O nascimento da ideologia fascista (1ª parte)

O nascimento da ideologia fascista (1ª parte)

em 16 fev

A ideologia fascista representou a síntese do nacionalismo orgânico com a revisão antimaterialista do marxismo. Por Zeev Sternhell

Apresentamos aqui a tradução da «Introdução» escrita por Zeev Sternhell para a obra: Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri, The Birth of Fascist Ideology. From Cultural Rebellion to Political Revolution, Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, 1994. Esta tradução foi feita por um leitor para o Passa Palavra.

Este livro baseia-se em duas premissas. A primeira é que o fascismo, antes de se tornar uma força política, foi um fenômeno cultural. O crescimento do fascismo não teria sido possível sem a revolta contra o Iluminismo e a Revolução Francesa que varreu a Europa no fim do século XIX e início do século XX. Por toda a Europa, a revolta cultural precedeu a política. O surgimento dos movimentos fascistas e a tomada de poder fascista na Itália só foram possíveis devido à combinação da influência crescente dessa revolução cultural e intelectual com as condições políticas, sociais e psicológicas que tomaram corpo no fim da Primeira Guerra Mundial. Nesse sentido, o fascismo foi apenas uma manifestação extrema de um fenômeno muito mais amplo e completo.

A segunda premissa, derivada da primeira, é que durante o desenvolvimento do fascismo, o seu arcabouço conceitual desempenhou um papel de especial importância. Não pode restar dúvida de que a cristalização da ideologia precedeu a construção do poder político e pavimentou o caminho para a ação política. O fascismo não foi, para usar uma famosa expressão de Benedetto Croce, um “parêntese” na história contemporânea. Não foi, como pensava ele, o resultado de uma “infecção”, de um período de “declínio da consciência de liberdade” em consequência da Primeira Guerra Mundial. Não foi o produto de uma espécie de renascimento “maquiavélico” do qual a Europa do século XX foi vítima. Ao contrário do que disseram Friedrich Meinecke e Gerhard Ritter à geração do pós-guerra, o fascismo foi parte integrante da história da cultura europeia.

Da mesma forma, o fascismo também não foi uma espécie de sombra projetada sobre o marxismo, como defende Ernst Nolte, cujo livro brilhante e bem conhecido continua a obra de Meinecke e Ritter. Também não se deve sobrevalorizar a qualidade “anti” do fascismo; o fascismo não foi apenas uma forma de antiliberalismo (para usar a expressão de Juan Linz, autor de estudo notável). Nem foi uma “variedade de marxismo”, como pretende A. James Gregor, um acadêmico normalmente perspicaz e autor de obras importantes. Além disso, o fascismo não pode ser reduzido, de acordo com a interpretação marxista clássica, a uma simples reação antiproletária que surge num estágio de declínio do capitalismo. Entre esses dois extremos, há uma abundância de interpretações.

[…]

O presente estudo é concebido de maneira diferente. Primeiro, o fascismo é visto como um fenômeno cultural e político independente, que não foi menos autossuficiente do ponto de vista intelectual do que o socialismo ou o liberalismo. Segundo, o livro é voltado à discussão da ideologia e assume que o conteúdo intelectual do fascismo teve a mesma importância no crescimento e desenvolvimento do movimento como teve no liberalismo ou, mais tarde, no marxismo. A ideologia é descrita neste livro como um produto da interação entre a cultura e a política, refletindo a relação íntima entre a adoção de posições intelectuais e o chamado à ação. Depois, procuramos demonstrar que o arcabouço conceitual do fascismo, surgido muito antes de agosto de 1914, tinha um caráter não-conformista, vanguardista e revolucionário. Essas características permitiram que o fascismo se transformasse numa força capaz de atacar a ordem vigente e disputar de forma eficaz com o marxismo não apenas o apoio das elites e grupos minoritários mas também a aliança das massas.

[…]

Antes de prosseguir, é importante insistir num outro elemento da definição que está sendo proposta. O fascismo não deve, de forma alguma, ser confundido com o nazismo. É inquestionável que as duas ideologias, os dois movimentos e os dois regimes tiveram características comuns. Eles seguiram muitas vezes por caminhos paralelos e cruzamentos comuns, mas diferiam num ponto fundamental: o critério do nacional-socialismo alemão fundamentava-se no determinismo racial. A base do nazismo era o racismo em seu sentido mais extremo, e a luta contra os judeus, contra as raças “inferiores”, desempenhou um papel mais preponderante do que a luta contra o comunismo. Marxistas podiam ser convertidos ao nacional-socialismo. Da mesma forma, o nacional-socialismo podia estabelecer tratados com comunistas, trocar embaixadores, coexistir com eles, ainda que de forma temporária. Nada disto, entretanto, era aplicado aos judeus. No que se referia a eles, o único “arranjo” possível era a sua destruição.

O racismo certamente não se limitava à Alemanha. No fim do século XIX, o determinismo biológico também se desenvolvia em países como a França. Mas, ainda que tenha sido um fator constituinte da direita revolucionária, o racismo na sua variante francesa nunca se tornou o único propósito de uma ideologia, um movimento ou um regime.

Na verdade, o determinismo racial não estava presente em todas as variedades de fascismo. Se Robert Brasillach professava um antissemitismo muito próximo do do nazismo, ele era completamente ausente do Faisceau de George Valois. E, ainda que alguns fascistas italianos tenham sido violentamente antissemitas, havia, em Itália, incontáveis fascistas judeus, numa participação percentual no movimento que superava a participação percentual de judeus no total da população. Como sabemos, as leis raciais na Itália só foram promulgadas em 1938, e durante a Segunda Guerra Mundial os judeus sentiam-se muito menos ameaçados em Nice ou na Alta Savóia, áreas sob ocupação italiana, do que em Marselha, sob controle do governo de Vichy.

O racismo não foi, portanto, uma condição necessária para a existência do fascismo, mas sim um resultado do ecletismo fascista. Por esta razão, qualquer tentativa de estabelecer uma teoria geral que englobe o fascismo e o nazismo terá que se embater com este aspecto essencial do problema. Na verdade, tal teoria é impossível. Inquestionavelmente existem semelhanças, em particular no que se refere ao caráter “totalitário” dos dois regimes, mas as suas diferenças não são menos significativas.

[…]

Tendo esclarecido esta questão, voltemos à nossa definição de fascismo. Se a ideologia fascista não pode ser descrita como uma simples resposta ao marxismo, as suas origens, por outro lado, foram o resultado direto de uma revisão muito específica do marxismo. Foi uma revisão do marxismo e não uma variedade do marxismo ou uma consequência do marxismo. Um dos objetivos deste livro é analisar esta revisão antimaterialista e antirracionalista do marxismo. É absolutamente necessário insistir neste aspecto essencial da definição de fascismo, porque só poderá entender-se inteiramente a emergência dos conceitos fundamentais do fascismo e da filosofia e mitologia fascistas quando se reconhecer que ele surge de uma dissidência marxista contra o materialismo. Foram os sorelianos franceses e italianos – os idealizadores do sindicalismo revolucionário – quem produziu esta nova e original revisão do marxismo, tendo sido esta, precisamente, a sua contribuição para o nascimento da ideologia fascista.

