Linha Popular: um novo horizonte

Linha Popular: um novo horizonte

em 16 dez

Quando uma certa forma de luta é difundida e posta em ação por trabalhadores de outras quebradas. Essa tática já não pertence a uma determinada comunidade, mas à classe.  Por Passa Palavra

No último domingo, dia 14/12, a população do Jardim Novo Horizonte I e II organizou uma linha de transporte coletivo e um posto popular de saúde. O bairro, na Zona Leste de São Paulo, fica entre o Parque do Carmo e a Cidade Tiradentes, e não tem qualquer equipamento público de saúde, nem escola nem ônibus. Apesar das ruas serem asfaltadas, a Prefeitura não fornece nenhuma linha de ônibus e os moradores não têm escolha senão caminhar por trinta minutos em subidas muito íngremes; além de precisarem ir ao bairro vizinho, Jardim Helian, para conseguir ter um atendimento na Unidade Básica de Saúde.

linhapopularsite2A decisão de implementar por um dia os serviços públicos organizados pela própria comunidade evidenciou a ausência de atuação do poder público e permitiu a conversa direta entre a população sobre os problemas do bairro. Quando a médica fazia os atendimentos e media a pressão, as pessoas conversavam sobre os problemas de saúde e sobre a necessidade de um atendimento regular, evidenciando a carência de um posto de saúde no local. Já a linha popular, além de transportar gratuitamente — ou melhor dizendo: com Tarifa Zero — os moradores pelas ladeiras do bairro, era acompanhada por um megafone que divulgava a iniciativa e problematizava a ausência de uma linha regular na região. Com a organização local se conseguiu pôr em prática um já antigo desejo de integração das lutas por transporte e saúde.

O movimento do Jd. Novo Horizonte começou a partir de um grupo de jovens que, cansadas de subirem as ladeiras todos os dias, tendo que conviver com o cansaço e a falta de segurança, iniciaram conversas na paróquia local. A partir de então, começou uma articulação com o padre Paulo, militantes das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e militantes do Fórum Popular de Saúde de Itaquera que se organizaram para apoiar a comunidade.

Na primeira reunião, as jovens buscaram o apoio da Associação de Moradores e passaram de porta em porta divulgando a atividade, chegando a reunir mais de 60 pessoas na paróquia. Nessa reunião, foi apresentada a iniciativa da população dos bairros da Ponte Seca e do Mambu, no Marsilac, que em março deste ano organizou uma linha popular gratuita. Ficou decidido que “copiariam” a ideia no Jd. Novo Horizonte. Mesmo sem ter tido nenhum contato direto até então, a luta dos trabalhadores do Extremo Sul da cidade servia de inspiração para as trabalhadoras da Zona Leste.

Após essa primeira reunião, entraram em contato com a Luta por Transporte no Extremo Sul, pedindo ajuda para implementar a linha popular e a fim de entender melhor como foi a experiência do Marsilac. Houve então um segundo encontro da comunidade, no qual militantes do Movimento Passe Livre e da Luta do Transporte no Extremo Sul compareceram e compartilharam suas experiências práticas de luta, buscando uma articulação entre as mobilizações por um transporte que funcione de acordo com os interesses dos trabalhadores. Essa reunião, entretanto, ficou tensa após um sujeito que se declarava representante da “Associação de Passageiros de Transporte da Grande São Paulo” pedir a fala e defender que não era preciso fazer o protesto. Bastava que o deixassem marcar uma reunião de negociação, porque, garantiu ele, sua presença resolveria tudo, e deu sua palavra de honra que, junto com a Sptrans, implementaria a linha. Apesar de falar muito e de maneira incansável, a população do Jardim Novo Horizonte estava decidida a fazer a luta e não acreditar em promessas.

Comprovando que muitas venovohorizontezes os maiores inimigos da luta estão entre os que se declaram nossos aliados, o alegado representante dos passageiros espalhou boatos que a intenção era queimar a lotação na Avenida Jacú-Pessego, com isso o motorista que iria disponibilizar o ônibus desistiu do evento. Ainda assim a população manteve sua disposição de luta e, articulada com a solidariedade local, conseguiu uma Kombi para fazer o percurso da linha popular.

Mas seria mesmo a linha popular do Novo Horizonte uma “cópia” da iniciativa dos moradores do Marsilac? Mais apropriado seria falar numa “continuidade”: uma certa forma de luta, desenvolvida em um bairro, é difundida e posta em ação por trabalhadores de outras quebradas. A tática já não pertence a uma determinada comunidade ou coletivo, mas à classe. E é nessa continuidade que se abre caminho para novos contatos, articulações e construção de lutas comuns entre trabalhadores de diferentes bairros. Além da linha de ônibus, por exemplo, a proposta do posto de saúde popular já havia sido experimentada em 2013 pelos moradores do Cantinho do Céu, também no Extremo Sul.

As ações diretas organizadas nesse dia 14 serviram para mostrar a clara disposição de luta para garantir a efetivação dos serviços públicos no bairro. Construiu-se uma unidade prática entre militantes por transporte, por saúde, associação de moradores, CEBs, militantes da Ocupação Copa do Povo, em apoio aos moradores do bairro e para pensar a continuidade da luta de maneira conjunta com os outros bairros da cidade. O próximo passo já está marcado, com a exibição do documentário produzido sobre a linha popular no dia 24 de janeiro.


Comentários 2

    • Dayse

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      dez 17, 2014

      |

      Parabéns às moradoras e moradores do Jardim Novo Horizonte I e II! Certamente seu exemplo serve, assim como a iniciativa do Marsilac, como um incentivo à luta de todas e todos aqueles que passam pelo mesmo sufoco para se deslocar. Certamente há ainda mais bairros sem a disponibilidade de serviços públicos essenciais. Espero que assim como o Marsilac se organizou, como o Novo Horizonte se organizou, estas outras tantas comunidades se juntem em luta e em vitória por igual direito de acesso à cidade.

    • Neusa

      |

      abr 28, 2015

      |

      Brilhante a ideia!E incrivel como os bairros mais distantes somente parecem ter realidades diferentes,pois estão ligados pelas mesmas necessidades…
      São demandas que dependem de um pouco de vontade política e uma boa dose de empatia, para tornar humanizado o atendimento à população nos seus direitos mais essencias:questão de direitos humanos!

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