O Movimento de Ação Direta Britânico dos anos 1990 (III)

O Movimento de Ação Direta Britânico dos anos 1990 (III)

em 27 ago

De 1996 ao final da década, o movimento de ação direta britânico começa a criar laços com lutas trabalhistas e a identificar de forma mais clara o capitalismo como a fonte dos problemas, num caminho trilhado do particular ao geral. Por Leo Vinicius

Em janeiro de 1996 se inicia um período de intensa luta em Newbury, no maior protesto antiestradas: foram 29 acampamentos de resistência montados ao longo dos 13 km em que passaria a estrada; centenas de casas construídas em árvores para proteger cerca de 10 mil delas, 12 sítios arqueológicos, habitats de animais, espécies em extinção, etc. Uma batalha de 85 dias, e cerca de 700 prisões foram necessárias para evacuar o local que ficou ocupado por ativistas por aproximadamente dois anos.

acdirectaiii_11Quanto ao Reclaim The Streets, ele seria formado de novo no início de 1995. Não se tratava de um grupo ou de uma organização propriamente dita, em termos formais. O RTS consistia mais em um nome em torno do qual pessoas se organizavam, se encontravam e agiam com objetivos comuns. Suas reuniões semanais eram abertas a qualquer um que aparecesse.

A ação característica do RTS seria a realização de festas de rua, que refletiam e davam continuidade ao espírito da rebeldia de Claremont Road. As festas de rua do RTS refletiam também a influência situacionista de algumas das principais cabeças pensantes por trás dele. Resgatando a idéia de que os momentos revolucionários eram momentos festivos, e de que os carnavais e revoluções não seriam espetáculos vistos por pessoas, mas antes envolveriam a participação ativa da multidão, as festas de rua Reclaim The Streets expressariam também a idéia de que a expansão e libertação do desejo são em si revolucionárias. Carregam também a idéia de détournement tão presente nos situacionistas, transformando, subvertendo e retomando um ambiente, um espaço, um local. A festa de rua do RTS seria assim vista também como uma topia, algo que existe aqui e agora, em oposição à utopia definida como o não-lugar. Elas eram vistas e entendidas como uma primeira tentativa de reconstruir a geografia da vida cotidiana, reapropriando a esfera pública, redescobrindo as ruas e tentando liberá-las. Para Chris Knight, professora universitária envolvida com o RTS desde 1995, o RTS não tem a ver com manifestações e protesto. Os participantes do RTS pensariam mais em termos de “faça-você-mesmo” – se se quer algo, faça-você-mesmo. A ação viria antes de tudo.

acdirectaiii_6As festas eram realizadas em um ou mais pontos da cidade, em ruas ou cruzamentos guardados em segredo até o seu momento, pegando as autoridades de surpresa. Um método que se tornou usual para fechar as ruas e começar a festa era o uso de um enorme tripé, sobre o qual uma pessoa se instalava. O tripé interrompia a rua aos carros e não poderia ser retirado do local por alguma autoridade sem que a pessoa sobre ele caísse de vários metros de altura, o que inibia tentativas repressivas. Embora as pessoas mais envolvidas com o RTS não viessem da cena rave e nem tivessem como preferência musical a música eletrônica, o fato é que as festas de rua se alimentaram da florescente cena rave inglesa dos anos 1990. Segundo John Jordan, a cena rave teria se sintonizado ao que o RTS estava fazendo – festas de rua – ao mesmo tempo em que o RTS teria visto a cena rave como uma poderosa força dinâmica. Em 1995 ocorreria as duas primeiras festas de rua (Street Parties I e II); a primeira dia 14 de maio, na Camdem High Street, com três pessoas sendo presas; a segunda em 23 de julho, com maior repressão policial. Somente a partir da segunda a música rave teria aparecido, segundo Jordan.

Essas festas de rua que caracterizaram o RTS remontam também às festas e raves realizadas entre 1992 e 1993 na Inglaterra, com um caráter de desobediência civil e resultando em repressão policial. Em 1º de maio de 1992 uma operação policial conseguiu impedir a realização do Festival Livre de Avon, que seria um ponto de encontro de travellers. Os comboios de travellers foram forçados assim a se dirigir a uma mesma localidade, chamada Worcestershire, onde acabaria sendo realizada uma festa improvisada de quatro dias de duração em um lugar chamado Castlemorton Commom. Entre os coletivos que sonorizaram a festa se destacava um recém-formado, bastante politizado, chamado Spiral Tribe, que se recusou a parar no final do quarto dia de festa, sendo seus integrantes presos por isso e tendo seus equipamentos apreendidos. Outras raves livres foram realizadas nesse período, atraindo milhares de pessoas. Um aspecto destacável desses eventos era a mistura e fusão de ravers e travellers, os últimos acrescentando uma crítica do comercialismo das raves, e os primeiros uma crítica do isolamento e guetização dos travellers.