A esse respeito, o surgimento do fascismo representa um dos aspectos da revolução intelectual, científica e tecnológica que tomou conta do continente europeu na virada do século XX. Essa revolução modificou o modo de vida existente num grau até então desconhecido, transformando tanto o clima intelectual quanto as realidades sociais. Subitamente começava-se a falar da inadequação das leis sociais e econômicas que Marx propusera. Confrontada com problemas que a geração anterior não tinha sequer vislumbrado, a nova geração propôs soluções totalmente inesperadas.

Consequentemente, qualquer um que olhe o fascismo como um subproduto da Primeira Guerra Mundial, uma mera reação defensiva burguesa à crise do pós-guerra, será incapaz de entender este fenômeno importante do nosso século. Fenômeno de civilização, o fascismo representa a rejeição da cultura política existente no início do século. No fascismo do período entreguerras, tanto no regime de Mussolini como em todos os outros movimentos fascistas ocidentais, não havia uma única e simples ideia que já não tivesse sido enunciada no quarto de século que precedeu a Primeira Guerra Mundial.

Embora sendo um protótipo idealizado de uma ideologia disruptiva, o fascismo não pode ser definido apenas em termos negativos. Sem dúvida o fascismo rejeitou os sistemas existentes: liberalismo e marxismo, positivismo e democracia. É sempre assim. Uma nova ideologia e um movimento político emergente começa por se opor aos sistemas de pensamento e às forças políticas já existentes. Antes de oferecer a sua própria visão de mundo, o marxismo começou por se opor ao liberalismo, que um século antes se levantara contra o absolutismo. O mesmo aconteceu com o fascismo, que entrou em conflito com o liberalismo e o marxismo antes de ser capaz de oferecer todos os elementos de uma política, uma moral e um sistema intelectual alternativos.

Na forma com que emergiu na virada do século e se desenvolveu nos anos 20 e 30, a ideologia fascista representou a síntese do nacionalismo orgânico com a revisão antimaterialista do marxismo. Ele deu expressão a uma aspiração revolucionária baseada na rejeição do individualismo, fosse ele liberal ou marxista, e criou os elementos de uma cultura nova e original.

Esta cultura política, comunal, anti-individualista e antirracionalista representou num primeiro momento a rejeição da herança do Iluminismo e da Revolução Francesa, e mais tarde a criação de uma alternativa completa, um arcabouço intelectual, moral e político que, sozinho, podia garantir a perpetuação da coletividade humana na qual todos os estratos e classes da sociedade estariam perfeitamente integrados. O fascismo queria retificar as consequências mais desastrosas da modernização do continente europeu e oferecer uma solução para o problema da atomização da sociedade, a fragmentação em grupos antagônicos e a alienação do indivíduo numa economia de livre mercado. O fascismo se revoltou contra a desumanização introduzida pela modernização nas relações humanas, mas também não poupou esforços em manter os benefícios do progresso, nunca tendo advogado o retorno a uma hipotética idade dourada. O fascismo se revoltou contra a modernidade na medida em que a modernidade era identificada com o racionalismo, o otimismo e o humanismo do século XVIII, mas não foi um movimento reacionário ou antirrevolucionário no sentido maurrasiano do termo. O fascismo se apresentava como uma revolução de outro tipo, uma revolução que procurava destruir a ordem política existente e fincar as suas fundações teóricas e morais mas que, ao mesmo tempo, desejava preservar todas as conquistas da tecnologia moderna. Inseria-se dentro do arcabouço da sociedade industrial, explorando ao máximo todo o poder dela. A revolução fascista almejava modificar a natureza das relações entre o indivíduo e a coletividade sem destruir o impulso da atividade econômica – a busca do lucro, e o seu fundamento, a propriedade privada – ou o seu arcabouço necessário – a economia de mercado. Este era um dos aspectos da novidade do fascismo. A revolução fascista se apoiava numa economia determinada pelas leis do mercado.

Quando o regime fascista na Itália pôs em prática um corporativismo baseado na economia liberal, quando o movimento fascista, muito antes de ascender ao poder, declarou através de Mussolini que a revolução aliviaria o Estado das suas funções econômicas, não se tratou de mero oportunismo. Ao contrário. Mussolini estava apenas repetindo as lições de economia política ensinadas ao longo da primeira década do século por intelectuais do sindicalismo revolucionário.

Este ponto requer ênfase especial. Mesmo que o fascismo tenha desejado colher todos os benefícios da era moderna, explorar todas as conquistas tecnológicas do capitalismo, mesmo que ele nunca tenha questionado a ideia de que as forças do mercado e a propriedade privada faziam parte da ordem natural das coisas, ele tinha horror dos valores burgueses ou, como Nietzsche os chamava, valores modernos: universalismo, individualismo, progresso, direitos naturais e igualdade. Desse modo, o fascismo adotava o aspecto econômico do liberalismo, mas negava completamente os seus princípios filosóficos e a herança intelectual e moral da modernidade. Da mesma forma, não era a prática do marxismo que era questionada – certamente não no que dizia respeito à violência na história – mas o conteúdo racional e hegeliano do marxismo, o seu determinismo. A rejeição era dirigida não ao elemento da revolta, mas ao materialismo histórico.

Na sua essência, o pensamento fascista representava uma rejeição do valor conhecido na cultura da época como materialismo. Para o fascismo, o liberalismo, que evoluiu no fim do século XIX para a democracia liberal, e o marxismo, do qual uma das ramificações era o socialismo democrático, representavam, ambos, o mal do materialismo. No sentido em que foi entendido no fim do século XIX, o antimaterialismo significava a rejeição das heranças racionalista, individualista e utilitarista dos séculos XVII e XVIII. Em termos de filosofia política, o antimaterialismo era a rejeição total da visão de homem e sociedade desenvolvida de Hobbes a Kant, das Revoluções Inglesas do século XVII e das Revoluções Americana e Francesa. Em termos de prática política, o antimaterialismo era a rejeição dos princípios aplicados pela primeira vez no fim do século XVIII e ampliados numa escala muito maior cem anos depois pelos regimes democráticos liberais da Europa Ocidental. Era, portanto, um ataque generalizado à cultura política dominante no fim do século XIX e início do XX, aos seus fundamentos filosóficos, aos seus princípios e às suas aplicações. Não eram questionados apenas a teoria dos direitos naturais e a primazia do indivíduo, mas todas as estruturas institucionais da democracia liberal. Entretanto, o antimaterialismo não era apenas a negação do liberalismo, seja sob a forma da escola de pensamento do “contrato social”, seja sob a forma representada pelo utilitarismo inglês, que desde o início implicavam na democratização da vida política e na reforma da sociedade. Em grau semelhante, o antimaterialismo, por volta de 1900, também representava a rejeição dos principais postulados da economia marxista e um ataque aos fundamentos racionalistas do pensamento de Marx. Foram os sindicalistas revolucionários, dissidentes da esquerda, que, por meio da crítica ao determinismo marxista, criaram os primeiros elementos da síntese fascista na primeira década do nosso século.

