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	<title>Economia &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A revolução burguesa no Brasil: formação dependente, poder agrário e modernização sem ruptura</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 14:55:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando dizemos "burguês" e "burguesia", de que experiência histórica estamos falando? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Florestan Fernandes, antes de ser um &#8220;nome&#8221;, teve uma trajetória social raríssima no Brasil. Nascido em São Paulo, em 22 de julho de 1920, filho de mãe imigrante portuguesa e criado em condições de pobreza, trabalhou desde criança e passou a juventude entre subempregos e instabilidade material, retomando os estudos mais tarde por meio de cursos de madureza <strong>[1]</strong> até chegar à universidade. Em 1941 ingressou na antiga FFCL da USP e, a partir de 1945, inicia carreira docente como assistente de Fernando de Azevedo, um dos organizadores da sociologia universitária paulista. Sua formação combina sociologia, etnologia e teoria social com uma disciplina de pesquisa incomum, se tornando mestre na Escola Livre de Sociologia e Política com estudo sobre os Tupinambás e doutor na USP com <em>A função social da guerra na sociedade tupinambá</em> (1951), obra que se torna referência no debate antropológico brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí em diante, Florestan organiza um programa intelectual de largo alcance que em que pensa o Brasil como formação social dependente, fundada por modernização desigual, heranças escravistas e uma ordem de classes que se constrói sem cumprir o mito liberal da cidadania universal. Nos anos 1960, consolida-se com a tese de cátedra <em>A integração do negro na sociedade de classes</em> (1964), que investiga a passagem do trabalho escravo ao trabalho livre e expõe a &#8220;integração&#8221; subordinada e seletiva, marcada por barreiras estruturais e reprodução de hierarquias. A ditadura militar interrompe sua atuação na USP; sendo aposentado compulsoriamente em 1969, passa a lecionar fora do país, entre outras experiências acadêmicas no exterior. A sociologia para Florestan funcionava como crítica das ilusões nacionais e isso está presente nas suas principais obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1980, ele cruza de modo direto a fronteira entre universidade e política institucional ao eleger-se deputado federal por São Paulo em 1986, como constituinte pelo PT, e é reeleito em 1990. Sua atuação parlamentar se concentrou, entre outros temas, em educação pública e direitos sociais, carregando para o Congresso uma argumentação intelectual pouco comum na cena legislativa brasileira. Não se trata de um &#8220;intelectual que virou político&#8221; por vaidade tardia, mas de alguém que entendeu que a crítica do capitalismo dependente no Brasil também passa pela disputa do Estado, ainda que essa disputa seja permanentemente contraditória.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159991 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg" alt="" width="640" height="363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-300x170.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-768x436.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-740x420.jpg 740w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-640x363.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-681x386.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1021x580.jpg 1021w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316.jpg 1220w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Feita essa apresentação, entra o problema que Florestan coloca logo no início da obra. Quando dizemos &#8220;burguês&#8221; e &#8220;burguesia&#8221;, de que experiência histórica estamos falando? Na tradição marxista clássica, a burguesia designa a classe historicamente vinculada à expansão da produção mercantil, centralidade do lucro, consolidação da propriedade privada moderna e reorganização do Estado segundo os critérios da reprodução ampliada do capital. O &#8220;burguês&#8221; é o sujeito social tipificado por esse novo regime de compra da força de trabalho, organização da produção sob comando, internalização da disciplina de fábrica, expansão dos mercados, disputa pelo poder político, e substituição das antigas legitimidades (sangue, tradição, corporações fechadas) por um universalismo formal (lei, contrato, cidadania abstrata), que ao mesmo tempo emancipa e subordina.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>Manifesto do Partido Comunista</em> apresenta o movimento histórico da burguesia como força revolucionária no interior da Europa. Ela dissolve relações tradicionais, derruba vínculos pessoais, substitui o mundo &#8220;encantado&#8221; por cálculo e equivalência, e cria um mercado mundial. A burguesia &#8220;revoluciona&#8221; por necessidade competitiva, pois o capital não sobrevive sem expandir, reconfigurar, integrar e acelerar. Leo Huberman, quando reconstitui a passagem do feudalismo ao capitalismo, ajuda a visualizar a base material desse processo mostrando o crescimento das cidades, o comércio de longa distância, a transformação de camponeses em trabalhadores &#8220;livres&#8221; pela expropriação, o nascimento de uma nova disciplina do tempo e do corpo. Daí em diante, &#8220;burguesia&#8221; não se define apenas por riqueza, mas por posição no processo de produção e relação com o Estado e o mercado mundial. O que Florestan propõe é que o Brasil não pode ser lido como fotocópia atrasada da Europa e isso ele apresenta logo nos primeiros parágrafos, principalmente quando afirma que o vocabulário europeu, quando aplicado sem mediações, se torna etnocentrismo travestido de conceito e a primeira vítima dessa transferência automática é a identificação, muito comum, entre senhor de engenho e burguês.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o objetivo é compreender o problema que Florestan Fernandes formula nas páginas iniciais de <em>A Revolução Burguesa no Brasil</em>, é inevitável trazer o olhar para uma temporalidade mais longa da história brasileira. A questão colocada por ele (saber em que condições históricas uma ordem social burguesa poderia emergir numa sociedade formada sob o regime colonial) não pode ser enfrentada se o ponto de partida da análise estiver restrito ao século XIX ou aos eventos políticos da Independência. Para compreender o problema, devemos observar o processo histórico mais amplo no qual o território americano foi incorporado à expansão econômica europeia a partir do século XVI, momento em que se estabelecem os fundamentos estruturais da formação social brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-159992" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg" alt="" width="391" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg 191w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-651x1024.jpg 651w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-768x1208.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-977x1536.jpg 977w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-267x420.jpg 267w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-640x1007.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-681x1071.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201.jpg 1220w" sizes="(max-width: 391px) 100vw, 391px" /> Caio Prado Jr., em uma das interpretações mais influentes da historiografia brasileira, insiste que a colonização portuguesa deve ser compreendida dentro de um movimento maior de expansão do capitalismo comercial europeu. Em <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em>, ele formula uma hipótese que se tornaria clássica: a colonização brasileira teve como objetivo principal a organização de uma economia voltada para a produção de gêneros destinados ao mercado externo. Nas palavras do autor, a colonização portuguesa nos trópicos se orientava por um princípio bastante preciso de &#8220;produzir para o comércio europeu&#8221;. Esse &#8220;sentido da colonização&#8221; indica que a organização econômica da colônia não pode ser compreendida a partir de suas necessidades internas, mas a partir de sua inserção em um circuito mercantil que a ultrapassava.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde os primeiros séculos da colonização, a economia organizada no território colonial foi estruturada segundo um padrão produtivo relativamente estável tendo grandes unidades agrárias concentradoras de terra, mobilização de trabalho compulsório em larga escala e produção voltada para a exportação de gêneros tropicais. A plantation açucareira que se expande sobretudo no Nordeste ao longo dos séculos XVI e XVII sintetiza essa forma histórica de organização econômica. Grandes propriedades rurais, baseadas na monocultura e sustentadas pelo trabalho escravo africano, produziam açúcar destinado ao mercado europeu, integrando a colônia a um circuito mercantil internacional cuja direção se encontrava fora dela. Diversos historiadores procuraram demonstrar que essa organização econômica estava articulada ao funcionamento do sistema colonial mercantil. Ciro Flamarion Cardoso, ao estudar a dinâmica das economias coloniais americanas, enfatiza que o sistema colonial não pode ser compreendido apenas como uma estrutura administrativa de dominação política, mas como um mecanismo econômico voltado para a transferência sistemática de excedente das colônias para as metrópoles europeias. Nesse arranjo histórico, a colônia era espaço de produção de mercadorias tropicais, enquanto a metrópole e os centros mercantis europeus mantinham o controle sobre os mecanismos de circulação, financiamento e comercialização dessas mercadorias.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa organização econômica produziu no interior da colônia uma elite agrária poderosa, formada pelos grandes proprietários rurais que dominavam a produção agrícola e o controle da mão de obra escravizada <strong>[2]</strong>. O senhor de engenho tornou-se, nesse contexto, uma figura central da sociedade colonial. Sua autoridade não se limitava ao domínio econômico sobre a produção agrícola prolongando-se até a organização da vida social local, às relações de dependência que estruturavam o cotidiano da colônia e muitas vezes ao exercício de funções que, em outras formações sociais, seriam prerrogativas de instituições públicas. A casa-grande, como observou Gilberto Freyre, era centro de poder social, político e simbólico. Entretanto, a posição ocupada por esses grupos dominantes dentro da economia colonial apresentava limites. Ainda que controlassem a produção agrícola e exercessem poder social considerável no interior da colônia, os grandes proprietários rurais não dominavam os mecanismos da circulação mercantil. O comércio de exportação, o transporte marítimo, o crédito internacional e boa parte dos processos de comercialização permaneciam sob controle de agentes localizados fora da colônia. A riqueza produzida no espaço colonial era parcialmente apropriada por intermediários mercantis e financeiros vinculados ao sistema econômico europeu.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação histórica cria uma configuração peculiar. A sociedade colonial brasileira produziu elites agrárias extremamente poderosas no plano local, mas essas elites atuavam dentro de um sistema econômico cuja dinâmica geral não era por elas controlada. O poder do senhor de engenho era, ao mesmo tempo, imenso e limitado, imenso no interior da ordem social escravista que ele comandava diretamente, limitado quando se observava sua posição no circuito da economia mercantil internacional. Ao longo do século XVIII, algumas transformações começam a alterar parcialmente esse quadro. A descoberta de jazidas auríferas na região das Minas Gerais introduz um novo dinamismo econômico no interior da colônia. A mineração provoca o crescimento de núcleos urbanos, estimula o desenvolvimento de atividades comerciais e cria novas formas de circulação monetária. A sociedade colonial, que até então se organizava principalmente em torno da grande lavoura de exportação, passa a experimentar interações econômicas e social mais complexas. Ainda assim, essas transformações não chegam a alterar o padrão estrutural que havia se consolidado ao longo da colonização. A escravidão continua sendo a principal mobilização da força de trabalho, a grande propriedade rural permanece como eixo organizador da produção e a economia colonial segue profundamente vinculada ao comércio externo. Mesmo as regiões mineradoras, apesar de sua dinâmica interna mais intensa, continuam integradas ao sistema colonial mercantil que estrutura a relação entre metrópole e colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se chega ao início do século XIX, o sistema colonial português enfrentava tensões crescentes. As guerras napoleônicas, a crise do antigo regime europeu e a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 introduziram alterações na organização política e econômica do império português. A abertura dos portos brasileiros às nações amigas, decretada no mesmo ano, representou uma ruptura significativa com o antigo sistema de exclusividade comercial que vinculava a colônia à metrópole. Nesse contexto mais amplo ocorre o processo que levaria à independência política do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">O rompimento formal com Portugal, proclamado em 1822, deve ser compreendido como um rearranjo político conduzido pelas elites que ocupavam posições dominantes na sociedade colonial. O novo Estado nacional surge preservando grande parte das estruturas econômicas e sociais que haviam se consolidado durante a colonização. A Independência preserva a grande propriedade agrária, conserva a escravidão como fundamento da economia e entrega à monarquia a organização do poder político. Décio Saes, ao analisar a formação do Estado burguês no Brasil, observa que a transição política ocorrida no início do século XIX não correspondeu àquilo que a tradição marxista europeia identificou como revolução burguesa clássica. Na Europa, processos revolucionários frequentemente envolveram confrontos abertos entre classes emergentes e estruturas aristocráticas do antigo regime. No caso brasileiro, a formação do Estado nacional ocorreu através de um processo no qual as elites agrárias escravistas desempenharam papel central na reorganização do poder político.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse percurso histórico fornece os elementos necessários para compreender a reflexão de Florestan Fernandes. Ao perguntar sobre as &#8220;origens da revolução burguesa no Brasil&#8221;, ele não está procurando identificar um momento específico em que uma burguesia teria surgido de repente no interior da sociedade brasileira. O problema que orienta sua investigação é compreender como uma formação social construída durante séculos sob o regime colonial escravista poderia, em determinado momento de sua trajetória histórica, comportar as condições necessárias para o desenvolvimento de uma ordem social capitalista. Para isso, é preciso considerar a longa duração dos processos históricos que moldaram a sociedade brasileira. As estruturas econômicas e sociais estabelecidas durante a colonização não desapareceram abruptamente com a independência política. Pelo contrário. Elas continuaram funcionando durante grande parte do século XIX, influenciando o desenvolvimento do capitalismo no país. A análise de Florestan procura justamente captar essa complexidade histórica, na qual modernização econômica, permanência de estruturas coloniais e reorganização das classes dominantes se entrelaçam de maneira intensa.</p>
<p style="text-align: justify;">A Independência modificou a posição política das classes dominantes estabelecidas no território brasileiro. Até 1822, esses grupos exerciam seu poder dentro de uma ordem colonial cujo centro decisório estava vinculado à Coroa portuguesa. Com a constituição do Estado nacional, as elites agrárias e comerciais ocuparam diretamente os principais espaços de comando político, administrativo e jurídico, adquirindo maior capacidade para organizar instituições, regular conflitos internos e defender seus interesses diante do mercado internacional. Essa mudança não eliminou a escravidão, a concentração fundiária ou a dependência econômica, mas alterou a escala e os instrumentos de atuação dos grupos dominantes. A partir daí, a manutenção da ordem social herdada da colônia passou a depender de um aparato estatal sediado no próprio país, controlado por frações locais interessadas em combinar autonomia política, expansão mercantil e preservação das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignright wp-image-159993" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg" alt="" width="450" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-1024x808.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-768x606.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-532x420.jpg 532w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-640x505.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-681x538.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344.jpg 1220w" sizes="(max-width: 450px) 100vw, 450px" />Durante todo o Império (1822-1889), a economia brasileira permaneceu ancorada no trabalho escravo, especialmente nas grandes lavouras de exportação, como o café, o açúcar e o algodão. Isso significa que o novo Estado nacional nasceu e se consolidou preservando um dos pilares centrais da ordem colonial. A escravidão só foi formalmente abolida em 1888, pela Lei Áurea, um ano antes da proclamação da República. A historiografia tem insistido que esse longo intervalo revela o caráter conservador da independência brasileira que na verdade foi uma ruptura política com Portugal conduzida pelas elites agrárias, cujo interesse principal era preservar a estrutura econômica e social existente. Assim, a transição para o trabalho livre ocorreu tardiamente e sem reformas estruturais capazes de integrar a população negra recém-liberta à nova ordem social. A abolição eliminou a instituição jurídica da escravidão, mas não desmantelou os mecanismos históricos de exploração e dominação que haviam sido construídos ao longo de mais de três séculos de regime escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do senhor de engenho tem lugar central nas interpretações clássicas da formação social brasileira. Não por acaso, dois dos mais importantes intérpretes do Brasil (Gilberto Freyre e Florestan Fernandes) dedicaram atenção especial a esse personagem histórico. No entanto, cada um o faz a partir de perspectivas analíticas distintas. Enquanto Freyre descreve o engenho como núcleo civilizatório e cultural da sociedade colonial, Florestan procura compreender a posição desse agente no sistema econômico mais amplo que organizava a colonização. O contraste entre essas duas abordagens é extremamente fecundo para compreender a natureza da dominação colonial no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Casa-Grande &amp; Senzala</em>, Gilberto Freyre apresenta o engenho como o centro organizador da vida social na colônia. A casa-grande não era apenas a residência do senhor, mas o eixo em torno do qual se estruturava um sistema social complexo onde se articulava a produção econômica, a organização familiar, a vida religiosa e o poder político local. O engenho funcionava simultaneamente como unidade produtiva, instituição doméstica e centro de autoridade patriarcal. A escravidão era o fundamento material dessa organização, mas sua expressão social era mediada por relações pessoais de mando e dependência. O patriarca rural exercia autoridade sobre a família, escravizados e trabalhadores livres que gravitavam em torno do engenho. Nesse universo social, a casa-grande tinha um papel quase institucional, sendo ao mesmo tempo tribunal, igreja, centro administrativo e símbolo da hierarquia colonial. Freyre enfatiza sobretudo a dimensão cultural e social dessa estrutura. A sociedade colonial é vista como um sistema marcado pelo patriarcalismo, centralidade da família extensa e proximidade cotidiana entre senhores e escravizados enquanto a vida doméstica, a religiosidade, os costumes alimentares, a organização da casa e do trabalho são os elementos constitutivos de uma formação social singular. A casa-grande seria o espaço em que se consolidou uma sociabilidade específica brasileira, marcada por relações pessoais intensas, hierarquias rígidas e uma ordem social profundamente desigual, mas relativamente coesa do ponto de vista cultural. A análise de Florestan Fernandes, entretanto, estuda o problema por outro plano.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto Freyre enfatiza a centralidade social e cultural da casa-grande na organização da vida colonial, Florestan evidencia os limites do poder econômico do senhor de engenho. O patriarca rural descrito por Freyre tinha autoridade local, mas essa autoridade coexistia com uma dependência em relação ao circuito mercantil internacional que estruturava a economia colonial. Em outras palavras, o poder social do senhor de engenho não se traduzia necessariamente em autonomia econômica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159989" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg" alt="" width="540" height="418" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-300x232.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-768x595.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-542x420.jpg 542w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-640x496.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-681x528.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312.jpg 1035w" sizes="auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa diferença mostra também dois modos distintos de interpretar a formação social brasileira. Freyre trabalha sobretudo com uma perspectiva histórico-cultural, interessada em compreender os padrões de sociabilidade, os costumes e a organização da vida cotidiana na sociedade colonial. Seu objetivo é explicar como se formou uma civilização específica nos trópicos, marcada pela convivência entre portugueses, africanos e indígenas sob o regime da grande propriedade escravista. Florestan, por sua vez, mobiliza uma abordagem sociológica orientada pela análise das classes sociais e das estruturas econômicas. Para ele, compreender a formação da sociedade brasileira é necessário situar a colônia dentro do sistema mundial de mercantilização e analisar as relações de dependência que daí derivam. Essa tensão entre poder interno e dependência externa é um dos elementos fundamentais para compreender o processo histórico que Florestan denomina de revolução burguesa no Brasil. A sociedade colonial produziu elites agrárias extremamente poderosas, mas não gerou, naquele momento, uma burguesia capaz de organizar autonomamente o desenvolvimento capitalista. A modernização econômica posterior teria de surgir a partir da transformação dessas estruturas e da reorganização das classes dominantes dentro de novas condições históricas.</p>
<p style="text-align: justify;">A inserção da economia colonial no circuito mercantil internacional acabaria por introduzir tensões nesse universo social relativamente estabilizado. Ao longo do século XIX, o crescimento da produção cafeeira, a intensificação das trocas comerciais, o desenvolvimento de atividades financeiras e a expansão das cidades começaram a produzir novos tipos de agentes econômicos e novas expectativas de mobilidade social. Aos poucos, certas práticas ligadas ao cálculo econômico, à valorização do investimento e à busca de oportunidades de enriquecimento ganharam legitimidade em setores da sociedade que anteriormente se orientavam por códigos tradicionais de honra e autoridade. Florestan identifica a difusão de um comportamento que denomina &#8220;espírito burguês&#8221;, expressão que procura captar uma mudança nas disposições práticas dos indivíduos diante da atividade econômica e da organização da vida social.</p>
