Alexander Dugin: o artigo que não escrevi

Alexander Dugin: o artigo que não escrevi

em 4 set

Abordar o fascismo, não o lugar-comum que as pessoas imaginam, mas aquele que existiu, é profundamente incómodo. Por João Bernardo


No dia 29 de Agosto o Passa Palavra recebeu uma mensagem de um leitor.

«Prezado/a,
O ideólogo do Estado russo de Vladimir Putin, Aleksandr Dugin, está a caminho do Brasil. Ele palestrará na USP, UERJ, UFPB e em Curitiba.
Seria interessante e oportuno se alguém do ou próximo ao coletivo Passa Palavra, melhor informado do que eu sobre a teoria política de tal indivíduo, talvez já familiarizado caso seja de terras européias, publicasse uma abordagem (marxista libertária?) sobre seu pensamento, que é muitas vezes caracterizado como neofascista.
Fica a sugestão.
Saudações.»

E a seguir o leitor transcreveu a apresentação da palestra, tal como foi divulgada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ.

«A Quarta Teoria Política
Palestra com o prof. Aleksandr Gelyevich Dugin
Dia 03 de setembro às 19h, o prof. Aleksandr Dugin, do Departamento de Sociologia e Relações Internacionais da Universidade de Moscou, estará presente na UERJ para dar uma palestra versando sobre os seguintes temas:
1. Traditionalism: The Tradition / Metaphysics; 2. Geopolitics: The Eurasianism / Moltipolarity; 3. Political Philosophy: The Fourth Political Theory / Global Revolutionary Alliance.
Aleksandr Dugin é um dos fundadores de uma das principais escolas contemporâneas de geopolítica, geralmente designada de “eurasianismo”. Mas Dugin não é somente um filósofo e cientista político, sua obra intelectual abarca setores muito diversos que vão da geopolítica, passando pelo estudo comparativo das religiões, a teologia (sendo ele um cristão ortodoxo), crítica literária e de autores como Heidegger, Carl Schmitt, Halford John Mackinder e a Escola Tradicionalista de Julius Evola, René Guénon, Titus Burckhardt, Rama Coomaraswamy, etc. O prof. Dugin sendo um dissidente do regime comunista (seu pai foi um oficial da KGB), fundou a Associação Arctogaya e o Centro de Estudos Metaestratégicos com a dissolução da URSS. Em 1988, juntamente com o seu amigo Geidar Dzhemal, filiou-se na organização nacionalista Pamyat. Auxiliou também na redacção do programa político do refundado Partido Comunista da Federação Russa (ex Partido Comunista da União Soviética) sob a jurisdição de Gennady Zyuganov, sendo o produto final um documento mais inclinado para o nacionalismo que para o marxismo. Convencido de que o Nacional-Bolchevismo necessitava de uma encarnação política própria Dugin convenceu o seu aliado Eduard Limonov do mesmo e criaram a Frente Nacional-Bolchevique em 1994, posteriormente Partido Nacional-Bolchevique. Nos anos 80 suas teses foram fortemente influencidas pela escola intelectual européia comumente chamada de “Nova Direita”, sendo seu principal representante o filósofo francês Alain de Benoist. Dugin também é o principal conselheiro político do Presidente russo Vladimir Putin. Seus interesses atuais giram em torno da Teoria do Mundo Multipolar e da filosofia de Martin Heidegger. O autor tem ainda textos escritos na área de economia sobre as idéias de Friedrich List, Schumpeter e Brodel, entre outros. Dugin é um dos principais teóricos do pensamento antiliberal em nossos dias, defensor da noção de “Grande Síntese”, que nada mais é que a síntese entre todas as correntes antiliberais, antimodernas, antiburguesas, antidemocráticas; o aspecto mais inovador desse ponto de vista é agrupar dentro dessa mesma categoria personalidades históricas tão díspares e contrastantes como Julius Evola e Marx, Carl Schmitt e Sorel, Heidegger e Guénon, Ernst Jünger e Henry Corbin, Nietzsche e Ivan Kireyevski, Che Guevara e Codreanu, Lenin e Mussolini, etc.
Organização:
Dndo. Rodolfo da Silva de Souza (UERJ)
Prof. Dr. Marco Antonio Casanova (UERJ)
Programa de Pós-Graduação em Filosofia
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.»

Sucede que há dois meses e meio publiquei no Passa Palavra o artigo Ponto final, que é o que o título diz, um ponto final, a decisão de que é inútil escrever para este público. Mas a sugestão, quase um repto, enviada por aquele leitor seduziu-me e podia ter aberto uma excepção. Não é frequente abrir excepções às decisões que tomamos? Algumas parece que só servem para isso. Além do mais, toda a minha vida adulta me interessei pelo estudo do fascismo e nos últimos vinte anos tem sido este o meu principal tema de pesquisa. Posso dizer que estou habilitado a tratar da questão.

Mas logo me veio o desânimo. Várias vezes, aqui mesmo, no Passa Palavra, quando escrevi acerca do fascismo a reacção imediata dos leitores foi a de enviarem comentários acusando-me de ser ignorante. Não sucedeu uma vez ou duas, que pudessem ser consideradas anomalias, mas tratou-se de uma reacção frequente. É que o fascismo constitui um dos temas em que as ideias feitas menos correspondem à realidade.

Montagem fotográfica de John Heartfield

Por um lado, o fascismo foi derrotado militarmente, nalguns casos politicamente também, mas não foi derrotado ideologicamente. No plano da ideologia o que sucedeu foi que em todo o mundo as democracias capitalistas, depois de terem ganho a guerra, simplesmente proibiram a difusão dos livros fascistas, as editoras retiraram-nos dos catálogos, a generalidade das bibliotecas deixou de os ter à disposição ou relegou-os para a secção dos reservados e na sua esmagadora maioria os fascistas satisfizeram-se com esta situação, porque preferem passar despercebidos do que fazer proselitismo. Seria impensável que alguém escrevesse, por exemplo, sobre o marxismo sem ter lido Marx ou sobre o liberalismo sem ter lido Tocqueville, mas o fascismo é um tema sobre o qual parece que todos podem falar e escrever sem ter lido os autores fascistas. Há anos atrás, num debate acerca de um livro meu, numa sessão pública em Lisboa, uma das figuras mais expressivas do marxismo português, um homem que já morreu e por quem eu sempre tive uma grande consideração teórica, censurou-me por perder tempo a ler os políticos e os romancistas do fascismo já que, na sua opinião, o fascismo seria tão desprovido de ideologia como os gangsters. E se ninguém vai ler o Al Capone, para que iria eu ler Rosenberg ou Gentile ou Horia Sima? Assim o fascismo pôde ser coberto por uma tal camada de ignorância que quando alguém fala dele a reacção normal é acusarem-no de estar a falar de outra coisa, porque fala-se do fascismo que não é aquele que as pessoas imaginam. Foi o que me sucedeu muitas vezes no Passa Palavra e por causa da mensagem daquele leitor iria suceder-me uma vez mais? Obrigado, mas não.

Há outra coisa ainda. É que abordar o fascismo, não o lugar-comum que as pessoas imaginam que existiu, mas aquele que existiu mesmo, é profundamente incómodo. O fascismo não foi uma corrente política e ideológica com as margens bem demarcadas, como sucede com o conservadorismo, o liberalismo ou o marxismo, mas caracterizou-se por operar cruzamentos entre opostos. Se reduzirmos a política a uma linha, o fascismo situou-se na direita da direita, mas isto ajuda mais a confundir do que a esclarecer, porque o fascismo transportou alguns dos principais temas da esquerda para o interior da direita e transportou os principais temas da direita para o interior da esquerda. Foi esta operação que lhe conferiu a sua grande novidade e ao mesmo tempo o seu enorme perigo.

Como fica nisto tudo a esquerda, que gosta de se apresentar pura e imaculada? Como pode a esquerda admitir os cruzamentos e as convergências entre ela e o fascismo? E mais ainda no Brasil, onde essas circulações ideológicas atingiram um ponto extremo! Quando, numa série de artigos no Passa Palavra, muito de mansinho, chamei a atenção para a influência que as ideias de Manoilescu tiveram sobre as teses do desenvolvimentismo na esquerda brasileira, foi um ai jesus nos comentários. E iria eu, só porque um leitor amavelmente nos enviou uma mensagem, ser obrigado a ler mais uma série de comentários indignados?

É que as coisas com Alexander Dugin são piores ainda, porque no vasto leque do fascismo ele é um nacional-bolchevista. No sentido estrito do termo, o nacional-bolchevismo foi uma corrente surgida na Alemanha em Novembro de 1918 graças às duas principais figuras comunistas de Hamburgo, Heinrich Laufenberg, um tribuno, e Fritz Wolffheim, um teórico. E esta corrente surgiu na esquerda da esquerda, pois formou-se na vertente mais esquerdista do congresso fundador do Partido Comunista Alemão; e no 2º Congresso deste Partido, em Outubro de 1919, foram Laufenberg e Wolfheim os principais porta-vozes da ala esquerda. Em Abril do ano seguinte eles participaram no que é hoje considerada a génese oficial do conselhismo, a formação do Partido Comunista Operário Alemão, e o ascendente ideológico do grupo de Hamburgo revela-se pelo facto de o seu jornal ser o órgão da nova formação política. Assim, embora em Agosto de 1920 o Partido Comunista Operário Alemão tivesse excluído a organização regional de Hamburgo, o certo é que na sua formação teve um papel determinante o nacional-bolchevismo. Aqueles que gostam de considerar o conselhismo como o Santo dos Santos deviam meditar neste caso, que data da própria génese do conselhismo, mas em vez disso prevejo que enviem comentários a dizer que eu não sei o que é o conselhismo.

Karl Radek

Foi Karl Radek o primeiro a estigmatizar a orientação defendida por Laufenberg e Wolffheim, dando-lhe em Novembro de 1919 o nome por que ficou conhecida, nacional-bolchevismo, o que é irónico porque em Junho de 1923 seria o próprio Radek a defender o nacional-bolchevismo no seu discurso acerca de Leo Schlageter, «o viajante do nada». Mas o que ele propôs então foi uma versão de nacional-bolchevismo que em vez de estar remetida para a periferia da extrema-esquerda se situava no seu próprio centro, constituindo de então em diante a orientação oficial do Komintern e, nomeadamente, do Partido Comunista Alemão.

