O homem incapaz de matar cachorros

O homem incapaz de matar cachorros

em 13 mar

Os dois personagens principais da ala que executou Trotsky poderiam ter a clarividência distanciada para reconhecer seus crimes e recolocá-los na história? Por Angela Mendes de Almeida

1 – A propósito do livro de Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros

o home que amava...A Editora Boitempo teve a feliz idéia de lançar, no fim de 2013, o livro do escritor cubano Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros, publicado primeiro na Espanha, em 2009, e só depois em Cuba. O livro é apaixonante, desses que se lê de um só fôlego. Talvez o seu maior mérito seja o de popularizar a história, já escrita de mil e uma maneiras e ângulos, da vida de Trotsky no exílio e de seu assassinato no México. No romance o leitor pode privilegiar uma entre as três trajetórias ali narradas. A do escritor cubano insatisfeito com sua vida profissional e narrador das outras duas histórias, Iván Cárdenas Maturell, sofrendo as vicissitudes da pobreza material e intelectual cubana sob o regime de partido único e as peripécias de sua família no país, marcado pelo embargo americano e pela dependência, depois pelo fim da ajuda soviética. Pode também se envolver na trágica história da resistência obstinada de Trotsky, sua família e seus seguidores, perseguidos passo a passo pela trama dos agentes secretos soviéticos. Mas pode também ficar magnetizado pela trajetória do assassino, Jaime Ramón Mercader, militante comunista catalão, e de seus companheiros na “missão especial” de liquidar Trotsky naquele ano de 1940: o judeu russo Kotov, na verdade, Nahum Eitingon, e a mãe do assassino, Caridad del Rio Mercader, todos agentes do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), a polícia política soviética.

É essa trajetória que provoca mais impressões contraditórias, emoções facciosas já submersas que brotam de repente, e também curiosidade, já que muitas das questões relativas às ações dos serviços secretos soviéticos só puderam vir à luz depois do esfacelamento da União Soviética.

Minha primeira leitura, em 2010, deixou-me várias impressões e outras tantas curiosidades. Porém ao acompanhar a repercussão da obra no Brasil, sobretudo através do debate que precedeu o lançamento do livro[1], percebi melhor os dilemas e ambiguidades do texto, ensejando outras tantas impressões, interpretações e emoções. No calor do citado debate houve mesmo quem reivindicasse que, naquelas circunstâncias históricas do contexto mundial de 1940, aceitaria assassinar Trotsky como uma tarefa heróica, honrada e revolucionária.

Ramón Mercader era um militante dedicado e disciplinado que, cumprindo ordens das mais altas instâncias da URSS, com o perigo de sua vida, assassinou, covarde e brutalmente, Trotsky. Era necessário … “Para salvar a Pátria dos Trabalhadores”. Os militantes dedicados e disciplinados recrutados para as “missões especiais” sabiam que deviam, além de exercer a espionagem, sequestrar, colocar em navios soviéticos os sequestrados para levá-los à URSS, assassinar diretamente por meios violentos ou através de estratagemas, tais como o envenenamento do qual resultasse uma “morte natural”, ou choques de veículos, quedas de janela ou de convés de navios, brigas e fatos de delito comum, dos quais resultasse uma “morte acidental”.

o homem que amava 3A confraria dos nostálgicos de uma picareta[2] em busca de algum trotskista incauto que ande por aí vibra com a menção à honra do militante comunista, cumpridor de qualquer tarefa que lhe seja dada pelo “Partido”. Como se sabe, o bolchevique disciplinado, conhecido na casa de Trotsky como o namorado belga da militante trotskista Sylvia Ageloff, Jacques Mornard Van Drendreschd, mas usando para entrar no México o passaporte canadense em nome de Franck Jacson (sem k), matou Trotsky com uma picareta de alpinista. Os passaportes dos serviços secretos soviéticos, nesse período, provinham todos da “fábrica” das Brigadas Internacionais, cuja sede era em Albacete, durante a guerra civil da Espanha. Cada voluntário brigadista era obrigado a entregar seu passaporte, que nunca era devolvido, mesmo se o seu titular tivesse sobrevivido. O historiador Volodarsky, entre outros, menciona esta reutilização dos passaportes.[3] Mas o verdadeiro Jacques Mornard estava vivo e, conforme o jornal Ce soir, de Bruxelas, só morreu em 16 de julho de 1966.[4] Talvez fosse outro comunista dedicado que tivesse doado generosamente seu passaporte e seu nome para o crime.

Na nota final do livro, Padura afirma que “se ateve, com a fidelidade possível, aos episódios e à cronologia da vida de Léon Trotsky e que tratou de resgatar o que se conhece com toda a certeza da vida de Ramón Mercader, construída em boa parte na linha fronteiriça da especulação a partir do que é verificável e histórica e contextualmente possível.” Para quem já leu, para além das biografias de Deutscher sobre Trotsky e Stalin, publicadas no Brasil no fim dos anos 60, hoje já ultrapassadas, algumas das fontes de Padura são transparentes. São em geral memórias, livros escritos em diversas épocas desde 1940 até hoje, e portanto impactados pelos acontecimentos do momento em que foram escritos. A memória é traiçoeira, os memorialistas, como todos nós, selecionam os fatos, alguns mentem e inventam, fazendo aquilo que os serviços secretos soviéticos sabiam fazer muito bem, a contrainformação.