Assim, o antimaterialismo, um ataque direto ao liberalismo e ao marxismo, representou, no início deste século, a terceira alternativa revolucionária aos dois grandes sistemas que dominavam a vida política do período e que, apesar das diferenças, permaneciam como os herdeiros do século XVIII. O fascismo foi antimaterialista na sua forma mais clara. Mas, apesar de se opor ao liberalismo e ao marxismo, manteve do liberalismo o respeito pelo poder e vitalidade dos mecanismos da economia de mercado, e, do marxismo, a convicção de que a violência era a força motriz da história, governada apenas pelas leis da guerra.

Se, na sua essência filosófica, o fascismo representava uma rejeição dos princípios racionalistas e individualistas que constituíam tanto o marxismo quanto o liberalismo, no que se refere à ideologia política e aos movimentos políticos ele representava uma síntese do nacionalismo tribal e orgânico com o revisionismo do marxismo proposto por Georges Sorel e pelos sorelianos em França e na Itália, no início do século.

Estes foram os dois grandes pilares de apoio do edifício fascista que, visto como um todo, representava uma unidade coerente, lógica e bem estruturada. Que não restem dúvidas: a bagagem intelectual do fascismo permitia que caminhasse com as próprias pernas, e o seu conteúdo teórico não era menos homogêneo ou mais heterogêneo do que o do liberalismo ou o do socialismo. Nem foram as suas incoerências e contradições mais numerosas e profundas do que as que existiram no pensamento liberal ou socialista durante 100 anos. O oportunismo de diversos partidos e movimentos fascistas, inclusive o do regime de Mussolini, mal se diferenciava do modo por que os partidos socialistas lutando pelo poder, ou aqueles já no poder, conciliavam os seus princípios. Por isso, quando o processo de fascização do Estado se completou, um número crescente de militantes clamou pelo retorno às raízes, denunciando conciliações dúbias com a burguesia, o clero e a direita monarquista – denúncias que lembravam os lamentos dos não menos numerosos “puristas” do socialismo europeu quando confrontados com as duras realidades da prática política.

O fascismo certamente não foi derivado de uma única fonte como aconteceu com o socialismo, herdeiro de Marx; mas o liberalismo também não teve um Marx e dificilmente se poderá afirmar que na primeira metade do século XX ele terá atingido uma estatura intelectual mais elevada do que o fascismo. Além do mais, na época de Marx, o próprio marxismo já tinha se multiplicado em tendências, grupos e seitas, e uns anos mais tarde, depois da morte de Engels, quem poderia reclamar para si o posto de representante oficial do marxismo? Quem era reconhecido pelo título de “defensor da fé”? Quem, por volta de 1910, poderia autodenominar-se marxista? O mesmo tipo de questão vale para o fascismo, mesmo que este careça de uma única fonte como acontece com o marxismo, o que não significa, necessariamente, sinal de incoerência.

Maurice Barrès

O primeiro dos dois componentes essenciais do fascismo a surgir na cena política do fim do século XIX foi o nacionalismo tribal, baseado no darwinismo social e, frequentemente, no determinismo biológico. Em França, este tipo de nacionalismo foi visto na sua forma mais clara nas obras de Maurice Barrès, Édouard Drumont, Charles Maurras, e nos representantes da Action Française. Na Itália, Enrico Corradini demonstrou, de uma forma verdadeiramente fascinante, a evolução do nacionalismo italiano a partir da época não tão distante da luta pela independência. A partir do fim do século XIX, o novo nacionalismo expressava uma revolta real contra o espírito da Revolução Francesa. O fosso que separava Corradini de Mazzini, ou Barrès, Drumont e Maurras de Michelet, revela a distância entre o nacionalismo jacobino e aquele de La Terre et les morts ou A Terra e os Mortos. Esta fórmula de Barrès foi na verdade o único equivalente francês do Blut und Boden alemão (Sangue e Terra) e mostrava que a velha teoria, consagrada pela Revolução Francesa, de que a sociedade era constituída por uma coleção de indivíduos tinha sido substituída pela teoria da unidade orgânica da nação. A esse respeito, o sistema de pensamento desenvolvido em França pela geração de 1890 pouco diferia daquele que florescia no mesmo período no outro lado do Reno. O fervor nacionalista dos escritores franceses da época não ficava a dever nada ao do seu contemporâneo Heinrich von Treitschke, o célebre teórico do nacionalismo alemão no fim do século XIX. Drumont e Wilhelm Marr, Jules Guérin, o marquês de Morès, Adolf Stöcker e o austríaco Georg von Schönerer, Georges Vacher de Lapouge e Otto Ammon, Paul Déroulède e Ernst Hasse, o líder da Liga Pan-Germânica, eram todos farinha do mesmo saco.

Estamos aqui perante um fenômeno europeu generalizado. Para este novo nacionalismo – situado no polo oposto ao outro que, da Revolução Francesa à Comuna de Paris, tinha tentado realizar a síntese da “religião da Pátria” com a religião da humanidade – a nação era equivalente a um organismo consciente. Este nacionalismo “totalizante” pretendia apresentar-se como um sistema ético, com critérios de comportamento ditados pela totalidade do corpo nacional, independentemente da vontade do indivíduo. Por definição, este novo nacionalismo negava a validade de quaisquer normas absolutas e universais: verdade, justiça e lei existiam apenas para servir as necessidades da coletividade. A ideia de sociedade como algo isolado e fechado em si mesmo, de um violento antirracionalismo, e a crença na supremacia do subconsciente sobre as forças da razão contribuíam para a formação de um conceito verdadeiramente tribal de nação.

Aqui é possível sentir-se todo o peso da influência do darwinismo social, mesmo entre os maurrasianos, que não se dispuseram a comparar tão prontamente como Barrès o instinto animal com a razão humana, em detrimento da última. A ideia de que as profundezas do irracional e do instinto tinham que ser separadas da artificialidade da razão estava espalhada entre os membros daquela geração.