Ora, estes passos cruzados não são uma bizarria e inscrevem-se num paradoxo constitutivo do próprio marxismo. Numa série de artigos que dediquei no Passa Palavra ao marxismo e ao nacionalismo procurei mostrar como Marx e Engels, ao mesmo tempo que escreviam os bem conhecidos textos teóricos analisando o carácter internacional ou supranacional da economia capitalista e, portanto, da formação do proletariado, defendiam, em textos políticos muito menos conhecidos, uma orientação nacionalista caracterizada por um antieslavismo feroz. Sustentei nessa série de artigos que neste paradoxo dos fundadores do marxismo se radicam as posteriores confusões e circulações entre marxismo e nacionalismo, que tão catastróficas têm sido para a esquerda. O que eu fui dizer! Na verdade já o tinha dito noutro lugar vários anos antes, mas como se tratava de um livro com muitas páginas ninguém tinha dado conta da heresia. Hoje, se alguém na esquerda quiser defender teses escandalosas, que o faça no meio de um livro, porque a esquerda pouco lê livros, só artigos na internet ou duas linhas no Facebook. O problema foi eu ter dito aquilo em artigos, o que me valeu insultos tanto neste site como noutros. E, para não fugir à regra, chamaram-me ignorante e disseram que eu não conhecia nada da obra de Marx, o que foi muito divertido, porque era eu quem estava a citar textos que os leitores indignados desconheciam. E continuam a desconhecer, porque se encontram em antologias em inglês e em francês e a fluência em línguas estrangeiras não é uma das características da esquerda brasileira. Legitimam essa ignorância linguística classificando-a como aversão ao eurocentrismo. Como se o português fosse a língua dos tupis-guaranis! O que aquele leitor sugere agora, que se faça uma análise crítica do nacional-bolchevismo de Alexander Dugin, já eu tinha esboçado num nível mais básico nos artigos em que pretendi analisar as relações entre o marxismo e o nacionalismo, e com resultados nulos. Como habitualmente, gritaram alto para cobrir aquilo que não queriam ouvir, porque lhes é muito incómodo ouvir.

Getúlio Vargas

E é tanto mais incómodo quanto no Brasil a génese do comunismo se confunde com a génese do nacionalismo moderno. Com efeito, a circulação ideológica entre a esquerda e o fascismo é tão profunda no Brasil que quase se pode dizer que está inscrita no código genético daquelas correntes políticas. Tudo remonta ao tenentismo, e Luís Carlos Prestes foi um tão legítimo continuador do tenentismo como o foi Getúlio Vargas. Para mim, que nasci e fui educado sob o salazarismo, falar do regime de Getúlio como fascista é algo inteiramente óbvio. A influência do Estado Novo português sobre o Estado Novo brasileiro fazia parte das aulas de Direito Constitucional na Universidade de Lisboa. Mas uma vez que eu escrevi, rapidamente, só de passagem, que o getulismo foi um fascismo, caiu-me o céu em cima. A esquerda brasileira tem a estranha mania de considerar o Brasil como uma excepção no mundo, como se pudesse haver excepções do tamanho deste país! Não creio que tenha alguma utilidade falar aqui, uma vez mais, de nacional-bolchevismo.

O público de esquerda habitual, se já não quer ler análises sérias do fascismo, muito menos as quererá ler do nacional-bolchevismo, porque atingem o âmago, o profundíssimo nacionalismo da esquerda e da extrema-esquerda brasileiras. E pior ainda devendo mencionar René Guénon e Julius Evola, num país onde as camadas de rendimentos intermédios disputam com as suas congéneres dos Estados Unidos a palma das consultas a psicanalistas e onde Jung é estimado pela esquerda; num país onde os sindicatos, e os movimentos sociais depois deles, recorrem a rituais colectivos que encontram grandes afinidades com alguns aspectos do pensamento de René Guénon e de Evola. Encontram afinidades também com o pensamento de Georges Sorel, e a este respeito seria interessante recordar a obra de Henri De Man, um dos mais importantes teóricos da social-democracia no período entre as duas guerras mundiais, que chegou ao fascismo a partir de uma revisão soreliana do marxismo, enfatizando a noção do mito enquanto expressão e veículo de um anseio colectivo. Sem tirar nem pôr, é isto que nos é proposto agora nas místicas dos movimentos sociais, um universo de irracionalismo colectivo que tem Evola numa ponta e Sorel na outra. Imagino o que seriam os comentários se eu tivesse escrito esta frase.

Já que mencionei Sorel, convém saber que um dos primeiros ensaios do que se poderá considerar protofascismo foi a constituição do Cercle Proudhon (Associação Proudhon) em França, no final de 1911, um lugar de encontro e debate para os sindicalistas antiliberais e os nacionalistas preocupados com a questão social, cuja iniciativa se deveu, do lado de Sorel, ao seu discípulo Édouard Berth e, do lado do partido de extrema-direita Action Française, a Georges Valois. Quanto à figura emblemática de Proudhon, ela serve pelo menos para mostrar que as ambiguidades do socialismo e do nacionalismo não são um exclusivo do marxismo, porque essas ambiguidades não foram menores em Proudhon. Um dos hitlerianos de Paris, Lucien Rabatet, escreveu durante a segunda guerra mundial, num dos livros cimeiros do colaboracionismo, que «sem os judeus, teríamos feito entre nós, e com o mínimo de estragos, essa revolução do socialismo autoritário que se tornou a necessidade do nosso século e de que os velhos doutrinadores franceses, como Proudhon, têm a honra de ter sido os precursores». E assim eu, que com os artigos sobre marxismo e nacionalismo desencadeei a ira dos marxistas, exponho-me agora a suscitar a cólera dos anarquistas. E tudo isto para quê? Para explicar a um leitor amável que é inútil, hoje e para este público, fazer a crítica dos pressupostos do nacional-bolchevismo.

Ainda a propósito de Sorel, é curioso que a principal repercussão das suas ideias não tivesse ocorrido em França mas na Itália, onde ele esteve na origem directa do sindicalismo-revolucionário. Ora, juntamente com os futuristas e os membros das tropas de elite, os sindicalistas-revolucionários foram uma das três correntes constitutivas do fascismo italiano. Não o recordo aqui por acaso. É que no Brasil, por razões que se prendem com a origem do Partido dos Trabalhadores, PT, a figura de Gramsci goza de uma enorme celebridade, muito maior do que na Europa, onde só é conhecida, ou pouco conhecida, em meios universitários. O PT pretendeu conjugar a forma autoritária de partido com a forma democrática dos movimentos de base, e para isto as teorias de Gramsci pareceram-lhe oferecer um quadro útil. O PT podia ter optado com igual proveito por Otto Bauer, mas foi Gramsci o escolhido.

O elegante ditador de Fiume

Um episódio fascinante é aquele em que Gramsci, na Primavera de 1921, passados dois ou três meses apenas sobre a fundação do Partido Comunista, procurou obter a colaboração de Gabriele d’Annunzio para a formação de um exército vermelho, numa guerra civil que se previa próxima. Entre muitas outras coisas, D’Annunzio fora desde Setembro de 1919 até Dezembro de 1920 o ditador de Fiume, onde implantou um regime verdadeiramente fascista, rodeado de sindicalistas-revolucionários, os tais discípulos italianos de Sorel, e nessa época Mussolini teve grande dificuldade em disputar a D’Annunzio a primazia na extrema-direita radical. Foi a esta figura que Gramsci pediu, ou ofereceu, colaboração. A primeira menção que encontrei a uma tão inesperada tentativa de convergência política foi na Storia del Fascismo de Enzo Santarelli, vi-a mencionada também num artigo de Sergio Caprioglio na Rivista Storica del Socialismo em 1962, mas ambos remetiam para um artigo de Nino Daniele, «Fiume Bifronte», publicado em 1933 numa obscura revista intitulada I Quaderni della Libertá. Seguidor de D’Annunzio, Daniele manteve-se na vertente mais radical do fascismo, o que o levou a entrar em divergência com o regime de Mussolini e a exilar-se no Brasil, publicando aqui, numa edição precária, o relato das insistentes tentativas de Gramsci para ser admitido à presença de D’Annunzio. Este desejo ficou frustrado porque, como D’Annunzio lhe mandou dizer, «tenho telhados de vidro», mas isto não impediu que Gramsci defendesse a conveniência daquela aliança em artigos publicados no seu jornal L’Ordine Nuovo. Esta convergência política inscreveu-se no quadro do nacional-bolchevismo.

Pois bem, o artigo de Nino Daniele está em São Paulo, guardado numa biblioteca, talvez exista noutras, está em Paris X-Nanterre microfilmado na BDIC, eu tratei do assunto pelo menos num livro que alguns brasileiros leram, não me recordo se o abordei em artigos também, e apesar de todos os dias se fazerem dissertações e teses sobre Gramsci isto e Gramsci aquilo, estes primórdios de nacional-bolchevismo continuam — tanto quanto sei — a não interessar ninguém. E quer o amável leitor que agora as pessoas abram os olhos para aquilo que durante anos a fio se esforçaram por não ver?

Eduard Limonov

Na área do nacional-bolchevismo russo contemporâneo o nome inevitável é o de Limonov. Li há vários anos um bom romance dele, His Butler’s Story, escrito e publicado durante o exílio nos Estados Unidos, que me permitiu resolver um problema intrigante. Numa certa época da minha vida li muito Bukowski. Não gosto dos romances dele, que me parecem forçados, mas acho os poemas modelares, e intrigava-me que Bukowski, um anarco-individualista que eu situava na esquerda, se sentisse tão próximo de Céline, não só do estilo de Céline mas de algumas das ideias também — aliás, este é um dos casos em que conteúdo e forma são indissociáveis. Ora, o fascista Céline foi um partidário extremo das teses de Hitler e um dos grandes nomes do anti-semitismo em França. O paradoxo da afinidade que Bukowski sentia por Céline foi aquele romance de Limonov que mo resolveu. Leiam His Butler’s Story e em seguida vejam o filme de Joseph Losey, The Servant, que podemos considerar duas versões opostas do mesmo tema, e compreenderão o que é o fascismo enquanto movimento de circulação das elites. Também aqui, nesta encruzilhada de temas estéticos, é de nacional-bolchevismo que se trata. Mas será que o amável leitor que enviou a mensagem pensa que estas considerações sobre Bukowski e Céline contribuirão para esclarecer alguém que goste de Bukowski ou goste de Céline? Um foi um bom poeta e o outro foi um dos mais geniais romancistas do século passado, mas que se leiam com os olhos abertos.

É uma já longa sucessão de tentativas falhadas, sem nunca conseguir despertar a inquietação dos leitores. Por isso tomei a firme decisão de não escrever este artigo.


