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	<title>Sudão &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Carta Aberta em Solidariedade ao Povo Sudanês</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2026 17:03:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Sudão]]></category>
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					<description><![CDATA[Por um Boicote Cultural e Acadêmico aos Emirados Árabes Unidos. Por TAGATU3]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por TAGATU3</h3>
<p style="text-align: justify;">2 de Dezembro de 2025</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, os trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais abaixo assinados, condenamos o papel desempenhado pelos Emirados Árabes Unidos de criar, financiar e prolongar a guerra contra-revolucionária no Sudão entre as Forças Armadas do Sudão (<em>SAF</em>) e as <em>Rapid Support Forces</em> (RSF) desde sua irrupção em 15 de Abril de 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa campanha é organizada por TAGATU3: Campanha Sudanesa pelo Boicote Acadêmico e Cultural dos EAU, um grupo de sudaneses em diáspora e aliados trabalhado para encerrar o apoio dos EAU à milícia RSF e sua cumplicidade política em munir a pior crise humanitária do século 21.</p>
<p style="text-align: justify;">A estratégia intervencionista emirati no Sudão, ainda que não seja a única desse tipo, tem uma natureza distinta. Seus significativos esforços contra-revolucionários durante a processo de transição política impediram os horizontes de libertação do Sudão em favor de atores militares, criando condições para rivalidades militares que eventualmente levaram o país à guerra. Como principal benfeitor da notória e brutal milícia RSF, os EAU providenciaram um interminável influxo de dinheiro, armas e cobertura política, permitindo os genocídios e massacres da milícia em Darfur e Kordofan. Os Emirados também cumpriram um papel decisivo em prolongar o combate através do comércio ilícito de ouro com a SAF e a RSF, fornecendo a seus empreendimentos de guerra linhas de financiamento vitais pelo futuro próximo. Permitir que o subimperialismo implacável dos Emirados Árabes Unidos no Sudão continue sem controle impedirá um cessar-fogo permanente e tornará cada vez mais distante a possibilidade de um retorno à principal reivindicação da revolução: um governo liderado por civis, com “os militares (SAF) de volta aos quartéis e os Janjaweed (RSF) dissolvidos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto sistematicamente destroem universidades, escolas, sítios arqueológicos, instituições e heranças culturais no Sudão, os EAU continuam a crescer globalmente como uma potência cultural e acadêmica. Suas parcerias com instituições acadêmicas e culturais existem para normalizar sua violência imperialista no Sudão, lavar sua imagem e reputação de autocracia repressiva, e escapar da responsabilidade por seus sistemas globais de violência e extrativismo. Neste documento, enquanto coletivo, convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A campanha dos EAU de encobrimento cultural e acadêmico</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os investimentos dos EAU em instituições acadêmicas ocidentais são antigos e apontam para uma tendência de encobrimento acadêmico e captura intelectual. Entre Fevereiro de 2001 e Abril de 2024, os EAU presentearam US$402.330.743 a universidades nos Estados Unidos, com as maiores recebedoras desses presentes monetários sendo a <em>New York University</em>, <em>Harvard University</em>, <em>Boston University</em>, <em>Johns Hopkins University</em>, <em>Columbia University</em>, <em>UC Berkeley</em>, e <em>Stanford University</em>. Conforme os relatórios financeiros dessas universidades para o governo federal, esses prêmios foram recebidos por razões não declaradas, permitindo influência descconhecida dos doadores e comprometendo a liberdade acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A expansão acelerada das universidades ocidentais nos Emirados, particularmente por meio de campi afiliados e satélites, desde a década de 2010, conferiu aos Emirados Árabes Unidos maior legitimidade e poder de influência nas economias de produção do conhecimento. Isso se manifestou recentemente na tentativa dos Emirados Árabes Unidos de controlar e disseminar a produção de conhecimento sobre a África e o Sudão de maneiras que reforcem e consolidem sua matriz de relações de poder no continente por meio de instituições como a Universidade de Estudos Globais em Sharjah e a NYU Abu Dhabi. Similarmente, não é coincidência que ao mesmo tempo em que o projeto de expansão colonial dos EAU se intensifica, nós vejamos uma rápida proliferação de acordos culturais globais desse país. O projeto cultural dos EAU é tão central para suas ambições geopolíticas que o país institucionalizou essa estratégia de diplomacia cultural em uma política de governo, criando um <em>Soft Power Council</em>. Estabelecido pelo Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum em 2017, um dos principais objetivos do conselho é “fortalecer a política externa dos EAU e adicionar novas ferramentas para consolidar seu papel… na arena internacional”. Desde a inauguração do conselho, o governo emirati fez contribuições significativas, avaliadas em mais de 35 bilhões de dólares, para as áreas de arte, design, museus, destinos turísticos, editoração e mídia. Cultura e política trabalham em sinergia aqui, com a primeira provendo a cobertura discursiva para a segunda, assim protegendo os EAU de quaisquer medidas de responsabilidade para sua aliança destrutiva com as RSF no Sudão. As condições favoráveis e atrativas criadas por essa estratégia de <em>soft power</em> orquestram a adesão de artistas e trabalhadores da cultura em todo o mundo, ao mesmo tempo que garantem o silêncio sobre as suas violações no Sudão. Nós enxergamos esses orçamentos culturais inflados como consequência direta da riqueza violentamente acumulada na região do Sudão e do Chifre da África, posicionando os EAU como um farol de modernidade, oportunidade, inovação e alta cultura.</p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhar com instituições cúmplices dos EAU contribui diretamente para a fachada dos Emirados Árabes Unidos e ajuda a fabricar consenso para seu projeto subimperialista no Sudão. Inspirados pelos legados dos boicotes contra o apartheid sul-africano, e a ocupação israelense, e o papel desempenhado pelo boicote em lutas decoloniais ao redor do mundo, nós vemos essa estratégia como a mais forte e mais estratégica arma que temoss para perfurar essa ilusão mórbida, pôr fim à sistemática violência emirati contra o povo sudanês, e recuperar o futuro político da região das mãos dos arquitetos de sua ruína.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Demandas e chamado à ação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A hora de praticar a solidariedade com o povo sudanês é agora, e de firmemente opôr as agendas imperialistas dos EAU no Sudão. Nós definimos cumplicidade com instituições emirati como:</p>
<ol>
<li class="li">Cumplicidade financeira ao receber-se financiamento do estado emirati, ou riqueza da nobreza para parcial ou completamente financiar instituições ou atividades e produtos institucionais.</li>
<li class="li">Cumplicidade ideológica através de atividades acadêmicas e culturais que acobertam ou desinformam/produzem campanhas de propaganda, silêncio ou censura ativa sobre o papel dos EAU em criar, financiar e perpetuar a guerra contra-revolucionária no Sudão.</li>
