África do Sul: Isto ainda não é “Uhuru” (a liberdade)

África do Sul: Isto ainda não é “Uhuru” (a liberdade)

em 31 maio

“No dia de hoje ainda não podemos festejar a liberdade. Vivemos numa sociedade radicalmente injusta… Enquanto a voz de cada um não contar por igual não se pode dizer que somos livres”, afirma o Movimento dos Desempregados da África do Sul a propósito do “Dia da Liberdade” daquele país, 27 de Abril. Por Ayanda Kota

Em 27 de Abril de 1994 o povo deste país esperou durante horas em longas filas para poder, pela primeira vez, manifestar o seu voto. Em algumas regiões do país, fazia mesmo mau tempo, um frio de gelar, enquanto noutras se verificava um calor abrasador. O nosso povo votava pela primeira vez, votava pelo fim do racismo, pela democracia e por uma vida melhor – por empregos, por educação gratuita, por habitação [moradia] decente. Para além e acima do seu voto pelas condições materiais de vida, eles votaram pela liberdade. Pelo menos assim lhes fizeram crer!

Os raios de luz dessa aurora conseguiam brilhar através de carregadas nuvens de tempestade. Os primeiros raios desse novo sol passavam através das nuvens até um novo céu azul. Após séculos de opressão reavivava-se a esperança, nascia uma nova nação, nascia uma nação de arco-íris. Pelo menos assim nos fizeram crer.

Lembro-me de assistir ao processo pela televisão. Vi o sacerdote dos direitos, o arcebispo Desmond Tutu, no seu acto de votar. Esse grande homem, nesse momento, saltando de alegria, disse: “Finalmente livre! Finalmente livre!” Ele seguiu o exemplo do ex-presidente Nelson Mandela.

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A liberdade é a aptidão do povo para não ser oprimido e para poder determinar o seu próprio futuro colectivo e segundo os seus desejos. A liberdade é a realização da vontade do povo. Quando há liberdade, o governo é para o povo e do povo porque o povo se governa a si próprio. A liberdade é a aptidão do povo para determinar o seu próprio destino. Liberdade é autogoverno.

Quando há liberdade, o povo não tem de pedir ao governo o favor de reconhecer a sua importância, porque é ele próprio o governo. Quando há liberdade, as pessoas estão livres da fome, da pobreza, das doenças, da falta de abrigo e da carência de bens e serviços essenciais. A justiça, a paz, a dignidade e o acesso às riquezas do país são essenciais para a liberdade.

A liberdade significa que o povo tem de estar primeiro. Significa primeiro o povo, depois o lucro. Significa primeiro o povo, depois as grandes empresas transnacionais. Significa que a soberania e os direitos do povo foram restaurados!

A liberdade não significa que o povo vota a favor de um punhado de políticos que, levando consigo os parentes e os amigos, se vão juntar aos mesmos capitalistas brancos de sempre na sua festança longe da devastação do povo, protegidos pelos altos muros e pelas polícias que nos alvejam e nos matam. A liberdade não significa que os nossos chamados líderes se tornem gestores do capital, governando o país e disciplinando o povo em favor do capital.

A liberdade não significa que os políticos se tornam pequenos Deuses. A liberdade também não é o império dos especialistas na sociedade civil. Num país livre, o mais importante é a voz dos cidadãos. Se a Azânia [a África do Sul] fosse livre, as vozes de todos os azanianos e de todas as comunidades da Azânia teriam igual importância. Enquanto as vozes de todos não forem igualmente importantes não podemos dizer que somos livres.

uhuru2Após dezassete anos de democracia, os nossos bairros populares estão na desgraça. Só se vêem homens e mulheres alcoolizados caminhando sem destino como zumbis, cheios de álcool barato nas veias. É assim que nós nos drogamos contra o pesadelo de uma democracia que é, de facto, um neo-apartheid, e não um pós-apartheid. É assim que nos drogamos contra uma sociedade que não nos respeita, onde não há lugar para nós nem futuro para nós. No Cabo oriental, eles bebem umtshovalale [cerveja caseira ilegal, fortíssima]. No Kwa-Zula-Natal bebem isiqatha [idem]. No Gauteng bebem gavani. No Cabo ocidental bebem espirituosos. Esse álcool tem efeitos perigosos. O meu povo, jovens e velhos, tem sido silenciosamente arrastado para a tumba pelos efeitos desse álcool. Andamos a envenenar-nos, para nos drogarmos contra o horror das nossas vidas. Por toda a África do Sul os jovens fumam ARVs [drogas anti-retrovirais]. É bem sabido. Vivemos abaixo do limiar da pobreza e perdemos qualquer esperança.