Comentários 47

    • Pedro

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      set 4, 2012

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      Eu lí o Labirintos do Fascismo, que o sr. tem republicado algumas partes no Passapalavra, como afirma. O livro é muito rico, mas tem o problema de ser um tanto confuso. Aliás, é uma marca tua ser muito claro nos artigos e um tanto confuso nos livros, porque escreve em capítulos sem conclusão interna e em livros sem conclusão final. De todo modo, saiba que alguém leu. Outro deve ter lido. Mas os gramscianos não devem ter lido e são eles que hegemonizam a esquerda universitária, com acesso ao teu livro. Que tal republicar todo o trabalho na net?

      Quando ofende os que não sabem línguas estrangeiras haveria de saber se se trata da esquerda herdeira, com família que sustenta os estudos, vive sem trabalhar, e que se não souber outra língua é por opção ou se trata de alguém como eu que leio este texto deste as 7 da manhã para começar o batente logo às oito, sem que tivesse oportunidade para estudar em longo tempo.

      Os teus escritos dão uma sensação de que tudo está perdido. Já que teve a oportunidade de ser educado e crescer como erudito, é muito bom que faça jus a essa condição e contribua com a instrução geral da nova geração. Mas quando se limita apenas a denunciar os laços com o fascismo que toda a esquerda possui, fica parecendo que não existe absolutamente nada no presente em que se possa apostar. O teu marxismo é um marxismo trágico que agora anda beirando o niilismo. Afinal, há alguma coisa positiva no presente ou ficaremos como indicou Hans Haacke: apenas a fazer um trabalho defensivo para que as coisas não piorem?

    • João Bernardo

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      set 4, 2012

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      Pedro,
      Limito-me a duas questões de facto. A primeira, é que eu não tenho republicado partes do Labirintos do Fascismo em artigos deste site. Eu não republico textos. Continuo a trabalhar os temas e, quando os trato de novo, é acrescentando outras perspectivas e mais bibliografia. A segunda, é que eu não insulto pessoas por não conhecerem línguas estrangeiras. É necessário distinguir quando a pobreza é uma justificação ou quando é um pretexto. Na Europa, onde também existem trabalhadores que se levantam às não sei quantas da manhã, dificilmente se consegue um emprego que implique qualquer tipo de contacto com o público sem saber inglês. E se se tratar de um trabalhador catalão ou basco, terá de saber três línguas: a da sua região, o castelhano como língua veicular no país e, naturalmente, o inglês. Quanto ao resto, trata-se de apreciações suas, que não vou comentar.

    • Leo Vinicius

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      set 4, 2012

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      Se já não correu, essa palestra do Dugin seria uma boa oportunidade para se manifestar pela libertação das Pussy Riot. Como se vê, o antiliberalismo de Dugin é bastante prático.

      Lucien Rabatet deve ter algum texto de Proudhon que nunca ouvi falar nem tive contato, pois chamar Proudhon de um dos precursores da “revolução do socialismo autoritário” não me parece nada convergente com o que li de Proudhon.

      Sobre Gramsci, é interessante como se faz uma leitura social-democrata, quase libertária ou liberal dele no Brasil.
      Semana passada mesmo me deparei com uma fala de Marilena Chauí em que ela frisa que Gramsci nunca falou em ‘luta por hegemonia’, mas soemnte ‘contra-hegemonia’, e tira disso conclusões quase libertárias. Mas o fato é que o oposto é que é verdade. Gramsci nunca falou em ‘contra-hegemonia’ (que é um conceito criado pelos seus leitores) mas apenas em ‘luta por hegemonia’. O video da fala de Chauí: http://www.viomundo.com.br/politica/chaui-na-greve-dos-professores-uma-burrice-politica-completa.html

    • João Bernardo

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      set 4, 2012

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      Acerca do interesse que a extrema-direita francesa teve, e ainda tem, por Proudhon pode ler-se, como simples introdução ao tema: Zeev Sternhell, La Droite Révolutionnaire, 1885-1914. Les Origines Françaises du Fascisme, Paris: Seuil, 1984, págs. 177, 186-187, 286, 344 e 392. Proudhon era muito apreciado por Charles Maurras — daí, aliás, o nome dado ao Cercle — e praticamente todo o fascismo francês havia passado pela Action Française. E não foi só Rebatet quem considerou Proudhon como o precursor de um fascismo francês, mas Drieu La Rochelle tinha a mesma opinião, como se vê, por exemplo, em Paul Sérant, Le Romantisme Fasciste. Étude sur l’Oeuvre Politique de quelques Écrivains Français, Paris: Fasquelle, 1959, pág. 69. Aliás, a invocação de Proudhon apareceu frequentemente associada à de Sorel entre os sindicalistas-revolucionários italianos na altura da campanha intervencionista, que constituiu a génese do fascismo. Também noutros países latinos Proudhon teve uma influência grande na extrema-direita corporativista, sobretudo entre os defensores do que Manoilescu definia como a sua modalidade pura e integral.

    • Pedro

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      set 4, 2012

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      Que eu saiba, quase todos os departamentos de filosofia das universidades brasileiras viraram casas do pensamento conservador e de direita.

    • Ricardo Noronha

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      set 4, 2012

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      Bem sei que não gostas muito de Foucault, João. Mas parece-me que há apesar de tudo algumas zonas de contacto com a tua interpretação do fascismo (que vai indubitavelmente mais longe) e algumas passagens dele a propósito do mesmo tema (sempre relativamente laterais no conjunto do seu pensamento):”Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (embora a oposição do AntiÉdipo a seus outros inimigos constituam mais um engajamento político): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas quotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”. http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/vidanaofascista.pdf

    • Ricardo Nogueira

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      set 4, 2012

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      Entendo a reserva, mas lamento. Mais ainda porque, num momento de ascensão tardia de um pensamento protofascista (leia-se: uma teoria mística com afinidades internas e cegas com o pensamento fascista, portanto, sorrateiramente sedutora), há um apagão da inteligência crítica sobre esse fenômeno. O fascismo, reduzido e fossilizado pela crítica histórica, hoje, a um interregno aparentemente superado da história do século XX, passa desapercebido de todos, sob formas novas e reelaboradas. Essa reebaloração ainda não foi pensada e criticada, de maneira que se está inerme diante da situação. Que Dugin apareça como um intelectual público relevante atesta o desamparo da capacidade crítica pela esquerda.

      Prova disso, no Brasil, serão organizados, em várias cidades e Estados brasileiros, encontros sobre o pensamento de Evola, com lançamento de livros de Dugin previsto. Existe uma sedução, ensejada pelas diversas demonstrações de esgotamento do capitalismo global, pelo pensamento antimoderno mais arcaizante, que demarca uma pretensa e romântica posição crítica. O conceito de Tradição de Evola é o fundamento dessa sedução e dessa nostalgia mitológica. E esse pensamento se dissemina cada vez mais aqui, se espraia à sombra de três fracassos no campo das esquerdas.

      O fracasso do anarquismo em todas as suas formas (um praticismo muitas vezes púbere, apenas político e muitas vezes ético). Os conceitos-chave do pensamento anarquista, através de inúmeras elaborações cosméticas contemporâneas, segue incapaz de formular uma crítica sistemática, incluindo econômica, para além dos jargões políticos clássicos. No Brasil ao menos, o anarquismo serve no máximo como denúncia das hierarquias e das organizações verticais, sem compreender a funcionalidade desses tipos de estruturas e sua natureza sudordinada a categorias do funcionamento automático da produção capitalista. A prática continua cega e romântica. Não é casual que ele continue minoritário e muitas vezes seu desaguadouro sejam ghettos de valores comunitaristas, com suas nostalgias localistas e suas idealizações da classe trabalhadora.

      No campo do marxismo, que aqui e ali ainda formula críticas sistemáticas e categoriais do capitalismo, a vertente dominante, porém, segue combinada com um neodesenvolvimentismo acrítico. No Brasil, essa imbricação é flagrante e estabelece os limites da crítica. Grande parte do marxismo difundido no Brasil é apenas uma modulação das teorias de modernização do século XX. Neste caso, a crítica econômica vem a contrapelo da crítica da economia política, que é o fundamento primeiro da contribuição do marxismo crítico.

      Um terceiro fracasso que seria preciso enumerar consiste na derrocada das ilusões pós-modernas que nutriram as esperanças conformistas da última geração. Depois de naturalizar a economia e se concentrar em temas de consenso e sobre diferenças particulares (ecologia, gêneros, etc.), a utopia pós-moderna só poderia perder a credibilidade, numa perplexidade defensiva, depois que a crise “meteu dialética” na cabeça até do burguês multicultural mais renitente. A economia capitalista, no seu debacle mais agonizante e mundial, reapareceu num momento em que as teorias pós-modernas já lhe haviam dedicado um tratamento marginal.

      A mística protofascista, com seus apelos hermenêuticos à Tradição, içada e reformulada como teoria com pretensões críticas, vem agora na crista da onda da vaga de oposição. Nesta hora histórica, parece o único vento fresco de novidade.

    • João Bernardo

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      set 4, 2012

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      A propósito do que escreveram os dois Ricardos, convém, Noronha, não exagerares a minha falta de estima pelo Focault, mas é verdade que se ele não fosse tão elogiado eu não me mostraria tão renitente. O certo é que não creio que possamos ir muito longe com uma interpretação psicológica dos fenómenos históricos, porque a tal ânsia pelo poder, se existe como dado psicológico, então é supratemporal e não explica um fenómeno, neste caso o fascismo, que é localizado no tempo. Ou, se admitirmos que a psicologia resulta de uma conjuntura histórica, então é esta conjuntura que devemos explicar.
      Quanto ao que Ricardo Nogueira escreveu, parece-me talvez interessante indicar o seguinte. Muito simplificadamente, na segunda metade do século XX o fascismo foi norteado por duas vertentes distintas. Uma, a que eu, quando falo com os meus botões, chamo fascismo social, teve como principal representante Maurice Bardèche, que além do mais foi um erudito conhecedor da obra de Balzac. Para Bardèche o fascismo fora uma estrutura social, e as pessoas de esquerda leriam ainda hoje com muito proveito o seu livro Qu’Est-ce que le Fascisme?, Paris: Les Sept Couleurs, 1961. A outra vertente é a que encontra em Julius Evola a figura mais expressiva, e que eu denomino fascismo místico, o mais directo continuador do misticismo dos SS. Se no fascismo tal como foi concebido por Bardèche há lugar para uma circulação e renovação das elites, no fascismo concebido por Evola é necessário que as elites se fixem de maneira definitiva, racicamente. O racismo entendido como um misticismo, foi essa a lição dos SS, e é por esta via que se deve entender a afinidade do fascismo com os temas ecológicos, o misticismo da Mãe Terra. É este tipo de fascismo que hoje parece interessar muitos brasileiros, como Ricardo Nogueira indicou.
      Acrescento o seguinte. Especialmente impressionante no caso dos fascismos eslavos contemporâneos, ou do nacional-bolchevismo eslavo enquanto forma radical de fascismo, é o facto de o racismo do Terceiro Reich ter sido intrínseca e estruturalmente antieslavo. Os eslavos eram a sub-humanidade, destinada a ser escravizada, sem por si própria ser capaz de se revoltar, a menos que a conduzissem os judeus. Por isso a chacina dos judeus era entendida por Hitler e pelos SS como a condição para a escravização definitiva dos eslavos. Esta postura totalmente antieslava levou Hitler a recusar qualquer colaboração com os fascistas russos, dos quais existia um núcleo significativo exilado na Manchúria. Durante a guerra os SS só aceitaram elementos da Galícia ucraniana, que Hitler e Himmler consideravam racialmente distintos dos eslavos, enquanto o resto da Ucrânia estava votada ao destino que se sabe. Logo a seguir à guerra os fascistas russos, seduzidos pelo nacionalismo vitorioso de Stalin, procuraram pôr-se à disposição do comunismo soviético, já que o fascismo germânico não os havia aceite, e Stalin — que outra coisa se poderia esperar dele? — mandou dizer que sim, que os recebia, e depois mandou prendê-los e matá-los. E agora, num país em que praticamente não há nenhuma família que não tenha pelo menos alguém que foi morto pelos nazis, há quem faça a apologia não do fascismo social mas do fascismo racial. É bom sabermos do que se trata.