</ol>
<div></div>
<p style="text-align: justify;">Nós, os abaixo assinados trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais, demandamos o seguinte:</p>
<ol>
<li class="li">Urgimos aos nossos colegas que chamem atenção e reconheçam os genocídios no Sudão, as fomes provocadas pelo homem que assolam populações em todo o país e os facilitadores globais da violência perpetrada pelas SAF e pelas RSF, sendo os Emirados Árabes Unidos os mais proeminentes entre eles.</li>
<li class="li">Convocamos as instituições acadêmicas e culturais para que investiguem cuidadosamente seus laços com o governo emirati e as famílias reais. Demandamos o desinvestimento de quaisquer projetos feitos com o estado emirati, as famílias reais e instituições cúmplices.</li>
<li class="li">Convocamos acadêmicos, trabalhadores da cultura, e suas instituições afiliadas a rejeitar financiamento, colaboração, parcerias e patrocínios do governo emirati, das famílias reais, e suas instituições cúmplices (incluindo grupos de lobby e corporações) ou aqueles envolvidos com em atividades ideológicas que visam encobrir as violações dos EAU no Sudão.</li>
<li class="li">Convocamos nossos colegas a boicotarem os EAU, recusando-se a lecionar, frequentar ou colaborar com quaisquer instituições emirati cúmplices, até que tais instituições: (i) reconheçam publicamente e suspendam a censura sobre o papel dos EAU na criação, financiamento e perpetuação da guerra no Sudão; (ii) pratiquem a transparência financeira, auditando independentemente as demonstrações financeiras em conformidade com as normas internacionais de relatórios financeiros e investigando quaisquer vínculos financeiros ligados ao lucro de guerra e ao comércio ilícito no Sudão, incluindo a extração de ouro de conflito e a fabricação/venda de armas; (iii) cessem toda a cumplicidade financeira e ideológica na guerra contra-revolucionária dos EAU no Sudão.</li>
</ol>
<blockquote><p><em>convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.</em></p>
<p>Esse boicote é uma recusa à cumplicidade que é ao mesmo tempo simbólica e material; seu poder repousa não somente em declarar oposição, mas em romper nossos laços materiais com o genocídio, o extrativismo e as aspirações geopolíticas coloniais dos EAU no Sudão.</p>
<p><em>Para uma visão mais detalhada do crescente império dos Emirados Árabes Unidos e da campanha de branqueamento nas artes e na academia, leia a carta completa e <a href="https://docs.google.com/document/d/1ZbjASNGZn-M3R1qPhk2Rri0RTUH3io95l90Immzl918/edit?tab=t.0#heading=h.gz4mbqkwlogx" target="_blank" rel="noopener">encontre a lista completa de signatários aqui</a></em>. <strong>Assine a carta aqui</strong>.</p></blockquote>
<ol>
<li class="li">Alexander Weheliye, Professor of Modern Culture and Media, Brown University</li>
<li class="li">Angela Davis, Distinguished Professor Emerita, University of California, Santa Cruz</li>
<li class="li">Eve Troutt Powell, Professor, University of Pennsylvania</li>
<li class="li">Fatin Abbas, Lecturer, Massachusetts Institute of Technology</li>
<li class="li">Françoise Vergès, Senior Fellow Researcher, Sarah Parker Remond Centre, UCL</li>
<li class="li">Gail Lewis, Professor, Yale University</li>
<li class="li">Hatem Bazian, Lecturer, UC Berkeley</li>
<li class="li">Houria Bouteldja, Decolonial Activist</li>
<li class="li">M’hamed Oualdi, Professor, Sciences Po-Paris</li>
<li class="li">Mohammed Elnaiem, The Decolonial Centre</li>
<li class="li">Nisrin Elamin, Assistant Professor, University of Toronto</li>
<li class="li">Mona Chalabi, Guest lecturer</li>
<li class="li">Paula Chakravartty, Professor, New York University</li>
<li class="li">Robin D.G. Kelley, Professor, University of California, Los Angeles</li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Ruth Wilson Gilmore, Professor, Graduate Center of the City University of New York</li>
</ol>
<div></div>
<blockquote><p>A foto em destaque foi publicada originalmente <a href="https://www.nytimes.com/2014/05/09/world/africa/south-sudan-war.html" target="_blank" rel="noopener">num artigo</a> do New York Times.</p></blockquote>
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		<title>Velha Toupeira (22)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Oct 2024 09:50:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Rússia]]></category>
		<category><![CDATA[Sudão]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-154962" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/VT022-GUERRA-NO-SUDÃO-681x227.jpg 681w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>Teses sobre a Comuna do Sudão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jan 2024 12:48:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Sudão]]></category>
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					<description><![CDATA[A guerra social da qual a Revolução do Sudão foi um episódio ainda está sendo travada hoje. Provavelmente veremos novas tentativas de ultrapassar os limites da luta contemporânea. A cada novo experimento, poderemos ver emergir mais claramente os contornos da comuna e da autonomia proletária. Por Anônimo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Anônimo</strong></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Nota do Passa Palavra:</strong> enquanto vemos certa euforia com novos regimes surgidos da mais recente onda de golpes militares no Burkina Faso, no Gabão, no Chade, na Guiné, no Sudão e no Mali, em especial pelos muitos vídeos que circulam pela internet com a população depositando nos novos ditadores militares altas esperanças de que acabem com a “corrupção” e com o “colonialismo”, poucos se debruçam sobre estes fatos tentando dissipar a neblina da guerra em busca das contradições e conflitos internos que contribuem para formar estes regimes. Mais raros ainda são os que olham para os militares de forma crítica, como parte de uma sociedade local muito mais complexa que certos olhares paternalistas e certas fantasias edênicas de uma África “pura” permitem conceber. O texto a seguir, de autor anônimo e publicado em 2021 pelo coletivo </em>Ill Will<em>, mesmo com suas limitações, é uma tentativa de remar contra a maré e lançar sondas para auscultar o trabalho das correntes sociais sob a superfície. Esperamos que sirva de provocação a outros leitores mais atentos ao que se passa na África que se disponham a estender o debate.</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;" align="right"><i>As revoluções proletárias&#8230; zombam impiedosamente das hesitações, fraquezas e inadequações de seus primeiros esforços, parecem derrubar seu adversário apenas para vê-lo extrair novas forças da terra e erguer-se novamente de forma formidável diante delas, recuam repetidamente diante da imensidão de suas tarefas, até que finalmente é criada uma situação que torna impossível qualquer retorno, e as próprias condições gritam: </i>&#8220;hic Rhodus, hic salta!&#8221;<br />
