Por João Bernardo

Numa entrevista publicada no New York Times Magazine, em 1988, Saul Bellow troçou: «Quem é o Tolstoy dos Zulus? O Proust dos Papuas? Gostaria de os ler». Saul Bellow obtivera o Prémio Nobel da Literatura em 1976, além de outros prémios e distinções, e as suas opiniões conservadoras eram e são bem conhecidas. Mas vivia-se numa época em que o politicamente correcto não existia ainda e os racistas podiam expressar-se de forma clara, ou seja, era mais fácil criticá-los. Ao sarcasmo do célebre escritor, o jornalista negro Ralph Wiley responderia quase uma dezena de anos depois: «Tolstoy é o Tolstoy dos Zulus. A não ser que se considere vantajoso cercar de muros as propriedades universais da humanidade, convertendo-as em domínios tribais exclusivos». Esta resposta de um negro universalista a um branco racista deve servir-nos de espelho para apreciar o movimento negro actual, e aliás todas as modalidades actuais de identitarismo, que cercam de muros as propriedades universais da humanidade e as convertem em domínios tribais exclusivos.

Curiosamente, o desprezo manifestado por Saul Bellow continua a ser-nos familiar, enquanto a réplica de Ralph Wiley parece pertencer a outro mundo. A ribalta, e mesmo o palco inteiro, são ocupados hoje por autores como Ibram X. Kendi, director do Centro de Estudos Anti-Racistas da Universidade de Boston, para quem a ideia de universalismo é um ardil dos brancos e a fusão de culturas corresponde a «uma linchagem das culturas negras». Como se tradições fictícias atribuídas a povos com quem os afro-americanos nunca conviveram fossem mais reais do que, por exemplo, as páginas de Chester Himes. Por que motivo, aliás, este escritor negro norte-americano parece esquecido? Blind Man with a Pistol (traduzido no Brasil estupidamente, como é habitual, com o título O Harlem É Escuro) seria uma leitura urgente, o que significa que ninguém vai ler. Mas, como sempre no racismo, seja qual for a cor de pele que promova, cultura e biologia confundem-se, e tal como a fusão de culturas pode ser apresentada como uma linchagem cultural, do mesmo modo num desfile na Avenida Paulista em 20 de Novembro de 2017, Dia Nacional da Consciência Negra, uma faixa proclamou que «Miscigenação também é genocídio». A actual histeria desencadeada no movimento negro brasileiro pela perseguição aos «falsos quotistas» não é mais do que uma transposição para os termos realistas do mercado de trabalho do que é apresentado em termos ideológicos como hostilidade aos mestiços. As pretensas divisões raciais tomam como alvo a concorrência entre trabalhadores.

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A atribuição de uma cultura a uma biologia e, inversamente, a restrição dessa cultura a essa biologia, que definem o racismo moderno e marcaram tragicamente as modalidades racistas do fascismo, têm raízes profundas no movimento negro. Quando em 1937, três anos antes de morrer, Marcus Garvey traçou o resumo da sua biografia e da organização que fundara, dizendo que «nós fomos os primeiros fascistas» e que «Mussolini copiou de mim o fascismo», não foi apenas a jactância que o caracterizava. O ponto de partida de Garvey, que lhe serviu sempre de linha condutora, consistiu na recusa da fusão de culturas e da miscigenação biológica.

Mas os negros nos Estados Unidos eram demasiado numerosos para ficarem confinados em ghettos. O recrutamento militar de brancos, devido à participação norte-americana na primeira guerra mundial, permitiu que os negros encontrassem mais facilmente lugares nas fábricas e, além disso, o elevado crescimento económico no período de 1916 a 1918 e durante a primeira metade da década seguinte exigiu quantidades massivas de mão-de-obra não qualificada. Por outro lado, a descida dos preços do algodão no mercado mundial contribuiu para estimular os negros a abandonarem os estados do sul. Nestas condições, o fluxo migratório atingiu uma dimensão sem precedentes e calcula-se que entre 1916 e 1918 cerca de meio milhão de negros se tivesse deslocado para os centros industriais do norte do país. Em Chicago, por exemplo, enquanto o número de habitantes brancos aumentou de pouco mais de 20% entre 1910 e 1920, a população negra cresceu quase 150%. Pretendendo manter a separação étnica e perante a impossibilidade de formar ghettos, Garvey indicou como solução a ida para África. A partir de 1920 foi este o tema exclusivo da Universal Negro Improvement Association (UNIA, Associação Universal para a Promoção dos Negros), que Garvey fundara em 1914.

O combate à fusão cultural era também entendido como uma luta contra a miscigenação biológica, já que para estimular o regresso a África seria necessário aprofundar a clivagem entre os negros norte-americanos e a restante população do país. Foi por este motivo que Garvey adoptou teses racistas extremas, defendendo a segregação, opondo-se à miscigenação e excluindo os mestiços do seu movimento. «Eu acredito numa raça negra pura», declarou ele, «tal como todos os brancos que se prezam acreditam numa raça branca tanto quanto possível pura». E disse de novo, em 1923, «eu acredito na pureza racial e na conservação dos padrões de pureza racial», insistindo publicamente nos mesmos princípios seis anos depois. Garvey nem sequer hesitou perante as condições políticas exigidas pelo seu segregacionismo e enviou um telegrama de felicitações ao presidente Warren G. Harding quando ele, em Outubro de 1921, se declarou contrário à mestiçagem e favorável à segregação. Do mesmo modo, a UNIA apoiou uma proposta de lei apresentada por um senador da direita racista, que propunha o repatriamento para África de todos os negros norte-americanos. Embora por razões opostas, observou Garvey, os objectivos de ambos eram convergentes. Assim se explica que Garvey tivesse beneficiado da aprovação do Ku Klux Klan e de outras organizações racistas brancas, cujos representantes foram frequentemente convidados a discursar nos comícios da UNIA. «A Sociedade Americana Branca, os Clubes Anglo-Saxónicos e o Ku Klux Klan gozam de todo o meu apoio na sua luta por uma raça pura», afirmou Garvey sem rodeios, «no mesmo momento em que nós estamos a lutar por uma raça negra pura». Aliás, não lhe bastando os elogios públicos, Garvey encetou conversações secretas com delegados do Klan e deslocou-se a Atlanta em 1922 para se encontrar com o seu chefe supremo. Este segregacionismo teve repercussões do outro lado do Atlântico e em 1921 uma organização da extrema-direita racista, a Liga de Emergência Alemã contra o Horror Negro, procurou obter o apoio de Garvey na campanha para que os militares senegaleses fossem retirados das tropas francesas aquarteladas na Renânia. Também Alfred Rosenberg, doutrinador oficial do nacional-socialismo, no seu livro mais importante, publicado em 1930, aprovou a migração dos negros norte-americanos para colonizarem a África.

Para fornecer uma infra-estrutura económica ao regresso a África, Garvey criou várias empresas, principalmente a Black Star Steamship Line, uma companhia de transportes marítimos sob a forma de sociedade por acções e sustentada exclusivamente por capitais negros, e ainda a Negro Factories Corporation, cujo capital também estava reservado aos negros e que tinha por objectivo fundar e explorar empreendimentos nos grandes centros industriais dos Estados Unidos, da América Central e da África. Aliás, como observou Edmund Cronon, «a própria organização da Universal Negro Improvement Association obedecia aos mesmos princípios de qualquer negócio». Mas as aspirações económicas de Garvey eram ainda mais desmedidas do que os seus sonhos políticos e em Fevereiro de 1925 foi condenado por fraudes relacionadas com a Black Star Line, ficando preso durante quase três anos e sendo finalmente expulso dos Estados Unidos no final de 1927. Chester Himes reflectiu sobre tudo isto num romance de 1965, Cotton Comes to Harlem.

Assim como havia procurado a aliança da extrema-direita branca, Garvey hostilizara a esquerda e o movimento sindical, tanto branco como negro, incitando os adeptos da UNIA a dispersarem pela força os comícios da esquerda. Ele defendia que eram os operários brancos os verdadeiros rivais dos operários negros e que, enquanto a comunidade negra não tivesse conseguido desenvolver uma economia capitalista independente da sociedade branca, os operários negros tinham interesse em manter os seus salários num nível inferior ao dos brancos, para serem competitivos no mercado de trabalho. E em Agosto de 1929, num debate público com um representante do sindicalismo negro, Garvey declarou que os negros deviam acumular o seu próprio capital, para que os trabalhadores negros exercessem a actividade em benefício de patrões da mesma cor. A UNIA apresentava-se, em suma, como quadro de uma solidariedade entre trabalhadores negros e capitalistas negros.

Nestas condições é lógico que Garvey tivesse conferido à UNIA uma estrutura fascista, com milícias uniformizadas e dispondo até de uma Igreja própria, a Igreja Ortodoxa Africana, encabeçada por um patriarca consagrado expressamente. Um movimento capitalista, obedecendo a critérios de recrutamento étnicos e apresentando como via de salvação uma expansão territorial conduzida em termos raciais deve ser considerado como uma primeira edição do nacional-socialismo. Garvey pôde legitimamente proclamar em 1937: «Nós fomos os primeiros fascistas. Disciplinámos homens, mulheres e crianças e preparámo-los para a libertação da África. As massas negras viram que só neste nacionalismo extremo podiam depositar as suas esperanças e apoiaram-no de imediato. Mussolini copiou de mim o fascismo, mas os reaccionários negros sabotaram-no».

Não é ocasional a semelhança entre as noções de Garvey e as do movimento negro contemporâneo, no Brasil e noutros países. A UNIA mobilizou nos Estados Unidos um número de participantes que só viria a ser ultrapassado pela campanha dos direitos cívicos durante a década de 1960 e, como conseguiu ter filiados praticamente por todo o mundo, é ainda hoje um caso ímpar, deixando uma enorme influência. Nem sequer se trata aqui do que eu classifico como fascismo pós-fascista, mas da continuidade ininterrupta de um fascismo clássico, tanto mais que, vista com desconfiança pelos principais homens de negócios negros, a UNIA encontrou a sua base de apoio entre o proletariado negro das cidades do norte e do leste do país. Como sempre sucede no fascismo, a insatisfação proletária teve eco na política nacionalista, e foi como «nacionalismo extremo» que Garvey apresentou a sua actuação, ficando traçada uma linha de evolução contínua entre a UNIA e a hostilidade à fusão cultural enunciada por Ibram X. Kendi ou a aversão à mestiçagem biológica proclamada na principal avenida de São Paulo em 20 de Novembro de 2017.

