Por João Bernardo

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A linguagem é uma criação social, mas a sua utilização é individual. Este é o mais imediato fundamento da ambiguidade da linguagem, porque cada pessoa confere um sentido próprio às palavras que emprega e à forma como as emprega. Se quisermos imaginar algo que se aproxime do que chamamos liberdade, então será esse uso pessoal de uma linguagem social. Mas o facto de a linguagem ser estabelecida socialmente marca os estreitos limites da liberdade. A questão é um pouco mais complicada, porque a ambiguidade da linguagem não se deve apenas às interpretações individuais e provém igualmente do seu emprego por grupos sociais menores. Aliás, por vezes a formação destes grupos ocorre em virtude de utilizações específicas da linguagem genérica. Assim, a linguagem comum a toda a sociedade reparte-se incessantemente num mosaico de subutilizações. Por isso as expressões, tanto as palavras como a sua organização sintáxica, podem ao mesmo tempo ser exactas e ambíguas, e sem esta ambiguidade a linguagem não conjugaria os indivíduos na sociedade nem articularia eficazmente a estrutura social.

É na complexidade de uma tríade que articula 1) relações sociais entre 2) a sinalização e 3) a dissimulação que a linguagem exerce as suas funções. Ao mesmo tempo que assinala, a linguagem silencia. Aliás, para cada indivíduo talvez o não-dito seja o mais importante, e o explícito sirva sobretudo para insinuar o implícito. Todos sabemos que uma parte indispensável da arte de falar é não dizer, dizendo. Para evocar um exemplo entre tantos e tantos outros, sete das Nine Stories de Salinger são exclusivamente construídas na forma de diálogos em que o drama consiste no não-dito sugerido pelo dito. Mas para a sociedade é o dito que importa, e não o não-dito. A função articuladora decorre da ambiguidade, e por isso toda a linguagem é plástica.

A ambiguidade da linguagem decorre também do carácter permanentemente mutável da realidade. Como a linguagem evolui mais lentamente do que grande parte da realidade perceptível, a ambiguidade não implica nenhuma inexactidão. Pelo contrário, é para cobrirem uma realidade em mutação, referindo-se a um presente que engloba a imagem do que já foi e as possibilidades que hão-de vir, que os termos duradoiros assumem a latitude da ambiguidade.

Resumindo, a ambiguidade das palavras é dupla. Por um lado, ela é sincrónica, e entre os contemporâneos cada pessoa, ao ouvir a palavra, associa-a às suas recordações e emoções próprias e, portanto, confere-lhe sentidos específicos. Por outro lado, a ambiguidade é diacrónica, porque cada palavra carrega consigo a herança das diferentes acepções que foi tomando ao longo do tempo, e a etimologia regista os traços desta transformação. Além disso, uma palavra de uma língua pode ser extraída do seu contexto originário, ser neutralizada e inserir-se noutra língua, passando a obedecer a este novo contexto linguístico. Uma língua é formada no decurso do tempo e carrega em si, tanto na etimologia das palavras como na organização da sintaxe, todo esse passado. É uma plasticidade no tempo.

Aliás, que a linguagem possa servir para criticar a linguagem é a prova última da sua plasticidade.

A monossemia foi uma utopia leibniziana, que o filósofo prosseguiu em sucessivos e baldados esforços, no impossível desejo de chegar a uma linguagem em que cada palavra tivesse um significado único. Mas que conclusões devemos extrair daqui para a matemática, se ela era o próprio modelo da linguagem desejada por Leibniz? Como escreveu Ernst Cassirer, «a primeira e mais segura analogia com a concepção da “Scientia generalis” como um todo encontra-a Leibniz na ciência dos números» (El Problema del Conocimiento, vol. II, pág. 79). Do mesmo modo, Bertrand Russell sublinhou que Leibniz «acalentou durante toda a vida a esperança de descobrir uma espécie de matemática genérica, que ele denominava Characteristica Universalis, mediante a qual o pensamento pudesse ser substituído pelo cálculo» (History of Western Philosophy, Londres: The Folio Society, 2004, pág. 567). Todavia, não é menos certo que a matemática tem mudado também. Ora, a linguagem pecuniária é derivada da matemática, e é a plasticidade do dinheiro que permite o seu uso nos mais diversos sistemas económicos e sociais. No capitalismo, porém, que tipo de linguagem é o dinheiro? Uma linguagem leibniziana, similar a uma matemática em que toda a ambiguidade fosse suprimida? Ou uma linguagem como a de todos os dias, em que as palavras são ao mesmo tempo exactas e dúbias, e que nesta ambiguidade cumpre a sua função social?