&#8212; Marx</p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2018, o Sudão estava em meio a uma crise econômica. O governo começou a implementar medidas de austeridade. Isso incluiu o corte de subsídios para combustível e trigo. Em resposta, houve tumultos em Atbar, uma cidade no norte. Os protestos se espalharam rapidamente para meia dúzia de cidades e, depois, para quase todos os lugares. Logo os manifestantes estavam exigindo não apenas o fim da austeridade, mas a queda do regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos diminuíram e fluíram por meses até o início de abril, quando um acampamento em massa começou do lado de fora do quartel-general militar em Cartum. A ocupação rapidamente se tornou o local de confrontos com a polícia e, depois, entre diferentes facções das forças armadas. Os soldados começaram a desertar. Em uma semana, foi anunciado que o presidente al-Bashir havia sido preso e que um Conselho Militar de Transição (TMC) assumiria o poder para supervisionar a transição para a democracia.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151128" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people.jpg" alt="" width="1000" height="666" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1000px) 100vw, 1000px" />A revolução no Egito, que começou em 2011, teve um fim abrupto quando os militares tomaram o poder em um golpe. Determinado a não seguir o mesmo caminho, o movimento no Sudão tinha como objetivo derrubar também esse novo regime militar. “Vitória ou Egito” tornou-se a nova palavra de ordem da revolução. Seguiram-se meses de greves, manifestações e bloqueios. O acampamento em Cartum se expandiu até chegar a quase um quilômetro de comprimento, com mais de cem mil pessoas à noite. Isso culminou em uma greve geral no final de maio.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 3 de junho, o regime militar massacrou os manifestantes ocupantes e incendiou o acampamento de Cartum até o chão. O movimento reagiu com outra onda de greves e protestos em massa coordenados. Porém, logo em seguida, com medo de que levar as coisas adiante significasse o risco de uma guerra civil, os representantes do movimento entraram em negociações com o regime. Isso resultou em um acordo de compartilhamento de poder no qual um governo provisório composto por representantes militares e civis administraria a transição.</p>
<p style="text-align: justify;">A seguir, algumas reflexões sobre a revolta no Sudão e sua importância global.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I.</strong><br />
<em>A revolução no Sudão nos dá o vislumbre mais claro da forma da revolução social que está por vir.</em> Ela também apresenta o maior contraste entre os limites e os potenciais da luta contemporânea.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>II.</strong><br />
<em>A Primavera Árabe levantou a questão da revolução pela primeira vez em uma geração e abriu uma nova sequência global de lutas. </em>Mas em quase todos os lugares essas revoluções terminaram em um golpe militar ou em uma guerra civil. Se as revoluções na Tunísia e no Egito inspiraram a sensação de que tudo era possível, a longa contrarrevolução que se seguiu indicou que qualquer tentativa de mudar a ordem das coisas levaria a uma catástrofe. Essa derrota lançou uma longa sombra sobre o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>III.</strong><br />
<em>As revoluções no Sudão e na Argélia foram os primeiros esforços conscientes para ir além dos impasses alcançados pelo Egito.</em> Elas não conseguiram ultrapassar esses limites. Mas, em suas tentativas, mostraram que as tentativas revolucionárias não precisam inevitavelmente mergulhar a região no caos. Os historiadores que olham para trás provavelmente concluirão que isso foi necessário para que uma nova onda de lutas se abrisse da maneira que aconteceu em 2019.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151132" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121.jpg" alt="" width="813" height="558" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121.jpg 813w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-300x206.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-768x527.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-612x420.jpg 612w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-640x439.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-681x467.jpg 681w" sizes="(max-width: 813px) 100vw, 813px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>IV.</strong><br />
As lutas mais intensas de nosso tempo chegam a um precipício e depois voltam atrás. Ir além significaria dar um salto para o desconhecido. Ninguém quer ser o primeiro a pular e ver se descobre novas terras ou se simplesmente cai em queda livre. Ainda não sabemos como será criada uma situação que torne impossível voltar atrás e na qual as próprias condições clamem: “<em>hic Rhodus, hic salta!</em>”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V.</strong><br />
<em>As lutas contra a austeridade tendem a se entender como uma crítica à corrupção do Estado.</em> Mas, na longa crise, o Estado de fato tem pouco espaço de manobra. Pode haver pouco que ele possa fazer além de implementar a austeridade, esteja ou não livre das amarras da corrupção. Os políticos que se aproveitam dessas ondas de agitação para assumir o cargo geralmente acabam implementando políticas notavelmente semelhantes às dos governos que substituíram.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI.</strong><br />
<em>As revoluções de nosso século se encontram imediatamente emaranhadas em uma teia de geopolítica.</em> A Síria tornou-se o local de um conflito por procuração entre potências globais. O curso da revolução do Sudão foi sobredeterminado por outros conflitos mais regionais. Primeiro, a revolução terá de se espalhar rapidamente e encontrar sua escala adequada. Não existe revolução social em um único país. Em segundo lugar, uma onda revolucionária provavelmente terá de se espalhar e repercutir nas metrópoles capitalistas. Por enquanto, as lutas nesses locais são menos determinadas por manobras geopolíticas e podem ter a capacidade de destruir totalmente a arquitetura geopolítica.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VII.</strong><br />
<em>Uma situação revolucionária começa no momento em que as forças armadas se recusam a disparar contra a multidão. </em>As revoluções sociais dos séculos XIX e XX foram possíveis porque as forças armadas entraram em colapso, geralmente como resultado da perda de uma guerra interimperialista. No caos que se seguiu, parecia possível não apenas substituir o governo, mas destruir o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, as revoluções de nosso século ocorreram em países onde os militares funcionam como um Estado dual. No Egito, na Argélia e no Sudão, isso levou a uma continuidade essencial entre o regime que caiu e o que o substituiu. Em outros lugares, como na Síria, os militares se dividiram ao longo da revolução, dando início a um período de guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VIII.</strong><br />
<em>Um dos principais limites das lutas contemporâneas tem sido a incapacidade de superar as separações reinantes nas sociedades das quais elas emergem. </em>O Sudão, um país predominantemente árabe muçulmano com grandes minorias étnicas africanas e religiosas, foi construído sobre uma base de separações raciais. Ele foi ainda mais dilacerado por décadas de guerras civis e limpeza étnica. As atrocidades em Darfur são apenas o exemplo mais infame.</p>
<p style="text-align: justify;">Os manifestantes se orgulhavam de ter superado essas divisões no decorrer da revolta. As origens africanas do antigo Sudão foram um dos principais temas de palestras e discussões no acampamento de Cartum. Quando, no início, o regime tentou culpar os estudantes de Darfur pela agitação em Cartum, o movimento respondeu com a palavra de ordem: somos todos Darfuri. Ainda não está claro até que ponto essas divisões voltarão a surgir agora que a onda revolucionária está recuando.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151131" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1.jpg" alt="" width="1429" height="1743" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1.jpg 1429w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-246x300.jpg 246w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-840x1024.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-768x937.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-1259x1536.jpg 1259w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-344x420.jpg 344w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-640x781.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-681x831.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1429px) 100vw, 1429px" />IX.</strong><br />