<p style="text-align: justify;">A difusão dessas práticas ocorre de maneira desigual entre os diferentes setores da sociedade. A estrutura social brasileira do século XIX apresenta uma composição profundamente heterogênea, na qual convivem relações escravistas, trabalho livre emergentes, atividades comerciais em expansão e experiências iniciais de industrialização. A sociedade colonial tardia e o Império brasileiro são um espaço no qual tradições senhoriais persistem ao lado de práticas econômicas que apontam para um tipo distinto de racionalidade social. Nesse contexto, a emergência do &#8220;espírito burguês&#8221; não significa a substituição imediata da dominação tradicional, mas a introdução de novas orientações de ação que passam a coexistir com as estruturas herdadas do passado colonial.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo entre os grandes proprietários rurais, a situação se revela mais complexa do que poderia sugerir uma leitura simplificada da história econômica brasileira. Parte das elites agrárias permanece ligada ao universo simbólico do antigo regime colonial, reproduzindo padrões de comportamento associados ao prestígio aristocrático e à autoridade patriarcal. Outros setores, contudo, incorporaram práticas econômicas mais próximas da lógica capitalista, investindo em infraestrutura, ampliando circuitos de comercialização e explorando novas oportunidades de acumulação abertas pela expansão do mercado mundial. O fazendeiro de café do século XIX frequentemente está situada entre dois mundos históricos distintos: herdeiro da tradição senhorial escravista e, ao mesmo tempo, participante de um processo mais amplo de reorganização econômica que gradualmente altera o funcionamento da sociedade brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação que Florestan procura apreender não se reduz, portanto, à simples formação de uma burguesia nos moldes clássicos da experiência europeia. O que se observa é uma reconfiguração progressiva das práticas sociais e das estruturas econômicas que possibilita a expansão das relações capitalistas sem que as formas tradicionais de dominação desapareçam por completo. O capitalismo brasileiro se desenvolve por meio de uma reorganização das elites existentes, que adaptam suas estratégias de poder às novas condições históricas abertas pela expansão do mercado e consolidação do Estado nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa característica peculiar da formação brasileira foi posteriormente explorada por Francisco de Oliveira ao propor a conhecida metáfora do &#8220;ornitorrinco&#8221;, imagem utilizada para descrever uma sociedade na qual diferentes temporalidades históricas coexistem de maneira aparentemente incongruente. Assim como o animal que combina traços de espécies distintas, a sociedade brasileira apresenta uma articulação singular entre processos de modernização econômica e a persistência de estruturas sociais que remontam à ordem colonial.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159994" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg" alt="" width="361" height="659" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg 561w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-164x300.jpg 164w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-768x1402.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-841x1536.jpg 841w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-230x420.jpg 230w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-640x1168.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-681x1243.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345.jpg 889w" sizes="auto, (max-width: 361px) 100vw, 361px" />Logo no início do segundo capítulo, Florestan introduz uma formulação que, à primeira vista, parece estranha ao afirmar que &#8220;a Independência, não obstante a forma em que se desenrolou, foi a primeira grande revolução social que se operou no Brasil&#8221;. A frase exige de nós atenção porque o autor reconhece que o processo de separação de Portugal ocorreu sob direção das elites coloniais e preservou grande parte das estruturas econômicas e sociais herdadas do período anterior, não se tratando, portanto, de uma revolução política comparável às grandes revoluções burguesas europeias. Ainda assim, Florestan insiste na palavra &#8220;revolução&#8221; porque a questão central para ele é uma transformação de outra ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A ruptura com a metrópole alterou profundamente o quadro institucional dentro do qual a sociedade brasileira se organizava e a partir daquele momento, as classes dominantes instaladas na antiga colônia passaram a exercer diretamente funções de direção política que antes pertenciam ao aparato imperial português, abrindo-se, assim, um campo novo de disputas em torno da organização do Estado, da economia e da estrutura social. A independência não dissolveu o latifúndio, nem a escravidão, tampouco a dependência externa; mudou o eixo de comando dessas estruturas o que viabilizou a inauguração de uma nova etapa histórica em que as elites locais organizam um Estado nacional que, progressivamente, se tornaria o espaço político da transformação burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de acompanhar o raciocínio de Florestan Fernandes sobre a Independência, convém deter-se brevemente no significado da palavra &#8220;revolução&#8221;, pois ela aparece em sua formulação carregada de um peso analítico que se perde no uso corrente do termo. No vocabulário das ciências sociais, e especialmente na tradição marxista, &#8220;revolução&#8221; não designa apenas um episódio político dramático, marcado por insurreições, barricadas ou derrubadas súbitas de governos. O conceito remete a transformações mais profundas na estrutura da sociedade, isto é, na maneira como a produção está organizada, como o poder político se distribui e como as classes sociais se constituem historicamente sendo mais do que um evento pontual, ou seja, a revolução refere-se a processos históricos de reconfiguração das relações sociais fundamentais, sobretudo no que diz respeito ao modo de produção e, consequentemente, às relações de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distinção está clara em Marx e Engels. No <em>Manifesto do Partido Comunista</em>, ao descreverem o papel histórico da burguesia, eles observam que a ascensão dessa classe implicou uma reorganização completa da produção e das relações sociais herdadas do mundo feudal. A burguesia, escrevem eles, &#8220;desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário&#8221;, não porque tenha protagonizado apenas revoltas políticas, mas porque introduziu uma dinâmica econômica e social capaz de dissolver estruturas seculares e reorganizar a sociedade em torno da produção capitalista. A revolução burguesa designa o processo histórico pelo qual as relações de produção capitalistas se tornam dominantes e reorganizam as instituições políticas, jurídicas e culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura marxista posterior ampliou essa compreensão. Autores como Lênin, por exemplo, insistiram que revoluções podem assumir ritmos históricos bastante distintos. Em algumas circunstâncias, a transformação das estruturas sociais ocorre através de processos abruptos de ruptura política; em outras, ela se desenvolve de maneira mais lenta, mediada por compromissos entre diferentes frações das classes dominantes e por instituições aparentemente moderadas. O elemento decisivo, portanto, não reside na intensidade imediata do conflito político, mas nas mudanças estruturais que se produzem no interior da sociedade. Essa perspectiva possibilita compreender por que Florestan Fernandes utiliza a categoria de revolução ao se referir à Independência do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a Independência, o espaço político no qual as classes dominantes atuavam sofreu uma transformação. A antiga colônia deixou de integrar diretamente o sistema administrativo e político do império português, e as elites instaladas no território organizaram um Estado nacional próprio. Essa mudança institucional abriu novas possibilidades históricas para a reorganização da economia, para a redefinição das relações entre as classes sociais e para a própria formação de uma burguesia nacional. A revolução de que fala Florestan não corresponde, portanto, a uma explosão política comparável à Revolução Francesa ou às revoluções europeias do século XIX. Ela se refere a uma transformação que muda o eixo de comando da sociedade brasileira e inaugura um novo horizonte histórico. Esse processo, portanto, foi longo e paulatino e, sobretudo, contraditório.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista conceitual, portanto, &#8220;revolução&#8221; se refere a uma categoria analítica destinada a captar processos de reorganização profunda das estruturas sociais. Ao empregar o termo dessa maneira, Florestan insere a experiência brasileira dentro de um problema clássico da teoria social que é compreender como determinadas formações históricas transitam de um tipo de organização social para outro. No caso brasileiro, esse movimento se desenvolve de maneira complexa, pois a emergência de relações capitalistas ocorre em uma sociedade que carrega, por longo tempo, as marcas estruturais do regime colonial e escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa perspectiva, a Independência pressupunha, lado a lado, um elemento puramente revolucionário e outro elemento especificamente conservador. O elemento revolucionário aparecia nos propósitos de despojar a ordem social, herdada da sociedade colonial, dos caracteres heteronômicos aos quais fora moldada, requisito para que ela adquirisse a elasticidade e a autonomia exigidas por uma sociedade nacional. O elemento conservador evidenciava-se nos propósitos de preservar e fortalecer, a todo custo, uma ordem social que não possuía condições materiais e morais suficientes para engendrar o padrão de autonomia necessário à construção e ao florescimento de uma nação. A coexistência de elementos tão antagônicos provinha de uma realidade inexorável, percebida e apontada mesmo pelos homens que conduziam os acontecimentos (como José Bonifácio, por exemplo). (FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil)</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159990" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg" alt="" width="440" height="310" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-300x211.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-768x540.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-597x420.jpg 597w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-640x450.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-681x479.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314.jpg 1160w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" />A presença do liberalismo no Brasil do início do século XIX deve ser compreendida dentro das condições em que se realizou a transição da ordem colonial para a formação do Estado nacional. Florestan chama atenção para o fato de que o liberalismo surge como um repertório político e ideológico apropriado pelas elites coloniais no momento em que se tornava necessário reorganizar o poder após a ruptura com a metrópole portuguesa. A circulação das ideias liberais no Brasil intensifica-se no final do século XVIII e início do XIX, acompanhando as transformações que atravessavam o mundo atlântico. As revoluções americana e francesa, a crise do antigo regime europeu e a expansão do comércio internacional difundiram no espaço luso-brasileiro conceitos como liberdade civil, representação política, direitos individuais e soberania nacional. No entanto, quando essas ideias são apropriadas pelas elites coloniais, elas passam por um processo de adaptação às condições concretas da sociedade brasileira. O liberalismo não chega como programa de transformação radical da ordem social, mas como instrumento político capaz de legitimar a reorganização do poder no interior de uma sociedade ainda profundamente marcada pela escravidão e a grande propriedade rural.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo desempenha funções ambíguas no processo de formação do Estado nacional. De um lado, ele oferece uma linguagem política capaz de justificar a ruptura com a ordem colonial e de fundamentar a construção de instituições próprias de um Estado independente. A defesa da soberania nacional, da autonomia política e da reorganização administrativa do país mobiliza princípios que pertencem ao repertório liberal. Assim, o liberalismo participa da legitimação ideológica da independência e da constituição de uma ordem política nacional. Ao mesmo tempo, porém, esse liberalismo permanece condicionado pelos interesses das classes dominantes da sociedade escravista. A defesa das liberdades políticas não se traduz em questionamento da estrutura agrária nem do regime de trabalho que sustentava a economia de exportação. Os mesmos grupos que se apresentam como defensores da autonomia nacional e das instituições liberais são aqueles que procuram preservar, tanto quanto possível, as bases sociais da ordem colonial. A igualdade jurídica proclamada nos discursos liberais convive com uma sociedade na qual milhões de pessoas continuam submetidas ao regime da escravidão.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação revela o caráter instrumental que o liberalismo tem no contexto brasileiro, funcionando simultaneamente como linguagem de modernização política e mecanismo de acomodação das estruturas sociais existentes. A adoção de instituições representativas, constituições e parlamentos não implica necessariamente a democratização efetiva da sociedade, mas antes a reorganização do poder dentro de um quadro institucional mais compatível com as exigências do novo Estado nacional. Florestan identifica nesse processo duas orientações distintas no interior das elites. Uma delas busca adaptar o liberalismo às condições da sociedade colonial, utilizando seus princípios para legitimar a autonomia política sem alterar em profundidade as relações sociais existentes. A outra tende a ver no liberalismo um instrumento para ampliar a autonomia nacional e fortalecer o desenvolvimento interno da sociedade brasileira. A disputa entre essas duas orientações acompanha todo o processo de formação do Estado independente, resultando em um liberalismo marcado pela ambiguidade; participa da construção institucional da nação, ao mesmo tempo em que preserva os fundamentos sociais herdados da colonização. A linguagem da liberdade e da cidadania se difunde no plano político, mas permanece limitada pelas estruturas econômicas e sociais que continuam organizadas em torno do latifúndio e da escravidão. Nesse sentido, o liberalismo brasileiro do século XIX expressa uma tentativa de modernização política conduzida sob condições sociais que restringiam o alcance transformador dessas ideias.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a análise chega até aqui, o que se torna mais incômodo não é apenas a inadequação das categorias importadas, mas o fato de que a dominação que se consolida no Brasil prescinde de um sujeito histórico equivalente à burguesia clássica. A ordem capitalista se afirma sem ter produzido plenamente uma classe que concentre, de modo orgânico, direção econômica, projeto político e horizonte civilizatório próprios. O que se estabiliza é um arranjo em que frações dominantes atuam articuladas a centros externos de poder, enquanto internamente administram uma sociedade com desigualdades extremas e formas persistentes de expropriação.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tira o problema para além da cronologia ou da tipologia das revoluções e obriga a encarar que tipo de capitalismo é esse que se organiza sem universalizar suas promessas e que, ainda assim, consegue se reproduzir com notável continuidade? A partir daí, a interpretação de Florestan excede os limites da reconstrução histórica e mostra a lógica de um capitalismo que organiza sua expansão incorporando antigas hierarquias sociais, em vez de suprimi-las.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Os chamados “cursos de madureza” eram uma modalidade de educação destinada a jovens e adultos que não haviam concluído o ensino regular na idade considerada adequada. Muito difundidos no Brasil entre as décadas de 1930 e 1960, funcionavam como uma forma de certificação supletiva, o estudante preparava-se de maneira autodidata ou em cursos preparatórios e realizava exames de madureza aplicados pelo sistema educacional, que avaliavam conhecimentos equivalentes ao ensino secundário. A aprovação nesses exames permitia obter o diploma necessário para o ingresso na universidade. Foi por esse caminho que Florestan Fernandes, após uma juventude marcada pelo trabalho precoce e interrupção dos estudos formais, conseguiu regularizar sua formação escolar e prestar o vestibular para a Universidade de São Paulo no início da década de 1940. Esse percurso biográfico é frequentemente destacado na literatura sobre o autor, pois evidencia a singularidade de sua trajetória social no interior da intelectualidade brasileira do período.<br />
<strong>[2]</strong> Uma representação cinematográfica expressiva das relações de poder no universo da grande propriedade cafeeira pode ser encontrada no filme Terra É Sempre Terra (Tom Payne, 1951), produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Embora seja uma obra de ficção, o filme oferece um retrato das hierarquias sociais, dos conflitos fundiários e das formas de autoridade presentes no meio rural brasileiro do pós-guerra.</p>
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		<title>A Gestão do Conflito: ONGs e democracia empresarial no Brasil contemporâneo (1990-2024) Parte II</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Sep 2026 17:20:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[As ONGs operam como o veículo institucional por excelência dessa dinâmica: organizações cuja função histórica não se estruturou na contestação da ordem, mas na sua legitimação e salvaguarda. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. O Brasil em números: 672 mil organizações e o que elas revelam</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>4.1 Crescimento histórico e seus marcos</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Os dados do Mapa das Organizações da Sociedade Civil permitem reconstituir com precisão a trajetória quantitativa do setor. O universo empírico que sustenta as teses aqui desenvolvidas compreende 1.097.694 registros de organizações da sociedade civil, ativas e inativas, extraídos em março de 2026. A magnitude dessa base de dados bruta permite uma radiografia exaustiva da estrutura e da evolução histórica do terceiro setor brasileiro, oferecendo uma ancoragem material imune a distorções amostrais.</p>
<p style="text-align: justify;">O número de OSCs ativas em janeiro de 2026 era de 672.215, a que se somam 273.576 inaptas, 145.972 nulas ou baixadas e 5.931 suspensas. O total histórico de organizações já criadas supera 1,06 milhão. O pico de fundações ocorreu em 2009, com 40.265 novas OSCs — ano que coincide com o auge do ciclo de expansão dos governos Lula e com o boom do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) <strong>[1]</strong> e de outras políticas de financiamento do terceiro setor.</p>
<p style="text-align: justify;">A curva do Gráfico 1 conta uma história política com clareza inequívoca: há uma inflexão acentuada a partir de 1995, ano do Plano Diretor de Reforma do Estado, quando as fundações anuais saltam de patamares de 10-14 mil para 20-35 mil. Essa inflexão precede a aprovação da Lei das Organizações Sociais (1998) e da Lei OSCIP (1999), que consolidaram o marco legal da terceirização social. A reforma Bresser não apenas reformou o Estado — criou um mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>4.2 Distribuição regional: desigualdade e conflito</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição geográfica das 672.215 OSCs ativas reflete, em linhas gerais, a distribuição da população e da riqueza — mas com desvios significativos que merecem atenção. A região Sudeste concentra 287.122 organizações (42,7% do total), seguida pelo Nordeste com 150.431 (22,4%), Sul com 128.518 (19,1%), Centro-Oeste com 59.602 (8,9%) e Norte com 46.342 (6,9%).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159956 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2.jpg" alt="" width="2203" height="1069" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2.jpg 2203w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-300x146.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-1024x497.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-768x373.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-1536x745.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-2048x994.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-866x420.jpg 866w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-640x311.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-681x330.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2203px) 100vw, 2203px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Gráfico 2 — Distribuição regional das OSCs ativas no Brasil (jan. 2026). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). N = 672.215. Elaboração própria.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição espacial dos registros expõe a magnitude dessa assimetria: o estado de São Paulo concentra 142.522 OSCs ativas, seguido por Minas Gerais (73.874), Rio de Janeiro (55.175), Rio Grande do Sul (49.065) e Bahia (45.828). Esta severa concentração no eixo Sudeste-Sul reproduz, na órbita do terceiro setor, a mesma hierarquia regional que estrutura o conjunto da economia brasileira. O dado desmistifica a narrativa oficial das ONGs como vetores de redistribuição e equidade, revelando que a malha da filantropia msse adensa justamente onde o capital está mais concentrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais revelador ainda é o ritmo diferenciado de crescimento recente. Segundo dados do Ipea, entre 2021 e 2023 as regiões Centro-Oeste e Norte registraram os maiores crescimentos relativos — 11% e 9,9%, respectivamente. Essas são justamente as regiões onde os conflitos fundiários, a pressão sobre territórios indígenas e quilombolas e os impactos do agronegócio sobre populações tradicionais são mais intensos. O crescimento de ONGs nessas regiões pode ser lido, a partir de nossa perspectiva, como um indicador da intensificação dos conflitos sociais — e da necessidade, sentida pelo poder, de criar mecanismos de sua administração.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>4.3 Áreas de atuação: religião, direitos e o que fica de fora</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A análise das áreas de atuação é o dado mais politicamente denso do conjunto. Como mostra a Tabela 2 e o Gráfico 3 a seguir, as duas maiores categorias são Religião (235.916 OSCs, 35,1% do total ativo) e Desenvolvimento e defesa de direitos (204.466 OSCs, 30,4%). Juntas, essas duas categorias respondem por quase dois terços de todas as OSCs ativas no Brasil.</p>
<table width="643" cellspacing="0" cellpadding="2">
<tbody>
<tr>
<td colspan="4" width="639"><strong>Tabela 2 — Áreas de atuação das OSCs ativas no Brasil (2026)</strong></td>
</tr>
<tr>
<td width="255"><strong>Área de atuação</strong></td>
<td width="124"><strong>N.º de OSCs</strong></td>
<td width="138"><strong>% do total ativo</strong></td>
<td width="110"><strong>Ranking</strong></td>
</tr>
<tr>
<td width="255"><strong>Religião</strong></td>
<td width="124"><strong>235.916</strong></td>
<td width="138"><strong>35,1%</strong></td>
<td width="110">1º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255"><strong>Desenv. e defesa de direitos</strong></td>
<td width="124"><strong>204.466</strong></td>
<td width="138"><strong>30,4%</strong></td>
<td width="110">2º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Outras ativ. associativas</td>
<td width="124">92.069</td>
<td width="138">13,7%</td>
<td width="110">3º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Cultura e recreação</td>
<td width="124">69.853</td>
<td width="138">10,4%</td>
<td width="110">4º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Assistência social</td>
<td width="124">42.166</td>
<td width="138">6,3%</td>
<td width="110">5º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Educação e pesquisa</td>
<td width="124">29.414</td>
<td width="138">4,4%</td>
<td width="110">6º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Assoc. patronais e profissionais</td>
<td width="124">28.375</td>
<td width="138">4,2%</td>
<td width="110">7º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Saúde</td>
<td width="124">18.412</td>
<td width="138">2,7%</td>
<td width="110">8º</td>
</tr>
<tr>
