Desindustrialização e «gig economy» não explicam a fraqueza da classe trabalhadora nos EUA

Desindustrialização e «gig economy» não explicam a fraqueza da classe trabalhadora nos EUA

em 6 dez

Enquanto alguns trabalhadores perderam poder ao longo dos anos, muitos mais adquiriram novas fontes de poder em potencial. Por Kim Moody, comentado por Lucas Carlini

Nota aos leitores: Neste texto, Lucas Carlini apresenta uma versão comentada e traduzida ao português do artigo de Kim Moody, U.S. Labor: What’s New, What’s Not, originalmente publicado em Against The Current.

Introdução

O autor [Kim Moody] começa constatando de que há algo de diferente com a classe trabalhadora nos EUA atualmente. Uma diferença óbvia apontada pela The Economist é que os trabalhadores produzem menos coisas materiais e mais coisas imaterais. A pergunta que o guiará ao longo do seu artigo é a seguinte: «O que está realmente mudando na produção capitalista dos Estados Unidos?»

O primeiro movimento do seu texto é definir, de acordo com Marx, quem é o proletariado. Ele limpa o terreno afirmando que o proletariado não é definido de acordo com a mercadoria que produz, afinal para o capital é indiferente a natureza particular de cada esfera de produção. O proletariado define-se, portanto, em sua relação com o capital. Dessa maneira, ele elenca três condições básicas para definir classe trabalhadora: ter que vender sua força de trabalho por um certo período de tempo para viver; a exploração dessa força de trabalho gerar mais-valia; e a natureza do processo de trabalho ser puramente despótica.

Pelo menos 2/3 da força de trabalho nos EUA se encaixam nessas condições, segundo o autor. Os trabalhadores que não produzem mais-valia diretamente, mas que seu trabalho é submetido ao capital e devem trabalhar mais horas do que o necessário à sua reprodução, são igualmente explorados e também fazem parte da classe trabalhadora. Portanto, como classe, o proletariado compõe aproximadamente 3/4 da sociedade estadunidense.

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Definido o que e quem é o proletariado, ele traz à tona um debate atual que seria o quanto cada tipo de emprego está ou não mais precarizado. Ele afirma que se deter a esse ponto específico é deixar passar uma mudança muito importante em toda classe trabalhadora dos EUA: a queda no padrão de vida experienciada pela maior parte de nossa classe por lá. Ele aponta que o salário real da classe trabalhadora nos EUA continua abaixo dos níveis de 1972 e que 30% da força de trabalho depende de assistência social pública para viver (todos os dados sem fonte a partir daqui são do US Bureau of Labor Statistics – BLS, do departamento de trabalho dos EUA). Ele aponta ainda que a projeção desse instituto para 2014-2024 é que a maior parte dos trabalhadores ganharão menos de $2.699,00 por mês e que 1/3 disso ganhará menos de $1.799,00.

Outra tentativa de interpretar a nova realidade da classe trabalhadora se baseia na hipótese de que cada vez mais os trabalhadores produzem serviços e não mercadorias palpáveis e que o trabalho é cada vez mais instável e a rotatividade, cada vez maior. Há cada vez mais trabalhadores autônomos, que vivem de «bicos», há o precariado. Em resumo, os empregos não seriam mais como na era keynesiana-fordista: estáveis, jornada integral e bem pagos. O autor pondera de que essa é uma visão que não corresponde nem à época fordista-keynesiana, pois em todas economias industriais há uma certa rotatividade e instabilidade nas diferentes relações de trabalho.

Nos próximos pontos, o autor irá se deter em cada umas dessas explicações pós-fordistas/pós-keynesianas e mostrar o porquê delas não se sustentarem.

1. “The Gigariat” (os trabalhadores que vivem de “bicos”) — “Gig” é uma expressão utilizada pelos músicos, os quais realizam diversos shows em vários lugares diferentes para sobreviver. Nesse caso, se refere aos trabalhadores que não têm emprego fixo e têm que realizar diversos “bicos” para ganhar a vida.

A “gig economy” teria surgido após a grande recessão de 2008. Com a queda da economia, os desempregados passaram a ganhar a vida trabalhando em 2 ou mais empregos, algumas vezes por meio de aplicativos de internet como Uber. Apesar do Uber negar que é um empregador, ele e outras grandes plataformas online nada mais são do que aplicativos que realizam o elo entre o empregador e o “gigster” (o indivíduo que vive dos bicos). Ou seja, os gigster, na maioria das vezes, não são trabalhadores autônomos.