No capitalismo o dinheiro tanto é rigoroso como incerto. Quando Georg Simmel, em The Philosophy of Money, considerou que o dinheiro «se adequa com a mesma facilidade a qualquer forma e qualquer objectivo que a vontade lhe queira incutir» (pág. 325), não devemos esquecer que ele se referia à manipulação individual de um dinheiro definido socialmente. Esta é uma das vias da dualidade da linguagem pecuniária, mas a questão é muito mais genérica. Por um lado, na medida em que é quantitativo o dinheiro é estritamente matemático, passível de operações rigorosas. Ele é o écran em que a economia se reflecte e a lente que a controla. Mas, por outro lado, na medida em que o seu carácter quantitativo serve para dissimular as diferenças qualitativas, o dinheiro é ambíguo. Como os números são terminologicamente homogéneos, eles contribuem para que o dinheiro cumpra a sua função de dissimular as clivagens sob uma aparência de uniformidade. É graças a esta ambiguidade que a linguagem executa na sociedade a sua função articuladora. Em suma, no capitalismo a ambiguidade do dinheiro, enquanto linguagem, permite-lhe indicar e encobrir, revelar e dissimular.

A função dissimuladora executada pelo dinheiro é uma condição indispensável para a sua função de articulador das relações económicas e sociais, por isso as duas funções são inseparáveis. Considerando que o dinheiro permeara todas as manifestações da vida moderna, quaisquer que elas fossem, incluindo as mínimas nuances psicológicas, Simmel afirmou que «o dinheiro continua a ser o único objecto que, devido ao seu carácter puramente quantitativo e à sua reacção uniforme a todas as diferenças entre as coisas, fornece a possibilidade de dispor as múltiplas sensibilidades numa série uniforme» (pág. 268). Mas eu limito-me aqui à esfera económica. E se nos capítulos anteriores indiquei já, quanto mais não fosse implicitamente, o carácter matemático das operações do dinheiro no capitalismo, neste último capítulo vou recordar alguns dos aspectos flagrantes da função dissimuladora. A partir destes casos não será difícil, para quem o deseje, conceber o véu que envolve a totalidade da economia e da sociedade capitalista, a articula e a faz mover.

a. O sistema pecuniário gerado pelo capitalismo e indispensável ao seu funcionamento tem paradoxalmente como efeito obscurecer a especificidade do capitalismo.

Os processos de produção no capitalismo caracterizam-se pela divisibilidade das operações de trabalho, que podem ser permutadas entre os profissionais do mesmo ofício detentores de qualificações equivalentes, e pela padronização dos produtos, que podiam dever-se à intervenção de qualquer um desses profissionais. A definição do valor como tempo de trabalho incorporado, ou tempo mínimo de trabalho incorporado, restringe-se a estas condições, o que exclui toda a confusão entre um trabalhador inserido no capitalismo e um artesão ou um camponês que opere segundo outros moldes e pressupostos. Ora, as características do sistema capitalista de trabalho são reflectidas pelo dinheiro, cuja ordenação sequencial em múltiplos e submúltiplos corresponde à divisibilidade das operações de trabalho e cuja submissão a um tipo monetário único corresponde à padronização dos produtos. Porém, ao mesmo tempo que o dinheiro explicita estas características definidoras do capitalismo e as torna operacionais, também dilui as fronteiras do sistema económico capitalista ao atribuir preços ao resultado de todas as actividades, independentemente do sistema em que tenham ocorrido, e ao considerar igualmente como um preço a remuneração concedida em troca dessas actividades. Assim, aqueles que hoje imaginam que o fim do capitalismo implicaria a extinção do dinheiro ou, mais estultamente ainda, julgam que abolindo o dinheiro levariam ao desaparecimento do capitalismo são vítimas desta ilusão gerada pelo dinheiro, quando deixa o capitalismo sem limites precisos.

b. Todas as formas de dissimulação operadas pelo dinheiro no capitalismo resumem-se a variantes de um mecanismo único — o ocultamento das clivagens qualitativas inerentes à esfera dos valores mediante a homogeneidade quantitativa dos preços.