<td colspan="4" width="639"><em>Nota: uma OSC pode ser classificada em mais de uma área de atuação simultaneamente, portanto os percentuais não somam 100%. Base: 672.215 OSCs ativas. Fonte: Mapa das OSCs / Ipea (2026). Elaboração própria.</em></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;"><em>Tabela 2 — Áreas de atuação das OSCs ativas (2026). Uma OSC pode atuar em mais de uma área. Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159963 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3.jpg" alt="" width="2325" height="1114" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3.jpg 2325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-300x144.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-1024x491.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-768x368.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-1536x736.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-2048x981.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-877x420.jpg 877w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-640x307.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-681x326.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2325px) 100vw, 2325px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Gráfico 3 — Áreas de atuação das OSCs ativas no Brasil (jan. 2026). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A categoria &#8216;Desenvolvimento e defesa de direitos&#8217; é particularmente ambígua — e essa ambiguidade é constitutiva de sua eficácia ideológica. Ela abarca desde organizações focadas na mediação e na pauta de demandas básicas de minorias até entidades diretamente integradas aos conselhos de governança corporativa, operando ambas sob a mesma gramática de direitos que capta financiamento sem alterar as relações de poder que produzem a marginalização. Não é possível, a partir dos dados agregados disponíveis, distinguir quantitativamente entre esses dois perfis — e essa impossibilidade é, ela mesma, um problema político: a opacidade da categoria &#8216;sociedade civil&#8217; atua como uma blindagem homogênea, dissolvendo as frentes de conflito aberto em um emaranhado burocrático e estatístico que atende à própria reprodução do aparato gerencial.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença maciça de organizações religiosas — especialmente evangélicas, cujo crescimento acelerou nas últimas duas décadas — acrescenta outra dimensão ao quadro. No contexto brasileiro, as igrejas evangélicas construíram um verdadeiro complexo organizacional que combina assistência social, educação, saúde, comunicação de massa e atuação política partidária. Sua presença no terceiro setor não é a de aparatos de mobilização ideológica com capacidade de interlocução direta com o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Notável também é o que fica em posição secundária: Saúde (2,7%) e Educação e pesquisa (4,4%) — justamente as duas áreas onde a privatização dos serviços públicos é mais intensa e onde a substituição do Estado clássico por ONGs tem consequências mais diretas sobre a vida da população trabalhadora. O dado sugere que a maior parte das organizações formalmente registradas nessas categorias são, na prática, entidades prestadoras de serviços já integradas ao sistema de contratação pública — invisíveis como &#8220;ONGs&#8221; no imaginário social, mas centrais na arquitetura real do Estado gerencial.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>4.4 Fundações corporativas e organizações internacionais: o capital que financia a &#8220;sociedade civil&#8221;</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A análise do Mapa das OSCs permite identificar um estrato específico que raramente aparece nos debates sobre &#8220;sociedade civil&#8221;: as fundações e institutos mantidos diretamente por grandes corporações nacionais e transnacionais. Com base no cruzamento dos registros cadastrais ativos, foi possível mapear 20 grupos corporativos nacionais com 141 unidades registradas e 20 organizações de origem internacional com 235 unidades ativas no país. São números modestos em relação ao universo total de 672 mil OSCs ativas — mas seu peso político e financeiro é desproporcional ao seu número, como os dados de financiamento demonstram.</p>
<p style="text-align: justify;">O fluxo de financiamento originado em fundações corporativas transnacionais e organismos de cooperação (como a OCDE) canaliza a agenda do ecologismo para a lógica do valor e dos novos nichos de acumulação. O ideário ESG e a transição ecológica administrada convertem a pauta ambiental em um dinâmico mercado de licenças operacionais, consultorias e créditos de carbono. Trata-se de uma governança que permite às grandes corporações chancelar sua imagem pública e gerir riscos reputacionais enquanto impõe à massa trabalhadora uma rotina de contenção e custos crescentes de reprodução. Oculta-se, assim, o nexo causal fundamental: a degradação ambiental não deriva do consumo de sobrevivência da classe que trabalha.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre as corporações nacionais, a Fundação Bradesco lidera com 39 filiais distribuídas por todos os estados da federação — fundada em 1970, em plena ditadura militar, dado que não é trivial: a expansão das fundações corporativas no Brasil historicamente coincide com períodos de repressão da organização autônoma dos trabalhadores. A Fundação Vale opera em 8 estados — precisamente aqueles onde a empresa detém concessões de mineração e enfrenta conflitos socioambientais. A Fundação CSN existe desde 1966, cobrindo os municípios do entorno de suas usinas siderúrgicas em Minas Gerais e Rio de Janeiro. O padrão é sistemático: a presença territorial das fundações corporativas acompanha, com notável precisão, a geografia operacional das próprias empresas. Trata-se da montagem de um aparato de controle e pacificação territorial, realizado sob a linguagem asséptica da &#8220;responsabilidade social corporativa&#8221; para neutralizar os atritos gerados pela exploração econômica local.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesquisa de Liliana Rolfsen Petrilli Segnini — realizada ao longo de quatro anos no interior da sede do Bradesco e publicada como <em>A Liturgia do Poder: Trabalho e Disciplina</em> (EDUC, 1988), originalmente tese de mestrado defendida na PUC-SP em 1986 sob orientação de Maurício Tragtenberg — documenta com precisão etnográfica os mecanismos de poder disciplinar que estruturam a maior organização bancária privada do país. O que Segnini encontrou no cotidiano do Bradesco vai muito além da gestão de recursos humanos: uma arquitetura de controle que combina seleção de pessoal por critérios de homogeneização social e moral, treinamento orientado à submissão hierárquica, vigilância permanente através de sistemas de visibilidade organizacional, e uma função ideológica explícita da Fundação Bradesco — entendida pela própria organização como instrumento de formação de &#8220;força de trabalho dócil e produtiva&#8221;, capaz de selecionar, entre os filhos das classes trabalhadoras, aqueles que demonstrem as virtudes de obediência, corretude e dedicação valorizadas pelo banco. Nessa lógica, a filantropia educacional não é externa ao processo de exploração — é constitutiva dele: forma o trabalhador antes de empregá-lo, molda o consentimento antes de exigi-lo, e converte a gratidão em disciplina. O livro, orientado por Tragtenberg e publicado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, é também um documento político: demonstra empiricamente, para um caso paradigmático do capitalismo brasileiro, o que este ensaio argumenta teoricamente sobre o conjunto do terceiro setor.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano internacional, o mapeamento revela uma presença capilarizada. A Cruz Vermelha opera com 136 filiais em 22 estados desde 1970. A World Vision — agência evangélica norte-americana — mantém 29 unidades no país desde 1975, concentradas no Norte e Nordeste, regiões onde disputou influência histórica com a vertente progressista da Teologia da Libertação. Por sua vez, a Ford Foundation estabeleceu-se no país em 1966 — dois anos após o golpe militar, no exato período em que canalizava recursos para a contenção geopolítica em toda a América Latina. Sua atuação, contudo, revela uma sofisticação que ultrapassa o mero repasse financeiro: a fundação investiu sistematicamente na produção do conhecimento que legitima o próprio campo em que opera.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso mais emblemático é o do CEBRAP, fundado em 1969 por intelectuais cassados pelo regime, entre eles o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. A Ford financiou a criação do centro e, em 1975, estabeleceu um <em>endowment</em> equivalente a US$ 3,47 milhões em valores atuais, mantendo os aportes até meados dos anos 1990 — com fluxos que persistem no presente, a exemplo de US$ 240 mil em 2021 e US$ 250 mil em 2023. O mecanismo revela-se milimétrico: intelectuais críticos foram abrigados e institucionalizados por um aparato vinculado à política cultural norte-americana, e o quadro que o centro acolheu tornou-se o gestor que implementou a reforma gerencial do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mesma racionalidade se reproduz na atualidade. O programa <em>Gender, Racial, and Ethnic Justice International</em> da Ford Foundation distribuiu, entre julho de 2020 e novembro de 2024, US$ 266,5 milhões para organizações parceiras na América Latina, África e Ásia. Longe de representar uma inflexão disruptiva, a canalização de recursos para as agendas de justiça demográfica e representatividade cumpre uma função objetiva na reorganização do mercado de trabalho contemporâneo. Ao converter contradições estruturais de classe em pautas focalizadas de &#8220;diversidade e inclusão&#8221;, o grande capital transnacional modela uma nova subjetividade operária. O financiamento da crítica segmentada não contradiz o interesse corporativo; complementa-o, na medida em que instrumentaliza a gramática dos direitos para legitimar novas formas de flexibilização, precarização e segmentação da força de trabalho, deixando intactas as hierarquias econômicas e as taxas de exploração que sustentam as próprias corporações financiadoras. É o que Boltanski e Chiapello chamaram de absorção da crítica — aqui operada em escala global e com orçamento de centenas de milhões de dólares. Polese e Bernardo (2021) radicalizam esse diagnóstico: ao contrário do que ocorre com as lutas dos trabalhadores — que precisam ser primeiramente derrotadas e deformadas antes de serem assimiladas pelo capital —, os identitarismos são incorporados tal e qual, sem deturpação de sua forma originária, convertendo-se diretamente em fator de produtividade e de legitimação empresarial. O financiamento Ford da pesquisa antirracista é o caso empírico que confirma a tese: a aparência da luta é preservada; seu horizonte de classe, suprimido. A crítica é tolerada — e até financiada — desde que se limite ao plano discursivo, sem transbordar para a mobilização capaz de alterar as estruturas. A Fundação Cargill — braço filantrópico do maior exportador de commodities agrícolas do mundo — opera no Brasil desde 1973, justamente quando a expansão da fronteira agrícola sobre o Cerrado e a Amazônia começava a gerar os conflitos fundiários que se arrastam até hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo mecanismo opera no campo do ambientalismo organizado — com uma peculiaridade estrutural que o torna analiticamente relevante: aqui, o inimigo de classe permanece oculto sob a gramática da crise planetária. Organizações como o Greenpeace e o WWF pautam a questão ambiental sob o signo do decrescimento econômico como imperativo de sobrevivência planetária, sem nomear quem paga a conta. O Greenpeace Internacional — cuja receita consolidada atingiu €111 milhões em 2023, segundo seu relatório financeiro oficial — capta recursos majoritariamente de classes médias e altas do hemisfério norte. Simultaneamente, a rede global Greenpeace movimenta um orçamento estimado em US$ 400 milhões anuais. O WWF recebe financiamento de conglomerados como Coca-Cola, HSBC, Cargill, Alcoa e BP — as mesmas corporações responsáveis pela degradação ambiental que a organização pretende combater.</p>
<p style="text-align: justify;">O decrescimento formulado sob esse financiamento não incide sobre os padrões de consumo das classes dominantes que o patrocinam: recai diretamente sobre a classe trabalhadora global. Traduz-se no bloqueio de infraestruturas essenciais, na estagnação das condições de vida e no confisco do rendimento real via tributações regressivas sobre energia e combustíveis — rebaixando o custo de reprodução da força de trabalho sob o pretexto da salvaguarda climática, sem jamais arranhar a acumulação corporativa. O ambientalismo de ONG opera, assim, como mais uma tecnologia de administração de vidas: neutraliza-se o antagonismo entre a exploração e a dilapidação do trabalho ao transformá-lo em uma rotina de restrições disciplinares aplicadas indistintamente aos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A dimensão financeira desse fenômeno é de uma magnitude que o debate público sobre o terceiro setor sistematicamente subestima. No plano global, segundo dados da OCDE, em 2024 os países membros do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento canalizaram US$ 27 bilhões de ajuda oficial ao desenvolvimento através de ou para organizações da sociedade civil — 12,9% de toda a ajuda bilateral — com Estados Unidos (US$ 10,3 bilhões), União Europeia (US$ 2,8 bilhões) e Alemanha (US$ 2,1 bilhões) respondendo por 57% do total. Somando o financiamento governamental ao privado, o setor global de ONGs e organizações filantrópicas movimentou US$ 508 bilhões em 2026 — volume superior ao PIB da Argentina, com projeção de duplicar até 2035. Não é um fenômeno marginal: é um eixo estruturante da globalização.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados do Ipea fornecem a métrica exata dessa concentração no Brasil. Do montante de R$ 118,5 bilhões transferidos pelo governo federal às OSCs entre 2010 e 2018, somente 2,7% das entidades ativas foram contempladas. Na prática, 22 mil organizações confiscaram a quase totalidade das verbas de um universo de 820 mil. O funil é ainda mais estreito por natureza jurídica: as fundações privadas (2% do total) gerenciaram R$ 23 bilhões, enquanto as associações (86% do total) retiveram R$ 65 bilhões. Em 2016, sob severo corte de gastos públicos, as fundações abocanharam 40% do orçamento federal destinado ao setor. Diante da escassez, o Estado opera uma escolha de classe, blindando as estruturas de maior porte e densidade corporativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A divisão territorial corrobora esse privilégio: o Sudeste, detentor de 42% das OSCs, açambarcou 61% do caixa federal, enquanto o Distrito Federal tragou 83% do orçamento do Centro-Oeste, restando às demais unidades da federação uma participação marginal. O cenário recente confirma a tendência: em 2023, R$ 9,6 bilhões federais concentraram-se em apenas 5.224 CNPJs. Esse desenho joga por terra o mito da horizontalidade da sociedade civil. O terceiro setor estrutura-se como um mercado oligopolizado: um topo dinâmico de fundações transnacionais que monopoliza recursos e pauta políticas, assentado sobre uma base atomizada de associações locais precarizadas e dependentes do clientelismo municipal. Longe de constituir um desvio, essa pirâmide revela que o campo opera de forma perfeitamente homóloga à estrutura de poder do capitalismo que o engendra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. ONGs como multiplicação silenciosa do poder</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Estado: A Silenciosa Multiplicação do Poder</em> (1998), João Bernardo desenvolve uma tese que vai na contramão da sociologia política convencional: o Estado contemporâneo não se fortalece concentrando poder, mas se reproduz dispersando-o. A multiplicação de instâncias de decisão — conselhos, comissões, fóruns, parcerias público-privadas, organizações da sociedade civil — não enfraquece o poder estatal: o amplia, ao criar novos pontos de contato e negociação entre a esfera pública e os interesses privados, novos mecanismos de cooptação e neutralização das oposições, novas linguagens de legitimação que tornam a dominação mais palatável porque mais participativa.</p>
<p style="text-align: justify;">As ONGs são, nesse quadro, agentes privilegiados da multiplicação silenciosa do poder. Sua presença nos conselhos de políticas públicas — de saúde, de assistência social, de educação, de direitos humanos — não representa a chegada da sociedade civil ao poder: representa a chegada de determinadas organizações, com determinados perfis de financiamento, determinadas agendas e determinadas relações com o Estado e com o capital, a espaços de decisão que antes eram exclusivamente governamentais. A pergunta relevante não é se essas organizações participam do poder — é quais organizações participam, em nome de quem, financiadas por quem e com quais consequências para quem.</p>
<p style="text-align: justify;">Boltanski e Chiapello, em <em>O Novo Espírito do Capitalismo</em>, oferecem uma chave complementar. Sua análise da &#8220;crítica artística&#8221; e da &#8220;crítica social&#8221; absorvidas pelo capitalismo dos anos 1990 — a transformação da demanda por autonomia, autenticidade e participação em recursos de gestão empresarial — ilumina o mecanismo pelo qual a linguagem da contestação se torna linguagem da legitimação.<strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As ONGs operam como o veículo institucional por excelência dessa dinâmica: organizações cuja função histórica não se estruturou na contestação da ordem, mas na sua legitimação e salvaguarda. Longe de representarem uma força rebelde capturada a posteriori pelo sistema, essas agências nasceram umbilicalmente atreladas à necessidade de institucionalizar e pacificar as pressões sociais. Sua atuação como instrumentos de reprodução do Estado gerencial e do mercado não decorre de desvios morais ou da má-fé de seus integrantes, mas da própria lógica estrutural de sua inserção genética no campo do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurício Tragtenberg, em <em>Administração, Poder e Ideologia</em>, já havia identificado, nos anos 1970, o mecanismo central desse processo: a ideologia administrativa — a crença de que os problemas sociais são, em última instância, problemas de gestão, solucionáveis por técnicas corretas aplicadas por pessoas competentes — é o dispositivo que transforma questões políticas em questões técnicas. As ONGs são, em grande medida, o braço operacional dessa ideologia: organizações que se apresentam como técnicas, neutras, orientadas por evidências, enquanto fazem escolhas que são, inerentemente, políticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>6. Democracia empresarial e administração do descontentamento</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A engenharia institucional do Terceiro Setor materializa aquilo que a literatura crítica define como &#8220;democracia empresarial&#8221; — um modelo que encontra a sua anatomia teórica mais radical no conceito de &#8220;democracia totalitária&#8221; formulado por João Bernardo (2004). Trata-se de uma forma de organização política que combina procedimentos formais de participação com a preservação substantiva das hierarquias de classe. O sistema governa e administra vidas não a despeito da participação, mas por meio dela: ao incluir as classes trabalhadoras em espaços de deliberação cujos limites são delimitados pela classe dos gestores, produz-se um consentimento difuso, muito mais difícil de contestar do que qualquer autocracia tradicional.</p>
<p style="text-align: justify;">As ONGs são um componente central da democracia empresarial. Sua função não é simplesmente a de prestar serviços que o Estado não presta — é a de articular, no nível da comunidade, uma relação entre classes que é ao mesmo tempo de assistência e de controle. A ONG que oferece cursos de qualificação profissional num bairro popular não está apenas treinando trabalhadores para o mercado de trabalho: está construindo, nesse processo, uma linguagem da cidadania e da responsabilidade individual que naturaliza a precariedade do mercado de trabalho e desvia a energia social do conflito coletivo para a competição individual.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa administração gerencial do conflito social materializa-se, de forma exemplar, na conversão de políticas de emprego em dispositivos de controle disciplinar da força de trabalho. O laboratório histórico dessa engrenagem na cidade de São Paulo revela-se na execução de programas públicos de transferência de renda e qualificação, como o Programa Operação Trabalho (POT). Em vez da garantia de emprego ou de direitos trabalhistas universais, o Estado delega a gestão do contingente de desempregados a uma malha terceirizada de ONGs. Incumbe a essas agências gerenciais administrar o descontentamento das frações mais espoliadas da classe trabalhadora: a urgência material da sobrevivência é capturada por uma rotina de bolsas-auxílio sub-remuneradas, desprovidas de seguridade, onde o potencial de contestação é neutralizado por pedagogias de resiliência, empreendedorismo e conformismo produtivo. A ONG atua, assim, como o capataz terceirizado que disciplina e pacifica a força de trabalho excedente com o próprio fundo público — devolvendo ao Estado a aparência de intervenção social sem os custos políticos de uma política de emprego universal.</p>
<p style="text-align: justify;">No cinema brasileiro, a crueza satírica de <em>Quanto Vale ou É por Quilo?</em> (Sérgio Bianchi, 2005) capta com exatidão essa homologia, escancarando a continuidade histórica entre a filantropia colonial e o terceiro setor contemporâneo. A tese do filme converge perfeitamente com a crítica materialista: a transição de um período ao outro altera as representações discursivas — transmutando a &#8220;caridade&#8221; jesuítica em &#8220;cidadania&#8221; empresarial —, mas preserva intacta a estrutura de intervenção das classes dominantes sobre a reprodução das classes trabalhadoras, mediada por aparatos que operam sob o simulacro da neutralidade técnica.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance<em> O Jardineiro Fiel</em>, de John Le Carré (2001) — e sua posterior adaptação cinematográfica por Fernando Meirelles (2005) — oferece a radiografia literária mais precisa desse mecanismo. No enredo, uma ONG humanitária opera como braço operacional de uma multinacional farmacêutica, fornecendo acesso territorial, confiança comunitária e cobertura institucional para testes ilegais de medicamentos em populações pobres do Quênia. Le Carré estruturou a obra a partir de rigorosa investigação sobre casos reais de experimentação clínica no continente africano — a ficção, portanto, não atua como metáfora, mas como documentação sob outra forma. Quando uma ativista que opera nas margens dessas redes descobre o esquema e ameaça expô-lo, é eliminada. A narrativa desmonta dois mitos simultaneamente: o da ONG como espaço neutro de solidariedade, e o da contestação individual como alternativa viável ao poder corporativo organizado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>7. Nomear para desnaturalizar</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Evita-se aqui o psicologismo das boas intenções. A dinâmica das Organizações Não-Governamentais não é determinada pelas motivações morais de seus quadros técnicos, mas pelas funções objetivas que o capitalismo contemporâneo delega a esse aparato. O eixo analítico recai estritamente sobre as determinações estruturais: na racionalidade sistêmica que captura, canaliza e instrumentaliza a força de trabalho social, convertendo-a em engrenagem de governança e contenção dos conflitos de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados, quando lidos sob a perspectiva crítica aqui adotada, revelam uma imagem que a ideologia oficial do terceiro setor ativamente obscurece. Trata-se de um campo cuja expansão histórica acompanhou o sufocamento dos direitos sociais e o rebaixamento das condições de vida da classe trabalhadora. Financiado majoritariamente pelo próprio Estado que supostamente não o comanda, o setor opera na execução de serviços públicos convertidos em nichos gerenciais; sua função instrumentaliza a gramática da cidadania para naturalizar relações de dependência e hierarquia, convertendo-as em ferramentas eficazes de subordinação social e contenção política.</p>