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Para analisar a expressividade desse setor, o autor irá analisar a categoria de pessoas que trabalham em múltiplos empregos. Surpreendentemente, apesar de haver milhões deles, esse número não varia muito desde da década de 90: 1994 – 7.260.000 / 2007 – 7.655.000 / 2010 – 6.878.000 / 2015 – 7.262.000. Aliás, a porcentagem da força de trabalho nessas condições em relação ao conjunto da força de trabalho empregada caiu de 6% em 1990 para 4,9% em 2010-2015, mantendo o mesmo índice da década de 70, que também era de 4,9%.

Além disso, dentre aqueles que detêm múltiplos empregos, 55%-58% possuem um emprego fixo cuja jornada é integral e, eventualmente, realizam algum bico. Nos outros 45%-42% de fato há verdadeiros gigsters, como os músicos, mas os números dessa parcela vêm caindo desde 1990.

Os trabalhadores autônomos também são contabilizados como gigsters. Dentre eles, há os trabalhadores não registrados, que equivalem a 2/3 dos autônomos. No entanto, apesar de terem crescido nos anos 80, desde 1990 eles vêm caindo e atualmente compõem a mesma proporção de 1967 em relação a força de trabalho total nos EUA. Os outros 1/3 dos autônomos se referem mais a pequenos burgueses, como donos de pequenas lojas.

Outro erro dessa análise é a caracterização de trabalhadores sazonais, trabalhadores da construção civil e alguns caminhoneiros como autônomos, por serem «contratantes independentes»; isto é, trabalham para si próprio e para outrém (semelhante à Pejotização). Na verdade, isso é apenas uma manobra legal para os patrões não pagarem os direitos, as taxas e os benefícios aos seus trabalhadores.

Dessa forma, nos parece que os entusiastas da gig economy olharam para as tendências dos empregos por poucos anos desde a grande depressão de 2008 e a generalizaram para o futuro. O que eles viram foi apenas uma característica natural da variação cíclica dos trabalhadores em múltiplos empregos acompanhada de um marginal aumento da procura de empregos via internet. No entanto, a procura de empregos via internet não nos diz nada sobre a estabilidade desse emprego. Esse poder continua nas mãos do capital, o qual é o verdadeiro regulador do mercado de trabalho e dos empregos e que é o atual empregador de cada vez mais trabalhadores.

Se não há evidências suficientes para apontar um florescimento do gigariat, o que resta para os jovens trabalhadores – num mercado de trabalho com altos níveis de desemprego e empregos com baixos salários (precários ou não) – é um futuro sombrio.

2. Ou “Precariat”? (o “precariado”)

Diferente do gigariat, esse neologismo (precariado) tem um apelo maior à realidade. Um resultado da flexibilização da força de trabalho exigida pela reestruturação produtiva seria o aumento dos empregos precários: trabalhos temporários, com contratos curtos, trabalhos via telefone (call center e outros), jornada de meio período e como contratantes independentes.

Dentre os trabalhadores meio-período, há aquelas categorias cujo regime de trabalho sempre foi meio-período, em torno de 25h-30h por semana e, portanto, não se configuram como um fenômeno novo nem devem ser incluídos no precariado. Dentre esses trabalhadores, houve o crescimento de 7 milhões em 1990 para 20 milhões em 2015, o que é totalmente explicado pelo crescimento dos empregos no comércio, na saúde, administração, esgoto/limpeza urbana, lazer e turismo.

Os trabalhadores em situação precária nos EUA cresceram de 18,7 milhões em 1995 para 21,7 milhões em 2005, o que é um crescimento expressivo do trabalho precário para uma década. Porém, em comparação à força de trabalho total, foi apenas de 15,2% em 1995 para 15,5% em 2005. Não há dados específicos desse setor antes de 1995, mas pode-se inferir por outros dados que esse setor cresceu a partir da década de 80/90 com o início da reestruturação produtiva. Por exemplo, o número de trabalhadores como contratantes independentes subiu 1,6 milhões de 1980 a 1995.

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Ainda assim, apesar dos trabalhadores temporários atingirem os nunca antes vistos 2% do total da força de trabalho não agrícola em 2015, os contratantes independentes caíram de 7,4% em 2006 para 6,3% em 2015. Ou seja, parece que houve um aumento real dos empregos precários, mas não o suficiente para alterar a proporção desses empregos no conjunto da força de trabalho. É difícil negar a conclusão de que o precariado não cresceu tanto desde 1990 quanto algumas contas exageradas apontam. Parece-nos, ao contrário, que a grande maioria dos trabalhadores, em torno de 85%, ainda possui relações de trabalho «tradicionais», a despeito de tanto eles quanto os precários sofrerem atualmente com redução salarial e piores condições de trabalho.