<em>Outras divisões, como as de classe e geração, ressurgiram de fato dentro do movimento.</em> O Conselho Militar de Transição conseguiu explorar essas tensões para abrir brechas entre a revolução e seu apoio popular, entre o acampamento e as favelas ao redor, e entre o movimento nas ruas e as organizações que o representavam. Essas separações e repúdios prepararam o cenário para o massacre de Cartum.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>X.</strong><br />
<em>As revoltas </em><em class="u"><em>geralmente</em></em><em> passam por uma sequência de “marcadores rítmicos” que servem como pivôs ou pontos de virada que catalisam novas energias.</em> A revolta do Sudão passou por pelo menos quatro: tumultos, não-violência em massa, ocupação do espaço público e uma greve geral. O ponto de ignição da revolta foi uma onda de tumultos espontâneos. Mas, para que ela se generalizasse, teve de assumir o caráter de não-violência em massa coordenada. A ocupação, as barricadas e sua defesa proporcionaram um contexto para a confraternização com os soldados, para a deserção deles e para a abertura de divisões dentro das forças armadas. A greve geral foi capaz de esclarecer até que ponto o movimento poderia mobilizar o apoio popular, mas não foi suficiente para paralisar o governo ou a economia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XI.</strong><br />
<em>As formações militantes forjadas em ondas anteriores de luta podem atuar como vetores de intensificação. </em>As revoltas contra a austeridade surgiram e desapareceram no passado. Uma diferença importante em 2018 foi a presença de organizações que se formaram após a repressão de um movimento antiausteridade em 2013. Isso inclui os comitês de resistência baseados em bairros e a Associação Profissional do Sudão (SPA). Por serem capazes de fornecer alguma infraestrutura, coordenação e determinação, esses grupos puderam contribuir para o salto do tumulto para a insurreição.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XII.</strong><br />
<em>Entretanto, essas formações também podem se tornar uma barreira que precisará ser superada. </em>As organizações que passaram a representar a revolução estavam muito mais ansiosas para entrar em negociações com o governo do que muitas das que estavam nas ruas. O SPA, por exemplo, foi formado para fazer lobby por um aumento no salário mínimo, não para liderar uma revolução, para a qual eles se sentiram arrastados pelos jovens. Eles estavam ansiosos para voltar ao normal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIII.</strong><br />
<em>A proeminência da SPA deixa claro o papel de liderança das classes médias profissionais na revolução.</em> Sudaneses de quase todas as classes e grupos sociais participaram da revolução. Mas em sua vanguarda estavam os estudantes e os profissionais. Esses grupos foram motivados tanto por sua preocupação com as condições terríveis dos pobres quanto por suas próprias expectativas frustradas. Com as condições repressivas específicas, as classes médias profissionais foram mais capazes de se organizar, fornecer alguma coordenação para um movimento nacional e articular o que parecia ser um interesse geral. Paul Mason observa em algum lugar que a Revolução Francesa de 1789 “não foi produto de pessoas pobres, mas de advogados pobres”. A revolução, portanto, pode ter menos a ver com o aumento da pauperização e mais a ver com o aumento das expectativas que não podem ser atendidas pela situação atual.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIV.</strong><br />
<em>No entanto, o curso da revolta aponta para a possibilidade de surgimento de uma política proletária autônoma. </em>Os tumultos que deram início à revolução começaram por causa do preço do pão. Os acampamentos eram habitados em grande parte pela população urbana pobre. Muitos deles tentaram ultrapassar os representantes do movimento que entraram em negociações. Em cada etapa da revolução, os proletários desempenharam um papel prático fundamental. Mas eles não conseguiram encontrar uma base para coordenar e articular suas próprias atividades de forma distinta. É possível, embora não seja certo, que surja um polo nitidamente proletário em futuros levantes que tenha confiança em sua própria iniciativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151129" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM.jpg" alt="" width="1920" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-1536x1536.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />XV.</strong><br />
Deve-se lembrar que foi necessário um ciclo inteiro de tumultos, insurreições e revoluções &#8211; de 1830 a 1848 &#8211; para que o proletariado de Paris começasse a hastear a bandeira vermelha em suas barricadas. Foi somente em 1871 que a escolha foi claramente colocada entre uma república burguesa e uma comuna proletária. Os eventos de nosso jovem século podem ser acelerados, mas essas coisas levam tempo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XVI.</strong><br />
<em>Nos acampamentos em todo o país, mas especialmente em Cartum, temos um vislumbre dos contornos emergentes da comuna.</em> Como disse um observador, esses acampamentos <em>“inadvertidamente… constituem um desafio político e social fundamental para o Estado”</em>. Ele explica melhor:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A organização e as atividades do sit-in proporcionaram um modelo igualitário e democrático sobre o qual um modelo radicalmente diferente de governança e sociedade poderia ter sido construído. Assim, constituiu o alicerce da revolução social, mas poucos participantes o entenderam como tal, e a liderança da SPA e da FFC considerou as manifestações como meramente instrumentais.” </em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XVII.</strong><br />
<em>Essa comuna parece não ter nada do formalismo democrático que deu às comunas e aos conselhos do movimento operário a qualidade de parlamentos operários adjuntos.</em> Isso talvez nos permita distinguir a futura <em>comuna destituinte</em> das <em>comunas constituintes</em> do passado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XVIII.</strong><br />
<em>Os observadores frequentemente comentavam que o acampamento de Cartum tinha mais a </em><em>sensação de um festival do que de uma </em><em>manifestação</em><em> política.</em> Palcos para apresentações de música, teatro e poesia e tendas para arte estavam espalhados por todo o acampamento. Era um lugar para fazer experimentos sobre como viver. Isso assume um caráter particularmente urgente e subversivo em um país dominado por um regime islâmico. A observação da Internacional Situacionista sobre a Comuna de Paris poderia muito bem ter se aplicado a Cartum: “A Comuna foi o maior festival do século XIX. Subjacente aos eventos daquela primavera de 1871, pode-se ver o sentimento dos insurgentes de que se tornaram os mestres de sua própria história, não tanto no nível da política &#8216;governamental&#8217;, mas no nível de sua vida cotidiana”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIX.</strong><br />
