Socialismo da abundância, socialismo da miséria

Socialismo da abundância, socialismo da miséria

em 22 mar

O reino da abundância, que os socialistas haviam prometido, foi trazido pelos capitalistas; e contra o capitalismo da abundância desenvolveu-se o programa de um socialismo da miséria. Por João Bernardo

1.

Quando o socialismo surgiu, vagarosamente, ao longo da primeira metade do século XIX, o que era a classe operária?

Existiam importantes centros industriais na Inglaterra e na Escócia, mas no continente europeu a nova indústria limitava-se a algumas regiões da Bélgica e do norte e leste da França, um pouco em certos estados alemães, mais tarde pequenos pólos espalhados por aqui e por acolá, e era tudo. Todavia, qualquer pessoa que soubesse observar — e havia-as muitas — não duvidava de que estes centros exíguos representavam a força mais dinâmica da economia, dotada de uma enorme capacidade de expansão.

gustave-dore-1Os operários que faziam mover as máquinas da nova indústria ou eram jornaleiros sem eira nem beira, desprovidos de qualquer aptidão que não fosse o vigor muscular, ou antigos artesãos, detentores dos velhos saberes do ofício, para quem o trabalho nas manufacturas correspondeu a uma degradação profissional e social. Em todos os casos, a expansão da nova economia, a sua capacidade de abrir mercados e acumular riquezas, contrastava com a miséria do proletariado industrial. E a ganância dos patrões deixava antever que à miséria mais miséria se seguiria. Como o operariado, se então se contava às dezenas ou centenas de milhares, viria em breve a contar-se aos milhões, a generalização do pauperismo parecia ser o horizonte que o capitalismo tinha para oferecer.

Foi a este auditório que os socialistas prometeram uma era de abundância.

O socialismo surgiu da constatação de que, perante as colossais potencialidades produtivas contidas nas novas manufacturas e perante a remodelação operada nas tecnologias rurais, que multiplicara a produtividade do solo, a abundância se tornara possível. Não se tratava só de matar a fome e obter um certo conforto na vida, mas também de atingir um grau de libertação do trabalho que permitisse aos humildes apreciar e praticar uma cultura que até então fora privilégio das elites. Tecnicamente possível, a abundância dependia de uma condição social única, a eliminação do patronato ganancioso. A iminência de um paraíso na terra deixou caduca a esperança do paraíso nos Céus.

Foi esta, e não qualquer disputa teológica, a razão que levou os primeiros socialistas a opor-se não à crença em Deus, mas às religiões hierarquicamente organizadas. Até então as reivindicações económicas, e mesmo as grandes vagas de luta social, tinham-se exprimido em termos de polémica religiosa, e aqueles que haviam lutado e tantas vezes morrido pelo anseio de dar outra vida aos humildes haviam também procurado abrir-lhes outro acesso a Deus. O socialismo reatou inicialmente a tradição do misticismo heterodoxo; mas, em seguida, a convicção de que a abastança colectiva estava ali, ao alcance da mão, tornou obsoleta a crença em Deus. O ateísmo surgiu, para os socialistas, como um efeito lógico da possibilidade de fartura material.

E o que sucedeu?

2.

Em vez de derrubarem o capitalismo, os conflitos sociais pressionaram os patrões a aumentar a produtividade.

Dando mostras de uma coragem e de uma sagacidade a toda a prova, os operários conseguiam organizar-se apesar de estarem proibidos de o fazer, e recorriam à sabotagem individual quando a acção colectiva se afigurava impossível. Obtiveram assim sucessivas vitórias parcelares nos seus dois objectivos constantes: a redução do tempo de trabalho e a elevação dos salários.

Foram muitos os que morreram a meio do percurso e muitos mais os que encheram as prisões, mas a jornada de trabalho reduziu-se drasticamente. Do mesmo modo, os operários conseguiram que o seu nível de vida pouco a pouco aumentasse, e onde o avô teria, quando muito, dois pares de calças e duas camisas, além da jaqueta e dos tamancos, os netos podiam já dispor de um vestuário variado e, o que era mais importante, podiam aceder aos ócios pagos. Trabalhar durante menos tempo e adquirir mais bens e serviços, e fazê-lo não nos lugares onde o capitalismo se mostrava débil mas precisamente onde revelava uma maior capacidade de acumulação e uma maior energia expansional, foi este o paradoxo com que os trabalhadores socialistas depararam.

É que, às pressões pela redução da jornada de trabalho e pelo aumento dos salários, os patrões responderam com o crescimento da produtividade. O trabalho tornou-se não só mais intenso, acelerando-se os gestos dos trabalhadores, mas sobretudo tornou-se mais qualificado. Se, na sua fase inicial, o novo regime manufactureiro se instalara usando uma mão-de-obra sem qualificações e degradando as qualificações profissionais dos antigos artesãos, nas fases seguintes os patrões preocuparam-se em dar novas qualificações aos seus assalariados. A chamada Organização Científica do Trabalho caracterizou-se, entre outros aspectos, por impor um novo sistema de qualificações mesmo aos operários que ocupavam os estratos inferiores da hierarquia industrial. E tanto a abertura de novos ramos de produção como o desenvolvimento tecnológico teriam sido impossíveis sem elevar os conhecimentos profissionais de uma boa parte do operariado. Ora, quanto mais qualificado é um trabalhador mais ele é capaz de executar operações profissionais complexas, e nestas condições uma hora de trabalho complexo equivale a um número crescente de horas de trabalho simples. A história do capitalismo tem correspondido ao progressivo crescimento das qualificações dos trabalhadores. É isto, e não qualquer mentalidade esclarecida, que explica as medidas que tornaram obrigatório o ensino e que têm aumentado as faixas etárias cobertas por essa obrigatoriedade. Em suma, e empregando termos metafóricos, os trabalhadores conseguiram reduzir a jornada em extensão, mas, como resposta, os patrões aumentaram-na em profundidade.

duane-hanson-2Este processo permitiu iniciar a produção em massa de bens materiais e de serviços. E assim, se por um lado uma hora de trabalho complexo representa várias horas de trabalho simples, por outro lado o crescimento quantitativo da produção atingiu proporções tais que cada objecto ou cada serviço é produzido num tempo de trabalho sempre menor. Ora, o aumento do volume da produção durante o mesmo limite temporal leva à diminuição do tempo de trabalho incorporado em cada produto, diminuindo correspondentemente o seu valor. É certo que a actividade produtiva implica o uso de matérias-primas e o desgaste de máquinas, e que o desenvolvimento tecnológico leva a um acréscimo muito considerável do volume de maquinaria usado; mas, em sentido contrário, os efeitos da produção em massa exercem-se igualmente sobre a maquinaria e as matérias-primas, levando à redução do seu valor. É esta a dialéctica do crescimento da produtividade.

Se os trabalhadores recebem os salários em dinheiro, não é o dinheiro que lhes interessa, mas os bens que podem adquirir. E, resultando de uma produtividade crescente, estes bens representam um valor incorporado cada vez menor. Se os trabalhadores do início do século XIX podiam ter um ou dois pares de calças, de quantos dispõem os trabalhadores duzentos anos depois? Mas, em termos de tempo de trabalho, o valor incorporado em um ou dois pares de calças fabricados com baixa produtividade é muito superior ao valor incorporado em não sei quantos pares fabricados com a elevadíssima produtividade actual.

Por um lado, o aumento da qualificação dos trabalhadores e o aumento da complexidade dos processos de trabalho faz com que, durante uma hora contada no relógio, os trabalhadores procedam ao equivalente de um número crescente de horas de trabalho simples. Por outro lado, embora se multiplique o número de bens a que o salário dá acesso, o valor desses bens cai drasticamente com a produção em massa. Portanto, de um lado e do outro o crescimento da produtividade implica o agravamento da exploração. Este processo denomina-se, em termos marxistas, mais-valia relativa.

E assim os triunfos parcelares da luta social, recuperados pelos capitalistas sob a forma do crescimento da produtividade, conduziram a um mundo em que o aumento da exploração corresponde à proliferação de bens materiais e de serviços. Os grandes capitalistas não ignoram que é este aparente paradoxo a dar solidez ao sistema, mas são ainda numerosos os semipensadores da extrema-esquerda que esfregam os olhos sem crer no que vêem. É nos centros capitalistas, onde a acumulação de capital é maior, onde os lucros são mais consideráveis e para onde aflui a maior parte das movimentações transnacionais de capital, que as jornadas de trabalho são mais reduzidas e é mais elevado o nível material de vida dos trabalhadores. E nos países e regiões onde os trabalhadores são mais pobres e penam de sol a sol ou pior ainda, o capitalismo não consegue desenvolver-se e mantém-se arcaico.

O reino da abundância, que os socialistas haviam prometido, foi trazido pelos capitalistas.

3.

O contraste tornou-se ainda mais flagrante quando a primeira experiência de construção económica socialista, iniciada na Rússia em 1917, deu rapidamente lugar a um capitalismo de Estado. Instalando um oligopsónio ou mesmo um monopsónio no mercado de trabalho e oligopólios ou mesmo monopólios no mercado dos bens de consumo, e instaurando um sistema social e político que reduziu a limites mínimos a capacidade de pressão dos trabalhadores pela melhoria das suas condições materiais de vida, o capitalismo de Estado soviético comprometeu o funcionamento dos mecanismos da produtividade.

Diz-se que existe um monopólio quando há uma única empresa produtora e vendedora de um dado tipo de bens e diz-se que existe um oligopólio quando um dado tipo de bens é produzido e vendido por um número muito reduzido de empresas. No monopsónio existe uma única empresa compradora de um dado tipo de bens, enquanto que no oligopsónio um dado tipo de bens é comprado por um número muito reduzido de empresas.