Esses apontamentos se confirmam quando olhamos para a estabilidade no emprego dos EUA de 1979 a 2006. Entre os trabalhadores com 25-34 anos de idade, o número de anos no mesmo emprego caiu de 3,8 anos para 3,5 anos. Entre os de 35-44 anos de idade, caiu de 7,1 para 6,6 anos. Entre os de 45-54 anos de idade caiu de 11,3 para 10,3. Ainda, o BLS aponta que juntando trabalhadores de todos os ramos, idades e salários, a média de estabilidade subiu de 3,5 em 1983 para 4,6 anos em 2014.

Um número de quase 20 milhões de trabalhadores em empregos precários não é pouco e nem há que se negligenciar a influência de tantos precarizados nas condições de trabalho dos outros trabalhadores. É verdade, cada vez mais se tornam raros os empregos que oferecem um plano de carreira e benefícios; os salários continuam baixos ao longo do tempo. No entanto, a maioria dos trabalhadores detém seus empregos por uma certa quantidade de anos. Aliás, quanto mais tempo uma pessoa é assalariada, mais chance tem de durar seu emprego. Portanto, a ideia de que os trabalhadores mudam de emprego toda hora, o que inviabilizaria sua organização no local de trabalho, é errada.

3. Um proletariado em mudança

Uma importante mudança na composição da classe trabalhadora empregada é a proporção de trabalhadores negros e latinos, a qual subiu de 15-16%, considerando trabalhadores da indústria, transportes, logística e serviços em 1981, para algo em torno de 40% em 2010. A imigração cumpriu um importante papel nesse sentido. Junto com os negros e as mulheres, a força de trabalho imigrante irá ocupar a grande parte dos trabalhadores pior remunerados. Alguns deles também irão se juntar ao movimento sindical. Entre 2011-2014, 200.000 latinos se sindicalizaram e 96.000 asiáticos de 2013-2014.

Contudo, o que é mais comentado é o declínio do emprego industrial de 27% trabalhadores diretos em 1980 para 11% em 2010. Essa mudança frequentemente leva a especulações sobre a diminuição da importância e da força da classe trabalhadora nos EUA. Apesar da força de trabalho direto da indústria nos EUA vir declinando há muito tempo, essa drástica queda de 5 milhões de trabalhadores nesse setor desde 1980 exige uma explicação.

No movimento dos trabalhadores é comum pôr a culpa no comércio, na circulação de mercadorias. Claro, indústrias como a têxtil, vestuários, aço etc. viveram grandes perdas devido à importação. Porém, isso corresponde apenas a 20% daqueles 5 milhões. Outro grande culpado seriam as empresas estrangeiras, o que também não se sustenta, pois o conteúdo nacional da indústria dos EUA mantém-se entre 85-95%, enquanto a média mundial é 72%. Países centrais como EUA e Japão tendem a ter significativas cadeias de produção internas e depender menos de importação.

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As explicações via comércio não se sustentam, pois a produção industrial dos EUA, ao invés de cair, aumentou 181% de 1982-2007. Numa média anual de 5%, um pouco abaixo dos 6% dos anos 60 (momento de ascenso da luta dos trabalhadores nos EUA). O mistério por trás dessa perda de empregos massiva está na destruição de capital de um lado e, no outro, no aumento da tecnologia incorporada na indústria nos últimos 30 anos.

A destruição massiva de empregos não ocorreu de maneira linear, seguindo o aumento da importação de mercadorias dos EUA. Mas sim nos períodos de crise, nos quais o capital se destrói para continuar acumulando: 1980-82 – 2,5 milhões de empregos a menos na indústria; 1990-92 – 725 mil; 2000-03 – 678 mil; 2008 – 2 milhões. Nos períodos entre as crises, a produção cresceu a 6% ao ano, mas os empregos mantiveram-se baixos, devido ao ganho de quase 3% em produtividade ao ano com aplicação de novas tecnologias e métodos típicos da reestruturação produtiva, os quais aumentaram a padronização, controle e qualidade da produção, além da intensificação do trabalho.

A intensificação do trabalho nos EUA pode ser medida pela redução do tempo de intervalo de 13% da jornada nos anos 80 para 8% nos 2000. Intensificação do trabalho e aumento do investimento estão por trás desse fenômeno. Enquanto o capital fixo dobrou de 1979-2004, o emprego industrial reduziu mais de 40%.