    • Eder Camargo

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      set 4, 2012

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      João Bernardo, escrevo para agradecer por seu texto generoso. Sobre Dugin você diz não escrever, embora tanto tenha escrito: a relação do bolchevismo com o nacionalismo na Alemanha e por extensão na Rússia, o flerte do partido comunista com a fascismo na Itália ou a tendência corporativa de certas tradições tidas como libertárias na França – isso para não comentar a apropriação local enviesadamente interessada de Gramsci… Todavia há que se desculpar por não escrever algo que, de fato, está escrito!(…) Seu compromisso com a produção e partilha do conhecimento parece ser mais forte que alguns comentários sanguíneos que são dirigidos a seus textos.

      Obrigado por partilhar experiências pessoais sobre os (des)caminhos da esquerda de modo tão lúcido e delicado. Nestes tempos em que falar de experiências subjetivas parece sempre ser uma concessão burguesa, nada mais ético que destacar nuances políticas a partir de percepções reconhecidamente particulares.

      Talvez por isso seu texto incomode tanto a alguns que teimam em permanecer viúvas de formulações mais peremptórias e pretensamente impessoais. Como Bukowski, talvez nos interesse menos a fortuna crítica e mais o pauperismo da experiência. Deixemos as teorias adesistas a figuras como Limonov que se basta no cinismo de uma literatura insossa, ainda que azeda a paladares mais aguçados. Saudações!

    • Marcus

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      set 4, 2012

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      Caro João Bernardo, aqui fala o tal “leitor amável”, e com esta designação tua veio, é claro, um tom irônico indicando ingenuidade da minha parte. Acho que mesmo alegadamente não adotando a sugestão de análise do nacional-bolshevismo de Dugin, que tenho certeza possui suas especificidades enquanto ideologia eurasiana que vigora na Rússia, ao escrever este artigo de carácter auto-crítico com relação, pelo menos, ao (público do) Passa Palavra, fez com que a sugestão valesse suficientemente a pena. Por isso agradeço. Mas só para esclarecer, e isto é apenas por se vias das dúvidas fui mal interpretado, não um ataque, o meu e-mail não foi de forma alguma uma indireta a você. Desculpe se fui muito pretensioso ao sugerir que escrevessem um artigo, imagino que isso não seja comum; é uma daqueles situações em que se pensa que algo deveria ser feito, mas você mesmo é incapaz de fazê-lo.

      Não participei da discussão envolvendo o texto “Ponto Final”, apesar de tê-la acompanhado, e não tenho a mesma percepção tua sobre o público do Passa Palavra, embora tua crítica se aplique a grande maioria da esquerda. O fato de você ser incômodo para outros não deveria de modo algum ser um incômodo para ti. Aqueles mais atingidos são provavelmente os que se sentem mais impelidos a intervir, comentar, etc., e mesmo assim muitos saíram em sua defesa, é claro que não integralmente já que a intenção deveria ser justamente tirar-te do mar da desistência. Sou de maneira geral leigo em História, situação que em breve pretendo começar a reverter, por isso considero essencial que artigos como os de João Valente Aguiar (http://passapalavra.info/?p=62764), tuas séries de artigos “O mito da natureza” e “As raízes ideológicas do Brasil Potência”, e “Socialismo da abundância, socialismo da miséria” sejam publicados e divulgados a fim de prevenir, ou no mínimo atentar para, erros fundamentais, comuns, e às vezes até banais, da esquerda — erros estes que possuem implicações políticas graves, e que muitos acabam reproduzindo onde quer que seja que convivam, militem, debatam, etc.

    • João Bernardo

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      set 4, 2012

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      Marcus,
      Eu gosto de ser irónico, mas há muitíssimas ocasiões em que aquilo que escrevo significa exactamente e apenas o que lá está escrito. Quando mencionei a sua amabilidade foi um desses casos. É que foi uma amabilidade mesmo. Muito obrigado.

    • |

      set 4, 2012

      |

      Gostaria de opinar sobre dois aspectos do texto.
      1) Quanto ao nacional-bolchevismo na gênese da corrente conselhista.
      O conselhismo germano-holandes como corrente política com influência de massas está extinto desde os anos 1930 (não sobreviveu à ascensão de Hitler). Como corrente teórica restaram análises de alguns de seus principais expoentes (Pannekoek, Korsch, Mattick, Rhüle, Gorter). Neste seu curto período de existência – comparativamente com outras correntes políticas – seria necessário demonstrar em que medida as proposições e concepções de Laufenberg e Wolffheim permearam a prática dos conselhistas alemães, já que eles foram excluidos com muita brevidade do KAPD. Até onde sei, não me parece que as ideias nacional-bolcheviques da dupla tenha continuado de alguma maneira através de qualquer das duas vertentes em que a corrente conselhista se subdividiu (a tendencia das uniões operárias e a tendência partidaria). Diferente do que ocorreu com as posições de Karl Radek no seio da III Internacional a partir de 1923.
      2) Sobre os usos que uma idéia permite
      Não sou especialista em Proudhon, no máximo um leitor precário que não se identificou com o pouco que leu. Portanto, fico a vontade para dizer que o que ele escreveu (ou qualquer outro) não necesariamente pode ser associado ao que fascistas em França tenham considerado ser sua “fonte precursora”.
      Também aqui resta demonstrar.

      A utilidade que vejo para o momento presente em realizar ambas demonstrações, para além de reforçar a noção de que não devem exitir “santos dentre santos”, é que as ambiguidades podem ter maiores ou menores repercussões em uma prática que se pretenda transformadora nos dias de hoje baseadas nas contribuições de Proudhon ou do conselhismo alemão.

    • João Bernardo

      |

      set 4, 2012

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      Claro, já faltavam. Chegou o comentário de Zé.
      Muito brevemente, quanto ao primeiro aspecto não é a mim que cabe demonstrar, mas a si que cabe dizer se leu ou não Laufenberg e Wolffheim. Se não leu, aconselho-lhe que leia, para começar, o relatório de Laufenberg, publicado em Junho de 1919, portanto quase um ano antes do congresso fundador do KAPD. Esse relatório acerca da actividade de Laufenberg à frente do conselho revolucionário de Hamburgo é uma expressão eloquente de nacional-bolchevismo e pode ser encontrado em Denis Authier e Jean Barrot, La Gauche Communiste en Allemagne (1918-1921), Paris: Payot, 1976. Como disse no artigo, quando o KAPD se formou, o seu órgão era o jornal dos comunistas de Hamburgo e toda a gente conhecia aquele relatório. Mas se o senhor desejar saber mais acerca do assunto aconselho-lhe a leitura de uma verdadeira obra-prima da historiografia, indispensável para o conhecimento do nacional-bolchevismo na Alemanha: Jean Pierre Faye, Langages Totalitaires. Critique de la Raison — l’Économie — Narrative (ed. corr.), Paris: Hermann, 1980.
      Quanto ao segundo aspecto, se o senhor escreve no seu comentário que leu «pouco» Proudhon, é o senhor quem deve começar por ler. Aliás, quanto a este aspecto indiquei uma bibliografia sumária num dos comentários a este artigo, remeto para lá. Qualquer pessoa que tenha um conhecimento médio do fascismo nos países latinos não ignora a importância que sobre ele exerceu o pensamento de Proudhon. Pelo que entendo do seu comentário, o senhor não está nesse caso.

    • Miguel Serras Pereira

      |

      set 4, 2012

      |

      Caro,

      só espero que continues a escrever assim sobre o que faz com que não escrevas – sobre o fascismo e o resto.
      (Um longo parênteses: Creio que percebo o fascínio juvenil que um certo satanismo de Foucault – o poder em si é o mal e existe sempre, e, se onde há poder há resistência, deixai toda a esperança, vós que entrais na resistência, porque não podeis fazer mais do que só isso sem reproduzir o poder – exerce sobre o nosso camarda Ricardo Noronha. Mas, como é evidente, estou longe de aprovar essa fraqueza: o grão de verdade que, apesar de tudo, aparece em certas análises de Foucault, estava já no que há de melhor numa Escola de Frankfurt que ele não cita, ainda que a Escola de Frankfurt também deva ser severamente criticada sob outros aspectos, que aqui não posso abordar. Viu-o bem Castoriadis, que não morria de amores por Adorno… Mas é verdade que, também eu, se não visse o niilismo decisionista de Foucault, ou o seu decisionismo irracionalista, incensado tão acriticamente, seguiria o teu exemplo e não acharia tão necessário perder demasiado tempo com a sua caixa de ferramentas. Dito isto, não sei se o psicologismo será o pecado principal do Anti-Saint-Michel em causa e da sua, pasme quem toma por evangelho as suas profissões de fé histriónicas, antropologia sumária.)

      Abraço para o Ricardo Noronha e para ti

      miguel serras pereira

    • Pedro

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      set 5, 2012

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      Fiz uma colocação que ficou sem resposta. O autor citado se apresentou a convite de um departamento de filosofia e eu disse que os departamentos de filosofia são hoje, no Brasil, na maioria, centros do pensamento conservador e da nova direita. Ora, se um autor de direita é convidado por departamentos de direita, qual a novidade? Só haveria novidade para os que acham que a universidade é de esquerda, em princípio. Cabe pesquisar os outros grupos que convidaram o ideólogo de Putin. Ver isto na UFRGS não é nenhuma novidade, só esclarece mais as coisas.

