, mas precisamos ter em mente que o capital é acumulação, é investimento em cima de investimento, é aumento da máquina produtiva. Caso contrário a feroz concorrência pode levar a chama da acumulação a se apagar. Instantaneamente, o reflexo na vida do povo trabalhador é direto: aumento do desemprego, queda no poder de compra, políticas de austeridade, redução do Estado de bem-estar social, etc. A situação é tão delicada para os burgueses alemães que a névoa da guerra volta a assombrar os trabalhadores na Europa <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico 1 temos na linha laranja as despesas de consumo das famílias, linha verde investimentos em máquinas e equipamentos e a linha investimentos em construção civil. O mais relevante para nós é a linha verde, importante indicador da acumulação de Capital, que, como podemos ver, está em franca queda e bem distante do ponto máximo atingido em 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 1: Investimentos e consumo na economia alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158604" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png" alt="" width="967" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-269x300.png 269w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-917x1024.png 917w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-768x858.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-376x420.png 376w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-640x715.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-681x761.png 681w" sizes="(max-width: 967px) 100vw, 967px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">Além do fechamento de fábricas, queda da produção e investimentos, outra coisa que será difícil a classe dominante alemã esconder dos trabalhadores é a queda nas exportações. No gráfico 2, temos na cor laranja o índice de crescimento das exportações e em azul o crescimento das importações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 2. Crescimento da exportação e importação</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158601" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png" alt="" width="1080" height="1466" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-221x300.png 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-754x1024.png 754w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-768x1042.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-309x420.png 309w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-640x869.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-681x924.png 681w" sizes="(max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">No meio desse baque econômico a burguesia alemã tenta esconder dos trabalhadores sua habilidade ímpar em fazer a vida virar morte. “Adeus, Lênin” é fichinha perto do que vem pela frente. Mesmo uma das opções clássicas para sair da crise, o desemprego, parece não estar funcionado. Segundo a chefe da Agência Federal de Emprego do país, Andrea Nahle, <a class="urlextern" title="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" href="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as chances de desempregados na Alemanha encontrarem trabalho nunca foram tão baixas</a>. A taxa de desemprego está em 6.3%, igualando ao ponto mais alto durante a crise econômica de 2020, como podemos ver no gráfico abaixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 3 — desemprego na Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158602" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png" alt="" width="922" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png 922w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-300x151.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-768x386.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-835x420.png 835w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-640x322.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-681x343.png 681w" sizes="auto, (max-width: 922px) 100vw, 922px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" href="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Bundesagentur für Arbeit</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A combalida saúde da economia Alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2025 <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" href="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma notícia no jornal DW destacou</a>: “A indústria automobilística emprega mais de um milhão de pessoas e há muito tempo é um termômetro da saúde econômica alemã”. A notícia segue com um preciso diagnóstico “as vendas estão encolhendo, empregos estão sendo cortados e fábricas enfrentam ameaças de fechamento”. Ou seja, como verificamos nos dados acima a saúde da economia alemã não vai bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um do motivos é que sua menina dos olhos era o mercado chinês, isso mesmo, “era”. Segue o DW:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Houve tempos em que a participação de mercado da Volkswagen se aproximava de 50%. Até alguns anos atrás, as montadoras alemãs vendiam um em cada três carros no país asiático”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porém, após 2008, o governo chinês passou a incentivar a produção de veículos elétricos, sendo o principal tipo de carro vendido na China atualmente.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Hoje, a cada dois <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" href="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">carros vendidos na China</a>, um é elétrico — e quase todos são de marcas chinesas. As vendas alemãs despencaram em seu mercado mais importante”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a notícia relata que diante da derrota sofrida pela burguesia alemã no mercado chinês, eles se voltam para a Índia, porém, enfrentando a concorrência dos carros indianos, coreanos, japoneses e agora dos carros chineses.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra notícia que explica o desengavetamento do empoeirado acordo com o Mercosul, parado há 25 anos, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" href="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vem do próprio DW</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Para os defensores, como Alemanha e Espanha, este acordo, ao contrário, revitalizará uma economia europeia em dificuldades, enfraquecida pela concorrência chinesa e pelas tarifas dos Estados Unidos (…) Ao eliminar grande parte das tarifas, o pacto impulsionaria as exportações europeias de automóveis, máquinas, vinho e queijo”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Levando em consideração a grande importância da indústria automobilística que “há muito tempo é um termômetro da saúde economia alemã”, vamos focar um pouco mais em seus dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 4- Produção de veículos automotores: Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158603" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png" alt="" width="1200" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-300x125.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1024x427.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-768x320.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1008x420.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-640x267.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-681x284.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" href="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CEICDATA</a></p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico acima, observamos a grande queda vinda junto da última crise cíclica. Como de praxe, o padrão/patamar produtivo foi alterado, agora os carros elétricos são a bola da vez e a Alemanha não está acompanhando a toada. A queda em relação ao ápice ocorrido em 2025 é de 33%.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria da BBC NEWS</a> observamos o busílis:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Todas as &#8216;três grandes&#8217; montadoras viram seus lucros antes dos impostos despencarem em cerca de um terço nos primeiros nove meses de 2024, e cada uma delas avisou que seus ganhos para o ano como um todo seriam menores do que o previsto anteriormente”, ou seja o cerne é a queda da taxa de lucro. Também pode ser verificado na queda vendas: “Entre 2017 e 2023, as vendas da VW caíram de 10,7 milhões para 9,2 milhões, enquanto, no mesmo período, as da BMW passaram de 2,46 milhões para 2,25 milhões, e as da Mercedes-Benz, de 2,3 milhões para 2,04 milhões, conforme mostram os relatórios das empresas”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para encerrar esse mapeamento das notícias no jornalão burguês, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" href="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais uma notícia do DW</a>, segundo Jan Brorhilker, sócio de umas das maiores consultorias empresariais do mundo, a Ernst &amp; Young:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“As empresas industriais estão sob imensa pressão” e “concorrentes agressivos, especialmente da China, estão forçando a queda dos preços, os principais mercados consumidores estão enfraquecendo, a demanda na Europa está estagnada em um nível baixo e há uma grande incerteza em torno de todo o mercado dos EUA”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158596" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg" alt="" width="1661" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg 1661w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1024x740.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1536x1110.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-640x462.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1661px) 100vw, 1661px" />Conexões e conclusões </strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os cortes de gastos são mais fáceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma noção generalizada de eficiência. Ainda assim, esse não é o propósito da defesa, e os políticos devem insistir neste ponto. O objetivo é a sobrevivência. O chamado “capitalismo liberal” precisa sobreviver e isso significa reduzir os padrões de vida para os mais pobres e gastar dinheiro para ir à guerra. Do estado de bem-estar social ao estado de guerra…”.</p>
<p style="text-align: justify;">E vão nesta toada: reduzindo gastos sociais, aumentando a capacidade de endividamento e, numa nova rodada, tendem a retomar a retirada de direitos dos trabalhadores <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Fechamos assim nosso último material sobre a Europa e com os dados acima sobre a Alemanha tudo se encaixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os investidores, governos, economistas, analistas, jornalistas e demais ideólogos burgueses se acostumaram com o fato de que em cada fim de ciclo econômico fosse sacrificada uma economia da periferia do capital. Foi assim com Argentina, Venezuela, Brasil, Grécia e outras. Dessa vez as coisas estão ocorrendo de outra maneira. Além das tradicionais vítimas da periferia do capital, entrou para o seleto grupo de economias combalidas a cada rodada de ciclo econômico uma importante economia do centro do capital, desde a crise de 2020 a economia da Alemanha continua em declínio. Em resumo, as crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra importante conclusão, a China durante décadas foi mercado de trabalho e consumo para as grandes empresas da Europa, porém em alguns setores as coisas começam a mudar, como vimos no caso dos carros elétricos. Nesse importante mercado a economia chinesa consegue praticar preços de produção bem menores que os seus concorrentes, porém, pelo fato da taxa de lucro tendencialmente diminuir, ela precisará de um mercado consumidor muito maior, como muito bem nos ensinou Marx no livro 3 do Capital e Rosa Luxemburgo em seu <em>Acumulação de Capital</em>. Nessa busca por mercados, além dos alemães, ela encontrará empresas dos EUA, França, Coreia do Sul e Japão. Se a tendência atual for confirmada e o capital sair do estado estacionário, veremos outra rodada de superação, ápice, crise e estagnação com retomada se iniciando.</p>
<p style="text-align: justify;">Levando em conta que nessa quadratura histórica as disputas por mercados assumem cada vez mais as características militares. Ou seja, a guerra e o protecionismo tomam a frente da economia-política, tudo fica às claras (arma na mesa e dedo em riste!).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste novo momento do capital, com a necessidade do império-do-terror/coração-do-sistema se salvar, uma crise no coração do sistema tende a estar mais próxima. Com tudo isso no jogo, nos resta saber onde explodirá a nova destruição do capital a fim de retomar suas taxas de lucros perdidas e se agora com o velho e experiente proletariado europeu ameaçado ele há de se tornar classe para si novamente. No berço das revoluções ainda há muitos bebês para serem gerados e o céu, meus amigos, o céu deve ser atacado.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguimos afiando nossas armas para quando o carnaval chegar e nós descer! Até a próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Derrota iniciada em 1921 com o massacre de Kronstadt. O pior é que nos lembra nossos amigos que tentam com todas as maneiras mostrar que os “socialistas de mercado” ou sem mercado (como Cuba) são superiores e tem ou tiveram vitórias que, se não fossem o malvado Capitalismo imperialista, seria a salvação do povo pobre do mundo. Este debate é complicado, mas partimos do pressuposto que estamos derrotados. Imóveis não, derrotados.<br />
<strong>[2]</strong> <strong>Charles Júnior e Antônio Carlos</strong>, <em>“Europa – do estado de bem-estar ao estado de guerra”</em>. In: <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Chama</a> (03/06/2025)<br />
<strong>[3]</strong> Quando está tudo bem (emprego em alta, todo mundo comendo, pagando seus alugueis, bebendo seu chopp, comprando uma peita nova pro mozão e se reproduzindo a felicidade reina, quando as demissões começam a aparecer a vida aperta e os questionamentos ganham força.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/01/158595/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Alienista de Washington</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158393/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/12/158393/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 12:18:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158393</guid>

					<description><![CDATA[ A pergunta que fica é: porque o problema da estagnação da maior economia do planeta continua? Por Charles júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">Era um efervescente outubro de 1881 na capital do Império tupiniquim, em meio a um novo sistema eleitoral, debates abolicionistas e manifestações nas ruas. O Império estava ruindo. Já no Morro do Livramento, centro da cidade, Machado de Assis expressara o sentimento do imperador através do conto O Alienista <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto, Dr. Simão Bacamarte decide internar todos que considerava loucos. Chegando a querer internar a cidade inteira, exceto a si próprio. No final das contas, ou todos estavam loucos ou só ele seria o desajustado. Mais uma vez, a arte expressava a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Convenhamos, comparando com os acontecimentos da política mundial contemporânea seu conto seria bem menor que a realidade. Nos EUA, nosso amigo laranja vem matando a pau nas taxações de pessoas, países (empresas concorrentes) e políticos. Para alguns o pato estaria insano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, esta é a forma como aparecem as atitudes de Trump e também nos mostra a limitada capacidade de observação do mundo pela esquerda democrática e outros reformadores sociais, os adeptos de que apenas a forma em sua simplicidade revela a totalidade das relações sociais (se fosse assim o papel da ciência seria nulo) <strong>[2]</strong>. Por isso, importam mais os escândalos pessoais, os berros e o teatro do que as intrínsecas relações na luta de classes mundial. <a class="urlextern" title="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" href="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Já nos avisava nosso amigo Zé</a>: “depois do <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">período macarthista</a> nos EUA [e no ocidente] a política tornou-se apenas uma monótona sucessão de fofocas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Inversamente, em nosso último material demonstramos que Trump foi um cadim melhor sucedido que seu antecessor, o decrépito Biden; que as tarifas são utilizadas de tempos em tempos nos EUA e Trump é sim a aposta da classe dominante estadunidense — sempre tendo em vista que o Capital é global, mas a burguesia é nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que fica é: mesmo taxando boa parte das economias do mundo, mandado a polícia intervir em cidades importantes, demitindo trabalhadores do Estado em massa (junto a eles a chefe de estatísticas do Departamento do Trabalho), mediando guerras, explodindo barquinhos e ameaçando <a class="urlextern" title="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" href="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">invadir a Venezuela</a>, brigando e desbrigando com gregos e troianos porque o problema da estagnação (e da ingovernabilidade) da maior economia do planeta continua?</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, onde está seu voo de condor na maior economia do planeta Sr Bacamarte?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158395" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png" alt="" width="984" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png 984w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-300x200.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-768x511.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-631x420.png 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-640x426.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-681x453.png 681w" sizes="auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px" />Para finalizar essa introdução, no conto machadiano, Dr. Bacamarte acaba descobrindo que o louco era ele próprio e determina sua própria internação. Na vida real, nosso Alienista de Washington também está tendo um momento de lucidez.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As razões do irracional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo o irracional tem sua racionalidade. Trump incorporou Dr. Bacamarte não à toa, no atual ciclo econômico ele enfrenta um contexto de economia estacionária , sem os mesmos instrumentos dos ciclos econômicos anteriores para se defender, pois a economia dos EUA tem graves problemas de dívida pública, déficit orçamentário e da conta-corrente. Problemas esses herdados das saídas das crises anteriores, restou a Trump, como diz o jargão “trocar a roda com o carro andando”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Side note</em>: a bola de neve que Trump enfrenta hoje se inicia com a chamada crise das empresas ponto.com, na virada do milênio. Esta marca um ponto importante para nós — naquele ano tivemos a volta das crises econômicas similares às que ocorriam no período anterior a segunda guerra mundial, desde então, a cada nova crise cíclica, a próxima é sempre pior.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, as tentativas de fugas clássicas para o estado atual da economia americana vêm de longa data. No entanto, agora nada parece funcionar. Guerras, comerciais e bélicas, caça às bruxas com o ICE e injeção de bilhões no mercado para segurar a chegada do urso em Wall Street.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso havia segurado a pletora de capital no coração do sistema, mas em alguma parte ela sempre estoura. E quem está pagando o pato (sic) desta vez são os derrotados da guerra da Ucrânia, a Alemanha e o resto da OCDE <strong>[3]</strong>. A corrida armamentista que <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">adiantamos em junho</a> é um sinal da possível derrocada do bloco europeu: tende a retirar direitos, intensificar a exploração dos trabalhadores, aumentar impostos e rasgar dinheiro para tentar segurar seu declínio.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos EUA, tivemos <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a maior paralisação do Estado Americano na história</a>. <strong>“Ele ocorreu pela falta de acordo entre Republicanos e Democratas no Senado, que precisa de três quintos dos votos da Casa para avançar em matérias relativas ao orçamento.”</strong> Paralisou boa parte da máquina estatal estadounidense. Foi tão surpreendente que paralisou até nossa análise (risos). Os dados não foram publicados na data prevista, quiçá organizados ou metrificados pelas agências responsáveis. Mas agora saiu. Vamos a eles:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Indústria de Bens duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1">0.4</td>
<td class="col2">-1</td>
<td class="col3">-1.5</td>
<td class="col4">4.4</td>
<td class="col5">3.9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1">6.6</td>
<td class="col2">7.2</td>
<td class="col3">0.6</td>
<td class="col4">7.1</td>
<td class="col5">0.5</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1">3.2</td>
<td class="col2">3.5</td>
<td class="col3">0.3</td>
<td class="col4">4.1</td>
<td class="col5">0.9</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Indústria de Bens não duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1 centeralign">0.4</td>
<td class="col2 centeralign">0.2</td>
<td class="col3 centeralign">-0.1</td>
<td class="col4 centeralign">2.8</td>
<td class="col5 centeralign">2.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1 centeralign">-0.2</td>
<td class="col2 centeralign">-0.2</td>
<td class="col3 centeralign">0.0</td>
<td class="col4 centeralign">4.8</td>
<td class="col5 centeralign">5.0</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1 centeralign">1.9</td>