O culto das forças profundas e misteriosas que formam o tecido da existência humana favorecia, como consequência natural e necessária, o surgimento de um virulento anti-intelectualismo. Para essa escola de pensamento, a luta contra os intelectuais e contra o racionalismo que lhes servia de alimento era uma medida de segurança pública. Houve um grande número de nacionalistas na virada do século que, como aqueles da geração entreguerras, atacava constantemente o espírito crítico e os seus produtos, opondo-os ao instinto, ao sentimento intuitivo e irracional, à emoção e ao entusiasmo – esses impulsos profundos que determinam o comportamento humano e que constituem a realidade e a verdade das coisas, bem como a sua beleza. O racionalismo, argumentavam eles, pertence ao “desenraizado”; embota a sensibilidade, mata o instinto e destrói as forças motivacionais para o desempenho da atividade nacional. Barrès acreditava que só o conteúdo emocional de uma situação tinha valor real; para ele, o processo do que é conhecido como pensamento acontecia ao nível do inconsciente. Ele concluiu daí que atacar o inconsciente era retirar do organismo nacional a sua substância.

Consequentemente, para garantir o bem-estar da nação era necessário voltar-se para o povo e exaltar as forças primitivas, o vigor e a vitalidade que emanavam dele, livre da contaminação do vírus racionalista e individualista. Para a direita revolucionária de 1890 assim como para a de 1930, o mérito incomparável da opinião popular era a sua espontaneidade irrefletida, emanada das profundezas do inconsciente. Tanto na virada do século como na véspera da Segunda Guerra Mundial, estes eram os novos critérios para o comportamento político.

Uma vez que as massas eram os verdadeiros representantes da nação, e uma vez que o principal objetivo da política era a integridade e o poder da nação, o nacionalismo não poderia aceitar que a questão social permanecesse sem solução. Barrès, o principal teórico deste “nacionalismo latino”, mais genuíno até do que o “marxismo latino”, foi uma das primeiras pessoas a dizer que um movimento “nacionalista” só pode existir se garantir a integração dos estratos mais desfavorecidos da sociedade. Ao mesmo tempo, ele afirmou que um movimento “nacionalista” não poderia ser marxista, liberal, proletário ou burguês. O marxismo e o liberalismo, argumentava ele, não eram mais do que movimentos de guerra civil. Uma guerra de classes, uma guerra de todos contra todos numa sociedade individualista representava duas meras facetas de um mesmo mal. Como resultado deste modo de pensamento, apareceu, no fim do século XIX, em França, uma nova síntese, a primeira forma de fascismo. Barrès foi um dos primeiros pensadores europeus a empregar o termo “nacional-socialismo”.

A ideia do nacional-socialismo rapidamente se espalhou pela Europa. Ela veio como resposta ao problema da civilização surgido na segunda metade do século XIX com a ascensão do proletariado e a revolução industrial. Logo, mais ou menos por toda a parte, surgiram teóricos clamando que a questão social poderia ser solucionada por outros meios que não através de um capitalismo selvagem ou de um socialismo da luta de classes. A solução baseada na ideia de que a sobrevivência da nação demandava a paz entre o proletariado e o corpo social como um todo foi posta em ação na França da virada do século por Barrès, e na Itália da primeira década do século XX por Enrico Corradini.

Enrico Corradini

Como Barrès, que o precedeu por uns vinte anos, Corradini buscava reviver o que ele denominava o pacto fundamental da solidariedade familiar entre todas as classes da sociedade italiana. Em 1910 ele usou o termo “nacional-socialismo” e fixou os objetivos desse movimento socialista e nacionalista. Primeiro, disse ele, era necessário fazer entender aos italianos que o seu país era materialmente e moralmente um país proletário. Depois eles tinham que ser ensinados sobre a necessidade da guerra internacional, da mesma forma que o socialismo ensinava aos trabalhadores a guerra de classes. Finalmente, era preciso trazer a paz entre o proletariado e a nação. Depois da Primeira Guerra Mundial, durante a ascensão do movimento fascista, Corradini resumiu numa fórmula concisa o conceito que levara anos a desenvolver, desde a fundação da Associação Nacionalista, em 1910: “Como o nacionalismo é por definição o nacional na política, ele não pode deixar de representar o nacional na economia, já que as duas coisas estão interconectadas.” Desta forma, o teórico do nacionalismo italiano pegou emprestada a ideia de luta de classes do marxismo e transpô-la para um nível mais elevado, o da guerra entre grupos de nações. O princípio permanecia o mesmo: a violência é a força motriz da história.

Em essência, os princípios do nacionalismo italiano não diferiam muito daqueles desenvolvidos em França vinte anos antes. A única contribuição original de Corradini foi a ideia de “nação proletária”, cuja função era preparar os italianos para a luta pela existência, ou seja, a guerra. O estado de guerra, disse ele, era o estado natural de relacionamento entre as nações, em todas as épocas. A disciplina, a autoridade, a solidariedade social, o senso de dever e sacrifício e os valores heroicos são todos condições necessárias para a sobrevivência do país. Qualquer coisa que zelasse pela unidade seria positiva: um governo forte, o indivíduo sempre a serviço da sociedade e a unidade das classes sociais num esforço único em prol da grandeza nacional. Da mesma forma, qualquer coisa que constituísse um fator de diversidade deveria ser eliminado. A filosofia do Iluminismo e a teoria dos direitos do homem, o internacionalismo e o pacifismo, bem como o egoísmo de classe proletário ou burguês, deveriam ser destruídos. O mesmo se aplicava à democracia: a democracia não era outra coisa senão a expressão dos interesses de classe da burguesia. Assim como o socialismo marxista, que esvaziava o corpo da nação da sua substância para servir aos interesses de classe do proletariado. E finalmente havia o socialismo reformista que, sob o pretexto de melhorar o destino do proletariado, entrou em aliança com a democracia burguesa. Esta aliança de políticos, disse Corradini, era a grande mentira da democracia contemporânea. À democracia liberal, à democracia “dos negócios”, Corradini opunha uma forma de democracia “etnárquica”; à política “dos negócios” e à plutocracia, ao “parasitismo de classe”, ele opôs um regime de ordem e autoridade baseado nas hierarquias naturais. Esse regime deveria ser um regime de produtores, um regime de colaboração entre as classes, responsável pelo bem-estar de todos.

O segundo principal componente do fascismo que, juntamente com o nacionalismo antiliberal e antiburguês, moldou a ideologia fascista foi o revisionismo antimaterialista do marxismo. Esta dissidência, que abarcava tanto a extrema esquerda não-conformista quanto a direita nacionalista, permitiu a associação de um novo tipo de socialismo ao nacionalismo radical.

Dividimos este texto em quatro partes. Leia a 2ª parte, a 3ª parte e a 4ª parte.