Mas em cem anos muita coisa mudou, tanto na economia mundial como na organização interna das classes sociais e nas relações entre elas. O objectivo da UNIA era conduzir os negros norte-americanos para África, onde seriam uma nova elite e, nas palavras de Garvey, iriam «ajudar a civilizar as tribos africanas atrasadas». Hoje, qual pode ser o objectivo desse «nacionalismo extremo» negro? O elitismo mantém-se, não já perante «tribos africanas atrasadas», mas perante a população comum, enquanto os principais articuladores do movimento negro procuram alçar-se aos postos dominantes. Para isso as técnicas do nacionalismo mantêm-se também, embora a transnacionalização da economia tenha multiplicado o nacionalismo em variados identitarismos, mas trata-se da mesma mobilização de massas descontentes em prol da ascensão dos dirigentes contestatários. Todavia, este processo de renovação das elites ocorre agora num mundo integrado, onde já não existe espaço para regressos a África. Por isso a modalidade actual de garveísmo adquiriu uma faceta suplementar — a hipocrisia.

Essa hipocrisia consiste no facto de as elites em ascensão promovidas pelo movimento negro aceitarem o universalismo técnico em que a economia se fundamenta e até as suas instituições, mas ao mesmo tempo considerarem «linchagem» a fusão de culturas pressuposta naquele universalismo. As quotas, ou políticas similares, asseguram lugares em estabelecimentos de ensino e em empresas de modelo europeu e norte-americano. A electrónica, os computadores e as sucessivas gerações de telemóveis (celulares) foram gerados a partir de uma base científica originariamente europeia e norte-americana. Do mesmo modo, a medicina actual nada deve às mezinhas tradicionais; até a modalidade moderna de bruxaria, a psicanálise, é de raiz austríaca e não provém dos antigos xamãs. As tradições reais ou fictícias invocadas pelo identitarismo étnico contestam o universalismo cultural e a miscigenação biológica, mas não recusam o universalismo técnico e empresarial. Pelo contrário, pretendem assegurar a ascensão de pessoas negras no quadro económico e técnico agora existente, para integrarem uma elite onde antes os brancos detinham o exclusivo. Neste contexto o racismo mantém-se, apenas os sinais se invertem.

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Aparentemente há um movimento imune àquela hipocrisia identitária — o Boko Haram. A expressão significa, na língua dos Hausa, a educação ocidental é pecaminosa, ou é proibida, embora em certa ocasião o movimento tivesse adoptado a designação mais extensa Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad, o que significa os dedicados à propagação dos ensinamentos do Profeta e à jihad. O movimento nasceu em 2002 em Maiduguri, capital do Borno, um estado no nordeste da Nigéria, por iniciativa de Muhammad Yusuf, um imam que rejeitava o darwinismo e defendia que a terra é plana, o que aliás não o distinguia de muita outra gente. Yusuf foi executado em 2009 pelas forças de segurança e, como sucede em tantos casos, foi mais eficaz morto do que vivo, porque nesse ano o movimento converteu-se numa insurreição violenta e expandiu-se para as regiões nigerianas vizinhas e ainda para os três países limítrofes.

Além do contraste étnico e religioso entre o norte da Nigéria, predominantemente muçulmano, e o sul cristão, as diferenças económicas são também acentuadas. Com infra-estruturas precárias e uma indústria arruinada, o rendimento per capita no norte corresponde a metade do verificado no sul. E enquanto a taxa de alfabetização na principal cidade do país, Lagos, é de 92%, é de 49% em Kano, a principal cidade do norte. No Borno a situação é pior ainda, com uma taxa de alfabetização de 15%, o que não espanta, porque a taxa de escolaridade é 75% inferior à verificada no sul, e nalgumas regiões do Borno menos de 5% das mulheres sabem ler e escrever. O Boko Haram pretende ser a voz destes deserdados, e quanto maior é a ignorância, mais fácil é a mobilização em prol das convicções tradicionais.

Reivindicando a aplicação estrita da lei islâmica, a sharia, o Boko Haram dirige as suas acções armadas contra as igrejas cristãs e contra mesquitas onde o culto islâmico adopte outras orientações, e igualmente contra cinemas, bares e em geral tudo o que faça parte da sociedade urbana moderna. O Boko Haram tem deixado um rasto de milhares de mortos, talvez quarenta mil até aos meados de 2020, e levado consigo milhares de sequestrados. Desde o começo da insurreição em 2009 e até ao final de 2016 raptou mais de dez mil rapazes, para os treinar como guerrilheiros. Os restantes sequestrados, ou são libertados contra o pagamento de resgates ou vendidos como escravos. É curioso que a indignação perante os horrores de certa escravização ocorrida há séculos deixe ignorar esta contemporânea caça aos escravos.

Mas é sobretudo contra as escolas que não obedeçam ao estrito modelo islâmico que têm sido mais notórias as operações desses indómitos defensores de uma Epistemologia do Sul. Numa noite de Março de 2014 o Boko Haram matou cerca de quatro dezenas de estudantes no estado de Yobe, lançando fogo a um dormitório cujas portas havia trancado e disparando contra quem tentava saltar pelas janelas. Em consequência disso, o governo do vizinho estado de Borno decidiu fechar todas as escolas secundárias, o que afectou 120.000 estudantes numa região em que a taxa de escolaridade é já baixíssima. No mês seguinte, durante um ataque à pequena cidade de Chibok, no Borno, o Boko Haram raptou 276 meninas, alunas de uma escola onde o ensino seguia os métodos ocidentais. Algumas morreram, poucas dezenas conseguiram fugir e as restantes 219 ou foram entregues como noivas a homens do movimento ou vendidas como escravas. Passados mais de três anos e depois de muitas diligências para a sua libertação, ainda continuavam escravizadas 112 dessas meninas. Segundo a Amnesty International, entre o começo de 2014 e a Primavera de 2015 mais de duas mil mulheres foram sequestradas pelo Boko Haram, e de então em diante muitas outras têm sofrido o mesmo destino. É curioso que as feministas ocidentais que em 2017 inventaram o #metoo a propósito de um magnate de Hollywood fiquem indiferentes perante estes casos de escravização em massa. Como sempre sucede, os silêncios são a componente decisiva das ideologias. Mais recentemente, em Março de 2018, e graças a uma das raras intervenções com êxito do exército nigeriano, o Boko Haram libertou a maior parte das 110 meninas que no mês anterior tinha raptado de uma escola.

Poder-se-á dizer, então, que o Boko Haram não partilha a hipocrisia identitária e, além de recusar o universalismo cultural, rejeita também a tecnologia proveniente de outras culturas? Nem isso, porque o Boko Haram tanto emprega o armamento inventado e produzido pelos infiéis que odeia como se mostra sofisticado no uso de computadores e no recurso à internet. Quando uma vez lhe perguntaram se não seria uma incoerência ter em sua casa computadores e material médico moderno, o fundador do movimento, o imam Yusuf, respondeu: «São produtos tecnológicos. A educação ocidental é diferente. A educação ocidental é uma ocidentalização».

A comparação do Boko Haram com os identitarismos étnicos que grassam na Europa e nas Américas não serve apenas para salientar a miopia que os atinge perante certos horrores, desde que sejam perpetrados em África. Serve também para avaliar a hipocrisia dos participantes no movimento negro contemporâneo, que rejeitam como nociva a cultura ocidental, mas excluem dessa rejeição os aspectos técnicos e empresariais que directamente os beneficiam. Esta hipocrisia constitui o núcleo silencioso dos identitarismos, e é a partir dele que devemos prosseguir a crítica.

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Na realidade, o carácter universal da civilização nem sequer nasceu com o capitalismo. A clássica obra monumental de James George Frazer, The Golden Bough, bem como os estudos de Mircea Eliade, para me limitar a estes dois autores, mostram que os mesmos mitos e rituais simbólicos se encontraram em povos que nunca haviam mantido relações directas. Muito antes de se ter constituído uma economia mundial e independentemente de redes sistemáticas de comércio ou de expansões imperiais já a cultura existia num âmbito universal, e é precisamente para impedir esta conclusão, tão funesta aos identitarismos, que o pós-modernismo desincentiva a história comparada e se dedica a cortar a história em fatias.

Mas a melhor demonstração do carácter global da evolução das sociedades humanas obtém-se confrontando as Américas pré-colombianas e o resto do mundo, inteiramente separados durante milhares de anos. É esta a mais eloquente prova da existência de leis históricas universais. Se o marxismo, perdão, se os marxistas não se tivessem rendido tão abjectamente ao pós-modernismo identitário, não se esqueceriam de invocar esse argumento incontroverso. A interpretação da escrita dos Mayas é um exemplo esclarecedor. No começo da década de 1950 o linguista soviético Yuri Knorozov sugeriu que vários caracteres mayas, ou glifos, representariam sílabas e poderiam ser combinados para formar palavras, de modo que o sentido dos componentes seria irrelevante para o sentido do composto, tal como sucedera na escrita das sociedades euro-asiáticas. Os adversários desta interpretação fonética da escrita maya tachavam-na de marxismo, por admitir leis de evolução comuns para todas as sociedades, mas foi a interpretação de Knorozov que acabou por ser aceite no meio académico, sem que aparentemente os marxistas actuais entendam a importância deste facto para confirmar a universalidade das leis históricas e da evolução das sociedades.