      João Bernardo teve o privilégio histórico e social de não só adquirir uma formação erudita, que começa na família e na rede de proteção que a cerca, mas ainda conhecer fatos e pessoas distantes da esquerda ralé que se pretende anticapitalista no Brasil de hoje. Se está descontente com a safra de anticapitalistas atuais, sem a erudição e robustez política da anterior, isso de modo algum deveria ser pretexto para que deixasse de escrever. Já idoso, a instrução geral é hoje a tua principal função e se a atual geração é muito pobre caberia pensar que os textos publicados hoje na net servirão a uma nova geração, ou mesmo a esta, tanto desconhecedora de suas lacunas e sem a experiência de um processo revolucionário. Ou escreve, ou se cala, o resto é falta de paciência histórica.

      Por fim, certas posições do Bernardo estão em sintonia com uma grande dicotomia de seu marxismo trágico (considero trágico aqui como algo positivo porque avesso à esquerda final feliz e idealista que caracteriza o marxismo e anarquismo atuais no Brasil). Em toda a tua obra, Bernardo oscila, por um lado, entre um otimismo quando tece considerações sobre respostas coletivas da classe trabalhadora – tratada coletivamente – e um pessimismo quando se refere a pessoas e grupos em particular com relação a esta classe. Na obra dele alterna-se de um lado uma classe trabalhadora que em alguns momentos é revolucionária, mas em tantos outros deixa os revolucionários tão abandonados pela estupidez popular quanto ficaram os profetas da odisseia bíblica. Em dados momentos ele faz a apologia de uma classe capaz de respostas, em outros ela surge como um bloco estúpido incapaz de sequir os revolucionários de seu tempo. Mas em toda a sua filosofia da história há uma elite de revolucionários a insuflar e instruir o povo. A elite é tratada nominalmente enquanto os trabalhadores surgem sempre em bloco. Ora, há uma dicotomia porque se explicitamente há longas passagens sobre o potencial de autonomia dos trabalhadores – otimismo seguido por Tragtenberg -, implicitamente há a descrição da permanente existência de uma elite de revolucionários sem a qual o povo não se levanta. A esta luz devem ser interpretadas passagens sobre o “lucidíssimo” Marat e tuas zangas com a pobreza dos revolucionários atuais. De todo modo, a dicotomia permanece. Se é sempre necessária uma ilustrada equipe de lutadores sociais e hoje ela é tão pobre, por que escrever não é? Eis o pano de fundo.

      Por fim, saber que da universidade saem os quadros para os jornais, empresas de net, tv, partidos,agronegócio, empresas, ongs, secretarias, ministérios, judiciário, exército, igrejas explicita a função central da universidade como centro do poder num sentido amplo e porque o ideólogo de Putin é convidado para ela e não para palestrar na ROTA.

    • Paulo

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      set 5, 2012

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      Pedro,

      Já parou para pensar que o que chama de “dicotomia”, “oscilação” e “alternância” é o próprio movimento da luta de classes?

    • Pedro

      |

      set 5, 2012

      |

      Paulo,

      A contradição está no fato de explicitamente ele afirmar o potencial autônomo da classe trabalhadora em dar respostas e combater o capital mas, implicitamente, ele ver sempre uma equipe de ilustrados revolucionários a chacoalhar esta classe, mobilizá-la, fazê-la seguir adiante. Ele dá uma diferença de tratamento e trata sempre dos trabalhadores em bloco enquanto refere aos ilustrados revolucionários nominalmente. O que demonstra uma hierarquia não sem importância.

      Afinal, a classe é capaz por sí ou depende sempre desta equipe de ilustrados revolucionários? Se ela é capaz por sí, pode escrever que haverá quem aproveite os textos hoje ou a futuro. Se não é capaz e a atual safra de revolucionários é de má qualidade, justifica-se então o “sei, mas não escrevo”.

      Obs: se eu escrevo – “desci da jega, comi um marroco, tava tirando uma chinfra, na hora do pá pode pá que pá” o Sr. João Bernardo não vai entender nada do que digo, assim como desconheço inglês, mas em tantos cantos é esta linguagem que os trabalhadores usam para sobreviver e para lutar e não as que o capital ditou como de obrigação para os trabalhadores portugueses serem explorados na Europa ou E.U.A.

      Por fim, João Bernardo bem sabe e escreve, deve ter se esquecido, que os desenvolvimentos educacionais são dados pelo quadro econômico geral. Assim, se é comum que trabalhadores com possibilidade de migração européia aprendam todos inglês, pouco o é quanto aos precarizados brasileiros, todos envoltos no mercado interno, por vezes mesmo regionais ou até local. O inglês no Brasil não é uma língua dos trabalhadores, errou na análise.

    • Ricardo Noronha

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      set 5, 2012

      |

      Na verdade, Miguel, não é nenhum satanismo que me atrai, mas o estudo dos dispositivos de confinamento, de vigilância e de controlo, o seu funcionamento interno e o seu impacto histórico na formação da modernidade capitalista. A fábrica e a escola como reflexos da prisão e do hospício.
      Isso e o questionamento de certos usos de termos como “verdade”, “científico”, “objectivo” e outras misérias do positivismo.
      Quanto à tua descrição das posições de Foucault a propósito do poder e da resistência, parecem-me uma caricatura e, enquanto tal, difíceis de debater. Mas que isso não nos desmotive, camarada.
      Caro João, não me parece avisado resumir a temática e problemática do desejo a um assunto psicológico. Pelo menos não nos termos ahistóricos em que tu a colocaste. Em todo o caso, prescindo facilmente de Foucault a esse nível a favor de Reich e de algumas das principais hipóteses desenvolvidas em “A psicologia de massas do fascismo”. E parece-me que a tua reflexão acerca do fascismo como ódio plebeu às elites tradicionais motivado pelo desejo de ascender à sua posição não anda demasiado longe dessas hipóteses.

      Um abraço a todos.

    • João Bernardo

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      set 5, 2012

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      Ricardo,
      Já que estamos a falar destas coisas, e para mais evocaste o inevitável Reich, lamento que seja tão pouco estudado, ou simplesmente lido, o homem que ergueu a mais notável construção intelectual para analisar os sistemas de poder e que melhor colocou em ficção o fascismo enquanto ódio plebeu às elites tradicionais motivado pelo desejo de ascender à sua posição, como tu dizes. Refiro-me a Elias Canetti e ao seu ensaio Masse und Macht, que eu traduzo para Multidões e Poder (a versão inglesa chama-se Crowds and Power), bem como ao seu romance Auto de Fé. Se há alguém que vale a pena ler é ele.

    • Ricardo Nogueira

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      set 5, 2012

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      Eu concordo, de modo geral, com a sua avaliação, João Bernardo. No entanto, noto que há representantes do pensamento místico protofascista, hoje, que dispensam, ou suavizam ao mínimo, o elemento propriamente racial, e num sentido bastante determinado. Esse pensamento desenvolve uma concepção essencialista das culturas e dos povos segundo a qual o vital, segundo a Tradição, é a manutenção da homogeneidade dessa mesma cultura. É evidente que essa tese justifica, de antemão, toda e qualquer forma de dominação direta, a depender do diagnóstico da essência da cultura, inclusive formas de dominação pré-modernas. Aqui, diga-se, ela se consubstancia com descaminhos da crítica banalizada do imperialismo, tomando feições de esquerda. Soberania se converte em Cultura, entendida nos termos da Tradição. Até certo ponto, porém, essa teoria mística é incapaz, na presente hora mundial, de implementar ou mesmo apresentar um sistema de dominação direta e abertamente arcaico. Isso se deve, a meu ver, ao influxo – embora cada vez mais rarefeito – do multiculturalismo, do qual a perspectiva mística em questão extrai sua credibilidade pública e atenua o que outrora seria um escândalo. Ou seja, essa teoria mística, reabilitada mediante uma reformulação em que o elemento racial se dissolve no cultural (negação, pois, da fase anterior de biologização mística das raças), pode sobreviver, aludindo ao título de um famoso livro de Evola, de pé entre as ruínas.

    • Miguel Serras Pereira

      |

      set 6, 2012

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      Ricardo (Noronha), como não tenho tempo para me alargar sobre a questão Foucault, que, de resto, é tangencial no contexto dos problemas que o João Bernardo levanta, fico-me por algumas observações avulsas.
      1. É certo que as concepções de “verdade”, “objectivo”, “ciência”, etc. do “positivismo” são insatisfatórias e tributárias ou serventuárias, em larga medida, da dominação hierárquica. O problema é que Foucault incorre demasiadas vezes no erro banal de deitar fora o bebé com a água do banho em vez de sugerir concepções alternativas – ou insinunado até que quaisquer concepções da verdade, da racionalidade e da selecção dos seus critérios de validade são sempre fundamentalmente e só refinamentos dos dispositivos da dominação.
      2. Foucault também não consegue pensar o poder, a lei e a instituição senão como dominação. O que reduz as perspectivas da emancipação e da autonomia à impotência ou à reprodução do mesmo.
      3. A única concepção de “revolução” que, salvo erro, merece a aprovação de Foucault é a “teológica” ou “religiosa”: “teológica” ou “religiosa” no sentido de “alternativas à razão” -precisamente porque, tendo condenado a racionalidade ao poder e o poder à dominação, a fé no supra-racional arbitrariamente declarado e assumido lhe pode servir. Assim, quando a hipótese teológica é abandonada, resta a circularidade fechada do poder e da resistência ao poder, estando esta última condenada, sempre que dá um passo em frente, a dar dois atrás.
      4. A “ars erotica” é preferível à “scientia sexualis” – mas porquê (do ponto de vista de Foucault)? A primeira não é menos “socializadora”, “educadora”, “normativa”, etc. do que a segunda. Ora, a “socialização”, a “educação” ou “paideia”, a “norma” são, independentemente dos seus conteúdos ou formas históricos, aquilo que ou aceitamos como dominação (igual a poder) ou aquilo a que só podemos resistir sem esperança na instituição de um poder que seja exercício de liberdade e sua condição. O que Foucault nos proíbe de pensar é a autonomia, como condição de uma sociedade que se dá e transforma, sabendo que o faz, a sua própria lei.