<p style="text-align: justify;">A existência de 672 mil organizações ativas no país em 2026 — extraídas de um universo histórico de mais de 1 milhão de registros cadastrados — está longe de atestar o vigor da democracia. Essa proliferação desenha, ao contrário, a cartografia de uma sofisticada rede de contenção e administração do descontentamento social. A multiplicação das entidades pressupõe e conserva as assimetrias que estruturam o capitalismo. Nesse cenário, o vocabulário asséptico da gestão gerencial opera como o verniz ideológico necessário para dissolver o antagonismo de classes em conciliação, demarcando o limite exato onde a crítica social deixa de ser contestação para se tornar engrenagem da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Lista de Siglas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CAD</strong> — Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (OCDE)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CEBRAP</strong> — Centro Brasileiro de Análise e Planejamento</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CIA</strong> — Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência dos EUA)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CSN</strong> — Companhia Siderúrgica Nacional</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ESG</strong> — Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>FHC</strong> — Fernando Henrique Cardoso</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ipea</strong> — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>OCDE</strong> — Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ODA</strong> — Official Development Assistance (Ajuda Oficial ao Desenvolvimento)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ONG</strong> — Organização Não-Governamental</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>OSC</strong> — Organização da Sociedade Civil</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>OSCIP</strong> — Organização da Sociedade Civil de Interesse Público</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PIB</strong> — Produto Interno Bruto</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>POT</strong> — Programa Operação Trabalho (Prefeitura de São Paulo)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PRONASCI </strong>— Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BALZAC, Honoré. O Médico Rural. In: A Comédia Humana. Estudos de Costumes &#8211; Cenas da Vida Parisiense. Rio de Janeiro: Editora Globo, v. XIII, 1954.</p>
<p style="text-align: justify;">______. O Cura da Aldeia. In: A Comédia Humana. Estudos de Costumes &#8211; Cenas da Vida Rural. Rio de Janeiro: Editora Globo, v. XIV, 1954.</p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Economia dos Conflitos Sociais. São Paulo: Cortez, 1991.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Estado: A Silenciosa Multiplicação do Poder. São Paulo: Escrituras, 1998.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Democracia Totalitária. São Paulo: Cortez, 2004.</p>
<p style="text-align: justify;">______. A salvação da burguesia pelos gestores. In: Labirintos do fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta. 3. ed. 2015. Cap. 3.</p>
<p style="text-align: justify;">______. O inimigo oculto: ensaio sobre a luta de classes &#8212; manifesto anti-ecológico. Porto, Afrontamento, 1979.</p>
<p style="text-align: justify;">BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;">BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Reforma do Estado para a cidadania: a reforma gerencial brasileira na perspectiva internacional. São Paulo: Ed. 34, 1998.</p>
<p style="text-align: justify;">IPEA. Mapa das Organizações da Sociedade Civil — Base Resumida (extrato de mar. 2026). Disponível em: <a href="https://mapaosc.ipea.gov.br">https://mapaosc.ipea.gov.br</a> Acesso em: mar. 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Brasil possui mais de 897 mil organizações da sociedade civil ativas. Brasília: Ipea, fev. 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Afinal, o que os dados mostram sobre a atuação das ONGs? Análise de transferências federais e projetos executados pelas Organizações da Sociedade Civil no Brasil. Brasília: Ipea (Diest), 2019.</p>
<p style="text-align: justify;">OCDE. Final OECD Statistics on Official Development Assistance (ODA) and Other Resource Flows to Developing Countries in 2024. Paris: OECD Publishing, dez. 2025. Disponível em: <a href="https://www.oecd.org/en/data/insights/data-explainers/2025/12/final-oecd-statistics-on-oda">https://www.oecd.org/en/data/insights/data-explainers/2025/12/final-oecd-statistics-on-oda</a> Acesso em: maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">LE CARRÉ, John. O Jardineiro Fiel. Rio de Janeiro: Record, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;">POLESE, Pablo. Machismo, Racismo, Capitalismo Identitário: as estratégias das empresas para as questões de gênero, raça e sexualidade. São Paulo: Hedra, 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">SEGNINI, Liliana Rolfsen Petrilli. A Liturgia do Poder: Trabalho e Disciplina. São Paulo: EDUC, 1988.</p>
<p style="text-align: justify;">SAUNDERS, Frances Stonor. The Cultural Cold War: The CIA and the World of Arts and Letters. New York: The New Press, 1999.</p>
<p style="text-align: justify;">RESOURCE — ROCKEFELLER ARCHIVE CENTER. &#8220;Distasteful Regimes&#8221;: Authoritarianism, the Ford Foundation, and Social Sciences in Brazil. Sleepy Hollow: Rockefeller Archive Center, jul. 2025. Disponível em: <a href="https://resource.rockarch.org/story/authoritarianism-and-ford-foundation-social-sciences-in-brazil">https://resource.rockarch.org/story/authoritarianism-and-ford-foundation-social-sciences-in-brazil</a> Acesso em: maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FORD FOUNDATION. Evaluation of Ford&#8217;s Gender, Racial, and Ethnic Justice International Strategy. Nova York: Ford Foundation, dez. 2025. Disponível em: <a href="https://www.fordfoundation.org/learning/library/program-evaluations/evaluation-of-fords-gender-racial-and-ethnic-justice-international-strategy">https://www.fordfoundation.org/learning/library/program-evaluations/evaluation-of-fords-gender-racial-and-ethnic-justice-international-strategy</a> Acesso em: maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRAGTENBERG, Maurício. Administração, Poder e Ideologia. São Paulo: Editora UNESP, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Filmografia citada</strong></p>
<p style="text-align: justify;">QANTO VALE OU É POR QUILO? Direção: Sérgio Bianchi. Brasil, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;">O JARDINEIRO FIEL. Direção: Fernando Meirelles. Reino Unido/Brasil, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Projeto federal instituído para articular ações de segurança pública com políticas sociais, com forte engajamento e parcerias junto do terceiro setor e governos locais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A distinção entre &#8220;crítica artística&#8221; (centrada na autonomia, autenticidade e criatividade) e &#8220;crítica social&#8221; (centrada na igualdade e na solidariedade) é desenvolvida por Boltanski e Chiapello na Parte I de O Novo Espírito do Capitalismo, onde os autores analisam como o capitalismo dos anos 1990 incorporou seletivamente a primeira para neutralizar a segunda. A discussão dos mecanismos de absorção dessas críticas está concentrada especialmente nos capítulos 2 e 3 da obra.</p>
<p><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Jean-François Millet (1814-1875).</em></p>
<p><strong>*</strong> <em>A publicação deste artigo foi dividida em duas partes, com publicação semanal.</em></p>
<p><span class="info-icon-circle-wrapper"><em>Leia a Parte I <a href="https://passapalavra.info/2026/09/159892/">aqui</a></em>.</span></p>
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		<title>A Gestão do Conflito: ONGs e democracia empresarial no Brasil contemporâneo (1990-2024) &#8211; Parte I</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Sep 2026 19:42:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Sob o mito da “cidadania autônoma”, as ONGs operam, na realidade, a renovação dos mecanismos de dominação de classe mediante a gramática dos direitos — e a evidência empírica o confirma. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Marcelo Phintener</h3>
<p><strong>Introdução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A tese liberal de que as Organizações Não-Governamentais (ONGs) constituem uma alternativa autônoma ao Estado e ao mercado colide contra a realidade material de sua função política no capitalismo contemporâneo. Elegendo o cenário brasileiro como foco analítico e amparando-se na tradição crítica de João Bernardo, Maurício Tragtenberg, Boltanski e Chiapello, constata-se que o terceiro setor atua, fundamentalmente, como um aparato de governança desenhado para a administração de vidas e de conflitos sociais. Por meio do exame dos microdados do Mapa das OSCs (Ipea) — compreendendo 1,09 milhão de registros —, descortina-se a engenharia que articula os interesses corporativos transnacionais ao poder estatal. O avanço vertiginoso desse ecossistema, cujo contingente de entidades ativas saltou de 105 mil em 1996 para 672 mil em 2026, marcha pari passu com a reconfiguração gerencial do Estado iniciada na década de 1990, revelando que a malha da filantropia se expande justamente para institucionalizar a retirada de direitos universais.</p>
<p style="text-align: justify;">A análise identifica 20 grupos corporativos nacionais com 141 unidades registradas — entre os quais a Fundação Bradesco (39 filiais, desde 1970) e a Fundação Vale (8 estados, coincidentes com suas concessões minerárias) — e 20 organizações internacionais com 235 unidades ativas, incluindo a Ford Foundation (desde 1966) e a Fundação Cargill (desde 1973). Os dados do Ipea revelam que apenas 2,7% das OSCs captaram os R$ 118,5 bilhões transferidos pelo governo federal entre 2010 e 2018, com as fundações privadas — 2% das entidades — movimentando proporcionalmente mais recursos do que as associações em todos os cortes analisados.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano global, o setor movimentou US$ 508 bilhões em 2026, com US$ 27 bilhões canalizados por governos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) via OSCs apenas em 2024. Sob o mito da “cidadania autônoma”, as ONGs operam, na realidade, a renovação dos mecanismos de dominação de classe mediante a gramática dos direitos — e a evidência empírica o confirma.</p>
<p><strong>1. O paradoxo do terceiro setor: a negação formal e a afirmação prática do governo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Há uma contradição inscrita no próprio nome. Uma organização que se define pelo que não é — não governamental — ocupa, há décadas, posições estratégicas no coração do aparato burocrático e perpassa transversalmente todo o tecido social. O rótulo esconde que sua penetração generalizada — que engloba desde as instâncias de formulação de políticas de topo até a gestão do cotidiano — não decorre de uma ausência estatal ou de um vácuo de poder, mas de uma estratégia deliberada de governança. O Estado metamorfoseia a sua forma: recua na garantia de direitos universais para avançar por meio de uma malha gerencial terceirizada que administra as contradições do conjunto das relações de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob essa nova engenharia, a organização executa serviços outrora públicos, capta recursos do orçamento, formula políticas e media conflitos. E, simultaneamente, sustenta sobre si a aura da sociedade civil autônoma, da cidadania engajada e do altruísmo desinteressado.</p>
<p style="text-align: justify;">As Organizações Não-Governamentais governam. Não a despeito de sua natureza jurídica, mas precisamente em função da cobertura ideológica que ela proporciona. O rótulo “não-governamental” funciona como um dispositivo discursivo que obscurece as reais relações de poder: aquelas que vinculam essas entidades, por um lado, ao financiamento de grandes corporações transnacionais e, por outro, à contratação, regulamentação e proteção do aparato estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">A tese não é nova. Na anatomia da “multiplicação silenciosa do poder” traçada por João Bernardo, os gestores — incluídos os dirigentes do terceiro setor — configuram uma classe exploradora específica. Situados entre a burguesia e o proletariado, sua função histórica é mediar e gerir o conflito social, operando na ponta de lança da integração econômica global. O mecanismo ideológico dessa engrenagem foi detalhado por Boltanski e Chiapello: o “novo espírito do capitalismo” absorveu a crítica social dos anos 1960 e 1970, transformando a linguagem da autonomia, da participação e da responsabilidade em instrumentos de legitimação do próprio sistema que pretendiam contestar.</p>
<p style="text-align: justify;">A investigação se assenta na dimensão empírica brasileira. A partir da análise dos microdados do Mapa das OSCs (Ipea) — compreendendo 1,09 milhão de registros —, mapeia-se a expansão do setor, sua geografia, suas frentes de atuação e o funil do financiamento público sob o impacto da reforma gerencial iniciada na década de 1990. Indo além, a articulação desses registros com os dados de transferências federais e de cooperação internacional (OCDE, 2025) descortina, de forma sistemática, a simbiose entre grandes conglomerados corporativos e o estatuto das OSCs. O rastreamento evidencia que o fundo público irriga preferencialmente esse topo dinâmico, desmistificando a suposta horizontalidade do terceiro setor.</p>
<p style="text-align: justify;">A exposição estrutura-se em clave progressiva. O percurso inicia-se pela arqueologia das ONGs na filantropia oitocentista, avança pela sua instrumentalização geopolítica no pós-guerra e desagua na refundação gerencial do Estado brasileiro. Na sequência, os microdados são mobilizados para expor as assimetrias regionais e a centralização do capital no setor. O horizonte crítico desse movimento converge para a consolidação da democracia empresarial contemporânea, na qual o terceiro setor assume a função objetiva de conter e administrar os conflitos de classe.</p>
<p><strong>2. Gênese histórica: do médico rural ao terceiro setor</strong></p>
<p><strong>2.1 A lição de Balzac: a gestão filantrópica como infraestrutura da ordem</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em O Médico Rural (1833) e O Cura da Aldeia (1841), Honoré de Balzac constrói figuras de mediação social cuja intervenção na vida rural opera simultaneamente como generosidade e como disciplinamento. A fortuna crítica dessas obras sublinha como esses romances funcionam como retratos da gestão institucional da pobreza: seus protagonistas — o doutor Benassis e o abade Bonnet — agem sob a premissa de que a miséria, sem uma tutela racional, transforma-se em motor de insurreição. O empenho no bem-estar comunitário, na abertura de estradas, na organização produtiva e na moralização dos costumes desenha, portanto, um modelo de governança em que a solidariedade atua como o principal mecanismo de pacificação e estabilidade social.</p>
<p style="text-align: justify;">Balzac escrevia precisamente no momento em que a burguesia francesa assentava sua hegemonia face aos restos do Antigo Regime e ao proletariado urbano nascente. Seus romances revelam o que a melhor tradição crítica posterior viria a sistematizar: a dominação não se sustenta apenas na crueza da força — na lei, no exército ou na infantaria jurídica e policial. Ela carece de instâncias de mediação. São necessários agentes que convertam a assimetria social em retórica de solidariedade, capazes de gerir o descontentamento das franjas subalternas por meio do consenso e da pacificação cotidiana. É por essa razão que o médico rural e o cura da aldeia funcionam como antepassados literários que prefiguram, com precisão espantosa, o papel institucional do gestor do terceiro setor contemporâneo.</p>
<p style="text-align: justify;">A palavra “filantropia” traz na raiz grega o sentido literal de amor à humanidade. No entanto, a celebração dessa humanidade abstrata frequentemente mascara o desprezo pelas condições materiais concretas que geram a própria barbárie. A filantropia burguesa oitocentista — materializada nas sociedades de temperança, cozinhas populares e missões religiosas nas vilas operárias — divide com o terceiro setor contemporâneo a mesma matriz lógica. Nos dias atuais, a crítica não se direciona ao ato elementar de fornecer subsistência a quem padece nas ruas — uma necessidade incontornável de sobrevivência —, mas à sua captura sistêmica pelo capital gerencial. Ao absorver a urgência material e simbólica dos estratos mais pauperizados das classes trabalhadoras, a engrenagem do terceiro setor atua na reprodução rebaixada da força de trabalho, neutralizando os efeitos mais visíveis da exploração sem tocar em suas bases estruturais. Transforma-se, assim, o antagonismo social latente em laço de dependência e pedagogia da gratidão, assegurando a estabilidade e a reprodução da ordem vigente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2.2 Do pós-guerra à Guerra Fria: as ONGs como instrumento de política externa</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O termo “organização não-governamental” foi cunhado formalmente no artigo 71 da Carta das Nações Unidas, em 1945, para designar organizações da sociedade civil que poderiam ter status consultivo junto ao novo organismo internacional. Mas foi no contexto da Guerra Fria que as ONGs ganharam a dimensão geopolítica que as caracteriza até hoje. Em particular nos anos 1950 e 1960, fundações como a Ford, a Rockefeller e a Carnegie — originalmente instrumentos de gestão da riqueza acumulada pelas corporações norte-americanas — passaram a financiar agências da sociedade civil na periferia do sistema capitalista. Essa expansão filantrópica operava como dispositivo estratégico de contenção geopolítica, cujo objetivo era neutralizar focos de insurreição camponesa ou operária e garantir a integração subordinada dessas formações sociais à órbita de acumulação dos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">A história das relações internacionais no século XX demonstra como emergiu uma nova categoria de agentes cuja função era precisamente a de administrar o conflito social por dentro, integrando-o à própria ordem. Na Europa daquele período, essa necessidade histórica deu origem aos primeiros operadores desse tipo de intervenção: organizadores comunitários, planejadores e técnicos sociais que, sob o manto de fundações independentes ou da ação benfeitora, pacificavam as tensões locais. Esse processo revela o DNA político daquilo que viria a ser o terceiro setor: organizações que operam na zona cinzenta entre o público e o privado, o estatal e o civil, convertendo essa posição de fronteira em um mecanismo eficiente para circular recursos e exercer o poder de controle social.</p>
<p><strong>2.3 A explosão do terceiro setor nos anos 1980 e 1990</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se as décadas do pós-guerra foram o período de gestação das ONGs modernas, os anos 1980 e 1990 foram os de sua explosão demográfica. No Brasil, esse processo tem uma cronologia precisa: começa com a redemocratização nos anos 1980, quando organizações da sociedade civil desempenham papel central na reconstrução do espaço público; acelera com as reformas econômicas dos anos FHC, quando a reforma gerencial do Estado cria o marco legal e institucional para a terceirização das políticas sociais; e consolida-se ao longo dos governos Lula, quando o financiamento público das OSCs atinge seu auge.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados do Mapa das OSCs (Ipea) permitem quantificar esse processo com precisão inédita. Como mostra a Tabela 1 e o Gráfico 1 a seguir, o número de OSCs fundadas por ano saltou de uma média de aproximadamente 11.855 entre 1990 e 1994 para 27.540 entre 1995 e 2002 — variação de 132% que coincide exatamente com o período de implementação da reforma gerencial do Estado.</p>
<p><strong>Tabela 1 — Evolução das Organizações da Sociedade Civil no Brasil: marcos históricos selecionados</strong></p>
<div class="table sectionedit14">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0 centeralign"><strong>Ano</strong></td>
<td class="col1 centeralign"><strong>Total acumulado (fundadas até o ano)</strong></td>
<td class="col2 centeralign"><strong>Fundadas no ano</strong></td>
<td class="col3 centeralign"><strong>Var. acumulado (período)</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0 centeralign">1990</td>
<td class="col1 centeralign">151.065</td>
<td class="col2 centeralign">10.546</td>
<td class="col3 centeralign">—</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0 centeralign">1994</td>
<td class="col1 centeralign">199.794</td>
<td class="col2 centeralign">14.269</td>
<td class="col3 centeralign">+32%</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0 centeralign"><strong>1998</strong></td>
<td class="col1 centeralign"><strong>306.937</strong></td>
<td class="col2 centeralign"><strong>25.407</strong></td>
<td class="col3 centeralign"><strong>+132%</strong></td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0 centeralign"><strong>2002</strong></td>
<td class="col1 centeralign"><strong>420.117</strong></td>
<td class="col2 centeralign"><strong>27.539</strong></td>
<td class="col3 centeralign"><strong>+37%</strong></td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0 centeralign">2006</td>
<td class="col1 centeralign">536.267</td>
<td class="col2 centeralign">29.432</td>
<td class="col3 centeralign">+28%</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0 centeralign">2010</td>
<td class="col1 centeralign">670.385</td>
<td class="col2 centeralign">33.324</td>
<td class="col3 centeralign">+25%</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0 centeralign">2014</td>
<td class="col1 centeralign">799.043</td>
<td class="col2 centeralign">30.577</td>
<td class="col3 centeralign">+19%</td>
</tr>
<tr class="row8">
<td class="col0 centeralign">2018</td>
<td class="col1 centeralign">908.696</td>
<td class="col2 centeralign">26.355</td>
<td class="col3 centeralign">+14%</td>
</tr>
<tr class="row9">
<td class="col0 centeralign">2022</td>
<td class="col1 centeralign">1.008.068</td>
<td class="col2 centeralign">27.710</td>
<td class="col3 centeralign">+11%</td>
</tr>
<tr class="row10">
<td class="col0 centeralign">2024</td>
<td class="col1 centeralign">1.067.877</td>
<td class="col2 centeralign">30.554</td>
<td class="col3 centeralign">+6%</td>
</tr>
<tr class="row11">
<td class="col0" colspan="4"><em>Fonte: Mapa das Organizações da Sociedade Civil / Ipea (2026). Total inclui todas as OSCs, independente da situação cadastral atual. Elaboração própria.</em></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p><em>Tabela 1 — Evolução do número de OSCs no Brasil por marcos históricos. Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159904 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-1024x486.jpg" alt="" width="640" height="304" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-1024x486.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-300x142.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-768x364.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-1536x729.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-2048x972.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-885x420.jpg 885w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-640x304.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-681x323.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p><em>Gráfico 1 — Fundações de OSCs no Brasil por ano (1980-2025). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p><strong>3. A reforma gerencial do Estado e a criação do terceiro setor brasileiro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em 1995, o então ministro da Administração Federal e Reforma do Estado, Luiz Carlos Bresser-Pereira, apresentou ao país o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado — documento que se tornaria o marco fundador do chamado “Estado gerencial” no Brasil. A proposta consistia em substituir a rigidez do modelo burocrático tradicional por uma lógica gerencial inspirada nas práticas corporativas: descentralização, foco em metas, contratos de desempenho e, crucialmente, a transferência de serviços sociais para o chamado “setor público não estatal”.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse conceito — “público não estatal” — constitui o núcleo da arquitetura institucional do terceiro setor brasileiro. Na formulação de Bresser-Pereira, desenhava-se uma zona de fronteira entre o Estado — atrelado ao orçamento e ao direito público — e o mercado, regido pelo lucro e pelo direito privado. Seria o espaço das organizações da sociedade civil, justificadas sob o argumento de uma suposta agilidade e proximidade com a comunidade, qualidades que as tornariam mais eficientes na execução de políticas sociais do que o pesado aparato burocrático estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">O que essa formulação omite estrategicamente é que o terceiro setor não constitui um vácuo de controle público, mas a fronteira avançada da gestão corporativa. Uma escola ou equipamento gerido por uma ONG, por exemplo, subtrai a política social da órbita da disputa pública: seus diretores são prepostos gerenciais imunes ao concurso público e suas diretrizes respondem às amarras do contrato de gestão. Essa engenharia desvela a atuação conjugada entre o Estado Clássico — que dita as normas e direciona o fundo público — e o Estado Empresarial, que assume a execução física e ideológica da política. Trata-se da infiltração da ideologia gerencial no núcleo da própria administração pública, transmutando a burocracia estatal em uma agência de monitoramento de resultados de mercado. O chamado controle democrático empresarial — com seus conselhos de stakeholders e rituais de compliance — opera, assim, como o simulacro burocrático necessário para legitimar essa simbiose. No tabuleiro da luta de classes, o terceiro setor atua como o braço macio do capital, reconvertendo direitos universais em serviços contratualizados e ratificando a condição do trabalhador como cidadão votante e súdito tributário.</p>