Comentários 18

    • Gustavo

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      fev 16, 2014

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      Sternhell, ainda que seja tido como um “especialista em fascismo”, está longe de ser unanimidade (ou algo que chegue perto disso) na Academia: muito resumidamente, questionam-lhe a abordagem metodológica que faz do fascismo, dizendo que privilegia em demasiado a ideologia inicial, em detrimento do movimento organizado, mas, sobretudo, do regime político efetivamente instalado no poder, com todo o tipo de conciliação que teve que fazer; segundo esses críticos, uma vez no poder, o fascismo ficou a léguas de distância da ideologia inicial e, portanto, seria o único objeto de análise capaz de subsidiar uma definição aceitável sobre a sua natureza. Sternhell tem alguns argumentos razoáveis contra essa acusação. (ver aqui
      e aqui, em inglês)
      A meu ver, mesmo que o fascismo enquanto regime tenha ficado muito aquém das pretensões revolucionárias iniciais, foram a ideologia inicial e as suas condições de existência que pavimentaram o caminho para que aquele regime tenha chegado ao poder. Conhecer, portanto, as condições de criação de tal ideologia seria importante do ponto de vista histórico, quanto mais não seja para saber se articulações ideológicas semelhantes a essa não poderiam muito bem surgir novamente nos dias de hoje.
      Em resumo: em vez de analisar a serpente, analisar o ovo.

    • Gustavo

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      fev 16, 2014

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      Um dos links que coloquei anteriormente foi duplicado.
      O link correto é este

    • Leo Vinicius

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      fev 16, 2014

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      Há duas afirmações muito difíceis de se concordar no texto:

      “O fascismo certamente não foi derivado de uma única fonte como aconteceu com o socialismo, herdeiro de Marx;”

      “Foram os sindicalistas revolucionários, dissidentes da esquerda, que, por meio da crítica ao determinismo marxista, criaram os primeiros elementos da síntese fascista na primeira década do nosso século.”

      A menos que o autor indique muito bem o que ele quer dizer com “socialismo”, não faz o menor sentido dizer que a único fonte do socialismo é Marx. Chega a ser absurdo.

      A segunda afirmação que destaquei, resume argumento do autor nesse texto (que bem que sei que é apenas parte de uma introdução). Se essa é a ‘acusação’ aos sindicalistas revolucionários, me parece que estão absolvidos de terem ajudado a gestar o fascismo. Primeiro que a crítica ao determinismo marxista não era feita apenas pelos sindicalistas revolucionários. Segundo, criticar o determinismo marxista nada tem a ver necessariamente com crítica ao racionalismo. O contrário seria mais correto. Castoriadis talvez tenha sido o que melhor mostrou como essa filosofia da história marxista está também na origem do totalitarismo como se viu na URSS. Oras, a crítica a essa filosofia da história nada tem a ver necessariamente com crítica ao racionalismo. Me parece difícil alguém conseguir ser mais racional que Castoriadis, aliás.

      Bem, se o autor quis dizer outra coisa, deveria ter escrito outra coisa.

    • João Valente Aguiar

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      fev 16, 2014

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      Leo Vinicius,

      a primeira frase do autor é muito instrutiva e deve ser lida no seu contexto. Ou seja, ao contrário do marxismo ou do liberalismo, o fascismo não nasce na primeira metade do século XIX, portanto, com a expansão internacional do capitalismo mas vai buscar elementos a correntes ideológicas opostas já existentes.
      O fascismo ganhou força na medida em que articulou o irracionalismo conservador com a dinâmica e a mobilização das classes, em nome de um objectivo de regeneração da nação. Nesse sentido, o argumento do Sternhell permite perceber o fascismo como a confluência do conservadorismo mais extremo com a capacidade para mobilizar amplas massas populares para remodelar as estruturas do capitalismo, algo que só a esquerda tinha conseguido durante a segunda metade do século XIX. Por isso, o fascismo distingue-se do conservadorismo e do liberalismo não apenas porque cresce para a sua direita (exponenciando o irracionalismo), mas também porque cresce à sua esquerda (sendo capaz de utilizar estruturas, organizações e lemas que tinham sido exclusivo da esquerda até então). E aí houve “contributos” de sectores da esquerda para a criação dessa capacidade do fascismo se alargar à esquerda.

      Outro detalhe que me parece implícito no argumento do Sternhell. A crítica irracionalista ao marxismo feita pelo Sorel é, em boa medida, comparável à que o ecologismo de esquerda fez nas últimas décadas. A pretexto de uma pretensa crítica ao capitalismo, o que o ecologismo fez foi uma crítica à sociedade urbana, à indústria e à tecnologia em geral. Assim, uma crítica irracionalista do capitalismo é sempre o eixo a partir do qual se estimulam reconfigurações miserabilistas e retrógradas do capitalismo. Isto é, possíveis reconfigurações do capitalismo que se assemelham a contornos fascizantes.
      Também por aqui me parece que a análise do Sternhell tem o seu interesse, na medida em que o que mais conta é o procedimento (por exemplo, a crítica irracionalista) e não apenas o exemplo histórico específico (no caso do texto do Sternhell, o Sorel e os sindicalistas revolucionários).

    • João Bernardo

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      fev 16, 2014

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      Gustavo,
      Considero o Zeev Sternhell um dos três melhores historiadores acerca do fascismo. Os outros dois são Jean Pierre Faye, com o Langages Totalitaires. Critique de la Raison — l’Économie – narrative (Paris: Hermann, 1980, ed. corr.) e Franz Neumann, com o Behemoth, que consultei na tradução em espanhol (México, Fondo de Cultura Económica, 1943). Aliás, considero aquele livro do Faye como uma das três melhores obras historiográficas em geral, acerca de qualquer período.
      O Sternhell é pouco aceite porque incomoda, já que ele mostra o fascismo na confluência, ou no cruzamento, de uma certa esquerda e de um certo liberalismo, o que poucos gostam de reconhecer. Por outro lado, Sternhell pratica a história comparada, a única que na minha opinião tem razão de ser, e traça quadros gerais, como na minha opinião os historiadores devem traçar, mas isso está fora de moda nesta época de hiperespecialização.
      É certo que Sternhell realça muito os aspectos ideológicos, mas um historiador tem o direito de tomar qualquer perspectiva, desde que não pretenda que as outras não existem. E o fascismo foi um movimento antes de ser um regime, e um movimento com conotações ideológicas muito vincadas, por isso a perspectiva adoptada por Sternhell tem toda a razão de ser. Ninguém imagina que um historiador se debruce sobre a revolução russa sem ter lido Lenin, Trotsky, Bukharin e Stalin, pelo menos estes quatro, mas com todo o à-vontade se escreve sobre o fascismo sem se ter lido Gentile nem Rosenberg nem Codreanu nem José Antonio, ou, noutro registo, Ezra Pound ou Céline. O facto de Sternhell não padecer desta lacuna é outra coisa que incomoda os colegas.
      Não estou de acordo com Sternhell quando considera que o fascismo italiano e o nacional-socialismo germânico não se inserem no mesmo campo. Ele tem razão sob o ponto de vista que adopta, tomando como determinante o critério do racismo, mas eu creio que, adoptando o critério da organização política e outros critérios ideológicos, o fascismo de Mussolini e o nacional-socialismo de Hitler e Himmler se inserem no mesmo quadro; e que este quadro ajuda precisamente a explicar a determinante racista do nacional-socialismo germânico.
      Quanto à objecção de alguns críticos, de que os regimes políticos fascistas não corresponderam à ideologia originária, isso pode dizer-se de tudo, claro, desde os regimes políticos, qualquer que seja a cor, até às relações amorosas. Mas não creio que os regimes fascistas tivessem atenuado o radicalismo com a passagem do tempo, muito pelo contrário. Se Mussolini, no começo, fora um defensor da livre-concorrência e pretendera que o Estado se devia afastar da economia, essa posição inverteu-se progressivamente ainda antes da crise mundial desencadeada em 1929. Mas sobretudo com a legislação de 1934-1937, o Estado italiano assumiu um grau de intervenção económica sem paralelo fora da União Soviética. Não creio que existissem aqui contemporizações, mas apenas uma radicalização. Uma radicalização maior ainda ocorreu no Terceiro Reich, se eu estiver certo na minha análise de que o sistema económico-social implementado nos territórios ocupados de Leste, durante a guerra, é inexplicável pelos critérios do capitalismo e constituiu um modo de produção pós-capitalista.
      A sua conclusão, «em vez de analisar a serpente, analisar o ovo», é lapidar e exprime de forma sintética aquilo que, por meu lado, pretendo fazer quando estudo o fascismo. É bom ter sempre presente que o fascismo foi derrotado militarmente muito antes de ter tido tempo de desenvolver as suas contradições de maneira plena, por isso o ovo continua fértil.