      Enfim, poderíamos continuar indefinidamente sem sair desta cepa torta. Que, bem vistas as coisas, não nos dá critérios que legitimem mais uma república dos conselhos e a sua cidadania governante do que um gulague ou Auschwitz, ou em nome dos quais, apesar de tudo, possamos defender o habeas corpus contra as lettres de cachet. Em suma, com a conversa do satanismo e do niilismo o que eu queria dizer é que não nos leva muito longe denunciar a dominação quando, ao mesmo tempo, a declaramos, de direito, omnipotente e inelutável, sem ousarmos outro exercício ou concepção do poder, da norma, da socialização, e assim por diante. Caricaturo? Talvez, na medida em que todo o resumo o faz, mas creio que não invento.

      Abraço

      msp

    • Júlio

      |

      set 6, 2012

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      Caro João, como está?
      Você acha que essa única menção simplesmente, num artigo obscuro de uma pessoa obscura (como você mesmo relata, eu nunca tinha ouvido falar), a essa possível tentativa de aliança entre Gramsci e o tal fascista é suficiente para considerá-la efetivamente comprovada? Não sei, não tenho conhecimento sobre esse assunto ou sobre meandros da biografia de Gramsci, mas como leitor leigo me pareceu uma fonte ao menos para se desconfiar, por ser a única e por ser envolvida nos fatos de forma interessada. Não acha? Há outros indícios disso?

      “A primeira menção que encontrei a uma tão inesperada tentativa de convergência política foi na Storia del Fascismo de Enzo Santarelli, vi-a mencionada também num artigo de Sergio Caprioglio na Rivista Storica del Socialismo em 1962, mas ambos remetiam para um artigo de Nino Daniele, «Fiume Bifronte», publicado em 1933 numa obscura revista intitulada I Quaderni della Libertá. Seguidor de D’Annunzio, Daniele manteve-se na vertente mais radical do fascismo, o que o levou a entrar em divergência com o regime de Mussolini e a exilar-se no Brasil, publicando aqui, numa edição precária, o relato das insistentes tentativas de Gramsci para ser admitido à presença de D’Annunzio.”

      Um abraço,
      Júlio

    • Júlio

      |

      set 6, 2012

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      Ah, achei interessante o apontamento em relação às místicas, se eu fosse um leitor amável como Marcus sugeriria ou pediria um texto sobre isso…

      Abraços!

    • Rodrigo Araújo

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      set 6, 2012

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      Até onde eu entendi, a indisposição do João Bernardo se dirige aos militantes dogmáticos, aferrados em posições que há anos ele vem denunciando como oriundas de práticas tecnocráticas. Me parece que havia concluído que – citando um artigo publicado aqui há algum tempo – “É como lavar o focinho a um porco: gasta-se sabão e chateia-se o porco.”, levando-o a abandonar as “ilusões” sobre a possibilidade das questões serem racionalmente apreciadas.

      No entanto, ante o pedido de um leitor, tece um texto indicando em qual lugar vinha falando destas coisas, fazendo as mediações para o caso ser enquadrado dentro de sua perspectiva, provocando o leitor a procurar mais referências e, principalmente, abandonando o que havia se proposto a fazer no artigo Ponto Final.

      Agora, sobre o incômodo gerado por serem apontadas as deficiências dos militantes, isto pode servir para duas coisas: para as pessoas, como gatos magoados, passarem a lamber as próprias feridas e justificarem os seus problemas, ou; constatarem a situação e agirem para solucioná-la. Para mim esta diferença de apreciação faz uma verdadeira clivagem entre os que estão dispostos a resolverem os problemas e entre aqueles que estão dispostos a justificar seus problemas. Chorar é bom, mas não resolve, infelizmente.

    • João Bernardo

      |

      set 6, 2012

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      Júlio,
      Um historiador profissional não se deixa enganar tão facilmente. E não sou eu o único a aceitar essa fonte como legítima, então já seriam vários historiadores profissionais a deixar-se enganar. Vejo que você tem em escassa consideração a minha, aliás nossa, competência. Sugiro-lhe que procure a revista nas bibliotecas e leia o artigo, e que leia acerca de Nino Daniele e acerca da ditadura de D’Annunzio em Fiume. Sugiro-lhe também que consulte os artigos de L’Ordine Nuovo de Janeiro e Fevereiro daquele ano de 1921, não assinados mas escritos por Gramsci, em que ele se esforçou por agravar as fricções existentes entre os fascistas de Mussolini e os legionários que acabavam de abandonar Fiume, e por captar os legionários e o seu chefe, D’Annunzio, para o campo dos comunistas. O mesmo tema regressou num artigo de 9 de Agosto e reapareceu mais tarde nas Oito Lições sobre o fascismo que Togliatti ministrou no exílio moscovita.
      Mas o problema principal parece-me ser outro e consiste na recusa imediata que a maioria dos leitores deste site manifesta perante alguma informação nova que os incomode. Bastam como amostragem os comentários a este artigo. Um leitor que nunca ouviu falar que Proudhon se pudesse contar entre os inspiradores da extrema-direita francesa nem leu nenhum texto de Proudhon que justificasse essa propensão, em vez de procurar informar-se, recusa a informação. Aparentemente nunca leu os textos anti-semitas de Proudhon nem os seus elogios às vitudes guerreiras nem as suas críticas às greves e, o que é mais grave para o caso, não leu nada de substancial sobre a formação da extrema-direita francesa no boulangismo e no affaire Dreyfus. O pior é que, ao deparar com a pista que forneci, a primeira reacção desse leitor tivesse sido recusar a informação em vez de procurar informar-se. O mesmo com outro leitor acerca dos nacionais-bolchevistas de Hamburgo e a formação do KAPD. O mesmo consigo agora. A reacção imediata de um cientista é a oposta, consiste em se precipitar para averiguar em vez de recusar. Parece-me que estou a falar de Darwin aos criacionistas devotos do Génesis.
      No mais, agradeço-lhe a sua sugestão sobre as místicas, mas para quê? Abordei o assunto num artigo deste site (http://passapalavra.info/?p=41170 ), há mais de um ano. Se tiver paciência, leia os comentários àquele artigo. Acha que estou interessado em repetir a dose? Não creio que valha a pena.
      De qualquer modo, muito obrigado pelo seu interesse.

    • Anônimo

      |

      set 7, 2012

      |

      Muito me incomodam algumas de suas considerações, João, mas precisamos disso. Por vezes suas colocações são irritantes, mas necessárias. Nos enfurece, às vezes, seu comportamento, que consideramos arrogante, mas o Sr. conquistou esse direito. Ao lermos teus escritos, consideramos nossas discussões, nossas trajetórias intelectuais inteiras, uma brincadeira de criança. Não deixe de escrever! Precisamos nos sentir desconfortáveis, precisamos ser contraditos, precisamos ser auxiliados a nos libertar do senso comum, precisamos nos sentir humilhados pela nossa aceitação medíocre de jargões ultrapassados. Peço que não desista de nós, João. Leva tempo para que se aprenda, sobretudo com os grandes mestres. Aquele que já chegou tão longe talvez não perceba o quanto é difícil a empreitada. Se os leitores por vezes não demonstram gratidão, saiba que existem aqueles que o admiram e que procuram, embora nem sempre com tanto sucesso, compreendê-lo e transformar suas ideias em uma ponte para um novo mundo emancipado. Saudações fraternas, João!

    • Rodrigo Araújo

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      set 7, 2012

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      Por certo não conquistei direito especial algum e por esta classificação feita no último comentário eu seria um cidadão de segunda categoria. De qualquer, forma sinto-me no dever de dizer que por este caminho somente criamos um novo mito, que nada mais é que manter a antiga estrutura de submissão com nova roupagem.
      Pra mim isto também não serve.

    • |

      set 7, 2012

      |

      Meu querido João,
      Apenas para que não fique dúvidas para si e para os leitores do PP, não houve de minha parte nenhuma atitude de recusa.
      Não recusei a informação de que Laufenberg e Wolffheim sejam nacional-bolcheviques;
      não recusei a informação de que o nacional-bolchevismo tenha estado na origem do conselhismo alemão;
      não recusei a informação de que o nacional-bolchevismo seja uma variante de fascismo.
      Essas 3 informações já eram de meu conhecimento antes do texto acima.
      A questão que levantei foi: o que houve de nacional-bolchevismo na pratica dos conselhistas.
      Em termos de incômodo, se houve algum, foi esta associação dos atuais nacional-bolcheviques russos com uma corrente política que procurou estar o mais distante de qualquer forma de nacionalismo. Isto não significa santificá-la. E se restar demonstrado que tenha fracassado em relação ao nacional-bolchevismo de Laufenberg e Wolffheim que seja tratada com o mesmo rigor que qualquer outra.

    • João Bernardo

      |

      set 7, 2012

      |

      A propósito deste último comentário de Zé, tudo o que eu afirmei foi que o nacional-bolchevismo participou na origem do KAPD. O contrário seria de estranhar, porque na época essas e outras correntes cruzavam-se e, mesmo quando se opunham, havia entre elas uma circulação de ideias e de pessoas, atingindo por vezes proporções que hoje nos espantariam. O problema não se limitou ao grupo de Hamburgo, porque o KAPD não pôde deixar de ser arrastado para um espaço político nitidamente nacional-bolchevista quando o Exército Vermelho soviético invadiu a Polónia no derradeiro episódio da guerra civil. Nessa ocasião o conde zu Reventlow, figura proeminente da direita radical e um dos animadores do bloco racista no parlamento, procurou persuadir vários dirigentes políticos alemães a colaborarem com o governo soviético contra a Polónia. Estes seus esforços foram vãos, mas entretanto alguns corpos francos da Alta Silésia pretenderam entrar na Polónia para se ligar ao Exército Vermelho, e a direcção do Komintern decidiu criar uma comissão para a Alta Silésia, formada com representantes tanto do KPD como do KAPD, incluindo Wolffheim. Várias centenas ou mesmo vários milhares de alemães alistaram-se então no Exército Vermelho para combater a Polónia, e se alguns deles eram comunistas, outros eram fascistas.
      Precisamente porque o fascismo foi — aliás, tem sido — um movimento transversal, que atravessa o espectro político e é capaz de mobilizar as suas várias facetas, é que a abordagem mais adequada é a de Jean Pierre Faye, que toma como unidades não os grupos, associações e partidos, mas os cruzamentos e circulações entre eles. Fê-lo com tanto mais facilidade quanto é, além de grande historiador, um linguista. A propósito de outro artigo publicado neste site, um amigo recordou um verso da grande poetisa Sophia de Mello Breyner, «navegavam sem o mapa que faziam» (poema completo aqui: http://purl.pt/19841/1/1980/1980.html ). Sucede o mesmo nas lutas sociais e políticas. Quem vai de mapa feito não descobre paisagens novas e arrisca-se mesmo a não chegar a lugar nenhum, novo nem velho, porque ou esses lugares já não existem ou as correntes mudaram de rumo. E de nada vale ter atitudes moralistas e querer venerar virgens imaculadas, porque para se navegar sem o mapa que se faz é indispensável assumir o direito de errar. «Trémula a bússola tacteava espaços».