Em O Capital, Marx usou o que eu denomino modelo a uma só empresa — e que desde há cinquenta anos não tenho deixado de criticar — apresentando a globalidade do capitalismo como uma multiplicação ilimitada da relação entre os trabalhadores de uma empresa e o patrão dessa empresa. O beco sem saída a que Marx chegou quando tentou transformar directamente os valores em preços resulta desse modelo e, como é sabido, aquela pretensa transformação foi desde cedo objecto de várias críticas, começando pelas de Böhm-Bawerk. Mas os marxistas preferiram esquecer a questão em vez de tentar resolvê-la, o que aliás lhes seria impossível nos moldes clássicos.

Para ultrapassar o impasse eu propus no Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista (aqui) um modelo do capitalismo em que a produção se eleva do particular ao geral directamente ao nível do processo produtivo e, portanto, em que a globalidade dos trabalhadores produz mais-valia para a globalidade dos capitalistas que, numa primeira fase, se apoderam dela em bloco. Numa segunda fase, a disputa entre os capitalistas leva à desigualdade na distribuição da mais-valia, consagrada na forma final da sua apropriação particular. Assim, os valores são definidos na primeira fase, mediante a relação entre a totalidade dos trabalhadores e a totalidade dos capitalistas; e a segunda fase, em que ocorre a apropriação particular da mais-valia, define os preços. Porém, graças ao dinheiro a dissimetria entre a produção de valores e a formação de preços fica oculta, porque a relação jurídica do assalariamento, estabelecida em preços, disfarça a relação económica da produção de mais-valia, estabelecida em valores. A vã ilusão de alterar a estrutura social através de reformas sucessivas decorre de uma infundada esperança de atingir os valores mediante os preços.

Esta obnubilação da clivagem social na produção de valores sob a homogeneidade dos preços é específica do capitalismo, porque noutras sociedades e noutros sistemas económicos ou o dinheiro não cobria a totalidade das relações entre os indivíduos ou os vários tipos pecuniários não eram reciprocamente convertíveis nem eram passíveis de se integrar num circuito único.

c. Uma das funções centrais da linguagem monetária no capitalismo é a de dissimular a extorsão de mais-valia. O dinheiro homogeneíza o tempo de trabalho.

No âmago de todas as contradições da sociedade capitalista, a mais-valia consiste num insuperável desfasamento (defasagem) de tempos de trabalho, que faz com que o tempo de trabalho despendido pelos trabalhadores durante o processo produtivo seja maior do que o tempo de trabalho incorporado nos bens e serviços que os trabalhadores consomem. É como uma entropia negativa, e onde a economia vulgar afirma que there is no free lunch, a crítica da economia mostra que, para os capitalistas, a mais-valia é o free lunch. Ora, o dinheiro transforma a clivagem qualitativa entre os tempos de trabalho despendidos e consumidos pelos trabalhadores numa simples gradação quantitativa e, assim, dissimula a mais-valia.

d. Se o dinheiro dissimula a mais-valia, dissimula igualmente a mais-valia relativa.

Todas as operações de trabalho têm uma componente física e uma componente intelectual, embora varie o peso relativo de cada uma, e o tempo de trabalho é o factor comum ao esforço muscular e ao esforço cerebral. Ora, quanto maiores forem as qualificações dos trabalhadores, ou seja, quanto maior e mais desenvolvida for a componente intelectual da sua actividade e maior for a destreza com que executam as suas funções, tanto mais complexo será o trabalho, o que significa que aumenta a capacidade dos trabalhadores para incorporarem mais valor nos mesmos limites horários. Por outras palavras, o tempo de trabalho complexo corresponde a uma multiplicação de tempos de trabalho simples, fazendo o tempo de trabalho decorrer de uma forma cada vez mais concentrada. Em vez de se escoar linearmente, o tempo aumenta de densidade e como que se aprofunda, permitindo que dentro da mesma jornada medida pelo relógio seja produzido um maior número de bens, ou de bens com melhor qualidade. Assim, enquanto aumenta a mais-valia resultante do trabalho complexo, a multiplicação dos bens produzidos faz com que cada um deles incorpore um menor tempo de trabalho, o que implica a progressiva diminuição do tempo de trabalho incorporado nos artigos que os trabalhadores consomem. É este o funcionamento da mais-valia relativa, que aumenta, por um lado, a produtividade no dispêndio de trabalho e, por outro lado, aumentando a produtividade com que são fabricados os bens e serviços consumidos pelos trabalhadores, leva à diminuição do tempo de trabalho incorporado na força de trabalho. Ora, o dinheiro, assim como torna possível a conjugação destes processos, também lhes oculta o mecanismo central, escamoteando os valores sob os preços.