<td class="col2 centeralign">1.3</td>
<td class="col3 centeralign">-0.6</td>
<td class="col4 centeralign">5.1</td>
<td class="col5 centeralign">3.1</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;">No estado estacionário, os indicadores de produção e produtividade crescem em ritmos muito baixos, próximos de zero, a manufatura funciona a passos de siri, apenas pra não afundar. Porém, essa é uma situação que não pode durar muito tempo e é exatamente o problema que enfrenta a economia reguladora do sistema global.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano de 2024 a produtividade de manufatura de bens duráveis <strong>[4]</strong> cresceu míseros 0.4% e a produção ficou abaixo de zero, situação que observamos de maneira mais clara desde 2023. Porém, nos dois primeiros trimestres de 2025, os indicadores ficaram bem acima dos anos anteriores, como podemos ver na tabela 1. Produtividade e produção com robustos crescimentos! Muita atenção, como dizia o saudoso Silvio Luiz “OLHO NO LANCE!” O custo unitário do trabalho apresentou um crescimento bem abaixo do ocorrido nos últimos anos. Afinal, o que esses dados representam?</p>
<p style="text-align: justify;">Existem duas hipóteses em discussão: seria a elevação da produtividade, aumento da produção e diminuição do ritmo de crescimento do custo unitário um efeito da implementação da IA nas empresas e/ou seria apenas um VOO de galinha, um último suspiro antes do afundamento da economia reguladora. Em defesa da primeira hipótese temos vistos estudos e dados de empresas, como o resumo de um estudo do MIT <a class="urlextern" title="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" href="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">publicado na revista Exame</a>, que diz :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os pesquisadores identificaram duas camadas de risco. A parte mais visível, associada a demissões e mudanças em tecnologia e TI, responde por 2,2% da exposição salarial, cerca de US$ 211 bilhões. A maior parte está em funções rotineiras de RH, logística, finanças e administração, que somam o restante do total estimado.” (Tradução livre)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma publicação da Infomoney mostra que as demissões nos EUA aumentaram bastante em 2025, essa publicação cita o relatório da consultora de recursos humanos Gray &amp; Christmas, que diz: <strong>“Períodos anteriores com tantos cortes de empregos ocorreram durante recessões ou, como foi o caso em 2005 e 2006, durante a primeira onda de automações que custou empregos na manufatura e tecnologia.”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o estudo do MIT acima realmente se comprovar na prática, com a implementação da IA eliminando boa parte dos funcionários de RH, logística, finanças e administração implicará em eliminação de trabalhadores improdutivos e diminuição da composição orgânica do capital. Generalizando esse cenário em toda a manufatura, ocorrerá uma elevação da taxa de lucro <strong>[5]</strong>. Menos custos, maior produtividade e mais mais-valia para o capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria simples assim? Claro que não (risos). Aqui entra a parte sensível de nosso texto, pois a resposta para essas questões define todo o cenário que a classe trabalhadora enfrentará. Observamos que alguns dados melhoraram, os mais importantes do setor de ponta da economia dos EUA. Porém, estaremos atentos à evolução dos indicadores nos próximos trimestres.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos estar vendo a nova bolha da IA se manifestar antes da queda ou a elevação da produtividade sendo resultado da implementação da IA. Veremos a retomada da economia reguladora, uma exuberante expansão da produção e consequentemente o abafamento da luta de classes no centro do sistema, restando possibilidades de ruptura nos elos mais fracos, principalmente da periferia capitalista. Muito porque, em todo período de crise cíclica há queima de capital, seja onde for, há queima de capital (armamentos, cidades, fábricas, máquinas, rodovias, satélites, seja o que for que compõem o sistema produtivo global, capital fixo e variável &#8211; haverá queima).</p>
<p style="text-align: justify;">Caso o cenário de economia estacionária continue, nessa esteira teremos cada vez mais claro a velha dialética: aumento da ingovernabilidade, crise, guerras e revoluções!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Final note: A nova bolha, sic.</strong></em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com Paul Kedrosky, um VC de longa data atualmente na SK Ventures, a bolha de IA é como se cada bolha anterior fosse lançada em uma outra (?). Há o elemento imobiliário. Há o elemento tecnológico. E, cada vez mais, há estruturas de financiamento exóticas sendo colocadas em prática para financiar tudo. <strong>[6]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a farra de investimento insustentável. E depois, além disso, fala-se de resgates e apoios do governo. A velha corrida contra a queda da taxa de lucro em seu atual contexto. Quem viver, verá!</p>
<p style="text-align: justify;">Neste episódio, percorremos algumas das matemáticas que seriam necessárias para justificar todos esses gastos e como as apostas aparentemente existenciais de “ganhar a corrida da IA” estão causando uma farra de investimento insustentável. Para que lado vai a crise e quem vai estourar será decidido nos próximos passos dos sanguessugas globais.</p>
<p style="text-align: justify;">A possível derrocada da Alemanha (leia-se OCDE) pode se alastrar pelo globo como epidemia, imaginem nos EUA, seria avassalador. O laço no pescoço da burguesia está se apertando, esperamos que continue. Algumas revoltas e pontos isolados continuam a estourar: Bulgária, Ásia, e até Portugal teve uma grande greve por estes dias.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas de uma coisa nós (e nossos amigos do Sinuca de Bico) temos certeza:</p>
<p style="text-align: right;"><em>O dia em que o morro descer e não for carnaval</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Na entrada, rajada de fogos pra quem nunca viu</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Guerra civil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O povo virá de cortiço, alagado e favela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mostrando a miséria sobre a passarela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sem a fantasia que sai no jornal</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser uma única escola, uma só bateria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que desfile assim não vai ter nada igual</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nem autoridade que compre essa briga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém sabe a força desse pessoal </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a class="urlextern" title="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" href="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">(Wilson das Neves &#8211; O dia em que o morro descer e não for Carnaval)</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> A Revolta dos Malês , a Guerra dos Farrapos, a Revolta da Balaiada, as Revoltas Liberais e a Revolução Praieira foram algumas marcas do descontentamento popular no império de D Pedro II. Tendo a Revolta dos Malês conquistado o retorno a África.<br />
<strong>[2]</strong> A forma é a expressão necessária do conteúdo, a porta de entrada para a investigação. Necessária, mas o ponto de partida, não o fim.<br />
<strong>[3]</strong> Ao que tudo indica, analisaremos a situação da Alemanha e da OCDE no próximo boletim.<br />
<strong>[4]</strong> Trataremos do setor de bens duráveis pois é o motor da economia estadunidense. Na tabela 02 é retratado o setor de bens de consumo não duráveis. Este é a base da manutenção da força de trabalho: alimentos, bebidas, cosméticos, produtos de limpeza e vestuário, atendendo necessidades diárias e imediatas dos trabalhadores. Ou seja, força de trabalho futura.<br />
<strong>[5]</strong> “Este é o maior total para outubro em mais de 20 anos e o maior total para um único mês no quarto trimestre desde 2008. Assim como em 2003, uma tecnologia disruptiva está mudando o cenário”, <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">diz o relatório</a>.<br />
<strong>[6]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" href="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one</a></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/12/158393/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>RoboCop ou GloboPop?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158358/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/12/158358/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 13:28:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158358</guid>

					<description><![CDATA[O importante a destacar não é se as previsões sobre o desenvolvimento tecnológico se tornarão verdadeiras ou falsas, mas quais interesses se beneficiam com determinadas narrativas. Por Delirios Lutrinescos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Delirios Lutrinescos</h3>
<p style="text-align: justify;">Durante o último mês, abundaram notícias sobre a existência de uma bolha financeira no setor das empresas vinculadas à IA. A Bloomberg divulgou seu <a class="urlextern" title="https://archive.ph/OiqQo" href="https://archive.ph/OiqQo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">infográfico</a> evidenciando os investimentos circulares que buscam supervalorizar essas empresas. Até mesmo <a class="urlextern" title="https://www.businessinsider.com/ai-bubble-debate-business-leaders-sam-altman-bill-gates-2025-11#sam-altman-1" href="https://www.businessinsider.com/ai-bubble-debate-business-leaders-sam-altman-bill-gates-2025-11#sam-altman-1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Sam Altman</a> e <a class="urlextern" title="https://es-us.finanzas.yahoo.com/noticias/jeff-bezos-burbuja-ia-real-150000486.html" href="https://es-us.finanzas.yahoo.com/noticias/jeff-bezos-burbuja-ia-real-150000486.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Jeff Bezos</a> admitiram que, efetivamente, o setor está imerso em uma dinâmica de bolha.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desses diagnósticos alarmantes sobre o estado da indústria, os investimentos parecem seguir seu rumo e os CEOs dessas empresas continuam otimistas. O argumento que costuma ser apresentado é que, mesmo que exista certa supervalorização no mercado atual, o potencial revolucionário da tecnologia é real. Desde previsões de uma quarta revolução industrial, que culminaria em uma era de bonança econômica impulsionada por aumentos de produtividade, até cenários catastróficos onde o desenvolvimento iminente da Inteligência Artificial Geral (IAG) acabaria por subjugar a humanidade sob seu controle, iniciando uma nova era em que as máquinas dominariam o mundo. Ambas leituras compartilham a mesma premissa: a IAG é iminente e, para o bem ou para o mal, desencadeará uma reestruturação radical da sociedade como a conhecemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual é, então, a evidência dessa nova era baseada na IA? Como dizia Carl Sagan, alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. Até o momento, a OpenAI, a empresa maior e com maior potencial dentro do setor, tem uma valorização de mercado de <a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/10/02/openai-share-sale-500-billion-valuation.html#:~:text=OpenAI%20wraps%20$6.6%20billion%20share%20sale%20at%20$500%20billion%20valuation" href="https://www.cnbc.com/2025/10/02/openai-share-sale-500-billion-valuation.html#:~:text=OpenAI%20wraps%20$6.6%20billion%20share%20sale%20at%20$500%20billion%20valuation" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">500 bilhões de dólares</a>. Ainda tendo <a class="urlextern" title="https://opentools.ai/news/openais-financial-paradox-massive-losses-amidst-revenue-surge" href="https://opentools.ai/news/openais-financial-paradox-massive-losses-amidst-revenue-surge" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">perdas de bilhões de dólares</a> todos os anos e com <a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/fce77ba4-6231-4920-9e99-693a6c38e7d5" href="https://www.ft.com/content/fce77ba4-6231-4920-9e99-693a6c38e7d5" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">custos de inferência que superam suas receitas</a>. A única razão pela qual a empresa continua à tona são os constantes investimentos de capital provenientes do mercado financeiro. Para cumprir com suas obrigações financeiras, a OpenAI precisa encontrar uma forma de aumentar suas receitas de <a class="urlextern" title="https://techcrunch.com/2025/10/14/openai-has-five-years-to-turn-13-billion-into-1-trillion/" href="https://techcrunch.com/2025/10/14/openai-has-five-years-to-turn-13-billion-into-1-trillion/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">13 bilhões de dólares para 1 trilhão em 5 anos</a>. Tudo isso enquanto os <a class="urlextern" title="https://blog.kilocode.ai/p/future-ai-spend-100k-per-dev?ref=wheresyoured.at" href="https://blog.kilocode.ai/p/future-ai-spend-100k-per-dev?ref=wheresyoured.at" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">custos de inferência tendem a subir</a>. Como a OpenAI conseguirá esse aumento de rentabilidade descomunal? Ninguém sabe. Por enquanto, a OpenAI perde dinheiro mesmo com <a class="urlextern" title="https://techcrunch.com/2025/01/05/openai-is-losing-money-on-its-pricey-chatgpt-pro-plan-ceo-sam-altman-says/" href="https://techcrunch.com/2025/01/05/openai-is-losing-money-on-its-pricey-chatgpt-pro-plan-ceo-sam-altman-says/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">suas assinaturas de 200 USD</a>. Poderia ser argumentado que, uma vez alcançada a IAG dentro dos próximos 5 anos, um modelo de negócio viável para sustentar esses investimentos surgiria naturalmente. O problema é que ninguém sabe se alcançar a IAG é sequer possível. O que sabemos, isso sim, é que os modelos atuais utilizados para os LLM (<em>Large Language Model</em>, Grandes Modelos de Linguagem) estão chegando <a class="urlextern" title="https://archive.ph/UmxbQ" href="https://archive.ph/UmxbQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ao limite de suas capacidades</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Perfeito, então a bolha existe e é de proporções bíblicas. Mas então por que os grandes empresários e os estados mais poderosos do mundo continuam investindo bilhões de dólares em seu desenvolvimento? A explicação provavelmente tem múltiplas facetas. Por um lado, as bolhas especulativas e as crises econômicas resultantes são um fenômeno recorrente no capitalismo. Do ano 2000 até hoje podemos mencionar pelo menos a bolha das empresas &#8220;ponto com&#8221; em 2000, a bolha imobiliária em 2008, assim como as múltiplas bolhas e golpes em torno das criptomoedas e NFTs de 2016 a 2020. As crises econômicas são tão inerentes ao sistema que até foram batizadas com um nome um pouco mais neutro: o “ciclo de negócios”. A irracionalidade do mercado leva a investir nos ramos onde se percebe o maior retorno sobre o investimento, mesmo que o crescimento seja fictício; o incentivo de poder revender ações a um preço maior é suficiente para alimentar a bolha. A análise de <a class="urlextern" title="https://fortune.com/2025/10/07/data-centers-gdp-growth-zero-first-half-2025-jason-furman-harvard-economist/" href="https://fortune.com/2025/10/07/data-centers-gdp-growth-zero-first-half-2025-jason-furman-harvard-economist/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Jason Furman</a> estima que 92% do crescimento da economia americana este ano se deve unicamente a investimentos de capital em IA; sem esse fator, sua economia estaria em recessão. Por sua vez, existem interesses militares e geopolíticos que impulsionam o envolvimento dos estados. O <a class="urlextern" title="https://www.fool.com/investing/2025/11/19/if-youd-invested-10000-in-palantir-stock-5-years-a/" href="https://www.fool.com/investing/2025/11/19/if-youd-invested-10000-in-palantir-stock-5-years-a/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">auge da Palantir</a> dá uma pista da capacidade atual e da expectativa futura depositada na IA para incrementar as capacidades bélicas, de vigilância e controle dos estados e empresas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158360 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169.jpg" alt="" width="1000" height="657" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-768x505.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-639x420.jpg 639w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-640x420.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-681x447.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Suponhamos por um momento que o desenvolvimento da IAG dentro dos próximos 5 anos é factível. Quais são os custos ambientais que esses empresários estão dispostos a sacrificar para tentar conseguir isso? Recentemente,<a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/09/23/sam-altman-openais-850-billion-in-planned-buildouts-bubble-concern.html?ref=wheresyoured.at" href="https://www.cnbc.com/2025/09/23/sam-altman-openais-850-billion-in-planned-buildouts-bubble-concern.html?ref=wheresyoured.at" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Sam Altman anunciou um compromisso de desenvolvimento de infraestrutura de 17GW</a>, equivalente a 17 grandes usinas nucleares, para alimentar seus data centers. Em um contexto de crise climática global, uma ameaça civilizacional com um respaldo científico amplamente maior que o risco de uma IAG malévola, são necessárias reduções imediatas das emissões. Pelo contrário, esse aumento frenético da demanda energética está forçando a manutenção e intensificação da geração de energia a todo custo, mesmo das fontes <a class="urlextern" title="https://archive.ph/spRaU" href="https://archive.ph/spRaU" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais poluentes</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem múltiplos problemas ambientais adicionais ao consumo energético. Desde a geração de calor e o uso de água para sua refrigeração, até a geração de lixo eletrônico. Sendo que este último poderia escalar a níveis absurdos, dado que a corrida da IA força as empresas a adotar as GPUs mais modernas, que a NVIDIA lança no mercado anualmente. Da mesma forma, a depreciação das GPUs devido ao uso intensivo lhes dá uma vida útil de apenas <a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/11/14/ai-gpu-depreciation-coreweave-nvidia-michael-burry.html" href="https://www.cnbc.com/2025/11/14/ai-gpu-depreciation-coreweave-nvidia-michael-burry.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2 a 6 anos</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece grave, mas não há razão para se preocupar! Afinal, o <em>grande</em> <a class="urlextern" title="https://archive.ph/JrtlS" href="https://archive.ph/JrtlS" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Sam Altman opina</a> que a crise climática é um problema menor que a IAG será capaz de resolver facilmente. Este é exatamente o tipo de comentário que revela a mentalidade que os CEOs dessas empresas têm. Uma fascinação quase religiosa com o potencial dessa tecnologia. <em>Não importa a </em><a class="urlextern" title="https://link.springer.com/article/10.1007/s42113-024-00217-5#Sec16" href="https://link.springer.com/article/10.1007/s42113-024-00217-5#Sec16" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">evidência científica</a><em> nem os contrastes mais básicos com </em><a class="urlextern" title="https://archive.ph/hNmn9" href="https://archive.ph/hNmn9" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a realidade</a><em>, a IAG é iminente e será capaz de resolver qualquer problema que ameaça a humanidade. Não sabemos quando nem como a IAG nos salvará (ou destruirá!), mas podemos contar com isso.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A falha central desse raciocínio é que todos os problemas existentes são percebidos como problemas meramente técnicos. A crise climática, por exemplo, seria simplesmente um problema que consiste em descobrir e implementar tecnologias superiores. Embora seja verdade que os avanços tecnológicos são necessários e extremamente úteis para alcançar uma economia sustentável com o meio ambiente, já sabemos em grande medida <a class="urlextern" title="https://www.nature.com/articles/d41586-022-04412-x" href="https://www.nature.com/articles/d41586-022-04412-x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como solucionar a crise climática</a>. A razão pela qual ela segue seu curso é que afeta interesses políticos e econômicos. <a class="urlextern" title="https://news.harvard.edu/gazette/story/2023/01/harvard-led-analysis-finds-exxonmobil-internal-research-accurately-predicted-climate-change/" href="https://news.harvard.edu/gazette/story/2023/01/harvard-led-analysis-finds-exxonmobil-internal-research-accurately-predicted-climate-change/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Não é conveniente para as petroleiras</a> a eliminação dos combustíveis fósseis. A lógica de acumulação e crescimento exponencial mundial exigida pelo capitalismo é incompatível com a redução necessária da produção e do consumo. Assim como o aspecto técnico, os problemas sociais também têm seus aspectos econômicos e políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">As tentativas de fazer futurologia são sempre trabalhosas e propensas a erros. O importante a destacar não é se as previsões sobre o desenvolvimento tecnológico se tornarão verdadeiras ou falsas, mas quais interesses se beneficiam com determinadas narrativas. Por enquanto, tanto as visões de uma quarta revolução industrial quanto as de uma Skynet alimentam a expectativa e os investimentos no setor de IA, aumentando a bolha atual. O desenvolvimento da técnica e da ciência não é alheio à sociedade; são moldados pelo contexto social, econômico e político no qual estão imersos. Em um sistema guiado pela acumulação e pelo crescimento perpétuo dos lucros, não podemos esperar outra coisa senão que os grandes desenvolvimentos tecnológicos beneficiem a continuidade dessa lógica em detrimento de qualquer utilidade social. Quando finalmente a bolha explodir, quem sairá perdendo e quem se beneficiará?</p>