<p style="text-align: justify;">A reforma gerencial pavimentou as condições institucionais para a engrenagem que João Bernardo define como “multiplicação silenciosa do poder”. Trata-se da proliferação de esferas de deliberação que funcionam fora dos circuitos tradicionais da representação democrática, estabelecendo uma governança fragmentada. É justamente essa natureza difusa que torna o terceiro setor mais difícil de ser emparedado politicamente do que o aparato estatal clássico, uma vez que o poder se dilui em uma rede indefinida de contratos e metas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Luke Fildes (1843-1927).</em></p>
<p><strong>*</strong> <em>A publicação deste artigo foi dividida em duas partes, com publicação semanal.</em></p>
<p><em>Leia a Parte II <a href="https://passapalavra.info/2026/09/159955/">aqui</a>.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/09/159892/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159370/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/159370/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Good Bye, Kapital!? A Alemanha em queda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 12:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Alemanha]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[ As crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema. Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O celebre filme “Adeus, Lênin!” retrata o fim da chamada Alemanha Oriental de uma forma tragicômica. O dedicado Alex tenta a todo custo esconder de sua mãe o fim da Alemanha socialista. No limite, após uma grande propaganda da Coca-Cola cobrir a lateral do prédio ao lado, de frente a sua janela, grava um telejornal com ajuda de um taxista e seus amigos informando a mãe que a Coca-Cola é uma criação comunista. Um lindo e amoroso filme que carrega nossa melancólica mágoa da derrota <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando a contemporaneidade, parece que na Alemanha de 2025 a vida voltou a imitar a arte, porém com os sinais contrários e uma população inteira como coadjuvante. Literalmente tá entrando muita água no chopp da Alemanha capitalista. A principal economia do bloco derrete.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento da Fábrica da Volkswagen em Desdren e a demissão de 35.000 operários é o símbolo maior desse grande rearranjo capitalista. A máquina capitalista mais potente da Europa começa a falhar. O país que há décadas importa migrantes do mundo inteiro hoje tem a mesma taxa de desemprego da última crise. No geral, parece uma operação complexa para a burguesia alemã esconder de milhões de trabalhadores que as suas vidas estão em risco. Sua propaganda é a clássica demagogia do inimigo externo o risco do comunismo invadir as ruas da Europa é sempre um ótimo argumento para justificar mudanças <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158606" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1536x864.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-681x383.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Produção industrial em queda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Marx no capítulo 1, do livro 1 do Capital diz que “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma &#8216;enorme coleção de mercadorias&#8217;”. Nós acrescentamos que a capacidade de manutenção e ampliação da produção determina os limites da dominação da burguesa e as possibilidades de luta dos trabalhadores <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, a situação da Alemanha merece atenção. Sua produção manufatureira, o motor da economia, vem decaindo e isto se espelha na política. Vamos aos dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Produção Anual da Manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2010</strong></td>
<td class="col1">90.5</td>
<td class="col2"><strong>2018</strong></td>
<td class="col3">105.0</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2011</strong></td>
<td class="col1">98.2</td>
<td class="col2"><strong>2019</strong></td>
<td class="col3">101.7</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2012</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2020</strong></td>
<td class="col3">92.7</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2013</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2021</strong></td>
<td class="col3">97.1</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>2014</strong></td>
<td class="col1">99.0</td>
<td class="col2"><strong>2022</strong></td>
<td class="col3">96.9</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>2015</strong></td>
<td class="col1">100.0</td>
<td class="col2"><strong>2023</strong></td>
<td class="col3">95.8</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0"><strong>2016</strong></td>
<td class="col1">101.1</td>
<td class="col2"><strong>2024</strong></td>
<td class="col3">91</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0"><strong>2017</strong></td>
<td class="col1" colspan="3">103.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte : OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Produção trimestral da manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2024-T4</strong></td>
<td class="col1">92.5</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2025-T1</strong></td>
<td class="col1">93.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2025-T2</strong></td>
<td class="col1">92.8</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2025-T3</strong></td>
<td class="col1">91.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;">Na série histórica iniciada em 2015 até o 3° trimestre de 2025, observamos que a produção da economia alemã caiu quase 9%. Pode parecer pouco, mas precisamos ter em mente que o capital é acumulação, é investimento em cima de investimento, é aumento da máquina produtiva. Caso contrário a feroz concorrência pode levar a chama da acumulação a se apagar. Instantaneamente, o reflexo na vida do povo trabalhador é direto: aumento do desemprego, queda no poder de compra, políticas de austeridade, redução do Estado de bem-estar social, etc. A situação é tão delicada para os burgueses alemães que a névoa da guerra volta a assombrar os trabalhadores na Europa <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico 1 temos na linha laranja as despesas de consumo das famílias, linha verde investimentos em máquinas e equipamentos e a linha investimentos em construção civil. O mais relevante para nós é a linha verde, importante indicador da acumulação de Capital, que, como podemos ver, está em franca queda e bem distante do ponto máximo atingido em 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 1: Investimentos e consumo na economia alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158604" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png" alt="" width="967" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-269x300.png 269w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-917x1024.png 917w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-768x858.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-376x420.png 376w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-640x715.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-681x761.png 681w" sizes="auto, (max-width: 967px) 100vw, 967px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">Além do fechamento de fábricas, queda da produção e investimentos, outra coisa que será difícil a classe dominante alemã esconder dos trabalhadores é a queda nas exportações. No gráfico 2, temos na cor laranja o índice de crescimento das exportações e em azul o crescimento das importações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 2. Crescimento da exportação e importação</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158601" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png" alt="" width="1080" height="1466" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-221x300.png 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-754x1024.png 754w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-768x1042.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-309x420.png 309w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-640x869.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-681x924.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">No meio desse baque econômico a burguesia alemã tenta esconder dos trabalhadores sua habilidade ímpar em fazer a vida virar morte. “Adeus, Lênin” é fichinha perto do que vem pela frente. Mesmo uma das opções clássicas para sair da crise, o desemprego, parece não estar funcionado. Segundo a chefe da Agência Federal de Emprego do país, Andrea Nahle, <a class="urlextern" title="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" href="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as chances de desempregados na Alemanha encontrarem trabalho nunca foram tão baixas</a>. A taxa de desemprego está em 6.3%, igualando ao ponto mais alto durante a crise econômica de 2020, como podemos ver no gráfico abaixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 3 — desemprego na Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158602" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png" alt="" width="922" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png 922w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-300x151.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-768x386.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-835x420.png 835w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-640x322.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-681x343.png 681w" sizes="auto, (max-width: 922px) 100vw, 922px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" href="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Bundesagentur für Arbeit</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A combalida saúde da economia Alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2025 <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" href="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma notícia no jornal DW destacou</a>: “A indústria automobilística emprega mais de um milhão de pessoas e há muito tempo é um termômetro da saúde econômica alemã”. A notícia segue com um preciso diagnóstico “as vendas estão encolhendo, empregos estão sendo cortados e fábricas enfrentam ameaças de fechamento”. Ou seja, como verificamos nos dados acima a saúde da economia alemã não vai bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um do motivos é que sua menina dos olhos era o mercado chinês, isso mesmo, “era”. Segue o DW:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Houve tempos em que a participação de mercado da Volkswagen se aproximava de 50%. Até alguns anos atrás, as montadoras alemãs vendiam um em cada três carros no país asiático”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porém, após 2008, o governo chinês passou a incentivar a produção de veículos elétricos, sendo o principal tipo de carro vendido na China atualmente.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Hoje, a cada dois <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" href="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">carros vendidos na China</a>, um é elétrico — e quase todos são de marcas chinesas. As vendas alemãs despencaram em seu mercado mais importante”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a notícia relata que diante da derrota sofrida pela burguesia alemã no mercado chinês, eles se voltam para a Índia, porém, enfrentando a concorrência dos carros indianos, coreanos, japoneses e agora dos carros chineses.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra notícia que explica o desengavetamento do empoeirado acordo com o Mercosul, parado há 25 anos, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" href="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vem do próprio DW</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Para os defensores, como Alemanha e Espanha, este acordo, ao contrário, revitalizará uma economia europeia em dificuldades, enfraquecida pela concorrência chinesa e pelas tarifas dos Estados Unidos (…) Ao eliminar grande parte das tarifas, o pacto impulsionaria as exportações europeias de automóveis, máquinas, vinho e queijo”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Levando em consideração a grande importância da indústria automobilística que “há muito tempo é um termômetro da saúde economia alemã”, vamos focar um pouco mais em seus dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 4- Produção de veículos automotores: Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158603" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png" alt="" width="1200" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-300x125.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1024x427.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-768x320.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1008x420.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-640x267.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-681x284.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" href="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CEICDATA</a></p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico acima, observamos a grande queda vinda junto da última crise cíclica. Como de praxe, o padrão/patamar produtivo foi alterado, agora os carros elétricos são a bola da vez e a Alemanha não está acompanhando a toada. A queda em relação ao ápice ocorrido em 2025 é de 33%.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria da BBC NEWS</a> observamos o busílis:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Todas as &#8216;três grandes&#8217; montadoras viram seus lucros antes dos impostos despencarem em cerca de um terço nos primeiros nove meses de 2024, e cada uma delas avisou que seus ganhos para o ano como um todo seriam menores do que o previsto anteriormente”, ou seja o cerne é a queda da taxa de lucro. Também pode ser verificado na queda vendas: “Entre 2017 e 2023, as vendas da VW caíram de 10,7 milhões para 9,2 milhões, enquanto, no mesmo período, as da BMW passaram de 2,46 milhões para 2,25 milhões, e as da Mercedes-Benz, de 2,3 milhões para 2,04 milhões, conforme mostram os relatórios das empresas”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para encerrar esse mapeamento das notícias no jornalão burguês, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" href="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais uma notícia do DW</a>, segundo Jan Brorhilker, sócio de umas das maiores consultorias empresariais do mundo, a Ernst &amp; Young:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“As empresas industriais estão sob imensa pressão” e “concorrentes agressivos, especialmente da China, estão forçando a queda dos preços, os principais mercados consumidores estão enfraquecendo, a demanda na Europa está estagnada em um nível baixo e há uma grande incerteza em torno de todo o mercado dos EUA”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158596" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg" alt="" width="1661" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg 1661w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1024x740.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1536x1110.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-640x462.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1661px) 100vw, 1661px" />Conexões e conclusões </strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os cortes de gastos são mais fáceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma noção generalizada de eficiência. Ainda assim, esse não é o propósito da defesa, e os políticos devem insistir neste ponto. O objetivo é a sobrevivência. O chamado “capitalismo liberal” precisa sobreviver e isso significa reduzir os padrões de vida para os mais pobres e gastar dinheiro para ir à guerra. Do estado de bem-estar social ao estado de guerra…”.</p>
<p style="text-align: justify;">E vão nesta toada: reduzindo gastos sociais, aumentando a capacidade de endividamento e, numa nova rodada, tendem a retomar a retirada de direitos dos trabalhadores <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Fechamos assim nosso último material sobre a Europa e com os dados acima sobre a Alemanha tudo se encaixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os investidores, governos, economistas, analistas, jornalistas e demais ideólogos burgueses se acostumaram com o fato de que em cada fim de ciclo econômico fosse sacrificada uma economia da periferia do capital. Foi assim com Argentina, Venezuela, Brasil, Grécia e outras. Dessa vez as coisas estão ocorrendo de outra maneira. Além das tradicionais vítimas da periferia do capital, entrou para o seleto grupo de economias combalidas a cada rodada de ciclo econômico uma importante economia do centro do capital, desde a crise de 2020 a economia da Alemanha continua em declínio. Em resumo, as crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra importante conclusão, a China durante décadas foi mercado de trabalho e consumo para as grandes empresas da Europa, porém em alguns setores as coisas começam a mudar, como vimos no caso dos carros elétricos. Nesse importante mercado a economia chinesa consegue praticar preços de produção bem menores que os seus concorrentes, porém, pelo fato da taxa de lucro tendencialmente diminuir, ela precisará de um mercado consumidor muito maior, como muito bem nos ensinou Marx no livro 3 do Capital e Rosa Luxemburgo em seu <em>Acumulação de Capital</em>. Nessa busca por mercados, além dos alemães, ela encontrará empresas dos EUA, França, Coreia do Sul e Japão. Se a tendência atual for confirmada e o capital sair do estado estacionário, veremos outra rodada de superação, ápice, crise e estagnação com retomada se iniciando.</p>
<p style="text-align: justify;">Levando em conta que nessa quadratura histórica as disputas por mercados assumem cada vez mais as características militares. Ou seja, a guerra e o protecionismo tomam a frente da economia-política, tudo fica às claras (arma na mesa e dedo em riste!).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste novo momento do capital, com a necessidade do império-do-terror/coração-do-sistema se salvar, uma crise no coração do sistema tende a estar mais próxima. Com tudo isso no jogo, nos resta saber onde explodirá a nova destruição do capital a fim de retomar suas taxas de lucros perdidas e se agora com o velho e experiente proletariado europeu ameaçado ele há de se tornar classe para si novamente. No berço das revoluções ainda há muitos bebês para serem gerados e o céu, meus amigos, o céu deve ser atacado.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguimos afiando nossas armas para quando o carnaval chegar e nós descer! Até a próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Derrota iniciada em 1921 com o massacre de Kronstadt. O pior é que nos lembra nossos amigos que tentam com todas as maneiras mostrar que os “socialistas de mercado” ou sem mercado (como Cuba) são superiores e tem ou tiveram vitórias que, se não fossem o malvado Capitalismo imperialista, seria a salvação do povo pobre do mundo. Este debate é complicado, mas partimos do pressuposto que estamos derrotados. Imóveis não, derrotados.<br />
<strong>[2]</strong> <strong>Charles Júnior e Antônio Carlos</strong>, <em>“Europa – do estado de bem-estar ao estado de guerra”</em>. In: <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Chama</a> (03/06/2025)<br />
<strong>[3]</strong> Quando está tudo bem (emprego em alta, todo mundo comendo, pagando seus alugueis, bebendo seu chopp, comprando uma peita nova pro mozão e se reproduzindo a felicidade reina, quando as demissões começam a aparecer a vida aperta e os questionamentos ganham força.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>O Alienista de Washington</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158393/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 12:18:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
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					<description><![CDATA[ A pergunta que fica é: porque o problema da estagnação da maior economia do planeta continua? Por Charles júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">Era um efervescente outubro de 1881 na capital do Império tupiniquim, em meio a um novo sistema eleitoral, debates abolicionistas e manifestações nas ruas. O Império estava ruindo. Já no Morro do Livramento, centro da cidade, Machado de Assis expressara o sentimento do imperador através do conto O Alienista <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto, Dr. Simão Bacamarte decide internar todos que considerava loucos. Chegando a querer internar a cidade inteira, exceto a si próprio. No final das contas, ou todos estavam loucos ou só ele seria o desajustado. Mais uma vez, a arte expressava a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Convenhamos, comparando com os acontecimentos da política mundial contemporânea seu conto seria bem menor que a realidade. Nos EUA, nosso amigo laranja vem matando a pau nas taxações de pessoas, países (empresas concorrentes) e políticos. Para alguns o pato estaria insano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, esta é a forma como aparecem as atitudes de Trump e também nos mostra a limitada capacidade de observação do mundo pela esquerda democrática e outros reformadores sociais, os adeptos de que apenas a forma em sua simplicidade revela a totalidade das relações sociais (se fosse assim o papel da ciência seria nulo) <strong>[2]</strong>. Por isso, importam mais os escândalos pessoais, os berros e o teatro do que as intrínsecas relações na luta de classes mundial. <a class="urlextern" title="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" href="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Já nos avisava nosso amigo Zé</a>: “depois do <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">período macarthista</a> nos EUA [e no ocidente] a política tornou-se apenas uma monótona sucessão de fofocas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Inversamente, em nosso último material demonstramos que Trump foi um cadim melhor sucedido que seu antecessor, o decrépito Biden; que as tarifas são utilizadas de tempos em tempos nos EUA e Trump é sim a aposta da classe dominante estadunidense — sempre tendo em vista que o Capital é global, mas a burguesia é nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que fica é: mesmo taxando boa parte das economias do mundo, mandado a polícia intervir em cidades importantes, demitindo trabalhadores do Estado em massa (junto a eles a chefe de estatísticas do Departamento do Trabalho), mediando guerras, explodindo barquinhos e ameaçando <a class="urlextern" title="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" href="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">invadir a Venezuela</a>, brigando e desbrigando com gregos e troianos porque o problema da estagnação (e da ingovernabilidade) da maior economia do planeta continua?</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, onde está seu voo de condor na maior economia do planeta Sr Bacamarte?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158395" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png" alt="" width="984" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png 984w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-300x200.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-768x511.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-631x420.png 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-640x426.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-681x453.png 681w" sizes="auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px" />Para finalizar essa introdução, no conto machadiano, Dr. Bacamarte acaba descobrindo que o louco era ele próprio e determina sua própria internação. Na vida real, nosso Alienista de Washington também está tendo um momento de lucidez.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As razões do irracional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo o irracional tem sua racionalidade. Trump incorporou Dr. Bacamarte não à toa, no atual ciclo econômico ele enfrenta um contexto de economia estacionária , sem os mesmos instrumentos dos ciclos econômicos anteriores para se defender, pois a economia dos EUA tem graves problemas de dívida pública, déficit orçamentário e da conta-corrente. Problemas esses herdados das saídas das crises anteriores, restou a Trump, como diz o jargão “trocar a roda com o carro andando”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Side note</em>: a bola de neve que Trump enfrenta hoje se inicia com a chamada crise das empresas ponto.com, na virada do milênio. Esta marca um ponto importante para nós — naquele ano tivemos a volta das crises econômicas similares às que ocorriam no período anterior a segunda guerra mundial, desde então, a cada nova crise cíclica, a próxima é sempre pior.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, as tentativas de fugas clássicas para o estado atual da economia americana vêm de longa data. No entanto, agora nada parece funcionar. Guerras, comerciais e bélicas, caça às bruxas com o ICE e injeção de bilhões no mercado para segurar a chegada do urso em Wall Street.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso havia segurado a pletora de capital no coração do sistema, mas em alguma parte ela sempre estoura. E quem está pagando o pato (sic) desta vez são os derrotados da guerra da Ucrânia, a Alemanha e o resto da OCDE <strong>[3]</strong>. A corrida armamentista que <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">adiantamos em junho</a> é um sinal da possível derrocada do bloco europeu: tende a retirar direitos, intensificar a exploração dos trabalhadores, aumentar impostos e rasgar dinheiro para tentar segurar seu declínio.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos EUA, tivemos <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a maior paralisação do Estado Americano na história</a>. <strong>“Ele ocorreu pela falta de acordo entre Republicanos e Democratas no Senado, que precisa de três quintos dos votos da Casa para avançar em matérias relativas ao orçamento.”</strong> Paralisou boa parte da máquina estatal estadounidense. Foi tão surpreendente que paralisou até nossa análise (risos). Os dados não foram publicados na data prevista, quiçá organizados ou metrificados pelas agências responsáveis. Mas agora saiu. Vamos a eles:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Indústria de Bens duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1">0.4</td>