    • Leo Vinicius

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      fev 16, 2014

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      João Valente Aguiar,

      Repito a última frase que escrevi no meu comentário. Se o autor quis dizer isso que você expõe no seu comentário ele deveria ter escrito outra coisa. O que você escreveu é diferente, em conteúdo, do que ele escreveu.

      Não faz sentido dizer que o socialismo tem Marx como única fonte. Isso é simplesmente falso historicamente. Se ele dissesse que as correntes socialistas que se tornaram hegemônicas tem como Marx sua única fonte, ainda vá lá. Mas nas primeiras décadas do século XX mesmo isso era mais questionável.

      Novamente, quanto à segunda frase, como já disse, não há base para relacionar mecanicamente como é feito nesse texto (não sei ao longo do livro) uma crítica ao determinismo marxista com crítica à razão ou ao racionalismo. Não estou discutindo se há outras razões para se encontrar no sindicalismo revolucionário elementos da gênese do fascismo. Estou discutindo apenas a falta de sentido em afirmações do autor neste texto. Nem sequer o autor de dá o trabalho de mostrar que a crítica ao determinismo feita pelos sindicalistas revolucionários era ao mesmo tempo uma crítica à razão. Da forma como ele expõe, é como se uma crítica ao determinismo marxista fosse necessariamente uma critica à razão.

    • João Bernardo

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      fev 16, 2014

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      Leo Vinicius,
      Pela maneira decidida como você arruma de lado o Zeev Sternhell deduzo que você tenha lido todo o livro ou, pelo menos, toda esta introdução, senão não faria sentido escrever o que esceveu quando ainda se vai no primeiro quarto do texto. Sobretudo, a forma despreziva como você se refere às opiniões de Sternhell sobre o marxismo nas décadas de transição do século XIX para o século XX deixa-me convencido de que você conhece a continuação do texto, senão os seus comentários padeceriam de leviandade.
      De qualquer modo, a acção dos sindicalistas-revolucionários italianos como uma das três forças geradoras do fascismo italiano enquanto movimento (as outras duas foram os arditi e os futuristas) não é uma tese de Sternhell ou uma opinião, é um facto, como mostra qualquer história minimamente detalhada sobre esse período. A segurança com que você profere afirmações sobre o tema leva-me a crer que você o conheça bem, por isso lhe pergunto:
      – Como interpreta você a posição dos sindicalistas-revolucionários italianos relativamente à guerra na Líbia em 1911?
      – Como interpreta você a criação da Unione Sindacale Italiana e a cisão que levou à fundação, em Outubro de 1914, do Fascio Rivoluzionario d’Azione Internazionalista e, depois, da Unione Italiana del Lavoro?
      – Como interpreta você a greve de Dalmine em Março de 1919?
      – Como interpreta você o papel desempenhado por Alceste De Ambris em Fiume e na redacção da Carta del Carnaro?
      Passando para o outro lado dos Alpes:
      – Como interpreta você a criação do Cercle Proudhon?
      – Como interpreta você a adesão de Sorel à Action Française?
      – Como interpreta você a evolução de Lagardelle?
      – Como interpreta você o desenvolvimento dado às teses de Sorel por Henri de Man, uma figura de singular relevo na Segunda Internacional e no socialismo belga, e como interpreta a eventual importância que essa aceitação das teses de Sorel possa ter tido para a evolução de de Man?
      – Finalmente, num âmbito mais lato, como interpreta você a relação entre as teses de Sorel e a filosofia de Bergson, notada por todos os observadores daquela época?

    • Leo Vinicius

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      fev 17, 2014

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      João Bernardo,

      Por certo você sabe que eu sei que pesam sobre os sindicalistas revolucionários elementos que teriam convergido na origem do fascismo. E você sabe disso porque eu assisti ao seu curso sobre os labirintos do fascismo.

      Na minha crítica ao texto em nenhum momento eu disse que era absurdo afirmar que os sindicalistas revolucionarios, ou Sorel, ou quem quer fosse, tenham contribuído com elementos para o surgimento do fascismo. Eu não discuto isso, e nem tenho conhecimento para isso (só responderia suas perguntas se colasse de textos que você escreveu). Mas não entrei nessa discussão sobre se os sindicalistas revolucionários estiveram na origem do fascismo ou não. Estou discutindo unicamente a afirmação de que uma crítica ao determinismo é necessariamente uma crítica ao racionalismo.

      A crítica que fiz ao texto foi de ordem lógica. Sim, eu sei que é parte de uma introdução de um livro, como deixei claro. Mas o texto destacado e publicado como está, tem esse problema sim. Pode ser que ao longo do livro o autor desenvolva de outra forma, deixando claro no que a crítica ao determinismo que era feita, era ao mesmo tempo uma crítica à razão. Mas do jeito que está, o que se deduz é que para o autor toda crítica ao determinismo marxista é uma crítica ao racionalismo.
      Além da questão sobre Marx ser fonte única do socialismo. Se isso é bem fundamentado ao longo do livro, realmente não sei porque não li. Mas a afirmação, da forma como está, até ser convencido do contrário, é incabível.