É muito interessante que o romance tenha passado pela Barcelona de 1937, que Ramón Mercader, sob o pseudônimo de Adriano, tenha conversado com George Orwell e que Padura tenha recuperado a sua narrativa ainda fresca, escrita em 1938, sobre as “Jornadas de maio” na guerra civil espanhola. [5] Orwell, miliciano do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), relata que a batalha entre, de um lado, anarquistas e poumistas, e de outro policiais republicanos, militantes comunistas e agentes soviéticos, nos primeiros dias de maio, teve início quando o edifício da Telefônica, ocupado pela esquerda, foi atacado pela polícia republicana. O que é descrito por muitos como uma provocação dos soviéticos, desencadeou uma rebelião que alcançou toda a cidade. O episódio foi narrado no filme de Ken Loach, “Terra e liberdade”. Fica assim o leitor entrevendo que, dentro da guerra civil entre os fascistas de Franco e os republicanos espanhóis, houve uma guerra civil movida por Stalin contra toda e qualquer esquerda antistalinista, que naquele momento e lugar eram os poumistas e os anarquistas. Fica também entrevendo como a guerra da Espanha foi um laboratório stalinista de liquidação-extermínio da esquerda fora da União Soviética, com concentração de agentes secretos formados na disciplina denominada “missões especiais” (isto, é, assassinatos, sequestros e etc.). Entre estes agentes o personagem do romance, Kotov-Eitingon e o judeu russo Alexander Orlov, este último executor material da tortura e do assassinato de Andrés Nin, o grande dirigente do POUM.[6]

É sugestivo que desde aquela época, “na linha fronteiriça da especulação”, Padura tenha colocado Ramón Mercader tão preocupado com a sorte de Nin. No romance ele é encarregado de vigiar Nin e testemunha indignado o seu sequestro, quando é levado para uma casa que servirá de prisão clandestina. Mais tarde diz que Nin morreu por não ter confessado. É contrastante com a formulação do irmão de Ramón, Luis Mercader, que escreve com a pretensão de dar voz à história de seu irmão. Com 17 anos, vivendo na União Soviética, onde quase nada foi noticiado, ele só tomou conhecimento do assassinato de Trotsky bem mais tarde. E justifica-o plenamente a partir das “Jornadas de maio,” que culminaram no assassinato de Nin e na prisão e julgamento de poumistas. Para ele foi uma “insurreição de anarquistas e trotskistas (…) uma barbárie nas nossas retaguardas (…) uma rebelião imperdoável”. “Daí nasceu nosso ódio aos trotskistas”. Na terminologia soviética, os poumistas eram trotskistas. [7]

O livro de memórias de Luís Mercader é fruto de entrevistas concedidas ao jornalista Germán Sanchez entre julho de 1989 e abril de 1990, na Madri pós-franquista, em plena perestroika de Gorbachev, que antecedeu a implosão total da União Soviética, em dezembro de 1991. Tem como uma espécie de sub-título: “Meu irmão não era um vulgar assassino, mas alguém que acreditava na causa do comunismo”. No entanto Ramón nunca reivindicou o crime publicamente. Ao contrário, quando foi preso, negou-se formalmente a dizer quem era, embora a sua identidade belga tenha sido desmascarada imediatamente. Cumprindo a lei do silêncio dos agentes secretos, manteve versões esdrúxulas de um crime de caráter pessoal e sem sentido, permanecendo até o fim do cumprimento de sua pena de 20 anos sob o nome de Jacques Mornard. Segundo seu irmão, depois de solto e vivendo na União Soviética, jamais aceitou escrever suas memórias: “Nunca fui traidor. Nunca trairei os meus”. Com a morte de Franco em 1975, Ramón pediu o apoio de Santiago Carrillo para voltar à Espanha, mas não aceitou as condições que o dirigente eurocomunista impôs: contar toda a verdade sobre a sua história.

Ramon

Ramón Mercader

Logo que suas fotografias saíram nos jornais mexicanos após o crime, muitos militantes espanhóis exilados no México o reconheceram. Mas calaram. Por solidariedade com o crime ou por medo. Foi Julián Gorkin, militante do POUM exilado no México, quem primeiro divulgou o nome de Ramón Mercader e parte de sua história de militante comunista na guerra civil espanhola. Gorkin era um dos dirigentes poumistas presos em virtude das “Jornadas de maio.” A confissão de Nin, de que seria um agente de Franco e mais as acusações habituais, junto à “prova” pré-fabricada pelo agente Orlov, seria o eixo de um “processo de Moscou” na Espanha. Mas Nin não confessou e as vicissitudes da guerra e da derrota dos republicanos permitiram que Gorkin fugisse. Logo após o crime contra Trotsky, apesar de suas divergências com ele, Gorkin tomou a si o esclarecimento de tudo até chegar aos mandantes e acompanhou passo a passo a investigação da polícia mexicana com o chefe do Serviço Secreto, Leandro Salazar. Além de acompanhar a materialidade dos depoimentos e dos recursos dos advogados de Mercader, ele pôde ter a colaboração, muito dosada, é verdade, de dois chamados “renegados” do Partido Comunista Espanhol, Jesús Hernandez e Enrique Castro Delgado, que milagrosamente tiveram autorização para deixar a União Soviética no fim da Segunda Guerra Mundial e foram para o México. Contou ainda com a colaboração do militante comunista espanhol Valentim Gonzalez, chamado de “El Campesino”, um dos cerca de seis mil espanhóis exilados na União Soviética, que foi preso por sua oposição ao regime, tentou a fuga duas vezes, tendo conseguido, na segunda, em 1949, a partir do campo de trabalho do Vorkuta, na Sibéria, atingir o Irã e sair, como diz, do “inferno soviético”. [8]

A primeira denúncia de Gorkin sobre o nome verdadeiro do assassino de Trotsky foi publicada em livro de 1948, traduzido em várias línguas, no qual também aparece como autor Leandro Salazar. Trata-se da obra citada rapidamente por Deutscher. Mais tarde Gorkin publicou o mesmo livro em 1970, com um capítulo adicional dos mais interessantes.[9] Pois lá pelas tantas, depois da atualização dos nomes de alguns personagens dos dois atentados sofridos por Trotsky, Gorkin descreve um diálogo havido entre Enrique Castro Delgado e Caridad Mercader, 1943, na União Soviética. Era uma revelação importante que Castro havia omitido a Gorkin nos primeiros anos pós-guerra.