<p style="text-align: center;"><em>As imagens que ilustram este artigo são do filme Metropolis (1927), de Fritz Lang</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/12/158358/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ouro e o bezerro de ouro</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 13:07:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158274</guid>

					<description><![CDATA[Nunca é tarde para abandonar velhos esquemas e pensar com mais liberdade. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">Rolando Astarita, professor de economia da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires, <a class="urlextern" title="https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/" href="https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">recentemente publicou em seu blog um breve texto</a> onde reforça o credo ortodoxo marxista que encontra no ouro a “encarnação do valor”. Para Astarita, a “bárbara relíquia”, o ouro em sua função monetária, permanece em nossos dias por um motivo estrutural, não acessório.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns fenômenos vão ao auxílio do credo: os Bancos Centrais pelo mundo afora vêm aumentando suas reservas de ouro, em particular a China, e o precioso metal se ofereceu como um porto seguro de liquidez em todas as últimas crises econômicas. Instituições deste porte acumulariam sem motivos essa quantidade de pedra dourada em seus cofres? A segurança do ouro nas crises é um comportamento irracional atávico?</p>
<p style="text-align: justify;">Para fazer polêmica com outras interpretações sobre o fenômeno monetário, Astarita afirma que apenas os marxistas ortodoxos acreditam que o ouro “continua tendo uma função monetária no capitalismo contemporâneo”. Se limpamos um pouco o estilo polemista, podemos entender que para o professor apenas os marxistas ortodoxos continuam acreditando que o ouro <em>é a base</em> da função monetária no capitalismo contemporâneo, e nisto ele estaria correto.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg" alt="" width="1549" height="2000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg 1549w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-768x992.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-1190x1536.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1549px) 100vw, 1549px" />Em épocas de Bitcoins e NFTs, seria uma displicência tomar partido em uma discussão para afirmar que algo <em>não </em>é dinheiro. Por mais que doa aos seguidores mais fiéis a Marx, muito se avançou nos estudos sobre os mercados monetários e financeiros, assim como estes têm sofrido repetidos ciclos de regulamentação e inovação. Partimos da seguinte claridade: não se trata de discutir se o ouro é dinheiro ou não no século XXI. A verdadeira discussão por trás da defesa da ortodoxia diz respeito ao fundamento do dinheiro em geral.</p>
<p style="text-align: justify;">Conservando esse estilo fiel a Marx, o professor ignora a vasta disciplina da antropologia econômica e nos convida a pensar que o dinheiro “surge das contradições da mercadoria”, como se não houvesse dinheiro antes das mercadorias, como se o dinheiro &#8211; e especialmente o ouro! &#8211; no capitalismo não fosse também uma herança do dinheiro que precedeu o atual modo de produção. O dinheiro não é uma instituição capitalista. E o ouro não é essa figura bíblica, uma mercadoria que é mais mercadoria que todas as demais, e que portanto pode redimi-las. O ouro como “encarnação de valor” é essa mercadoria especial, equivalente geral, e é a única que pode cumprir uma contradição: seu valor é determinado antes de chegar ao mercado, à diferença de todas as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais que teoria, justificação do estado de coisas herdado. Marx observou o papel do ouro em sua época e o caracterizou corretamente como dinheiro mundial. O ouro foi útil para estabilizar o comércio exterior e impulsionar o mercado global que Marx conheceu e estudou. Algo ocorreu nessa história que o esquema monetário internacional do padrão-ouro deixou de funcionar, os países já não estavam tão de acordo sobre as regras da integração comercial internacional. A intensificação das políticas fiscais e monetárias nos âmbitos nacionais desarranjou os equilíbrios que o padrão-ouro facilitava nas finanças internacionais. Pois bem, depois veio o dólar para fixar o valor do ouro, de 1945 até 1973, depois o dólar passou a um câmbio variável em relação ao ouro, e hoje já o dólar parece ameaçado como dinheiro mundial hegemônico.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158286" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article.jpg" alt="" width="1280" height="794" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-300x186.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-1024x635.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-768x476.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-677x420.jpg 677w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-640x397.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-681x422.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Como se fosse pouco, lá por 2008 surgem as criptomoedas, ou moedas baseadas em <em>blockchain</em>, a tecnologia “cripto-contábil”, ou de <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_distribuído" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_distribuído" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">registro distribuído</a>, que vem sendo promovida inclusive por Bancos Centrais. A existência de um tipo de dinheiro digital “nativo”, nascido e criado por meio de uma lógica digital e não apenas replicado, está diretamente relacionada com a digitalização dos meios de pagamento. De fato, um dos grandes atrativos das criptomoedas é a facilidade e anonimidade dos seus fluxos. O dinheiro ainda será muitas coisas além de uma contradição da mercadoria, talvez ele siga existindo num mundo onde já não existirão as mercadorias. O ouro definitivamente já não cumpre o papel que tinha antes, com sua capacidade de gerar atividade econômica nas colônias, expandir o mercado internacional, financiar os mercados de valores. Hoje em dia o ouro já não cumpre muitas destas funções, ao menos não de maneira hegemônica: uma variação do dólar afeta a economia global, uma variação do ouro é uma curiosidade para investidores. Pode-se também ir ao centro de uma grande cidade cosmopolita com 0,1 grama de ouro 24k e tentar pagar o seu almoço com esse ativo que é liquidez em estado puro.</p>
<p style="text-align: justify;">Explicar o dinheiro hoje fundamentando sua natureza a partir do ouro é propor ao debate um formato bizantino, completamente alheio à experiência cotidiana da classe trabalhadora. O mais próximo que ela vê do ouro é quando tem que vender as joias da família. A digitalização é um dos fenômenos que mais transformou o dinheiro nos últimos tempos. O teletipo foi inventado em 1867, ainda durante a vida de Marx, e já então as operações bursáteis supunham um sistema de comunicação veloz. Hoje na maior parte do mundo é comum que pessoas pobres tenham acesso a meios de pagamento digitais, os celulares são ubíquos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg" alt="" width="1549" height="2000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg 1549w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-768x992.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-1190x1536.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1549px) 100vw, 1549px" />Quando o Bitcoin alcançou fama mundial e presidentes de Bancos Centrais discutiam o que fazer ante o surgimento das moedas em <em>blockchain</em>, progressistas e esquerdistas falavam da “falta de lastro”, “esquema de pirâmide”, “bolha especulativa”. Oras, as últimas duas grandes bolhas financeiras foram do mercado imobiliário e das <em>dotcom</em>, empresas inventando serviços por internet. São dois mercados com enorme influência nos rumos do capitalismo contemporâneo (bem representados por Trump e Bezos). Foram bolhas que de nenhuma maneira varreram do mapa o seu conteúdo purulento. Concentração de capital, destruição criativa. O professor Astarita pode ficar tranquilo e conservar sua poupança no caixa-forte do seu banco. Não perderemos a fé no valor de seu ouro. O que deveríamos fazer, e rápido, é deixar de adorar a Marx como um bezerro dourado. Nunca é tarde para abandonar velhos esquemas e pensar com mais liberdade.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são fotografias da obra de Ai Weiwei.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/12/158274/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>12</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um manifesto incómodo. 7</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Oct 2025 06:55:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157157</guid>

					<description><![CDATA[A extrema-esquerda marxista perdeu qualquer capacidade mobilizadora. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>7</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Chegou o momento de juntar os fios da meada.</p>
<p style="text-align: justify;">O esgotamento das movimentações autonomistas que marcaram a década de 1960 e a primeira metade da década seguinte e a subsequente generalização de um fascismo pós-fascista pressupõem uma grande transformação interna sofrida pela classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem fala de <em>trabalhadores</em> refere-se a quê? Aos operários de uma fábrica em greve ou a um grupo de entregadores de <em>pizzas</em> que pretende alterar os termos de um contrato ou às pessoas que enchem um meio de transporte quando vão para o emprego ou a uma categoria nas estatísticas? É necessário esclarecer sempre a diferença, porque a estrutura sociológica da classe trabalhadora não pode deduzir-se simplesmente da forma económica de extorsão da mais-valia. A mais-valia resulta de um sistema de controle social que assegura que o tempo de trabalho que os trabalhadores são capazes de despender no processo de produção seja superior ao tempo de trabalho incorporado nos meios de subsistência consumidos pela força de trabalho. Esta fórmula genérica e abstracta prevalece hoje como prevalecia no início do capitalismo e há-de prevalecer enquanto o capitalismo durar, mas os modos práticos da sua realização efectiva foram-se alterando. Por isso é impossível passar da simples definição económica da classe para caracterizações sociológicas específicas sem que consideremos previamente a heterogeneidade do funcionamento interno da economia.</p>
<p style="text-align: justify;">A proliferação de conflitos particulares não corresponde a um conflito generalizado. Para isso seria necessário que os conflitos particulares convergissem, e neste processo alterariam o seu carácter. Assim, a economia dos conflitos sociais só raramente tem sido uma economia dos processos revolucionários. Por um lado, é certo que a escassez destes casos em nada lhes retira a importância, porque as relações sociais geradas e desenvolvidas nas lutas que envolvem a acção de massas trabalhadoras pelo controle directo dos meios de produção e pela reorganização das relações de trabalho permite antecipar o que poderá ser uma sociedade socialista e a forma como nela se articularão as técnicas disponíveis para fundar uma nova tecnologia. É aí que se averigua um futuro. Por outro lado, porém, não são os processos revolucionários de massas que pautam o quotidiano do capitalismo, e no longo dia-a-dia a economia dos conflitos sociais é a economia da recuperação capitalista dos conflitos particularizados, ou seja, a banal progressão da mais-valia relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a mais-valia absoluta corresponde a uma forma rudimentar de aumento da exploração, que consiste em prolongar as horas de trabalho e diminuir a quantidade de bens a que os trabalhadores têm acesso, a mais-valia relativa resulta de uma dupla operação que em termos lineares pareceria impossível — trabalhar mais dentro dos limites do mesmo horário ou até num horário reduzido e, eventualmente mediante um pequeno acréscimo da remuneração, ter acesso a um acréscimo muito superior de bens de consumo. É na solução deste mistério que o capitalismo assenta todo o seu progresso, e a resposta torna-se simples se recordarmos que a mais-valia não resulta da disparidade entre somas de gestos de trabalho particulares e de bens de consumo concretos, mas entre os tempos de trabalho pressupostos naqueles gestos e os incorporados nos bens consumidos. Não se trata de coisas, mas do tempo, entendido como um processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Contrariamente aos sistemas económicos que o precederam e que ainda hoje possam subsistir residualmente, o importante no capitalismo é o tempo e só o tempo. Assim, dentro da mesma jornada, tal como é marcada pelos relógios, pode aumentar a intensidade do trabalho, ou seja, o ritmo dos gestos executados pelos trabalhadores, e pode aumentar a qualificação dos trabalhadores, quer dizer, a sua capacidade de se encarregar de novas técnicas, novas produções e novos serviços com maior impacto sobre a restante economia. O aumento das qualificações tem o efeito de, por assim dizer, aprofundar o tempo, fazer com que cada hora de um trabalho mais complexo produza mais valor do que uma hora de um trabalho simples. Por outro lado, e em resultado da generalização do processo que acabei de descrever, cada um dos bens consumidos pelos trabalhadores pode ser produzido de maneira a incorporar menos tempo de trabalho e, portanto, representar um menor valor. A mais-valia relativa resulta da articulação destes dois factores, prolongando por um lado o tempo de trabalho que os trabalhadores são capazes de despender no mesmo horário ou num horário mais curto, e reduzindo por outro lado o tempo de trabalho representado pela soma dos bens que os trabalhadores podem consumir. Deste modo aumenta na realidade económica o desfasamento (defasagem) que constitui o cerne da mais-valia, enquanto na ilusão superficial parece que se trabalha menos e se ganha mais. É assim que o capitalismo recupera a miríade de conflitos sociais e por isso pode aceitar formalmente as reivindicações e, no mesmo gesto, convertê-las na realidade em aumento da exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, se o capitalismo recupera os conflitos sociais mediante o desenvolvimento da mais-valia relativa, invertendo a definição devo afirmar que sem a pressão permanente dos conflitos o capitalismo não progrediria. Em vez de ameaçarem a estabilidade do capitalismo, os conflitos dispersos e particularizados são a própria condição da sua existência. Afinal, a dinâmica do capitalismo consiste na superação de formas de mais-valia absoluta, convertendo-as em mais-valia relativa, e na passagem para formas de mais-valia relativa sempre mais elaboradas. Os grandes ciclos de lutas marcam os ciclos sucessivos de mais-valia relativa, e o aumento da produtividade é o mecanismo desta dinâmica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a dinâmica não é homogénea. O desenvolvimento desigual e combinado, que Trotsky formulou como lei económica, fornece-nos o quadro geral em que a mais-valia relativa é aplicada, consoante a ocorrência dos conflitos sociais e a disparidade de respostas dos capitalistas. É mais fácil desenvolver a produtividade em certas empresas, dependendo das infra-estruturas disponíveis, do acesso à educação e de muitos outros factores, o que leva a mais-valia relativa a progredir de maneira irregular e obedecendo a ritmos desiguais. A heterogeneidade é maior ainda, porque muitos trabalhadores não alcançam os novos patamares de qualificação e perdem o estatuto que possuíam ou são mesmo lançados no desemprego. Torna-se indispensável recorrer aqui à noção de destruição criativa, divulgada por Joseph Schumpeter, porque não só numerosas empresas e conjuntos de trabalhadores não conseguem gerar formas de mais-valia relativa, como outras empresas e outros trabalhadores, que laboravam em condições de mais-valia relativa, são incapazes de acompanhar o progresso e vêem-se remetidos para o que devemos considerar como novas modalidades de mais-valia absoluta. Em conclusão, o carácter criativo das empresas inovadoras implica a destruição do estatuto de outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta heterogeneidade do sistema económico tem efeitos directos e generalizados sobre a classe trabalhadora. Antes de mais, é crescente a divergência entre os trabalhadores qualificados formados no processo de desenvolvimento da mais-valia relativa e os restantes trabalhadores, tanto os não qualificados que desde início laboravam em sistemas de mais-valia absoluta, como os desqualificados remetidos para formas de mais-valia absoluta em resultado de uma degradação que sofreram nos ciclos de mais-valia relativa. Não se trata só da discrepância de estatutos, com tudo o que isto implica, mas igualmente do desemprego. E como uma sólida educação de base é cada vez mais indispensável para atingir sucessivos limiares de qualificação, a diferença entre qualificados e não qualificados reproduz-se e agrava-se nas gerações seguintes, ameaçando perpetuar-se. Em conclusão, o carácter heterogéneo da dinâmica económica suscita uma heterogeneidade sociológica crescente entre os trabalhadores. Mais do que nunca, é impossível passar por mera dedução da área económica para a sociológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas as consequências são mais vastas. A electrónica e, agora, a Inteligência Artificial apressaram os ciclos de mais-valia relativa e abriram aos mecanismos de exploração da força de trabalho horizontes de que não conseguimos vislumbrar os limites. O capitalismo entrou numa colossal fase de expansão e, ao mesmo tempo que se aceleraram os processos de desqualificação, agravou-se a cisão entre os trabalhadores qualificados e os não qualificados. Neste quadro económico tende a aumentar a diversidade social dos trabalhadores e, portanto, tende a exacerbar-se a sua heterogeneidade política. Os trabalhadores, que no plano económico são uma classe, deixaram de aparecer como uma classe no plano social. A situação deteriora-se com a substituição das relações pessoais por relações virtuais e com a tendência à constituição de grupos virtuais fechados, o que mais ainda pressiona os trabalhadores a não se comportarem como uma classe no sentido social do termo.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, ocorre hoje uma multiplicidade de lutas particulares, incapazes de convergir. E os sindicatos, que durante muito tempo, e apesar da sua burocratização, pelo menos forneciam aos trabalhadores um quadro social unificado, resumem-se agora a grandes investidores de fundos financeiros. Do mesmo modo, o que resta das antigas experiências de autogestão e dos antigos movimentos sociais transformou-se em empresas capitalistas, que mantêm o nome só como chamariz publicitário.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157200 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12.jpg" alt="" width="600" height="399" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />É este o contexto em que na Europa, nos Estados Unidos, em África e agora também no Japão os trabalhadores menos qualificados, sobretudo os jovens, desde sempre considerados pelos marxistas como a base social inerente da esquerda, passaram na maior parte dos casos a organizar a sua contestação no quadro da extrema-direita, laica ou religiosa, e do fascismo. O paradoxo é mais gritante ainda, porque enquanto a denominada extrema-esquerda não faz outra coisa senão invocar o recurso ao poder de Estado, são os fascistas que hoje se apresentam como contestatários. Pode argumentar-se que nas economias desenvolvidas a população nativa menos qualificada vota nos fascistas e na extrema-direita porque defende medidas contra os imigrantes, que aceitam salários baixos e, portanto, concorrem no mercado de trabalho. Mas por que motivo, então, os movimentos de massa contra as elites económico-políticas corruptas e repressivas, que têm atingido grandes proporções em vários países africanos, seguem organizações da extrema-direita evangélica ou pior ainda? E por que motivo as lutas contra as elites nas sociedades islâmicas sunnis, onde o marxismo tivera uma grande vitalidade, passaram a ser exclusivamente conduzidas por facções religiosas fundamentalistas ainda mais fanáticas e misóginas? Quem não quiser iludir-se terá de reconhecer que a extrema-esquerda marxista perdeu qualquer capacidade mobilizadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante esta situação, os marxistas actuais substituíram a análise crítica das novas realidades sociais pela metafísica, e difundiu-se o que eu tenho classificado como marxismo pré-galilaico. Assim como na época de Galileo havia quem não quisesse espreitar pelo telescópio para não constatar a existência dos satélites de Júpiter, também esses marxistas não olham para as estatísticas sempre que elas são incómodas. Já sabem as respostas antes de conhecerem as perguntas, e deste modo a visão crítica inovadora foi substituída por deduções a partir de textos escritos pelo pai fundador ou por qualquer dos santos da meia dúzia de capelas consagradas. Quando os argumentos factuais se tornam incapazes de persuadir, temos uma religião. Os marxistas caíram na pior das escolásticas, manipulando termos abstractos que eles julgam que são conceitos, quando na verdade são abstractos pelo motivo simples de lhes faltar conteúdo prático. Pelo menos, a esquerda chamada reformista ou social-democrata tem uma percepção da mais-valia relativa e entende que, tal como há pouco sublinhei, os conflitos dispersos, em vez de ameaçarem o capitalismo, são a própria condição da sua existência. Mas a extrema-esquerda marxista concebe apenas os sistemas de extorsão de mais-valia absoluta e, por isso, fica alvoroçada com a eclosão de qualquer conflito social e é incapaz de entender as potencialidades de adaptação do capitalismo e as suas reconfigurações. Escapa-lhes todo o mundo moderno e, pior ainda, o mundo futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das consequências mais funestas e lamentáveis desta incapacidade são os equívocos que envolvem a tão falada queda da taxa de lucro. A extrema-esquerda marxista confunde aqui uma lei tendencial com uma lei efectiva. Uma lei tendencial define o que devemos fazer para não sermos vítimas dela. É uma lei negativa, determinando as condições necessárias para que essa lei não vigore. Portanto, o efeito da lei da baixa tendencial da taxa de lucro não é o de fazer baixar o lucro mas, pelo contrário, o de pressionar os capitalistas a aumentarem a produtividade, de modo que os lucros cresçam, em vez de baixarem. Por isso a mais-valia relativa, com tudo o que implica, tanto no aspecto social como no técnico, define o eixo do progresso económico. Em suma, baixa tendencial da taxa de lucro e desenvolvimento da mais-valia relativa são dois aspectos da mesma realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando os marxistas actuais, persistindo nessas confusões, afirmam que o capitalismo padece de uma crise estrutural estão, afinal, a pretender que o capitalismo se destruirá a si mesmo. Que colossal paradoxo! Na ausência de uma revolução proletária mundial, que não ocorreu nem há previsões de que ocorra nos próximos anos, estes marxistas chegaram a uma conclusão que, para ser válida, tem de presumir a inutilidade política da classe trabalhadora. Se outrora Marx encarregara os trabalhadores da tarefa histórica de destruir o capital, agora os discípulos pretendem atribuir ao próprio capital essa função. Desprovida de uma base social própria, que transitou para outros quadrantes políticos, a extrema-esquerda marxista aguarda o apocalipse. Por isso confunde as permanentes crises sectoriais e localizadas, resultantes do desenvolvimento desigual e combinado e do processo de destruição criativa, com a crise sistémica que ela inventou e sem a qual perderia a fé e a esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">O fracasso dos marxistas contemporâneos não poderia ser maior. Neste deserto, a adopção da ecologia pelos marxistas ou, talvez mais exactamente, a absorção dos marxistas pela ecologia é um indício trágico do seu esgotamento ideológico e político, pretendendo encontrar um novo fôlego naquela criação do fascismo. Outro sintoma é a adopção dos identitarismos, e quando os marxistas actuais não escamoteiam os trabalhadores na interminável série de identidades, consideram-nos uma identidade suplementar para acrescentar às outras. Eu ia escrever que é tão absurdo proclamar-se eco-marxista ou falar de marxismo <em>queer</em> como seria proclamar-se racista-marxista, mas parei a tempo porque me lembrei de Karl Pearson.</p>