A África do Sul é o país com mais desigualdades do mundo. O fosso entre ricos e pobres é enorme e continua a crescer. A taxa de desemprego também. É de cerca de 40%. Os índices de pobreza subiram em flecha. Em lugares como Alice [cidade do Cabo oriental] os habitantes bebem água insalubre. Por vezes não há água nenhuma. Em Grahamstown [idem] continuamos a usar o sistema do balde para defecar. Por toda a África do Sul as casas do RDP [Programa de Reconstrução e Desenvolvimento] estão a cair em ruínas e os municípios caindo na corrupção, enquanto a família de Zuma [presidente da RSA], as mulheres dele, os filhos e os parentes estão a tornar-se milionários. Shiceka [Sicelo Shiceka, ministro do Interior do governo de Zuma] gastou 640.000 rands num ano em quartos de hotel no One & Only da Cidade do Cabo, foi de avião à Suíça, em primeira classe, para visitar uma namorada que estava presa e alugou uma limusine para ir à prisão. Que espécie de políticos são estes que vivem assim, enquanto nós, o povo, estamos a sofrer como sofremos? Que espécie de políticos são esses que vivem dessa maneira enquanto a África do Sul se tornou “a capital mundial dos protestos” com uma das mais altas taxas de protestos públicos do mundo?

Shiceka é um predador, não um libertador. E não é o único. Em 2010, a Eskom [empresa de electricidade] anunciou a sua decisão de aumentar as tarifas 35%, um roubo aos desempregados e aos pobres, enquanto a Chancellor House do ANC [outra empresa de electricidade, participada da Eskom] vai sacando os seus lucros das mãos trementes do povo. Não tarda, os cofres deste país estarão vazios e vão-nos pedir para dar ainda mais ao ANC, à Chancellor House e à família Zuma. A maneira como estão a saquear os nossos recursos ultrapassa a imaginação. O modo como eles privatizaram as lutas do povo não dá para acreditar.

Somos uma nação que sangra. Todo o poder que nos pertence foi centralizado na elite governante. Não participamos no modelo de casa RDP que tem de ser construído. Eles decidem por nós. As reuniões do Plano Integrado de Desenvolvimento (IDP) são uma plataforma para nos controlar. Não há veracidade. Escolhem os que nos vão representar em círculos fechados locais, depois voltam e anunciam-nos como nossos líderes. Quando pedimos para falar com eles, chamam a polícia. Não temos poder. Não temos voz. Não temos liberdade para festejar neste dia. Vivemos numa sociedade radicalmente injusta. Somos oprimidos.

O ANC tenta controlar o povo com a sua polícia, com concessões sociais e com actos públicos com celebridades e músicos. O ANC tenta drogar-nos contra a sua traição, mantendo-nos embebedados com memórias das lutas – essa luta que eles traíram. Mas por todo o lado o ANC está a perder o controlo. Os protestos espalham-se por toda a parte. Em toda a parte as pessoas boicotam as eleições e apresentam candidatos independentes. Em toda a parte as pessoas se organizam em organizações e movimentos autónomos.

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Mustafa Omara, descrevendo a Revolução Egípcia, escreve:

“As pessoas parecem mais calmas e em paz – vê-se isso nas suas caras. No Egipto, as pessoas dizem-nos: Passados são os dias em que nos sentíamos impotentes e pequeninos; passados são os dias em que a polícia podia humilhar-nos e torturar-nos; passado é o tempo em que os ricos e os negociantes pensavam poder dirigir o país como se ele fosse a sua empresa privada.”

Na África do Sul ansiamos por esse mesmo sentimento! Estes dezassete anos não aliviaram a dor e o sofrimento de séculos que sofremos sob o governo do apartheid e os governos coloniais antes dele.

As revoluções não caem do céu. As revoluções são organizadas por meio da acção organizada de homens e mulheres, rurais e urbanos, e decorre das suas necessidades. As revoluções acontecem quando homens e mulheres normais começam a discutir as suas vidas e os seus destinos e passam à acção para assumir o controlo das suas vidas.

A rebelião dos pobres em que este país está mergulhado vai crescendo. Emergem cada vez mais organizações. Cada vez mais pessoas se vão radicalizando. Cada vez mais comunidades vão perdendo quaisquer ilusões quanto ao ANC, depois de sofrerem a violência do Estado predador. Cada vez mais gente começa a juntar-se às discussões sobre o caminho a seguir para tomarmos o país de volta.

Precisamos de avançar com mais determinação, trabalhando sem parar para erguer e para unificar as nossas lutas. Quando juntamos as nossas lutas, de Ficksburg a Grahamstown, da Cidade do Cabo a Joanesburgo e Durban, o que estamos a fazer é, lenta e paulatinamente, a construir um novo movimento de massas. Estamos a edificar uma rede de lutas que estão decididas a inserir-se naquilo que se chama uma solidariedade activa com cada uma das outras.

A luta continua! A vitória é certa! O que é nosso é connosco!

Saudações,
Ayanda Kota
Presidente do Movimento dos Desempregados
Grahamstown, África do Sul

Para contactar o Movimento dos Desempregados:
Unemployed People’s Movement (UPM)
69 “C” Nompondo Street, Grahamstown, 6139
Tel: 072 299 5253, 078 625 6462, 073 578 3661
Email: [email protected] ou [email protected]

Artigo original (em inglês) no Pambazuka News. Tradução do Passa Palavra.


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