<em>Ninguém teve a coragem ou a previsão de reconhecer esse desenvolvimento pelo que ele era. </em>Para C. L. R. James, o papel dos pró-revolucionários era registrar e refletir as inovações espontâneas que surgiam no decorrer da luta. Para ele, essa era a genialidade das <em>Teses de Abril</em> de Lênin, que reconhecia um salto adiante que a classe ainda não via em suas próprias ações e tirava as conclusões necessárias: <em>todo poder aos sovietes</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XX.</strong><br />
<em>O regime militar percebeu claramente a ameaça representada pelo acampamento, o que explica a intensidade com que foi reprimido.</em> A comuna emergente é o principal inimigo do Estado. Onde quer que a comuna se reúna, haverá uma Tiananmen e, mais cedo ou mais tarde, os tanques aparecerão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151127" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/sudan_london_revolution_wp.jpg" alt="" width="600" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/sudan_london_revolution_wp.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/sudan_london_revolution_wp-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />XXI.</strong><br />
<em>Com o surgimento da comuna, suas tarefas imediatas são claras: expansão da área de autonomia, bloqueio da economia e defesa contra seus inimigos.</em> A cada novo ataque da polícia, o movimento respondia expandindo o acampamento e barricando novas estradas e pontes. Essa estratégia se torna quase intuitiva quando existe um acampamento como esse.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XXII.</strong><br />
<em>O surgimento da comuna levanta imediatamente o espectro da insurreição e, portanto, da guerra civil. </em>A dinâmica básica é a seguinte: o surgimento de acampamentos como esse aponta para a possibilidade de uma revolução social. Isso é claramente reconhecido pelo Estado, que tenta reprimi-la. Em resposta, os acampamentos tentam intuitivamente se expandir. Isso levanta a questão da insurreição. A comuna deve suprimir o Estado para evitar ser suprimida por ele. Mas a insurreição sempre implica o risco de guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XXIII.</strong><br />
<em>Um, dois, muitos Sudões.</em> A guerra social da qual a Revolução do Sudão foi um episódio ainda está sendo travada hoje. Provavelmente veremos novas tentativas de ultrapassar os limites da luta contemporânea. A cada novo experimento, poderemos ver emergir mais claramente os contornos da comuna e da autonomia proletária. Em algum momento, pode haver um avanço, em que a revolução política dê lugar à revolução social. Então, à medida que esse avanço repercute no exterior, poderemos ver a propagação de uma onda revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Todo o poder para as comunas.</em></p>
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		<title>Outra face do racismo: 5) será o racismo inerente ao capitalismo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Sep 2020 07:02:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Burundi]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Só conseguiremos ultrapassar o capitalismo quando criarmos uma sociedade daltónica. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Será que o racismo é inerente ao capitalismo? Parece-me que a questão deve ser formulada de outra maneira. Será o capitalismo incapaz de superar o racismo? Os partidários do identitarismo étnico consideram que a luta anti-racista seria, por si só, anticapitalista. No entanto, a elite da classe dos gestores parece hoje empenhada em abrir-se à diversidade étnica, tanto na administração dos principais organismos internacionais, nomeadamente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, como na administração das maiores companhias transnacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Para conhecer os projectos dos articuladores do capitalismo é útil a leitura das publicações da McKinsey, que ocupa o primeiro lugar na consultoria empresarial. Especialmente interessante para o tema deste ensaio é um artigo de 1 de Janeiro de 2015, <em>Why Diversity Matters</em>, cujas conclusões o Blog da McKinsey resumiu dizendo que «ele mostra a existência de uma relação significativa entre o desempenho das empresas e a diversidade étnica e de género das direcções das companhias». Note-se desde já que a diversidade diz apenas respeito às «direcções das companhias». Com efeito, é das elites administrativas que ali se trata. Por um lado, os autores de <em>Why Diversity Matters</em> não estavam optimistas e constataram que só em 22% das companhias britânicas os escalões superiores da administração («<em>senior-leadership teams</em>») reflectiam a composição demográfica da força de trabalho e da população do país, uma percentagem que descia para 9% no Brasil e 3% nos Estados Unidos. «Estes números», concluíram os autores, «evidenciam o trabalho que falta fazer». Noutros números, porém, eles encontraram razões para optimismo. «As nossas pesquisas mais recentes mostram que as companhias que, em termos de diversidade de género ou racial e étnica, se situam nos 25% de topo são mais propensas a ter receitas financeiras superiores às medianas nacionais no ramo». E a constatação inversa foi feita para as companhias com menor diversidade. É certo, reconheceram os autores, que uma correlação não equivale, por si só, a uma relação de causalidade, mas indica um rumo a seguir — «quando as companhias se esforçam por diversificar as chefias («<em>to diverse leadership</em>»), têm mais êxito». Chegámos assim ao cerne da questão da diversidade étnica nas empresas. Ela diz apenas respeito aos escalões superiores da administração, às chefias.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitarismos étnicos servem para mobilizar o descontentamento das massas inferiorizadas pelo racismo em prol da ascensão social de uns poucos, quer graças ao status político adquirido na militância quer graças ao status universitário obtido através de medidas que facilitam o acesso ao ensino superior, ou graças aos dois processos em conjunto. Trata-se exclusivamente de uma recomposição das elites. Vejamos o resultado de cinco décadas de integração escolar nos Estados Unidos, a <em>affirmative action</em>, acção afirmativa, a mesma política que inspirou a Fundação Ford a orientar o movimento negro brasileiro para reivindicar a obtenção de quotas nas universidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos Estados Unidos a <em>affirmative action</em> foi instaurada por várias Ordens Executivas promulgadas entre 1961 e 1967. Ora, se em 1968 as famílias negras ganhavam cerca de 60% do que ganhavam as famílias brancas e detinham um património equivalente a menos de 10% do detido por uma família branca média, a situação não mudou. Nestas circunstâncias é utópico desejar uma integração escolar massiva, porque a diferença de rendimentos continua a suscitar a segregação habitacional. Sem conseguir promover as massas, a <em>affirmative action</em>, tal como as outras medidas similares, tem como único resultado a promoção de elites. É certo que mesmo a esse nível as diferenças se mantêm, e actualmente entre os 10% de afro-americanos mais ricos o património da família mediana corresponde a menos de 1/5 do património de uma família equivalente nos 10% de americanos brancos mais ricos. Adoptando outro critério, enquanto nos Estados Unidos mais de 15% das famílias brancas detêm hoje um património superior a um milhão de dólares, só cerca de 2% das famílias negras atingiram esse patamar. Mas este é o topo da pirâmide. Se baixarmos um pouco a vista, verificamos que o acesso a boas universidades explica que nos Estados Unidos a remuneração dos profissionais negros mais bem pagos tenha ascendido continuamente nos últimos cinquenta anos, enquanto a da maior parte dos trabalhadores negros declinou em termos reais.</p>