<p style="text-align: justify;">A absorção dos marxistas pelos identitarismos e pela ecologia, que não ocorre só num ou em dois países, mas se generalizou a todo o mundo e passou a caracterizar todas as correntes marxistas contemporâneas, marca a sua crise terminal.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise terminal destes marxistas, não do marxismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> vimos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> vimos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional.</p>
<p style="text-align: left;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157202" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-200x300.jpg" alt="" width="100" height="150" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-682x1024.jpg 682w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-768x1152.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-280x420.jpg 280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-640x960.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-681x1022.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c.jpg 851w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Bridget Riley (1931-       )</em>.</p>
</div>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_13">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"></div>
</form>
</div>
<div class="section_highlight_wrapper">
<h3 id="carros_voadores_e_a_queda_da_taxa_de_lucro" class="sectionedit14"></h3>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/10/157157/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>31</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um manifesto incómodo. 6</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157154/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/09/157154/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Sep 2025 07:13:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157154</guid>

					<description><![CDATA[Cada identitarismo é um Israel em potência. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>6</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para o marxismo, a função histórica atribuída à classe trabalhadora não seria apenas derrotar os capitalistas e acabar com o capitalismo, mas, nesse mesmo gesto, pôr termo à sua própria existência como classe trabalhadora e instaurar uma sociedade sem classes. O objectivo final da revolução seria a fundação de uma humanidade. Esta missão foi retomada, com nova força e mais lirismo, pelo movimento autonomista internacional desenvolvido ao longo da década de 1960 e na primeira metade da década seguinte. Ora, quando esse movimento revolucionário se desagregou, desapareceu com ele a noção de uma humanidade susceptível de obedecer a uma mesma História e regida pelos mesmos modelos gerais ou, pior ainda, extinguiu-se a aspiração a fundar uma humanidade. Ficou assim liquidada a possibilidade de desenvolver uma História comparada, mas isto, ou se é um historiador, ou seriam necessárias cem páginas para explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">O fraccionamento tornou-se o único horizonte possível, e foi neste contexto que surgiram os identitarismos, porque numa economia e numa sociedade transnacionalizadas já não são suficientes as velhas divisões nacionais. Gosto de citar um texto de Paul Valéry. «A História é o produto mais perigoso que a química do cérebro elaborou. As suas propriedades são bem conhecidas. Faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas». Valéry afirmou isto em 1931, quando os nacionalismos chegavam ao auge e em poucos anos iriam precipitar uma guerra mundial. Mas as palavras que o escritor empregou para caracterizar os nacionalismos podem ser aplicadas, sem nenhuma mudança ou adaptação, aos identitarismos dos nossos dias, e isto confere-lhes uma dupla lucidez, porque servem também para mostrar que, apesar da transnacionalização, os novos identitarismos são tão perversos como os velhos nacionalismos.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o disse a propósito do terceiro mundo e da ecologia e repito-o agora, os antifascistas lucrariam bastante se lessem os livros e artigos e discursos escritos por fascistas. Muitos desses antifascistas, se não a maior parte, poderiam descobrir que são fascistas, quando gostariam de não o ser. E todos nós beneficiaríamos, porque a situação ficava menos confusa.</p>
<p style="text-align: justify;">A característica mais flagrante dos identitarismos é o recurso a uma forma de racismo específica do nacional-socialismo germânico — a circulação entre biologia e ideologia e inversamente. Um dos sentidos do percurso é, sem dúvida, comum a todos os tipos de racismo. Admitir que a biologia, entendida como raças, gere padrões específicos de ideologia é uma crença corrente pelo menos desde Herder e o romantismo, com a noção de <em>Volksgeist</em>, o espírito de um povo, e com a persistente confusão entre comunidade linguística e comunidade racial. Numa forma banalizada inspira o racismo corrente, que classifica umas raças como estúpidas ou perversas e outras como inteligentes ou honestas. Assim, o que destacou o tipo de racismo assumido pelo nacional-socialismo germânico e lhe deu originalidade foi o sentido inverso do percurso, da ideologia para a biologia.</p>
<p style="text-align: justify;">É necessário introduzir aqui um personagem. Nascido na Inglaterra, Houston Stewart Chamberlain adoptara a cultura germânica, tornara-se um influente amigo do imperador e, casando-se com a filha de Wagner, neta de Liszt, passara a encabeçar a principal dinastia da cultura alemã. Durante a primeira guerra mundial Chamberlain renunciou à cidadania britânica e adoptou escandalosamente a nacionalidade alemã. Alfred Rosenberg, o mais importante ideólogo e místico do Terceiro Reich, incluiu Chamberlain entre os quatro únicos precursores intelectuais do nacional-socialismo e, com efeito, ele exerceu uma grande influência sobre Hitler, não só ideológica, mas pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, por um lado Chamberlain considerava que «a configuração da cabeça e a estrutura do cérebro exercem sobre a configuração e a estrutura dos pensamentos uma influência perfeitamente decisiva». Porém, depois de admitir que, «relativamente à raça», as ideias «são sem dúvida uma <em>consequência</em>», Chamberlain preveniu. «Mas tenhamos o cuidado de não subestimar o contributo desta anatomia interior e invisível — desta dolicocefalia ou desta braquicefalia puramente espirituais — que age como <em>causa</em> e tem um âmbito de acção muitíssimo vasto». Afinal, «aquilo que designamos pela palavra “raça” é, dentro de certos limites, um fenómeno plástico, e assim como o físico reage sobre o intelectual, o intelectual reage do mesmo modo sobre o físico». Portanto, concluiu Chamberlain, «nada nos impediria de afirmar algo aparentemente paradoxal, que os homens baixos deste grupo [os germanos] são grandes porque pertencem a uma raça de pessoas altas, e pelo mesmo motivo os seus braquicéfalos têm crânios alongados. Observando com mais atenção, depressa distinguireis, tanto no seu aspecto físico como no seu ser íntimo, os traços característicos do Germano».</p>
<p style="text-align: justify;">Na sequência destas lições, Rudolf Steiner — esse mesmo, o criador da antroposofia e inventor da agricultura biodinâmica, depois crismada de orgânica — afirmou que se uma mulher branca lesse durante a gravidez romances escritos por autores negros, a criança sairia mestiça. Compreende-se assim que ainda no primeiro ano da sua ditadura Hitler, a propósito dos nórdicos, tivesse podido evocar «aqueles que pertencem em espírito a uma certa raça» e muito mais tarde, nos derradeiros dias do seu Reich, Hitler ainda insistia. «Falamos de raça judaica por comodidade de linguagem, porque, para falar com exactidão e sob o ponto de vista genético, não existe uma raça judaica. […] A raça judaica é antes de mais uma raça mental. […] Uma raça mental é algo mais sólido e duradouro do que uma simples raça». Esta nunca deixou de ser a doutrina oficial, e já o geneticista Fritz Lenz, um dos mais influentes cientistas raciais do Terceiro Reich, considerara que «poderíamos, na verdade, classificar os judeus como uma raça espiritual». Em suma, a complementaridade entre a passagem do biológico ao ideológico e a construção, a partir da ideologia, de uma outra biologia espiritual caracterizaram o racismo nacional-socialista.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isto pode parecer-nos delirante, e sem dúvida que o é, mas não é menor a alucinação daqueles identitários representados pela longa série ilimitada de letras, quando estabelecem uma clivagem entre o sexo, entendido como biológico, e o género, supostamente resultante de opções ideológicas. Existem decerto muitas pessoas cuja opção de género difere do sexo e que, no entanto, não pretendem por isso alterar mentalmente a sua biologia. São, porém, cada vez mais frequentes os identitários que admitindo, por um lado, a noção corrente de que um dado sexo defina uma dada orientação sexual, ao mesmo tempo, e em sentido inverso, sustentam que uma dada propensão sexual possa redefinir o sexo, ou seja, que uma opção no plano da ideologia altere a biologia. Esta noção, que se afigura tão extravagante quando a vemos defendida pelos nacionais-socialistas, tornou-se hoje comum e oficiosa, se não mesmo oficial, ao ser proclamada pelos identitários.</p>
<p style="text-align: justify;">As culturas são feitas de estereótipos e os estilos também, pois onde estaríamos nós se a cada passo tivéssemos de inventar tudo de novo! Na circularidade suposta pelo racismo nacional-socialista e aceite pelos identitarismos de género, as deduções dos géneros a partir dos sexos são indispensáveis para escolher a máscara que se pretende usar no percurso inverso. Assim, os <em>clichés</em> masculinos ou femininos compõem o disfarce a que um género recorre se quiser adoptar o sexo oposto, e a farsa pode chegar mais longe e usar a cirurgia plástica para alterar a aparência exterior do próprio corpo. E como hoje nada resiste à indústria cultural, o botox é a banalização do trans. Mas tudo pára nesse plano das aparências, porque a biologia íntima permanece a mesma e só idealmente é assumida como outra. Deste modo as próstatas e os ovários espirituais emparceiram com os crânios braquicéfalos e dolicocéfalos espirituais num absurdo museu de anatomia ideológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa insensata circularidade não se circunscreve às acrobacias entre género e sexo, porque nos movimentos negros não faltam insultos para designar a pessoa negra que escolher a companhia sentimental de uma pessoa branca, considerando-a negra por fora mas branca por dentro. E assim uma preferência sexual assumida no plano da ideologia provocaria uma perda de melanina, com a consequente nova biologia espiritual. Sem esquecer que esta alquimia biológica tem consequências muito palpáveis, como demonstra o ostracismo de que essas pessoas são vítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, tanto na versão nacional-socialista como na versão identitária, a circularidade entre a biologia e a ideologia e inversamente exige um padrão de comparação, que é sempre um objecto de repulsa. Se num sentido a ideologia é deduzida da biologia, no outro sentido supõe-se a intervenção de uma escolha ideológica para definir uma nova biologia espiritual, e esta escolha assume-se como recusa de um dado padrão. Mesmo as identidades que não resultem da pretensa clivagem entre sexo e género, como o feminismo ou as identidades étnicas, apresentadas como raciais, implicam a existência de um objecto de repulsa. Se adicionarmos os objectos de repulsa de todas as identidades, ou melhor, se os fundirmos, personificamos o resultado num só personagem — caracterizado pelo lugar de nascimento, pelo sexo e pelo tipo de propensão sexual, e pela cor da pele. Se para os nacionais-socialistas a aversão incidia nos judeus, classificados como anti-raça, por analogia posso designar como anti-identidade o objecto de repulsa dos identitários. Não é difícil adivinhar. A anti-identidade global, que funde todas as anti-identidades particulares, é hoje o homem branco, europeu e heterossexual.</p>
<p style="text-align: justify;">De imediato, a existência de uma anti-identidade serve de justificação para todas as identidades em conjunto. Perante a crítica de que a proliferação de identidades — tanto mais perturbante quanto a lista apresenta um sinal + no fim provisório — impede a aspiração a fundar uma humanidade, é imediata a resposta de que essa seria uma noção eurocêntrica, com as conotações negativas que lhe estão associadas. Se as lutas dos trabalhadores pela superação do capitalismo começaram na Europa, o único lugar onde o capitalismo então se desenvolvia, e se foi europeia a primeira grande revolução internacionalista, que tentou realizar na prática a ambição de construir uma humanidade efectiva, então os identitarismos legitimam-se ao se proclamarem inimigos do eurocentrismo. As conquistas dos trabalhadores e de todas as forças progressistas na Europa são agora repudiadas como eurocêntricas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157193 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-1024x883.jpg" alt="" width="640" height="552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-1024x883.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-300x259.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-768x662.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-487x420.jpg 487w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-640x552.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-681x587.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x.jpg 1043w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />Mas a relação dos identitarismos com a anti-identidade é mais perversa do que uma simples oposição. Com o objectivo de minar por dentro a anti-identidade e assim a paralisar, cada um dos identitarismos usa toda a panóplia da propaganda para lhe instilar um complexo de culpa. Não existe hoje praticamente nada, desde as redes sociais até aos programas escolares, desde a publicidade até ao cinema — se é que agora estas duas formas se podem distinguir — desde a literatura até ao que ainda se chama música, que não tenha como objectivo, exclusivo ou acessório, a infiltração do complexo de culpa na anti-identidade. E daí? As coisas medem-se pelos resultados, e o ascendente adquirido pelo Estado de Israel é a demonstração mais patente dos efeitos de uma manipulação persistente e hábil do complexo de culpa. Sem as perseguições aos judeus e, acima de tudo, sem o extermínio dos judeus planificado pelo Terceiro Reich, o Estado de Israel não teria conseguido incutir a todo o mundo um complexo de culpa que lhe permite hoje identificar anti-sionismo com anti-semitismo e não teria, assim, neutralizado os seus críticos e alcançado o estatuto de imunidade de que beneficia mesmo quando pratica um genocídio. É este o caminho que os identitarismos procuram seguir. Cada um deles é um Israel em potência.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, o elemento simétrico ao complexo de culpa infundido na anti-identidade é a vitimização assumida pelas identidades. Um não existe sem a outra, ou melhor, uma promove o outro. Onde antes se falava de <em>explorados</em>, fala-se agora de <em>vítimas</em>. Por isso a extrema-esquerda, ou aquilo a que ainda se chama assim, trocou a economia pela sociologia, e o pós-modernismo serviu de charneira nesta transição. Era-se explorado pelos mecanismos económicos e usava-se essa situação para tentar ir além do capitalismo, mas hoje é-se vítima e usa-se o ressentimento. Se alguém quiser ocupar a ribalta da História terá de se apresentar como vítima. Vítima de quê e de quem? Da anti-identidade, evidentemente. Como Valéry escreveu bem! A História «faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas». Torna os identitarismos amargos, arrogantes, insuportáveis e vaidosos. E quando não é a verdadeira História, inventa-se outra, uma que produza falsas memórias, porque não faltam aos identitarismos os instrumentos para disciplinar a sociedade, e também nisto não ficam aquém do fascismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitarismos transpuseram para o plano virtual as milícias e as agressões a que noutra época os fascistas recorriam nas ruas, e como hoje a internet liga tudo e todos, as malhas são ainda mais apertadas do que aquelas de que o fascismo clássico dispunha. Em vez das pauladas e do óleo de rícino, usa-se agora o cancelamento de pessoas, a supressão de intervenções e o boicote erguido nos meios de expressão. O silenciamento é mais eficaz do que havia sido nas ditaduras do passado. E a substituição da presunção de inocência pela presunção de culpabilidade, que por si só representa uma colossal inversão do sistema jurídico, contribui para assegurar aos identitários uma completa hegemonia. Nem se deve dizer que esta é a imagem de uma sociedade que os identitários têm a intenção de construir, porque esta é já a sociedade que eles estão a construir.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de partilharem a aversão a uma mesma anti-identidade, os vários identitarismos não superam a sua hostilidade recíproca e o sucessivo aparecimento de novos identitarismos tende a agravar o ambiente de discórdia, sem que os conflitos sejam resolvidos pela interseccionalidade. Aliás, já nos fascismos clássicos sucedera o mesmo. Desde a Roménia, onde os fascistas seguidores do rei Carol II e do general, depois marechal, Ion Antonescu e os fascistas seguidores de Corneliu Zelea Codreanu e de Horia Sima se chacinavam reciprocamente numa fúria insaciável, passando pela liquidação da ala radical do Partido Nacional-Socialista Alemão na noite de Junho para Julho de 1934, sem esquecermos a quantidade de fascistas que Hitler mandava encerrar nos seus campos de concentração ou, no Japão, a tentativa de insurreição militar dos fascistas radicais da facção Via Imperial em Fevereiro de 1936, suprimida pelos fascistas conservadores da facção Controle, até ao assassinato do chanceler fascista austríaco Dollfuss pelos nacionais-socialistas do seu país e às fricções ocasionalmente violentas que agitaram internamente o fascismo espanhol mesmo durante a guerra civil, em todas essas e outras ditaduras da Ordem os confrontos internos foram muito mais a regra do que a excepção.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação é hoje agravada pela desarmonia reinante entre os herdeiros do fascismo clássico e os identitários enquanto fascistas do pós-fascismo. Aliás, seria impossível outra alternativa, porque as geometrias dos dois <em>puzzles</em> não encaixam. O nacionalismo de uns e as identidades mundializadas dos outros são transversais e não obedecem aos mesmos desenhos, para mais numa época em que a geopolítica passou também a assentar na internet e a tornar-se virtual. Mas não será diferente o motivo? Escrevendo no início da década de 1960, o teórico fascista francês Maurice Bardèche profetizou que o fascismo haveria de renascer «com outro nome, com outro rosto, e decerto sem nada que seja a projecção do passado, imagem de um filho que não reconheceremos». Não serão os fascistas do pós-fascismo a imagem do filho que os fascistas clássicos não reconhecem?</p>
