Grécia: explosão social?

Face às declarações do presidente da Grécia, a última personalidade a prever uma «explosão social» no país, colocar a seguinte questão parece ser uma boa ideia: perante uma crise contínua, qual a possibilidade de uma escalada da revolta? Por Thrasybulus

«Estaremos perante uma explosão social caso mais pressão seja exercida sobre a sociedade». O presidente grego juntou-se a um rol de comentadores, políticos, manifestantes e sindicalistas que prevêem uma «explosão social» no país, uma previsão já repetida por muitas vezes. Embora não acrescentem grandes detalhes, todos estão certos de uma coisa: a erupção está próxima. Ao assistirmos à situação na Grécia, estaremos nós perante uma sociedade prestes a explodir?

Há um ano atrás, parecia que a explosão havia deflagrado. A 12 de Fevereiro de 2012, a Grécia experienciou uma revolta intensa, à medida que mais uma série de medidas de austeridade era aprovada pelo parlamento. Numa vasta área de Atenas, bancos e prédios arderam. Noutras regiões da Grécia, esquadras [delegacias] de polícia e gabinetes oficiais foram atacados, tendo-se verificado tentativas de ocupação de edifícios públicos e confrontos com forças policiais. Mais do que nunca, havia um apoio a estas ações militantes, algo que, perante o alastrar da revolta, parecia corresponder a um passo à frente dos anteriores protestos e revoltas contra a austeridade.

As recentes manifestações durante a greve geral constituíram, pelo contrário, pouco mais que marchas entre um ponto A e um ponto B. Tal aconteceu, em particular, com a última manifestação de 20 de Fevereiro. Após quase 30 greves gerais ao longo dos últimos 3 anos, estes dias parecem resumir-se a uma rotina repetitiva, para a qual já não há paciência. Poucos esperam alguma mudança de uma greve de 24 horas ou de uma manifestação. Desde Fevereiro de 2012, as previsões de uma explosão social nas ruas falharam.

A onda de protestos e de ocupações de praças públicas verificada em 2011 não constituiu igualmente um traço dos últimos 12 meses. A ocupação da Praça Syntagma em Junho e Julho de 2011 atraiu largas multidões de pessoas interessadas em formas de protesto não controladas pelos sindicatos. Após o despejo da acampada de Syntagma, o movimento deixou de ter uma presença efetiva. Embora muitas assembleias de bairro, algumas das quais com raízes anteriores a Dezembro de 2008, estejam ativas por todo o país, elas são, em larga escala, uma reserva de ativistas. A aparente derrota do movimento de Syntagma sob gás lacrimogéneo e o poder dos bastões terá originado uma certa desilusão e prevenido protestos fora do tradicional quadro sindical.

O Estado tem igualmente realizado um árduo trabalho na prevenção de uma escalada da revolta. Em certos aspetos, este objetivo foi igualmente cumprido pelas previsões de uma explosão, as quais, aliadas à retórica anti-imigração, serviram como um importante instrumento ao longo do processo eleitoral do ano passado. A advertência de um eventual aumento da revolta social revelou-se uma espécie de motor da lógica «Lei e Ordem» do atual governo. As próprias eleições vieram retirar algum ímpeto das ruas, à medida que algumas franjas da sociedade se voltavam para a política eleitoral. Não obstante, o Estado grego teme claramente uma futura escalada da revolta social, realizando esforços no sentido de a combater. Todas as grandes manifestações são agora confrontadas com massivas operações policiais, canhões de água e prisões preventivas, a acrescentar aos recentes casos de tortura policial sobre ativistas, indícios de um Estado mais repressivo. O centro de Atenas assemelha-se a uma cidade ocupada sob constante e compacta presença policial, nomeadamente das unidades de intervenção, permanentemente estacionadas em pontos específicos, e das forças especiais DELTA/DIAS. Por fim, como se já não fosse demasiado, circulam rumores de contratos assinados entre o Estado grego e empresas mercenárias, como a Blackwater.

Paralelamente à repressão estatal, os últimos doze meses foram igualmente marcados pela emergência do partido de extrema-direita Aurora Dourada (AD), tornando a situação ainda mais perigosa. O terceiro lugar obtido nas eleições foi sucedido por uma onda de ataques racistas. Cada vez mais ousada e próxima de forças policiais e estatais, a extrema-direita grega tornou-se na principal ameaça à classe operária.