Bibliografia

A observação de Saul Bellow e a réplica de Ralph Wiley encontram-se tão facilmente na internet que é escusado citar fontes. A citação de Ibram X. Kendi encontra-se aqui. Sobre a faixa exibida em 20 de Novembro de 2017 na Avenida Paulista ver aqui. Sobre a perseguição aos «falsos quotistas» ver aqui e aqui. Sobre Marcus Garvey e a UNIA consultar: Edmund David CRONON, Black Moses. The Story of Marcus Garvey and the Universal Negro Improvement Association, Madison e Londres: University of Wiscosin Press, 1968; Arthur HERMAN, The Idea of Decline in Western History, Nova Iorque: The Free Press, 1997; George PADMORE, Panafricanisme ou Communisme? La Prochaîne Lutte pour l’Afrique, Paris: Présence Africaine, 1960. A aprovação de Alfred Rosenberg encontra-se na sua obra The Myth of the Twentieth Century. An Evaluation of the Spiritual-Intellectual Confrontations of Our Age, págs. 450 e 452-453, aqui. A respeito do Boko Haram consultei sobretudo The Economist de 27 de Agosto de 2011, de 29 de Setembro de 2012, de 2 de Maio de 2013, de 30 de Novembro de 2013, de 21 de Março de 2014, de 4 de Julho de 2014, de 19 de Janeiro de 2015, de 22 de Janeiro de 2015, de 26 de Março de 2015, de 19 de Maio de 2016, de 11 de Agosto de 2016, de 5 de Novembro de 2016, de 30 de Novembro de 2017, de 22 de Março de 2018, de 24 de Novembro de 2018 e de 4 de Junho de 2020. Sobre a escrita dos Mayas consultei Norman HAMMOND, The Maya, Londres: The Folio Society, 2000.

 

Exceptuando as imagens que dizem directamente respeito ao texto, as cinco partes do ensaio Outra face do racismo são ilustradas com fotografias de Robert Mapplethorpe.

O ensaio Outra face do racismo divide-se em cinco partes:
1) o Tolstoy dos Zulus
2) o ressentimento substituiu a história
3) foram os racistas quem criou as raças
4) o mito do eurocentrismo
5) será o racismo inerente ao capitalismo?

38 COMENTÁRIOS

  1. Mais uma grande contribuição de JB para o desmascaramento do caráter fascista do identitarismo. Aguardo com grandes expectativas a sequência da série. Outra informação importante é a origem da noção de “identidade racial” (Artgleichheit), em Carl Schmitt, notório jurista nazista. Se o João tiver como discorrer sobre isso seria interessante… Mas, tal fato, provavelmente ignorado pelos identitários, de forma alguma constituiria um problema a esses movimentos se viessem a ter ciência do mesmo. Afinal, existem “identidades raciais” de “direita” e de “esquerda”, não?

  2. João Bernardo,

    excelente texto. O culto messiânico a Garvey impede qualquer discussão sobre a sua trajetória e isso é sintomático do que você pontua no texto.
    Gostaria de saber se, em alguma das partes do ensaio, haverá uma discussão sobre um personagem que tem certa influência sobre o movimento negro brasileiro: Carlos Moore.
    Moore prega a inevitabilidade histórica do racismo, independentemente da formação social, bem como que as raças existiriam desde os mais remotos tempos. Não por acaso, é também um notório anticomunista e antimarxista.

    Saudações,
    João Marques

  3. Irado,

    É curioso que Carl Schmitt seja frequentemente considerado como o principal jurista do Terceiro Reich, quando, na verdade, ele era mais mussoliniano do que hitleriano. Schmitt estava associado ao que eu poderia chamar o fascismo social alemão, representado pelas SA, nomeadamente quando estiveram sob o comando de Röhm, e pela corrente do partido nacional-socialista encabeçada por Gregor Strasser. Mas esta vertente social do nacional-socialismo foi liquidada na noite de Junho para Julho de 1934 e a partir de então a hegemonia absoluta coube a Hitler e aos SS, representando o fascismo racial. Schmitt conseguiu sobreviver sem grandes incómodos, era um homem adaptável, mas os principais juristas do racismo hitleriano foram personagens como Ernst Rudolf Huber, Reinhard Höhn, Hans Frank e Gottfried Neesse. Para os fascistas elitistas, como Ernst von Salomon ou Ernst Jünger, o fascismo racial era considerado democrático, porque atribuía a supremacia à globalidade do povo entendido como raça, enquanto eles defendiam um fascismo altamente hierarquizado, com um Estado que representasse o comando da elite sobre o povo. Esta antítese foi bem exposta pelo italiano Julius Evola, que eu defino como meta-fascista. Aliás, Höhn é um personagem curioso, porque em 1956 fundou uma das mais reputadas academias alemãs para directores de empresa.

    Encontram-se com facilidade na internet obras destes autores e sobre eles. Evola, por exemplo, é dos mais bem documentados. E, evidentemente, a leitura de Mein Kampf, de Hitler, é imprescindível. Não foi por qualquer dedução teórica que eu cheguei à conclusão de que os identitarismos são fascismos do pós-fascismo. Foi lendo estes autores, acima de tudo Hitler e Evola, e ainda os fascistas franceses, cujas obras se encontram com facilidade na internet — mas sendo preciso saber francês. O livro feito com base nas conversas de prisão entre Lucien Rebatet e Pierre-Antoine Cousteau, ambos condenados à morte e tendo depois a pena comutada (Dialogue de «Vaincus», Paris: Berg International, 1999), dois expoentes do fascismo radical, é um manancial de reflexões para entender o pós-fascismo.

    Mas especialmente interessante é a literatura emanada dos SS, porque reúne o identitarismo étnico, o misticismo pagão e a agricultura orgânica, fornecendo-nos a chave para entendermos uma constelação de noções que aparecem hoje associadas, já que a New Age está frequentemente ligada tanto à ecologia dita profunda como ao identitarismo. Aliás, no Brasil, quando o movimento negro promove o candomblé e outros rituais mágicos semelhantes, faz exactamente o mesmo que os SS faziam ao pretenderem ressuscitar as mitologias e os rituais nórdicos, fundando neles um neopaganismo, que opunham ao cristianismo, considerado levantino e não nórdico.

    * * *

    João Marques,

    Não irei mencionar Carlos Moore e você verá, se tiver paciência de ler este ensaio até ao fim, que discorrerei mais sobre factos do que sobre autores, fazendo até digressões por campos, como as artes plásticas, que com frequência são relegados da análise histórica, quando precisamente contribuiriam para esclarecer muita coisa. Mas é curioso ver que Moore esteve ligado à UNITA de Jonas Savimbi, um maoísta racista que mais tarde haveria de conduzir em Angola uma longa e mortífera guerra civil contra o MPLA, da qual saiu derrotado e, no final, morto. O curioso é que o MPLA, apoiado pelos soviéticos e, no terreno, por tropas cubanas, não era — como aliás não é — racista, enquanto a UNITA, defendendo um extremo racismo negro, era apoiada política e militarmente pela África do Sul do apartheid.

    É fundamental para o movimento negro ignorar a África, senão teria de fazer reflexões muito incómodas. Voltarei neste ensaio a essa questão.

  4. Parabéns pelo ensaio incrível, só fiquei confuso com o título: Tolstoy refutou o racismo científico, não entendi a comparação. Se puder explicar, serei grato!

  5. João Bernardo,

    Mais um texto excepcional. Aguardando anciosamente as próximas partes.

    Duas frases do texto me chamaram a atenção e gostaria de saber se você teria indicações de leituras para aprofundar mais na temática.
    A) “A modalidade moderna de bruxaria, a psicanálise, é de raiz austríaca e não provém dos antigos xamãs.”
    B) “Eloquente prova da existência de leis históricas universais.”

    Abraços!

  6. Anderson Errerias,
    Saul Bellow queria dizer que os Zulus e os Papuas eram povos sem mérito porque não tinham gerado escritores como Lev Tolstoy e Marcel Proust. Por seu lado, Ralph Wiley respondeu que Tolstoy não pertencia exclusivamente à Rússia nem Proust à França, mas eram escritores universais e, portanto, pertenciam também aos Papuas e aos Zulus, como aos demais povos. Ora, os pós-modernos fraccionando a história e os identitários fraccionando a humanidade destroem a noção de universalidade.

    Leo Nobu,
    Infelizmente, não vou poder satisfazê-lo. A primeira frase é uma ironia dirigida à psicanálise, que eu — tal como várias outras pessoas — considero inteiramente desprovida de fundamento científico. Quanto à segunda frase, sobre a universalidade das grandes leis históricas, é-me impossível citar a bibliografia, de tão extensa que ela é. Limito-me a algumas indicações. Karl Marx concebeu um modelo historiográfico de aplicação universal e os historiadores marxistas desenvolveram esta perspectiva em numerosas aplicações concretas. Fora da área do marxismo, na primeira metade do século XX Marc Bloch descobriu que os resultados dos estudos antropológicos de Marcel Mauss podiam ser aplicados ao regime senhorial europeu, rompendo assim barreiras que tradicionalmente opunham os povos primitivos e os civilizados. Esta perspectiva foi tão chocante que a obra em que Marc Bloch a levou mais longe, Les Rois Thaumaturges, é menos conhecida do que as suas outras obras. A noção da universalidade das leis históricas manteve-se, sobretudo entre os marxistas, mas não só, até que o pós-modernismo, com as suas sequelas identitárias, tomou conta dos departamentos universitários dedicados aos estudos sociais. A partir de então o marxismo universitário dissolveu-se e transformou-se em adjectivo a adicionar ao nome de cada identidade.

  7. JB parece viver num mundo paralelo em que o chamado movimento negro só lê Garvey, quando na realidade, desde que o garveysmo surgiu também foi muito criticado por diferentes tradições do movimento negro e dos trabalhadores, muitos inclusive marxistas. Mas estes parece que não existem para JB, que acha que esta inventando a roda com suas críticas e seu delírio de reduzir a totalidade do movimento negro ao fascismo (num Brasil que tem militantes negros assassinados com alguma frequência por outro fascismo mais real..). Não é a primeira vez que se lê absurdos desse por aqui – um site em que se lê acusações delirantes de que as meninas do MPL seriam fascistas – mas o erro e a estupidez na análise política parecem mesmo não ter limites…

    Qualquer um que tenha saído da toca daqueles que por motivos obscuros parecem estar com medo ou ressentidos de serem chamados de racistas, e conheça minimamente o movimento negro contemporâneo sabe que, de forma alguma Garvey é unanimidade, mesmo que efetivamente cause grandes estragos mas, ao contrário do afirmado, está longe de ser hegemônico no movimento negro. Inclusive, hoje, sequer deve ser o maior dos nossos problemas, mas da miríade de burocratas negros que se vê hoje foi o que JB preferiu usar pra escrever suas questionáveis ficções.