    • João Bernardo

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      fev 17, 2014

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      Leo,
      Não se trata de ler o livro todo nem a obra toda de Sternhell. Aliás, aconselho-lhe vivamente a leitura de outro livro dele, La Droite Révolutionnaire, 1885-1914. Les Origines Françaises du Fascisme (Paris: Seuil, 1978), isto a propósito de uma discussão que já aqui tivemos sobre a utilização dada pela extrema-direita às ideias de Proudhon. Trata-se de não esquecer que este texto de Sternhell foi dividido em quatro partes e aqui está somente a primeira.
      Não entendo por que lhe causa tanta indignação a noção de que o socialismo derivou de Marx. Na época a que Sternehell está a referir-se, da gestação do movimento fascista na última década do século XIX e na primeira década e meia do século XX, o socialismo era a Segunda Internacional, e a na Segunda Internacional todos os debates giraram em torno dos escritos de Marx. Mesmo na Itália, onde a presença anarquista havia sido muito forte, a maioria dos anarquistas acabou por se integrar no Partido Socialista e por aceitar as disputas eleitorais. Aliás, este facto foi importante para a formação do jovem Mussolini, visto que o pai dele foi um desses anarquistas integrados no Partido Socialista. Se algum defeito posso encontrar naquela rápida afirmação de Sternhell é que ele devia ter escrito «como aconteceu com o socialismo continental», já que na Grã-Bretanha o socialismo trabalhista foi mais um herdeiro das dissidências protestantes do que do marxismo.
      A outra passagem de Zeev Sternhell que o indigna é a seguinte: «[…] o antimaterialismo, por volta de 1900, também representava a rejeição dos principais postulados da economia marxista e um ataque aos fundamentos racionalistas do pensamento de Marx. Foram os sindicalistas revolucionários, dissidentes da esquerda, que, por meio da crítica ao determinismo marxista, criaram os primeiros elementos da síntese fascista na primeira década do nosso século». Você argumenta que pode rejeitar-se o determinismo marxista sem ser irracionalista. Ora, o fundamental é que se trata de uma análise histórica e não das possíveis acrobacias do pensamento, que pode sempre juntar tudo e de todas as maneiras. Castoriadis, que você evocou a despropósito, não é para aqui chamado porque viveu noutra época e noutro contexto. A questão central é analisar «o antimaterialismo, por volta de 1900» e a este respeito seria importante você meditar um pouco na última das questões que lhe coloquei, da relação entre as teses de Sorel e a filosofia de Bergson. Sternhell também não afirma que a crítica ao determinismo marxista fosse feita apenas pelos sindicalistas revolucionários. É um homem que dedicou toda a sua vida ao estudo destas questões e desta época, não cometeria erros tão grosseiros. O que sucede é que os sindicalistas revolucionários fizeram uma dada crítica ao determinismo marxista, e trata-se de ver quais as características que teve essa crítica, de que maneira se inseriu no pensamento da época, quais as suas relações e filiações, e que consequências ideológicas e políticas essa crítica veio a ter. É um exercício de história concreta, que exige conhecimentos e com o qual todos nós devemos aprender.

    • Luiz

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      fev 28, 2014

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      O JB preparou a discussão, instigou o leitor (pelo menos a mim), mas não desenvolveu.
      “O que sucede é que os sindicalistas revolucionários fizeram uma dada crítica ao determinismo marxista, e trata-se de ver quais as características que teve essa crítica, de que maneira se inseriu no pensamento da época, quais as suas relações e filiações, e que consequências ideológicas e políticas essa crítica veio a ter. É um exercício de história concreta, que exige conhecimentos e com o qual todos nós devemos aprender.”
      Não seria possível dar continuação à discussão? Sinceramente não tenho esse debate, mas nutro um profundo interesse por ele…

    • João Bernardo

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      mar 1, 2014

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      Luiz,
      Mas o autor é o Sternhell, não sou eu. Na continuação do texto, tanto na terceira como na quarta parte, será desenvolvida a questão do sindicalismo revolucionário italiano e da evolução que o levou a ser uma das correntes formadoras do fascismo. Mas como se trata da introdução a um livro, a exposição de Sternhell será obrigatoriamente sumária; é no corpo do livro que ele esmiuça a questão. O meu propósito naquele comentário foi apenas chamar a atenção para a necessidade de estudar uma série de problemas em vez de os arrumar apressadamente de lado. Quando Rolão Preto — chefe do fascismo populista português, o nacional-sindicalismo, que procurou sem êxito derrubar ou empurrar o fascismo clerical e conservador de Salazar — declarou mais tarde «Sorel é para mim o grande mestre. Foi ele que fez talvez tudo», temos colocado um problema ao qual deveria ser impossível voltar as costas. Mas para o aprofundar é necessario ler uma bibliografia que na maior parte está em italiano, em inglês e em francês, o que torna a situação mais difícil para os brasileiros. Eu tratei deste assunto num livro que se pode encontrar no Brasil em bibliotecas, Labirintos do Fascismo. Na Encruzilhada da Ordem e da Revolta (Porto: Afrontamento, 2003), nas págs. 390-413.

    • Luiz

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      mar 1, 2014

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      Então fico no aguardo do restante do texto e agradeço a atenção dispensada.
      Só aproveito o ensejo para manifestar um certo desconforto nesta leitura com uma aparente homogeneização do movimento italiano ao redor do sindicalismo revolucionário. Não existiam militantes italianos que faziam um contraponto ao sindicalismo revolucionário, como: Malatesta, Cafiero, Fabbri (só para ficar nos mais conhecidos no Brasil)?
      Sei que novamente devo estar exigindo mais do que o texto discute, mas gostaria de aproveitar para perguntar a tua opinião, mesmo que sumária, sobre o anarco-comunismo italiano.
      A propósito, comecei a ler o teu “Labirintos” num PDF que encontrei na web, mas não pude concluir a leitura por conta de um problema no arquivo. Contudo, a passagem que você me indicou está incólume. O quanto antes farei a leitura.

    • João Bernardo

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      mar 1, 2014

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      Luiz,
      Houve várias tendências de esquerda, tanto entre os anarquistas como entre os comunistas e os socialistas, que lutaram sempre contra o fascismo e, antes disso, contra aquele tipo de nacionalismo que veio a confluir na formação do movimento fascista. Mas creio que o objectivo de Sternhell foi exclusivamente o de analisar aquelas tendências que participaram nessa formação e não as que não participaram. Um dos seus grandes méritos foi o de ter estudado mais atentamente do que muitos outros historiadores a acção dos sindicalistas-revolucionários italianos.
      Quanto aos anarquistas italianos naquela época, pelo que conheço tiveram um papel histórico muito reduzido. Camillo Berneri escreveu coisas muito interessantes, mas parece-me um personagem muito isolado. E o ano final da ascensão dos fascistas os Arditi del Popolo tiveram uma postura muito combativa e lúcida, mas não eram compostos exclusivamente por anarquistas.
      Outra coisa. O Labirintos do Fascismo que existe na internet é uma tese de doutorado na Unicamp, disponibilizada por essa universidade. O livro é bastante maior, embora por outro lado lhe tivesse cortado certos assuntos que tratei na tese, como as torcidas de futebol e os concertos de rock. De qualquer modo, a perspectiva é a mesma na tese e no livro.