<td class="col2">-1</td>
<td class="col3">-1.5</td>
<td class="col4">4.4</td>
<td class="col5">3.9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1">6.6</td>
<td class="col2">7.2</td>
<td class="col3">0.6</td>
<td class="col4">7.1</td>
<td class="col5">0.5</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1">3.2</td>
<td class="col2">3.5</td>
<td class="col3">0.3</td>
<td class="col4">4.1</td>
<td class="col5">0.9</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Indústria de Bens não duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1 centeralign">0.4</td>
<td class="col2 centeralign">0.2</td>
<td class="col3 centeralign">-0.1</td>
<td class="col4 centeralign">2.8</td>
<td class="col5 centeralign">2.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1 centeralign">-0.2</td>
<td class="col2 centeralign">-0.2</td>
<td class="col3 centeralign">0.0</td>
<td class="col4 centeralign">4.8</td>
<td class="col5 centeralign">5.0</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1 centeralign">1.9</td>
<td class="col2 centeralign">1.3</td>
<td class="col3 centeralign">-0.6</td>
<td class="col4 centeralign">5.1</td>
<td class="col5 centeralign">3.1</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;">No estado estacionário, os indicadores de produção e produtividade crescem em ritmos muito baixos, próximos de zero, a manufatura funciona a passos de siri, apenas pra não afundar. Porém, essa é uma situação que não pode durar muito tempo e é exatamente o problema que enfrenta a economia reguladora do sistema global.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano de 2024 a produtividade de manufatura de bens duráveis <strong>[4]</strong> cresceu míseros 0.4% e a produção ficou abaixo de zero, situação que observamos de maneira mais clara desde 2023. Porém, nos dois primeiros trimestres de 2025, os indicadores ficaram bem acima dos anos anteriores, como podemos ver na tabela 1. Produtividade e produção com robustos crescimentos! Muita atenção, como dizia o saudoso Silvio Luiz “OLHO NO LANCE!” O custo unitário do trabalho apresentou um crescimento bem abaixo do ocorrido nos últimos anos. Afinal, o que esses dados representam?</p>
<p style="text-align: justify;">Existem duas hipóteses em discussão: seria a elevação da produtividade, aumento da produção e diminuição do ritmo de crescimento do custo unitário um efeito da implementação da IA nas empresas e/ou seria apenas um VOO de galinha, um último suspiro antes do afundamento da economia reguladora. Em defesa da primeira hipótese temos vistos estudos e dados de empresas, como o resumo de um estudo do MIT <a class="urlextern" title="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" href="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">publicado na revista Exame</a>, que diz :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os pesquisadores identificaram duas camadas de risco. A parte mais visível, associada a demissões e mudanças em tecnologia e TI, responde por 2,2% da exposição salarial, cerca de US$ 211 bilhões. A maior parte está em funções rotineiras de RH, logística, finanças e administração, que somam o restante do total estimado.” (Tradução livre)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma publicação da Infomoney mostra que as demissões nos EUA aumentaram bastante em 2025, essa publicação cita o relatório da consultora de recursos humanos Gray &amp; Christmas, que diz: <strong>“Períodos anteriores com tantos cortes de empregos ocorreram durante recessões ou, como foi o caso em 2005 e 2006, durante a primeira onda de automações que custou empregos na manufatura e tecnologia.”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o estudo do MIT acima realmente se comprovar na prática, com a implementação da IA eliminando boa parte dos funcionários de RH, logística, finanças e administração implicará em eliminação de trabalhadores improdutivos e diminuição da composição orgânica do capital. Generalizando esse cenário em toda a manufatura, ocorrerá uma elevação da taxa de lucro <strong>[5]</strong>. Menos custos, maior produtividade e mais mais-valia para o capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria simples assim? Claro que não (risos). Aqui entra a parte sensível de nosso texto, pois a resposta para essas questões define todo o cenário que a classe trabalhadora enfrentará. Observamos que alguns dados melhoraram, os mais importantes do setor de ponta da economia dos EUA. Porém, estaremos atentos à evolução dos indicadores nos próximos trimestres.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos estar vendo a nova bolha da IA se manifestar antes da queda ou a elevação da produtividade sendo resultado da implementação da IA. Veremos a retomada da economia reguladora, uma exuberante expansão da produção e consequentemente o abafamento da luta de classes no centro do sistema, restando possibilidades de ruptura nos elos mais fracos, principalmente da periferia capitalista. Muito porque, em todo período de crise cíclica há queima de capital, seja onde for, há queima de capital (armamentos, cidades, fábricas, máquinas, rodovias, satélites, seja o que for que compõem o sistema produtivo global, capital fixo e variável &#8211; haverá queima).</p>
<p style="text-align: justify;">Caso o cenário de economia estacionária continue, nessa esteira teremos cada vez mais claro a velha dialética: aumento da ingovernabilidade, crise, guerras e revoluções!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Final note: A nova bolha, sic.</strong></em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com Paul Kedrosky, um VC de longa data atualmente na SK Ventures, a bolha de IA é como se cada bolha anterior fosse lançada em uma outra (?). Há o elemento imobiliário. Há o elemento tecnológico. E, cada vez mais, há estruturas de financiamento exóticas sendo colocadas em prática para financiar tudo. <strong>[6]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a farra de investimento insustentável. E depois, além disso, fala-se de resgates e apoios do governo. A velha corrida contra a queda da taxa de lucro em seu atual contexto. Quem viver, verá!</p>
<p style="text-align: justify;">Neste episódio, percorremos algumas das matemáticas que seriam necessárias para justificar todos esses gastos e como as apostas aparentemente existenciais de “ganhar a corrida da IA” estão causando uma farra de investimento insustentável. Para que lado vai a crise e quem vai estourar será decidido nos próximos passos dos sanguessugas globais.</p>
<p style="text-align: justify;">A possível derrocada da Alemanha (leia-se OCDE) pode se alastrar pelo globo como epidemia, imaginem nos EUA, seria avassalador. O laço no pescoço da burguesia está se apertando, esperamos que continue. Algumas revoltas e pontos isolados continuam a estourar: Bulgária, Ásia, e até Portugal teve uma grande greve por estes dias.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas de uma coisa nós (e nossos amigos do Sinuca de Bico) temos certeza:</p>
<p style="text-align: right;"><em>O dia em que o morro descer e não for carnaval</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Na entrada, rajada de fogos pra quem nunca viu</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Guerra civil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O povo virá de cortiço, alagado e favela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mostrando a miséria sobre a passarela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sem a fantasia que sai no jornal</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser uma única escola, uma só bateria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que desfile assim não vai ter nada igual</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nem autoridade que compre essa briga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém sabe a força desse pessoal </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a class="urlextern" title="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" href="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">(Wilson das Neves &#8211; O dia em que o morro descer e não for Carnaval)</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> A Revolta dos Malês , a Guerra dos Farrapos, a Revolta da Balaiada, as Revoltas Liberais e a Revolução Praieira foram algumas marcas do descontentamento popular no império de D Pedro II. Tendo a Revolta dos Malês conquistado o retorno a África.<br />
<strong>[2]</strong> A forma é a expressão necessária do conteúdo, a porta de entrada para a investigação. Necessária, mas o ponto de partida, não o fim.<br />
<strong>[3]</strong> Ao que tudo indica, analisaremos a situação da Alemanha e da OCDE no próximo boletim.<br />
<strong>[4]</strong> Trataremos do setor de bens duráveis pois é o motor da economia estadunidense. Na tabela 02 é retratado o setor de bens de consumo não duráveis. Este é a base da manutenção da força de trabalho: alimentos, bebidas, cosméticos, produtos de limpeza e vestuário, atendendo necessidades diárias e imediatas dos trabalhadores. Ou seja, força de trabalho futura.<br />
<strong>[5]</strong> “Este é o maior total para outubro em mais de 20 anos e o maior total para um único mês no quarto trimestre desde 2008. Assim como em 2003, uma tecnologia disruptiva está mudando o cenário”, <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">diz o relatório</a>.<br />
<strong>[6]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" href="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one</a></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>RoboCop ou GloboPop?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158358/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 13:28:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[O importante a destacar não é se as previsões sobre o desenvolvimento tecnológico se tornarão verdadeiras ou falsas, mas quais interesses se beneficiam com determinadas narrativas. Por Delirios Lutrinescos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Delirios Lutrinescos</h3>
<p style="text-align: justify;">Durante o último mês, abundaram notícias sobre a existência de uma bolha financeira no setor das empresas vinculadas à IA. A Bloomberg divulgou seu <a class="urlextern" title="https://archive.ph/OiqQo" href="https://archive.ph/OiqQo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">infográfico</a> evidenciando os investimentos circulares que buscam supervalorizar essas empresas. Até mesmo <a class="urlextern" title="https://www.businessinsider.com/ai-bubble-debate-business-leaders-sam-altman-bill-gates-2025-11#sam-altman-1" href="https://www.businessinsider.com/ai-bubble-debate-business-leaders-sam-altman-bill-gates-2025-11#sam-altman-1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Sam Altman</a> e <a class="urlextern" title="https://es-us.finanzas.yahoo.com/noticias/jeff-bezos-burbuja-ia-real-150000486.html" href="https://es-us.finanzas.yahoo.com/noticias/jeff-bezos-burbuja-ia-real-150000486.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Jeff Bezos</a> admitiram que, efetivamente, o setor está imerso em uma dinâmica de bolha.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desses diagnósticos alarmantes sobre o estado da indústria, os investimentos parecem seguir seu rumo e os CEOs dessas empresas continuam otimistas. O argumento que costuma ser apresentado é que, mesmo que exista certa supervalorização no mercado atual, o potencial revolucionário da tecnologia é real. Desde previsões de uma quarta revolução industrial, que culminaria em uma era de bonança econômica impulsionada por aumentos de produtividade, até cenários catastróficos onde o desenvolvimento iminente da Inteligência Artificial Geral (IAG) acabaria por subjugar a humanidade sob seu controle, iniciando uma nova era em que as máquinas dominariam o mundo. Ambas leituras compartilham a mesma premissa: a IAG é iminente e, para o bem ou para o mal, desencadeará uma reestruturação radical da sociedade como a conhecemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual é, então, a evidência dessa nova era baseada na IA? Como dizia Carl Sagan, alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. Até o momento, a OpenAI, a empresa maior e com maior potencial dentro do setor, tem uma valorização de mercado de <a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/10/02/openai-share-sale-500-billion-valuation.html#:~:text=OpenAI%20wraps%20$6.6%20billion%20share%20sale%20at%20$500%20billion%20valuation" href="https://www.cnbc.com/2025/10/02/openai-share-sale-500-billion-valuation.html#:~:text=OpenAI%20wraps%20$6.6%20billion%20share%20sale%20at%20$500%20billion%20valuation" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">500 bilhões de dólares</a>. Ainda tendo <a class="urlextern" title="https://opentools.ai/news/openais-financial-paradox-massive-losses-amidst-revenue-surge" href="https://opentools.ai/news/openais-financial-paradox-massive-losses-amidst-revenue-surge" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">perdas de bilhões de dólares</a> todos os anos e com <a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/fce77ba4-6231-4920-9e99-693a6c38e7d5" href="https://www.ft.com/content/fce77ba4-6231-4920-9e99-693a6c38e7d5" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">custos de inferência que superam suas receitas</a>. A única razão pela qual a empresa continua à tona são os constantes investimentos de capital provenientes do mercado financeiro. Para cumprir com suas obrigações financeiras, a OpenAI precisa encontrar uma forma de aumentar suas receitas de <a class="urlextern" title="https://techcrunch.com/2025/10/14/openai-has-five-years-to-turn-13-billion-into-1-trillion/" href="https://techcrunch.com/2025/10/14/openai-has-five-years-to-turn-13-billion-into-1-trillion/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">13 bilhões de dólares para 1 trilhão em 5 anos</a>. Tudo isso enquanto os <a class="urlextern" title="https://blog.kilocode.ai/p/future-ai-spend-100k-per-dev?ref=wheresyoured.at" href="https://blog.kilocode.ai/p/future-ai-spend-100k-per-dev?ref=wheresyoured.at" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">custos de inferência tendem a subir</a>. Como a OpenAI conseguirá esse aumento de rentabilidade descomunal? Ninguém sabe. Por enquanto, a OpenAI perde dinheiro mesmo com <a class="urlextern" title="https://techcrunch.com/2025/01/05/openai-is-losing-money-on-its-pricey-chatgpt-pro-plan-ceo-sam-altman-says/" href="https://techcrunch.com/2025/01/05/openai-is-losing-money-on-its-pricey-chatgpt-pro-plan-ceo-sam-altman-says/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">suas assinaturas de 200 USD</a>. Poderia ser argumentado que, uma vez alcançada a IAG dentro dos próximos 5 anos, um modelo de negócio viável para sustentar esses investimentos surgiria naturalmente. O problema é que ninguém sabe se alcançar a IAG é sequer possível. O que sabemos, isso sim, é que os modelos atuais utilizados para os LLM (<em>Large Language Model</em>, Grandes Modelos de Linguagem) estão chegando <a class="urlextern" title="https://archive.ph/UmxbQ" href="https://archive.ph/UmxbQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ao limite de suas capacidades</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Perfeito, então a bolha existe e é de proporções bíblicas. Mas então por que os grandes empresários e os estados mais poderosos do mundo continuam investindo bilhões de dólares em seu desenvolvimento? A explicação provavelmente tem múltiplas facetas. Por um lado, as bolhas especulativas e as crises econômicas resultantes são um fenômeno recorrente no capitalismo. Do ano 2000 até hoje podemos mencionar pelo menos a bolha das empresas &#8220;ponto com&#8221; em 2000, a bolha imobiliária em 2008, assim como as múltiplas bolhas e golpes em torno das criptomoedas e NFTs de 2016 a 2020. As crises econômicas são tão inerentes ao sistema que até foram batizadas com um nome um pouco mais neutro: o “ciclo de negócios”. A irracionalidade do mercado leva a investir nos ramos onde se percebe o maior retorno sobre o investimento, mesmo que o crescimento seja fictício; o incentivo de poder revender ações a um preço maior é suficiente para alimentar a bolha. A análise de <a class="urlextern" title="https://fortune.com/2025/10/07/data-centers-gdp-growth-zero-first-half-2025-jason-furman-harvard-economist/" href="https://fortune.com/2025/10/07/data-centers-gdp-growth-zero-first-half-2025-jason-furman-harvard-economist/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Jason Furman</a> estima que 92% do crescimento da economia americana este ano se deve unicamente a investimentos de capital em IA; sem esse fator, sua economia estaria em recessão. Por sua vez, existem interesses militares e geopolíticos que impulsionam o envolvimento dos estados. O <a class="urlextern" title="https://www.fool.com/investing/2025/11/19/if-youd-invested-10000-in-palantir-stock-5-years-a/" href="https://www.fool.com/investing/2025/11/19/if-youd-invested-10000-in-palantir-stock-5-years-a/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">auge da Palantir</a> dá uma pista da capacidade atual e da expectativa futura depositada na IA para incrementar as capacidades bélicas, de vigilância e controle dos estados e empresas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158360 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169.jpg" alt="" width="1000" height="657" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-768x505.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-639x420.jpg 639w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-640x420.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-681x447.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Suponhamos por um momento que o desenvolvimento da IAG dentro dos próximos 5 anos é factível. Quais são os custos ambientais que esses empresários estão dispostos a sacrificar para tentar conseguir isso? Recentemente,<a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/09/23/sam-altman-openais-850-billion-in-planned-buildouts-bubble-concern.html?ref=wheresyoured.at" href="https://www.cnbc.com/2025/09/23/sam-altman-openais-850-billion-in-planned-buildouts-bubble-concern.html?ref=wheresyoured.at" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Sam Altman anunciou um compromisso de desenvolvimento de infraestrutura de 17GW</a>, equivalente a 17 grandes usinas nucleares, para alimentar seus data centers. Em um contexto de crise climática global, uma ameaça civilizacional com um respaldo científico amplamente maior que o risco de uma IAG malévola, são necessárias reduções imediatas das emissões. Pelo contrário, esse aumento frenético da demanda energética está forçando a manutenção e intensificação da geração de energia a todo custo, mesmo das fontes <a class="urlextern" title="https://archive.ph/spRaU" href="https://archive.ph/spRaU" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais poluentes</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem múltiplos problemas ambientais adicionais ao consumo energético. Desde a geração de calor e o uso de água para sua refrigeração, até a geração de lixo eletrônico. Sendo que este último poderia escalar a níveis absurdos, dado que a corrida da IA força as empresas a adotar as GPUs mais modernas, que a NVIDIA lança no mercado anualmente. Da mesma forma, a depreciação das GPUs devido ao uso intensivo lhes dá uma vida útil de apenas <a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/11/14/ai-gpu-depreciation-coreweave-nvidia-michael-burry.html" href="https://www.cnbc.com/2025/11/14/ai-gpu-depreciation-coreweave-nvidia-michael-burry.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2 a 6 anos</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece grave, mas não há razão para se preocupar! Afinal, o <em>grande</em> <a class="urlextern" title="https://archive.ph/JrtlS" href="https://archive.ph/JrtlS" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Sam Altman opina</a> que a crise climática é um problema menor que a IAG será capaz de resolver facilmente. Este é exatamente o tipo de comentário que revela a mentalidade que os CEOs dessas empresas têm. Uma fascinação quase religiosa com o potencial dessa tecnologia. <em>Não importa a </em><a class="urlextern" title="https://link.springer.com/article/10.1007/s42113-024-00217-5#Sec16" href="https://link.springer.com/article/10.1007/s42113-024-00217-5#Sec16" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">evidência científica</a><em> nem os contrastes mais básicos com </em><a class="urlextern" title="https://archive.ph/hNmn9" href="https://archive.ph/hNmn9" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a realidade</a><em>, a IAG é iminente e será capaz de resolver qualquer problema que ameaça a humanidade. Não sabemos quando nem como a IAG nos salvará (ou destruirá!), mas podemos contar com isso.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A falha central desse raciocínio é que todos os problemas existentes são percebidos como problemas meramente técnicos. A crise climática, por exemplo, seria simplesmente um problema que consiste em descobrir e implementar tecnologias superiores. Embora seja verdade que os avanços tecnológicos são necessários e extremamente úteis para alcançar uma economia sustentável com o meio ambiente, já sabemos em grande medida <a class="urlextern" title="https://www.nature.com/articles/d41586-022-04412-x" href="https://www.nature.com/articles/d41586-022-04412-x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como solucionar a crise climática</a>. A razão pela qual ela segue seu curso é que afeta interesses políticos e econômicos. <a class="urlextern" title="https://news.harvard.edu/gazette/story/2023/01/harvard-led-analysis-finds-exxonmobil-internal-research-accurately-predicted-climate-change/" href="https://news.harvard.edu/gazette/story/2023/01/harvard-led-analysis-finds-exxonmobil-internal-research-accurately-predicted-climate-change/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Não é conveniente para as petroleiras</a> a eliminação dos combustíveis fósseis. A lógica de acumulação e crescimento exponencial mundial exigida pelo capitalismo é incompatível com a redução necessária da produção e do consumo. Assim como o aspecto técnico, os problemas sociais também têm seus aspectos econômicos e políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">As tentativas de fazer futurologia são sempre trabalhosas e propensas a erros. O importante a destacar não é se as previsões sobre o desenvolvimento tecnológico se tornarão verdadeiras ou falsas, mas quais interesses se beneficiam com determinadas narrativas. Por enquanto, tanto as visões de uma quarta revolução industrial quanto as de uma Skynet alimentam a expectativa e os investimentos no setor de IA, aumentando a bolha atual. O desenvolvimento da técnica e da ciência não é alheio à sociedade; são moldados pelo contexto social, econômico e político no qual estão imersos. Em um sistema guiado pela acumulação e pelo crescimento perpétuo dos lucros, não podemos esperar outra coisa senão que os grandes desenvolvimentos tecnológicos beneficiem a continuidade dessa lógica em detrimento de qualquer utilidade social. Quando finalmente a bolha explodir, quem sairá perdendo e quem se beneficiará?</p>