O beco sem saída em que o regime soviético se enfiou foi detectado com lucidez por Lucien Laurat num livro publicado em 1931 (L’Économie Soviétique. Sa Dynamique, son Mécanisme, Paris: Valois). Como já abordei a questão neste site com certo detalhe, limito-me agora a recordar que, na opinião de Laurat, para a classe dominante soviética, que ele classificava como uma oligarquia burocrática, a porção da mais-valia destinada ao consumo individual aparecia sob a forma de vencimentos, enquanto a outra parte, consagrada ao aumento da produção, aparecia sob a forma de lucro no balanço das empresas estatais e cooperativas. E como, na sua opinião, não existiria concorrência na economia soviética, nada faria com que o fundo de consumo se submetesse às necessidades do fundo de acumulação, tanto mais que os trabalhadores não dispunham de meios de pressão sobre a oligarquia, enquanto que no capitalismo de mercado a concorrência obrigava cada capitalista ou grupo de capitalistas a subordinar o consumo à acumulação, de maneira a ampliar as actividades da sua empresa. Ficava assim criada uma situação em que os burocratas soviéticos podiam despender em proveito próprio o fundo de acumulação. Para restabelecer o fundo de acumulação e prosseguir e ampliar a produção tornava-se cada vez mais necessário empregar formas suplementares de exploração, agravando a carga fiscal, impondo preços espoliadores ou simplesmente recorrendo à violência directa. Mas isto representava modalidades de acumulação primitiva do capital, enquanto os principais centros capitalistas haviam já atingido patamares de acumulação muito mais sofisticados. E Lucien Laurat previu que, se o regime soviético continuasse a proceder daquele modo, seguir-se-ia o marasmo económico e até a regressão das forças produtivas. As únicas possibilidades de evitar que tal sucedesse seriam, indicou ele, ou o regresso à propriedade privada ou o estabelecimento de um controlo público através da instauração de uma democracia proletária. O futuro da União Soviética não podia ter sido previsto com mais exactidão.

pistoletto-2O quadro de análise delineado por Lucien Laurat explica que ao longo das sete décadas e meia de duração do regime soviético nunca se tivesse interrompido por muito tempo o debate entre os defensores da atribuição da prioridade absoluta ao Sector I da economia e os defensores da atribuição de um maior peso relativo ao Sector II.

O Sector I diz respeito à produção de meios de produção e o Sector II, à produção de bens de consumo. Os defensores da atribuição da prioridade absoluta ao Sector I consideravam que, quanto mais favorecida fosse a produção de meios de produção, tanto mais toda a economia cresceria. Porém, como o aumento da produção de bens de consumo é uma condição indispensável à recuperação patronal das reivindicações dos trabalhadores e como esta recuperação constitui o próprio mecanismo do incremento da produtividade, a atribuição da prioridade ao Sector I teve como consequência a estagnação da produtividade e comprometeu o crescimento económico global.

Este debate assumiu várias formas políticas e no plano económico foi expresso mediante formulações teóricas diferentes, mas no essencial tratou-se da mesma polémica. Ora, subjacente à questão, que pode parecer apenas técnica, estavam problemas sociais e políticos decisivos. Só era possível condenar o Sector II à estagnação desde que fosse contida em limites mínimos a capacidade reivindicativa dos trabalhadores. Por outro lado, mantendo-se o sistema de estatização do capital, só seria possível assegurar o crescimento relativo do Sector II se fosse cumprida uma das alternativas enunciadas por Lucien Laurat, a instauração de uma democracia proletária, garantindo que a burocracia não despendesse em proveito próprio o fundo de acumulação. Colocada a questão nestes termos, compreende-se que, enquanto persistisse a estrutura política implantada pelos bolchevistas, o crescimento do Sector I relegaria o Sector II para um lugar marginal, e o regime soviético apresentava como um traço distintivo a escassez de bens materiais e a pobreza de serviços. Em vez do socialismo da abundância ocorrera o socialismo da miséria.

E, perversamente, o facto de a parte mais dinâmica da esquerda ter ficado durante muito tempo umbilicalmente ligada ao capitalismo de Estado soviético, apresentando-o como o «socialismo real», contribuiu para legitimar o capitalismo da abundância.

4.

Poder-se-ia julgar que a partir da década de 1960 o desenvolvimento de formas de luta autonómicas e autogestionárias, que juntaram numa mesma aversão os patrões e as burocracias sindicais e políticas, tivesse inaugurado novas promessas de um socialismo da abundância, tanto mais que entretanto o regime soviético caiu e a China perdeu definitivamente a aura socialista.

Mas não foi isto que aconteceu.

A disseminação da ideologia ecológica, propagandeada de maneira maciça por todos os meios de informação, corresponde a uma fortíssima e permanente pressão para a redução do consumo particular. Onde antes os trabalhadores consideravam a melhoria do seu nível material de vida como uma prova do sucesso das suas reivindicações políticas e sociais, agora os ecológicos pretendem culpabilizá-los por essas conquistas e convencê-los de que por comerem mais, vestirem melhor, gastarem mais sabão e viverem mais desafogadamente põem em risco o planeta. A abundância passou a ser considerada como negativa e propõe-se o ascetismo de massas como a meta a atingir.

rauschenberg-1Isto seria compreensível se se tratasse de um programa da direita mais retrógrada, mas a ideologia ecológica, embora esteja espalhada de uma ponta a outra do leque político, é em geral apresentada como possuidora de um cariz progressista ou, mais exactamente, como destinada a substituir a antiga esquerda. Aliás, quanto mais à esquerda se consideram os ideólogos da ecologia, tanto mais drástica é a redução do consumo que propõem. A reivindicação de ganhar mais foi substituída pela obrigação moral de gastar menos.

E, assim, contra o capitalismo da abundância desenvolveu-se o programa de um novo socialismo da miséria.

A perversidade desta situação é mais grave ainda na agroecologia. Convém recordar que o capitalismo, além de ter implicado uma revolução tecnológica nas manufacturas, assentou numa revolução da agricultura. No final da Idade Média, nas duas regiões da Europa mais urbanizadas — a Flandres e a Itália centro-setentrional — só cerca de 5% da população vivia em cidades. Mesmo sem considerar que uma parte significativa dos habitantes das cidades cultivava os campos dos arredores ou talhões situados no interior da urbe, conclui-se que era necessário o trabalho de 95% da população para alimentar a totalidade da população. Nas outras regiões a percentagem era ainda superior. Hoje, nos países mais industrializados, precisamente aqueles onde a agricultura é mais produtiva, a percentagem da população activa empregue nos campos ronda os 5% ou é mesmo inferior, o que significa que bastam 5% da população para assegurar um volume de alimentos suficiente não só para a totalidade da população do país, mas que ainda inunda os mercados estrangeiros.

Embora no imaginário comum o capitalismo esteja associado à actividade industrial, o seu êxito fundamental consistiu no enorme aumento de produtividade provocado na agricultura. Esta revolução tecnológica permitiu uma tal melhoria na quantidade e na qualidade da alimentação que o volume populacional atingiu níveis antes impensáveis, ao mesmo tempo que melhorou o estado de saúde e se prolongou a esperança [expectativa] média de vida. E como tudo isto ocorreu enquanto se reduzia muito a mão-de-obra rural, foi possível aumentar em termos não só absolutos mas relativos a força de trabalho dedicada à indústria e aos serviços. O aparecimento de novos ramos de actividade, que constitui um dos factores indispensáveis ao crescimento geral da produtividade, só pôde suceder porque o aumento da produtividade agrícola enviou permanentemente trabalhadores das zonas rurais para as zonas urbanas.

E é contra esta situação que a agroecologia reage, propondo tecnologias que implicam uma redução da produtividade rural. Afinal, se os ideólogos da ecologia apresentam como meta consumir menos, nada mais natural do que os ideólogos da agroecologia apresentarem como meta produzir menos. Ficou assim reforçado o novo programa do socialismo de miséria.

5.

A situação piorou no último ano e meio, em resposta à crise financeira mundial. Se observarmos as reivindicações formuladas pela extrema-esquerda, verificaremos que frequentemente uma das principais consiste no não pagamento da dívida externa dos países em dificuldades. Em geral, os partidos e grupos de extrema-esquerda, e mesmo as opiniões individuais neste meio, mostram-se favoráveis à ruptura com o sistema financeiro mundial.

Mas como, apesar de tudo, os ideólogos e os activistas das correntes políticas a que me estou a referir não são alucinados ao ponto de supor que a revolução mundial esteja hoje, de imediato, ao alcance da mão, as medidas que defendem não têm por objectivo nenhuma profunda reorganização financeira a curto prazo. Essas medidas destinam-se a ser aplicadas nem sequer por eles, mas por governos que consideram adversos e que, apesar disto, por artes ignotas eles conseguiriam inspirar.

Se levarmos a sério tais programas, que implicações teriam no caso de serem postos em prática? Numa economia lubrificada exclusivamente pelo crédito e em que, estando as relações económicas transnacionalizadas, o crédito é também transnacional, o não reconhecimento das dívidas externas existentes e a recusa a contrair dívidas novas teria como consequência imediata a paragem de uma parte da produção e a estagnação da parte restante. Além disso, como o crescimento da produtividade depende da ligação às inovações tecnológicas ocorridas no âmbito mundial, o corte do crédito externo implicaria o isolamento relativamente às cadeias tecnológicas mundiais e provocaria um declínio muito duradouro da produtividade. Graças àquele programa de um socialismo de miséria instaurar-se-ia um capitalismo de escassez.

hans-haacke-1Nessas condições tornar-se-ia necessário substituir os mecanismos mais ou menos automáticos do mercado pelo controlo exercido por uma burocracia central do Estado. O capitalismo da escassez é sempre um capitalismo de Estado.

Na sua última encarnação, a partir do momento em que foi afastado dos cargos políticos e expulso da União Soviética, Trotsky analisou e denunciou os efeitos económicos e políticos da proliferação de uma burocracia destinada a manter as condições externas da escassez e a repartir internamente produtos escassos. É certo que o fez no quadro conceptual do Estado operário degenerado, continuando a considerar como socialista uma economia que era capitalista de Estado, e esta posição doutrinária sujeitou o trotskismo a uma permanente hemorragia de militantes na sua esquerda.

