A pedagogia do medo

A pedagogia do medo

em 8 fev

É basicamente o apego ao medo que nutrimos. Por Ronan

(Para Conchita)

É basicamente o apego ao medo que nutrimos
Medo de não ter onde morar
Medo de não ter o que comer
Medo que sejam poucos ou se extingam os sorrisos na rua
Medo de ser atropelado, de ser assaltado, de perder o trem, de se afogar na praia
Medo de que ácaros consumam aquele livro que tanto tememos que nunca lemos
Medo de que algum rato invada a casa ou baratas passeiem sobre o bolo predileto
Medo do corpo que vai envelhecendo e recebe cada vez menos valor social
Medo de que um dia não se consiga mais dormir ou a memória desapareça
Medo de que o olhar no metrô não seja correspondido
Ou que não sejamos amados pelos filhos, pelos pais
Medo de partir, medo de ficar, medo de ficar ou partir e não dar certo
Medo do dia, medo da noite
Ou que o Datena apareça à nossa porta numa segunda ensolarada
Ele traz um grande jornal e teu sorriso macabro
Corremos para as lojas e já não há espelhos para comprar
Resta-nos um terror em DVD, porque gostamos do medo seguro

Medrosos, suplicamos por amizades acabadas, por sucessos efêmeros, por companhias tolas, por um amor tão detonado quanto restos de placenta

Restou-nos o alimento do medo
Uma raça de covardes faz cirurgias plásticas e consome cocaína, antidepressivos e telas tão grandes que não cabem na sala
Medrosos, vendemos a vida de segunda a sexta para que nos finais de semana consumamos o belo em lojas de 1,99, outro vai pagar para que tenha carinho ou seja ouvido
Nós cantamos o medo
Nós vestimos o medo
Nós ritualizamos o medo
E aos nossos ensinamos a arte de temer: você não vai passar no vestibular, esqueça a namorada
O medo, a suprema pedagogia do nosso tempo

Tela de James Ensor


Comentários 4

    • Papão Mitológico

      |

      fev 8, 2012

      |

      lembrei-me deste:
      Poema pouco original do medo
      Alexandre O’Neill

      O medo vai ter tudo
      pernas
      ambulâncias
      e o luxo blindado
      de alguns automóveis
      Vai ter olhos onde ninguém o veja
      mãozinhas cautelosas
      enredos quase inocentes
      ouvidos não só nas paredes
      mas também no chão
      no teto
      no murmúrio dos esgotos
      e talvez até (cautela!)
      ouvidos nos teus ouvidos

      O medo vai ter tudo
      fantasmas na ópera
      sessões contínuas de espiritismo
      milagres
      cortejos
      frases corajosas
      meninas exemplares
      seguras casas de penhor
      maliciosas casas de passe
      conferências várias
      congressos muitos
      ótimos empregos
      poemas originais
      e poemas como este
      projetos altamente porcos
      heróis
      (o medo vai ter heróis!)
      costureiras reais e irreais
      operários
      (assim assim)
      escriturários
      (muitos)
      intelectuais
      (o que se sabe)
      a tua voz talvez
      talvez a minha
      com a certeza a deles

      Vai ter capitais
      países
      suspeitas como toda a gente
      muitíssimos amigos
      beijos
      namorados esverdeados
      amantes silenciosos
      ardentes
      e angustiados

      Ah o medo vai ter tudo
      tudo
      (Penso no que o medo vai ter
      e tenho medo
      que é justamente
      o que o medo quer)

      O medo vai ter tudo
      quase tudo
      e cada um por seu caminho
      havemos todos de chegar
      quase todos
      a ratos

    • Paola

      |

      fev 15, 2012

      |

      Eu tenho medo
      Medo do que nao conheço, do que ainda nao vi
      Se tudo senti..nao, ainda sinto o medo do que nao foi.
      Tenho medo de ficar..ou de nao fazer.
      Por isso me atiro, arrisco, por sentir medo.
      Esse tal repugnante..e tão distante dos santos
      Será o medo mesmo difícil..mas eu nao sei de nada.
      Serão eles tão corretos e heróis?
      Me parecem tão seguros de si
      Sempre prontos pra briga
      E nunca erram com suas indumentárias de blinde
      Como será que conseguem sempre andar de cabeça erguida?
      Certo dia olhei para o chão
      E vi que me sujo facilmente
      E que de pureza passo longe
      E disso não tive medo,talvez por isso mesmo pude ver
      Que o medo me levou a ser, até aqui
      O meu nada…
      Aqui mesmo pude ver isso tudo
      Por medo…
      Pelo simples fato de senti-lo
      E não negá-lo…

      (Paola)

    • jOSÉ fRANCISCO

      |

      nov 12, 2017

      |

      Essa epidemia do medo chegou agora em casa, por diversos motivos. Preciso aprender a teorizar sobre o medo, para poder superá-lo.

    • ulisses

      |

      nov 13, 2017

      |

      2xC[arlos Drummond de Andrade]

      Congresso Internacional do Medo

      Provisoriamente não cantaremos o amor,
      que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
      Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
      não cantaremos o ódio porque esse não existe,
      existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
      o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
      o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
      cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
      cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
      depois morreremos de medo
      e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

      Mãos dadas

      Não serei o poeta de um mundo caduco.
      Também não cantarei o mundo futuro.
      Estou preso à vida e olho meus companheiros.
      Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
      Entre eles, considero a enorme realidade.
      O presente é tão grande, não nos afastemos.
      Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

      Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
      não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
      não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
      não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
      O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
      a vida presente.

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