    É correto bater no Garvey, e o próprio movimento negro há muito também crítica o garveysmo, e não se dá pra fazer a mesma crítica que é levanta aqui contra Fanon, Cesaire, Clóvis Moura, Lélia Gonzales, Angela Davis, Cedric Robinson, Silvio de Almeira, etc… E não dá pra dizer que esses autores sejam irrelevantes no movimento negro contemporâneo, pelo contrário, qualquer pessoa bem informada sabe que eles são mais lidos do que Garvey hoje, pelo menos no Brasil. Tais autores reivindicam proposições expressamente universalistas, mas também afirmam taticamente em alguns pontos aquilo que para JB é a “pecaminosa e fascistoide identidade”. Assim como também criticam o universalismo europeu como um falso universalismo, notoriamente racista… Essa tradição crítica que é muito diversa do que aparece no artigo não existe no universo que habita JB?

    No seu artigo aparece a questão da perseguição aos falsos cotistas como uma prática do movimento negro, mas fico intrigado, JB, o critico dos gestores, não consegue diferenciar movimento negro de gestores negros? Não consegue diferenciar burocracias de movimentos radicais da classe? Qual o propósito de inventar fantasmas tão obscuros? Objetiva a que uma crítica que obviamente não parece bater de fato nos garveystas reais atualmente existentes? Afinal suas organizações atuais sequer são citadas…

    Oras, durante a pandemia em SP a polícia tem matado uma pessoa a cada 6h segundo as estatísticas oficiais, tem rolado mobilização a cada semana com a participação de diferentes setores do movimento negro junto aos familiares das vitimas contra a violência policial, situação semelhante de acirramento tem acontecido em torno das cadeias e ocupações de moradia com ameaça de despejo pelo país, tais setores não são garveystas, será que não existem para JB? Será que as recentes revoltas nos EUA se resumem para JB no mítico legado fascista do garveysmo e no espantalho do tal novo neo fascismo identitário?

    Eu pessoalmente fico muito desgostoso com a senilidade da atual produção do JB, deveria ter parado de escrever quando tinha dito que faria e que ainda estava conseguido pensar coisas politicamente mais interessantes, e não insistido nos equívocos dessa verdadeira estupidez política que tem sido a cruzada anti feminista e anti movimento negro nesse passa palavra…

  8. João Bernardo,

    Obrigado pela resposta. A minha questão em relação a psicanálise era exatamente para tentar entender mais fundo a crítica a partir de alguém no qual tenho grande apreço teórico.

    O interesse na psicanálise surgiu em busca de tentar entender como a individualidade das pessoas teriam a partir do capitalismo, reflexos diretos nas formas de luta coletiva. Por exemplo, quando vejo em grupos de esquerda doenças como depressão e burnout afetando a organização de grupos que dificilmente conseguem manter algo à longo prazo. Até mesmo por ver outros problemas do dia-a-dia dessas organizações como dificuldade de relacionamento, as vezes por falta de paciência ou por acharem que possuem o domínio da crítica e que esta se sobressai acerca dos outros que ali se organizam. Tendo como resultado o afastando e a “elitização” desses grupos.”

    Um exemplo: “A psicanálise nos ensinou que a culpa é um sentimento de baixíssima potência transformativa. Infelizmente, é justamente nesse tipo de retórica que vejo o melhor desta nova geração crítica investir suas forças e recursos.” Christian Dunker

    Li alguns livros como Psicanálise e Marxismo: as violências em tempos de capitalismo e tenho acompanhado alguns autores como Chrstian Dunker (que acredito ser um Pós-Moderno) como também do Hegeliano Slavoj Žižek que utiliza constantemente Lacan mas que possui um discurso acerca do identitarismo que considero muito mais próximo do que foi apresentado em seus últimos textos como “A Bárbarie” do que grande parte da esquerda brasileira. Nesse sentido sinto falta de poder recorrer a estes assuntos que a psicanálise trata através de autores que possuo mais afinidade crítica.

    Abraços!

  9. Leo Nobu,

    Infelizmente, ou aliás felizmente, não lhe posso dizer muito acerca da psicanálise, a não ser da minha discordância e desinteresse. Eu escrevi um livro acerca da obra de Balzac, e em La Comédie humaine a psicologia é toda exteriorizada, voltada para a acção, nunca interiorizada. A evolução posterior é um sinal dos tempos. Esses grupos de que você fala, cujos participantes sentem depressão e burnout, são certamente compostos por estudantes. Duvido que trabalhadores, que enfrentam uma repressão quotidiana e problemas quotidianos, se permitam ter esses estados de espírito.

    Quanto ao complexo de culpa, ele é promovido e aproveitado pelos movimentos identitários, quando pretendem convencer os outros — para qualquer identidade há sempre um Outro — de que são culpados e têm de se subordinar. Ora, este é o cerne do movimento identitário, que não pretende abolir as hierarquias, mas simplesmente invertê-las em proveito próprio.

  10. Caro João Bernardo, com todo respeito, gostaria de saber se você é marxista e, se não for, o que você é?

  11. “Eu pessoalmente fico muito desgostoso com a senilidade da atual produção do JB”
    Francamente, a divergência já foi mais inteligente e respeitosa.

  12. O artigo é excelente na primeira parte. Mas achei que alguns argumentos da segunda parte jogam contra o que se pretende com o artigo.

    Um deles não se refere ao tema do artigo, quando menciona e critica as feministas do #metoo. Críticas a #metoo foram feitas e podem ser feitas, assim como ao feminismo hegemônico, pelo menos nas classes médias. Mas apontar que supostamente as feministas do #metoo nada disseram sobre os ataques do Boko Haram na Nigéria não diz nada, sozinho, sobre o #metoo e nem sobre as pessoas que se engajaram nele. ´Quando Noam Chomsky certa vez foi questionado por não se colocar contra explicitamente às violações sofridas or um povo x, enquanto se engajava contra as violações aos palestinos, Chomsky respondeu que ele não era a Anistia Internacional. Fora isso, os trabalhadores em geral se engajam nas lutas que lhe dizem diretamente respeito. O fato de não se solidarizarem imediatamente com o que ocorre numa província da China não depõe contra eles necessariamente.

    O outro é o argumento sobre o Boko Haram ustilizar tecnologias “ocidentais”. Muito parecido com o argumento de alguns capitalistas de que seria contradição comunistas usarem iphone e coisas do tipo. Não creio que esse tipo de argumento sirva sequer para apontar contradição entre anarco-primitivistas. Não sendo espécies de hippies que buscam ‘cair fora’ (drop out) da sociedade, mas buscando transformá-la por dentro, é inevitável que se use as tecnologias, linguagens e meios existentes. É uma contradição formal inevitável a qualquer movimento, mas não uma contradição que suponha hipocrisia, a princípio. Não digo que não haja hipocrisia no Boko haram, mas o artigo não traz elementos para concluir. Quanto aos movimentos identitários aqui do Brasil, acho que o argumento da hipocrisia faça todo sentido, pelo que conhecemos deles, que, usando um discurso de suposto resgate de uma cultura, buscam com isso galgar espaços e hierarquias nesta sociedade e nesta cultura.

  13. Discordo que exista uma cruzada anti-feminista e anti-movimento negro no Passa Palavra.
    Muitas das críticas que o Passa Palavra realizou há anos atrás estao sendo incorporadas, por exemplo, no movimento feminista argentino, por meio da prática e da discussao do próprio movimento (os problemas do thrashing, do mulherismo, da necessária verdade da vítima, etc). O Passa Palavra também já publicou textos de integrantes do movimento negro realizando críticas importantes ao movimento, isso jamais seria parte de uma cruzada “anti” qualquer coisa.
    Por isso, estes textos de nenhuma forma justificam companheiros e companheiras que, estes sim, negam qualquer feminismo ou qualquer antiracismo por uma lógica mecanica de que estes seriam sempre essencialmente identitários. Já aqui é como se estivéssemos em Paris dos anos 60, no corredor de alguma universidade discutindo o canon revolucionario.

  14. Excelente artigo, como sempre.
    A questão do João Bernardo abordar o Garvey é muito importante porque demonstra um exemplo histórico real de como um auto proclamado anti-racismo pode ser, ao mesmo tempo, um vetor de racismo. Quando a luta política se transforma num (suposto e recorrente) confronto entre raças (e não pela anulação desse critério), isso significa que se passou a aceitar os termos do jogo dos racistas hegemónicos. Uma coisa é assinalar a descriminação racial sobre os negros (e outros) e exigir que a sociedade deixe de considerar critérios rácicos como medidas de definição de políticas das instituições ou da vida quotidiana – a luta pela universalidade. Outra coisa bem diferente é querer reforçar os critérios raciais (muitas das vezes criados ab initio pelos racistas hegemónicos) – o identitarismo particularista.

  15. Asker,
    A sua pergunta pressupõe que haja uma definição incontroversa de marxismo, o que não é o caso. Tem morrido tanta gente por causa dessa indefinição!

  16. Caro João Bernardo,

    Na verdade, minha pressuposição partia justamente da controvérsia… ” (…) Se o marxismo, perdão, se os marxistas não se tivessem rendido tão abjectamente ao pós-modernismo identitário (…) “… Neste sentido, portanto, minha pergunta não pressupõe que haja uma definição incontroversa de “marxismo”… ou de “marxistas”… Mas em tempos de santos, pais de santo ou “São Marx”… acredito ser importante algumas definições… para que não morra (ou se renda…) “toda” gente …

  17. O livro a seguir parece-me bastante pertinente para parte das discussões realizadas nos comentários:
    TRIVERS, Robert. The Folly of Fools: The Logic of Deceit and Self-Deception in Human Life. New York: Basic Books, 2011.