    • Theo

      |

      set 9, 2012

      |

      João Bernardo,

      Obrigado por ainda se dispor aos incômodos.

    • Júlio

      |

      set 10, 2012

      |

      Pois é, João, de minha parte vale o mesmo do Zé acima, não houve recusa nenhuma, só perguntei ué… Achei estranho a única fonte citada ser de uma que você mesmo aponta como obscura, por isso perguntei, você respondeu e eis que temos um diálogo, maravilha. Exatamente por confiar em você e sobreutdo nesse espaço de troca de ideias é que parecia uma boa perguntar, essa é a vantagem da Internet, posso trocar ideias (e isso também é se informar) sem necessariamente ter que ir a bibliotecas, o que é ótimo mas nem sempre possível ne, agora por exemplo estou trabalhando. Durante todo seu texto, e nos comentários, você reclama de intransigência dos leitores e aí qualquer humilde dúvida já é vista também com instransigência… sugiro que “descanse seu gatilho”, porque às vezes parece que está se enfrentando com moinhos de vento…

      Aquele abraço!

    • Júlio

      |

      set 10, 2012

      |

      Sobre a discussão das místicas, obrigado por me remeter ao outro texto, João, gostei sobretudo desta parte, nos comentários:

      “Tudo isto para dizer que a emoção é uma componente indispensável dos seres humanos e todos a têm, não faz mal a nada nem a ninguém. Outra coisa muito diferente, e situada noutro plano, é a elaboração de práticas rituais destinadas a consolidar uma identidade colectiva num quadro irracional e não racional. E o elemento que eu uso para distinguir estas duas esferas é a presença ou ausência de espírito crítico. Chegando à questão de viés. Não é interessante que as organizações de extrema-esquerda e uma tão grande parte dos militantes detestem a ironia ou nem sequer a entendam? É que a ironia é uma forma hábil de espírito crítico, é o tambor que bate numa cadência diferente e destrói a marcha do batalhão. Por que motivo alguns movimentos sociais tomam como modelo das suas místicas certas cerimónias religiosas e não as conversas de boteco em torno de uma mesa cheia de garrafas de cerveja? Também há espírito de grupo e solidariedade colectiva em torno das mesas de boteco, mas há igualmente ironia e conversas que são um fogo cruzado e não um coro.”

      Pena que depois o papo não aprofundou muito por esse lado lá na discussão.

      Abraços!

    • José Carlos

      |

      set 14, 2012

      |

      Escrevo não sobre o artigo não escrito.
      E sim sobre uma discussão paralela e marginal, diria periférica? Ao ler o Pedro e seus rancores lembrei de uma meditação de Fabiano em Vidas Secas.

      Podia mudar de sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo
      para amassar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim, o avô também. Nascera com este destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer?

      Ah, mas que estou cá a fazer, o Rodrigo sem miados já respondeu, e talvez a classe trabalhadora em luta também.
      É certo que em situações de miséria e privação absoluta dos bens mais elementares da vida, não se escolhe, vive-se o movimento perpétuo do “círculo vicioso da pobreza”, que se caracteriza pela quase impossibilidade da escolha pessoal da vida que se quer viver. Seria este o caso da maioria das deficiências dos militantes? Já conheci analfabeto que foi alfabetizado na luta, à luz de velas, na madrugada, na ocupação, quando voltava do extenuante trabalho. Justificativas e lamúrias não mudam o mundo. Lutar talvez.

    • Pedro

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      set 14, 2012

      |

      José Carlos, eu nem devia perder meu tempo…

      A propósito desta discussão toda me recordei que nunca tais militantes, os sindicatos, os grupos, e os partidos ofereçam cursos de língua. Eles oferecem cursos de tudo, os de língua não, os de arte não… Se é tão importante, por que não ensinam? É necessário manter o capital cultural, as marcas de formação que distinguem os anticapitalistas herdeiros dos militantes populares.

      Não é a primeira nem a décima vez que ouço de um ou três anticapilistas herdeiros a expressão “pobreza não é desculpa, se não possuem formação é porque não se interessam, são preguiçosos, lambedores de feridas, gostam de se lamentar”. São justamente os herdeiros, filhos de advogados, filhos de executivos, filhos de professores universitários, gente que herdou casa, comida, capital cultural, tempo livre que sai com estas. Parecem a classe média escravocrata acusando os pobres de serem culpados por não saírem da pobreza. Ora, se os populares não possuem dada formação deve ser culpa deles mesmos, dizem.

      Eu poderia ir mais adiante sobre divisão interna entre militantes herdeiros e os vindos da pobreza, talvez escreva um texto um dia. Poderia recordar como se criam duas redes distintas de coleguismo, de trocas culturais, de reminiscências e outros…Afinal, as determinações são mais fortes do que as pessoas pensam e, parafraseando Mano Brow, você sai da elite mas a elite nunca sai de você.

    • Observador

      |

      set 14, 2012

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      Pedro escreve bem, parece ter feito bons anos de universidade.
      O povo não.

    • João Bernardo

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      set 14, 2012

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      O ressentimento tem sempre um efeito destrutivo. Destrutivo do próprio e de tudo aquilo que o rodeia. Observe-se a sequência de comentários deste artigo. A partir do momento em que “Pedro” — chamemos-lhe assim — expressou o seu ressentimento, a discussão deixou de se focar num problema importante, o nacional-bolchevismo, e passou a centrar-se numa questão irrelevante, as autojustificações de “Pedro”. Talvez a discussão ainda retome o rumo.

    • |

      set 14, 2012

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      Retomando o debate sobre o que interessa…
      João,
      Fiz uma pesquisa rápida mas as datas não estão precisas. Mas me parece que o momento em que narras o envolvimento do KAPD com uma política nacional-bolchevique foi justamente aquele situado entre abril e agosto, ou seja da fundação até a expulsão dos nacional-bolcheviques de suas fiieras.
      Se for correta tal períodização, será correto afirmar que o KAPD experimentou esta orientação na prática e a rechaçou. Ou seja, rompeu-se o entrecruzammento de uma posição comunista com uma fascista. A julgar pela perseguição que o KAPD sofreu de bolcheviques, nazistas e social-democratas desde então, podemos afirmar ainda que tratou-se de uma prática eliminada em seu interior e que lhe custou a extinção.

    • João Bernardo

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      set 15, 2012

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      Zé,
      O meu objectivo em tudo o que escrevi, não só sobre o fascismo e a história contemporânea mas sobre qualquer época histórica, é o de mostrar cruzamentos, indefinições, circulações entre campos opostos. Por algum motivo dou tanta importância ao conceito de ambiguidade na luta de classes e me esforcei por analisar essa ambiguidade inclusivamente no plano do vocabulário. Pelo mesmo motivo considero a obra de Jean Pierre Faye sobre a formação do pensamento de extrema-direita na Alemanha como uma das três obras-primas da historiografia.
      É nesta perspectiva que considero importante saber quais as posições de Laufenberg e de Wolffheim, ou mais amplamente do grupo de Hamburgo, porque não se tratava só daqueles dois. E que considero importante saber que a formação do KAPD pôde ocorrer parcialmente naquele meio. Repito: parcialmente. O KAPD rompeu com a tentação nacional-bolchevista e com os conluios com os oficiais da Reichswehr tal como outros romperam também. Paul Levi fez o mesmo, isso custou-lhe a expulsão da direcção do Partido Comunista e depois do próprio Partido, indo animar uma facção de esquerda no Partido Social-Democrata. Hoje esse brilhante teórico é praticamente esquecido, e quando o mencionam é como advogado da Rosa Luxemburg. Levi está esquecido e o KAPD foi condenado à irrelevância política. Assim como estão esquecidos e não obtiveram relevo Franz Pfemfert e o jornal Die Aktion. Ora, tudo isto só pode ser entendido se em vez de a análise se centrar em grupos e figuras tomar como objectivo as redes, os percursos e as circulações. Não os nós, mas o tecido.
      Como poderei exprimir-me mais claramente? A não ser que alguém se feche em casa e nunca saia à rua, se participar nos confrontos políticos da sua época uma pessoa escolhe os inimigos e, dentro de certos limites, escolhe os companheiros, mas nunca consegue escolher os aliados. Estes são-lhe impostos pela pressão das circunstâncias, pelas tais redes e cruzamentos que mencionei, formados num plano muito mais profundo. Vou dar-lhe um exemplo. Imagine um sujeito que seja firmemente contrário aos movimentos ecológicos, que os considere como uma das expressões de um pós-fascismo que não diz o nome. Apesar desse sujeito barafustar contra os movimentos ecológicos, os criticar na teoria e os denunciar na prática, você pensa que ele consegue participar em alguma acção de certo vulto onde os ecológicos não estejam presentes? O problema é exactamente o mesmo com os cruzamentos e sobreposições entre marxismo e nacionalismo.
      Em suma, toda a nossa compreensão dos problemas muda se em vez de nos limitarmos às peças nos concentrarmos no jogo.

    • |

      set 16, 2012

      |

      È João… durante anos atuei aliado a trotskistas, mas nunca me confundi com eles, percebia que jamais me tornaria um deles, e tampouco tinha dúvidas de que nossos caminhos se separariam. Hoje tenho encontrado um espaço de aliança com o anarquismo especificista, mas mesmo esse setor (que para mim é disparadamente o mais lúcido do campo anarquista) ainda apresenta certas ambiguidades na relação entre exploração e opressão que deixa uma fresta por onde pode passar uma afinidade com o liberalismo. Saber lidar com as ambiguidades continua sendo o desafio maior a vencer. E é justamente por não termos encontrado a forma de enfrentá-las que os gestores se afirmam no panorama da luta de classes com uma notável capacidade de lidar com a mobilidade social introduzida pelo capitalismo.
      No mais, concordo contigo quanto à lembrança de Paul Levi, e do excelente trabalho de Franz Pfemfert com seu jornal. Acrescentaria outro esquecido: Otto Rühle. Um pedagogo que escreveu desde a introjeção do princípio da autoridade na mais tenra idade, passando pela superação das formas tradicionais de organização (partidos e sindicatos), até pensar a superação do capitalismo em sociedades industrializadas (algo atual para o Brasil imperialista).
      Revisitá-los sem descuidar das ambiguidades, certamente ajudaria a não cometer erros velhos.