Um exemplo elucidativo, a que gosto de recorrer, é o aparente paradoxo resultante da comparação entre o Haiti e a Suécia, dois países com populações equivalentes, cerca de onze milhões e meio de haitianos e dez milhões e meio de suecos. Note-se que os dados que vou apresentar não são desvirtuados pela actual implosão do Haiti, que só nos anos seguintes foi dilacerado pelo colapso do Estado e pelas disputas entre grupos de criminosos rivais. Segundo as estatísticas do Banco Mundial (aqui), o rendimento nacional líquido per capita, medido em dólares, em 2021 foi de 1.725 no Haiti e de 51.831 na Suécia, ou seja, trinta vezes superior neste último país. Apesar disto, segundo o World Investment Report 2023 (aqui), enquanto o fluxo de investimentos externos directos dirigido para o Haiti foi só de 51 milhões de dólares em 2021, foi de 21.133 milhões para a Suécia, ou seja, mais de 414 vezes superior. Esta situação explica-se porque a exploração do trabalho no Haiti está no limiar inferior da mais-valia absoluta e, portanto, é pouquíssimo rentável para os capitalistas, enquanto a rentabilidade é muito elevada na Suécia, onde a exploração do trabalhador atinge os graus superiores da mais-valia relativa. Ora, o dinheiro oculta estes mecanismos, porque, segundo as taxas de câmbio, os salários e os preços dos bens são muito inferiores no Haiti em comparação com a Suécia, enquanto, devido às diferenças na produtividade e na complexidade do trabalho, o tempo de trabalho incorporado nesses bens é muito maior no Haiti do que na Suécia e, do mesmo modo, o tempo de trabalho despendido pelo trabalhador durante uma hora de relógio é muito menor no Haiti do que na Suécia. Mas os capitalistas possuem um faro apurado e não se deixam iludir pelos preços quando estes têm uma função apenas dissimulatória, por isso os investimentos externos fogem do Haiti e se canalizam para a Suécia. Já o faro dos anticapitalistas deixa a desejar, e a perversa noção de aristocracia do proletariado, que tão funestas consequências teve na conversão da luta contra o imperialismo numa soma de lutas nacionalistas, resulta dessa dissimulação dos valores por detrás dos preços. A comparação pode repetir-se para outros países com resultados semelhantes; e quando as companhias transnacionais estabelecem empresas em países menos desenvolvidos, procuram as regiões mais evoluídas, onde a produtividade da força de trabalho pode ser maior, ou criam e administram as suas próprias condições gerais de produção, gerando verdadeiras ilhas de desenvolvimento.

e. O dinheiro dissimula o  mecanismo central da mais-valia relativa, que é o aumento da produtividade.

A tese de que o capitalismo estaria irremissivelmente condenado devido a uma baixa efectiva da taxa de lucro baseia-se no cálculo dos elementos do capital constante em termos de volume, expresso em preços, e não em termos de valor, ou seja, do tempo de trabalho incorporado nas instalações, na maquinaria e na matéria-prima. A forma como esta famigerada tese esquece os valores para evocar preços decorre do modelo a uma só empresa, que se cinge a uma relação entre os patrões de uma empresa e os trabalhadores dessa empresa, quando, pelo contrário, a relação se estabelece entre a globalidade dos trabalhadores e a globalidade dos capitalistas. Com efeito, o aumento da produtividade não conseguiria reduzir o tempo de trabalho incorporado em cada um dos bens que os trabalhadores consomem, reduzindo igualmente o tempo de trabalho incorporado nas instalações, nos meios de produção e nas matérias-primas, se já antes não se houvesse reduzido o tempo de trabalho nos factores de produção que contribuíram para erguer aquelas instalações, fabricar aqueles meios de produção e extrair aquelas matérias-primas, e o mesmo em todas as fases anteriores, retrocedendo sem limites, num processo que engloba necessariamente a totalidade da classe trabalhadora. Nesta perspectiva, a baixa da taxa de lucro não deve ser referida como uma lei necessária, mas apenas como uma lei tendencial, ou seja, uma lei que pressiona os capitalistas a aumentarem incessantemente a produtividade de modo que a taxa de lucro não baixe. O dogmatismo ideológico que acompanhou a burocratização dos partidos marxistas edificou uma religião laica; e a expectativa de um colapso do capitalismo decorrente da interpretação da baixa tendencial da taxa de lucro como uma baixa inevitável transformou o marxismo numa religião apocalíptica. Porém, uma lei tendencial determina o modo de ela própria ser combatida e, neste caso, define o caminho que deve ser seguido para manter e acelerar o crescimento económico, fazendo com que a evolução do capitalismo não leve à diminuição da taxa de lucro, mas ao seu oposto. Ora, o dinheiro, enquanto linguagem, se é certo que assinala a preeminência da produtividade e articula os meios para a pôr em prática, dissimula também os mecanismos subjacentes a esse processo de desenvolvimento da produtividade.

A principal lição do Economia dos Conflitos Sociais (aqui) é a possibilidade de integração dos conflitos no capitalismo, enquanto aceleradores da produtividade e, assim, promotores da mais-valia relativa. O dinheiro, na forma salário, dissimula sob a aparência do preço do trabalho a absorção dos conflitos sociais pela tendência ao crescimento económico.

f. A forma salário dissimula também as classes sociais, porque cobre tanto os trabalhadores como os gestores, disfarçando sob a manifestação de um preço uma clivagem que só é empiricamente perceptível em termos de valores, quando observamos quem controla o tempo de trabalho alheio e quem não controla o seu próprio tempo de trabalho.

Aliás, o argumento habitual para negar que os gestores sejam uma classe social consiste em afirmar que, tal como os trabalhadores, eles são assalariados. É elucidativo constatar que o obscurecimento desta clivagem social, sob o pretexto de que ambos os lados se inserem na forma salário, é um recurso correntemente praticado pela grande maioria dos marxistas, como já Makhaisky denunciou quando pela primeira vez formulou uma teoria da classe dos gestores. Confundirem-se com os trabalhadores é um dos mais sólidos e perversos sustentáculos do poder político dos gestores, o que contribui para explicar a evolução de todos os regimes fundados no marxismo. E assim esta função dissimulatória do dinheiro tem como consequência disfarçar que o capitalismo de Estado é um capitalismo.

g. No capitalismo, o dinheiro indica e ao mesmo tempo dissimula o poder. Se quisermos usar um critério realista, não devemos prestar atenção apenas ao dinheiro que um rico tem, mas sobretudo à quantidade de trabalhadores que um capitalista pode despedir (demitir).

Antes de mais, o montante da fortuna individual é meramente nocional, porque se um multimilionário vendesse ao mesmo tempo a totalidade dos seus bens, eles sofreriam uma forte depreciação. A fortuna individual é só um factor para a obtenção de crédito. O coeficiente de Gini não é uma expressão transparente das diferenças de poder, e o único critério sólido para aferir o lugar de alguém nas hierarquias sociais capitalistas é a autoridade que detém sobre os trabalhadores. Ora, a forma mais drástica dessa autoridade consiste em privá-los de trabalho. É a partir daqui que se deve fazer a crítica às reformas exclusivamente centradas na desigual distribuição dos rendimentos. Aliás, uma esquerda que esquece as relações sociais de trabalho para se concentrar na distribuição dos rendimentos passa da esfera da produção, ou seja, da mais-valia, para a esfera do mercado e, portanto, passa dos valores para os preços. As funções de dissimulação exercidas pelo dinheiro, enquanto linguagem, foram indispensáveis a esta degenerescência da esquerda.

h. No capitalismo, a distinção entre circuitos pecuniários é mais uma clivagem que o dinheiro obscurece. Noutros sistemas socioeconómicos a diferenciação desses circuitos era clara e explicitamente marcada pela própria diferença dos suportes materiais do dinheiro, mas no capitalismo passa-se o contrário.