<p style="text-align: center;"><em>As imagens que ilustram este artigo são do filme Metropolis (1927), de Fritz Lang</em></p>
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		<title>Ouro e o bezerro de ouro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 13:07:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Nunca é tarde para abandonar velhos esquemas e pensar com mais liberdade. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">Rolando Astarita, professor de economia da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires, <a class="urlextern" title="https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/" href="https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">recentemente publicou em seu blog um breve texto</a> onde reforça o credo ortodoxo marxista que encontra no ouro a “encarnação do valor”. Para Astarita, a “bárbara relíquia”, o ouro em sua função monetária, permanece em nossos dias por um motivo estrutural, não acessório.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns fenômenos vão ao auxílio do credo: os Bancos Centrais pelo mundo afora vêm aumentando suas reservas de ouro, em particular a China, e o precioso metal se ofereceu como um porto seguro de liquidez em todas as últimas crises econômicas. Instituições deste porte acumulariam sem motivos essa quantidade de pedra dourada em seus cofres? A segurança do ouro nas crises é um comportamento irracional atávico?</p>
<p style="text-align: justify;">Para fazer polêmica com outras interpretações sobre o fenômeno monetário, Astarita afirma que apenas os marxistas ortodoxos acreditam que o ouro “continua tendo uma função monetária no capitalismo contemporâneo”. Se limpamos um pouco o estilo polemista, podemos entender que para o professor apenas os marxistas ortodoxos continuam acreditando que o ouro <em>é a base</em> da função monetária no capitalismo contemporâneo, e nisto ele estaria correto.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg" alt="" width="1549" height="2000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg 1549w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-768x992.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-1190x1536.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1549px) 100vw, 1549px" />Em épocas de Bitcoins e NFTs, seria uma displicência tomar partido em uma discussão para afirmar que algo <em>não </em>é dinheiro. Por mais que doa aos seguidores mais fiéis a Marx, muito se avançou nos estudos sobre os mercados monetários e financeiros, assim como estes têm sofrido repetidos ciclos de regulamentação e inovação. Partimos da seguinte claridade: não se trata de discutir se o ouro é dinheiro ou não no século XXI. A verdadeira discussão por trás da defesa da ortodoxia diz respeito ao fundamento do dinheiro em geral.</p>
<p style="text-align: justify;">Conservando esse estilo fiel a Marx, o professor ignora a vasta disciplina da antropologia econômica e nos convida a pensar que o dinheiro “surge das contradições da mercadoria”, como se não houvesse dinheiro antes das mercadorias, como se o dinheiro &#8211; e especialmente o ouro! &#8211; no capitalismo não fosse também uma herança do dinheiro que precedeu o atual modo de produção. O dinheiro não é uma instituição capitalista. E o ouro não é essa figura bíblica, uma mercadoria que é mais mercadoria que todas as demais, e que portanto pode redimi-las. O ouro como “encarnação de valor” é essa mercadoria especial, equivalente geral, e é a única que pode cumprir uma contradição: seu valor é determinado antes de chegar ao mercado, à diferença de todas as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais que teoria, justificação do estado de coisas herdado. Marx observou o papel do ouro em sua época e o caracterizou corretamente como dinheiro mundial. O ouro foi útil para estabilizar o comércio exterior e impulsionar o mercado global que Marx conheceu e estudou. Algo ocorreu nessa história que o esquema monetário internacional do padrão-ouro deixou de funcionar, os países já não estavam tão de acordo sobre as regras da integração comercial internacional. A intensificação das políticas fiscais e monetárias nos âmbitos nacionais desarranjou os equilíbrios que o padrão-ouro facilitava nas finanças internacionais. Pois bem, depois veio o dólar para fixar o valor do ouro, de 1945 até 1973, depois o dólar passou a um câmbio variável em relação ao ouro, e hoje já o dólar parece ameaçado como dinheiro mundial hegemônico.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158286" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article.jpg" alt="" width="1280" height="794" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-300x186.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-1024x635.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-768x476.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-677x420.jpg 677w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-640x397.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-681x422.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Como se fosse pouco, lá por 2008 surgem as criptomoedas, ou moedas baseadas em <em>blockchain</em>, a tecnologia “cripto-contábil”, ou de <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_distribuído" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_distribuído" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">registro distribuído</a>, que vem sendo promovida inclusive por Bancos Centrais. A existência de um tipo de dinheiro digital “nativo”, nascido e criado por meio de uma lógica digital e não apenas replicado, está diretamente relacionada com a digitalização dos meios de pagamento. De fato, um dos grandes atrativos das criptomoedas é a facilidade e anonimidade dos seus fluxos. O dinheiro ainda será muitas coisas além de uma contradição da mercadoria, talvez ele siga existindo num mundo onde já não existirão as mercadorias. O ouro definitivamente já não cumpre o papel que tinha antes, com sua capacidade de gerar atividade econômica nas colônias, expandir o mercado internacional, financiar os mercados de valores. Hoje em dia o ouro já não cumpre muitas destas funções, ao menos não de maneira hegemônica: uma variação do dólar afeta a economia global, uma variação do ouro é uma curiosidade para investidores. Pode-se também ir ao centro de uma grande cidade cosmopolita com 0,1 grama de ouro 24k e tentar pagar o seu almoço com esse ativo que é liquidez em estado puro.</p>
<p style="text-align: justify;">Explicar o dinheiro hoje fundamentando sua natureza a partir do ouro é propor ao debate um formato bizantino, completamente alheio à experiência cotidiana da classe trabalhadora. O mais próximo que ela vê do ouro é quando tem que vender as joias da família. A digitalização é um dos fenômenos que mais transformou o dinheiro nos últimos tempos. O teletipo foi inventado em 1867, ainda durante a vida de Marx, e já então as operações bursáteis supunham um sistema de comunicação veloz. Hoje na maior parte do mundo é comum que pessoas pobres tenham acesso a meios de pagamento digitais, os celulares são ubíquos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg" alt="" width="1549" height="2000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg 1549w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-768x992.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-1190x1536.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1549px) 100vw, 1549px" />Quando o Bitcoin alcançou fama mundial e presidentes de Bancos Centrais discutiam o que fazer ante o surgimento das moedas em <em>blockchain</em>, progressistas e esquerdistas falavam da “falta de lastro”, “esquema de pirâmide”, “bolha especulativa”. Oras, as últimas duas grandes bolhas financeiras foram do mercado imobiliário e das <em>dotcom</em>, empresas inventando serviços por internet. São dois mercados com enorme influência nos rumos do capitalismo contemporâneo (bem representados por Trump e Bezos). Foram bolhas que de nenhuma maneira varreram do mapa o seu conteúdo purulento. Concentração de capital, destruição criativa. O professor Astarita pode ficar tranquilo e conservar sua poupança no caixa-forte do seu banco. Não perderemos a fé no valor de seu ouro. O que deveríamos fazer, e rápido, é deixar de adorar a Marx como um bezerro dourado. Nunca é tarde para abandonar velhos esquemas e pensar com mais liberdade.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são fotografias da obra de Ai Weiwei.</em></p>
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		<title>Um manifesto incómodo. 7</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Oct 2025 06:55:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
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					<description><![CDATA[A extrema-esquerda marxista perdeu qualquer capacidade mobilizadora. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>7</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Chegou o momento de juntar os fios da meada.</p>
<p style="text-align: justify;">O esgotamento das movimentações autonomistas que marcaram a década de 1960 e a primeira metade da década seguinte e a subsequente generalização de um fascismo pós-fascista pressupõem uma grande transformação interna sofrida pela classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem fala de <em>trabalhadores</em> refere-se a quê? Aos operários de uma fábrica em greve ou a um grupo de entregadores de <em>pizzas</em> que pretende alterar os termos de um contrato ou às pessoas que enchem um meio de transporte quando vão para o emprego ou a uma categoria nas estatísticas? É necessário esclarecer sempre a diferença, porque a estrutura sociológica da classe trabalhadora não pode deduzir-se simplesmente da forma económica de extorsão da mais-valia. A mais-valia resulta de um sistema de controle social que assegura que o tempo de trabalho que os trabalhadores são capazes de despender no processo de produção seja superior ao tempo de trabalho incorporado nos meios de subsistência consumidos pela força de trabalho. Esta fórmula genérica e abstracta prevalece hoje como prevalecia no início do capitalismo e há-de prevalecer enquanto o capitalismo durar, mas os modos práticos da sua realização efectiva foram-se alterando. Por isso é impossível passar da simples definição económica da classe para caracterizações sociológicas específicas sem que consideremos previamente a heterogeneidade do funcionamento interno da economia.</p>
<p style="text-align: justify;">A proliferação de conflitos particulares não corresponde a um conflito generalizado. Para isso seria necessário que os conflitos particulares convergissem, e neste processo alterariam o seu carácter. Assim, a economia dos conflitos sociais só raramente tem sido uma economia dos processos revolucionários. Por um lado, é certo que a escassez destes casos em nada lhes retira a importância, porque as relações sociais geradas e desenvolvidas nas lutas que envolvem a acção de massas trabalhadoras pelo controle directo dos meios de produção e pela reorganização das relações de trabalho permite antecipar o que poderá ser uma sociedade socialista e a forma como nela se articularão as técnicas disponíveis para fundar uma nova tecnologia. É aí que se averigua um futuro. Por outro lado, porém, não são os processos revolucionários de massas que pautam o quotidiano do capitalismo, e no longo dia-a-dia a economia dos conflitos sociais é a economia da recuperação capitalista dos conflitos particularizados, ou seja, a banal progressão da mais-valia relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a mais-valia absoluta corresponde a uma forma rudimentar de aumento da exploração, que consiste em prolongar as horas de trabalho e diminuir a quantidade de bens a que os trabalhadores têm acesso, a mais-valia relativa resulta de uma dupla operação que em termos lineares pareceria impossível — trabalhar mais dentro dos limites do mesmo horário ou até num horário reduzido e, eventualmente mediante um pequeno acréscimo da remuneração, ter acesso a um acréscimo muito superior de bens de consumo. É na solução deste mistério que o capitalismo assenta todo o seu progresso, e a resposta torna-se simples se recordarmos que a mais-valia não resulta da disparidade entre somas de gestos de trabalho particulares e de bens de consumo concretos, mas entre os tempos de trabalho pressupostos naqueles gestos e os incorporados nos bens consumidos. Não se trata de coisas, mas do tempo, entendido como um processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Contrariamente aos sistemas económicos que o precederam e que ainda hoje possam subsistir residualmente, o importante no capitalismo é o tempo e só o tempo. Assim, dentro da mesma jornada, tal como é marcada pelos relógios, pode aumentar a intensidade do trabalho, ou seja, o ritmo dos gestos executados pelos trabalhadores, e pode aumentar a qualificação dos trabalhadores, quer dizer, a sua capacidade de se encarregar de novas técnicas, novas produções e novos serviços com maior impacto sobre a restante economia. O aumento das qualificações tem o efeito de, por assim dizer, aprofundar o tempo, fazer com que cada hora de um trabalho mais complexo produza mais valor do que uma hora de um trabalho simples. Por outro lado, e em resultado da generalização do processo que acabei de descrever, cada um dos bens consumidos pelos trabalhadores pode ser produzido de maneira a incorporar menos tempo de trabalho e, portanto, representar um menor valor. A mais-valia relativa resulta da articulação destes dois factores, prolongando por um lado o tempo de trabalho que os trabalhadores são capazes de despender no mesmo horário ou num horário mais curto, e reduzindo por outro lado o tempo de trabalho representado pela soma dos bens que os trabalhadores podem consumir. Deste modo aumenta na realidade económica o desfasamento (defasagem) que constitui o cerne da mais-valia, enquanto na ilusão superficial parece que se trabalha menos e se ganha mais. É assim que o capitalismo recupera a miríade de conflitos sociais e por isso pode aceitar formalmente as reivindicações e, no mesmo gesto, convertê-las na realidade em aumento da exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, se o capitalismo recupera os conflitos sociais mediante o desenvolvimento da mais-valia relativa, invertendo a definição devo afirmar que sem a pressão permanente dos conflitos o capitalismo não progrediria. Em vez de ameaçarem a estabilidade do capitalismo, os conflitos dispersos e particularizados são a própria condição da sua existência. Afinal, a dinâmica do capitalismo consiste na superação de formas de mais-valia absoluta, convertendo-as em mais-valia relativa, e na passagem para formas de mais-valia relativa sempre mais elaboradas. Os grandes ciclos de lutas marcam os ciclos sucessivos de mais-valia relativa, e o aumento da produtividade é o mecanismo desta dinâmica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a dinâmica não é homogénea. O desenvolvimento desigual e combinado, que Trotsky formulou como lei económica, fornece-nos o quadro geral em que a mais-valia relativa é aplicada, consoante a ocorrência dos conflitos sociais e a disparidade de respostas dos capitalistas. É mais fácil desenvolver a produtividade em certas empresas, dependendo das infra-estruturas disponíveis, do acesso à educação e de muitos outros factores, o que leva a mais-valia relativa a progredir de maneira irregular e obedecendo a ritmos desiguais. A heterogeneidade é maior ainda, porque muitos trabalhadores não alcançam os novos patamares de qualificação e perdem o estatuto que possuíam ou são mesmo lançados no desemprego. Torna-se indispensável recorrer aqui à noção de destruição criativa, divulgada por Joseph Schumpeter, porque não só numerosas empresas e conjuntos de trabalhadores não conseguem gerar formas de mais-valia relativa, como outras empresas e outros trabalhadores, que laboravam em condições de mais-valia relativa, são incapazes de acompanhar o progresso e vêem-se remetidos para o que devemos considerar como novas modalidades de mais-valia absoluta. Em conclusão, o carácter criativo das empresas inovadoras implica a destruição do estatuto de outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta heterogeneidade do sistema económico tem efeitos directos e generalizados sobre a classe trabalhadora. Antes de mais, é crescente a divergência entre os trabalhadores qualificados formados no processo de desenvolvimento da mais-valia relativa e os restantes trabalhadores, tanto os não qualificados que desde início laboravam em sistemas de mais-valia absoluta, como os desqualificados remetidos para formas de mais-valia absoluta em resultado de uma degradação que sofreram nos ciclos de mais-valia relativa. Não se trata só da discrepância de estatutos, com tudo o que isto implica, mas igualmente do desemprego. E como uma sólida educação de base é cada vez mais indispensável para atingir sucessivos limiares de qualificação, a diferença entre qualificados e não qualificados reproduz-se e agrava-se nas gerações seguintes, ameaçando perpetuar-se. Em conclusão, o carácter heterogéneo da dinâmica económica suscita uma heterogeneidade sociológica crescente entre os trabalhadores. Mais do que nunca, é impossível passar por mera dedução da área económica para a sociológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas as consequências são mais vastas. A electrónica e, agora, a Inteligência Artificial apressaram os ciclos de mais-valia relativa e abriram aos mecanismos de exploração da força de trabalho horizontes de que não conseguimos vislumbrar os limites. O capitalismo entrou numa colossal fase de expansão e, ao mesmo tempo que se aceleraram os processos de desqualificação, agravou-se a cisão entre os trabalhadores qualificados e os não qualificados. Neste quadro económico tende a aumentar a diversidade social dos trabalhadores e, portanto, tende a exacerbar-se a sua heterogeneidade política. Os trabalhadores, que no plano económico são uma classe, deixaram de aparecer como uma classe no plano social. A situação deteriora-se com a substituição das relações pessoais por relações virtuais e com a tendência à constituição de grupos virtuais fechados, o que mais ainda pressiona os trabalhadores a não se comportarem como uma classe no sentido social do termo.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, ocorre hoje uma multiplicidade de lutas particulares, incapazes de convergir. E os sindicatos, que durante muito tempo, e apesar da sua burocratização, pelo menos forneciam aos trabalhadores um quadro social unificado, resumem-se agora a grandes investidores de fundos financeiros. Do mesmo modo, o que resta das antigas experiências de autogestão e dos antigos movimentos sociais transformou-se em empresas capitalistas, que mantêm o nome só como chamariz publicitário.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157200 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12.jpg" alt="" width="600" height="399" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />É este o contexto em que na Europa, nos Estados Unidos, em África e agora também no Japão os trabalhadores menos qualificados, sobretudo os jovens, desde sempre considerados pelos marxistas como a base social inerente da esquerda, passaram na maior parte dos casos a organizar a sua contestação no quadro da extrema-direita, laica ou religiosa, e do fascismo. O paradoxo é mais gritante ainda, porque enquanto a denominada extrema-esquerda não faz outra coisa senão invocar o recurso ao poder de Estado, são os fascistas que hoje se apresentam como contestatários. Pode argumentar-se que nas economias desenvolvidas a população nativa menos qualificada vota nos fascistas e na extrema-direita porque defende medidas contra os imigrantes, que aceitam salários baixos e, portanto, concorrem no mercado de trabalho. Mas por que motivo, então, os movimentos de massa contra as elites económico-políticas corruptas e repressivas, que têm atingido grandes proporções em vários países africanos, seguem organizações da extrema-direita evangélica ou pior ainda? E por que motivo as lutas contra as elites nas sociedades islâmicas sunnis, onde o marxismo tivera uma grande vitalidade, passaram a ser exclusivamente conduzidas por facções religiosas fundamentalistas ainda mais fanáticas e misóginas? Quem não quiser iludir-se terá de reconhecer que a extrema-esquerda marxista perdeu qualquer capacidade mobilizadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante esta situação, os marxistas actuais substituíram a análise crítica das novas realidades sociais pela metafísica, e difundiu-se o que eu tenho classificado como marxismo pré-galilaico. Assim como na época de Galileo havia quem não quisesse espreitar pelo telescópio para não constatar a existência dos satélites de Júpiter, também esses marxistas não olham para as estatísticas sempre que elas são incómodas. Já sabem as respostas antes de conhecerem as perguntas, e deste modo a visão crítica inovadora foi substituída por deduções a partir de textos escritos pelo pai fundador ou por qualquer dos santos da meia dúzia de capelas consagradas. Quando os argumentos factuais se tornam incapazes de persuadir, temos uma religião. Os marxistas caíram na pior das escolásticas, manipulando termos abstractos que eles julgam que são conceitos, quando na verdade são abstractos pelo motivo simples de lhes faltar conteúdo prático. Pelo menos, a esquerda chamada reformista ou social-democrata tem uma percepção da mais-valia relativa e entende que, tal como há pouco sublinhei, os conflitos dispersos, em vez de ameaçarem o capitalismo, são a própria condição da sua existência. Mas a extrema-esquerda marxista concebe apenas os sistemas de extorsão de mais-valia absoluta e, por isso, fica alvoroçada com a eclosão de qualquer conflito social e é incapaz de entender as potencialidades de adaptação do capitalismo e as suas reconfigurações. Escapa-lhes todo o mundo moderno e, pior ainda, o mundo futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das consequências mais funestas e lamentáveis desta incapacidade são os equívocos que envolvem a tão falada queda da taxa de lucro. A extrema-esquerda marxista confunde aqui uma lei tendencial com uma lei efectiva. Uma lei tendencial define o que devemos fazer para não sermos vítimas dela. É uma lei negativa, determinando as condições necessárias para que essa lei não vigore. Portanto, o efeito da lei da baixa tendencial da taxa de lucro não é o de fazer baixar o lucro mas, pelo contrário, o de pressionar os capitalistas a aumentarem a produtividade, de modo que os lucros cresçam, em vez de baixarem. Por isso a mais-valia relativa, com tudo o que implica, tanto no aspecto social como no técnico, define o eixo do progresso económico. Em suma, baixa tendencial da taxa de lucro e desenvolvimento da mais-valia relativa são dois aspectos da mesma realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando os marxistas actuais, persistindo nessas confusões, afirmam que o capitalismo padece de uma crise estrutural estão, afinal, a pretender que o capitalismo se destruirá a si mesmo. Que colossal paradoxo! Na ausência de uma revolução proletária mundial, que não ocorreu nem há previsões de que ocorra nos próximos anos, estes marxistas chegaram a uma conclusão que, para ser válida, tem de presumir a inutilidade política da classe trabalhadora. Se outrora Marx encarregara os trabalhadores da tarefa histórica de destruir o capital, agora os discípulos pretendem atribuir ao próprio capital essa função. Desprovida de uma base social própria, que transitou para outros quadrantes políticos, a extrema-esquerda marxista aguarda o apocalipse. Por isso confunde as permanentes crises sectoriais e localizadas, resultantes do desenvolvimento desigual e combinado e do processo de destruição criativa, com a crise sistémica que ela inventou e sem a qual perderia a fé e a esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">O fracasso dos marxistas contemporâneos não poderia ser maior. Neste deserto, a adopção da ecologia pelos marxistas ou, talvez mais exactamente, a absorção dos marxistas pela ecologia é um indício trágico do seu esgotamento ideológico e político, pretendendo encontrar um novo fôlego naquela criação do fascismo. Outro sintoma é a adopção dos identitarismos, e quando os marxistas actuais não escamoteiam os trabalhadores na interminável série de identidades, consideram-nos uma identidade suplementar para acrescentar às outras. Eu ia escrever que é tão absurdo proclamar-se eco-marxista ou falar de marxismo <em>queer</em> como seria proclamar-se racista-marxista, mas parei a tempo porque me lembrei de Karl Pearson.</p>