<p style="text-align: justify;">O certo é que, se já a gestação do fascismo como resultado de um processo permanente de cruzamento ou convergência entre alguma extrema-esquerda e certa extrema-direita põe em dúvida a redução do leque político a uma linearidade, mais complicada ainda fica a situação em virtude do choque entre os fascismos nacionais e os fascismos identitários e dos conflitos internos que os rasgam a todos. Assim, parece-me que se rompeu definitivamente a continuidade da linha que levava de um a outro extremo. A terminologia política tradicional perdeu o sentido e, se a velha esquerda se descaracterizou, sucedeu o mesmo à velha direita. Os nomes já não designam as coisas e há coisas ainda sem nome. A terminologia política que começou agora a ser usada é de criação identitária e reflecte uma nova geometria. Sobretudo, a antiga polarização entre a esquerda e a direita foi substituída pela oposição entre cada identidade e a anti-identidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A noção de <em>populismo</em> surge nesta transformação. O populismo tanto se mostra afim a certas posições económicas da extrema-esquerda, nomeadamente ao subestimar os inconvenientes do déficit orçamental, como adopta posições políticas da extrema-direita, em especial no que diz respeito à criminalidade e à imigração. Neste sentido o populismo assemelha-se aos campos geradores de fascismo, mas não se confunde com eles nem tem directamente produzido fascismos. Talvez até os tenha evitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece-me útil comparar a noção de <em>populismo</em> com as noções de <em>bonapartismo</em> defendidas por Trotsky e por August Thalheimer, porque em ambos os casos se trata de categorias políticas intermédias e provisórias, que talvez ajudem a reordenar as classificações. Segundo Trotsky, quando a acção das milícias fascistas punha em risco o funcionamento das instituições democráticas, o parlamento entregava os seus poderes a um chefe que, apoiado directamente pela burocracia, pelo exército e pela polícia, governava num equilíbrio precário entre a democracia e o fascismo. Era a um regime deste tipo que Trotsky chamava <em>bonapartismo</em>. August Thalheimer, porém, considerava que o bonapartismo era parente próximo do fascismo e surgia quando um movimento revolucionário tivesse sido derrotado, mas a burguesia saísse exausta do combate. Em suma, para Thalheimer o bonapartismo apareceria «quando todas as classes estão enfraquecidas e jazem prostradas». Assim, apesar do que diferenciava estas duas perpectivas, tanto para Trotsky como para Thalheimer o bonapartismo seria um regime episódico baseado num equilíbrio instável entre forças políticas opostas. E a complexidade das articulações entre o bonapartismo e o fascismo reflectia as múltiplas possibilidades de um processo histórico que estava então longe de se encerrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, o populismo actual tem em comum com aquelas caracterizações do bonapartismo a sua função de equilíbrio entre campos opostos, embora me pareça cedo para saber se terá um destino igualmente provisório e quais as outras semelhanças e diferenças que a comparação possa revelar. Por agora, devemos reconhecer que o populismo surge como um dos contributos principais para a ordenação de uma nova terminologia política. Mas ainda falta no tabuleiro um outro xadrez.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> vimos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A passagem de Valéry escrita em 1931 encontra-se em Paul Valéry, <em>Regards sur le Monde Actuel et autres Essais</em>, Paris: Gallimard, 1945, pág. 27. As citações de Chamberlain provêm, respectivamente, de Houston Stewart Chamberlain, <em>La Genèse du XIXme Siècle</em>, 2 vols., Paris: Payot, 1913, págs. 296, 621 (subs. orig.), 1154 e 679. Quanto à afirmação de Steiner, ver Peter Staudenmaier, «Anthroposophy and Ecofascism», <em>New Compass</em>, 2011 <a href="http://new-compass.net/articles/anthroposophy-and-ecofascism" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>. As duas citações de Hitler estão, respectivamente, em Édouard Conte e Cornelia Essner, <em>La Quête de la Race. Une Anthropologie du Nazisme</em>, [Paris]: Hachette, 1995, pág. 106 e em Joseph Billig, <em>L’Hitlérisme et le Système Concentrationnaire</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 2000, pág. 300. A citação de Fritz Lenz está em Anne Quinchon-Caudal, <em>Hitler et les Races. L’Anthropologie Nationale-Socialiste</em>, Paris: Berg International, 2013, pág. 157. A citação de Bardèche é extraída de Maurice Bardèche, <em>Qu’Est-ce que le Fascisme?</em>, Paris: Les Sept Couleurs, 1961, págs. 194-195. A passagem citada de Thalheimer encontra-se em August Thalheimer, «On Fascism», 1930 <a href="https://www.marxists.org/archive/thalheimer/works/fascism.htm" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: left;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157195" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-300x229.jpg" alt="" width="100" height="76" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-681x521.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Julian Stanczak (1928-2017)</em>.</p>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_12">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"></div>
</form>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/09/157154/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>9</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um manifesto incómodo. 5</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157151/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/09/157151/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Sep 2025 12:27:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157151</guid>

					<description><![CDATA[As noções de sangue e solo formavam o âmago da ecologia nacional-socialista e continuam hoje a sustentar a metafísica ecológica. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>5</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada do vasto movimento autonomista internacional pujante na década de 1960 e ainda na primeira metade da década seguinte levou à desagregação da convergência social operada entre a juventude universitária e o operariado fabril. O declínio da autogestão nas empresas e o repetido fracasso das suas experiências práticas generalizaram o desânimo e, deste modo, a Contracultura que caracterizara as revoltas estudantis perdeu o rumo, ou o destino último, que os trabalhadores fabris haviam assinalado e já não eram capazes de lhe indicar. Precipitou-se assim uma ruptura ideológica entre o meio estudantil e o meio operário, perceptível sobretudo na transformação do conceito de <em>anticapitalismo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o objectivo das lutas fora a modificação das relações sociais vigentes nos processos de produção e enquanto os trabalhadores haviam conseguido esboçar na prática formas embrionárias de relações sociais inovadoras, o meio industrial apresentava-se como a base que permitiria superar o capitalismo ou, mais ainda, como a base onde o capitalismo estava já a ser superado. Anticapitalistas eram, então, aqueles que pretendiam ir além da economia existente; aqueles que, tomando-a como ponto de partida, estavam já a construir relações sociais que permitiriam suplantá-la. A súbita difusão de que beneficiaram os velhos textos da extrema-esquerda marxista e a instigante criatividade com que surgiram novas análises críticas mais ainda confirmaram essa perspectiva do anticapitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O declínio das experiências práticas autogestionárias, porém, e a diluição da convergência que ao longo de quase duas décadas havia aproximado a juventude estudantil do meio operário alhearam a Contracultura daquele horizonte do anticapitalismo. Foi este o factor decisivo na decomposição de um movimento ideológico que, aliás, desde início era difuso. O anticapitalismo deixou então de ser entendido como uma superação do capitalismo a partir das novas relações sociais estabelecidas pelos operários nas suas lutas, e passou a ser apresentado como uma recusa da modernidade, com tudo o que isso implicaria. Esta nova versão do anticapitalismo é o epitáfio assinalando o fim das expectativas que o movimento autonomista fizera surgir.</p>
<p style="text-align: justify;">Paradoxalmente, pessoas que viviam em metrópoles onde a fome deixara de ser uma experiência generalizada e onde a esperança de vida atingia médias sem precedentes recusavam confortavelmente a totalidade de uma industrialização que permitira a superação das necessidades materiais mais prementes e fundara uma sociedade livre das preocupações de sobrevivência imediata. Marx e Engels, no <em>Manifesto Comunista</em>, haviam celebrado o progresso capitalista porque «submeteu o campo à supremacia da cidade» e assim «resgatou uma parte considerável da população do embrutecimento da vida rural», mas agora o anticapitalismo passava a ser sinónimo de uma rejeição do progresso. Já não se tratava de conceber outras vias de evolução para a sociedade industrializada, com base em novas relações sociais de trabalho possíveis de desenvolver. Tratava-se de repudiar em bloco toda a economia da prosperidade. A crítica à noção de progresso passou a ser um imperativo, o novo <em>look</em> do anticapitalismo. Mas ainda aqui prevaleceu a aura do progresso, porque não tiveram a coragem de se proclamar pré-modernos e preferiram denominar-se <em>pós-modernos</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez mais, a arte antecipou realidades que depois se ampliaram, e convém saber que o termo <em>pós-moderno</em> nasceu na arquitectura, em oposição à estética funcionalista que resultara de uma tomada de consciência da civilização industrial. Aliás, se eu tivesse tempo e estivesse a escrever para um público diferente, assinalaria o facto de a primeira corrente estética nascida no marxismo e promovida por um marxista militante, William Morris, ter sido precursora dos pré-modernos <em>travestis</em> de pós-modernos. Não é curioso que assim como se encontra em Marx e em Engels uma noção de «nação revolucionária» que deve ser considerada antecipadora da «nação proletária» de Corradini e de Kita, se encontre também num artista marxista a antecipação do pós-modernismo? Bem fazem os guardiães da fé ao fingir-se distraídos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi naquele meio social pós-moderno, formado por uma Contracultura em desagregação e por um movimento autogestionário em extinção, que ressurgiu a ecologia, enquanto forma drástica de recusa da modernidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, a rejeição da modernidade em bloco pressupõe uma confusão entre <em>tecnologia</em> e <em>técnicas</em>. Uma tecnologia é um sistema global que, por assim dizer, materializa relações sociais genéricas. Por um lado, cada tecnologia exprime um dado sistema social e não pode ser transportada para um sistema diferente; por outro lado, uma tecnologia determina o carácter das técnicas que a integram e das relações que elas estabelecem reciprocamente. Não existe, porém, simetria entre a tecnologia e as técnicas, assim como não existe entre uma língua e as palavras que a compõem. Uma técnica pode ser retirada da tecnologia em que se gerou e que a inspirou e ser introduzida noutra tecnologia, passando então a obedecer às normas ditadas por esta nova tecnologia, que lhe impõem as formas que de então em diante irá assumir e as relações que irá estabelecer. Basta pensar na invenção da roda e no conjunto de domesticações que caracterizou a passagem para o neolítico, com a pluralidade de usos que desde então e até hoje lhes têm sido dados, para verificarmos a plasticidade das técnicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa plasticidade permite que as técnicas do capitalismo venham a ser usadas como instrumentos para a construção social de uma nova tecnologia e, portanto, para a fundação material de uma nova sociedade. Não se trata de edificar o socialismo com as forças produtivas tal como elas existem no capitalismo, ou seja, recorrendo à tecnologia capitalista. Trata-se de desenvolver e expandir as relações sociais geradas nos processos de luta nas empresas até que seja possível reorganizar as forças produtivas, reelaborando então as técnicas existentes e articulando-as numa nova tecnologia. O movimento autogestionário prosseguido ao longo da década de 1960 e na primeira metade da década seguinte começara a esboçar o uso de técnicas geradas ou desenvolvidas no capitalismo para fundar com elas uma possível nova tecnologia. Foram pequenas experiências, incipientes mas prenhes de possibilidades. Em suma, em vez de pretender uma inversão da História, pretendia-se ultrapassar o capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Confundir as técnicas com a tecnologia e recusar as técnicas com o pretexto de que arrastarão consigo necessariamente toda uma tecnologia é um erro tão crasso que só pode entender-se como pretexto para encobrir qualquer outra coisa. A ecologia é uma forma de recusa regressiva do capitalismo, o que significa, se os seus promotores ousassem explicar as consequências do que defendem, que se voltaria a um estádio de tão baixa produtividade e de infra-estruturas tão precárias que ficaria dizimada uma parte considerável, se não a maior parte, da população mundial. Para empregar um neologismo que infelizmente se banalizou, a ecologia é genocidária. Decrescimento&#8230; Zero&#8230; Entenderam o que quer dizer?  Aliás, no mundo actual a fome generalizada, as epidemias crónicas e a baixa esperança média de vida só persistem nos países onde a indústria é escassa e a agricultura é arcaica e que, portanto, mais se aproximam do paraíso ecológico. Mas, obviamente, não é aí que encontramos defensores da ecologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 1977 que a crítica à ecologia tem sido um dos principais eixos do meu trabalho, insistindo nas consequências económicas catastróficas que inevitavelmente decorreriam da aplicação de técnicas arcaicas. Numerosos especialistas prosseguem esta linha de argumentação sem que sejam refutados os números que indicam, e aliás os próprios ecológicos são os primeiros a esquecer as desgraças que previram quando a realidade os vem desmentir. As críticas ecológicas da economia industrial compõem-se de uma sucessão de calamidades anunciadas, nunca acontecidas. Pelo contrário, há a possibilidade de verificar na prática as consequências de uma introdução generalizada dos princípios ecológicos no Cambodja sob o regime dos Khmers Vermelhos, na segunda metade da década de 1970, e no Sri Lanka no início de 2021. Curiosamente, os ecologistas deslizam sobre estes acontecimentos como se eles não tivessem ocorrido. Mas não vou alongar-me sobre os absurdos económicos da ecologia, porque já os tratei com detalhe noutros escritos e nomeadamente no ensaio <a href="https://passapalavra.info/2013/08/98771/" target="_blank" rel="noopener"><em>Contra a ecologia</em></a>, publicado no Passa Palavra. Basta-me chamar a atenção para o assunto. Agora, no contexto de um movimento autonomista em ruínas, a questão principal que nos surge é a proveniência da ecologia, porque a sua génese histórica revela plenamente os efeitos trágicos da extinção do projecto autogestionário.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157368 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-1022x1024.jpg" alt="" width="640" height="641" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-1022x1024.jpg 1022w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-768x769.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-419x420.jpg 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-640x641.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-681x682.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />A palavra <em>ecologia</em> foi cunhada por Ernst Haeckel, e a celebridade que ele alcançou como biólogo não deve fazer-nos esquecer a linhagem política em que se inseriu. Depois de ter seguido a vertente mais explicitamente racista do darwinismo e de ter sido um entusiasta da eugenia, adversário activo das mestiçagens, Haeckel terminou a vida em 1919 nos meios políticos em que se gerava aquilo que em breve iria ser o nacional-socialismo alemão e injuriando em termos violentamente anti-semitas a república dos conselhos da Baviera. Quando Haeckel definiu que «a política é biologia aplicada» estava a iniciar um clamor que os seguidores de Hitler ecoariam literalmente mais tarde, ao proclamarem que «o nacional-socialismo não é mais do que biologia aplicada». Aliás, não deixa de ter lógica que a ecologia, fundada por um inimigo da revolução dos conselhos e precursor do nacional-socialismo, tivesse ressurgido sobre os escombros do movimento autogestionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos os fascismos promoveram, em tons variados mas com igual persistência, o mito do campesinato. Nem sequer parecia estranho que ao mesmo tempo que prosseguiam activamente a industrialização, quando não governavam até países muito industrializados, esses regimes assegurassem aos camponeses a primazia na arte e nos discursos. Presos à terra por raízes ancestrais, obrigados pelo trabalho agrícola aos ritmos rotineiros e aos grandes ciclos anuais, os camponeses seriam alheios à luta de classes moderna e constituiriam, afinal, uma fonte de estabilidade social e um esteio do equilíbrio político. Era este o mito. Mas era mais do que isso, porque as raízes que ligariam o camponês à terra uniriam de igual modo a humanidade ao mundo natural, que supostamente deveria manter-se alheio às inovações técnicas. Foi por este viés que o mito do campesinato serviu de fundamento à ecologia, que também ela supunha a existência de uma natureza que deveria ser preservada da acção da economia. Depois, várias percepções líricas dispersas foram concentradas e codificadas pela ecologia e contribuíram para lhe completar a imagem.</p>
<p style="text-align: justify;">O nacional-socialismo germânico levou a formas extremas o mito de um campesinato enraizado na terra quando o transpôs para termos raciais. <em>Blut und Boden</em>, Sangue e Solo — estas duas inseparáveis noções formavam o âmago da ecologia nacional-socialista e continuam hoje, sob uma ou outra forma, a sustentar toda a metafísica ecológica. O nacional-socialismo destacou-se por promover uma noção mística da natureza, uma verdadeira veneração religiosa em que a natureza era entendida como supra-humana. A ignorância histórica era grande, porque nenhum grupo social, por mais rudimentar que fosse, teria sobrevivido sem exercer uma acção controladora sobre a natureza; ou, muitas vezes mais exactamente, uma acção contra a natureza, porque ela se revelava hostil, uma ameaça permanente exigindo uma defesa sem pausas. A natureza domesticada tinha de ser preservada dos perigos oriundos das áreas bravias. Mas o que interessava aos nacionais-socialistas era o mito, e nenhum mito assenta numa verificação histórica. São invenções destinadas a legitimar, não a explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">«Primeiro ecologista da Europa», foi como Léon Degrelle chamou mais tarde a Hitler. E Degrelle sabia do que falava, porque além de ter sido o chefe dos fascistas da Valónia atingira um posto elevado na hierarquia dos Waffen SS. Com efeito, as primeiras reservas naturais da Europa foram criadas pelo Terceiro Reich e em 1935, precisamente quando se promulgavam as chamadas Leis de Nuremberga, destinadas a garantir a preservação e a supremacia da raça nórdica, foi publicado um conjunto legislativo, de uma amplitude sem precedentes, com a finalidade de assegurar a preservação da natureza. A protecção da raça superior e a protecção da natureza obedeceram a uma inspiração única. O apoio dos ecologistas não se fez esperar, e em 1939 estavam inscritos no Partido Nacional-Socialista 60% dos membros das principais associações de protecção da natureza que haviam existido durante a República de Weimar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Dezembro de 1942, quando os nacionais-socialistas mobilizavam o que julgavam ser a raça nórdica para escravizar o que julgavam ser a sub-humanidade eslava, o Reichsführer-SS Heinrich Himmler promulgou um decreto acerca da forma como o solo deveria ser cultivado nos territórios conquistados à União Soviética, onde se lê: «Os camponeses da nossa raça esforçaram-se sempre cuidadosamente por aumentar os poderes naturais do solo, das plantas e dos animais e por preservar o equilíbrio de toda a natureza. Para eles, o respeito pela criação divina é o padrão de toda a cultura. Assim, para que os novos espaços vitais se tornem uma pátria para os nossos colonos, uma condição prévia fundamental é o ordenamento planificado da paisagem, de maneira a mantê-la próxima da natureza». Qualquer ecologista dos nossos dias encontra aqui o espelho das suas convicções.</p>