Essa dissimulação dificulta a crítica ao dogma central do monetarismo, baseado numa equivalência estabelecida por Irving Fisher: MV = PQ. Isto significa que a quantidade disponível de meios de pagamento (M) multiplicada pela velocidade média da sua circulação (V) é igual aos preços (P) multiplicados pela quantidade de bens e serviços transaccionados (Q). Nestes termos, para que uma alteração de M tivesse como consequência uma alteração equivalente de P, assumindo que Q se mantinha constante, seria necessário supor a estabilidade de V. Com efeito, presumindo que a velocidade de circulação dos meios de pagamento seria independente das alterações da quantidade disponível desses meios, os monetaristas concluem que o nível dos preços estaria sempre em estreita correlação com a quantidade de meios de pagamento.

Para entendermos o logro torna-se indispensável introduzir aqui a principal clivagem social do capitalismo, porque não é possível limitar drasticamente a quantidade de meios de pagamento nos circuitos pecuniários que articulam as relações entre grandes empresas, baseados no crédito e no clearing. Além disso, os meios monetários ao dispor das grandes empresas ampliam-se graças à crescente panóplia de instrumentos financeiros. Porém, a população comum não tem o crédito e o clearing como base das suas relações mútuas, assim como não gera nem põe em circulação substitutos monetários, excepto em circunstâncias extremas e em âmbitos restritos, como sucede, por exemplo, com a transformação de vales de refeição ou de transporte em meios de pagamento aceites em lojas de frequência habitual, ou salvo em situações económicas catastróficas, quando o elevadíssimo grau de depreciação da moeda local leva à sua substituição pelo dólar. Assim, são os circuitos pecuniários articuladores das relações entre particulares que ficam mais sujeitos aos limites pretendidos pelos monetaristas. Em sentido contrário, porém, a população comum pode reagir de tal forma que uma redução de M seja pelo menos parcialmente compensada por uma aceleração de V. Também nos pagamentos de particulares a empresas, o uso de cartões magnéticos acelera V e permite que se efectue muito rapidamente um número ilimitado de transacções com a mesma M. Em suma, além de V não se manter independente das alterações de M, deve considerar-se que M é constituída por diversas formas de meios de pagamento, acessíveis a classes e grupos sociais distintos, e por isso as médias podem dissimular curvas de preços diferentes e até opostas.

Sob a aparência funcional de uma circulação pecuniária única, coberta pelas mesmas denominações monetárias, ocultam-se circuitos distintos, com efeitos económicos diferentes, o que permitiu às políticas monetaristas agravar a estratificação social do capitalismo, tanto nos meios de pagamento como nas suas formas e na sua circulação. O dinheiro, enquanto linguagem comum, unifica ilusoriamente os vários tipos de mercado, quando na realidade a equivalência de Fisher se desdobrou em duas grandes modalidades, uma vigente nas transacções correntes entre particulares dispersos e outra no mercado das grandes empresas concentradas e das instituições financeiras que as servem.

i. No capitalismo, a inflação é a expressão mais plástica da ambiguidade do dinheiro.

Fundamentalmente, a inflação, mesmo quando na aparência não ocorre porque os preços permanecem estáveis ou até declinam, dissimula a divergência entre duas curvas: uma curva que devemos exprimir em valores, resultante da diminuição do tempo de trabalho que, graças ao aumento da produtividade, é incorporado em cada produto; e outra curva representando a evolução do preço dos bens. É aqui que a discrepância entre valores e preços se tornaria mais notória e, portanto, mais necessário é disfarçá-la. Por isso a curva dos preços é a única exibida e divulgada, o que constitui uma forma derivada de dissimulação da mais-valia. Acessoriamente, a inflação contribui também para apresentar o processo de diminuição do tempo de trabalho incorporado nos bens que o trabalhador consome como um processo de diminuição do montante de valor possível de adquirir com um dado título monetário, ou seja, o declínio do valor das unidades do output aparece como um declínio da capacidade aquisitiva do dinheiro.