    • Ricardo

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      mar 6, 2014

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      Interessantíssimo. Gostaria apenas que Sternhell tivesse sido um pouco mais honesto ao avaliar o sionismo e o fascismo sionista dos revisionistas. Infelizmente, quando analisa Israel, seu país, ele não aplica as próprias teorias. O sionismo, seja qual for a variante, cabe muito bem na definição que ele dá de fascismo. Edward Said qualificou muito bem de “esquizofrênica” a posição de Sternhell, que ataca com toda a força os nacionalismos europeus e defende fervorosamente o nacionalismo judaico e a supremacia étnica em Israel, declarando-se recentemente a favor de um Israel majoritariamente judaico e contrário ao retorno de refugiados palestinos. Chega ao ponto de justificar “moralmente” a Nakba palestina e declara-se um “Super-Sionista”. O que naturalmente não lhe retira o talento como historiador do fascismo, mas apenas põe algumas coisas em perspectiva.

    • Passa Palavra

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      mar 6, 2014

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      Sobre a questão levantada por Ricardo, o Passa Palavra publicou em Junho de 2010 um artigo que analisa as relações do sionismo com o fascismo e o fascismo sionista:
      http://passapalavra.info/2010/06/24723

    • |

      mar 6, 2014

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      Duas pontuações sobre um dos desentendimentos / divergências do Leo Vinícius: a crítica ao determinismo marxista (como sinônimo de crítica ao racionalismo).

      Temos visto, repetidamente até na atual conjuntura, como esse determinismo obscurece a compreensão e a conceituação dos movimentos de massa na Ucrânia, Síria, Venezuela,… Identifica-se “revolução” a um conteúdo muito preciso e obrigatório: proletário e progressista. Ou seja, se não é de esquerda, só pode ser golpe, jamais revolução.

      O jovem Marx falava da diferença entre revolução política e revolução social, mas também aí existe um problema, dado que as demandas impraticáveis em meio aos arranjos político-estatais também podem assumir dimensão política ou, no mínimo, serem incorporadas em um novo arranjo político-estatal, num alargamento da sociedade política, sob novas lealdades, etc.

      O problema candente, o 2o ponto, é que, em meio a movimentos oposicionistas de massas, grupos de extrema-direita, milícias fundamentalistas, integristas, etc., podem eventualmente encontrar-se com a extrema-esquerda… isso está acontecendo.

      Assustados com o ovo da serpente, os partidos e coletivos da extrema-esquerda ficam tentados a recuar. (Exemplo banal é a indicação de voto em Dilma e Lula dada pelo PCBrasileiro em 2os turnos, que erroneamente se refere ao PSDB e à direita clássica como expoentes fascistas)

      Em que medida poderão recuperar a fórmula leninista do mal menor, aquela pela qual devemos atirar sob os ombros de Kerensky para aniquilar Kornilov? Recuperação essa a meu ver despropositada, dado que Yakunovich, Assad etc, talvez não tenham absolutamente nada de Kerensky. A Revolução Russa não é parâmetro e não ajuda a entender e a se movimentar no cenário atual. E talvez também não o seja o fracasso da Revolução Alemã, ainda que possamos extrair sempre muitas lições.

    • João Bernardo

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      mar 6, 2014

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      Rodrigo Fonseca,
      Gostaria de escrever alguma coisa na sequência do seu comentário, mas será que vou ser inteligível sem me alongar demasiado?
      Mais do que como marxista, como spinozista, incomoda-me a forma como é correntemente usada a noção de determinismo, a um tal ponto que adiantariam muito se lessem os filósofos escolásticos medievais e as discussões a que eles procederam sobre o livre arbítrio. Também adiantariam se lessem Spinoza, claro. Mas, para me restringir a épocas mais modernas, ao menos deveria haver uma reflexão sobre a base matemática do funcionamento das companhias de seguros. Aliás, sem o determinismo probabilístico seriam impossíveis não só a ciência económica como qualquer abordagem sociológica que não fosse meramente descritiva. A história comparada seria inútil também. Não por acaso Trotsky, que recebera uma formação matemática, observou numa das suas obras que as correntes de pensamento que mais defendiam o determinismo — nomeadamente o calvinismo e o marxismo — eram também as que procediam a uma maior apologia da vontade. Transita-se aqui do determinismo probabilístico, de grandes números, para as actuações individuais, e a este respeito seria conveniente recordar o modelo de interpretação do acaso que o matemático francês Antoine Cournot expôs numa obra publicada em 1843. Muito se avançou em seguida, mas nos meios esquerdistas continuam a perorar acerca do determinismo em ignorância de toda essa problemática.
      Quanto ao outro aspecto que você abordou, o primeiro movimento reaccionário de massas, o boulangisme, em torno do general Boulanger, ocorreu ainda em vida de Engels, que não o soube interpretar. Raramente os primeiros indícios são bem interpretados. Mas o fascismo deveria ter esclarecido as coisas, e só não as esclareceu para quem não quer ser esclarecido. O boulangisme foi o primeiro gérmen do que mais tarde viria a desenvolver-se como fascsimo, por isso Sternhell está absolutamente correcto quando situa a origem dos movimentos fascistas antes da primeira guerra mundial e quando a localiza em França. Depois, o fenómeno conhecido por nacional-bolchevismo mais ainda mostrou, a quem queira ver, a amplitude tomada por movimentos de massa em que convergem a extrema-direita e certa extrema-esquerda — escrevi certa e não toda — sempre em benefício de programas de extrema-direita. Para não ver estas coisas é preciso desnaturar a própria noção de fascismo, reservando o termo para insultar regimes repressivos que não contam com o apoio de massas, geralmente regimes militares, ou seja, regimes autoritários que precisamente não são fascistas.
      Se você ou qualquer outro leitor quiser um exemplo vivo — fresquinho, como diríamos em Portugal — desse cruzamento da extrema-direita e de certa esquerda num movimento que pretende mobilizar massas, aconselho a leitura de um artigo em vias de publicação neste site http://passapalavra.info/2014/03/92349 em que se analisa o significado da conjugação do nacional com o social. Os portugueses, que desde 1640 parecem fadados para a desgraça e para o atraso histórico, podem assim apreciar ao vivo e em directo a repetição daqueles processos analisados por Sternhell e que ocorreram há um século.
      Se o fascismo fosse simplesmente repressivo era pouco perigoso. Ele é perigoso porque tem a vocação de ser um movimento de massas, ou seja, porque apresenta a revolta como substituto da revolução.

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