<p style="text-align: justify;">No cerne desta ecologia metafísica está a invenção da agricultura biodinâmica em 1924 por Rudolf Steiner, o fundador da antroposofia. Dez anos mais tarde a agricultura biodinâmica começou a ser promovida por Walther Darré, que em 1930 havia sido nomeado conselheiro de Hitler para as questões agrárias e se encarregou desde Junho de 1933 até 1942 do Ministério dos Abastecimentos e da Agricultura, além de ser Führer dos Camponeses do Reich e ter chefiado o Departamento Central de Raça e Colonização dos SS desde o final de 1931 até 1938 com a patente de Obergruppenführer, o segundo mais alto escalão dos SS. Um currículo ecológico! Mas Steiner e a antroposofia, embora contassem com apoios influentes no Partido Nacional-Socialista, deparavam também com a hostilidade de outras facções, e Darré, recorrendo à conhecida prudência de alterar o nome para não mudar o conteúdo, converteu <em>biodinâmica</em> em <em>orgânica</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A agricultura orgânica foi a doutrina agrícola oficial do Terceiro Reich, e é elucidativo saber que os SS eram proprietários do Instituto Germânico de Pesquisa Nutricional e Alimentar, o empreendimento de agricultura orgânica mais vasto em todo o Reich e com maior sucesso comercial, situado junto ao campo de concentração de Dachau, onde a mão-de-obra era barata porque não precisava de ser paga. Aliás, houve vários outros investimentos dos SS na agricultura orgânica, e Himmler não estava a referir-se a outra coisa quando decretou que «os camponeses da nossa raça esforçaram-se sempre cuidadosamente por aumentar os poderes naturais do solo, das plantas e dos animais e por preservar o equilíbrio de toda a natureza». Falta dizer que ao lado do campo de Dachau o Instituto Germânico de Pesquisa Nutricional e Alimentar cultivava igualmente plantas pseudo-medicinais, já que a crença na eficácia das mezinhas é um dos artigos de fé da ecologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados económicos são hoje abundantes e incontroversos, e também não escasseiam experiências práticas para mostrar a falta de produtividade da agricultura orgânica, mas isto pouco importava no contexto do metacapitalismo nacional-socialista, em que as decisões ideológicas, e acima de tudo o racismo, prevaleceram sempre sobre os interesses da economia. Os ecologistas actuais são os legítimos herdeiros deste metacapitalismo, porque subordinam igualmente os resultados económicos aos preconceitos ideológicos. O carácter regressivo da ecologia não poderia ser mais bem assinalado.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento ecológico actual herdou a visão nacional-socialista da natureza, mas não sem um hiato no <em>pedigree</em>, porque a censura estabelecida após 1945 pelas potências vitoriosas, e entusiasticamente aplaudida por toda a esquerda, fez cair no esquecimento a complexidade ideológica do fascismo. Aliás, as autoridades ocupantes do que havia sido o Terceiro Reich mandaram destruir os manuais escolares onde estavam expostas as teses nacional-socialistas sobre ecologia e biologia. Esta ruptura de continuidade mostra que a pulsão de fundo do irracionalismo ecológico é suficientemente poderosa para criar de novo aquilo que fora deixado em suspenso. É certo que se mantiveram fios ténues. Os velhos fascistas, na discrição obrigatória em que sobreviviam, continuavam a reproduzir os seus ideais, e a ecologia era um deles. Mas o auditório era escasso e o eco era nulo.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi só na década de 1970 ou por vezes ainda nos últimos anos da década anterior, com a dissolução das esperanças autogestionárias e a desagregação da Contracultura, que começou a surgir nos países anglo-saxónicos e na República Federal da Alemanha uma audiência de esquerda para teses agro-ecologistas que até então haviam sido conotadas exclusivamente com o fascismo, e de lá se expandiram ao resto do mundo. Enquanto durou o activismo estudantil, animado pela autogestão operária, o ambientalismo não teve público. Depois, as luminárias da ecologia quiseram tudo menos recordar a génese das suas ideias e, infelizmente, os antifascistas actuais não lêem textos escritos por fascistas e querem proibir os outros de os lerem. De ambos os lados foi obscurecida a ligação da ecologia aos fascismos e sobretudo ao Terceiro Reich.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, o vazio histórico em que a ecologia se apresenta torna-lhe mais fácil servir de lugar onde se cruzem os temas tradicionalistas herdados da direita radical e do fascismo clássico com certas preocupações surgidas na extrema-esquerda, e este cruzamento e o eco de cada um dos lados no outro têm constituído um processo gerador do fascismo pós-fascista. Há decerto casos em que partidos situados na extrema-direita não manifestem adesão à ecologia, mas então é no interior do próprio movimento ecológico que o fascismo ressurge, inevitavelmente gerado pela visão mística de uma natureza supra-humana. Assim, além de contribuir para a formação do fascismo por oferecer um quadro propício ao cruzamento entre os extremos políticos, a ecologia contém em si mesma, pela sua origem e pelas concepções que a definem, o gérmen de um fascismo. Ainda há poucos anos, durante a pandemia, foi sob a égide da ecologia que se encontraram todos os que recusavam as vacinas e demais medidas preventivas, juntando-se a extrema-esquerda delirante e a extrema-direita necrófila.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> veremos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As citações de Marx e Engels encontram-se em Karl Marx e Friedrich Engels, <em>Manifeste du Parti Communiste et Préfaces du «Manifeste»</em>, Paris: Éditions Sociales, 1973, pág. 36. A frase de Haeckel vem citada em University of California Museum of Paleontology , <em>Ernst Haeckel (1834-1919)</em> [s. d.] <a href="http://www.ucmp.berkeley.edu/history/haeckel.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e o lema do Partido Nacional-Socialista encontra-se em Edwin Black, <em>War against the Weak. Eugenics and America’s Campaign to Create a Master Race</em>, Nova Iorque e Londres: Four Walls Eight Windows, 2003, págs. 270 e 318 e também em Stefan Kühl, <em>The Nazi Connection. Eugenics, American Racism, and German National Socialism</em>, Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1994, págs. 36 e 121 n. 39. A frase de Degrelle encontra-se em Léon Degrelle, <em>Le Fascinant Hitler!</em>, Klow, Syldavie: L’Étoile Mystérieuse, 2006, págs. 105-106. O decreto de Himmler está citado em Peter Staudenmaier, «Fascist Ecology. The “Green Wing” of the Nazi Party and its Historical Antecedents», em Janet Biehl e Peter Staudenmaier, <em>Ecofascism. Lessons from the German Experience</em>, Edimburgo e San Francisco: AK Press, 1995, pág. 16.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157188" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-221x300.jpg" alt="" width="100" height="136" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-221x300.jpg 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-755x1024.jpg 755w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-768x1042.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-310x420.jpg 310w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-640x868.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-681x924.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a.jpg 805w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Bridget Riley (1931-        )</em>.</p>
</div>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_11">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"></div>
</form>
</div>
<div class="section_highlight_wrapper">
<h3 id="f_um_manifesto_incomodo_6" class="sectionedit12"></h3>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/09/157151/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>6</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um manifesto incómodo. 4</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157148/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/09/157148/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Sep 2025 11:53:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157148</guid>

					<description><![CDATA[Se a palavra “contracultura” resumia a movimentação estudantil, a palavra “autogestão” sintetizava as lutas operárias. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>4</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se as movimentações de soldados e operários que marcaram os anos entre 1916 e 1921, embora confinadas à Europa, foram a primeira revolução internacional da classe trabalhadora, uma internacionalização da revolução à escala mundial iniciou-se nos Estados Unidos na década de 1960 e espalhou-se por outros continentes, atingindo o auge na segunda metade dessa década e tendo a sua última expressão já nos meados da década seguinte em Portugal e na Polónia. Esta mundialização dos processos revolucionários mobilizou como principais actores os estudantes e os operários industriais.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrada em cena dos estudantes correspondeu a uma modificação profunda do capitalismo, porque até à segunda guerra mundial as universidades haviam-se destinado exclusivamente à formação de elites. Depois da guerra, no entanto, o desenvolvimento da produtividade exigiu uma crescente qualificação dos trabalhadores, obtida por duas vias. Por um lado, cada vez mais operários deixaram de ser meras extensões musculares das máquinas, tão bem representadas por Charlie Chaplin num célebre filme, e tiveram de empregar no processo de produção a inteligência e a criatividade. Por outro lado, os cursos universitários começaram a sofrer transformações que os tornaram menos especulativos e mais práticos, substituindo a erudição ou mesmo a cultura por habilitações técnicas e, em suma, expurgando do ensino tudo aquilo que não fosse imediatamente aplicável no interior das empresas. É certo que os operários, no quadro estrito do capitalismo, estavam desde a nascença alheados das grandes questões do <em>porquê</em> e do <em>para quê</em>, mas ao longo da segunda metade do século XX também os estudantes passaram a ser formados pelas universidades na convicção de que essas questões tinham perdido qualquer pertinência. E assim, ao mesmo tempo que muitos operários recebiam qualificações já enquanto operários, os estudantes universitários destinavam-se cada vez mais a ser operários altamente qualificados ou, no máximo, a ocupar uma posição intermédia entre os operários de topo e os baixos gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez por motivos de simples propaganda política ou talvez porque fosse esse o aspecto aparentemente mais inovador, é a componente universitária das lutas da década de 1960 que tem recebido maior atenção, quando não mesmo um interesse exclusivo. Apesar disto, as movimentações operárias não foram menos frequentes nem mobilizaram menos pessoas do que as lutas estudantis e sobretudo adquiriram um novo carácter. Vejamos o que se passou com cada uma das componentes deste processo revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Os estudantes universitários adquiriram rapidamente a consciência de que já não se destinavam a integrar as elites, deixaram de olhar de cima para os operários da indústria e passaram a conceber-se como parte de um mesmo conjunto social. A Contracultura foi a expressão desta nova consciência, tão difusa e indeterminada como ela o era. Negando tudo o que parecesse pertencer às tradições dominantes, a Contracultura reflectia à sua maneira, mas de maneira limitada, as transformações operadas no ensino. Ao mesmo tempo, a Contracultura recusava os valores decorrentes da noção de produtividade e por aí, embora de um modo confuso, juntava-se a certas vertentes da contestação operária. Afinal, se as autoridades governamentais e académicas afirmavam a inutilidade de um conhecimento universitário que não fosse estritamente prático e aplicado, os estudantes em revolta, já desinteressados da velha sabedoria, manifestavam agora o seu desinteresse pelas aplicações práticas da nova formação universitária que lhes era ministrada. Esta Contracultura expandiu-se na América do Norte primeiro, em seguida na Europa ocidental e em alguns países asiáticos, mas creio que devemos interpretar na mesma perspectiva a difusão do <em>samizdat</em> na União Soviética bem como de meios de expressão equivalentes noutros países comunistas europeus. Aliás, talvez muitos jornais de parede na primeira fase da Revolução Cultural chinesa possam ser entendidos como manifestações de uma Contracultura com as especificidades da multimilenária civilização em que se inseriam.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, os operários industriais eram cada vez menos simples prolongamentos de operações mecânicas, capazes unicamente, quando se revoltavam, de fazer parar as máquinas ou de as destruir. Das duas componentes do trabalho, a componente intelectual adquiria uma importância crescente em comparação com a manual, e esta transformação operada no capitalismo alterou o carácter das greves e de outros conflitos fabris. Começaram a surgir modalidades de luta em que os operários não se limitavam a interromper o funcionamento das máquinas ou ainda a invadir as instalações para evitar a presença de fura-greves, e difundiram-se ocupações de empresa em que o colectivo de operários impedia a entrada dos patrões e dos gestores e continuava a laborar em regime de autogestão, beneficiando eles próprios directamente com a venda dos produtos. A autogestão, aliás, não teve como alvo apenas as empresas, mas, muito mais generalizadamente, as lutas começaram a ser geridas pelos próprios trabalhadores, dispensando os partidos e as burocracias sindicais. Se a tendência ao aumento da produtividade levara os capitalistas a dar aos trabalhadores uma qualificação crescente, então os trabalhadores mostravam que o peso adquirido pela componente intelectual do trabalho lhes conferia a capacidade de gerir tanto os movimentos de luta como os processos de produção. A clivagem de classes tornou-se muitíssimo mais clara, porque os trabalhadores já não enfrentavam só os patrões considerados como proprietários privados, mas opunham-se igualmente aos gestores políticos e económicos. A autogestão foi um combate dos trabalhadores contra a classe dos gestores pelo controle da administração. Até na China a primeira fase da Revolução Cultural deve ser entendida como uma luta, de radicalidade única, contra a classe dos gestores. Em suma, se naquela época a palavra <em>contracultura</em> resumia a movimentação estudantil, a palavra <em>autogestão</em> sintetizava as lutas operárias.</p>
<p style="text-align: justify;">O conjunto formado pela autogestão e a Contracultura potenciou uma enorme renovação na prática e no pensamento da esquerda anticapitalista. Antes de mais, se os operários se apresentavam como capazes de gerir eles próprios as suas lutas e as fábricas onde trabalhavam e se os estudantes se rebelavam contra os valores veiculados pelo ensino oficial e, portanto, contra professores que apareciam como autoridades, então as lutas tendiam a dispensar as hierarquias estabelecidas e proclamavam-se <em>autónomas</em>. O mesmo confronto com a classe dos gestores que inspirava as novas lutas e ocupações de fábrica inspirava também uma nova maneira de conceber a política. E assim o autonomismo prolongou, ou deu outra vida, às velhas correntes esquerdistas críticas do leninismo, que jaziam desde há décadas num torpor cataléptico.</p>
<p style="text-align: justify;">Os teóricos do que havia sido a escola de Frankfurt foram redescobertos a partir dos Estados Unidos, sobretudo graças à proeminência alcançada por Herbert Marcuse, e assim se abriram perspectivas novas na crítica social. Em Paris, as edições Spartacus, que desde há anos e anos se amontoavam invendáveis em casa de René Lefeuvre, voltaram a circular e depressa se esgotaram, contribuindo para situar Rosa Luxemburg como uma das personalidades centrais da crítica revolucionária ao leninismo. Também em Paris, a livraria e as edições François Maspero ampliaram enormemente a audiência do marxismo esquerdista, tanto pela difusão de novas obras como pela reedição de livros esquecidos ou desde há muito esgotados. Em Itália, as novas lutas operárias e a transformação sofrida pelas universidades inspiraram em conjunto novas perspectivas de crítica teórica e de contestação prática.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157177" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-275x300.jpg" alt="" width="600" height="654" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-275x300.jpg 275w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-939x1024.jpg 939w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-768x837.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-385x420.jpg 385w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-640x698.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-681x742.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Na sua pluralidade e apesar das vincadas diferenças internas, todas estas correntes se caracterizavam pelo estímulo às iniciativas de base e pela consequente hostilidade à classe dos gestores e às formas burocráticas de organização. Por isso o autonomismo não tomava apenas como alvo o capitalismo de mercado ocidental, mas igualmente o capitalismo de Estado tanto no modelo soviético como no chinês. Não foram só as críticas de esquerda à evolução do leninismo e ao sistema soviético que se tornaram acessíveis e se divulgaram, mas as edições François Maspero em França e a imprensa do Progressive Labor Party nos Estados Unidos publicaram e difundiram estudos e documentos críticos do capitalismo de Estado chinês e da militarização que estava a cancelar as potencialidades revolucionárias manifestadas no início da Revolução Cultural. A miragem de um Mao Tsé-tung adepto das iniciativas revolucionárias de base, que havia sido tão frequentemente invocada pelos críticos ocidentais da rígida hierarquia soviética, começou então a perder a sua aura.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi talvez na Alemanha que melhor se manifestou a afinidade, ou mesmo a convergência, entre as críticas autonomistas ao capitalismo de mercado ocidental e ao capitalismo de Estado da esfera soviética, porque a Alemanha situava-se na articulação entre um e outro bloco, com uma língua falada em ambos os lados e contactos que, apesar da divisão em dois países, não era possível impedir. Em História, muitas vezes o esquecimento é mais elucidativo do que a celebridade. A leitora, ou até o leitor, não gastará o seu tempo em vão se averiguar a acção e o destino de Rudi Dutschke, uma das figuras mais interessantes das movimentações na década de 1960. Mas, como sempre, é na arte que tudo se reflecte, e as duas Alemanhas ofereceram o exemplo ímpar, porque no lado ocidental Anselm Kiefer e Jörg Immendorff, cada um a seu modo, deram um ânimo novo ao que havia sido o ímpeto criativo da República de Weimar, enquanto A. R. Penck fez o mesmo no lado oriental. E assim se renovou a extrema-esquerda, que adquiriu um novo fôlego e uma impressionante criatividade. O marxismo, enquanto instrumento crítico com capacidades inovadoras, voltara a existir.</p>
<p style="text-align: justify;">De toda esta vastíssima internacionalização das lutas estudantis e operárias, só a África ficou excluída. Apesar de muitas ilusões, não ocorreu em África uma luta contra o capitalismo nem sequer contra a expressão colonial do capitalismo, e tudo se resumiu a um processo de independências afim à noção de «nações proletárias», em que os trabalhadores ficaram desde início enquadrados pelas burocracias políticas dos partidos anticolonialistas ou pelas burocracias militares das organizações de guerrilha. Uma vez mais se mostrou na África o resultado — o único resultado possível — do terceiro-mundismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando o autonomismo chegara ao auge e parecia ter assentado alicerces sólidos, em poucos anos tudo se desmoronou sem que sequer a memória restasse. «<em>Ce n’est qu’un début, continuons le combat!</em>», gritavam eles, gritávamos nós nas ruas de Paris, sem sabermos que o combate estava a terminar. Como sempre, a derrota veio das contradições internas e não de qualquer ataque exterior.</p>