    Por exemplo, no capítulo 13, nas páginas 303-304, o autor escreve que (tradução minha):

    “[…] o conhecimento será mais distorcido quanto mais vantajosa for a sua distorção para aqueles que estão no controle. Se você está tentando aumentar a precisão de um míssil ou a velocidade de transmissão do conhecimento, você será atraído pela ciência, que baseia-se numa série de mecanismos antiengano e antiautoengano cada vez mais sofisticados e impiedosos. Parece provável que o enorme sucesso da ciência reflita, em parte, essa característica. Em segundo lugar, parece evidente que, quanto maior é o conteúdo social de uma disciplina, […] maior será a parcialidade devida ao autoengano e maior será o atraso desse campo, comparado com disciplinas menos sociais. Pode ser que a complexidade intrínseca dos fenômenos sociais impeça o progresso científico acelerado [no campo das ciências sociais, humanas], mas a física moderna é muito complexa e suas descobertas foram feitas mediante procedimentos relativamente imunes ao autoengano. O estudo da história parece ser um conflito entre alguns historiadores honestos tentando compor uma imagem verdadeira do passado e a grande maioria, que está interessada principalmente em promover uma visão complacente sobre o passado do seu grupo — resumindo, uma narrativa histórica falsa. Outra possibilidade, relativamente ao desenvolvimento das ciências sociais, é que uma concepção moral prévia sobre um assunto pode influenciar a teoria e o conhecimento sobre esse assunto — de modo que, de certa maneira, a justiça preceda à verdade […]”.

    O livro também traz reflexões e informações interessantes sobre a psicanálise, nas páginas 317-319:

    “[…] a base empírica para o desenvolvimento do campo [da psicanálise] era algo chamado de sabedoria clínica, basicamente aquilo que os psiquiatras contavam uns aos outros tomando drinks depois de um dia de trabalho. Quer dizer, quando você perguntava a um psiquiatra qual era […] o fundamento para crer que a ‘inveja do pênis’ era um aspecto fundamental da psiquê feminina ou que o caminho para compreender os homens reside em algo chamado complexo de castração, ele respondia que o fundamento eram experiências compartilhadas, asserções e suposições dos psicanalistas sobre o que acontecia durante as psicoterapias — algo inacessível, inverificável e, enquanto sistema, sem perspectiva de avanço. De fato, a incapacidade de propor e desenvolver metodologias capazes de produzir informações úteis é praticamente a definição da não ciência e, nesse quesito, a psicanálise tem sido um sucesso espetacular. Quando foi a última vez que você ouviu falar de um grande estudo duplo-cego sobre inveja do pênis e complexo de castração? A teoria de Freud consistia em duas partes: autoengano e desenvolvimento psicossocial. A teoria do autoengano tinha muitos conceitos criativos — negação, projeção, formação reativa, mecanismos de defesa do ego e assim por diante, mas eles foram conjugados com um sistema mais amplo que não fazia sentido algum, o id (forças instintivas fortemente baseadas em supostas transições críticas na infância — anal, oral e oedipal), o ego (basicamente, a mente) e o superego (a consciência, ou algo assim, formada pela interação com os pais e parceiros sexuais). Sua teoria do desenvolvimento psicossocial era desonesta, no sentido de ter sido construída sobre suposições frágeis e duvidosas que tinham pouca ou nenhuma base factual. O raciocínio era fortemente centrado na atração sexual no interior da família nuclear — e sua supressão —, mas há boas razões para duvidar de que esta seja a principal inquietação dos filhos. Quase todas as espécies animais selecionam-se para evitar a endogamia, que tem um custo genético real, e têm desenvolvido mecanismos — por exemplo, a interação com pais e irmãos desde cedo causa desinteresse sexual — que minimizam a endogamia. Isso é especialmente verdadeiro do ponto de vista dos filhos. Quer dizer, um pai pode beneficiar-se, em termos de parentesco, […] forçando uma filha a ter relações sexuais o suficiente para compensar o custo genético, mas é pouco provável que a filha se beneficie suficientemente em termos de parentesco, para compensar esse custo. Um filho pode, a princípio, beneficiar-se da fecundação de sua mãe, mas a seleção seria débil, na melhor das hipóteses, pondo fim à reprodução dela, enquanto a dele estaria começando […]. Desse modo, alegando que as tendências sexuais na família provinham de necessidades inconscientes da criança, Freud estava cometendo um caso clássico de negação e projeção — negando as investidas sexuais inapropriadas de parentes do sexo masculino sobre moças (como suas pacientes estavam relatando) e imaginando, em vez disso, que as mulheres estavam desejando precisamente aquelas relações. Ele também foi incapaz de criticar os maus-tratos como uma causa de distúrbios nos filhos. Novamente, sua tendência foi a de culpar a vítima. Uma das análises mais celebradas de Freud foi a do ‘Homem dos Lobos’, psicótico desde a maioridade com sensações de estar sendo atormentado fisicamente, amarrado e confinado, incapaz de controlar seus medos. Freud invocou uma síndrome resultante da incapacidade de a criança amadurecer adequadamente, ficando presa em algum estágio inicial de desenvolvimento, mas nunca considerou a possibilidade da participação do pai no problema — na verdade, referia-se calorosamente a seu respeito, como um educador muito estimado, com vários livros —, embora ele fosse um educador e um pai sádico. Ele defendeu amarrar a criança à cama à noite e usar uma série de outros instrumentos de tortura, tudo em nome de um bom comportamento. Lamentavelmente, ele aplicou suas teorias aos próprios filhos. Um cometeu suicídio; o outro sobreviveu para tornar-se o “Homem dos Lobos” de Freud. É impossível determinar o grau de influência do vício de Freud em cocaína em sua juventude sobre sua megalomania, mas é certo que ele acreditava com facilidade em outras coisas fantasmagóricas. Por exemplo, que o número vinte e nove desempenhava um papel recorrente e decisivo na vida humana, ou que o pensamento podia ser transportado instantaneamente por longas distâncias sem o uso de dispositivos elétricos, etc. O que é verdadeiramente extraordinário é que ele foi capaz de construir um culto que dominou ramos inteiros da psicologia e da psiquiatria e deu emprego a gerações de pessoas que pensavam como ele, cobrando altas taxas, quatro vezes por semana, para interpretar mal as vidas daqueles a quem atendiam. A atitude de Freud perante a verificação empírica foi bem resumida quando ele respondeu a alguém perguntando se, depois de trinta anos de teoria, talvez tivesse chegado o momento de conduzir alguns testes experimentais. Apesar de reconhecer que experimentos não seriam prejudiciais, Freud disse: ‘o valor das observações fidedignas sobre as quais repousam tais asserções [da psicanálise] as torna independentes da verificação experimental’. É uma afirmação incomum, já que sugere que uma contraevidência não pode contar como uma evidência. Colocando de outra forma, os mundos da verdade experimental e da verdade psicanalítica são independentes, como de fato são. Compare isso com a posição do famoso físico Richard Feynman: ‘Não importa quão belo seja o palpite, ou quão esperto ou famoso seja quem dá o palpite; se o experimento discorda do palpite, o palpite está errado’. […]”

  18. Fagner Henrique,

    desviando do assunto do artigo…

    O que Robert Trivers escreve mostra ais do que uma crítica à psicanálise, a ignorância dele do que é considerado ciência e das possibilidades de construção de conhecimento compartilhável (isto é, ciência).
    Ele afirma que os psicanalistas foram incapazes de construir informações úteis, logo após ele dizer que compartilhavam suas experiências nas clínicas. Já aí fica clara uma contradição do Robert Trivers. Eles compartilhavam suas experiências de trabalho porque era inúteis uns aos outros?

    Para ele ciência é conhecimento advindo de metodologia duplo-cego. Fico pensando o que Robert Trivers vai escrever quando descobrir a etnografia e toda uma ciência construída a partir de metodologias qualitativas. provavelmente vai ficar horrorizado.

    João Bernardo,

    Burn out não é um estado de espírito, é exaustão, esgotamento. Depressão também está longe de ser considerado um estado de espírito por qualquer entidade ou organização científica. Me surpreende alguém duvidar que trabalhadores (que enfrentam repressão e problemas cotidianos) tenham burn out ou depressão. As estatísticas de adoecimento e afastamento de trabalhadores no mundo inteiro estariam mostrando o que então? O corpo mole deles? Até no trabalho industrial já se perde mais horas de trabalho por patologias mentais do que por outros motivos.

    A depressão já é a maior causa da incapacidade laboral no mundo: World Health Organization. Depression. Disponível em:

    No Brasil, as patologias mentais já superam as Lesões por Esforços Repetitivos (LER) em afastamentos previdenciários.
    A questão não é nova, e no clássico A Classe Operária vai ao Paraíso, um bom retrato das questões e movimento operário italiano dos anos 70, dois personagens se encontram num hospital psiquiátrico, e não é à toa.

    E para tocar na psicanálise, sempre digo a pessoas que os dois livros que mais ajudam a entender a onda neofascista no Brasil na última década são, para mim, o Labirintos do Fascismo e o livro de um psiquiatra, psicanalista e ergonomista, Christophe Dejours, chamado A banalização da Injustiça Social.

  19. Answering again,
    Há muitos anos, escrevi uma obra em três volumes intitulada Marx Crítico de Marx, onde analisei O Capital. Um crítico brasileiro, não me lembro quem, escreveu que eu tinha seleccionado apenas os trechos da obra Marx que eram úteis para o que eu pretendia demonstrar e desprezado o resto. Pelo contrário. Eu não queria demonstrar nada. Queria mostrar as contradições de Marx em O Capital a respeito de alguns temas, comparar essas contradições e estabelecer a norma que permitiu ao autor manter uma coerência aparente, para definir então o ponto vazio da teoria a partir do qual pode ser construída a crítica. Foi, em suma, um exercício de estruturalismo, que me serviu daí em diante como método de trabalho. Eu tinha a intenção de expandir a obra e analisar em seguida o Marx anterior a O Capital, mas desisti, porque me embrenhei noutra pesquisa, que me ocupou durante muitos anos. Ora, se já no âmbito restrito de O Capital pude detectar a existência de vários Marxs, quantos mais surgiriam se tivesse ampliado a pesquisa ao resto da obra? E depois com os discípulos e com a evolução de cada um deles, até hoje! Para que haja uma ortodoxia é indispensável que haja um só centro de poder. Se houver dois centros, haverá duas ortodoxias; n centros, n ortodoxias. Ora, com a desagregação dos regimes soviéticos e a adopção pela China de uma economia de mercado o que resta hoje ao marxismo é uma infinidade de departamentos universitários, cada um com a respectiva mini-ortodoxia. Nestas condições, a hegemonia conquistada pelo pós-modernismo e pelos identitarismos levou a uma nova etapa e o marxismo está agora convertido em adjectivo, a somar a cada uma das identidades, com as devidas multiplicações internas. No meio disto tudo, concordo consigo que «em tempos de santos, pais de santo ou “São Marx”» sejam importantes algumas definições. Por isso vou escrevendo. Quando as pressões práticas se fizerem sentir a sério em todo o mundo, muita coisa será varrida e o ambiente esclarecer-se-á. Mas em que sentido?

    Fagner Enrique,
    Agradeço-lhe por ter colocado um comentário com aqueles dois trechos do livro de Trivers. Correspondem exactamente ao que eu penso tanto sobre a psicanálise como sobre a metodologia científica.

  20. João Bernardo e todos,

    Sobre a depressão, o buraco é ainda mais embaixo. https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/depressao-tira-1210-professores-de-sala-da-rede-estadual-do-rio-15469366. Aparentemente depressão é também uma doença contagiosa, porque como uma doença que só afeta estudantes causaria tantos danos aos profissionais do ensino? Eu mesmo pensava que era imune à depressão/ansiedade até o ano passado, quando o transtorno me afastou da universidade e trabalho. Mas eu posso estar falando isso por ser apenas um estudante, talvez esses 1210 do link também sejam, afinal.

  21. Caro Alan Fernandes,

    Um comentário breve sobre a depressão. Depressão é uma doença muito séria, e eu acho que o artigo que você trouxe é muito importante, pois elucida bem isso. Fui parte da militância no passado, e me deparei com vários trabalhadores que sofriam de depressão, muitos possuindo enormes dificuldades de levantar da cama todos os dias. É uma doença multifatorial, estou convencido disso: ela tem raízes sociais (aqui entra o estrago que o capitalismo causa também nessa área), nutricionais, tem a ver com a história de vida do indivíduo etc.

    Acho que essa questão precisa ser bem discutida, então por isso resolvi apenas fazer este brevíssimo comentário. Depressão é algo bem sério.

    Abraços

  22. Pelo pouco que entendo de psicanálise e alguns comentários sobre a depressão. Mesmo não tendo comprovação científica, seus estudos são parte de análises sobre práticas sociais e comportamentos humanos concretos. Seus conceitos podem servir para analisar a forma com que pessoas em determinadas posições desenvolvam métodos e repetições que levem pessoas ao adormecimento. Esse tem muito a ver com o encouraçamemto, canalização de desejos para medidas repressivas e auto repressivas, para evitar a dor do trauma da não realização de prazer. É exatamente essa couraça que gera o comportamento citado pelo João Bernardo nos “trabalhadores, que enfrentam uma repressão quotidiana e problemas quotidianos, se permitam ter esses estados de espírito”. A diminuição desses “problemas cotidianos” é exatamente a relação de trabalho não resolvida e entubada que promove reações, que são incorporadas em medidas de adoecimento, onde a pessoa resolve sua frustração de forma inconsciente direcionada para uma sublimação. Essa não realização, tratada como “frescura” ou “problema de espírito” (algo que só um ignorante sobre o caráter material do desejo poderia dizer, ao ponto de achar que é “espírito” ou “subjetividade”), leva para formas de auto-punição como “autocontrole” por falta de alternativas contra a dor dos desejos e projeções frustradas. Ou seja, são exatamente os trabalhadores mais imersos nos problemas de cotidiano de trabalho que mais estão vulneráveis ao adoecimento por depressão. Exatamente por serem obrigados a não externalizar ou tratar desse adoecimento. Obvio, isso tem a ver com a realização da disciplina capitalista em cada empresa ou gestão. Isso não tem a ver com o afastamento do trabalho. No caso estudantes ou trabalhadores intelectuais são convidados a externalizar essa enfermidade, exatamente pela condição da reprodução de sua força de trabalho.
    Só quis.comentar isso, para mostrar que psicologia e psicanálise são peças chave para o entendimento tratamento político e social das neuroses e psicoses, que são palcos do sintoma que é a depressão. Sobre os dados que demonstram os casos e relações com cotidiano de trabalho, outros comentários anteriores já fizeram.

    * * * * *

    *corrigindo o meu último comentário: Seus conceitos podem servir para analisar a forma com que pessoas em determinadas posições desenvolvam métodos e repetições que levem pessoas ao ADOECIMENTO.

    pra complementar. Enquanto os militantes que se pretendem classistas e revolucionários não buscam tratar de forma efetiva a lógica de encouraçamemto e neurose, que promove depressões, só empurra as políticas que desviam a questão do conflito nas relações de trabalho para análises místicas ou mecanicistas das relações sociais. Por um lado a disciplina de trabalho é “melhor remédio”, acaba sendo uma “condição eterna”. Por outro, a questão das frustrações silenciadas são tratadas como “subjetivismo” ou questão de “auto estima”. Bastando “gostar de si mesmo”. Isso leva ao terreno da afirmação corporativa, identitaria, regional ou nacional. Não é a toa que o identitarismo vem ganhando espaço com resultados concretos no oferecimento de satisfações e grupos de apoio, que acabam virando instrumento de controle. Não por tratar das questões emocionais e do desejo, mas por canalizar a frustração das pessoas envolvidas para comportamentos de realização moral. Isso leva à busca por cerceamento de comportamentos, padronizações e disciplina por unidade como realização da negação do prazer transferida à negação alheia. Tal qual fazem maioria dos grupos religiosos. E assim tem se comportando muitos grupos de esquerda, que acabam virando seitas para preservar seu nicho e sua neurose de repetição para canalizar frustrações mal resolvidas. É isso que afugenta trabalhadores, que estão imersos em problemas reais. Nesse caso, pode comprovar que a causa de interpretações e representações bizarras que grupos de esquerda tem sobre trabalhadores e seus comportamentos são resultado de suas neuroses mal resolvidas, buscando amenizar seus traumas espelhando na classe os seus fetiches. E muitos trabalhadores tem razão de fugir desses grupos de perversos, tal como crianças devem fugir de padres.
    Então, o encouraçamemto de trabalhadores também é uma amostra de que é no tratamento franco e aberto sobre suas neuroses que elas serão resolvidas. Tal fazem (ou deveriam fazer) terapias baseadas na psicanálise. Ou seja, deve caminhar junto com o conflito de trabalho, pois é nele que reside a barreira pela resolução das neuroses. Enquanto não tiver isso levado de forma séria, resta às buscas por “salvação” e espera do mito.

  23. Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um disturbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho

    https://saude.gov.br/saude-de-a-z/saude-mental/sindrome-de-burnout#:~:text=S%C3%ADndrome%20de%20Burnout%20ou%20S%C3%ADndrome,justamente%20o%20excesso%20de%20trabalho.

  24. Este ensaio, em cinco partes, critica a perspectiva racista subjacente ao identitarismo étnico. Exceptuando os primeiros comentários, é curioso como todos os outros fugiram ao assunto, preferindo indignar-se com uma piada sobre a exaustão, dita por alguém que dedicou muitas centenas páginas ao estudo da exploração da força de trabalho e dos seus efeitos físicos. Mas, sobretudo, indignaram-se com uma opinião, em meia dúzia de palavras, sobre a psicanálise. Mais interessante ainda, confundem psicanálise com psicologia e neurologia, ou seja, confundem alquimia com química, bruxaria com medicina. Esta é uma bela ilustração dos tempos em que vivemos e das preocupações de uma boa parte da esquerda.

  25. Estamos comentando um assunto que foi trazido de contrabando à discussão pelo próprio autor do artigo, que não é de hoje que se mostra adepto do positivismo lógico como metodologia científica, ignorando o debate entre os filósofos positivistas da escola de Viena e os filósofos dialéticos da Escola de Frankfurt acerca do assunto, com ampla vantagem para estes últimos que consideraram a ciência e a produção científica como parte de uma totalidade social. O autor do artigo rasga elogios a Robert Trivers, especializado em sociobiologia evolucionista, ramo científico dedicado à “atribuição de uma cultura a uma biologia”, e depois diz que os comentaristas é que fogem do assunto. Ninguém aqui está fugindo do assunto, só nos divertindo com os atos falhos.

  26. Leio com muito interesse os livros do João Bernardo. Seus livros são sempre ricos em referências, reflexões, novas análises. Acho o João Bernardo dos livros um autor instigante e com o qual sempre aprendi.

    O João Bernardo dos ensaios do Passa Palavra, já há um tempo deixei de ler. Justamente pelas ironiazinhas, pela acidez desnecessária e desajustada, como essa piada sem graça a respeito da depressão, que não se diferencia em nada de alas conservadoras e patronais que criticam a depressão como reflexo da preguiça, do corpo mole do trabalhador. Aqui no PP de vez em quando há um vestigiozinho de algo que parece ressentimento em forma de piada…

    E sim, meu caro João, depressão é muito comum entre estudantes, sobretudo os de pós-graduação, com bolsas defasadas, sem dinheiro ou apoio para pesquisas, longas jornadas de leitura e escrita. Isso é uma realidade, e não um capricho dos estudantes.

    Abraço.

  27. Sobre o seu artigo, eu achei exemplar, apesar de concordar com as ressalvas de Leo Vinicius. Mas achei que seria pertinente tratar nos comentários de algo em que se não se haverá pretensão de tratar em um artigo a parte. Nesse caso, a relação dos transtornos mentais com a militância. Nada contra piadas. Até acho que algumas delas originam belíssimos flagrantes delitos.