Leon Trotsky passou por três encarnações. A primeira encarnação durou desde o Relatório da Delegação Siberiana, de 1903, até à primeira guerra mundial e teve como auge a colaboração de Trotsky com Alexandr Helphand «Parvus» e os artigos publicados na revista de Rosa Luxemburg. Nesta encarnação Trotsky desenvolveu algumas noções formuladas pelas correntes mais radicais do marxismo e atribuiu a primazia às relações sociais, não às forças produtivas materiais. A segunda encarnação de Trotsky durou desde a sua adesão ao partido bolchevista, em 1917, até cerca de 1925. Neste período Trotsky defendeu um autoritarismo extremo no plano político e a extrema hierarquização nas empresas, pretendendo mesmo que o trabalho obrigatório seria tão produtivo como o trabalho livre. Era ele então o mentor da tecnocracia soviética, e nos primeiros dias de 1924 Stalin pôde atacá-lo chamando-lhe «patriarca dos burocratas». Na realidade, Trotsky foi um dos principais construtores do sistema de burocracia de Estado em que Stalin se apoiou para ascender. A terceira encarnação de Trotsky inciou-se cerca de 1925 e foi interrompida pelo seu assassinato em 1940. Durante este período ele prosseguiu a crítica à burocracia staliniana, embora negando que ela constituísse uma classe social e negando que a União Soviética fosse um capitalismo de Estado ou qualquer outro tipo de regime de exploração.

Mas, no que diz estritamente respeito à repartição burocrática de bens escassos, as análises de Trotsky revestem-se de grande importância. Tanto mais lamentável é que partidos e grupos que se julgam discípulos de Trotsky defendam agora medidas que teriam como efeito imediato a implantação de uma burocracia repartidora, centralizada e omnipotente.

É certo que a generalidade da população é mais cultivada e, sobretudo, tem uma capacidade de reflexão muito maior do que imaginam as correntes de extrema-esquerda a que estou a referir-me. Porém, se por um dos imprevistos que tecem a história, surgisse uma situação revolucionária e aquelas correntes adquirissem influência devida a outros motivos que não o seu programa, então, detentoras de um qualquer tipo de ascendente, seria esse programa que aplicariam. E a história começaria de novo, dando outro fôlego ao socialismo de miséria.

Para ilustrar este artigo usámos, de cima para baixo, uma gravura de Gustave Doré, uma escultura de Duane Hanson, um objecto de Pistoletto, uma escultura de Rauschenberg e uma instalação de Hans Haacke. No destaque, uma escultura de Jean Tinguely.


Comentários 31

    • Eduardo Tomazine Teixeira

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      mar 22, 2011

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      Caro João Bernardo:

      Não me parece equivocada a afirmação de que um dos principais objetivos do programa socialista – ou autonomista, ou seja lá o nome que se dê ao programa libertário; não vamos nós brigar por isso… – é a liberação do homem do trabalho penoso, e, sobretudo, a liberação do seu tempo para que este homem participe diretamente da instituição de um “reino da liberdade”, o qual, ao contrário de Marx, que o vislumbrava como uma dissolução da política, vejo como um estado político em que este homem dará a si próprio as suas próprias leis mediante a participação direta nas suas instituições.

      Se a afirmação acima não está de todo equivocada (ao menos na parte referente à liberação do trabalho penoso e do tempo do trabalhador), então o crescimento da produtividade, proporcionado mais pelo desenvolvimento tecnológico e recuo jurídico da propriedade do que pela aceleração exponencial das atividades laborais, seria um elemento indispensável para a instauração de um programa verdadeiramente libertário. Ora, o aparente nó górdio derivado desse raciocínio é que o aumento ininterrupto das forças produtivas levaria, por um lado, ao esgotamento ecológico, e, por outro lado, à perpetuação de uma sociedade consumista.

      Acredito que este impasse seja aparente porque o aumento progressivo das forças produtivas a serviço de uma “democracia proletária” (eu prefiro chamar apenas de uma democracia, mas sem aspas, como a representativa – pelo simples fato de que, controlando os meios de produção, os proletários deixariam de sê-lo, tornando-se, simplesmente, cidadãos [mais uma vez, sem aspas]) se daria em um contexto completamente inverso ao da atomização a qual os indivíduos são submetidos sob o capitalismo, de modo que:

      1) a organização coletiva em conselhos, cooperativas de produtores e de consumidores, assembléias de moradores etc., racionalizaria incrivelmente o consumo e tenderia a dar outra significação à mercadoria, desta vez desprovida do seu fetiche; principalmente, o mercado deixaria de ser a instituição central da sociedade, dando lugar ao espaço da instituição da liberdade; isto é: o domínio do político;

      2) a satisfação das necessidades básicas coletivas, a busca pelo bem-estar e a procura de respostas aos anseios da ampla maioria da população, ao substituir a satisfação das necessidades de luxo de uma pequena minoria, poderiam direcionar o investimento dos nossos excedentes em pesquisas voltadas para o desenvolvimento de tecnologias ecologicamente menos degradantes. É importante lembrar que parte das nossas escolhas produtivas não se deve simplesmente às possibilidades técnicas de sua consecução, mas a interesses econômicos de manutenção de certos arranjos tecnológicos e institucionais em detrimento de outros.

      É claro que a simples apropriação dos meios de produção pelos trabalhadores, e mesmo a instauração de uma verdadeira democracia, não seriam, por si sós, antídotos infalíveis contra o consumismo fútil e o esgotamento ecológico. Acredito que seja esta a razão, em parte, para as preocupações dos “socialistas da miséria”. Porém, a condição dramática a qual estes socialistas precisam encarar com realismo é que, sem o aumento das forças produtivas, a verdadeira liberdade muito dificilmente poderá ser instituída (historicamente, a liberdade sempre demandou a liberação, ao menos parcial, do trabalho, e foi amiúde permitida graças ao emprego da força de trabalho escrava…). O “antídoto”, portanto, não é negar o avanço da capacidade produtiva da humanidade, e menos da sua capacidade de consumo, mas esforçar-se pela elaboração de uma outra significação para a mercadoria e a técnica.

    • Henrique

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      mar 23, 2011

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      João, não é que hoje, dia da água, professores interrogavam outros professores da rede pública e os alunos miseráveis a respeito do que eles estão fazendo para preservar e economizar?

      Pois bem. No extremo sul de São Paulo, a água falta a semana toda, vindo somente uma vez por semana e por poucas horas. Situação tão grave que moradores começaram a sequestrar funcionários da sabesp só os libertando com a garantia da entrega da água.

      Nesse quadro, que água o professor quer que se preserve e a custas de quem?

      Obs: não poderia escrever um artigo sobre “Até então as reivindicações económicas, e mesmo as grandes vagas de luta social, tinham-se exprimido em termos de polémica religiosa, e aqueles que haviam lutado e tantas vezes morrido pelo anseio de dar outra vida aos humildes haviam também procurado abrir-lhes outro acesso a Deus” ?

    • Leo Vinicius

      |

      mar 23, 2011

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      O artigo é muito bom e oportuno em termos de crítica. Bastante original, para a esquerda atentar a alguns perigos de seu discurso e programa.

      Mas concordo com a conclusão do Eduardo Tomazine. O socialismo só se dará pela instituição de outras significações, valores e outros homens (ele será resultado dessa própria transformação). Então a questão da abundância e da miséria já não se colocará, ou não com o sentido que damos a elas.

      A questão é de onde virá ou como se dará tal transformação.

    • J

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      mar 25, 2011

      |

      Caro Joao,
      e quanto ao debate sobre a criação de zonas autônomas territorialmente circunscritas e autogeridas, como no caso dos (neo)zapatistas por exemplo, você acredita que se mantém pertinente tal discussão? Se por um lado a independência em relação ao governo e a tentativa imediata de outras formas de socialização e produção podem representar (alg)uma forma de socialização da miséria, para usar seus termos, devido às condições materiais concretas, por outro a implementação aqui e agora de um outro modelo baseado no comunitarismo não pode apresentar uma via na qual, assim como apontam Leo e Eduardo, essa questão seja senao relevada ao menos levantada em outros termos?

      De todo modo, mesmo que sim, imagino que a questão ficasse igualmente em aberto para suas ponderações no que tange a contextos urbano-industriais…Talvez nessa linha mesclá-las com os aportes inicias do Eduardo possa ser interessante, nao sei… Torço para que o debate siga – assim seguirei aprendendo.

    • João Bernardo

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      mar 25, 2011

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      Pedem-me para responder a coisas que ignoro. Não sei falar de um futuro longínquo, de quando chegar a sociedade sem classes e a humanidade andar de mãos dadas, entre pombinhas esvoaçantes, a reunir em assembleias harmoniosas para deliberar isto e mais aquilo. Fui treinado para analisar o passado e o futuro próximo, é só isto que sei fazer. Para mais, o presente não existe, é uma tensão entre o passado e o futuro imediato, ou seja, por outras palavras, o presente são as contradições do passado em acção. O que sei, porque todo o passado o mostra, é que uma sociedade que permita às pessoas terem tempo para reflectir, imaginar e construir livremente tem de ser baseada na abundância. E tanto pior se os esquerdistas reagem à palavra abundância como uma beata reage à palavra fornicação. Isso só comprova o eixo do meu argumento. Contrariamente aos socialistas do século XIX, a extrema-esquerda de hoje teme a abundância, considera-a nociva e os projectos imediatos que propõe têm como consequência económica a escassez. A extrema-esquerda deixou a abundância ao capitalismo, e espanta-se por a maioria dos trabalhadores lhe virar as costas? É nas relações sociais que os trabalhadores estabelecem quando lutam que eu encontro a regra do que poderá ser uma sociedade socialista. São relações igualitárias e comunitárias, opostas à proliferação de hierarquias e à concorrência que caracterizam a sociedade capitalista. É esse o único socialismo que posso estudar empiricamente, e não conheço nenhum caso de uma luta que os trabalhadores tivessem declarado contra os malefícios do consumismo. Têm sido demasiado raras as ocasiões em que aquelas novas relações igualitárias e comunitárias conseguem durar o suficiente para passar do plano político para a construção de fundamentos económicos, e nessa altura fazem-no contra o bloqueio que as cerca. São fábricas falidas tomadas pelos trabalhadores apesar da aversão do mercado e da retracção dos créditos, são regiões inóspitas controladas pelos trabalhadores apesar do isolamento a que as confinam, é por vezes um país que consegue durante um ano ou mais sobreviver à hostilidade do capitalismo mundial. Ora, em condições tão difíceis, de uma dificuldade provocada exteriormente, se estas experiências permitem analisar com certo detalhe as relações sociais, só muito deficientemente permitem vislumbrar o que possa ser uma nova economia. O leitor que assina J. evocou o caso de Chiapas e a este respeito eu vou contar uma história que se equipara em pitoresco à narrada por Henrique. Garanto que é verdadeira, foi um amigo que a presenciou, em Chiapas, numa assembleia de apoiantes idos de todo o mundo, quando umas meninas holandesas perguntaram ao subcomandante que medidas estavam a ser tomadas para a reciclagem do lixo. Elas desejavam, evidentemente, que os neozapatistas pusessem os papéis num lugar, os plásticos noutro, os vidros noutro ainda, sem esquecer as pilhas velhas, e estavam decerto preocupadas por não enxergarem os recipientes assinalados com as devidas cores. O meu amigo garantiu-me que o subcomandante lhes respondeu delicadamente. Pudera não! Primeiro, porque deve ser delicado mesmo, e depois porque todos os apoios são preciosos. Todos?