Apesar da tal explosão social não se ter (ainda) verificado, bem como da ausência de cobertura por parte da comunicação social, muita coisa está a acontecer na Grécia. A data de 12 de Fevereiro foi novamente significativa, dado o arranque da produção da fábrica Vio.Me sob controlo dos trabalhadores. À medida que cada vez mais trabalhadores perdem os seus empregos ou são sujeitos a salários em atraso, este exemplo assume alguma relevância. Distantes das greves gerais simbólicas, constatamos a maior determinação de outro tipo de ações políticas nos locais de trabalho. Por já duas vezes, o governo foi obrigado a recorrer a forças policiais e à ameaça de prisões em massa para pôr fim às greves dos trabalhadores do metro e dos portos. Noutro âmbito, a luta na defesa de centros sociais e de ocupações continua. A tentativa de reocupação da Villa Amalias e da Skaramanga, as quais contaram com uma simpatia generalizada, demonstra como diversas franjas da sociedade se encontram envoltas numa resistência ativa.

Ao olhar o estado da Grécia, deparamo-nos com uma taxa de desemprego de 27% (mais de 55% entre menores de 25 anos), com cerca de 30% da população a viver abaixo do limiar de pobreza, com o anúncio do aumento de impostos e de previsões da subida de desemprego e com prisões sobrelotadas. As pessoas estão certamente zangadas. Porém, cinco longos anos de recessão económica fazem com que elas se encontrem igualmente cansadas e desesperadas. O período após 12 de Fevereiro de 2012 demonstra o quão é difícil assumir um cenário de escalada da explosão social. Sob o crescente espectro negro do fascismo, o Estado poderá eventualmente sufocar a agitação o tempo suficiente para que as pessoas desistam e desesperem. Face à contínua deterioração das condições de vida, uma explosão é provável, mas não inevitável. Em suma, tudo o que podemos afirmar é que não temos ideia alguma do que vai acontecer de seguida.

Traduzido por Passa Palavra a partir daqui.

2 respostas para “Grécia: explosão social?”

  1. Desde já reaparecem certas questões que ainda ontem poderiam parecer grotescas ou obsoletas; resta se empenhar, não para responder definitivamente mas para as manter vivas. Tê-las reposto sobre a mesa não é de longe a menor das virtudes do levante grego:

    De que modo uma situação de revoltas generalizadas se transforma numa situação insurrecional? Que fazer depois de tomar a rua, uma vez que a polícia tenha sido derrotada de forma duradoura? Os parlamentos merecem ainda ser tomados de assalto? O que quer dizer na prática depor o poder localmente? Como decidir? Como subsistir?
    Como se reencontrar?

    (“Ponto de situação” – Comitê Invisível)

  2. Aqui mais indícios.
    Outro fato marcante foi a revelação da contratação de mercenários da Blackwater para proteger instalações do governo. Parece que a polícia esta sob controle da GoldenDawn.

    http://darkernet.in/greece-blackwater-mercenaries-guarding-govt-and-overseeing-police-coup-feared/
    http://darkernet.in/greek-president-warns-of-social-explosion-by-whom/

    The first strand we have dubbed the ‘parallel economy’, which we have reported on in the past. This ‘parallel economy’ is a mix of bartering, alternative currencies and co-operatives, such as food co-ops. Interestingly, in some neighbourhoods, especially in Athens, the popular assemblies , or community associations, are reportedly playing a role in dealing with this aspect of daily existence.

    The second strand is the resistance on the streets . This was particularly evident in 2011 and into the early part of 2012. In recent months there has been less rioting, though squats taken by police have been retaken by anarchists.

    The third strand is industrial resistance. Three weeks ago there was a one day general strike. Greece has seen numerous one day general strikes over the past two years but are becoming less well attended. Last month, workers took over the running of the VioMe factory and it remains to be seen if other takeovers will follow.

    The fourth strand is the insurrectionary current, which we reported on in detail in an earlier article. Last month, on February 13, for example, the Piraeus office of Golden Dawn was set alight. The group “Organisation Zero Tolerance” claimed responsibility for this action via a communiqué.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *