Goiânia: A reação das empresas de transporte

Goiânia: A reação das empresas de transporte

em 3 ago

O “choque de realidade” é um estímulo à mobilização dos trabalhadores a partir da iniciativa dos empresários, para conseguir subsídios sem que se altere a gestão do transporte coletivo. Por TarifaZero Goiânia.

“Não estamos aqui defendendo uma classe e sim o transporte coletivo!”, explicava um motorista no comando do carro de som, na manifestação que reuniu cerca de cem trabalhadores do transporte coletivo da Região Metropolitana de Goiânia (RMG), no dia 31 de julho. “Ninguém tá vendo ninguém parar o serviço aqui, são pessoas que já trabalharam e estão aqui!”. A manifestação convocada também pelo perfil do facebook, chamado “Colaboradores RMTC” (Rede Metropolitana de Transporte Coletivo), é uma resposta indireta das empresas de transporte coletivo da RMG às manifestações populares que resultaram no cancelamento do reajuste da tarifa, na criação do Ganha Tempo e na proposta do Passe Livre Estudantil Integral.

A formação do movimento Colaboradores RMTC nasceu durante o ciclo de palestras organizado pelas empresas da RMTC, realizado no Sest/Senat (Serviço Social do Transporte/Serviço Social de Aprendizagem do Transporte), onde os funcionários receberam um “choque de realidade” sobre a situação das empresas: “Porque tem pessoas no nosso meio que dizem ‘Ah… Eu defendo o leite do trabalhador’, mas ao mesmo tempo quer que mate a vaca! Vaca morta não dá leite!”, explicava uma das palestrantes, para demonstrar o caráter de insustentabilidade do sistema de transporte e o perigo da perda de postos de trabalho.

As novas vantagens para os usuários de ônibus não agradaram às empresas, que, fora do seu terreno habitual – as reuniões de gabinetes e acordos sem o conhecimento popular –, usam novas estratégias para alcançar seus objetivos. O “choque de realidade” dado pelos empresários resultou em uma mobilização dos trabalhadores, que reivindicava subsídios públicos para as empresas, garantindo assim a sustentabilidade do sistema de transporte e os empregos. Porém, durante as palestras nenhum dado concreto foi apresentado para demonstrar que a situação financeira do transporte coletivo da Grande Goiânia é insustentável com a tarifa a R$2,70.

Apesar de dizerem que as soluções para o transporte coletivo devem ser técnicas, os empresários não apresentaram ainda nenhuma planilha de dados que demonstre em números o cenário insustentável do transporte coletivo na região. Segundo o vice-presidente do Setransp [1], Décio Caetano Filho, “o transporte está precisando de socorro. Não as empresas, mas o transporte. […] É como ir ao médico: se você for ao médico e não passar as informações corretas […] não tem como ele acertar o diagnóstico. É preciso ter uma interpretação correta do problema para dar a solução correta. O que ainda não conseguimos até agora, na questão do transporte, foi repassar esse quadro aos ‘médicos’. É preciso mostrar claramente isso, de maneira franca à sociedade, o que está se passando, para termos um diagnóstico correto, sem fantasia, sem jogar para a plateia, sem politizar, para a partir daí executarmos o tratamento adequado”. [2]

Entretanto, as planilhas de custos que são utilizadas pela CMTC [3] são referentes ao ano de 2007 e até o dia 31 de julho de 2013 as planilhas atuais não foram entregues nas reuniões de um grupo formados por técnicos das empresas e dos órgãos públicos para avaliar a situação do transporte coletivo da RMG. [4]

Claramente, as empresas estão jogando para a plateia e buscando politizar a seu favor a situação do transporte coletivo. Os motoristas e demais trabalhadores que estavam na manifestação tinham um discurso bem diferente do que fizeram a greve no começo de maio. Todos os argumentos das empresas para justificar a precariedade do transporte coletivo estavam na boca dos “colaboradores” que usavam o microfone do carro de som. A troca de papéis chegou ao ponto de funcionários se chamarem de empresários, como se eles mesmos fossem a empresa: “As pessoas acham que nós somos os errados. Colocam a culpa nos empresários!”, diziam.

O motorista WB da empresa Cootego explicou que as empresas estão com dificuldade de pagar os salários e benefícios dos funcionários. Alguns trabalhadores tiveram atraso no recebimento do vale alimentação e foram ameaçados de não receber salário do mês de agosto. Durante conversa com um motorista, apareceu uma funcionária do setor administrativo dizendo: “Não é ameaça WB. De onde as empresas vão tirar dinheiro para pagar a próxima folha de pagamento?” A funcionária M. explicou que a mobilização para o protesto partiu dos motoristas, que se organizaram inicialmente e depois chamaram os demais funcionários.

Durante toda a concentração da manifestação em frente ao Palácio Pedro Ludovico, pequenos grupos de motoristas menos informados eram instruídos por algum funcionário mais experiente, que explicava os motivos do protesto: “Aí você vai dar ônibus de graça pra custear todo mundo? De que jeito? De que jeito? Aí tá brincando… entendeu?”, explicava um senhor calvo para um grupo de quatro motoristas uniformizados. “É verdade…”, exclamava baixinho um dos funcionários.

O consórcio RMTC garante a unidade do sistema de transporte coletivo da RMG e é formado pela HP Transportes Coletivos, Rápido Araguaia, Cootego, Viação Reunidas e a estatal Metrobus. As informações veiculadas durante a manifestação indicavam que as principais prejudicadas com a manutenção do valor da tarifa e com a concessão dos benefícios eram a Cootego e a Viação Reunidas.

A Cootego é uma cooperativa de trabalhadores que atuavam no transporte alternativo e foi formada no início da década de 2000, após o fim violento deste tipo de transporte, cuja repressão policial resultou na morte de um motorista em maio de 1999. A Viação Reunidas é uma empresa que explora o serviço de transporte coletivo há décadas e estaria em dificuldades financeiras, incapaz de pagar empréstimos bancários e fornecedores, situação que estaria impedindo inclusive a compra de combustível para os veículos.

Na maioria os manifestantes eram trabalhadores e cooperados da Cootego, o que de certa forma pode explicar o discurso de unidade entre empresas e “colaboradores”. Mas havia também trabalhadores das demais empresas. Neste sentido é necessário questionar esta tentativa de unidade entre empresários e trabalhadores.

Um dos motoristas afirmou que as empresas maiores não iriam retirar dinheiro de outras empresas, de que também eram proprietárias, para custear prejuízos das concessionárias da RMTC. Mas será que não foi o lucro conseguido com a exploração dos trabalhadores e dos serviços durante anos que possibilitou ao Grupo Odilon Santos, proprietário da Rápido Araguaia [5], explorar o transporte coletivo e coleta de lixo em Angola, na África?

Não seria o caso dos trabalhadores passarem também a questionar o montante de rendimentos recebidos por administradores e presidentes das empresas?

Durante os quase cinco anos de vigência do atual contrato de concessão do serviço de transporte coletivo, os trabalhadores vêm sendo explorados sob péssimas condições de trabalho. Não há cobradores nos ônibus, o que obriga os motoristas a dirigir, operar externamente aos veículos as escadas para cadeirantes (independentemente das condições climáticas), e, em alguns momentos, cobrar a passagem dos usuários que não adquiriram seus bilhetes em solo.

Além disso, a localização dos motores na frente dos veículos causa sérios danos para a saúde dos trabalhadores, seja em relação à audição ou mesmo em decorrência da vibração produzida pelo funcionamento do motor. Em muitos pontos finais não há locais para descanso dos motoristas. Na maioria das vezes em que há atraso nas viagens em decorrência do trânsito, os pequenos períodos de descansos são suspensos para iniciar uma nova viagem.

Existe “colaboração” dos patrões e das empresas para sanar estes problemas do cotidiano de trabalho dos motoristas?

E o que dizer sobre a produtividade necessária ao sistema? Segundo Décio Caetano Filho, os empresários buscam resolver a queda na produtividade decorrente da péssima qualidade do transporte com o aumento da extensão das linhas: “O ônibus a cada dia tem de ir mais longe buscar o passageiro e é menos remunerado por essa viagem. Há algum tempo, o ônibus fazia 11 ou 12 viagens por dia; hoje faz 6 ou 7”. [6] Para o trabalhador essa situação representa viagens de dezenas de quilômetros ou mais, que podem durar algumas horas sem que possa parar. A produtividade do sistema seria uma forma de colaboração dos empresários com os trabalhadores e usuários?

Por isso vemos como perigosa a união entre os trabalhadores e os empresários. O trabalho de esclarecimento da situação financeira, o “o choque de realidade”, funciona como estímulo para a mobilização dos trabalhadores a partir de uma iniciativa dos empresários, para que sejam concedidos subsídios sem que se altere o controle e a gestão do transporte coletivo na RMG, mantendo-os nas mãos das empresas.

A boa relação entre as empresas concessionárias e o Estado foi aparentemente abalada com a pressão das manifestações contra o aumento e o atendimento de algumas reivindicações pela Prefeitura, pelo governo estadual e pela CDTC (Câmera Deliberativa do Transporte Coletivo). Ameaças de extinção de serviços deficitários, como os micro-ônibus CityBus, foram feitas sem o aval dos órgãos deliberativos. “Soluções” foram apresentadas, como o fim do passe-livre para portadores de deficiências e o fim do passe estudantil.

Simbolizando essa “quebra de confiança” os trabalhadores caminharam até a CMTC com o objetivo de pedir a presença do presidente da entidade, Ubirajara Abud, para se posicionar sobre a concessão de subsídios às empresas. Quando alguns funcionários gritavam contra o presidente, outro no microfone deixava claro que queriam a presença do gestor, mas que ele era um homem de bem, respeitado, escolhido pela Prefeitura para seu cargo.

Mas a CMTC funciona apenas como uma fachada institucional para garantir às empresas a plena liberdade no controle da gestão do sistema coletivo de transporte. Exemplo disso é a posição subserviente da companhia e da falta de fiscalização da mesma. Ubirajara Abbud explica que o órgão não tem as informações sobre a margem de lucro das empresas e nem mesmo quanto custa o serviço, como a quantidade de diesel ou de pneus usada. “O que a gente recebe na nossa central é o número de viagens realizadas por ônibus e quais são essas viagens.” Ou seja, com isso só é possível saber quanto as empresas arrecadam via tarifa. Com os dados, o órgão sabe o número de passageiros equivalentes – quantidade de tarifa cheia recebida – e o utiliza no cálculo do reajuste tarifário anual. No Passe Estudantil e no Passe Livre (idosos e outros) é o Setransp que controla a concessão aos estudantes. “A gente tem os dados de quantos são, mas não quem são essas pessoas”. [7]

Esta situação demonstra a necessidade de se realizar uma transformação profunda na gestão do transporte coletivo da RMG, que vá além da concessão de subsídios. Nós, do Tarifa Zero Goiânia, vemos que é necessário que os trabalhadores participem ativamente das decisões dentro das empresas e que os usuários possam também decidir sobre o funcionamento das linhas. Além disso, apenas um sistema de tarifa zero pode garantir a utilização irrestrita do transporte coletivo pela população, sem o pagamento de tarifas que impedem o deslocamento das pessoas e o acesso à saúde, educação, lazer, enfim, o direito à cidade.

As manifestações nas ruas em maio e junho mostraram que é possível conquistar reivindicações através da pressão popular. É possível também aos trabalhadores dentro de seus locais de trabalho – ônibus, terminais, garagens, salas de controle operacional, sede das empresas – se organizar e se mobilizar para conquistar direitos e melhores condições de trabalho. É necessário ainda que trabalhadores e usuários construam ações comuns para realizar as transformações necessárias no sistema de transporte coletivo.

Durante um tempo a manifestação dos colaboradores da RMTC permaneceu em frente à sede da CMTC, à espera do presidente da CMTC, que não apareceu. Foi feito um cordão de isolamento para evitar a saída de diretores e funcionários. Uma das trabalhadoras entrou no prédio, que permaneceu o tempo todo com as portas abertas, e saiu de lá informando sobre uma proposta de reunião para o outro dia, com uma comissão de três funcionários de cada empresa. Após apresentar a proposta, um dos locutores colaborador realizou uma votação para decidir se aceitariam. Com as mãos levantadas as pessoas aprovaram a formação da comissão.

Mais alguns minutos e todos foram liberados para casa, já anoitecia, e depois dessa hora fica mais difícil voltar de ônibus.

Notas

[1] Sindicato das empresas, que administra a venda dos bilhetes de passagem e o controle dos cartões de benefícios, como os destinados aos idosos, estudantes, deficientes e usuários de serviços de saúde mental.
[2] Jornal Opção http://www.jornalopcao.com.br/posts/entrevista/o-poder-publico-precisa-subsidiar-o-transporte-coletivo-de-goiania
[3] Companhia Metropolitana do Transporte Coletivo, gestora do contrato e fiscalizadora do sistema de transporte coletivo da RMG.
[4] Jornal O Popular, 21 de julho de 2013 e 01 de agosto de 2013.
[5] A Rápido Araguaia é a principal empresa da RMTC, detendo a exploração de 50% das linhas de quatro dos cinco lotes em que são divididos a rede. O Grupo Odilon Santos é um dos maiores grupos ligados ao transporte coletivo e rodoviário no Brasil, além de atuar nos setores, industriais, comerciais, de incorporação imobiliária e agropecuária. http://www.odilonsantos.com/empresas
[6] Jornal Opção http://www.jornalopcao.com.br/posts/entrevista/o-poder-publico-precisa-subsidiar-o-transporte-coletivo-de-goiania
[7] O Popular, 18 de julho de 2013.


Comentários 2

    • Sérgio Reis de Araújo

      |

      ago 14, 2013

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      Ficou claro que as empresas do transporte coletivo de Goiania querem usar os trabalhadores para conseguir beneficios !!!

    • Tales

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      ago 15, 2013

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      Sérgio, concordo com você. Mas também está na hora de rolar uma pressão maior sobre as empresas para que ocorra ao menos a liberação das planilhas.

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