Em seu livro Perdi a fé em Moscou,[10] escrito no México, em 1950, Castro Delgado relata apenas os anos que passou na União Soviética entre o fim da guerra civil espanhola, em 1939, quando era o representante do PCE junto á Internacional Comunista, e a sua saída em 1944. Ele denomina o capítulo que trata disso de “fuga”, mas na verdade, sua saída, protelada por muito tempo, foi afinal autorizada por Dimitrov, então presidente da Internacional, com recomendações paternalistas sobre o mundo capitalista que ele iria encontrar, cheio de inimigos do socialismo. O texto de Castro Delgado é uma crítica bastante moderada ao regime soviético, limitando-se a insistir sobre a pobreza material e o atraso da URSS, bem como a descrever as intrigas da cúpula do partido espanhol no exílio. O suposto suicídio do então principal dirigente do PCE, José Diaz, isolado por motivos de saúde em Tbilisi, na Georgia, jogando-se de uma janela em ato que muitas obras classificam de assassinato, suscita nele apenas uma atitude de surpresa junto à Dolores Ibarruri, que iria herdar o cargo de principal dirigente. Escrito em vida de Stalin, talvez espelhasse o medo que todos os “renegados” e “trânsfugas” tivessem, com toda razão, de represálias contra seus famliares vivendo ainda na União Soviética, ou de acabar como Trotsky. Ainda mais no México, onde o poderosíssimo partido comunista mexicano fazia uma escandalosa campanha de calúnias contra todos os exilados que não rezassem pela cartilha stalinista.

Outra foi a conversa de Castro Delgado com Gorkin em 1960, quando voltaram a se encontrar no México. Algo muito importante havia acontecido. Stalin havia morrido em 1953 e em 1956, no XXº Congresso do Partido Comunista da URSS, Kruschev havia tomado a iniciativa de denunciar apenas a mais recente camada dos “crimes de Stalin”, aquela que havia golpeado sobretudo stalinistas disciplinados, mistificando a denúncia como “combate ao culto da personalidade.” Quando Gorkin cobra de Castro Delgado a omissão dessa conversa com Caridad Mercader e do fato de que ela e Kotov-Eitingon estivessem a poucos metros da casa de Trotsky no próprio momento em que Ramón o assassinava, com um carro à espera para a fuga, ele lhe responde que foi movido por solidariedade a ela. [11] Caridad teria sido quem os alimentou, a ele e a sua esposa, em dias de fome em Moscou, durante o cerco da cidade pelas tropas alemãs, e quem se ativou para que fosse dada a autorização para que eles saíssem do país. Passados tantos anos a presença dela nesse carro é muito menos importante que o conteúdo do desabafo ouvido um dia por Castro Delgado, que ia sempre ao apartamento dela, na Kaloujskaia, imenso bairro residencial nos arredores de Moscou ocupado por agentes importantes do NKVD.

o homem que amava 2A memória engana, prega peças às pessoas, seleciona fatos, omite outros. E trata-se da memória de Castro Delgado transmitida por Gorkin. Tanto um como outro podem ter carregado nas tintas dramáticas. Embora, por sua vez, Luis Mercader, testemunhando já no início dos anos 1990, não tenha negado nem a contínua presença do comunista espanhol na casa de sua mãe nesse período, nem o conteúdo do desabafo, limitando-se a corrigir uma questão de detalhe. O diálogo aconteceu em 1943, quando Castro Delgado já tinha caído em desgraça e Caridad acreditava que sua vida estava em perigo. Segundo ele, “éramos como dois náufragos precisando um do outro”. E um dia Caridad começou a desabafar: “Eles nos enganaram Enrique. Enganaram-nos com seus livros revolucionários, sua propaganda, seu pretendido paraíso. É pior que o inferno que jamais tenha existido. Nunca poderei me habituar. Só tenho um desejo, um pensamento: fugir, fugir longe daqui (…) Você não conhece essas pessoas como eu, eles não têm alma, não têm consciência. Eles esmagam a sua vontade, obrigam você a matar e fazem você morrer em seguida, de um golpe ou no banho-maria”. Castro Delgado quis deter as confidências pois a regra de ouro era conhecer o menos possível. Desabafando ela o comprometeria e o perderia. “Mas nós já estamos perdidos. Aqui ou em outro lugar, se conseguirmos escapar, estamos condenados à morte”. E então narra os detalhes do assassinato de Trotsky e conclui: “Fiz de Ramón um assassino, de meu pobre Luis um refém e de meus outros filhos uma ruína.[12] Que recompensa recebi em troca? Duas porcarias!” E tirava da gaveta as duas medalhas concedidas a ela e a Ramón, a da “Ordem de Lenin” e a de “Herói da União Soviética”. Escrevia constantemente a Beria e a Sudoplatov, os duas mais altas autoridades na esfera policial dos “assuntos internos,” pedindo que a deixassem sair. Afinal Beria lhe concedeu autorização em fevereiro de 1945. Deu-lhe dinheiro, sob a condição de que não fosse para o México. E foi a primeira coisa que ela fez. [13]

No romance de Padura, Caridad Mercader aparece quase como uma megera. É a mãe que recruta o hesitante filho insistentemente para uma missão de “sacrifício.” Em certo momento ele entrevê do que se trata e cobra dela surpreso: vocês me trouxeram para matar? Ela é sempre lembrada por ele com uma espécie de causa fundante do seu envolvimento, ele a todo o momento relembra o momento em que, na frente de combate na Espanha, disse sim sem saber bem o porquê. Fica a imagem da alma daninha que teria corrompido seu filho.

Com efeito, essa impressão fica confirmada no seguinte artigo de Padura: “Caridad del Rio não apenas tinha sido aquela que educou seu filho no ódio e o pôs em contato com os agentes do tétrico NKVD soviético, encarregados de planejar e executar o assassinato, mas que o incentivou e impulsionou em sua missão até a própria tarde de 20 de agosto, quando em um automóvel e em companhia do criador do plano, viu Ramón Mercader entrar na casa de Trotsky e nas cloacas da história do século.” [14]

É verdade que na versão de seu irmão Luis, Ramón teria alimentado, depois do crime, grande ressentimento contra Caridad. Acusava-a de ter estragado, em 1945, uma possibilidade de sair da prisão antes do fim da pena, ao tentar se sobrepor e atropelar a comissão permanente do NKVD, instalada no México para gerenciar a defesa jurídica do preso, o bom atendimento das suas regalias na prisão, mas também de velar pelo seu silêncio. [15]