  28. eu concordo com o leitor que diz que existem vários Jooes Bernardos, assim como existem vários Marx. Eu poderia aprofundar isso com uma perspectiva psicanalítica, mas… bem, apenas deixo a ressalva de que do ponto de vista epistemológico, a psicologia tem talvez até menos fundamento que a psicanálise, mas isso é tema para outro texto.
    A discussao com os Jooes Bernardos sim me parece pertinente, pois dos últimos textos que li, e na resenha sobre “Poder e Dinheiro”, vejo que o autor reivindica de forma contundente a aplicacao de modelos antropológicos — formulados por meio da etnografia, como bem provocou o Leo V acima, um método para lá de anti-científico nos moldes das ciencias duras — no estudo da história.
    Entao já que de história se trata — história do movimento Negro e sua relacao com o movimento negro contemporaneo –, fica a pergunta para o autor, para ajudar no exercício de leitura do resto da série de textos: a história é uma ciencia? Existe alguma modalidade de duplo cego ou de metodologia “limpa” por meio da qual podemos comprovar aquilo que é dito a respeito da história? Pessoalmente as indicacoes literárias que abundam na obra do autor me abrem mundos, neste texto nao é diferente. Mas se a literatura é fonte histórica… nao estamos em terreno posmoderno?

  29. “FUGIRAM DO ASSUNTO” OU MECANISMOS DA NEUROSE TRADUZIDOS COMO ESCOLHA POLÍTICA?

    João Bernardo falou muitos comentários aqui fugiram do assunto ao texto por responderem ao comentário sobre trabalhadores não sofrerem de depressão e burnout por não terem espaço para isso diante de problemas cotidianos maiores. Só queria dizer que fugir do assunto é que acontece muito num processo de terapia, ao ser confrontado o indivíduo com algo que lhe atinge. Nessa hora ocorre muitos “atos falhos”, em que o inconsciente pulsa sem controle e expele alguma expressão. Pode ser exatamente falar “fugiram do assunto”, quando ele mesmo fugiu. Talvez pela perspectiva da psicanálise entrar em discussões e pontos que o levaram a ignorar essa área, por algum motivo.
    Então, para NÃO fugir do assunto. Basta pensar sobre o meu comentário anterior e vou prosseguir sem fugir do assunto. Toda a discussão em torno das bases do garveysmo, sobre sua aplicação em torno da hipocrisia e a aplicação aparentemente ao “pé da letra” dos seus aspectos particularistas e relativistas no caso do Boko Haram, podem ser enriquecidos sobre o assunto do adoecimento físico pelo emocional abatido que trabalhadores negros adquiriram durante a história. Sem falar aqui das particularidades de cada processo, descrito no texto. Mas eles foram trazidos ao debate pelo comentário do Leo Nobu, exatamente pela questão ser algo latente. Exatamente pelo palco que faz o uso das frustrações e tragédias de pessoas em políticas de grupo, é algo profundamente parte da discussão sobre desejo e parte da psicanálise ou psicologia.
    Sobre misturar noções de Química, psicanálise, biologia, psiquiatria e psicologia. Isso faz parte do próprio debate sobre a depressão: caráter químico, emocional, biológico? Creio que o mais importante seja fazer as ligações que fazem sentido, sem misturar gratuitamente as áreas de conhecimento. Mas muita coisa que disse aqui é parte de leituras minhas de Freud e de um crítico/aluno dele: Wilhelm Reich. Mesmo tendo críticas à psicanálise instituída, esse autor desenvolveu estudos a partir de seus preceitos. Inclusive fez discussões sobre psicologia de massas e sua relação com o fascismo, que muito assemelha os aspectos dela com o comportamento dos movimentos de esquerda e identitarios.
    Novamente, falando dos dados colocados aqui sobre burnout e depressão de trabalhadores em local de trabalho. Mesmo que os dados possam ser objeto de estudo de varias areas de conhecimento, é preciso usa-los como demonstração de fatos que ocorrem à princípio independentemente da interpretação. Então, é preciso distinguir a interpretação sobre eles, do reconhecimento do fato. Isso pode colocar uma galera que pensa que a terra é plana no mesmo lugar que alguém que pensa que trabalhadores não adoecem de depressão ou problemas físicos por consequência dos problemas emocionais.

  30. Primo Jonas,

    Numa conferência que fiz em Outubro de 2005 num Simpósio Internacional de História na Universidade Federal de Goiás, na Goiânia, aqui, observei que «se for bem delineado, o quadro de possibilidades inclui não só tudo o que sucedeu, mas tudo o que podia ter sucedido. (Comparar com o conceito leibniziano de contingência, em que a quantidade de possíveis é superior à quantidade de existentes. Para Leibniz, as coisas possíveis têm uma “pretensão à existência”. O possível, mesmo sem existência, é já uma “realidade”). Esse quadro permite o papel da imaginação em história. Imaginação distingue-se de invenção». Desenvolvi na prática esta metodologia no Labirintos do Fascismo (3ª versão, de 2018), aqui. Na pág. 609 desse livro escrevi que «a história só alcançará um estatuto científico no dia em que conseguir não apenas desvendar os caminhos que levaram a um certo acontecimento, mas explicar igualmente as condições que fizeram com que todas as outras potencialidades não se efectivassem». Por duas ou três vezes, no Labirintos, tentei a démarche de proceder a uma História do Não. Para isso uma contribuição indispensável é dada pela escrita de ficção, pelo romance. Também pelas artes plásticas, como você em breve poderá ver na segunda parte deste ensaio. Porém, a outra face desta metodologia é a história comparada. O quadro de possibilidades que referi, a ambição de uma História do Não, só podem ter lugar mediante um exercício de comparações sistemáticas. A história comparada cumpre, em história, a função que o laboratório desempenha nas ciências da natureza.

    Quanto à antropologia, eu não me limitei a seguir a lição de Marcel Mauss e Marc Bloch e a aplicá-la ao regime senhorial. Ainda recentemente foi publicado em duas partes um texto meu, aqui e aqui, intitulado Economia de Troca de Presentes e que pretende ser um modelo económico global das sociedades arcaicas.

  31. Caro João Bernardo,

    Parabéns pelo primeiro ensaio, nestes tempos de desrazão você luta pela razão do mundo.

    Uma pergunta

    Lembro de uma antiga resposta sua (aqui: https://passapalavra.info/2019/02/125380/) que você chamou atenção que na luta dos trabalhadores sempre surgiu um terceiro campo de luta e autonomia dos trabalhadores que até agora foi derrotada, ou em suas palavras “quanta página obscura é necessário consultar, até deslindarmos os traços de um terceiro campo, onde se impunha ou pelo menos se esboçava uma autonomia dos trabalhadores, tentando singrar por meios próprios e contra ambos os campos hegemonizados por facções das elites dominantes. Este trabalho paciente foi feito por alguns para a revolução chinesa e, mais próxima de nós, para a revolução cultural chinesa. Deveria ter sido feito também para as lutas de libertação em África, se o movimento negro não estivesse muitíssimo mais interessado em absolver as elites africanas dominantes, já que são essas elites que eles mesmos pretendem integrar. Mário Pinto de Andrade apontou o caminho em 1975 em Angola, indicando que na guerra civil entre o MPLA e a Unita eram os chamados «bandidos» quem incorporava uma revolução social, e talvez por isso ele foi tão convenientemente esquecido”.
    Até hoje fiquei curioso se o senhor iria desdobrar um texto para evidenciar as contradições internas das lutas de libertação na África, tal com o senhor fez para a Revolução Cultural Chinesa. Neste novo ensaio o senhor vai discorrer sobre esse assunto?
    Recentemente li um pequeno livro do Maurício Tragtenberg “Reflexões sobre o Socialismo” (editora unesp, mas facilmente encontrado na na internet). E não tem como lembrar do senhor. Novamente fico na torcida que você publique um livro sobre o balanço das revoluções no século XX. Principalmente nestas terras que cada vez mais vejo uma notalgia pela velha URSS, apologia à China etc.
    Um forte abraço
    Desculpa pelo excesso…

  32. O autor seleciona super bem as respostas. Responde só o que interessa. Responde como o interessa. Torce as respostas para responder sem responder. Quando perguntam se antropologia é ciência, o autor não diz nem que sim nem que não, só diz que usa. O autor usar ou não é critério de cientificidade, é científico ou não de acordo com ele usar ou não. Parece que quem foge do assunto é o autor porque não tem respostas.

  33. Caro Pedro Irio,

    Não irei abordar essa questão neste ensaio, nem mesmo tenho a intenção de analisar futuramente as contradições internas dos movimentos de independência em África, pela razão simples de que uma pesquisa dessa amplitude exigiria mais tempo do que aquele que verosimilmente me resta. No entanto, poderá ser-lhe útil saber que depois do 25 de Abril de 1974, que assinalou em Portugal a queda do fascismo, participei na fundação do jornal Combate, do qual fui até ao fim um dos colaboradores. Sobre isso, pode ver aqui. A colecção completa do Combate foi há pouco reeditada em papel pelo site francês Vosstanie, mas está disponível na internet aqui. Ora, peço-lhe que leia os editoriais do nº 6, de 13 de Setembro de 1974, e do nº 13, de 20 de Dezembro de 1974. Note que esses editoriais foram escritos com base em informações directas.

  34. Iraldo,

    Passei o olho no seu artigo que você linkou. Uma sugestão que daria para avançar numa análise em perspectiva de classe do assédio moral, e uma perspectiva de classe em que os trabalhadores apareçam como agentes, é pensar pela perspectiva apontada pelo psicanalista, psiquiatra e ergonomista Christophe Dejours, para quem o assédio moral não é algo novo (embora o conceito seja relativamente novo), a “novidade” seria a menor solidariedade entre os trabalhadores, o que em parte possibilitaria o assédio e levaria às consequências nocivas à saúde psíquica dos trabalhadores.

  35. Leo V, agradeço a rápida leitura e a disposição em contribuir. Eu próprio já fui professor de Ergonomia por alguns anos, inclusive utilizava o Dejours de A Loucura do Trabalho, que considero muito bom, embora não o tenha citado neste artigo. Também confesso que me decepcionei com as posteriores viradas do autor, indo da Psicopatologia para a Psicodinâmica do Trabalho, entre outras coisas. Eu abordo a questão da perda de solidariedade como um dos resultados negativos da estigmatização do assediado, que o torna alguém com uma “doença contagiosa” de quem ninguém quer se aproximar. Confesso que não me recordo dessa discussão do autor sobre a solidariedade, mas vou buscar isso. Enfim, grato novamente. Abraço!