    • João Mauro

      |

      mar 25, 2011

      |

      Três perguntinhas apenas:
      1 . A “abundância” a que se refere o autor do artigo, e que teria sido “trazido pelos capitalistas”, existiria, se não tivesse havido a luta de classes organizada e intensa, ensejada pelo socialismo?

      2 . A “abundância” a que o autor se refere não teria sido uma consequência inevitável do desenvolvimento das forças produtivas, e não uma benesse propiciada pelo capitalismo?

      3 . Isso tudo o que foi dito elimina a existência da mais-valia?

    • João Bernardo

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      mar 25, 2011

      |

      Respondo às três questões formuladas por João Mauro:
      1) Não, não existiria. É precisamente isso que eu afirmo na segunda parte do artigo, e os três primeiros parágrafos dessa segunda parte são muito claros a este respeito.
      2) As forças produtivas desenvolveram-se da maneira que conhecemos porque os trabalhadores, através das lutas para trabalhar menos tempo e obter uma maior remuneração, pressionam os patrões a aumentar a produtividade. Em caso nenhum eu digo que se trata de benesses do capitalismo.
      3) Em vez de negar a noção de mais-valia, este artigo ilustra a noção de mais-valia relativa. O parágrafo ao lado da escultura de Duane Hanson e os outros dois abaixo não são mais do que uma tentativa de expor de maneira muito simplificada o processo da mais-valia relativa.
      Neste artigo retomei de maneira brevíssima o eixo principal da minha argumentação no livro Economia dos Conflitos Sociais (1ª edição: São Paulo: Cortez, 1991; 2ª edição: São Paulo: Expressão Popular, 2009), de que o capitalismo só avança porque os empresários são obrigados a recuperar, sob a forma de aumento da produtividade, as lutas dos trabalhadores. Mas, sobretudo, pretendi chamar a atenção para o contraste entre o programa inicial do socialismo, que pressupunha a abundância, e o programa posterior da extrema-esquerda que, directa e indirectamente, só tem para oferecer a escassez.

    • Henrique

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      mar 25, 2011

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      A forma como tem se estabelecido esse socialismo da escassez não significa o estabelecimento ou retorno a dadas formas míticas, na qual a natureza é interpretada como uma divindade? A ecologia não tem se transformado numa forma global de religião?

      Se dentro do capitalismo os trabalhadores conseguem conquistar a abundância que antes desejavam o que sobra para o socialismo que não seja a escassez? Prometer o mesmo mundo de abundância só que num formato moral superior, que não resulte da exploração e opressão de uns contra outros? Interessam-se os trabalhadores por abandonar o que se tem de paz e consumo para aqui e agora para lutar por algo ainda abstrato e de consecução longinqua?

    • Gláucio

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      mar 25, 2011

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      Henrique lhe parece mesmo que os trabalhadores, ou sua grande maioria, conseguiram conquistar a abundância que antes desejavam? Acho que não. E as reivindicações que tentam aplacar a miséria não parecem também ter seu espaço. O PCO tem por bandeira o salário mínimo em mais de 2 mil, mas não alcançam o mínimo apoio. A luta pela diminuição do preço do transporte (e nem se fala em gratuidade) consegue reunir poucas mil pessoas (o que não é pouco no atual momento) em cidades em que milhões sofrem com este tipo de condução. Num país que nunca aplacou a miséria no campo o MST está perdendo base.

    • Adriano

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      mar 25, 2011

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      meio a eDentro de uma compreensão primeira de socialismo, tal “modelo econômico” consistiria numa racionalização efetiva dos meios de produção e distribuição de bens, que proporcionaria às pessoas melhor qualidade de vida, em termos pessoais e sociais. A idéia era que através dessa mais racional alocação de recursos, a sociedade se constituísse de forma igualitária e organizada, e que, em meio a essa igualdade material ou até guiada por ela, cada homem pudesse satisfazer e realizar melhor sua natureza e existência nessa terra, através da realização de suas potencialidades espirituais.

      Pois bem, guardada a questão do paradoxo entre a racionalização da produtividade e o fim do Estado, que foi manifestamente ignorada, a saída “natural” seria concentrar os recursos econômicos nas mãos do Estado e fazer com que tal Estado efetivasse a racionalização produtiva e distributiva, proporcionando os benefícios daí decorrentes; contudo, essa saída foi notadamente fracassada. A tarefa de produzir e distribuir foi delegada às empresas privadas, e, dessa forma vem ocorrendo, já há algum tempo.

      Manter a aura socialista, a meu ver, nada mais é do que continuar buscando essa realização da humanidade das pessoas; buscar a constituição de uma sociedade e de uma estrutura produtiva que não só permita a elas a sua realização, mas que contribua para tanto; nesse ponto, entramos no campo das divergências sobre o que é o socialismo, sobre como ele deve ser, e também nesse ponto é que se move o texto.

      O que o autor do artigo chama de socialismo da miséria é, na concepção de seus defensores, nada mais do que um modo diferente de pensar a produção, a distribuição e a relação com as mercadorias, de forma que promova uma existência saudável e plena socialmente falando; para outros tal realização talvez esteja condicionada a uma produtividade ampla e robusta; são concepções diferentes, talvez por uma divergência acerca da natureza humana e de como proporcionar a sua realização.

      Mudando de assunto…. O fetichismo da mercadoria, a meu ver, diz respeito a uma realização estética das pessoas; a experiência, a vontade e a aspiração estéticas são inerentes às pessoas no que diz respeito a todos os elementos materiais que as cercam; fetichizar algo, assim como fetichizar os seus gestos, as suas roupas, faz parte de tal aspiração; não creio que seja desejável (ou até possível) ao socialismo suprimi-las, justificado por razões de ordem supostamente práticas. Claro que existem diversos modos de fetichismo, de modo que dentro de cada estrutura produtiva ocorre uma experiência singular; radicalizando tal compreensão anti-fetichista é que alguns ainda aferem que o socialismo (ou alguns socialistas) advoga(m) a morte da arte.

    • Venâncio

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      mar 25, 2011

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      Prezado João Bernardo,
      você enquadra qualquer pessoa que questiona e se opõe ao consumismo estimulado pelas indústrias e à criação de “necessidades” (como comprar mais do que se precisa,trocar de aparelhos eletrônicos anualmente, mesmo que os antigos continuem funcionando perfeitamente, e assim por diante) como “socialistas da miséria”?
      Do mesmo modo, aqueles que optam por utilizar meios de transporte alternativos (bicicletas, por exemplo) ao invés de financiar carros, não passariam de “socialistas da miséria”?
      Compreendo perfeitamente seus argumentos e a crítica àqueles segmentos da esquerda que colocam a distribuição e não o questionamento das relações sociais que engendram nossa sociedade como principal projeto político, mas fico com sérias dúvidas a respeito de até onde você leva essa crítica ao que denomina como ecológicos.
      Afirmar que os atuais padrões produtivos estão gerando uma degradação acelarada do planeta é ser um “socialista da miséria”?

      Meus cordiais cumprimentos,
      Venâncio.

    • Eduardo Tomazine Teixeira

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      mar 25, 2011

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      Caro Henrique: não penso que o projeto libertário deva oferecer uma “abundância moralmente superior” à capitalista, mas a efetivação da liberdade, da equidade e da justiça. A abundância, assim como a redução da jornada de trabalho e mesmo o controle sobre os rumos da produção são condições inseparáveis para a constituição desse estado de coisas.

      A respeito do comentário do “J”, jamais encontrei na práxis zapatista a socialização da miséria – isto é, nem em suas reflexões, nem em suas ações. Mesmo a despeito das restrições impostas pelos cerco e os assédios feitos pelos militares e os paramilitares, os zapatistas têm conseguido certos progressos da qualidade material da vida da sua população que não são negligenciáveis: beneficiamento de terras expropriadas; exportação de café e de produtos artesanais para o exterior graças à rede internacional de comitês de apoio; criação de um banco para financiar deslocamentos para fins medicais etc. etc. etc. Agora, se até o momento eles não levantaram usinas e tampouco multiplicaram o número de máquinas agrícolas, acho pouco provável que isso faça parte de uma opção programática, devendo ser imputado, antes, às restrições que o estado de guerra e cerco lhes impõem.

      Caro Adriano: é bem verdade que a mercadoria suscita esse tipo de fetiche ao qual você faz referência; mas, quando eu mencionei o fetichismo da mercadoria em meu comentário, tinha em mente o conceito marxiano, que descreve a relação entre os produtores mediatizada pela mercadoria, a qual, com a sua aparência, digamos, asséptica no mercado, encobre as relações sociais da sua produção (sobretudo as relações de exploração). Assim, os produtores, apresentados como consumidores no mercado capitalista, têm a impressão de se relacionarem com coisas, e não com outros produtores. As relações sociais terminam por serem reificadas, isto é, “coisificadas”. Ora, num mercado fetichizado, a lógica do mercado tende a se autonomizar, deixando de servir ao fim ao qual, em tese, deveria servir: a satisfação das necessidades dos produtores.

      Quando eu disse que em uma sociedade na qual os produtores controlam democraticamente a produção e regulam, também democraticamente, o mercado do qual participam, a mercadoria tenderia a perder o seu fetiche, pois esses seriam mais cônscios das relações sociais contidas na sua produção. Isso não é um exercício de futurologia, mas a observação de relatos históricos de experiências libertárias, como a Espanha de 1936 (ver, como exemplo, o relato de Orwell, “Homenagem à Catalunha”; ou, então, observar a solidariedade que se expressa entre trabalhadores de diferentes fábricas recuperadas, na Argentina – o filme “La toma”, da Naomi Klein, mostra alguns exemplos disso). Dessa maneira, o mercado (e a economia) deixa de ser a significação central da sociedade, para tornar-se um meio para a constituição de uma sociedade autônoma.

    • iraldo

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      mar 25, 2011

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      É curioso como existem teorias para explicar o “consumismo”, e pouco se fala do “sub-consumo” de boa parte da população mundial, principalmente nas economias onde predomina a mais-valia absoluta. Desde há muito o malthusianismo verde, a Sra Brundtland e a eco-social-democracia européia (que vem fazendo escola pelo mundo, inclusive no Brasil…) confundem o “combate à pobreza” com um “combate aos pobres”. O consumismo nada mais é do que a expressão da necessidade que o modo de produção capitalista tem, de se expandir ilimitadamente, na forma de sua reprodução ampliada. Só a auto-organização dos trabalhadores ao se apropriarem dos meios de produção e desenvolverem novas relações de produção podem dar um novo rumo à produção, que evite desperdícios (inimigo da abundância) sem criar escassez. E o maior desperdício, como lembra Bernardo em A Economia…, é a energia criativa do trabalho, materializada e apropriada por outrem na forma de mais-valia. O que vemos por aí nos lixões, é a natureza transformada pelo trabalho humano. E o que propõe a Ecologia Política para a solução desse problema? A resposta é de Tom Thomas: a “ecologia do absurdo”, criação de mais trabalho obrigatório vinculado à “limpeza do planeta” (produtos e serviços), dentro de um “novo vetor de relançamento da acumulação”: o Capitalismo Verde. E esse é o “habitat natural” onde se prolifera a ecocracia gestora e seus centros internacionais de “gestão ambiental”. A preocupação exacerbada com as “gerações futuras”, não passa de uma condenação de classe de boa parte da população mundial, da “geração atual”, que já vive em condições subumanas. Essa parcela da população já vive uma vida “sustentável”: não consome, ou quase isso.

    • Danilo

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      mar 25, 2011

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      Salve camaradas do PP,

      Acho que o debate que está sendo travado aqui é extremamente importante de ser aprofundado. Principalmente a partir dos termos críticos (e dissonantes) por meio dos quais o João levantou uma série de questões fundamentais.

      Estou de acordo absolutamente que, em seu itinerário histórico, o programa socialista partiu no século XIX de um “programa” que vislumbrava o “socialismo da abundância”, a partir da libertação total da “classe operária” que, àquela altura, vivia sobretudo enclausurada em fábricas com altíssimas jornadas de trabalho e péssimas condições materiais de subsistência. Frente a isso, a promessa de construção na prática cotidiana de uma sociedade superior, organizada noutros termos (anti-hierárquicos e libertários), exerceu e ainda exerce um potencial crítico, mobilizador e organizativo contundente.

      O fato de tal “proposta” original ter sido progressivamente recuperada pelo sistema capitalista ao longo do século XX, por meio do aprimoramento contínuo das mais variadas formas de “mais-valia relativa”, absorvendo o potencial revolucionário da organização dos trabalhadores em prol do próprio incremento na acumulação e na exploração relativa destes, realmente fortaleceu ainda mais o “capitalismo da abundância”. Isso de maneira casada à consolidação de um modelo/protótipo de “socialismo real” (na verdade, verdadeiro “capitalismo de estado”) que em sua trajetória histórica cristalizou padrões de organização e produtividade miseráveis. Tudo isso como bem mostrou o texto, conformando um pesadelo cujo espectro ainda ronda o mundo inteiro neste início do século XXI.

      Senti falta no texto, porém, de uma problematização maior acerca do caráter destrutivo do sistema capitalista, cuja acumulação racional E irracional passou necessitar, cada vez mais, da destruição de fábricas inteiras, de complexos industriais, de cidades e regiões inteiras conforme progredia o referido século XX. E ainda mais neste início do século XXI.

      Creio que um dos desafios na nossa prática cotidiana atual, frente ao caráter cada vez mais destrutivo do sistema capitalista (exatamente na mesma medida em que incrementa a produtividade e sua mais-valia relativa a níveis bem altos) é experimentar novas formas de organização autônomas e libertárias que tenham em vista, ao mesmo tempo, que nem o “capitalismo da abundância (de poucos)”, nem o “capitalismo ou socialismo da miséria”, tampouco o “capitalismo ou socialismo da destruição produtiva” são alternativas viáveis dado o espetacular acúmulo de destruição desenvolvido ao longo de todo o passado e diante deste breve futuro que podemos vislumbrar.

      Isso obviamente não significa que os movimentos devam reproduzir a apologia ao ascetismo e a padrões de vida miseráveis nos seus âmbitos locais, mas sim aprofundar muito bem não a “consciência ecológica”, mas sim a crítica à lógica do capital que produziu-e-engoliu Fábricas (ao longo do século XIX), Cidades (ao longo do século XX) e começa a produzir-destruir cada vez mais Geo-regiões inteiras (neste século XXI).

      São apenas algumas questões iniciais deixadas para o debate, em meio ao pleno vapor do absoluto horário de trabalho…

      Forte abraço,
      D

    • João Bernardo

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      mar 26, 2011

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      Uma das deficiências mais flagrantes da ideologia ecológica e que mais a caracteriza como mistificadora é a sua ignorância da história. Os ecológicos consideram a indústria moderna como a origem de todos os males, quando ela veio resolver o enorme desequilíbrio ambiental anterior, provocado pelo uso extensivo da madeira. A história do regime senhorial é a história do avanço sobre os bosques e, tanto quanto conheço, nenhuma outra época dependeu a tal ponto de uma única matéria-prima. Tenho insistido muitas vezes numa regra que me parece fundamental: quanto menos produtiva é uma tecnologia, tanto mais destruidores são os seus efeitos colaterais relativamente à dimensão do produto obtido. Era colossal a capacidade destruidora dos pequenos povos arcaicos, embora usassem tecnologias rudimentares e mal conseguissem ultrapassar o limiar da sobrevivência. Pelo contrário, se a tecnologia capitalista pode provocar muitos efeitos colaterais nocivos, ela é igualmente capaz de tomar medidas para conter ou impedir esses efeitos colaterais. É o que tem sucedido até agora. A histeria catastrofista dos ecológicos alimenta-se de um artifício simples, a apresentação de projecções como se fosse previsões. A este respeito parece-me imprescindível a leitura do livro The Skeptical Environmentalist, de Bjørn Lomborg. Existe uma tradução brasileira, mas ignoro se é satisfatória.

      É com esse catastrofismo desprovido de fundamento que se critica hoje algo que foi erigido em pecado mortal do século, o consumismo. Quando temos pecados temos religiões, e estou de acordo com Henrique. A ecologia transformou-se numa forma global de religião. O primeiro grande passo nesse sentido foi dado no Terceiro Reich com a formação daquela que era a terceira corrente religiosa do nazismo — as outras duas eram o luteranismo e o catolicismo — um neopaganismo desenvolvido sobretudo no âmbito dos SS. É-me impossível expor minimamente esta questão no espaço de um comentário, mesmo longo. Limito-me a aconselhar a leitura de um livro tão breve quanto esclarecedor: Janet BIEHL e Peter STAUDENMAIER, Ecofascism. Lessons from the German Experience, Edimburgo e San Francisco: AK Press, 1995.

      Quando vejo descrever esse tal consumismo, é o padrão aquisitivo de uma certa fracção de novos-ricos da classe dominante que é evocado, não de toda a classe dominante. Muito menos da classe trabalhadora, acusada de consumismo ao pretender escolher entre tipos diferentes de bens de consumo do mesmo género. E voltamos assim ao corpo do meu artigo, ao ascetismo de esquerda, à hostilidade ao sector de produção de bens de consumo, ao socialismo da escassez. Vêm-me com o argumento de que as necessidades que levam hoje as pessoas a acorrer aos fins de semana aos supermercados são criadas pelos próprios produtores dos bens. Claro que são. Em todas as sociedades humanas, desde que existe homo sapiens sapiens, as necessidades são criadas. É precisamente isto que define a cultura — a criação de necessidades. E aqueles que pretendem ensinar a população a viver com menos bens e a habituar-se ao desconforto não estarão também a ser criadores de necessidades, ou de falta delas? O Cambodja não é longínquo, está aqui, no meio de nós. E sabem onde se formou um dos principais ideólogos do regime de Pol Pot? Na Universidade de Paris-VIII Vincennes, o lugar por excelência do esquerdismo universitário, a mais directa emanação do Maio de 68 no interior do âmbito universitário. A extrema-esquerda ecologista devia olhar-se ao espelho do regime de Pol Pot.

      Mas, regressando ao artigo que deu origem a este debate, ele não pára na quarta parte e tenho pena de que ninguém ainda se tivesse referido à quinta parte, que visa directamente as consequências da posição agora tomada pela grande maioria da extrema-esquerda na faixa meridional da zona do euro.

    • P Markes

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      mar 26, 2011

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      Pela lógica exposta por João Bernardo todas as pessoas do mundo deveriam ter a “abundancia” que têm um americano ou europeu “desenvolvido” médio. Vejo aí uma visão etnocentrica e evolucionista segundo qual não há alternativa ao paradigma do “desenvolvimento” e do “produtivismo”. O discurso é o mesmo da ideologia justificadora do capitalismo, ou seja, não há alternativa. Nesse sentido a cultura é “naturalizada”, “fossilizada”. O socialismo de João Bernardo é o paraíso do consumo, no qual cada pessoa terá sua “necessidade” atendida. Temho curiosidade em saber a opinião do autor sobre o conceito de “fetichismo” , “alienação” e “ideologia” de Marx. Me parece que expplica muito mais do que suas opiniões.

    • Leo Vinicius

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      mar 26, 2011

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      O artigo é bastante rico, e suscita muitas reflexões, como tudo que se coloca fora do senso comum (e do senso comum da esquerda inclusive). Como disse antes, gostei muito das críticas, e apenas para não ficar no lugar comum é que não disse que achei o artigo brilhante. No entanto, dando uma olhada nele novamente, me parece que o João Bernardo atribui aos socialistas, ou aos ecologistas socialistas (ou socialistas ecologistas, como se queira), a atitude, programa ou propaganda para que os indivíduos diminuam seu consumo, numa “obrigação moral de gastar menos”. Porém acho que essa seja apenas a vertente hegemônica do pensamento ecológico, que não é a da maioria dos ecologistas que podem ser ditos socialistas e que se dizem socialistas. A diversidade de pensamento “ecológico” é muito grande, mas de um modo geral os socialistas tendem a enfatizar as relações sociais e o modo de produção como raíz dos problemas ecológicos, enquanto os eco-capitalistas, se assim podemos chamar, enfatizam a atitude individual como se fosse a raíz do problema. É verdade que eu mesmo posso lembrar de discursos dentro de movimentos sociais de tendência anticapitalista em que aparecia também esse pensamento de limitação do consumo, mas não creio que seja esse tipo de pensamento o que caracteriza o discurso socialista sobre ecologia. Confesso que quando ouvi esse discurso que me lembro agora, de uma liderança de um expressivo movimento social do campo, até me entusiasmei, pois achei ele bem vindo num meio de esquerda desenvolvimentista que é ainda majoritário no Brasil, no qual não se questiona o sentido do “crescimento econômico”.

    • Astolfo Jr.

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      mar 26, 2011

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      Mas não era esperado o silêncio desses grupos que teimam em apontar a questão da dívida dos países dependentes/subdesenvolvidos/terceiro-mundistas como a peça fulcral de todos os males do mundo?

      Até parece que já não é mais a Revolução o grande objetivo, mas a construção da nação soberana e independente, a criação da Pátria Grande.

    • João Bernardo

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      mar 26, 2011

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      Garanto que não fui eu que inventei o comentário de P. Markes, embora ele pareça criado propositadamente para ilustrar as críticas a que procedo no artigo e a minha afirmação, num comentário anterior, de que a extrema-esquerda ecologista se devia olhar ao espelho do regime de Pol Pot.
      Então eu seria etnocentrista, só porque afirmo que os humildes de todo o mundo têm direito a beneficiar da mesma abundância que os trabalhadores da Europa e da América do Norte conseguiram pressionar o capitalismo a produzir. É para isto mesmo que serve o multiculturalismo em voga, para deixar cada povo estar como está, sob o pretexto da diversidade cultural. E os multiculturalistas não se ocupam em saber que antagonismos rasgam cada cultura em interesses opostos nem se preocupam em elucidar como culturas anteriores foram eliminadas ou absorvidas pelas culturas actuais, e como por sua vez as culturas anteriores haviam eliminado ou absorvido etc. As mulheres na Europa, no norte do continente americano e na China conquistaram a igualdade de direitos, como ousam elas ser etnocêntricas a ponto de reclamar que as mulheres de outros lugares não sejam apedrejadas, mutiladas ou simplesmente espancadas pelos maridos ao sábado à noite e quem sabe se durante a semana também? Isto para não mencionar o etnocentrismo dos homossexuais que desfilam em várias capitais reivindicando que não sejam presos, processados e muito pior os homossexuais de diversos países africanos. E agora chega um João Bernardo qualquer, um etnocêntrico, a escrever que todos têm direito à abundância, desrespeitando os direitos das culturas da miséria!

    • Daniel Tomazine Teixeira

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      mar 26, 2011

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      Caro João, demais colegas e meu irmão querido, eduardo tomazine,

      Primeiramente gostaria de elogiar vosso artigo, João, que toca num ponto nevrálgico do socialismo: a abundância. A tempos que falo ao críticos do socialismo – que justamente me acusam de “socialismo da miséria” – que quero uma revolução para viver na abundância, no conforto. Escrevo este comentário em pleno sábado d emanhã, pois estou novamente trabalhando. EW olha que ontem sai daqui depois das 22H…

      Sou militante do PSTU e sei que meu partido é considerado de extrema-esquera, ou esquerdista pela maioria. E até confesso que em determinados momentos o é sim. Atendendo a vosso apelo João, é justamente sobre a parte 5 que gostaria de coemntar.
      Obs.: m,uito estranho escrever somente João. Acostumeime na faculdade a escrever acompanhado de “Bernardo”, uma vez que vosso livro em 3 volumes sobre Idade Média muito me é valioso…

      Voltando a “vaca fria”, é programa do meu partido a ruptura com o sistema financeiro mundial. E não poderia ser de outra forma. O sistema financeiro mundial é um sistema de exploração. Nunca foi e nunca será um sistema que financiará – e mantenho o financiará, com lucro – obras de conteções de encostas que realmente resolvam os problemas da região serrana carioca; nunca será um sistema que finaciará o atendimento das necessiadades socialmente constituidas da imença maioria da população; nunca o será enqunato eprdura o sistema de extraçãod e mais valia por parte dos capitalistas sobre os trabalhadores.
      É preciso, num Estado Socialista, já que falar de comunismo seria algo um tanto quanto recheado de um viés futurolista, de um sistema financeiro em que o crédito esteja a fovor da calsse trabalhaadora, para que a mesma consiga sim mobiliar sua casa com TV’s de LED 3D, alimentos saudáveis, roupas confortáveis, remédios, livros, transportes públicos confortáveis e velozes, mas sem esquecer do transporte individual, etc, etc, etc…

      O program de reivindicações, a chamada tática da exigência e denúncia, parece-me uma tática política da mais elementar, que um leitor de trostsky deveria conhecer. Exigir que um governo como o de lula rompa com a dívida interna e externa, rompa com o superavit primário, é uma obrigação de qualquer revolucionário, ainda que se saiba que o memso não irá cumprir tal exigência! Parece-me tão obvio que nem sei ao certo como explicar…

      Ora, enquanto 4,5% do PIB brasileiro é destinado ao pagamento de Juros e pequenas amortizações da dívida pública, eu continuo a trabalhar num abirro em Duque de Caxias, responsável por tornar este município no mais ríco município brasileiro deposi das capitáis, em que a rua está smepre alagada, onde não há policiamento algum, nenhuma espe´cie de atendimento de saúde publica.

      Para piorar, mesmo os paízes em que os trabalhadores teriam atingido uma “abundância”, a escasses bate a porta – pois é a escassez a verdadeira face do capitalismo.

      Não ocuparei mais o tempo dos senhores, mas fecho defendendo o meu “esquerdismo trotskista”, em que deve-se cobrar dum governo tão popular, como é o do PT aqui, medidas que ele não possa cumprir, de forma a se explicar, passo a passo, a classe trabalahdora os males do paitalismo e que esta faça sua experiencia com o governo. É estranho esta defesa tão árdua duma tática que aprece não estar surtinod efeito algum, uma vez que o governo lula acabou mantendo uma aprovação abissal, mesmo em meio a mais grave crise econômica do capitalismo dÊs de 1929… Vai ver meu partido não entendeiu muito bem a própria tática que defende…

    • Astolfo Jr.

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      mar 26, 2011

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      Gostaria de saber uma coisa do Daniel: por que diabos o sistema financeiro mundial nunca foi e nunca será “um sistema que financiará obras de contenção de encostas que realmente resolvam os problemas da região serrana carioca”? É algum problema imanente da tecnologia capitalista com a região serrana carioca? Porque posso imaginar que até com tecnologia pré-capitalista se poderia resolver o problema daquelas encostas — nem que para resolver o problema um doido quisesse pôr abaixo as encostas todas.
      Mas não acredito que seja esse o caso. E poder-se-ia tranquilamente apontar vários casos onde a tecnologia capitalista (com financiamento capitalista) resolveu muitos desses imbróglios. Por que raios então isso seria impossível aqui em terras brasileiras? Será alguma coisa marcada a ferro no nosso DNA miserável de periferia o que nos impede de resolver isso? Só pode ser de um socialismo etnocêntrico miserável quem pensa assim!

    • Leo Vinicius

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      mar 26, 2011

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      Daniel Tomazine Teixeira,

      pelo que entendi da parte 5, a questão é que mesmo se fosse o PSTU no governo provavelmente não iria cumprir o rompimento com o sistema financeiro interncional, e se o fizesse iria ser o Estado burocrático gestor da “miséria”. Me parece que é esse o ponto que o João Bernardo tenta mostrar (e de maneira convincente para mim), na parte 5.

      Só vejo sentido em reivindicações táticas que possam ser conquistadas. Se é pra reivindicar apenas para “trazer consciência”, que se reivindique de uma vez o “controle operário” sobre os meios de produção.

    • Tales

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      mar 26, 2011

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      Caros companheiros,
      Vemos mais uma vez através do comentário do Daniel Tomazine o sentido da ação política dos trotskista – e dos bolcheviques em geral – de serem o farol da classe trabalhadora ao querer “explicar, passo a passo, a classe trabalahdora os males do pai[capi]talismo e que esta faça sua experiencia com o governo”, como se a classe trabalhadora não sentisse esses males cotidianamente em seus locais de trabalho e moradia, e esta fazendo sua experiência desde o início do governo do pt!
      Experiência esta que mostra que não é tão necessário o estado socialista para que os trabalhadores consumam uma quantidade maior de mercadorias, pois o governo Lula fez esta sua bandeira principal através dos programas de distribuição de renda, e para que o sistema financeiro abra linhas de crédito para o consumo da classe trabalhadora.
      Ao contrário dos partidos de extrema-esquerda, o pt entendeu que o motor do capitalismo é esse consumo dos trabalhadores, necessário para intensificar a produção e a extração da mais-valia. E isso ocorreu precisamente porque o pt não rompeu com o sistema financeiro mundial e continuou pagando a dívida do estado brasileiro.
      Entendo que ao contrário do socialismo da miséria, o que a classe trabalhadora aspira em seus momentos de construção revolucionária é o controle e a gestão coletiva e igualitária da produção, para que consigam melhorar sua próprias condições de vida, e consequentemente decidirem coletivamente e igualitariamente a quantidade de produtos consumidos.
      O problema destes partidos de extrema-esquerda (e um dos motivos de não se tornarem partidos de massa, pretensão constante destas organizações) não é entender a própria tática mas se manter preso a ela.