No romance, enquanto a mãe – “a mãe é sempre a culpada” – é retratada como a alma daninha da trama, Ramón é quase um inocente envolvido no turbilhão da atividade militante das “missões especiais”. Mais do que isso, em seu reencontro com Kotov-Eitingon em 1968, na União Soviética, e nos diálogos na praia cubana entre o narrador, Iván, e o velho que amava os cachorros, Jaime Lopez, na verdade Ramón, ele aparece como alguém marcado pela imensidade do crime que cometeu. Menciona sempre o grito de Trotsky ao ser atingido pela picareta e mantém sempre enfaixada a mão que a vítima mordeu, como se fosse a materialidade simbólica da culpa pelo crime. E ainda, na parte final, “Apocalipsis”, Mercader e Eitingon se desdobram em comentários e recordações impressas por uma certa visão crítica do regime soviético, visto como uma sina desgraçada que golpeou os que estavam a serviço de Stalin, com seus deveres e disciplinas militantes, como um destino ao qual não se podia escapar. Foi horrível, mas era necessário … As circunstâncias da época obrigavam e desculpam. A visão humanista contida nesses diálogos, aquela cordura em não ser capaz de matar cachorros, tem muito mais a ver com a reflexão que faz Iván, o narrador, à luz da implosão da União Soviética, carregando consigo a melancolia da degradação da vida material em Cuba.

2 – “Missões especiais”

Os dois personagens principais da ala que executou Trotsky – Mercader e Eitingon – poderiam ter a clarividência distanciada para reconhecer seus crimes e recolocá-los na história? Poderiam esquecer seu heroísmo de militantes disciplinados dispostos a tudo, até ao crime? Poderiam compreender que as “missões especiais”, segundo Kruchev, “violações da legalidade socialista”, eram crimes? Vejamos um pouco do que se sabe deles.

De autoria de Ramón só existem, ao que se sabe, dez cartas inseridas no final do livro de seu irmão, Luis Mercader.[16] É injusto julgar alguém por cartas ocasionais, relacionadas à vida cotidiana. Mas o que se vê aí não é nem o herói, nem o carrasco. Talvez um militante disciplinado com todas as viseiras que podem cegar o cumprimento do dever em um regime de partido único. Mas essencialmente um pequeno burguês conservador interessado em acompanhar o rendimento escolar de seus filhos adotivos, para que possam depois conseguir um bom emprego, perseguindo-os com receitas moralizantes sobre o valor absoluto do trabalho.

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Pavel Sudoplatov

Temos também o Ramón Mercader que aparece pela palavra de Sudoplatov,[17] o mais alto responsável pelo assassinato de Trotsky, depois de Stalin e Beria. Ao longo de seu livro de memórias ditadas entre 1992 e 1994, ele não cessa de apresentar o assassinato de Trotsky como ápice dos serviços prestados por ele e Eitingon à União Soviética. Sudoplatov, que encontrou Ramón em Moscou, em 1969, não poupa elogios físicos e morais ao assassino: sedutor, alto, vigoroso, era “um verdadeiro revolucionário profissional, orgulhoso do papel que havia desempenhado na luta”. Nessa ocasião Ramón lhe teria dito:”Se eu tivesse que reviver esses anos 1940, eu refaria de novo, mas no mundo atual seria diferente.” Contou-lhe também os detalhes da execução do plano. Inicialmente a equipe chefiada por Kotov-Eitingon e Caridad tinha previsto um ataque à casa de Trotsky no momento em que Ramón estivesse lá dentro, de tal forma que ele se aproveitasse da confusão para atirar no alvo. Mas Ramón não concordou com esse plano e tomou para si próprio, sozinho, a execução do assassinato. Porém, no momento em que deu o golpe da picareta, Trotsky moveu ligeiramente a cabeça o que fez com que tivesse forças para gritar. Ramón tinha um punhal com o qual poderia ter terminado o serviço. E lamenta: “Veja que eu, um guerrilheiro treinado, que já havia matado uma sentinela durante a guerra da Espanha, fiquei quase inteiramente paralisado pelo grito de Trotsky”. [18]

O mesmo relato, com algumas diferenças, é feito por Ramón a seu irmão mais novo, Luis Mercader, no período em que, de volta do México, viveu na União Soviética, entre 1960 e 1974. Quando Luis lhe pergunta como entrou tão facilmente na casa de Trotsky e como, depois, não conseguiu fugir, Ramón retruca: “Quando vibrei o golpe de picareta na cabeça, o homem começou a gritar como um porco degolado. Imediatamente fui cercado e não pude fazer mais nada”. Ao irmão, Ramón justifica o assassinato – é ao menos o que declara Luis nos anos de implosão da União Soviética – com os mesmos velhos argumentos: Trotsky era um agente de Hitler, estava negociando com o embaixador alemão no México, que lhe dava dinheiro para sustentar a casa-fortaleza; às quintas-feiras dispensava os empregados e reunia-se com ele e seus mais chegados colaboradores. Teria sido só depois de saber disso que o governo soviético teria dado a ordem para matá-lo.[19] Quem mente aqui? Ramón, querendo justificar ao irmão um crime que este já aventava ter sido inútil e prejudicial a ele próprio, ou Luis, querendo desculpar seu irmão perante a posteridade?

Ele também conta ao irmão que assumiu por vontade própria a tarefa de cometer o crime sozinho. A causa, nesta versão, é que o fracasso do primeiro ataque à casa de Trotsky, em maio de 1940, chefiado pelo pintor comunista David Alfaro Siqueiros, provocou grande alvoroço entre os agentes soviéticos presentes no México. “Kotov-Eitingon ficou desesperado. Tinha ordem de Stalin para matar Trotsky e fazia questão de executá-la (…) Ramón e Eitingon eram amigos muito chegados e meu irmão sabia que o outro não poderia voltar à União Soviética sem ter concluído com sucesso a missão que lhe tinha sido confiada, seria morto”. [20]