<p style="text-align: justify;">O identitarismo étnico pretende legitimar-se afirmando que a ascensão de um maior número de pessoas dessa etnia aos escalões dirigentes na política e nos negócios teria como resultado a melhoria das condições sociais e económicas das massas daquela etnia. Mas para desmentir o argumento basta recordar a história da África nos últimos setenta anos. Os movimentos anticoloniais promoveram elites nativas e deixaram as massas trabalhadoras na mesma situação. Se eu quisesse desdobrar esta simples frase numa cadeia de factos empíricos, teria de escrever em vários volumes uma história da África contemporânea, a tal ponto ela se confunde com a  substituição das elites coloniais pelos dirigentes políticos da independência. Com a descolonização e a hegemonia alcançada pelas novas elites africanas, a clivagem económica entre estas elites e o resto da população copiou — aliás, utilizou como modelo — a antiga clivagem racial entre colonizador (branco) e colonizado (negro).</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez possa, então, resolver-se pela negativa a questão de saber se o racismo é intrínseco ao capitalismo, já que nos países africanos independentes o racismo teria desaparecido e, apesar disso, reproduziu-se a estratificação capitalista que existira na sociedade colonial.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a questão deve ser colocada de novo ao verificarmos que depois das independências o racismo não desapareceu da África sub-sahariana, apenas mudou parcialmente de protagonistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os albinos constituem um caso especial, porque lhes são atribuídos poderes mágicos, tanto positivos como negativos, na dualidade característica da simbologia religiosa. Pelo menos no Malawi e na Tanzânia as pessoas com albinismo são frequentemente assassinadas, para lhes cortarem partes do corpo e as usarem como talismã. E no Zimbabwe há quem esteja convencido de que ter relações sexuais com albinos cura a Sida (Aids). Em sentido contrário, porém, os albinos são vítimas de uma hostilidade e aversão muito generalizadas. Não se trata apenas de mitos com carácter sagrado e mágico, porque existe uma componente rácica e, distinguindo-se por uma pele clara, embora tendo uma fisionomia negróide, os albinos são frequentemente insultados como «brancos». Na primeira parte deste ensaio mencionei Chester Himes. Não o leiam, perturbar-vos-ia muito. Se já o que eu escrevo vos incomoda, imagino então Chester Himes! O seu romance <em>The Heat&#8217;s On</em> é tecido em torno de um albino, não em África, mas no Harlem. Mas serão esses dois mundos tão diferentes? No entanto, devido à conotação religiosa e arcaica, o caso dos albinos é menos elucidativo do que muitos outros casos de racismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, na África sub-sahariana independente têm sido tão frequentes e sistemáticos os confrontos entre grupos étnicos negros que pode considerar-se este tipo de racismo como um componente estrutural daquelas sociedades, e a sua análise confundir-se-ia com uma história da África contemporânea.</p>
<p style="text-align: justify;">Um caso flagrante de continuidade do racismo é o Sudão, onde a elite, tanto económica como política, tem sido sempre composta por pessoas de pele mais clara e que empregam a língua árabe, enquanto os sudaneses de pele mais escura são marginalizados ou remetidos para situações sociais e económicas inferiores. Esta divisão corresponde ao passado histórico do país, quando caçadores de escravos, de proveniência árabe ou pelo menos oriundos do império islâmico, aprisionavam as populações negras e abasteciam o tráfico humano dirigido para o Egipto e para o Médio Oriente e a zona mediterrânica do Islão. Aliás, a capital, Khartoum, foi fundada há exactamente dois séculos como um dos mais activos mercados de escravos em toda a África, e ainda hoje os negros — ou as pessoas assim consideradas pelos outros sudaneses — são chamados pejorativamente «escravos». Mesmo os jornais recorrem com frequência a esta terminologia ofensiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas como um estudo detalhado dos conflitos raciais entre etnias negras na África independente está muito para além das possibilidades deste ensaio, cingir-me-ei a alguns pontos de referência.</p>
<p style="text-align: justify;">Um artigo da autoria do Passa Palavra analisou os violentos conflitos raciais ocorridos na África do Sul, em Agosto e Setembro de 2019, entre trabalhadores negros autóctones e imigrantes negros, provocando reacções em cadeia na Zâmbia e na Nigéria. Aliás, esses confrontos situaram-se no seguimento de outros, em anos anteriores. Aquele artigo mostrou — e é um dos seus aspectos mais elucidativos — que os pretextos, os argumentos e até a terminologia a que recorreram ambos os lados em nada diferiram do que encontramos nos conflitos raciais na Europa ou nas Américas. Tal como observou o Passa Palavra, «racismo e xenofobia não têm cor».</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-133669" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-12-300x300.jpg" alt="" width="600" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-12-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-12-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-12-422x420.jpg 422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-12-640x637.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-12-681x678.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-12.jpg 686w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Depois disso, em vários países africanos repetiram-se os conflitos entre etnias negras, e limito-me aqui ao caso mais recente. Na Etiópia, nos últimos dias de Junho e no começo de Julho deste ano, o assassinato de um músico que gozava de grande popularidade no estado regional de Oromia levou a manifestações em que grupos de oromos atacaram violentamente pessoas de outras etnias e se confrontaram com as forças de segurança, resultando quase duzentas e cinquenta mortes. Subjacente aos acontecimentos está um clima de hostilidade em que os oromos, o maior grupo étnico, que compõem praticamente 1/3 da população, se consideram discriminados pelos outros grupos, menos numerosos, e acusam o primeiro-ministro, embora ele seja um oromo, de prosseguir uma política pan-etíope. Os oromos pretendem, em resumo, assegurar a supremacia racial, e com este objectivo já haviam ocorrido protestos massivos na Oromia entre 2014 e 2018.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata apenas de hostilidades, discriminações sistemáticas, no máximo confrontos que provocaram algumas dezenas de mortos, raramente centenas. A questão surge a outra luz quando se analisam os genocídios. Hoje a palavra emprega-se a torto e a direito, geralmente a torto, mas são verdadeiros genocídios que vou relatar.</p>