<p style="text-align: justify;">A absorção dos marxistas pelos identitarismos e pela ecologia, que não ocorre só num ou em dois países, mas se generalizou a todo o mundo e passou a caracterizar todas as correntes marxistas contemporâneas, marca a sua crise terminal.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise terminal destes marxistas, não do marxismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> vimos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> vimos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional.</p>
<p style="text-align: left;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157202" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-200x300.jpg" alt="" width="100" height="150" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-682x1024.jpg 682w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-768x1152.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-280x420.jpg 280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-640x960.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-681x1022.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c.jpg 851w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Bridget Riley (1931-       )</em>.</p>
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		<title>Um manifesto incómodo. 6</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Sep 2025 07:13:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Cada identitarismo é um Israel em potência. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>6</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para o marxismo, a função histórica atribuída à classe trabalhadora não seria apenas derrotar os capitalistas e acabar com o capitalismo, mas, nesse mesmo gesto, pôr termo à sua própria existência como classe trabalhadora e instaurar uma sociedade sem classes. O objectivo final da revolução seria a fundação de uma humanidade. Esta missão foi retomada, com nova força e mais lirismo, pelo movimento autonomista internacional desenvolvido ao longo da década de 1960 e na primeira metade da década seguinte. Ora, quando esse movimento revolucionário se desagregou, desapareceu com ele a noção de uma humanidade susceptível de obedecer a uma mesma História e regida pelos mesmos modelos gerais ou, pior ainda, extinguiu-se a aspiração a fundar uma humanidade. Ficou assim liquidada a possibilidade de desenvolver uma História comparada, mas isto, ou se é um historiador, ou seriam necessárias cem páginas para explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">O fraccionamento tornou-se o único horizonte possível, e foi neste contexto que surgiram os identitarismos, porque numa economia e numa sociedade transnacionalizadas já não são suficientes as velhas divisões nacionais. Gosto de citar um texto de Paul Valéry. «A História é o produto mais perigoso que a química do cérebro elaborou. As suas propriedades são bem conhecidas. Faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas». Valéry afirmou isto em 1931, quando os nacionalismos chegavam ao auge e em poucos anos iriam precipitar uma guerra mundial. Mas as palavras que o escritor empregou para caracterizar os nacionalismos podem ser aplicadas, sem nenhuma mudança ou adaptação, aos identitarismos dos nossos dias, e isto confere-lhes uma dupla lucidez, porque servem também para mostrar que, apesar da transnacionalização, os novos identitarismos são tão perversos como os velhos nacionalismos.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o disse a propósito do terceiro mundo e da ecologia e repito-o agora, os antifascistas lucrariam bastante se lessem os livros e artigos e discursos escritos por fascistas. Muitos desses antifascistas, se não a maior parte, poderiam descobrir que são fascistas, quando gostariam de não o ser. E todos nós beneficiaríamos, porque a situação ficava menos confusa.</p>
<p style="text-align: justify;">A característica mais flagrante dos identitarismos é o recurso a uma forma de racismo específica do nacional-socialismo germânico — a circulação entre biologia e ideologia e inversamente. Um dos sentidos do percurso é, sem dúvida, comum a todos os tipos de racismo. Admitir que a biologia, entendida como raças, gere padrões específicos de ideologia é uma crença corrente pelo menos desde Herder e o romantismo, com a noção de <em>Volksgeist</em>, o espírito de um povo, e com a persistente confusão entre comunidade linguística e comunidade racial. Numa forma banalizada inspira o racismo corrente, que classifica umas raças como estúpidas ou perversas e outras como inteligentes ou honestas. Assim, o que destacou o tipo de racismo assumido pelo nacional-socialismo germânico e lhe deu originalidade foi o sentido inverso do percurso, da ideologia para a biologia.</p>
<p style="text-align: justify;">É necessário introduzir aqui um personagem. Nascido na Inglaterra, Houston Stewart Chamberlain adoptara a cultura germânica, tornara-se um influente amigo do imperador e, casando-se com a filha de Wagner, neta de Liszt, passara a encabeçar a principal dinastia da cultura alemã. Durante a primeira guerra mundial Chamberlain renunciou à cidadania britânica e adoptou escandalosamente a nacionalidade alemã. Alfred Rosenberg, o mais importante ideólogo e místico do Terceiro Reich, incluiu Chamberlain entre os quatro únicos precursores intelectuais do nacional-socialismo e, com efeito, ele exerceu uma grande influência sobre Hitler, não só ideológica, mas pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, por um lado Chamberlain considerava que «a configuração da cabeça e a estrutura do cérebro exercem sobre a configuração e a estrutura dos pensamentos uma influência perfeitamente decisiva». Porém, depois de admitir que, «relativamente à raça», as ideias «são sem dúvida uma <em>consequência</em>», Chamberlain preveniu. «Mas tenhamos o cuidado de não subestimar o contributo desta anatomia interior e invisível — desta dolicocefalia ou desta braquicefalia puramente espirituais — que age como <em>causa</em> e tem um âmbito de acção muitíssimo vasto». Afinal, «aquilo que designamos pela palavra “raça” é, dentro de certos limites, um fenómeno plástico, e assim como o físico reage sobre o intelectual, o intelectual reage do mesmo modo sobre o físico». Portanto, concluiu Chamberlain, «nada nos impediria de afirmar algo aparentemente paradoxal, que os homens baixos deste grupo [os germanos] são grandes porque pertencem a uma raça de pessoas altas, e pelo mesmo motivo os seus braquicéfalos têm crânios alongados. Observando com mais atenção, depressa distinguireis, tanto no seu aspecto físico como no seu ser íntimo, os traços característicos do Germano».</p>
<p style="text-align: justify;">Na sequência destas lições, Rudolf Steiner — esse mesmo, o criador da antroposofia e inventor da agricultura biodinâmica, depois crismada de orgânica — afirmou que se uma mulher branca lesse durante a gravidez romances escritos por autores negros, a criança sairia mestiça. Compreende-se assim que ainda no primeiro ano da sua ditadura Hitler, a propósito dos nórdicos, tivesse podido evocar «aqueles que pertencem em espírito a uma certa raça» e muito mais tarde, nos derradeiros dias do seu Reich, Hitler ainda insistia. «Falamos de raça judaica por comodidade de linguagem, porque, para falar com exactidão e sob o ponto de vista genético, não existe uma raça judaica. […] A raça judaica é antes de mais uma raça mental. […] Uma raça mental é algo mais sólido e duradouro do que uma simples raça». Esta nunca deixou de ser a doutrina oficial, e já o geneticista Fritz Lenz, um dos mais influentes cientistas raciais do Terceiro Reich, considerara que «poderíamos, na verdade, classificar os judeus como uma raça espiritual». Em suma, a complementaridade entre a passagem do biológico ao ideológico e a construção, a partir da ideologia, de uma outra biologia espiritual caracterizaram o racismo nacional-socialista.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isto pode parecer-nos delirante, e sem dúvida que o é, mas não é menor a alucinação daqueles identitários representados pela longa série ilimitada de letras, quando estabelecem uma clivagem entre o sexo, entendido como biológico, e o género, supostamente resultante de opções ideológicas. Existem decerto muitas pessoas cuja opção de género difere do sexo e que, no entanto, não pretendem por isso alterar mentalmente a sua biologia. São, porém, cada vez mais frequentes os identitários que admitindo, por um lado, a noção corrente de que um dado sexo defina uma dada orientação sexual, ao mesmo tempo, e em sentido inverso, sustentam que uma dada propensão sexual possa redefinir o sexo, ou seja, que uma opção no plano da ideologia altere a biologia. Esta noção, que se afigura tão extravagante quando a vemos defendida pelos nacionais-socialistas, tornou-se hoje comum e oficiosa, se não mesmo oficial, ao ser proclamada pelos identitários.</p>
<p style="text-align: justify;">As culturas são feitas de estereótipos e os estilos também, pois onde estaríamos nós se a cada passo tivéssemos de inventar tudo de novo! Na circularidade suposta pelo racismo nacional-socialista e aceite pelos identitarismos de género, as deduções dos géneros a partir dos sexos são indispensáveis para escolher a máscara que se pretende usar no percurso inverso. Assim, os <em>clichés</em> masculinos ou femininos compõem o disfarce a que um género recorre se quiser adoptar o sexo oposto, e a farsa pode chegar mais longe e usar a cirurgia plástica para alterar a aparência exterior do próprio corpo. E como hoje nada resiste à indústria cultural, o botox é a banalização do trans. Mas tudo pára nesse plano das aparências, porque a biologia íntima permanece a mesma e só idealmente é assumida como outra. Deste modo as próstatas e os ovários espirituais emparceiram com os crânios braquicéfalos e dolicocéfalos espirituais num absurdo museu de anatomia ideológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa insensata circularidade não se circunscreve às acrobacias entre género e sexo, porque nos movimentos negros não faltam insultos para designar a pessoa negra que escolher a companhia sentimental de uma pessoa branca, considerando-a negra por fora mas branca por dentro. E assim uma preferência sexual assumida no plano da ideologia provocaria uma perda de melanina, com a consequente nova biologia espiritual. Sem esquecer que esta alquimia biológica tem consequências muito palpáveis, como demonstra o ostracismo de que essas pessoas são vítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, tanto na versão nacional-socialista como na versão identitária, a circularidade entre a biologia e a ideologia e inversamente exige um padrão de comparação, que é sempre um objecto de repulsa. Se num sentido a ideologia é deduzida da biologia, no outro sentido supõe-se a intervenção de uma escolha ideológica para definir uma nova biologia espiritual, e esta escolha assume-se como recusa de um dado padrão. Mesmo as identidades que não resultem da pretensa clivagem entre sexo e género, como o feminismo ou as identidades étnicas, apresentadas como raciais, implicam a existência de um objecto de repulsa. Se adicionarmos os objectos de repulsa de todas as identidades, ou melhor, se os fundirmos, personificamos o resultado num só personagem — caracterizado pelo lugar de nascimento, pelo sexo e pelo tipo de propensão sexual, e pela cor da pele. Se para os nacionais-socialistas a aversão incidia nos judeus, classificados como anti-raça, por analogia posso designar como anti-identidade o objecto de repulsa dos identitários. Não é difícil adivinhar. A anti-identidade global, que funde todas as anti-identidades particulares, é hoje o homem branco, europeu e heterossexual.</p>
<p style="text-align: justify;">De imediato, a existência de uma anti-identidade serve de justificação para todas as identidades em conjunto. Perante a crítica de que a proliferação de identidades — tanto mais perturbante quanto a lista apresenta um sinal + no fim provisório — impede a aspiração a fundar uma humanidade, é imediata a resposta de que essa seria uma noção eurocêntrica, com as conotações negativas que lhe estão associadas. Se as lutas dos trabalhadores pela superação do capitalismo começaram na Europa, o único lugar onde o capitalismo então se desenvolvia, e se foi europeia a primeira grande revolução internacionalista, que tentou realizar na prática a ambição de construir uma humanidade efectiva, então os identitarismos legitimam-se ao se proclamarem inimigos do eurocentrismo. As conquistas dos trabalhadores e de todas as forças progressistas na Europa são agora repudiadas como eurocêntricas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157193 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-1024x883.jpg" alt="" width="640" height="552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-1024x883.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-300x259.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-768x662.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-487x420.jpg 487w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-640x552.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-681x587.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x.jpg 1043w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />Mas a relação dos identitarismos com a anti-identidade é mais perversa do que uma simples oposição. Com o objectivo de minar por dentro a anti-identidade e assim a paralisar, cada um dos identitarismos usa toda a panóplia da propaganda para lhe instilar um complexo de culpa. Não existe hoje praticamente nada, desde as redes sociais até aos programas escolares, desde a publicidade até ao cinema — se é que agora estas duas formas se podem distinguir — desde a literatura até ao que ainda se chama música, que não tenha como objectivo, exclusivo ou acessório, a infiltração do complexo de culpa na anti-identidade. E daí? As coisas medem-se pelos resultados, e o ascendente adquirido pelo Estado de Israel é a demonstração mais patente dos efeitos de uma manipulação persistente e hábil do complexo de culpa. Sem as perseguições aos judeus e, acima de tudo, sem o extermínio dos judeus planificado pelo Terceiro Reich, o Estado de Israel não teria conseguido incutir a todo o mundo um complexo de culpa que lhe permite hoje identificar anti-sionismo com anti-semitismo e não teria, assim, neutralizado os seus críticos e alcançado o estatuto de imunidade de que beneficia mesmo quando pratica um genocídio. É este o caminho que os identitarismos procuram seguir. Cada um deles é um Israel em potência.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, o elemento simétrico ao complexo de culpa infundido na anti-identidade é a vitimização assumida pelas identidades. Um não existe sem a outra, ou melhor, uma promove o outro. Onde antes se falava de <em>explorados</em>, fala-se agora de <em>vítimas</em>. Por isso a extrema-esquerda, ou aquilo a que ainda se chama assim, trocou a economia pela sociologia, e o pós-modernismo serviu de charneira nesta transição. Era-se explorado pelos mecanismos económicos e usava-se essa situação para tentar ir além do capitalismo, mas hoje é-se vítima e usa-se o ressentimento. Se alguém quiser ocupar a ribalta da História terá de se apresentar como vítima. Vítima de quê e de quem? Da anti-identidade, evidentemente. Como Valéry escreveu bem! A História «faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas». Torna os identitarismos amargos, arrogantes, insuportáveis e vaidosos. E quando não é a verdadeira História, inventa-se outra, uma que produza falsas memórias, porque não faltam aos identitarismos os instrumentos para disciplinar a sociedade, e também nisto não ficam aquém do fascismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitarismos transpuseram para o plano virtual as milícias e as agressões a que noutra época os fascistas recorriam nas ruas, e como hoje a internet liga tudo e todos, as malhas são ainda mais apertadas do que aquelas de que o fascismo clássico dispunha. Em vez das pauladas e do óleo de rícino, usa-se agora o cancelamento de pessoas, a supressão de intervenções e o boicote erguido nos meios de expressão. O silenciamento é mais eficaz do que havia sido nas ditaduras do passado. E a substituição da presunção de inocência pela presunção de culpabilidade, que por si só representa uma colossal inversão do sistema jurídico, contribui para assegurar aos identitários uma completa hegemonia. Nem se deve dizer que esta é a imagem de uma sociedade que os identitários têm a intenção de construir, porque esta é já a sociedade que eles estão a construir.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de partilharem a aversão a uma mesma anti-identidade, os vários identitarismos não superam a sua hostilidade recíproca e o sucessivo aparecimento de novos identitarismos tende a agravar o ambiente de discórdia, sem que os conflitos sejam resolvidos pela interseccionalidade. Aliás, já nos fascismos clássicos sucedera o mesmo. Desde a Roménia, onde os fascistas seguidores do rei Carol II e do general, depois marechal, Ion Antonescu e os fascistas seguidores de Corneliu Zelea Codreanu e de Horia Sima se chacinavam reciprocamente numa fúria insaciável, passando pela liquidação da ala radical do Partido Nacional-Socialista Alemão na noite de Junho para Julho de 1934, sem esquecermos a quantidade de fascistas que Hitler mandava encerrar nos seus campos de concentração ou, no Japão, a tentativa de insurreição militar dos fascistas radicais da facção Via Imperial em Fevereiro de 1936, suprimida pelos fascistas conservadores da facção Controle, até ao assassinato do chanceler fascista austríaco Dollfuss pelos nacionais-socialistas do seu país e às fricções ocasionalmente violentas que agitaram internamente o fascismo espanhol mesmo durante a guerra civil, em todas essas e outras ditaduras da Ordem os confrontos internos foram muito mais a regra do que a excepção.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação é hoje agravada pela desarmonia reinante entre os herdeiros do fascismo clássico e os identitários enquanto fascistas do pós-fascismo. Aliás, seria impossível outra alternativa, porque as geometrias dos dois <em>puzzles</em> não encaixam. O nacionalismo de uns e as identidades mundializadas dos outros são transversais e não obedecem aos mesmos desenhos, para mais numa época em que a geopolítica passou também a assentar na internet e a tornar-se virtual. Mas não será diferente o motivo? Escrevendo no início da década de 1960, o teórico fascista francês Maurice Bardèche profetizou que o fascismo haveria de renascer «com outro nome, com outro rosto, e decerto sem nada que seja a projecção do passado, imagem de um filho que não reconheceremos». Não serão os fascistas do pós-fascismo a imagem do filho que os fascistas clássicos não reconhecem?</p>
<p style="text-align: justify;">O certo é que, se já a gestação do fascismo como resultado de um processo permanente de cruzamento ou convergência entre alguma extrema-esquerda e certa extrema-direita põe em dúvida a redução do leque político a uma linearidade, mais complicada ainda fica a situação em virtude do choque entre os fascismos nacionais e os fascismos identitários e dos conflitos internos que os rasgam a todos. Assim, parece-me que se rompeu definitivamente a continuidade da linha que levava de um a outro extremo. A terminologia política tradicional perdeu o sentido e, se a velha esquerda se descaracterizou, sucedeu o mesmo à velha direita. Os nomes já não designam as coisas e há coisas ainda sem nome. A terminologia política que começou agora a ser usada é de criação identitária e reflecte uma nova geometria. Sobretudo, a antiga polarização entre a esquerda e a direita foi substituída pela oposição entre cada identidade e a anti-identidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A noção de <em>populismo</em> surge nesta transformação. O populismo tanto se mostra afim a certas posições económicas da extrema-esquerda, nomeadamente ao subestimar os inconvenientes do déficit orçamental, como adopta posições políticas da extrema-direita, em especial no que diz respeito à criminalidade e à imigração. Neste sentido o populismo assemelha-se aos campos geradores de fascismo, mas não se confunde com eles nem tem directamente produzido fascismos. Talvez até os tenha evitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece-me útil comparar a noção de <em>populismo</em> com as noções de <em>bonapartismo</em> defendidas por Trotsky e por August Thalheimer, porque em ambos os casos se trata de categorias políticas intermédias e provisórias, que talvez ajudem a reordenar as classificações. Segundo Trotsky, quando a acção das milícias fascistas punha em risco o funcionamento das instituições democráticas, o parlamento entregava os seus poderes a um chefe que, apoiado directamente pela burocracia, pelo exército e pela polícia, governava num equilíbrio precário entre a democracia e o fascismo. Era a um regime deste tipo que Trotsky chamava <em>bonapartismo</em>. August Thalheimer, porém, considerava que o bonapartismo era parente próximo do fascismo e surgia quando um movimento revolucionário tivesse sido derrotado, mas a burguesia saísse exausta do combate. Em suma, para Thalheimer o bonapartismo apareceria «quando todas as classes estão enfraquecidas e jazem prostradas». Assim, apesar do que diferenciava estas duas perpectivas, tanto para Trotsky como para Thalheimer o bonapartismo seria um regime episódico baseado num equilíbrio instável entre forças políticas opostas. E a complexidade das articulações entre o bonapartismo e o fascismo reflectia as múltiplas possibilidades de um processo histórico que estava então longe de se encerrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, o populismo actual tem em comum com aquelas caracterizações do bonapartismo a sua função de equilíbrio entre campos opostos, embora me pareça cedo para saber se terá um destino igualmente provisório e quais as outras semelhanças e diferenças que a comparação possa revelar. Por agora, devemos reconhecer que o populismo surge como um dos contributos principais para a ordenação de uma nova terminologia política. Mas ainda falta no tabuleiro um outro xadrez.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> vimos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A passagem de Valéry escrita em 1931 encontra-se em Paul Valéry, <em>Regards sur le Monde Actuel et autres Essais</em>, Paris: Gallimard, 1945, pág. 27. As citações de Chamberlain provêm, respectivamente, de Houston Stewart Chamberlain, <em>La Genèse du XIXme Siècle</em>, 2 vols., Paris: Payot, 1913, págs. 296, 621 (subs. orig.), 1154 e 679. Quanto à afirmação de Steiner, ver Peter Staudenmaier, «Anthroposophy and Ecofascism», <em>New Compass</em>, 2011 <a href="http://new-compass.net/articles/anthroposophy-and-ecofascism" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>. As duas citações de Hitler estão, respectivamente, em Édouard Conte e Cornelia Essner, <em>La Quête de la Race. Une Anthropologie du Nazisme</em>, [Paris]: Hachette, 1995, pág. 106 e em Joseph Billig, <em>L’Hitlérisme et le Système Concentrationnaire</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 2000, pág. 300. A citação de Fritz Lenz está em Anne Quinchon-Caudal, <em>Hitler et les Races. L’Anthropologie Nationale-Socialiste</em>, Paris: Berg International, 2013, pág. 157. A citação de Bardèche é extraída de Maurice Bardèche, <em>Qu’Est-ce que le Fascisme?</em>, Paris: Les Sept Couleurs, 1961, págs. 194-195. A passagem citada de Thalheimer encontra-se em August Thalheimer, «On Fascism», 1930 <a href="https://www.marxists.org/archive/thalheimer/works/fascism.htm" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: left;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157195" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-300x229.jpg" alt="" width="100" height="76" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-681x521.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Julian Stanczak (1928-2017)</em>.</p>
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