O livro de Luis Mercader oscila entre os clichês stalinistas sobre os fatos, mediados já por uma declaração de profundo desconforto com a vida no interior do regime soviético, e a incorporação das denúncias que vieram à luz durante a perestroika. É na primeira parte do livro, fruto das primeiras entrevistas, que Luis se autoriza ser o porta-voz de Ramón Mercader, de umas memórias que o próprio nunca quis escrever. Para, diz Luis, “ajudar a lembrar objetivamente meu irmão Ramón Mercader del Rio e assim corrigir a enorme quantidade de mentiras e erros publicados sobre ele e minha mãe. (…) Ramón foi um herói da União Soviética. (…) Para muitos que escreveram contra eles é incompreensível que ambos pudessem ter arriscado desinteressadamente suas vidas, apenas por um ideal, por uma União Soviética que então consideravam ‘a pátria dos comunistas do mundo’. (…) Estavam dispostos a perder a vida, se necessário, porque eram verdadeiros comunistas, como se entendia esta palavra de 1917 a 1956”.[21] Tudo leva a crer, nas expressões repetidas de Ramón Mercader e na primeira parte do livro de Luis, que o grande mal da União Soviética tinha sobrevindo a partir das denúncias dos “crimes de Stalin” por Kruchev, no XXº Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956. De fato, desde que voltou, em 1960, Ramón perguntava por Eitingon, não compreendia porque os dois heróis, ele e Sudoplatov, estavam presos desde a queda do todo poderoso chefe dos serviços secretos, Beria. Teria mesmo feito gestões para que eles fossem liberados.[22]

A Morte de TrotskyInteressante é também, sempre considerando ser o ponto de vista do irmão mais novo, o retrato que pinta de Ramón. “Queria ser militar. (…) Era muito rígido no seu modo de ser e teria sido um militar exemplar. (…) Era um homem muito rígido também no âmbito sexual. Nunca soube de qualquer amizade frívola sua, de aventuras. Creio, por exemplo, que não tenha jamais colocado o pé em um prostíbulo. Era uma pessoa de exagerado puritanismo comunista. (…) Pode ser que entre Ramón e Sylvia Ageloff tenha existido uma terna amizade, mas nada além disso. (…) Era sério, preciso em todos os aspectos da sua vida e nas relações com os outros. Tinha, como já disse, uma psicologia de militar. Para ele, negro era negro, branco era branco.” [23] Seria Luis o puritano que descreve, ou seriam ambos moralistas?

Era também por estas características que Ramón criticava, não a mãe que o havia levado a ser agente do NKVD, mas a vida da mãe antes de aderir ao comunismo. No início dos anos 1920 Caridad, casada e com cinco filhos pequenos, havia tido intensas relações com os círculos anarquistas de Barcelona, frequentando também ambientes boêmios onde circulava muita droga. Ela ajudava ativamente às ações diretas dos anarquistas e por isso a família do marido a internou em um manicômio, à força, onde ficou por três meses. Ameaçada pelos anarquistas a família soltou-a. Data dessa época o seu vício de consumo de heroína. Esta era a mãe que Ramón Mercader criticava asperamente nos anos 1960, em Moscou: a drogada, a que havia abandonado o marido, “excessivamente” bom.[24] Também não perdoava a mãe, já caída em desgraça perante Beria, que o tinha desobedecido, indo direto da União Soviética para o México, em 1945.

E o quê se sabe da palavra de Kotov-Eitingon? Quase nada a não ser as referências às suas opiniões feitas por Luis Mercader e por Sudoplatov. Da parte do primeiro, fica-se sabendo que Eitingon foi um homem muito importante na vida de Ramón, muito admirado por ele, um grande amigo de toda a família Mercader. “Era um espião de alta categoria, um tipo simpático e agradável, mas com uma vontade de ferro: quando necessário a impunha sem hesitação”.[25]

De fato, percebe-se a “vontade de ferro” de Kotov-Eitingon neste relato das peripécias da operação para matar Trotsky, feita em 1997 pelo FSB (Serviço Federal de Segurança), a instituição que substituiu os antigos órgãos policiais na atual Federação Russa pós-soviética. A propósito do assassinato do jovem americano Sheldon Harte, agente soviético que se havia infiltrado dentro da casa de Trotsky como seu simpatizante, que favoreceu o primeiro ataque à casa-fortaleza e em seguida desapareceu com os invasores, o relato, baseado em documentos dos arquivos do NKVD, dá a palavra ao próprio Eitingon: “No momento da operação verificou-se que Sheldon era um traidor. Embora tenha sido ele a abrir a porta, no cômodo ao qual ele conduziu os participantes do ataque não havia nem os arquivos nem o próprio Trotsky. Quando os atacantes abriram fogo, Sheldon declarou que se ele soubesse disso, enquanto americano, jamais teria aceito participar. Este comportamento serviu de base para a decisão tomada localmente de liquidá-lo. Ele foi morto por mexicanos”. [26]

Na visão de Sudoplatov, Eitingon também se caracterizava por inúmeras qualidades: sedutor, sua arma era o humor, a ironia e a zombaria. Para além de elementos de sua biografia, o que Sudoplatov demonstra é que ambos conformavam uma dupla solidamente integrada, tendo trabalhado juntos nas chamadas “missões especiais” desde o momento em que se uniram, em 1939, para planificar o assassinato de Trotsky, até os tempos difíceis em que ambos foram presos como cúmplices de Beria, em 1953, e depois da soltura deles, no fim dos anos 1960. Desde aquele primeiro momento, diz Sudoplatov, tornaram-se amigos íntimos. “Para nós, os inimigos do Estado eram nossos inimigos pessoais”. [27]

Naum EitingonTodo o livro de Sudoplatov é permeado pela idéia da disciplina militar, da honra no cumprimento das tarefas de assassinatos e outras “violações da legalidade socialista”, como as chamou Kruchev. Tentando explicar o fracasso do primeiro ataque à casa de Trotsky, em maio de 1940, depois de descrever as circunstâncias em que se realizou, declara que tudo deu errado porque os atacantes – mexicanos e combatentes espanhóis da guerra civil – “não eram assassinos profissionais, treinados em ataques pessoais. Infelizmente Eitingon não tinha tomado parte na ação. Se ele tivesse participado, teria verificado os planos e se assegurado da morte de Trotsky.” [28]

A trajetória de Kotov-Eitingon, de assassino profissional em plena glória de sua carreira, separa-se tragicamente da de Sudoplatov em 1951. Stalin preparava novos complôs, novos processos públicos, novos expurgos como os dos anos 1936, 1937 e 1938. Uma imensa conspiração foi montada atingindo membros dos serviços de segurança e médicos, grande parte deles judeus, acusados, justa e injustamente, de assassinatos mediante envenenamentos e tratamentos médicos contra-indicados, abrangendo a morte de grandes personalidades ocorridas no passado recente. Era também uma campanha antissemita que augurava dias terríveis para os judeus russos. Quis no entanto a boa sorte que o ditador-chefe morresse em 5 de março de 1953, para alívio de todos os que ainda não tinham sido fuzilados ou morrido de fome nos campos de trabalho. Beria soltou imediatamente os acusados, como relata o próprio Sudoplatov. Pouco meses depois, com a queda de Beria e seu fuzilamento, os destinos de Eitingon e Sudoplatov uniram-se novamente, sendo ambos presos como cúmplices do ex-todo poderoso chefe da polícia secreta soviética.