  36. Enquanto isso, em algum grupo de WhatsApp, “Frente Anarquista da Periferia” anuncia:

    “Novo lema da FAP decidido através de reunião

    ANCESTRALIDADE • CULTURA • EDUCAÇÃO

    Tendo o entendimento que a luta de classes e o Anarquismo na maioria dos espaços passam por um processo de embranquecimento e deturpação histórica. Que muitas lutas de extrema-esquerda estão perdendo o tato com a realidade do povo que vive nas favelas, nos extremos do Norte e Nordeste, nas fronteiras indígenas e nos lugares mais marginalizados desse país. Nós da Frente Anarquista da Periferia resolvemos construir através de um debate sobre atuações e planejamento de curto, médio e longo prazo nosso lema, que irá direcionar nossas ações daqui em diante, que serão: Ancestralidade, Educação e Cultura.

    1- Ancestralidade; como diretriz, raiz e objetivo final das nossas ações e norteador do nosso passado, presente e futuro. Construiremos com as pessoas pretas e indígenas nosso movimento e apoiaremos todos aqueles que estiverem nesta mesma disposição, fazer com os últimos e para os últimos.

    2- Cultura; como algo que resgata nossa essência periférica e da cor, alegria e satisfação a qualquer movimento. Sem arte, música e todas essas ferramentas do nosso povo jamais poderemos falar de nenhum levante contra esse sistema, sem a relação de amor e afetividade próprias dos povos pretos e indígenas que compõe a América Latina, nos tornamos um subproduto de uma luta de classes européia e colonizada, coisa que jamais será nossa intenção.

    3- Educação; a ferramenta mais importante da FAP, mas uma educação libertária e libertadora, onde quem ensina, também aprende, onde todos aprendem e todos ensinam. Onde as coisas não são passadas de cima pra baixo, mas horizontalmente, onde não existe elitismo ideológico de quem sabe mais, e todos tem a mesma força e voz, da tia da padaria ao professor, onde a sabedoria do Preto Velho é respeitada como base de luta, muito mais que qualquer livro de Malatesta. Onde a sabedoria ancestral é a maior arma para se chegar nos objetivos de emancipação da nossa classe. E mesmo assim os avanços tecnológicos não são negados, mas incorporados à nossa realidade.

    Ou seja nosso Anarquismo é uma ferramenta de emancipação e transformação pessoal e no resgate de toda matriz ancestral que formou a pluralidade do nosso povo, como as Curdas e os Zapatistas fizeram. Nossa frente tem como foco a Periferia e os últimos, quem entender essa mensagem está convidado a participação e apoio ao nosso lado. Quem não entende isso como foco do Anarquismo fique a vontade para lutar bem longe de nós, viva o povo preto, indígena e das quebradas, tudo nosso.“

  37. O artigo tem pontos muito altos, outros baixos, que não terei tempo de comentar agora. Mas a série promete fortes emoções, reflexões e, claro ou escuro, muitas trocas de porrada nesse debate(-papo?). Bate-papo ou… bate-sopapos.

    Quanto a alguns comentários acima, como hoje (27/8) é consagrado, creio que aqui no Brasil só, como Dia dos Psicólogos e das Psicólogas, em homenagem à data e a propósito do que já foi escrito aqui sobre a odicanálise, divido abaixo uma reflexão na forma da declaração de amor mais bonita à profissão, ao ofício e seus desafios cotidianos, que me foi compartilhada hoje cedo por um querido amigo e companheiro, Rui, que não a escreveu mas se formou e atua na área psicossocial, a quem tb agradeço muito pelo aprendizado cotidiano. Boa parte do que fora escrito abaixo sobre a Psicologia de forma geral, feitas as devidas passagens, pode valer também para boa parte das abordagens psicanalíticas especificamente, que porém são muitas e a meu ver um equívoco reduzí-las e taxá-las disso ou daquilo de maneira uniforme ou sumária. Mesmo como recurso de linguagem ou força de expressão crítica.

    <>

    (Cristiane Barbosa é a autora desta declaração arrebatadora).

    *

    Obrigado pela escrita-leitura, reflexão coletiva e o saudável diálogo, pois quando franco e construtivo. Saudações a todos.

    *** *** ***

    [Comentário de 28 de Agosto, colocado aqui pelo Passa Palavra, por economia de espaço:]

    A declaração da Cristiane Barbosa sobre a Psicologia em geral (e de certa forma sobre a Psicanálise tb, especificamente) não apareceu em meu comentário acima. Segue abaixo novamente. Obrigado.

    “Eu não amo a Psicologia. Eu não posso amar uma Ciência que foi delineada pra homogenizar, adaptar pessoas a contextos de opressão e desigualdade. Eu não posso amar a História Oficial da Psicologia, com escores e métodos “tão limpos e puros”, que importam mais do que histórias e do que toda a complexidade que cabe na vida. Eu não posso amar um campo de atuação hegemonicamente elitista e individualista, que culpabiliza o sujeito por questões sociais, que multiplica diagnósticos em detrimento de escuta e empatia. Eu não posso amar um conhecimento que, até pouco tempo, endossava teorias racistas e higienistas. Eu não posso sentir “orgulho” de todas as técnicas de terrorismo psicológico pensadas e desempenhadas por psicólogos pra torturar pessoas nos porões da Ditadura, nem das avaliações psicológicas que traçavam (e anda traçam) o “perfil” do “perigoso”, do “deliquente”, do “desajustado”, subsidiando as justificativas sociais pra o encarceramento de pessoas e o extermínio de classe (aquela classe que tem cor e endereço).
    Eu não amo e nem sinto orgulho da formação rasteira e estreita, totalmente descontextualizada da vida real, crua, dura e multideterminada que “se encontra lá fora”, que a maioria dos cursos de Psicologia ainda oferece. E, pra começo de conversa, não amo, em verdade, posso dizer que odeio, qualquer proposta de formação que se proponha minimamente a “lidar com o humano” e ainda separa a gestação de um profissional do mundo em que ele vive, entre “fora e dentro”. Porque eu aprendi, nos felizes encontros com a história não oficial da Psicologia e com as lutas que eu escolhi e me escolheram, que o caminho se faz caminhando, que a cabeça pensa onde os pés pisam. E quem só pisa em “laboratório”, vai querer levar toda a “brancura”, “técnicas” e certezas desse “ambiente controlado” pra chão de barro batido, com cinco caminhos encruzilhados, com muito pacote complexo e completo de contradição escorrendo por todos eles.
    Eu amo, sim, quando a Psicologia serve, essencialmente, à liberdade. Quando as teorias se atualizam e quando se admite o compromisso social de cada posicionamento, inclusive quando se tem coragem de tomar partido, porque sim, a Psicologia é Política. Quando a prática se contextualiza e se abre pra o mundo mais do que se fecha na garantia dos olhares viciados e preguiçosos.
    Eu amaria não causar “medo” nas pessoas quando digo que sou psicóloga, ao que logo se segue uma explosão de curiosidades de senso comum, que vão desde a dúvida sobre a leitura de mentes até a corriqueira cobrança por diagnóstico-miojo, ou, pior, baseado na difusão do best-seller “mentes perigosas” ou qualquer outro desses perigos publicados por aquela mulher.. E amaria mais que, quando eu falasse isso, meus colegas de profissão não culpassem ou xingassem a essas pessoas por pensarem assim, porque há uma responsabilidade histórica da nossa própria atuação no que o mundo concebe como “coisa de psicólogo”. Tanto que eu amaria muito mais não ter que explicar até pra estudantes da área que Psicologia não é só clínica e que uma formação não se restringe a escolher uma abordagem, quiçar que eles saíssem dos cursos conscientes de que atuar com política pública não é sobre transferir a clínica individual pra o lugar físico do CRAS, da escola, do NASF, do CREAS, etc. Não é sobre o lugar, é sobre o tipo de olhar.
    Eu mais que amarei quando psicólogos pararem de reproduzir preconceitos e de construir sua prática em cima de julgamentos, principalmente morais, religiosos. Quando, finalmente, se entender que qualquer relação terapêutica potencialmente transformadora pressupõe encontro e este só é possível quando se tem um profundo respeito pela autonomia de quem chega. Legitimar o lugar e a vivência do outro, mesmo que ele seja um morador de rua e queira continuar sendo, mesmo que ele faça uso abusivo de drogas e não opte pela abstinência, mesmo que ele esteja em sofrimento psíquico, mesmo que ela queira abortar, mesmo que ele tenha roubado um tênis, mesmo que ele tenha tentando matar o irmão, mesmo que ela tenha fugido de casa, mesmo que ela esteja cansada dos próprios filhos, mesmo que ele não saiba ler, mesmo que ele nunca tenha tido acesso ao conhecimento formal, mesmo e mesmo, e mesmo…vai ser uma conquista da prática em Psicologia da qual eu vou me orgulhar. Eu vou amar quando a Psicologia descer do salto chamado Saber-Poder e psicólogos pararem de ter a prepotência de curar o outro e a pretensão de saber mais sobre o outro do que ele mesmo. Vai ser “TOP”, vai ser tendência… de humanidade.
    Eu amo, muito, quando eu vejo a Psicologia numa roda, e pode até ser de samba ou de capoeira, na rua, na calçada, num assentamento, num quilombo, no meio de um rio, embaixo de uma mangueira ou no batente da cozinha. Eu amo quando a Psicologia desendurece e se torna tão segura de sua potência que não precisa ficar se auto-afirmando toda hora com seu “falo científico”, porque se seu propósito de mediar, verdadeiramente, a construção do conhecimento das pessoas sobre si mesmas, sobre os outros e sobre o mundo for cumprindo, tem um pessoal, cientista inclusive, que disse que a prática é o maior critério da verdade…
    Eu não amo a Psicologia, mas eu amo ser psicóloga e luto, cotidianamente, pela legitimidade desse amor.
    Logo chegará 27 de Agosto e, entre tantas declarações de amor, já tá em tempo de ter espaço para essa aqui também.”

    (Cristiane Barbosa)

    Saudações a todos.

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