    • P Markes

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      mar 26, 2011

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      João Bernardo têm uma visão não só etnocêntrica e evolucionista como todo marxismo ortodoxo como eurocêntrica, fala de seu “centro” de origem, ou seja, a “desenvolvida” sociedade européia que em nome do “desenvolvimento” e da “evolução” destruiu povos inteiros e manteve, a partir do colonialismo toda a Africa sob o jugo da sua “civilização”. Tanto a extrema esquerda ( principlamente os trotskistas, variante do stalinismo) como João Bernardo rezam pelo mesmo determinismo evolucionista do capitalismo. Qualquer crítica ao irracionalismo do consumo fetichizado é logo taxado de “ecologismo”, como qualquer crítica ao eurocêntrismo produtivista é tido como “Multiculturalismo”. Sim, a sociedade de João Bernardo e da esquerda em geral é dois carros na garagem, muito alimento trangênico,big Macs, energia Nuclear( o Japão que o diga como é bom ser desenvolvido) isto porque se for assim é porque queremos a miséria do povo. MAc Donalds para acabar com a fome na Africa, carros para resolver o problema do transporte na América Latina, viva o CAPITALISMO. Com “socialistas” assim, os capitalistas não precisam se preocupar com nenhum adversário.

    • João Bernardo

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      mar 27, 2011

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      Caro Daniel Tomazine,
      Não existe hoje nenhum país nem nenhuma empresa para quem o crédito não seja indispensável. Imagine o país mais rico, a empresa mais próspera, e consulte as estatísticas. Um pequeno partido de extrema-esquerda pode prometer que faz a revolução e que depois disso a circulação fiduciária muda de aspecto e a economia será outra coisa. Mas tais promessas ficam no plano das intenções e ninguém lhes liga, porque se um candidato a vereador, a governador ou a presidente pode ser eleito e dar aos cidadãos a oportunidade de comparar as suas promessas com a realidade, já os programas dos partidos pequenos ou pequeníssimos não se afiguram viáveis. E assim, ao mesmo tempo que anunciam o que fariam se…, esses agrupamentos confessam publicamente a sua incapacidade ao afirmarem que os governos deviam fazer aquilo que eles mesmos não conseguem. Você diz que os revolucionários devem exigir ao governo «medidas que ele não possa cumprir»; mas o que os revolucionários estão assim a demonstrar é que eles mesmos não têm nem terão força para pôr tais medidas em prática. Isto, que você classifica como «uma tática política da mais elementar», parece-me a mim um funesto erro político.
      E para mais entre os discípulos de um homem que deixou o seu nome na história em muita coisa, mas que mesmo os distraídos conhecem sobretudo pelos ataques que conduziu contra a noção de que seria possível construir o socialismo num só país. Querer que um governo, seja ele do presidente Lula ou do presidente José Maria, rompa com o sistema financeiro mundial sem ao mesmo tempo derrubar o capitalismo mundial e instaurar o socialismo em todo o planeta — o que está além dos desejos de sempre de Lula e além das possibilidade actuais de José Maria — é reproduzir à escala do Brasil exactamente aqueles mecanismos que Leon Trotsky detectou na União Soviética dos planos quinquenais. É promover uma forte burocracia centralizada, destinada a repartir bens escassos. Aliás, é pior ainda, porque a economia soviética nunca procurou isolar-se do crédito externo, bem pelo contrário, e o bureau político conseguiu sempre instalar e manter centros bancários no estrangeiro, que asseguraram aos soviéticos uma ligação ininterrupta com os circuitos financeiros.
      Mas quando eu escrevi a última parte do artigo estava a pensar em Portugal, já que de vez em quando ainda sou português. Se amanhã fossem aplicadas as medidas propostas pela esmagadora maioria da extrema-esquerda portuguesa — o que, confesso, é a esmagadora maioria de muito pouca gente — a situação dos trabalhadores tornar-se-ia ainda pior do que viria a ser com as medidas projectadas pelo governo que acabou de cair ou do que será com as medidas aplicadas pelo governo que for eleito. E as cabeças pensantes, ou semipensantes, da extrema-esquerda sabem-no ou pelos menos pressentem-no, pois não proporiam aquelas medidas se não estivessem intimamente convencidas de que elas nunca serão postas em prática. Ora, sucede que as pessoas não são tolas, e que também entendem ou intuem a hipocrisia desse comportamento político.
      Neste aparente beco sem saída os movimentos sociais apresentam um caminho — não concebido previamente pelos teóricos da política — de reivindicações sociais possíveis de pôr em prática de imediato e que, se não trazem a abundância, pelo menos diminuem a miséria, o que já é um passo no bom sentido.

    • Eduardo Tomazine Teixeira

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      mar 27, 2011

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      A extrema esquerda (e mesmo a moderada e a extrema direita) portuguesa hoje reivindica a saída da zona do Euro, alegando o controle sobre a moeda como condição de soberania e, sem retórica, de competitividade. Ocorre, simplesmente, que a sua dívida está em Euro, de modo que o retorno ao Escudo multiplicaria os seus encargos de tal maneira que tornaria Portugal ainda mais dependente. Estes grupos pensam que a soberania sobre a moeda daria aos seus países maior competitividade, ignorando que o elemento central da competitividade é a produtividade. Ok, o Yen é uma moeda menos valorizada que o Peso mexicano, mas basta comparar a produtividade dos dois países para entender a diferença entre a economia do Japão e do México.

      Seguir a proposta do Daniel, que é a de grande parte da esquerda brasileira, isto é, romper com o sistema financeiro mundial, seria tão revolucionário quanto o gesto de um prisioneiro que decide por cortar o cabo de freio do camburão que está a conduzir-lhe, em meio a uma autoestrada, ao cárcere: uma heróica inconsequência. A começar que, atualmente, os encargos da dívida brasileira não são referentes à “dívida externa”, mas ao que se chama de “dívida soberana”, isto é, à divida proveniente dos títulos do tesouro nacional, que o governo emite para obter liquidez ao sistema financeiro nacional; o qual, por sua vez, acaba por investir no sistema produtivo (embora de maneira mais tacanha do que desejaríamos). A moratória da nossa “dívida soberana” resultaria a falência do nosso sistema produtivo, com todas as consequências previsíveis disso.

      Ora, a atitude lúcida da esquerda diante do sistema financeiro, nacional ou internacional, é lutar por controlá-lo, e não por aboli-lo (o que seria de um primitivismo equivalente à abolição do dinheiro). A implementação da taxa Tobin é o que há de mais avançado a respeito, mas a sua impossibilidade reside na ausência de uma instância internacional de regulação do sistema financeiro atual. Quem iria obrigar a maioria dos países do mundo a implementar uma taxação sobre as transações financeiras? Quem iria sancionar os relutantes? O primeiro país ou zona de países que ousasse dar o exempĺo seria punido com uma fuga de capitais tão veloz que o levaria à bancarrota imediata.

      Ora, uma das bandeiras mais revolucionárias da atualidade, na minha opinião, é a luta pelo controle do sistema internacional de crédito, o qual deveria estar a serviço do planejamento de uma economia controlada pelos trabalhadores através de cooperativas, conselhos e federações de conselhos de trabalhadores. Mas isto faz parte de um PROGRAMA revolucionário, e não de uma manisfestação furibunda de uma esquerda incapaz de formular um projeto de sociedade, a qual se limita em reivindicar a estatização dos setores estratégicos da economia nacional.

    • Daniel Tomazine Teixeira

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      mar 27, 2011

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      Primeiramente, gostaria de desculpar-me pelos erros de português. Não há desculpa para tal. Como bem chamou minha atenção meu irmão que lhes falou a cima, não posso me dar ao luxo de como professor de história utilizar-me de um português tão capenga.

      Segundo lugar, gostaria de expor, mais uma vez, o prazer de estar num debate com meu irmão mais velho e com um autor do qual sou fã e que espero que um dia compareça ao meu grupo de estudos em história do pré-capitalismo (relaxa, que eu sou o único troskysta).

      Pois bem. Inspirado pelo novo camisa 10 do meu Vasco da gama, tentarei dar uma de Diego Souza e desembaraçar o meio de campo, para que Alecsandro, novo camisa 9, possa balançar as redes.

      Deixarei bem claro: acredito que um governo socialista – ou seja, dum Estado de transição duma sociedade com classes para uma sem classes – deva sim manter a existência de bancos e instituições financeira. Os trabalhadores ainda precisarão do crediário das casas Bahia para mobiliar sua casa. As empresas, agora controladas pelos trabalhadores, ainda precisarão de crédito para implementar seus novos projetos. Mesmo a empresa em que trabalho, a Petrobrás, que obteve um lucro de R$ 35 bilhões, necessita de empréstimos para realizar seu plano estratégico até 2020 – parte do empréstimo adquirido com o Banco Nacional Chinês, que será pago com barris de petróleo. Um governo municipal, Estadual ou federal ainda necessitará de empréstimos para fazer a contenção de encostas, hospitais, ferrovias, estádios de futebol, etc, etc, etc. Um “empregado” precisará de uma poupança, ou um fundo de investimento, em que possa obter não só a reposição da inflação, mas também algum ganho real sobre o dinheiro aplicado.

      Portanto, não sou contra a existência do dinheiro, nem do crédito no socialismo – como disse antes, não falemos de comunismo aqui. O que quis dizer com “sistema financeiro mundial” é este ai, controlado pelos capitalistas. Ora, a estratégia revolucionária existe porque não é possível se acabar com a extração de mais-valia, portanto da exploração do Homem pelo homem, apenas com eleições ou ONGs! TUDO, absolutamente TUDO nos marcos da exploração do homem pelo homem não nos serve! TUDO! T-U-D-O!!! Compreende?! Quer que eu repita? TUDO! O que não significa que as cosias que já existem não possam ganhar outro significado a partir do momento em que não se baseiem na exploração, na extração de mais-valia. Isso é obvio, como é obvio que a seleção brasileira precisa jogar com mais homens de ataque do que de defesa.

      Ora, não me venham com churumelas. É claro que “nunca” é tempo de mais até para o infinito. Não existe nada que empeça o Brasil de se tornar a nova potência econômica mundial no capitalismo. E mesmo antes disso, é possível sim que se façam uma obra de conteção das encostas, se retirem mansões e barracos de áreas de risco e preservação ambiental e etc. Vejo o capitalismo avançando para um tal de ecomercado ou coisa que o valha. Foi uma força de expressão a minha utilizar o Nunca. Quis ressaltar que sempre, em qualquer país, por mais central que seja no capitalismo, existirá aqueles que não desfrutam das benesses do capitalismo, pois pertencem à parcela da sociedade que é explorada. Ou então, se imaginarmos que um país pode se tornar uma Atenas sustentada pelo trabalho escravo exterior, digamos que a maioria dos países não desfrutará da abundância do capitalismo, por poucos países exploram esses.