<p style="text-align: justify;">A internacionalização económica do capitalismo impunha — e impõe — regras de mercado globais, e empresas isoladas não poderão sobreviver se pretenderem adoptar normas divergentes. Foi este o contexto em que se esgotaram os ensaios de autogestão das fábricas, mesmo nos casos em que haviam conseguido uma grande expansão no interior de um país, como sucedeu em Portugal em 1975. Os operários que ocupavam uma fábrica decididos a gerir a produção não pretendiam que ela continuasse a ser administrada pelos antigos gestores e elegiam os seus próprios representantes. Mas quando a nova administração começava a alterar as hierarquias e as relações sociais de trabalho vigentes na empresa, deparava imediatamente com a pressão imposta pelas necessidades da concorrência no mercado capitalista mundial, que erguia sérios obstáculos à adopção das novas modalidades de organização. Os trabalhadores da empresa consideravam-se traídos por uma comissão de representantes que se mantinha presa às formas organizativas que os trabalhadores desejavam modificar. Mas a demissão desses representantes e a eleição de uma nova comissão não alterava a situação, visto que perduravam os condicionalismos exteriores, impostos pela concorrência no mercado internacional. O processo arrastava-se durante algum tempo, levando ao desânimo crescente da base operária, que pouco a pouco se desinteressava da gestão activa. Pressionados de um lado pelas regras ditadas pelo mercado mundial, e do outro pelo alheamento em que haviam caído os trabalhadores, as comissões de representantes depressa se burocratizaram e a autogestão reduziu-se a um nome sem conteúdo, que só seria usado para eventuais efeitos demagógicos. Aliás, a desarticulação interna da Revolução Cultural chinesa pode ser entendida como uma expressão concentrada daquele processo de desagregação. Foi assim que se desmoronou toda a experiência autonomista, que tivera na autogestão a  base real, sem conseguir realizar na prática as suas esperanças mobilizadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">No capitalismo, porém, a derrota dos conflitos, isolados ou de massas, não se limita a fazê-los desaparecer. Eles são recuperados e economicamente rentabilizados. A regra do capital não é o <em>potlatch</em>, mas a mais-valia. Se os trabalhadores demonstravam a capacidade de se organizar autonomamente sem precisarem de recorrer a burocracias partidárias ou sindicais, e se dispunham a gerir eles próprios as empresas e conseguiam fazê-lo até depararem com as imposições do mercado mundial, então os capitalistas, que desde a segunda guerra mundial cada vez menos se limitavam a explorar a simples força muscular dos assalariados e lhes aproveitavam também a capacidade intelectual, descobriram ali a forma de ampliar os horizontes da mais-valia. A capacidade de gestão revelada pelos colectivos de operários em luta serviu ao capitalismo, derrotadas as lutas, para expandir as formas toyotistas de organização do trabalho. Ao mesmo tempo, os temas difundidos pelas lutas no movimento estudantil foram aproveitados pelos capitalistas para remodelar a classe dos gestores com uma nova geração de quadros habilitados a exercer funções no toyotismo. O movimento autonomista não só se desmoronou, como os seus escombros foram assimilados pelo capitalismo para incrementar o processo da mais-valia relativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157179" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-300x300.jpg" alt="" width="600" height="603" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-1019x1024.jpg 1019w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-768x771.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-1529x1536.jpg 1529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-418x420.jpg 418w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-640x643.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-681x684.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9.jpg 1991w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Entretanto, com o declínio da autogestão operária, a contestação estudantil internacional perdeu o eixo condutor e prevaleceu o carácter difuso que a Contracultura tivera desde início. Como sempre sucede quando o conteúdo se esvai, os símbolos deixam de representar alguma coisa e passam a valer por si mesmos. A Contracultura foi então aproveitada como logótipo para o lançamento de novas linhas de produção ou novos produtos e como caução para quem desejasse apenas assumir um certo <em>look</em>. Enquanto as aspirações revolucionárias terminavam assim em estilos da moda, ocorreu a banalização do consumo de drogas, que em vez de levarem a uma libertação, mesmo hipotética, tiveram como consequência o reforço das redes de tráfico. O que havia sido uma proliferação de pequenos comércios paralelos transformou-se numa expansão sem precedentes de uma forma de grande capital no submundo do crime. E como tudo se reflecte na arte, a música que animara a contestação juvenil e lhe servira de hino e de estímulo passou a alimentar a indústria cultural de massas e gerou o contrário do que havia sido. Também aqui, portanto, a derrota reverteu numa rentabilização do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Na sequência da dissolução interna dos movimentos autonomistas precipitou-se o colapso da esfera soviética, e na China o maoismo foi substituído por um misto de autoritarismo político e de liberalização económica. Não só fracassara o ensaio de renovação da extrema-esquerda marxista como ela perdeu até a razão de ser, pois a sua realidade dependia da existência daquele velho mundo comunista que conhecia e onde se criara.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, tal como Clara Zetkin e Trotsky compreenderam, o fascismo desenvolve-se a partir do esgotamento interno de um movimento revolucionário. Se no malogro da revolução europeia de 1916-1921 se geraram as formas clássicas de fascismo, o insucesso da vaga internacional de lutas autonómicas centrada na década de 1960 permitiu a generalização de um novo fascismo pós-fascista, assente na ecologia e nos identitarismos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> veremos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> veremos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157181" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d-222x300.jpg" alt="" width="100" height="135" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d-222x300.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d-311x420.jpg 311w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d.jpg 334w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" /></p>
<p><em>As ilustrações reproduzem obras de Victor Vasarely (1906-1997)</em>.</p>
<div class="level3"></div>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_10">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"></div>
</form>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/09/157148/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um manifesto incómodo. 3</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157145/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/09/157145/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Sep 2025 06:39:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157145</guid>

					<description><![CDATA[Da «nação proletária» à Conferência de Bandung e ao Terceiro Mundo a linhagem é uma única. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>3</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A segunda guerra mundial foi o oposto da primeira. Em vez de aparecer como uma rivalidade explícita de interesses económicos, apresentou-se como um confronto entre blocos ideológicos. Em vez de imobilizar os soldados em trincheiras, lançou-os em operações de movimento, que impediam os contactos pessoais. Em vez de terminar numa revolução internacional, fundou a consolidação de uma geopolítica baseada no conceito de «nações proletárias». E assim o fascismo, apesar de derrotado militarmente, pôde persistir ideologicamente graças ao enraizamento de uma noção que o gerara e sempre o inspirara. Foi uma consolidação duradoura. De então em diante a luta de classes contra a exploração tendeu a ser substituída pelos confrontos da geopolítica ou, mais recentemente, como teremos ocasião de ver, por formas transnacionalizadas de geopolítica. Leiam agora as diatribes de Hitler contra as imposições do tratado de Versailles, leiam o que Benito Mussolini escrevia contra a hegemonia das nações ricas. Será que a maior parte dos que se consideram antifascistas lhes pouparia os aplausos?</p>
<p style="text-align: justify;">No discurso de 10 de Junho de 1940 em que anunciou a entrada da Itália na nova guerra mundial, Mussolini expôs os termos do confronto. «Esta luta gigantesca não é mais do que uma fase do desenvolvimento lógico da nossa revolução: é a luta dos povos pobres e com mão-de-obra abundante contra os açambarcadores que detêm ferozmente o monopólio de todas as riquezas e de todo o ouro da terra; é a luta dos povos fecundos e jovens contra os povos estéreis e votados ao desaparecimento; é a luta entre dois séculos e duas ideias». O conceito de «nações proletárias» requeria logicamente o conceito oposto, as «nações plutocráticas», e já em 1920 Gabriele D’Annunzio, fascista desde a primeira hora, ou mesmo antes, profetizara. «Haverá uma nova cruzada das nações pobres e empobrecidas, dos homens pobres e dos homens livres, contra as nações, contra a casta dos usurários que ontem tiveram os lucros da guerra e hoje lucram com a paz». A inevitável dialéctica que levava as «nações proletárias» a aspirarem à fortuna e ao império é o eixo que nos deve servir para interpretarmos todos os nacionalismos. «Quando esta guerra terminar queremos ser os senhores da Europa», disse Joseph Goebbels em Outubro de 1940 a um grupo de dirigentes do Partido Nacional-Socialista. «Pertenceremos enfim às nações ricas».</p>
<p style="text-align: justify;">A mesma ambição de emancipar uma «nação proletária» movera desde a sua fundação o fascismo nipónico. «O imperialismo», declarara Kita no seu livro de 1906, «é a condição prévia do internacionalismo», e nesta perspectiva ele procurou promover o imperialismo japonês através de uma estratégia que estimulasse os movimentos contra o colonialismo ocidental na Ásia. Os novos colonizadores anunciar-se-iam como libertadores. Aliás, Kita não se limitou a ser um ideólogo, mas durante vários anos empenhou-se pessoalmente na colaboração prática com os revolucionários nacionalistas chineses. E assim um país movido pela ambição expansionista era apresentado por Kita como o campeão dos restantes povos asiáticos contra o colonialismo europeu e americano. Esta perspectiva foi igualmente defendida por altas figuras políticas e económicas ligadas à ala conservadora do fascismo nipónico, e pôde por aí inspirar a formulação da Esfera da Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1 de Agosto de 1940 o ministro dos Negócios Estrangeiros japonês proclamou a Esfera da Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental que, além do Japão, do Manchukuo e da China, deveria ainda incluir as Índias Orientais holandesas e a Indochina francesa, o que exigiria um confronto armado com o colonialismo europeu a sul e a sudoeste. Mas esta geografia era elástica, e tanto as autoridades militares como os responsáveis políticos nunca chegaram a um acordo quanto aos limites últimos da Esfera da Co-Prosperidade, que na sua versão extrema iria mesmo abranger a parte ocidental do Canadá e dos Estados Unidos, além de todos os países da América Central e uma porção considerável da América do Sul, o que implicaria que o Japão se lançasse numa nova guerra cerca de duas décadas mais tarde. Aliás, esta colossal desproporção entre as capacidades militares nipónicas e as suas ambições geopolíticas foi evocada por Maruyama como mais um exemplo do irracionalismo fascista. Prosseguindo a estratégia de um imperialismo anticolonialista que Kita formulara desde 1906, a Esfera da Co-Prosperidade foi proclamada sob o lema «a Ásia para os asiáticos», mas não devemos esquecer que, política, económica e militarmente, haveria ali asiáticos e asiáticos. Na versão da Esfera da Co-Prosperidade que o fascismo militar japonês conseguiu realizar até ao final da guerra, definia-se um centro industrial completado por uma periferia de produtores de matérias-primas, e esta disparidade assegurada pelo mercado era apresentada como uma forma de harmonia económica. Revelava-se assim cruamente o significado real daquele imperialismo anti-imperialista, mas o paradoxo vinha da própria génese do fascismo, porque o conceito de «nação proletária» implicava necessariamente o anseio de uma nação imperial.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Agosto de 1945 o Japão aceitou render-se, mas isto não impediu que continuasse a movimentação política implícita na Esfera da Co-Prosperidade. Quando pouco faltava para o conflito terminar, um antigo funcionário do consulado norte-americano em Hong Kong, Robert Ward, pôde antecipar lucidamente o futuro. «Com a proclamação oficial das suas aspirações na Ásia, às quais se associaram os chefes fantoches dos povos subjugados, o Japão contava aumentar o apoio de que dispunha para travar batalhas que se anunciavam decisivas na guerra do Pacífico. Mas o aparelho organizativo empregue e mesmo alguns dos termos usados indicam que os japoneses procuravam sobretudo atingir um objectivo mais subtil. Esse objectivo é o prolongamento da luta política na Ásia para além do termo da guerra actual». Com efeito, verificou-se uma continuidade entre o processo de descolonização prosseguido sob a tutela nipónica e as lutas pela independência que tiveram lugar nesta zona depois da capitulação de Agosto de 1945. Os governantes japoneses esforçaram-se por assegurar o êxito de pelo menos um dos seus lemas — «a Ásia para os asiáticos» — e prepararam um pós-guerra que comprometesse definitivamente o colonialismo europeu e americano naquela região do mundo. O estímulo dado à luta anticolonial e especialmente aos movimentos de independência e a atribuição de poderes governamentais aos dirigentes nacionalistas que se haviam colocado sob a égide do fascismo nipónico foram, afinal, o legado duradouro da Esfera da Co-Prosperidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A data mais marcante, dez anos depois do termo da segunda guerra mundial, foi a Conferência de Bandung, que reuniu representantes de quase três dezenas de países nessa cidade da Indonésia com o objectivo de condenar a discriminação racial e todas as formas de colonialismo. Ao vermos a lista dos organizadores e participantes, destaca-se a presença de Chu En-lai, primeiro-ministro da China e então também ministro dos Negócios Estrangeiros, ao lado de Achmad Sukarno, presidente da Indonésia, que sob a tutela japonesa levara o seu país à independência nos últimos dias da guerra. Como sempre, o cruzamento entre a esquerda e a direita gera ou sustenta o fascismo, e nem faltou para ornamentar o encontro um convidado de honra, o mufti de Jerusalém Hadj Amin el-Husseini, que fora subsidiado pelo fascismo italiano, em 1941 se refugiara no Reich e organizara conspirações a favor de Hitler no Egipto e no Iraque, ajudando depois os SS a recrutarem uma legião muçulmana nos Balcãs e colaborando no programa de extermínio dos judeus. O único dos países desenvolvidos e industrializados presente em Bandung foi o Japão, uma participação significativa porque decerto recordava que sob a égide do fascismo nipónico começara a proclamar-se «a Ásia para os asiáticos». O líder fascista Ba Maw, que depois de ter ocupado o lugar de primeiro-ministro da colónia britânica da Birmânia governou sob a tutela japonesa a Birmânia independente, teve razão quando escreveu nas suas Memórias que sem a experiência prévia da Esfera da Co-Prosperidade a Conferência de Bandung teria sido impossível.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157171" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-2-300x250.jpg" alt="" width="600" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-2-300x250.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-2-768x639.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-2-504x420.jpg 504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-2-640x533.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-2-681x567.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-2.jpg 974w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Entretanto, em 1952 o economista e demógrafo francês Alfred Sauvy cunhara o conceito de <em>Tiers Monde</em>, Terceiro Mundo. Com que pudor os politicamente correctos, sempre avessos a tudo o que considerem eurocentrismo, se esforçam por dissimular a proveniência deste termo! Na verdade, <em>tiers</em> é inevitavelmente mal traduzido em todas as línguas, porque já na época de Sauvy era uma forma arcaica correspondente a <em>troisième</em>, <em>terceiro</em>, cuja memória se associava ao que antes da Revolução Francesa havia sido o <em>tiers état</em>, o estado ou condição social de quem não pertencesse ao clero nem à nobreza laica. Assim, é esclarecedor que Sauvy não tivesse formulado o conceito como <em>troisième monde</em>, mas como <em>tiers monde</em>, o que de imediato lhe conferia uma conotação estritamente socioeconómica. Se na velha França o <em>tiers état</em> fora a categoria social inferior, o conceito criado por Sauvy evocava uma situação equivalente, mas no âmbito mundial. Ideologicamente a filiação era clara, e o Terceiro Mundo foi a actualização da «nação proletária» numa época globalizada. Já não se tratava de uma aliança de «nações proletárias», como os fascismos se haviam apresentado na segunda guerra mundial, e todo este enorme espaço geopolítico se assumia como uma «nação proletária» única. Se Ba Maw estava certo — como creio que estava — ao escrever que sem a Esfera da Co-Prosperidade não teria havido a Conferência de Bandung, então devemos necessariamente concluir que sem a «nação proletária», com tudo o que essa noção implicou, não existiria Terceiro Mundo. Uma vez mais vemos que a segunda guerra mundial, se derrotou militarmente o fascismo, foi apenas militarmente que o derrotou.</p>
<p style="text-align: justify;">A concentração das atenções na Guerra Fria pode conduzir à ilusão de que o mundo estivesse polarizado pelos dois grandes campos, e que aqueles países que nem se integravam na esfera soviética ou na chinesa nem pertenciam às democracias da esfera americana ficassem condenados a oscilar entre um lado e o outro e fossem desprovidos de identidade própria. Os Não Alinhados, porém, representavam na política externa uma realidade subjacente muito profunda, que levara à Conferência de Bandung e amparava o Terceiro Mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste contexto, a principal experiência — que para a extrema-esquerda da minha geração foi a desilusão mais amarga — resultou dos movimentos anticoloniais em África. O que de início prometera dar um novo alento à luta dos trabalhadores em busca de novas relações sociais e de uma efectiva liberdade converteu-se, sem uma única excepção, na instauração de regimes autoritários ou francamente ditatoriais, quando não mesmo genocidas, sustentando classes dominantes maioritária ou inteiramente corruptas, baseadas num capitalismo mais cleptómano do que empresarial. Proclamadas as independências, os novos regimes mantiveram as formas políticas herdadas do colonialismo para dominar o proletariado. Mantiveram as formas colonialistas de racismo, mas transformadas agora, e por vezes só superficialmente, em novo elitismo. Em suma, converteram o muito mau em pior ainda.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que sobretudo importa nos resultados da experiência africana, o verdadeiramente decisivo, é que eles não se deveram à interferência de potências exteriores, mas a uma evolução estritamente interna das próprias organizações que haviam combatido pelas independências. Foram os movimentos de libertação, tanto partidos políticos como guerrilhas, que se converteram em elite dos países recém-independentes e foram os sindicatos, onde existiam, a oferecer os casos mais flagrantes de transformação dos seus dirigentes em novos capitalistas. A emancipação das «nações proletárias» africanas enquanto entidades nacionais ocorreu sem que se tivesse emancipado o proletariado dessas nações — e que outra coisa se poderia esperar? Da «nação proletária» à Conferência de Bandung e ao Terceiro Mundo a linhagem é uma única.</p>
<p style="text-align: justify;">Os tempos mudaram e o núcleo do Terceiro Mundo chama-se agora BRICS. Ora, o mesmo pudor que leva os politicamente correctos a tentarem esquecer a quem se deve a denominação <em>Tiers Monde</em> leva-os também a dissimular que aquele acrónimo, então ainda na forma BRICs, foi criado por Jim O’Neill, actualmente barão O&#8217;Neill de Gatley, que desempenhou altos postos executivos no grande grupo financeiro Goldman Sachs e exerceu depois cargos ministeriais num governo conservador do Reino Unido. Os sucessivos herdeiros da «nação proletária» não poderiam ter tido melhores padrinhos de baptismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> veremos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> veremos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> veremos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O discurso de Mussolini a 10 de Junho de 1940 está antologiado em Charles F. Delzell (org.) <em>Mediterranean Fascism, 1919-1945</em>, Nova Iorque: Walker, 1971, pág. 214. As declarações de D’Annunzio estão citadas em George Seldes, <em>Sawdust Caesar. The Untold History of Mussolini and Fascism</em>, Nova Iorque e Londres: Harper &amp; Brothers, 1935, pág. 74. A declaração de Goebbels em Outubro de 1940 está citada em J. Noakes e G. Pridham (orgs.) <em>Nazism 1919-1945. A Documentary Reader</em>, vol. III: <em>Foreign Policy, War and Racial Extermination</em>, Exeter: University of Exeter Press, 2010, pág. 292. A passagem da obra de 1906 de Kita encontra-se em George M. Wilson, <em>Radical Nationalist in Japan: Kita Ikki, 1883-1937</em>, Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1969, pág. 35. O relatório de Ward está transcrito em Joyce C. Lebra (org.) <em>Japan’s Greater East Asia Co-Prosperity Sphere in World War II. Selected Readings and Documents</em>, Kuala Lumpur: Oxford University Press, 1975, pág. 154. A opinião de Ba sobre a Conferência de Bandung vem em Ba Maw, <em>Breakthrough in Burma. Memoirs of a Revolution, 1939-1946</em>, New Haven e Londres: Yale University Press, 1968, pág. 339.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157173" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-300x200.jpg" alt="" width="100" height="67" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-1024x682.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-537x360.jpg 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-b.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Julian Stanczak (1928-2017)</em>.</p>
</div>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_9">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"></div>
</form>
</div>
<div class="section_highlight_wrapper">
<h3 id="d_um_manifesto_incomodo_4" class="sectionedit10"></h3>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/09/157145/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>5</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um manifesto incómodo. 2</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157142/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/09/157142/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Sep 2025 06:27:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157142</guid>

					<description><![CDATA[Os conselhos foram a antecipação de uma sociedade nova. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 class="level3">Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>2</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Desmentindo as previsões de Engels e de Marx, a guerra mundial iniciada na Europa no final de Julho de 1914 não se deveu à questão polaca e, além disso, colocou a autocracia russa ao lado das democracias. Mais importante ainda, em vez de os temas nacionais assumirem o relevo que os dois fundadores do marxismo lhes haviam atribuído no caso de um conflito militar generalizado, ocorreu então a primeira revolução realmente internacional, porque não se tratou só de uma simultaneidade de lutas em diversos países, mas de uma verdadeira ultrapassagem das fronteiras.</p>