Uma festa de rua realizada pelo Spiral Tribe, dia 4 de junho de 1992, na área portuária de Londres, atraiu mil pessoas, e apesar da repressão policial ela teria sido vista por muitos como um sucesso e uma prova de que áreas urbanas poderiam ser retomadas ao menos temporariamente. Com a Criminal Justice Bill o Spiral Tribe migraria para outros países da Europa, mas a experiência que ele ajudara a concretizar não seria apagada.

acdirectaiii_4Em 1995 e nos anos seguintes o RTS realizaria também outras ações além das festas de rua, como sabotagens de mostras de automóveis e ações contra companhias petrolíferas. Dia 13 de julho de 1996 ocorreria o terceiro grande evento do RTS de Londres (a essa altura a idéia dessas festas/carnavais de rua já havia se espalhado por outras cidades britânicas e logo se espalharia para outros países). Era a terceira festa de rua, que atraiu cerca de 8 mil pessoas à rodovia M41, na região oeste de Londres. Uma árvore foi plantada no meio do asfalto. Uma faixa desejando vitória aos metroviários, que estavam em luta, já era uma amostra da ligação que o RTS estava criando com algumas categorias de trabalhadores. A ligação dos problemas ecológicos com os problemas sociais, e do caráter anticapitalista e socialista libertário do RTS ficava progressivamente mais claro e explícito – algo que o verde, vermelho e preto da sua bandeira indicaria. Algumas ações de apoio aos metroviários seriam realizadas nos meses seguintes. Segundo a visão de alguns participantes do movimento, em 95/96 o RTS conseguiu mobilizar o gueto cultural alternativo, e em 96/97 começaria a organizar uma saída desse gueto, criando laços de solidariedade com metroviários e portuários, por exemplo.

No dia 28 de setembro de 1996 a luta dos portuários contra a precarização e terceirização completaria um ano. O RTS iria criar um vínculo com os portuários, passando a apoiar ativamente e a participar da luta. Inicialmente, como aponta Chris Knight, havia pessoas no RTS que achavam que ele deveria permanecer fundamentalmente uma campanha anticarro e ambientalista. Mas a consciência da relação da luta ecológica e social e a evolução no sentido de uma crítica abrangente ao capitalismo prevaleceria. Para Knight teria sido a partir da ligação com os portuários que o RTS se tornara explicitamente anticapitalista. No dia 28 de setembro, sob o nome Reclaim The Future – que se tornaria também o nome de um jornal produzido pelos portuários – o RTS e os portuários realizariam uma manifestação em Liverpool, seguida de um festival cultural. As ações em conjunto com os portuários incluiriam posteriormente bloqueios e ocupação de escritórios e dos telhados dos escritórios, fazendo com que um campo novo de formas de ação se tornasse uma realidade para esses trabalhadores. No dia 12 de abril de 1997, como parte da “Marcha pela Justiça Social” chamada pelos portuários, o RTS adicionou sua própria cara e dimensão ao evento realizando uma festa de rua e convocando a todos a Retomarem as Ruas, à ação direta, sem depositar fé nas eleições que ocorreriam dali a algumas semanas. Como deixava claro um panfleto distribuído, o RTS acreditava que a mudança não viria “através da mediação de políticos profissionais, mas da participação individual e coletiva nas questões sociais. Em suma – pela ação direta. (…) ação direta nas ruas, no campo e nos locais de trabalho, para parar a destruição e criar uma democracia direta em uma sociedade ecológica e livre”.

Marcha pela Justiça – Portuários e Reclaim The Streets

Em 1997 o governo britânico suspenderia o programa nacional de estradas. Desde a resistência em Twyford Down, como deixava claro as revistas do setor de construção civil, o orçamento do governo para a construção de estradas ia diminuindo. A resistência contínua e por anos seguidos embora não conseguisse evitar a construção das estradas em iminente início de construção, fez com que o governo abortasse o programa nacional de estradas como um todo (com o cancelamento de cerca de 500 novas estradas), devido à própria oposição e principalmente aos crescentes custos decorrentes dela. Para alguns ativistas do EF! esse era o resultado da maior onda de luta por terra (land struggle) da era industrial da Grã Bretanha, “forjada por uma impressionante reunião de subculturas rebeldes” – travellers, animal-liberacionistas, squatter urbanos, ravers, ativistas do EF! etc.. Segundo esses mesmos ativistas, também um período de lutas que viu ações conjuntas com comunidades e trabalhadores em um nível muito além do que poderiam sonhar os anarquistas com discursos e práticas supostamente mais classistas e tradicionais.

acdirectaiii_3Em 1998 o movimento de ação direta britânico entraria na sua era de “resistência global”, tendo proeminência em forjar o que ficaria conhecido mundialmente como movimento antiglobalização, entrando em uma fase explicitamente anticapitalista. Esse período ao mesmo tempo em que pode ser visto em continuidade com as ligações feitas entre o RTS e categorias de trabalhadores em luta, e dentro de uma evolução que se dava progressivamente em proveito de um enfoque que englobava lutas sociais e uma crítica anticapitalista, emergia também como foco que substituía a luta antiestradas uma vez que o programa de construção havia sido suspenso pelo governo. No entanto, campos de resistência e ação direta contra outros projetos e construções consideradas destrutivas continuaram a existir depois de 1997.

(continua)

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Referências usadas

A revista Do or Die: http://www.eco-action.org/dod ;

Boletim eletrônico SchNEWS nº 526, 06/01/2006: http://www.schnews.co.uk/archive/news526.htm ;

Entrevista com John Jordan feita por Naomi Klein em 1997: http://www.ainfos.ca/A-Infos97/4/0552.html ;

Entrevista com Chris Knight e Pauline Bradley, The Liverpool Dockers and Reclaim The Streets, 9 de março de 2002;

Panfleto do Reclaim The Streets produzido em 1997.


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