Durante um certo período as memórias de Sudoplatov foram consideradas a fonte mais importante e única de revelações sobre a atuação dos serviços secretos soviéticos. Mas depois da abertura temporária dos arquivos secretos verificou-se que elas continham inúmeros erros.[29] Na verdade essas memórias são um tecido obviamente estruturado de contrainformação e mentiras, para tentar cortar pela raiz versões de crimes dos serviços secretos ainda não completamente esclarecidas e para se vangloriar das missões especiais que tiveram um resultado positivo para a “Pátria de todos os trabalhadores”. A continuada fé de Sudoplatov nessa política fica escancarada nesta singela observação sobre o seu idealizador, Stalin: “É difícil pensar que esse homem era capaz de enganar os outros, de tal forma eram simples as suas reações”.[30]

Que Ramón Mercader tenha sido torturado pela polícia mexicana no primeiro período após o crime, é a probabilidade mais certa. Mas Sudoplatov inventa quando diz que ele foi torturado “duas vezes por dia durante seis anos” e que a tortura só cessou quando sua verdadeira identidade foi descoberta.[31] Os relatos de Julián Gorkin, já citados, falam não apenas da montagem imediata de uma comissão permanente do NKVD na cidade de México para gerenciar a presença de Ramón na prisão, bem como da sem-cerimónia das visitas amigáveis de simpatizantes comunistas, muitos ligados à administração da prisão.[32]

Mas é o próprio FSB, no já citado texto de 1997, apoiado em arquivos do NKVD da época, que afirma que o preso recebeu, desde o início, um sólido apoio jurídico, através de uma advogada em contato direto com “dois agentes confiáveis,” ligados à “rede de Nova York”, com “instruções especiais”, e depois de 1943, diretamente da União Soviética. “Durante todo o período de encarceramento de ‘Raymond’ [código de Ramón], a partir de 1941, foram examinadas diversas variáveis para fazê-lo sair da prisão e deixar ilegalmente o país. (…) Assim, na primavera de 1945, ‘Raymond’ foi à cidade, ao dentista, em companhia de seu advogado. Não o tendo encontrado, eles passaram o dia todo na cidade. A saída se repetiu dois dias depois, desta vez o preso passeou livremente sem seu advogado, entrou em lojas. E no ano novo de 1946 foi-lhe permitido encontrar, no apartamento de um amigo, com um ex-detento com quem ele havia feito amizade”. Apesar disso estas ocasiões não foram aproveitadas para a fuga reprova o documento.[33] Como se vê, são as próprias fontes do NKVD que desmentem esta versão de seis anos de tortura com hora marcada. As saídas de Ramón da prisão para ir ao dentista ou à casa de um amigo são também relatadas no livro do jornalista mexicano José Ramón Garmabella, acrescentando a presença de uma escolta amigável. [34]

Sudoplatov mente ao atribuir a morte de Sheldon Harte ao fato de, na ocasião do primeiro ataque frustrado à casa de Trotsky, ele ter aberto a porta da casa e ter reconhecido um outro agente importante da equipe de assassinos, Ioussif Grigoulevitch. Ora, se culpado pela infração de segurança houve, foi a desse também célebre assassino profissional que bateu à porta. Então, diz Sudoplatov, Sheldon Harte teve que ser sacrificado. Outra mentira, como se vê, pela explicação já referida do relato do FSB.

Sudoplatov mente e, como bom stalinista, difama Ignace Reiss, agente secreto soviético residente na Suíça, que decidiu romper publicamente com Stalin, tendo sido assassinado em Lausanne, em 3 de setembro de 1937. Calunia Reiss, sugerindo que roubou dinheiro e indica dois nomes como únicos autores do crime, tentando limpar a barra de Serge Efron,[35] um dos russos brancos que tinham sido recrutados em Paris pelo NKVD, participante reconhecido do grupo que sequestrou o “trânsfuga”, conforme as minuciosas investigações das polícias suíça e francesa, graças a todas as provas deixadas pelos assassinos. Em seguida ao crime Efron se refugiou na União Soviética mas veio a ser preso em 1939 e fuzilado em circunstâncias não esclarecidas. [36]

Para retirar importância às confidências de Caridad Mercader a Castro Delgado, constantes na obra de Julián Gorkin, já mencionadas, fazendo tábula rasa do cargo desse militante como representante do PCE (Partido Comunista Espanhol) junto à Internacional Comunista no período pós-guerra civil espanhola, classifica-o de “quadro subalterno”, “primo longínquo de Fidel Castro” (talvez pense que todos os Castros do mundo são parentes). [37]

No caso de Léon Sedov, filho mais velho de Trotsky, morto em circunstâncias misteriosas, em 16 de fevereiro de 1938, em Paris, Sudoplatov advoga a tese de que se tratou de uma morte natural, sem intervenção dos serviços secretos soviéticos. Argumenta que não há referência alguma a essa morte nos arquivos e que ninguém foi condecorado por esse suposto feito.[38] O historiador Dmitri Volkogonov, em sua biografia de Trotsky, afirma que ninguém duvida de que Sedov foi envenenado, mas não há rastros. Lembra ainda que o NKVD tinha uma seção especializada em venenos. [39] Sedov havia sido Internado em uma pequena cliníca para uma banal cirurgia de apêndice que transcorreu bem. Mas depois de uma convalescença normal de quatro dias, entrou, de repente, em uma crise de agitação, começou a andar nu pelos corredores e a delirar em voz alta. Em seguida caiu na cama com febre alta e dois dias depois estava morto. A morte nunca foi explicada do ponto de vista médico. Soube-se, em seguida, que Sedov havia sido colocado nessa clínica, propriedade de russos brancos exilados em Paris e em estreito contato com o NKVD, por um agente soviético que se fazia passar por militante trotskista e amigo do morto, Mark Zborowski (Etienne). Tudo encaminhava à conclusão de mais um crime dos stalinistas. [40]