<p style="text-align: justify;">No Natal de 1914, menos de cinco meses depois de ter deflagrado o conflito, já se registavam casos de fraternização entre as tropas alemãs e as britânicas numa das linhas de frente, e o movimento ampliou-se às trincheiras francesas. Apesar da severidade das punições disciplinares, incluindo condenações à morte, e dos bombardeamentos que os comandantes ordenavam para impedir o contacto pessoal entre os soldados de cada um dos lados, os episódios de fraternização continuaram, e durante o Inverno de 1915-1916 tornaram-se mais frequentes entre os soldados franceses e os alemães, sucedendo o mesmo no Inverno seguinte. Aliás, já em Abril de 1916 os soldados de quatro regimentos russos haviam tomado a iniciativa de estabelecer uma trégua com os austro-húngaros para que pudessem em conjunto celebrar a Páscoa ortodoxa. Superavam-se assim as fronteiras, que pareciam tanto mais intransponíveis quanto o impasse que imobilizara as principais frentes de batalha levara a cavar sistemas de trincheiras de um e outro lado.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo que nas frentes de combate um número crescente de soldados violava um dos preceitos mais básicos da disciplina militar, entre os civis multiplicavam-se as greves e aumentava a quantidade de operários que nelas participava. Do lado das Potências Centrais, o número de dias de trabalho perdidos por greve na Alemanha cresceu 500% entre 1915 e 1916, e 700% entre 1916 e 1917, atingindo então dois milhões. Do lado da <em>Entente</em>, as greves aumentaram na Grã-Bretanha em 1916 e 1917. Em França, de 1915 a 1916 o número de movimentos grevistas subiu 220% e a quantidade de participantes aumentou mais de 340%, sendo as cifras correspondentes entre 1916 e 1917 de cerca de 120% e de 610%. Entretanto, o rendimento do trabalho nas fábricas de material de guerra diminuiu 15% na região de Paris e 50% em Bourges. Finalmente, na Rússia, mais de dez mil operários entraram em greve em Janeiro de 1916 numa base naval do Mar Negro e pouco tempo depois, do outro lado do país, estavam em greve quarenta e cinco mil trabalhadores no porto de Petrogrado. O carácter radical destas movimentações avalia-se ao sabermos que em Outubro de 1916 cerca de duzentos mil operários russos participavam em 177 greves de carácter político.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação entre as lutas operárias e os movimentos de fraternização dos soldados ocorria nos dois sentidos e as autoridades militares temiam os contactos que, durante os períodos de licença na retaguarda, os soldados efectuavam com os operários grevistas. Este receio tinha razão de ser, porque há numerosas indicações de que os sindicatos, nomeadamente em França, ajudavam as deserções. Aliás, um dos aspectos reveladores do carácter assumido pelos motins e sublevações militares nas linhas da frente foram os frequentes apelos à solidariedade dos grevistas e do movimento operário em geral. Assim, não espanta que tanto os soldados insurrectos como os oficiais superiores usassem a palavra <em>greve</em> para denominar as sublevações militares colectivas, sucedendo até que soldados alemães retirados da frente de batalha insultassem de «fura greves» aqueles que os iam substituir.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto aumentavam as deserções, que podemos classificar literalmente como greves militares totais, com a diferença de que, para ser maciço, um movimento de deserção tem de ocorrer simultaneamente em ambos os lados. Na Rússia, em Julho de 1915, os serviços secretos e o próprio ministro da Guerra alertaram as autoridades para as enormes proporções atingidas pela deserção e a dificuldade de reter os soldados nas trincheiras. E em Julho de 1917 um relatório do serviço de informações do exército francês indicou a presença de dez mil desertores só na região parisiense. A situação era idêntica do outro lado das frentes de batalha, e em Setembro de 1918 calculava-se que quatrocentos mil soldados tivessem desertado do exército austro-húngaro, enquanto no Outono desse ano estimava-se em mais de setecentos e cinquenta mil o número de desertores na Alemanha. Mas foi na Itália que este movimento atingiu as proporções mais impressionantes, a tal ponto que no final da guerra havia pendentes um milhão e cem mil processos por deserção, correspondentes à quinta parte dos soldados. A justiça militar rendeu-se à evidência e, perante a impossibilidade de levar a tribunal um tão grande número de desertores, eles acabaram por ser amnistiados em 1919.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda esta movimentação culminou em 1917 e 1918. Já em Setembro de 1915, na Rússia, soldados reservistas ou convalescentes tinham-se juntado aos protestos populares, chegando a entrar em confronto com a polícia, e no final desse ano amotinaram-se os marinheiros em dois navios de guerra. Mas a primeira data marcante assinalou-se entre Abril e Setembro de 1917, quando a revolta se propagou nas trincheiras francesas, atingindo o auge em Maio e na primeira metade de Junho. Durante estas seis semanas amotinou-se a maior parte do exército francês, e cinquenta e quatro divisões sublevaram-se contra os comandantes, hastearam bandeiras vermelhas e ameaçaram marchar sobre a capital para derrubar o governo. No mês seguinte, em Julho, as tropas francesas amotinaram-se na frente de Salónica. O ímpeto do movimento confirma-se pela crueldade da repressão. Em França, entre o início de Junho de 1917 e o final de Dezembro, as condenações à morte em conselho de guerra atingiram um número igual ou superior ao registado durante os trinta e quatro meses anteriores, desde que a guerra começara. Mas o ânimo dos insurrectos não esmorecia, e em Janeiro de 1918 dois regimentos franceses sublevaram-se, exigindo a paz. Até no âmbito do comando britânico, apesar de os soldados se mostrarem aí mais respeitadores da hierarquia, ocorreu durante vários dias, em Setembro de 1917, um motim de australianos e neozelandeses, submetido à custa de trezentas prisões e do fuzilamento de um dos cabecilhas. E no Corpo Expedicionário Português, dependente também do comando britânico, as insubordinações e revoltas persistiram desde Abril de 1918 até ao final do conflito, sucedendo mesmo que uma unidade sublevada corresse a tiro o general comandante da divisão. Entretanto, em Fevereiro de 1918 haviam-se amotinado algumas tropas gregas.</p>
<p style="text-align: justify;">As fronteiras, que não tinham conseguido impedir as fraternizações, não puderam também evitar a internacionalização das revoltas. A marinha alemã amotinou-se no Verão de 1917, sendo condenados à morte e executados os dois principais dirigentes do levantamento, assim como foram executados quatro dirigentes do motim ocorrido em navios austro-húngaros em Fevereiro de 1918, quando um dos couraçados chegou a hastear a bandeira vermelha. E na Hungria, em Maio de 1918, dois mil soldados recusaram-se a seguir para a frente de combate, recebendo o apoio dos trabalhadores das minas de carvão vizinhas. Em Outubro desse ano, na frente do Piave, os amotinados de duas divisões austro-húngaras negaram-se a contra-atacar. Noutra das Potências Centrais, a Bulgária, a linha de frente desintegrou-se completamente em Setembro de 1918, quando os soldados se recusaram em massa a prosseguir o combate, o que, em conjunto com a agitação popular, propiciou uma tentativa insurreccional, esmagada com a ajuda de tropas britânicas. Entretanto, nas batalhas do Verão e do Outono desse ano sucedeu que milhares de soldados alemães se entregassem como prisioneiros sem esboçar qualquer resistência. As condições estavam assim preparadas quando a revolta dos marinheiros da armada alemã do Báltico, no final de Outubro de 1918, se estendeu rapidamente em Novembro por todo o país e sublevou os restantes soldados e os operários da indústria, dando início à tão célebre revolução dos conselhos. Também o processo revolucionário iniciado em Março de 1919 na Hungria, bem como as esperanças que animaram o proletariado agrícola e industrial da Itália em 1919 e 1920, estiveram na imediata continuidade da agitação social que encerrara a guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, durante todo este período a junção entre as revoltas militares e as greves civis intensificou-se e levou a verdadeiras insurreições de toda a classe trabalhadora. Na Itália, em 1917, o movimento de contestação cresceu a tal ponto entre os operários e os camponeses que em Agosto desencadeou-se em Turim uma revolta de cinco dias, e a violência da repressão deixou cerca de cinquenta mortos, duzentos feridos e mais de oito centenas de presos. Entretanto, as greves de Abril de 1917 em Berlim haviam mobilizado entre duzentos mil e trezentos mil trabalhadores. Na mesma altura uma vaga de greves agitou o Império Austro-Húngaro e em Novembro desse ano cem mil operários manifestaram-se em Budapeste a favor de uma paz imediata. As greves e os motins provocados pela fome tornaram-se tão frequentes em Budapeste e em Viena que em Janeiro de 1918 uma vaga de greves, reivindicando a paz imediata, paralisou estas duas capitais do Império Austro-Húngaro, devendo as autoridades retirar sete divisões das frentes de combate para mandá-las impor a ordem nas ruas. Nesse mesmo mês de Janeiro iniciou-se em Berlim e estendeu-se a meia centena de cidades alemãs uma série de greves que mobilizou várias centenas de milhares de operários e foi acompanhada por manifestações contra a guerra e a fome, repetindo-se o movimento em Viena e Budapeste em Junho de 1918.</p>
<p style="text-align: justify;">A «revolução de Outubro» foi apenas a expressão russa dessa revolução europeia. Hoje, aqueles que celebram a revolução russa como um acontecimento singular estão na verdade a obnubilar a memória de uma grande revolução internacional. Curiosamente, essa memória é também sonegada pelos altos comandos militares, que têm impedido o acesso à documentação, excepto a raros historiadores que gozem da confiança política das autoridades. Este conjunto de factores faz com que, perante uma indiferença generalizada, seja esquecida a primeira revolução efectivamente internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, além do seu carácter internacional, o processo revolucionário ocorrido durante a primeira guerra mundial foi ainda mais profundo e destacou-se pela forma como os soldados e os operários começaram a organizar-se — os conselhos. Os conselhos eram assembleias de base com funções de discussão, deliberação e execução, desprovidas de hierarquias fixas, porque os soldados ou os operários podiam em qualquer momento revocar o mandato dos delegados eleitos e, portanto, não alienavam o controle exercido sobre a luta. Foi a antecipação de uma sociedade nova, uma revolução no sentido real do termo, que ao mesmo tempo ultrapassava a divisão entre nações e remodelava as formas de organização social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157163" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-1024x277.webp" alt="" width="700" height="189" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-1024x277.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-300x81.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-768x208.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-1536x415.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-2048x554.webp 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-1553x420.webp 1553w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-640x173.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-5-681x184.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" />Os conselhos de soldados e os conselhos de operários não nasceram na cabeça de ideólogos. Em França, em Maio e na primeira metade de Junho de 1917, as cinquenta e quatro divisões que se rebelaram contra os comandantes elegeram os seus próprios representantes. Também na Itália, na sequência da sublevação operária de Turim em Agosto de 1917, começaram a surgir no norte do país as comissões de fábrica, cujas implicações revolucionárias se manifestariam durante as grandes greves e movimentos de ocupação de Agosto e Setembro de 1919. E tanto nas cidades alemãs como em Budapeste e Viena a agitação operária deu lugar à criação de conselhos. Até na Grã-Bretanha as greves de 1916 e 1917 suscitaram a expansão e a generalização dos <em>shop stewards</em>, membros dos sindicatos eleitos pelos trabalhadores nas unidades de produção e que defendiam naquela época as posições da base operária, frequentemente oposta às direcções sindicais.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, em russo <em>sov’et</em> significa <em>conselho</em>, o que mais ainda reforça a inserção da revolução russa de 1917 naquele processo revolucionário de âmbito europeu. Tenho observado muitas vezes que a História é irónica, e não pode haver maior ironia — triste ironia — do que chamar <em>soviético</em> ao regime que depressa eliminaria os <em>sov’et</em> e haveria de instituir uma das formas mais drásticas de burocratização da vida política e intelectual. Ainda nisso a Rússia acompanhou os acontecimentos europeus. Terminada a guerra, a revolução desarticulou-se internamente e, num ritmo mais ou menos veloz, os conselhos burocratizaram-se, em França e sobretudo na Alemanha, nomeadamente na Baviera, e também na Áustria, na Hungria, finalmente na Itália. Mas o seu a seu dono, porque neste declínio a Rússia foi precursora. Ao assinar em Brest-Litovsk a paz separada com as Potências Centrais, em Março de 1918 — precisamente quando de um e outro lado, na França e na Itália, tal como na Alemanha e no Império Austro-Húngaro, as sublevações dos soldados e as greves dos trabalhadores atingiam enormes proporções — o novo governo bolchevista mostrou que preferia os seus interesses nacionais ou, mais exactamente, nacionalistas, aos interesses da revolução internacional. Depois, em Março de 1921, os marinheiros de alguns navios da armada russa do Báltico e a guarnição da importantíssima base naval de Kronstadt, em conjunto com os operários dos estaleiros e oficinas, sublevaram-se em apoio ao movimento grevista que a partir dos últimos dias de Fevereiro alastrara em várias fábricas e estabelecimentos industriais da vizinha cidade de Petrogrado, além de outros grandes centros urbanos, e exigiram o regresso ao sistema originário dos sovietes. Mas o partido bolchevista, incluindo a sua facção mais à esquerda, decidiu liquidar militarmente esta insurreição, e ficou assim colocado o epitáfio na revolução dos conselhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os escombros progrediu o fascismo, que só existia em gérmen, mas a partir de então assumiu um colossal desenvolvimento. As interpretações marxistas do fascismo são geralmente um fracasso, sobretudo as que fizeram parte da cartilha oficial. Como o Partido Comunista alemão era o segundo mais importante, logo a seguir ao da União Soviética, a Alemanha foi o principal campo de acção política do Komintern. Ora, à medida que se desenhava entre os comunistas alemães a estratégia de competir em nacionalismo com os nacionais-socialistas e se aproximar deles para minar o Partido Social-Democrata, Grigory Zinoviev foi elaborando no Komintern a teoria do social-fascismo, que classificava a social-democracia como uma parte constitutiva do fascismo ou a considerava até o elemento mais nocivo do fascismo. Stalin optou por uma formulação prudente, declarando em 1924 que «a social-democracia representa objectivamente a ala moderada do fascismo». Mas, seguindo a directiva promulgada em Janeiro de 1924 pelo <em>præsidium</em> do comité executivo do Komintern, em Abril desse ano o 9º Congresso do Partido Comunista da Alemanha definiu a social-democracia como uma «fracção do fascismo», e o 12º Congresso, reunido em Junho de 1929, classificou-a como a vanguarda do fascismo e a sua modalidade mais perigosa, uma orientação que o Komintern tornou obrigatória para o movimento comunista mundial. Assim, enquanto os fascismos ascendiam e se consolidavam, a social-democracia era assinalada como o perigo que devia ser combatido com maior urgência.</p>
<p style="text-align: justify;">Só em meados de 1935, dois anos e meio depois de Adolf Hitler ter conseguido a nomeação para a chancelaria, o Komintern inverteu o rumo e abandonou no seu 7º Congresso a catastrófica tese do social-fascismo, indicando então a aliança com os partidos social-democratas como eixo estratégico da luta contra o fascismo. Mas nem por isso passara a lucidez a inspirar os intérpretes oficiais da doutrina, porque no relatório apresentado naquela ocasião, o novo secretário-geral do Komintern, Georgi Dimitrov, considerou que «o fascismo é o poder do próprio capital financeiro». Esta definição ainda hoje inspira os meios marxistas, embora devesse ser óbvia a sua falta de fundamento, pois se o fascismo se limitasse a ser a expressão directa do grande capital teria prevalecido nos países com as economias mais desenvolvidas, o que nunca sucedeu.</p>
<p style="text-align: justify;">É certo que no geral insucesso das interpretações marxistas do fascismo se encontram algumas excepções de vulto, mas são apenas casos individuais. Quanto à questão que aqui nos interessa, destaca-se Clara Zetkin, que em Junho de 1923, na 3ª sessão plenária do Komintern, advertiu: «O fascismo não é de modo nenhum a vingança da burguesia contra um proletariado que se tivesse insurreccionado de maneira combativa. Sob um ponto de vista histórico e objectivo, o fascismo ocorre sobretudo porque o proletariado não foi capaz de prosseguir a sua revolução». Esta indomável revolucionária entendeu uma das principais lições da fracassada revolução dos conselhos em que participara — que os fascistas não se afirmam contra um movimento operário em ascensão, mas só quando ele está em declínio devido à agudização das suas contradições internas. A mesma perspectiva de análise foi defendida por Trotsky pelo menos desde 1932, e ainda no seu último texto, um esboço de artigo que ditou aos secretários pouco antes de ser assassinado, Trotsky enunciou um modelo de cronologia que se inicia por uma crise social muito grave, prossegue com «o aumento da radicalização da classe trabalhadora», conseguindo mobilizar as camadas intermédias e deparando com as hesitações da grande burguesia, para ocorrer depois «a exaustão do proletariado» e «uma indecisão e uma indiferença crescentes» que, perante «o agravamento da crise social», precipitam o desespero das camadas intermédias e lhes provocam «o aumento da hostilidade para com o proletariado, que não correspondeu às suas esperanças». E Trotsky concluiu — e com esta conclusão encerrou a sua vida. «Estas são as premissas da formação rápida de um partido fascista e da sua vitória». Entendemos assim muito, tanto sobre o fascismo como sobre os movimentos revolucionários, como demonstrou o malogro da revolução dos conselhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> veremos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> veremos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> veremos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> veremos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A citação das decisões do 9º Congresso do Partido Comunista da Alemanha está em Ossip K. Flechtheim, <em>Le Parti Communiste Allemand (K. P. D.) sous la République de Weimar</em>, Paris: François Maspero, 1972, págs. 243-253 e Hermann Weber (1972) «Postface», em Ossip K. Flechtheim, <em>op. cit.,</em> pág. 328 e em <em>id.</em>, <em>La Trasformazione del Comunismo Tedesco. La Stalinizzazione della KPD nella Repubblica di Weimar</em>, Milão: Feltrinelli, 1979, pág. 294. A citação de Stalin acerca do «social-fascismo» encontra-se em Isaac Deutscher, <em>Staline. Biographie Politique</em>, Paris: Gallimard (Le Livre de Poche), 1964, pág. 488 e R. Palme Dutt, <em>Fascisme et Révolution. Étude des Tendances Politiques et Économiques des Derniers Stades de la Décomposition du Capitalisme</em>, Paris: Éditions Sociales Internationales, 1936, pág. 242. A passagem extraída do relatório apresentado por Dimitrov no 7º Congresso do Komintern pode ler-se em Georges Dimitrov, «L’Offensive du Fascisme et les Tâches de l’Internationale Communiste dans la Lutte pour l’Unité de la Classe Ouvrière contre le Fascisme. Rapport au VIIe Congrès Mondial de l’Internationale Communiste, presenté le 2 Août, 1935», em <em>Oeuvres Choisies</em>, vol. II, [Sofia]: Sofia-Presse, 1972, pág. 7. Clara Zetkin está citada em Nikos Poulantzas, «À Propos de l’Impact Populaire du Fascisme», em <em>Éléments pour une Analyse du Fascisme. Séminaire de Maria-A. Macciocchi</em>, Paris VIII &#8211; Vincennes, 1974-1975, 2 vols., Paris: Union Générale d’Éditions (10/18), 1976, vol. I, pág. 106. A passagem citada do último texto ditado por Trotsky encontra-se em Leon Trotsky, «Bonapartism, Fascism and War (His Last Article)», <em>Fourth International</em>, Outubro de 1940, reproduzido em George Breitman e Evelyn Reed (orgs.) <em>Writings of Leon Trotsky (1939-40)</em>, Nova Iorque: Merit, 1969, págs. 121-122 e encontra-se também antologiada em George Lavan Weissman (org.) <em>Leon Trotsky. Fascism. What it Is, How to Fight it. A Revised Compilation</em>, Nova Iorque: Pathfinder, 1970, pág. 29.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157166" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-300x228.jpg" alt="" width="100" height="76" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-768x584.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-552x420.jpg 552w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-640x487.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d-681x518.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-d.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" /><em>As ilustrrações reproduzem obras de Bridget Riley (1931-       )</em>.</p>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_8">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"></div>
</form>
</div>
<div class="section_highlight_wrapper">
<h3 id="c_um_manifesto_incomodo_3" class="sectionedit9"></h3>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/09/157142/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>4</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