<p style="text-align: justify;">O Rwanda e o Burundi, dois países com uma fronteira comum, são ambos habitados por duas etnias, os Hutus, agricultores, e os Tutsis, pastores. As fricções tradicionais entre estes povos são um eco tardio do que ocorrera em todo o mundo, por vezes numa escala supracontinental, quando as movimentações dos nómadas das estepes, criadores de gado, ditaram as expansões e contracções das sociedades agrícolas sedentárias nas regiões limítrofes da Ásia e da Europa. A esta pulsação Ibn Khaldûn dedicou uma das obras máximas da historiografia. Assim, já antes da independência ocorriam confrontos periódicos entre os Hutus e os Tutsis e, como ambas as etnias povoam os dois países, os conflitos ocorridos num lado repercutem-se no outro. Em 1962, os hutus do Rwanda atacaram os tutsis e mataram muitos milhares, obrigando à fuga de muitos outros milhares para um país vizinho. A resposta massiva ocorreu exactamente dez anos depois, no Burundi, quando, de cerca de 3 milhões de hutus, cerca de 100 mil foram mortos pelos tutsis e cerca de 150 mil tiveram de se expatriar. Inevitavelmente, o massacre levou os hutus do Rwanda a exercerem represálias contra os tutsis, que fugiram em massa para outros países. Foi entre eles que se formou a Frente Patriótica do Rwanda, à qual se juntaram muitos dos tutsis que haviam fugido em 1962. Em 1990 a Frente Patriótica, em que os tutsis detinham a hegemonia, invadiu o Rwanda, agravando as fricções entre as duas etnias, e nos meses de Abril a Junho de 1994 os extremistas hutus chacinaram os tutsis.  Numa população total próxima, naquela época, de 8 milhões, cerca de 800 mil tutsis sem armas, de todos os sexos e idades, foram mortos por hutus, e enquanto 10% da população era assim massacrada, um número maior ainda de tutsis asilou-se em países vizinhos. Pouco depois, no final de Julho, a Frente Patriótica conseguiu a vitória definitiva e passou a controlar todo o país, o que por sua vez precipitou um êxodo de hutus. As outras chacinas de etnias africanas por etnias africanas, praticadas na África independente, empalidecem perante os genocídios do Rwanda e do Burundi, sobretudo se adicionarmos as vítimas de ambos os lados entre 1962 e 1994.</p>
<p style="text-align: justify;">O facto de ter havido forças políticas nativas, assim como governos estrangeiros, no contexto da Guerra Fria e dos jogos de interesses posteriores, a aproveitarem os sucessivos massacres para as suas agendas próprias e a estimularem-nos não apaga o facto de muitas centenas de milhares de africanos, movidos por pretextos racistas, terem chacinado outras centenas de milhares de africanos. Ou será que devemos absolver Hitler e os campos de extermínio do Terceiro Reich invocando as injustiças do Tratado de Versailles e a ocupação franco-belga do Ruhr?</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A questão de saber se o racismo é intrínseco ao capitalismo articula-se com outra, a de explicar por que motivo o capitalismo, até agora, nunca deixou de conjugar a mais-valia relativa (assente no aumento das qualificações dos trabalhadores e no aumento da produtividade do processo de trabalho) com a mais-valia absoluta (decorrente da estagnação das qualificações e da estagnação da produtividade).</p>
<p style="text-align: justify;">A priori, poderia afirmar-se que o capitalismo não tem interesse em qualquer tipo de segregação que impeça a mobilidade social. A metáfora que compara a ascensão social ao acto de subir uma escada que desce está estafada, mas não deixa por isso de ser exacta. Sem essa mobilidade social ascendente — que é real quando comparada com o patamar anterior e ilusória quando comparada com o desejo de subir de classe — os trabalhadores não procurariam promover-se com novas qualificações. E sem esta requalificação permanente da força de trabalho não ocorreria o aumento da produtividade, que é o mecanismo motor do crescimento económico e, ao mesmo tempo, do aumento da exploração, ou seja, da mais-valia relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Não me refiro agora aos obstáculos à diversidade étnica nas chefias e nos escalões superiores da administração, que tão apreensiva deixam a McKinsey. Refiro-me à mobilidade no interior da classe trabalhadora e à abertura de novos patamares de qualificação às etnias marginalizadas. Afinal, talvez não fosse alheio à preocupação de produtividade que sempre norteou Henry Ford o facto de ele ter adoptado relativamente ao assalariamento de negros uma orientação mais liberal do que as outras grandes companhias daquela época, a ponto de as colossais instalações fabris do Rouge terem sido as únicas no ramo automóvel onde os negros participavam em todas as operações e em todos os tipos de trabalho. Saltemos um século. Num livro recente, David Cote, que durante quinze anos foi o <em>chief executive officer</em> do conglomerado transnacional Honeywell, conta que, perante a resistência dos baixos escalões de gestores a diversificar a força de trabalho, mandava analisar estatisticamente a composição étnica da população nos locais onde estavam implantadas as fábricas da empresa e determinava que se orientassem assim os recrutamentos. David Cote considera que os efeitos foram positivos, mas experiências como esta continuam a ser pioneiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Recorrendo ao exemplo que sempre dou, comparemos dois países com populações equivalentes, o Haiti, com pouco mais de 11 milhões de habitantes, e a Suécia, com quase 10,5 milhões de habitantes. Ora, o capitalismo está interessado na Suécia, não no Haiti, como mostra a orientação seguida pelos investimentos externos directos. Medidos em milhões de dólares, os fluxos de investimentos externos directos para o Haiti tiveram um pico de 375 em 2017, em 2018 desceram para 105 e em 2019 para 75. Em comparação, para a Suécia os fluxos de investimentos externos directos, medidos igualmente em milhões de dólares, atingiram um pico em 2019, quando chegaram a 20.568, foram de 3.857 em 2018 e de 14.249 em 2017. Se os avaliarmos em <em>stocks</em>, medidos em milhões de dólares, os investimentos externos directos no Haiti foram de 95 em 2000, subindo para 625 em 2010 e para 1.925 em 2019. Na Suécia, nas mesmas datas, foram de 93.791, 352.646 e 339.543. Porquê, então, existe o Haiti, ou antes, por que motivo o Haiti, se não é rentável, não se transformou numa Suécia?</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, mantém-se a pergunta que inspirou o título deste artigo. Se aparentemente a mais-valia absoluta é indissociável da mais-valia relativa, será que o capitalismo, tal como antes gerou o nacionalismo e o racismo biológico, e gera hoje os identitarismos étnicos e sexuais, terá amanhã e sempre de gerar formas de exclusivismo e tribalismo?</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a questão é ainda mais ampla e profunda, porque nas últimas décadas, quando as manifestações colectivas explicitamente racistas se foram atenuando na prática e quando o anti-racismo adquiriu a hegemonia no campo ideológico, surgiram outras expressões de identitarismo. Na época em que vivemos, de transnacionalização económica e globalização cultural, o identitarismo é uma transposição do nacionalismo. Todos os vícios do nacionalismo se reproduzem no identitarismo, agravados por outro vício, já que as nações param nas fronteiras, mas os identitarismos não param nunca e tendem a multiplicar-se. A série LGBT é tão ilimitada que agora ostenta um fim provisório com o sinal +.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-133673" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26-300x296.jpg" alt="" width="600" height="592" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26-300x296.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26-768x758.