Convém esclarecer que a inflação, tal como é usualmente apresentada, não consiste num simples aumento dos preços, porque, se todos os preços subissem simultaneamente na mesma proporção, a relação entre eles manter-se-ia inalterada e os efeitos inflacionários não ocorreriam. Numa percentagem moderada e estável, e distribuída mais ou menos equitativamente por todos os bens e serviços, a inflação representa um estímulo ao investimento em detrimento da poupança, porque beneficia os devedores perante os credores. E constitui também uma forma de ocultar a descida dos salários reais sob a continuidade dos salários nominais, o que aliás foi essencial para as reflexões de Keynes. Mas acima disto a inflação caracteriza-se por ser um conjunto de aumentos diferenciados e irregulares, que distorce as relações económicas e os tempos dos processos produtivos, e a homogeneização quantitativa proporcionada pelo dinheiro obscurece este agravamento das desigualdades. Por isso a medição da inflação através de uma taxa média foge da questão principal.

Se em situações extremas a inflação se precipita numa hiperinflação e destrói a função das unidades monetárias, qual é o seu equivalente na linguagem genérica? A prolixidade é a hiperinflação da linguagem, enquanto a concisão é uma marca de estilo, realçando o texto e evitando que ele caia na indiferença. Com efeito, a pletora de palavras, a multiplicação de adjectivos, a repetição das evocações banalizam os termos e transformam-nos em lugares-comuns, destruindo-lhes o significado e obrigando a criar novos nomes ou a adjectivar aqueles que perderam a capacidade de expressão. Entretanto, as palavras originárias, esvaziadas de conteúdo, reduzem-se a elementos de rituais, equivalentes a um gesto de mão ou um aceno de cabeça, ou são mesmo postas de lado e saem de uso, tal como as unidades pecuniárias vítimas de uma hiperinflação são lançadas no lixo e substituídas por outras. Só que o processo é muitíssimo mais lento na linguagem geral do que na linguagem pecuniária.

*

Se a linguagem nos rodeia completamente e se apenas através dela percebemos a realidade, e se o dinheiro é uma linguagem que ao mesmo tempo revela e dissimula, então a crítica da economia consiste em usar uma linguagem para desmontar outra linguagem. A crítica da economia é uma crítica económica da economia.

O leitor interessado pode encontrar aqui o primeiro capítulo, o segundo capítulo, o terceiro capítulo, o quarto capítulo, o quinto capítulo, o sexto capítulo, o sétimo capítulo e o oitavo capítulo.

3 COMENTÁRIOS

  1. A cartola (lead) do artigo é surpreendentemente paralela a uma definição de símbolo escrita por Georges Gurvitch, para quem os símbolos “revelam velando e velam revelando” (apud Jean Chevalier e Alain Gheebrant, Dicionário de símbolos, 35ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021, p. 12).

    A comparação “Haiti vs. Suécia” é ilustrativa do “efeito multiplicador” de tempo de trabalho promovido pelo cruzamento das técnicas de extração da mais-valia relativa com a exploração do trabalho qualificado. Embora alguns possam considerar a comparação chocante, contraintuitiva e disparatada, é exatamente isso.

    Para chegar ao mesmo resultado, gosto de usar outras, restritas aos processos de trabalho em que cada trabalhador está envolvido dentro de uma mesma empresa. Quem produz mais valor capturado pela iFood: o entregador ou o desenvolvedor de sistemas? Não é à massa de entregadores ou à massa de desenvolvedores de sistema a que me refiro, mas a cada entregador e a cada desenvolvedor de sistemas, individualmente considerados. Na mesma linha: quem produz mais valor capturado pela Google LLC: o picoinfluenciador a produzir vídeos para seus trezentos seguidores, ou o engenheiro devops por trás do Youtube?

    Quem entende a situação nessa escala menor, certamente a entenderá em escala maior.

  2. Há um texto do JB aqui no PP em que se fala um pouco sobre desenvolvimento do capitalismo no Brasil, Coreia do Norte. Poupança, inflação…

    Alguém poderia me ajudar a encontrar?

    Obrigado

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