    • João Bernardo

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      set 16, 2012

      |

      Zé,
      Você fala-me em trotskistas e anarquistas. Mas as lutas sociais não se fazem com microscópio. No Brasil os trotskistas representam alguma coisa não directamente mas só pela sua capacidade de acção através das burocracias sindicais. Quanto aos anarquistas, quando não se disfarçam com o boné de um Movimento, constituem uma quantidade negativa, se é que este conceito pode existir no âmbito social. Falemos de tendências importantes, de grandes correntes de opinião.
      Há pouco tempo, neste mesmo site, um autor que se pretende de esquerda publicou uma crítica a três autores de direita. E leio nessa crítica que «o senso de superioridade ocidental é sempre abalado quando vemos que uma mulher adulta pode optar conscientemente por usar um véu que lhe cubra todo o corpo caminhando pelas cidades da civilização da liberdade e do esclarecimento». Não me vou preocupar agora com a noção de consciência que está implícita nessa passagem e que é do mesmo tipo da que supõe que um consumidor opta «conscientemente» entre os produtos expostos na prateleira de um supermercado. A questão aqui fundamental é que o multiculturalismo permite a alguém ser feminista no Brasil e partidário da opressão das mulheres no outro lado do mundo, com o pretexto de uma rejeição do eurocentrismo. Gostava que me explicassem o motivo por que isto ( http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01686/burkas_1686268c.jpg ) é meritório e anti-eurocêntrico e isto ( http://www.guitarflame.com/wp-content/uploads/2008/01/gothrp2201_468x665.jpg ) é reacccionário. Ou será que isto é meritório também? Sob um verniz modernizador perpetua-se o velho nacional-bolchevismo. Numa época em que o capital está transnacionalizado e os Estados nacionais em boa medida ultrapassados, o multiculturalismo permite que o internacionalismo desapareça sob o peso de uma conjugação de tradições étnicas. Esta completa desistência de um ímpeto libertador que se estenda a todo o mundo e rompa todas as tradições constitui o maior fracasso da esquerda contemporânea, a sua rendição ao conservadorismo, pior: aos conservadorismos.
      E aqui estou eu escrevendo no Passa Palavra, num site onde cabem artigos que apresentam o véu islâmico como uma atitude consciente e meritória de negação do eurocentrismo. Se daqui a cem anos ainda restasse memória do Passa Palavra, imagino o que os Joões Bernardos do século XXII me chamariam por eu partilhar um mesmo espaço com o multiculturalismo…

    • Leo Vinicius

      |

      set 16, 2012

      |

      Eu concordo com Pedro.

      Não vejo justificações da parte dele. Pelo contrário, vejo infelizmente aqui nos comentários, como ele bem apontou, o discurso individualista do liberalismo que culpa os pobres pela pobreza em que vivem: “Viva o esforço individual para mudar o mundo, já que não existem determinações sociais!”

    • Molina

      |

      out 5, 2012

      |

      Acompanhando de longe a discussão, além do texto bem elucidativo, sinto que algumas “falas” também são capazes de captar questões fundamentais… algumas das falas do Ricardo Nogueira, como aquela sobre os “fracassos” que abrem margem a (re)valorização do pensamento mítico como “vento fresco de novidade”, ou ainda, a fala sobre algumas leituras da idéia de cultura (formulações essencialistas que valorizam a homogeneidade, a tradição, o misticismo) como reformulação/suavização do elemento racial são certamente bem oportunas e nos alertam sobre alguns perigos.
      Agora para constar: os bravejos de Pedro sobre a questão da linguagem (das linguas estrangeiras e tals) é também bem oportuno, afinal, a realidade cá de baixo é dura mesmo!
      À propósito… marxismo trágico… rsrsrsrs….

    • Julio C. S. Bueno

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      jan 10, 2013

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      Parabenizo o autor pelas boas explicações que produziu neste artigo. Concordo contigo em vários aspectos, baseando naquilo que até hoje acerca das variadas vertentes fascistas, inclusive com o nacional-bolchevismo duguiniano.

      Aliás, coloco-te uma questão, que me ocorreu desde que passei a pesquisar o nacional-bolchevismo de Duguin: Qual o tipo de relação que se poderia traçar, de continuidade existente, de ideias populistas russas do fim do XIX e início do XX, ligadas a tese do “socialismo eslavo” e o pensamento que busca a tradição no povo russo, de Duguin?

      Abraço.

    • João Bernardo

      |

      jan 10, 2013

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      Júlio Bueno,
      Concordo com a perspectiva que você indica, e acho que é em Solzhenitsyn que encontramos a ponte entre o velho populismo russo e o actual nacional-bolchevismo. Será interessante reler à luz dos problemas contemporâneos as críticas feitas por Plekhanov aos populistas. Acho que isso talvez ajude a abrir horizontes novos.
      Mas surge aqui uma dificuldade, porque o fascismo russo costuma ficar excluído dos estudos comparativos — eu próprio, no meu livro sobre o assunto, o releguei para duas ou três notas de rodapé — pela simples razão de que o profundo antieslavismo dos nacionais-socialistas impediu que os fascistas russos se juntassem aos seus congéneres europeus. E como uma boa parte da extrema-direita russa se havia refugiado na Manchúria depois da guerra civil, os fascistas russos acabaram por ficar sob a protecção, nem sempre entusiástica, dos militares fascistas japoneses.
      Sobre o fascismo russo no período entre 1917 e 1945 sugiro três estudos: C. Andreyev, «Soviet Exiles at War», em I. C. B. Dear e M. R. D. Foot (orgs.) The Oxford Companion to the Second World War, Oxford e Nova Iorque: Oxford University Press, 1995; Maurice Bardèche, François Duprat, François Solchaga, Henri Guiraud e Lyder L. Unstad, «Les Fascismes Inconnus», Défense de l’Occident, 1969, XVII, nº 81; Erwin Oberländer, «Il Partito Fascista Panrusso», Dialoghi del XX, 1967, nº 1.
      Houve um livro que me ajudou a compreender muito do que se passa hoje na antiga esfera soviética: Valdimir Tismaneanu, Fantasies of Salvation. Democracy, Nationalism, and Myth in Post-Communist Europe, Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, 1998.
      Quanto ao caso específico de Dugin, vi que os discípulos de Julius Evola estiveram activos no acolhimento que lhe foi dado no Brasil, o que nos impede de esquecer a dimensão religiosa do problema.

    • Oneaty

      |

      mar 14, 2014

      |

      A título de curiosidade, e à luz dos recentes eventos na Ucrânia e de sua repercussão, o ultra-conservador Olavo de Carvalho e seu círculo de adeptos têm produzido análises críticas em tom de denúncia sobre Dugin e sua influência na esquerda. (Procurar o artigo “O duguinismo no Brasil” e outros a respeito, no site Mídia Sem Máscara)
      A partir dessas fontes, pode-se comprovar o apoio de setores do PT a Dugin (Ver o grupo https://www.facebook.com/groups/amigosdugin/, mas sobretudo o que parece ser um de seus líderes mais ativos, um petista que se define como “patriota… mas sem perder o caráter internacionalista”, e que não tem pejo em publicar uma série de artigos de Dugin, ao mesmo tempo que parece se definir como marxista-leninistahttps://www.facebook.com/fgaebler ).

    • Nantess0r

      |

      nov 12, 2014

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      Achei esse post perdido pelo Facebook e, falando ainda sobre a união PT e direita nacionalista (a de verdade, não PSDB e outros tecnocratas), posto aqui mais um texto.

      “Essas são coisas que passam desapercebidas pelas discussões demenciais entre gente que se acha de esquerda e de direita no ambiente eleitoral, mas que precisam ser apontadas e discutidas: aqui temos um artigo do Adriano Benayon que, em suma, argumenta que Dilma é a “menos pior” das candidaturas (lembrando que esse texto foi escrito antes do fim do primeiro turno).
      Benayon, pra quem não se recorda, foi membro do PRONA (que tinha um “DNA” nacionalista de direita dificilmente discutível) e é louvado em sites como o “Inacreditável” (aquele espaço virtual que esteve no meio da polêmica envolvendo a tese de Antônio Caleari pela Faculdade de Direito, a Sanfran)
      Que situação, hein? Um nacionalista de direita, desses com trajetória em partidos e tudo mais, cerrando fileira com o PT.
      http://limpinhoecheiroso.com/…/adriano-benayon-eleicoes-e-…/

      Posteriormente, o mesmo Adriano Benayon chegou a chamar abertamente o voto em Dilma, durante o acirramento contra o PSDB: http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/benayon/2014/10/25/o-entreguismo-insaciavel-da-grande-midia/

      Sempre gosto de ouvir o que o João Bernardo tem a dizer sobre a convergência entre “esquerda” e “direita” através da questão nacional. Espero os comentários do mestre.

    • |

      mar 1, 2015

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      Esbarrei por acaso no artigo e me retornou a curiosidade sobre Nino Daniele. Achei o seguinte:

      “Nino Daniele é realmente um caso curioso. Tendo chegado ao Brasil na metade dos anos 20, deu início a uma colaboração jornalística aos periódicos fascistas ‘Il Piccolo’ e ‘Fanfulla’. Logo abandonou, porém, esses jornais e iniciou uma militância antifascista que se corporificou na sua participação (na maioria das vezes junto com anarquistas como Alessandro Cerchiai, Carlo Battaglia e Ugo de Rosa) na criação e manutenção de jornais antifascistas como ‘Il Becco Giallo’ (1929), ‘La Vittoria’ (1930), ‘Lo Spaghetto’ (1931) e ‘I Quaderni della Libertà’ (1932-1936?). Ele foi sempre um crítico da ‘Concentrazione’ e de Piccarolo mas, mesmo sendo antifascista e perseguido pelos fascistas, manteve uma contínua admiração por D’Annunzio (pois havia sido legionário em Fiume) e uma curiosa amizade pelo mais fascista dos cônsules italianos de São Paulo, Serafino Mazzolini, a qual era baseada justamente na experiência de ambos como legionários de D’Annunzio. Era um antifascista, pois, de ideias bastante singulares, cuja recuperação e análise são bastante difíceis.” (BERTONHA, Joao Fabio. Sob a sombra de Mussolini: os italianos de Sao Paulo e a luta contra o fascismo, 1919-1945. So Paulo: FAPESP/Annablume, 1999, pp. 143-144)

      Além disso, há um verbete na Wikipedia sobre ele: http://it.wikipedia.org/wiki/Nino_Daniele

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