Na verdade, a morte de Léon Sedov só pode ser entendida se entrarmos no capítulo do laboratório de venenos, de cuja história fazem parte intrínseca Sudoplatov e Kotov-Eitingon. Sudoplatov fala longamente das atividades desse laboratório toxicológico (Labo X) criado por Lenin e defende a sua existência para o Estado soviético. Enumera as acusações relativas ao envenenamento de pessoas que levaram ele e Eitingon à prisão em 1953. E narra o processo que sofreu, relativo a algumas dessas mortes, na Rússia pós-soviética, conseguindo provar que embora tenha cometido esses crimes, o fez sob ordens superiores. [41]

A história de envenenamentos sistemáticos apareceu espetacularmente nos expurgos iniciados em 1951, ressurgiu depois nas acusações contra Beria e seus subordinados, entre eles, Sudoplatov e Eitingon, em 1953, e depois da implosão da União Soviética. Médicos faziam experiências sobre as consequências de venenos em prisioneiros supostamente já condenados à morte, avaliando a duração da agonia e a forma da morte, de modo a mascarar as causas em acontecimentos de saúde como enfarte, insuficiência cardíaca e outros. Eitingon é particularmente citado por um médico acusado, Maïranovsky, como alguém que permanecia no local da agonia do envenenado para ver a eficácia do produto.[42] Depois estes venenos foram utilizados em várias personalidades conhecidas, como, por exemplo, o diplomata sueco Raoul Wallenberg, que havia salvo milhares de judeus na Hungria ocupada pelos nazistas durante a guerra, depois sequestrado pelos soviéticos em janeiro de 1945, quando do avanço do exército vermelho, e morto em uma prisão moscovita, em 1947. Kruchev reconheceu a sua prisão e a morte por insuficiência cardíaca.[43]

Sudoplatov foi acusado na morte por envenenamento do agente secreto soviético Isaiah Oggins, de nacionalidade americana, em 1947.[44] Em suas memórias ele reconhece que um médico injetou-lhe veneno na prisão moscovita de Burtika, provocando sua morte, e diz: “Quando penso nesse episódio sinto remorsos por Oggins, mas nesses anos de ‘guerra fria’, não nos inquietávamos pelos métodos empregados para eliminar gente que sabia demais”.[45]

Daí porque a segunda parte do livro de Luis Mercader está profundamente empenhada em reconstituir a história da súbita alteração do estado de saúde de Ramón, em maio de 1974, em Moscou. Homem forte e saudável, de repente fica doente, mal consegue ficar em pé e respirar. Internado em um hospital, ninguém consegue diagnosticar exatamente qual é o seu mal e as suas causas. Depois de um período hospitalizado, melhora um pouco e sua saída para Cuba é, afinal, autorizada pelos seus superiores do aparelho policial. Sobreviverá só até 1978.

Inquieto com a doença, ainda em Moscou, Luis consegue saber que Ramón começou a passar mal poucos dias depois de participar de uma comemoração anual pela vitória contra os nazistas na Segunda Guerra, realizada na presença das mais altas autoridades partidárias e policiais. Nessa ocasião Ramón foi homenageado com um imponente relógio de ouro, contendo uma inscrição louvando-o como o “grande herói da União Soviética”. Luis narra este fato a Eitingon e este aventa, como pergunta, se “eles” não o teriam por acaso envenenado. Luis sabia com quem falava. O livro do irmão conclui, em um Post Sriptum, que Ramón Mercader foi envenenado através do relógio de ouro. E o que o fortalece na sua convicção são as denúncias da imprensa russa, datadas de 10 junho de 1990, sobre o laboratório de venenos e a implicação, não apenas do médico Maïranovsky, mas, entre outros, de Sudoplatov e Eitingon. [46]

No romance Padura dá muito pouca importância ao relógio de ouro e à denúncia de Luis. Ao terminar a leitura do livro do irmão do assassino o narrador, Iván, tem como primeira reação “sentir pena de si mesmo e de todos os que, enganados e utilizados” embarcaram na “utopia do Estado dos sovietes,” na “grande utopia do século XX”. Prevalece nele a “compaixão”. Ramón Mercader foi “carrasco e vítima.”

Sim, carrascos e vítimas de uma engrenagem com a qual contribuíram poderosamente foram também, entre os aqui citados, Beria, Serge Efron e Sheldon Harte, entre outros. Já David Siqueiros, Alexander Orlov, Mark Zborowski, Sudoplatov e Eitingon, bem como Stalin, morreram placidamente em suas camas, foram só carrascos. O mesmo não se pode dizer de milhões de outras vítimas ao longo da história da União Soviética. Para só falar do período em que os crimes aqui citados aconteceram: “Em 16 meses, de agosto de 1937 a novembro de 1938, cerca de 760 mil cidadãos soviéticos foram executados depois de terem sido condenados à morte por um tribunal de exceção ao cabo de uma paródia de julgamento. Ou seja, cerca de 50 mil execuções por mês, 1600 por dia. Durante o Grande Terror, um soviético adulto entre cada 100 foi executado com uma bala na nuca. Ao mesmo tempo, mais de 800 mil soviéticos eram condenados a penas de dez anos de trabalhos forçados e enviados ao Goulag.” [47]

Afinal, a partir do que se sabe sobre a ala dos assassinos de Trotsky e personagens do romance – Caridad, Ramón Mercader e Kotov-Eitingon – apenas ela chegou a entrever o absurdo dos assassinatos, desde que se aceite como verídica, na sua essência, a memória de seu desabafo feito a Castro Delgado em 1943, na União Soviética. Pelas memórias citadas de Luis Mercader e Sudoplatov, podemos ter a certeza de Ramón Mercader e Kotov-Eitingon permaneceram empedernidos defensores da política de “missões especiais” de assassinar, orgulhosos de seus feitos, considerando-os exemplos de uma militância comunista. Teria sido reconfortante para os que “inverteram suas esperanças e sonhos” no regime soviético que eles tivessem compreendido a “perversão da grande utopia do século XX”. Mas não compreenderam, como aliás, muita gente.