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26-426x420.jpg 426w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26-640x632.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26-681x672.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-26.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />A questão de saber se o racismo é inerente ao capitalismo deve ser colocada de outro modo. Será que os identitarismos são inerentes ao capitalismo? De certa maneira, a resposta está indicada na própria formulação do problema, porque o capitalismo subsistirá enquanto os trabalhadores não estiverem social e politicamente unidos para o derrubar. Enquanto os trabalhadores se limitarem a ser uma classe no plano económico (reunindo todos os que alienam o controle sobre o seu próprio tempo de trabalho na relação de exploração da mais-valia), mas sem conseguirem comportar-se como uma classe no plano social e político, o capitalismo permanecerá sólido. O fraccionamento dos trabalhadores é a condição da firmeza do capitalismo. Os identitarismos — étnicos, incluindo o nacionalismo, de cor de pele ou sexuais — são a grande contribuição da esquerda para a solidez do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Iniciei este ensaio citando Ralph Wiley, um jornalista negro que se insurgiu contra quem «considere vantajoso cercar de muros as propriedades universais da humanidade, convertendo-as em domínios tribais exclusivos». Cheguei ao fim e fecho o círculo:</p>
<p>Só conseguiremos ultrapassar o capitalismo quando criarmos uma sociedade daltónica.</p>
<p><strong>Bibliografia</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quanto à McKinsey</strong>, o trecho do Blog de 26 de Janeiro de 2015 encontra-se <a href="https://www.mckinsey.com/about-us/new-at-mckinsey-blog/the-many-faces-of-diversity" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>. O artigo de Vivian HUNT, Dennis LAYTON e Sara PRINCE, «Why Diversity Matters», <em>McKinsey</em>, 1 de Janeiro de 2015 encontra-se <a href="https://www.mckinsey.com/business-functions/organization/our-insights/why-diversity-matters" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>. <strong>Sobre os resultados da <em>affirmative action</em> nos Estados Unidos</strong> ver <em>The Economist</em> de 9 de Julho de 2020 <a href="https://www.economist.com/leaders/2020/07/09/the-new-ideology-of-race" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a> e <a href="https://www.economist.com/briefing/2020/07/09/segregation-still-blights-the-lives-of-african-americans" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>, e de 22 de Agosto de 2020 <a href="https://www.economist.com/united-states/2020/08/22/americas-black-upper-class-and-black-lives-matter" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>. <strong>Sobre a situação dos albinos</strong> em África ver um artigo da Associated Press de <a href="https://news.yahoo.com/zimbabwe-people-albinism-struggle-against-071021557.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">13 de Junho de 2020</a>. <strong>Sobre a situação no Sudão</strong> encontra-se uma síntese em <em>BBC News</em>, <a href="https://www.bbc.com/news/world-africa-53147864" target="_blank" rel="noopener noreferrer">26 de Julho de 2020</a>. <strong>Sobre os conflitos entre trabalhadores locais e imigrantes</strong> na África do Sul, na Zâmbia e na Nigéria ver PASSA PALAVRA, «<a href="https://passapalavra.info/2019/09/128220/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Racismo Negro Antinegro na África</a>», <em>Passa Palavra</em>, 10 de Setembro de 2019. <strong>Sobre os conflitos provocados pelos oromos na Etiópia</strong> ver: <em>El País</em>, <a href="https://elpais.com/internacional/2020-07-01/mas-de-50-muertos-en-etiopia-en-los-disturbios-por-el-asesinato-de-un-musico.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">1 de Julho de 2020</a>; <em>Bloomberg</em>, <a href="https://news.yahoo.com/ethiopias-nobel-winner-cant-rest-125513623.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">3 de Julho de 2020</a>; <em>The Economist</em>, <a href="https://www.economist.com/middle-east-and-africa/2020/07/05/a-musicians-murder-sparks-mayhem-in-ethiopia" target="_blank" rel="noopener noreferrer">5 de Julho de 2020</a> e <a href="https://www.economist.com/middle-east-and-africa/2020/09/19/ethiopias-democratic-transition-is-in-peril" target="_blank" rel="noopener noreferrer">19 de Setembro de 2020</a>. <strong>Sobre os genocídios no Rwanda e no Burundi</strong> consultar: J. D. FAGE, <em>A History of Africa</em>, 2 vols., Londres: The Folio Society, 2008; Marc LEVENE, «Genocide», em Merry E. Wiesner-Hanks (org.) <em>The Cambridge World History</em>, vol. VII: J. R. McNeill e Kenneth Pomeranz (orgs.) <em>Production, Destruction, and Connection, 1750 – Present</em>, Parte I: <em>Structures, Spaces, and Boundary Making</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2015. A obra de IBN KHALDÛN que mencionei é <em>Discours sur l’Histoire Universelle (Al-Muqaddima)</em>, 3 vols., Beirute: Commission Internationale [depois: Libanaise] pour la Traduction des Chefs-d’Oeuvre, 1967-1968. <strong>Sobre Ford e a mão-de-obra negra</strong> consultar: Allan NEVINS e Frank Ernest HILL, <em>Ford. Expansion and Challenge, 1915-1933</em>, Nova Iorque: Charles Scribner’s Sons, 1957; Bernhard RIEGER, «The Automobile», em Merry E. Wiesner-Hanks (org.) <em>The Cambridge World History</em>, vol. VII: J. R. McNeill e Kenneth Pomeranz (orgs.) <em>Production, Destruction, and Connection, 1750 – Present</em>, Parte II: <em>Shared Transformations?</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2015. <strong>Sobre o livro de David Cote</strong> ver <em>The Economist</em> de <a href="https://www.economist.com/business/2020/09/12/management-lessons-from-honeywells-former-ceo" target="_blank" rel="noopener noreferrer">12 de Setembro de 2020</a>. <strong>Para a comparação entre o Haiti e a Suécia</strong> ver UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT, UNCTAD, <a href="https://unctad.org/en/PublicationsLibrary/wir2020_en.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><em>World Investment Report 2020. International Production beyond the Pandemic</em></a>, Nova Iorque: United Nations Publications, 2020.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-133559" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-70x70.jpg" alt="" width="85" height="85" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe-681x681.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/08/Mapplethorpe.jpg 800w" sizes="auto, (max-width: 85px) 100vw, 85px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Exceptuando as imagens que dizem directamente respeito ao texto, as cinco partes do ensaio </em>Outra face do racismo<em> são ilustradas com fotografias de Robert Mapplethorpe</em>.</p>
<p>O ensaio <em>Outra face do racismo</em> divide-se em cinco partes:<br />
1) <a href="https://passapalavra.info/2020/08/133549/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">o Tolstoy dos Zulus</a><br />
2) <a href="https://passapalavra.info/2020/08/133573/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">o ressentimento substituiu a história</a><br />
3) <a href="https://passapalavra.info/2020/09/133608/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">foram os racistas quem criou as raças</a><br />
4) <a href="https://passapalavra.info/2020/09/133628/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">o mito do eurocentrismo</a><br />
5) será o racismo inerente ao capitalismo?</p>
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