      Voltando à tática elementar. Os bolcheviques exigiam que o governo provisório fizesse a paz, a qualquer custo. Sabiam que o governo Kerensky não iría cumprir isto. Mas isto era uma bandeira da maioria do operariado e dos camponeses da grande Rússia. Quando os bolches chegaram ao poder, levaram quase um ano para cumprir com a sua própria consigna. Mas começaram o processo logo no início de seu governo. E todos sabem o que resultou a paz – ou pelo menos deveriam saber.

      Alguém aqui falou nos anseios da classe trabalhadora. Pois bem, escutem os meus ansseios, pois sou trablahador: técnico em operação Jr da Usina termoelétrica Governador Leonel Brisola. Sou também Professor I, de História, da rede básica de educação do Município de Nova Iguaçu. Quando falam dos anseios da classe trabalhadora, eu sinto na pele estes. Não é nenhum colega de ferramenta que me fala não. Eu sinto. E digo, por muitas vezes até esqueço que existe essa discussão toda. A maior parte do meu tempo é ocupada com coisas muito dispares da tática revolucionária, da ecologia ou do caralho a quatro. A maior parte do meu tempo, estou preocupado se meu supervisor está gostando do meu serviço ou se está me queimando para nosso gerente; se meu salário irá vir certo no fim do mês; se o que vier será suficiente para pagar o exame de videolarigoscopia com foto que tive que fazer, além do mecânico, IPVA, cartão de crédito, etc, etc, etc. Preocupo-me se conseguirei pagar aluguel e ainda assim conseguirei juntar dinheiro para um dia comprar minha casa própria. Acreditem em mim, os meus “anseios” são compartilhados pela grande maioria da população brasileira e mundial – com pequenas variações.

      O que quis dizer com isso? Um ataque “moral”? Um argumento de autoridade empiricista? Não! Jamias! Veja bem, respeito a todos. Só quis colocar os meus sentimentos na roda para que possa exemplificar melhor a tática de exigências e denúncias da qual falei. Da tática de se exigir coisas que o governo de plantão não poderá cumprir. É preciso sim que se vá devagar com o movimento de massas. Você não propõem as “massas” – e eu sou parte dela, mesmo sendo membro dum partido revolucionário bem pequeno – que ela tome atitudes que não possa cumprir. É o oposto do que você faz ao governo. É preciso que se entenda que em 30 anos os egípicios sabiam que viviam uma ditadura, mas se levou 30 anos para que se rebelassem contra o mesmo! 30 anos não são 30 dias!

      Parece que embolei de novo o meio de campo. Isso que dá ser fominha. Deixe-me repensar. JB falou algo como que a tática dos partidos de extrema esquerda seria a de exigir coisas que nem mesmo nós poderíamos cumprir. Isto é de certa forma verdade, como de certa forma uma artimanha das mais funestas possíveis. Todo partido revolucionário existe para a revolução, não para mandatos parlamentares ou executivos. Os primeiros são até bastante desejáveis e é uma pena que o PSTU não tenha nenhum parlamentar a muito tempo. Mas tu me perguntas, seria possível um governo Zé Maria não pagar a divida externa brasileira de U$ 271 Bilhões em fevereiro deste ano e a dívida interna de R$ 1,5 trilhão?! Digo que dificilmente. Porque não seria uma eleição que mudaria a nossa vida pra melhor. Mas então porque exigimos que lula, agora dilma o faça? Porque se eles o fizerem, estarão rompendo com seus patrões! Nunca farão. São pau mandado do capitalismo mundial. Agora, num marco de revolução, mesmo que esta comece somente aqui no Brasil, é possível sim tomar-se atitudes muito mais drásticas. Mesmo num contraditório e absurdo cenário em que um partido revolucionário ganhasse uma eleição, e conseguisse assumir sem nenhum golpe militar, mesmo assim seria possível e necessário se tomar medidas drásticas, mas medidas que os trabalhadores entendam e desejem – e se votaram neste programa, é porque entendem e desejam. Mas não estamos a falar de futurologia.

      Falemos de algo que todos entendam. Passe-livre estudantil. Várias foram as manifestações em favor do passe-livre estudantil. Nenhum governo queria dar. Mas, ao contrário do que o PCdoB chamava, que era o meio-passe, revolucionários propuseram o passe-livre. Os estudantes entenderam. Os trabalhadores entenderam e apoiaram. Desejavam que seu filhos estudassem e não pagassem para tal! As mobilizações aconteceram e o governo de plantão foi OBRIGADO a conceder o passe-livre. Foi algo que acabou tendo que implementar, mesmo sendo contra os interesses de seus patrões. Mesmo sendo algo impossível de implementar por vontade própria. Os empresários engoliram por um tempo, e agora tentam retirar e caminham para isso de forma sorrateira.

      Outra media. Nahuel Moreno propôs que o movimento de massas brasileiro em 1984 tivesse como bandeira “diretas já”. O governo Figueiredo não cumpriu. Era impossível para ele. E o Movimento brasileiro não teve força suficiente para ser implementado. A mais como essa bandeira colou! Até hoje os políticos contra a democracia verdadeira se valem dele!

      Outra medida. O “extrema-esquerdistas” da Convergência Socialista – atual PSTU – defenderam no congresso do PT de 1991-2 que se utilizassem da bandeira “Fora Collor”, e por isso, resumidamente, foram expulsos do PT. O resto é História e todos aqui sabem qual foi o grande lema da última grande manifestação política dos brasileiros…

      Portanto, se o time do Vasco não consegue implementar a tática correta que seu treinador determinou para o jogo de então, não quer dizer que necessariamente a tática estava errada. Pode ser que o material humano do time seja fraco de mais… Pode ser que o time ache que entendeu e não tenha entendido. Para ser claro: é obvio que o meu partido comete erros grotescos! E como nos sai caro estes erros esquerdistas! Mas pelo amor de Santo Cristo, não em venham com a falácia de que se exigir o não pagamento de 4,5% do PIB brasileiro para juros da dívida pública está errado. E veja bem, esta nem é a grande bandeira do momento. Não sei se vocês sabem, mas a política é dinâmica, assim como o futebol. Já tivemos a consigna de 62% de aumento para o salário mínimo e revogação do aumento dos parlamentares – 62% foi o aumento que estes mesmos senhores e senhoras se deram – dentre outras. Não entendo o por que de se prenderem a palavras de ordem utilizadas a tanto tempo e quem nem são mais o mote do momento! Agora a grande mobilização do PSTU, por exemplo, é a retirada de todas as acusações dos 13 manifestantes que foram presos no último final de semana. Entendo que para o JB este tema seja caro devido a situação portuguesa. Daí é preciso se estudar o caso português e se propor palavras-de-ordem corretas para aquela situação.

      E enfim, construí um partido revolucionário de massas não é tão fácil quanto se gerar energia elétrica através da queima de gás natural…

      Um beijo no coração de todos,

    • Astolfo Jr.

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      mar 27, 2011

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      Quer dizer então que a tarefa do revolucionário se resume a propor slogans e palavras de ordem corretas?

      Se assim o for, está mais do que explicado porque o PSTU nunca deu muito certo…

    • |

      mar 27, 2011

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      Não sei se o professor de História tem noção do absurdo que é dizer assim, a seco e sem vaselina, que “Nahuel Moreno propôs que o movimento de massas brasileiro em 1984 tivesse como bandeira ‘diretas já'” no contexto em que o fez. Fica-se com a impressão de que a Convergência Socialista, organização ainda mais grupuscular que o PSTU a que deu origem, era uma organização que só não fez a revolução porque não quis. Mas bem, prefiro não estender muito o assunto.

    • Adriano

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      mar 29, 2011

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      Eduardo Tomazine.

      Ainda sobre a questão do fetichismo….

      Não há como discordar de você no que diz respeito à análise marxiana da mercadoria e de seu caráter fetichista, mas tal análise só se torna possível em se pensando um bem, ou uma mercadoria, unicamente pelo prisma do processo de produção. Pensar o ser das coisas unicamente em um caráter, em uma única perspectiva, constitui uma das características das ciências, e, como tal, isso se verifica na economia.

      O problema em Marx, como você bem disse, é que, tal como ele descreve numa famosa passagem do capital, as relações entre os sujeitos do processo produtivo são encobertas pelas mercadorias, ou seja, as relações entre pessoas e pessoas surgem como se fossem relações entre pessoas e mercadorias; há uma desumanização das relações humanas de ordem produtiva, ao mesmo tempo em que há uma fetichização da mercadoria; mas isso você já disse…

      Pois bem, a meu ver, as mercadorias, assim como qualquer outro bem ou coisa, têm sua existência pautada por uma multifariedade, não sendo possível restringir seu ser a um único prisma, nem mesmo ao do processo de produção; desse modo, creio que independentemente do modo de organização do processo produtivo-distributivo, o caráter imaterial (ou se se quiser, fetichista) da mercadoria permaneceria, sendo inerente à sua existência enquanto coisa material. Não creio ser possível determinar a existência de um bem unicamente em vista do processo de produção; existe uma série de fatores e perspectivas que contribuem na apropriação intelectual da mercadoria (ou de qualquer outro bem material) pelo homem, inclusive fatores de ordem extra-material, extra-produtiva, e extra-objetiva; tais fatores tornam impossível uma existência do homem unicamente enquanto ser social; ver em tudo uma experiência social seria, a meu ver, um preconceito metodológico, um sociologismo exacerbado; a imaterialidade é inerente a existência material do homem na terra e não creio que seja ela a responsável pela suposta exploração e alienação existentes no modo capitalista de produção.

      Talvez isso seja um problema pessoal meu com o materialismo de Marx, ou com as posturas metodológicas de algumas ciências (ou de alguns cientistas); talvez muitos marxistas não concordem comigo, e talvez esse assunto tenha fugido um pouco do tema central do texto, mas depois de escrever tudo isso eu tenho que postar… rs

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