Nota sobre a autora

Angela Mendes de Almeida é historiadora.

Notas

Ver http://www.youtube.com/watch?v=fGE_W9FhzRY&feature=c4-overview&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ
2 Ver, por exemplo: http://comunidadestalin.org/
3 Boris Volodarsky, El caso Orlov – Los servicios secretos sovieticos en la guerra civil española. Barcelona, Critica, 2013, p. 89.
4 Cf. José Ramón Garmabella, Operação Trotski. Rio de Janeiro, Record, 1972, p. 191.
5 Hommage à la Catalogne, Paris, Éditions Ivrea, 2009.
6 Cf. Jesus Hernandez, La grande trahison. Paris, Fasquelle, 1953; Pierre Broué, História da Internacional Comunista, São Paulo, Sundermann, 2007, vol. II, p. 883; e Volodarsky, op. cit., p. 167.
7 Luis Mercader-German Sanchez, Mio fratello, l’assassino de Trotsky, Torino, Utet SpA, 1990.http://pt.scribd.com/doc/74328130/Mercader-Luis-e-Sanchez-G-Mio-Fratello-L-Assassino-Di-Trotskij
8 Ver: http://bataillesocialiste.wordpress.com/2009/05/23/valentin-gonzalez-el-campesino-lhomme-qui-vainquit-la-mort-en-espagne-et-en-urss-gorkin/
9 Julian Gorkin, L’assassinat de Trotsky, Paris, Julliard, 1970.
10 Enrique Castro Delgado, J’ai perdu la foi à Moscou, Paris, Gallimard, 1950.
11 Gorkin, op. cit., pp. 305-306,
12 Montserrat, sua filha, e Jorge, seu filho, eram agentes do serviço secreto soviético em Paris.
13 Ibid., pp.310-312.
14 Leonardo Padura, “La ultima hora de Caridad Mercader”, http://www.bitacora.com.uy/noticia_915_1.htmL
15 Gorkin, op. cit., pp. 313-314.
16 Luis Mercader, op. cit.
17 Pavel Sudoplatov et Anatoli Sudoplatov, avec Jerrold et Leona Schecter, Missions Speciales – Mémoires du maître-espion soviétique Pavel Sudoplatov. Paris, Seuil, 1994.
18 Ibid., pp. 110-115.
19 Luis Mercader, op. cit.
20 Ibid.
21 Ibid.
22 Sudoplatov, op. cit., p. 114.
23 Luis Mercader, op. cit.
24 Ibid.
25 Ibid.
26 Citado em “Opération Canard” – Nouveautés sur l’espionnage et le contre-espionnage, nº 19/100, 1997. – Em: “L’assassinat de Trotsky decrit par ses assassins”, http://www.inprecor.fr/article-inprecor?id=1005
27 Sudoplatov, op. cit., p. 101
28 Ibid., p. 107.
29 Volodarski, op. cit., p. 361.
30 Sudoplatov, op. cit., p. 98.
31 Ibid., pp. 112-113.
32 Ver também Pierre Broué, L’assassinat de Trotsky, Paris, Editions Complex, 1980, pp. 126-127.
33 “Opération Canard” – Nouveautés sur l’espionnage et le contre-espionnage, op. cit.
34 Operação Trotski, op. cit., pp. 167 e 177.
35 Sudoplatov, op. cit., p. 78.
36 Alain Brossat, Agents de Moscou. Paris, Éditions Gallimard, 1988, p. 215.
37 Sudoplatov, op. cit., p. 113.
38 Ibid., pp. 115-116.
39 Dmitri Volkogonov, Trotsky, The eternal revolutionary. London, Harper Collins Publishers, 1997, pp, 359-360.
40 Pierre Broué, Léon Sedov, fils de Trotsky, victime de Staline. Paris, Les Éditions Ouvrières, 1993.
41 Sudoplatov, op. cit., pp. 346-352.
42 Arkadi Vaksberg, Laboratório de venenos – De Lénine a Putin. Lisboa, Alethéia Editores, 2007, pp. 140-143.
43 Ibid, pp. 146-147.
44 Andrei Kozovoï, Les services secrets russes . Des tsars à Poutine. Paris, Éditions Tallandier, 2010, p. 138.
45 Sudoplatov, op. cit. p. 350.
46 Luis Mercader, op. cit.
47 Nicolas Werth, L’ivrogne e la marchande de fleurs – Autopsie d’um meurtre de masse – 1937-1938, p. 16.


Comentários 4

    • Luiz Manoel Navarro

      |

      mar 17, 2014

      |

      A morte de Leon Trotsky, somente interessava ao imperialismo. Stalin, já havia resolvido sua disputa e não tinha o menor interesse de assassinar Leon trotsky. A CIA provavelmente tenha sido a executora pois, foi seu governo quem de fato lucrou com o assassinato.

    • João

      |

      mar 17, 2014

      |

      É extraordinário até que ponto o fanatismo leva à imbecilidade delirante. Também conheço a tese de que foi a CIA e não a democracia ateniense a responsável pela morte de Sócrates. O único problema é que a CIA só foi criada em 1947.

    • Joventino

      |

      jan 15, 2015

      |

      Fazendo coro à sua afirmação, João. Acho também que a CIA é responsável pelo aquecimento global, pelo fato dos cubanos viverem no atraso em que vivem, pelos romenos só comerem cabeça de porco durante o regime comunista e vai por ai afora.

    • Ana Saavedra

      |

      mar 25, 2016

      |

      Brillante análisis, profundo y serio. Acabo de terminar la lectura de la novela de Padura, y aún me siento horrorizada por la información que allí se detalla. Espero que su artículo sea publicado pronto en forma de libro. La ideología del asesinato para mantener el poder en nombre del “pueblo” aún perdura, y la desinformación colabora con ella. Felicitaciones.

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