Olhando para a economia como um todo, com a diminuição dos investimentos em capital variável e o aumento em capital constante, a relação capital constante/capital variável manteve-se estável nos anos 70, aumentou nos 80 e mais ainda nos 90, crescendo em quase 70% até a recessão em 2008. O aumento dos empregos nos «serviços», por outro lado, é explicado por ter menos horas de trabalho na indústria. Assim, há um grande aumento do trabalho mercantilizado na reprodução social.

Com a entrada das mulheres massivamente no mercado de trabalho nos anos 50 e o crescimento de mulheres com filhos de 1979-2012, o capital adentrou e reorganizou a mercantilização de diversos aspectos da reprodução social tipicamente feitos em casa, como alimentação, cuidado com os mais velhos, cuidado com a saúde etc.. . Essa tendência criou cerca de 8 milhões de novos empregos nos serviços de 1990-2010. Milhões e mais milhões de empregos foram criados para manter o aumento da composição orgânica do capital e limpar os efeitos colaterais de sua acumulação. A maioria desses empregos são mal remunerados e ocupados por mulheres, negros e imigrantes.

4. Just in time

Uma das características do capitalismo é que sua estrutura de produção e distribuição muda ao longo do tempo, devido à competição intercapitalista. Dessa maneira, na época da reestruturação produtiva (“lean production” – produção automatizada), no final dos anos 80 e início dos 90, os capitalistas do «cinturão da ferrugem» (“Rust Belt” – área industrializada nos EUA entre Chicago e Nova Iorque) tentaram escapar das concentrações urbanas que fomentaram o sindicalismo e aumentaram os custos da força de trabalho.

A realocação de áreas urbanas para área semi-rurais e a descentralização da produção por meio da subcontratação, terceirização e mudança de plantas industriais para outros países varreu não somente a indústria, mas também os serviços e a logística. Para os trabalhadores e sindicatos, isso significou desmembramento e fragmentação. Para uma grande parcela da esquerda essa ainda é a narrativa dominante. No entanto, a mesma competição que trouxe essa fragmentação gerou duas principais contra-tendências.

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Sob a pressão da competitividade interna e externa, a realocação geográfica e a descentralização da indústria suscitou a reorganização das redes de suprimento ao longo das cadeias de produção just-in-time, com um reduzido número de fornecedores e um sistema de fornecimento de matéria-primas altamente tecnológico e interligado. Tudo isso organizado ao redor de grandes «bolsões» de logística que empregam dezenas de milhares de trabalhadores em áreas geográficas relativamente restritas.

85% dos aproximadamente 3,5 milhões de trabalhadores de logística nos EUA moram em grandes áreas metropolitanas – inadvertidamente recriando grandes concentrações de trabalhadores em diversas dessas áreas que deveriam estar «esvaziadas» de trabalhadores industriais. Há em torno de 60 desses aglomerados nos EUA, mas a maioria deles em Chicago, Los Angeles e Nova Iorque-Nova Jersei, cada um com pelo menos 100 mil trabalhadores desse setor, além de outros centros de distribuição, como a FedEx, que exemplificam essa tendência. Além disso, há o surgimento de diversos grandes depósitos de mercadorias nessas regiões e, como se não bastasse, boa parte desses trabalhadores cumprem tarefas finais da produção, inclusive na importação.

A grande maioria desses trabalhadores encaixa-se na definição de Marx – presente no Grundisse e no segundo volume do Capital – de trabalhadores dos transportes produtores de mais-valia que fazem parte do processo de produção. Com a descentralização geográfica da produção, veio a produção just in time e os sistemas de integração guiada que aniquilam o espaço pelo tempo e diminuem a distância entre as concentrações de trabalhadores. Como consequência, há também aumento da vulnerabilidade às ações organizadas de trabalhadores nessas áreas que interligam as cadeias de fornecimento, os «nós» de logística e os locais de produção.

5. Consolidação Industrial

Outra consequência da competição interna e a nível global foi o maior movimento de fusões e incorporações na história do capitalismo estadunidense. Em 1980, foram 1.560 fusões e aquisições no valor de U$32,9 bilhões; crescendo para 4.239, que valeram U$205,6 bilhões em 1990; e alcançando 11.169 no valor de 3,4 trilhões em 2000.

A partir de 2000, as aquisições estabilizaram em torno de 7.000 por ano até a grande recessão, e depois voltaram a crescer. Diferente das fusões dos anos 60 e 70 (na qual as grandes empresas se apoderaram de negócios em ramos diferentes), essas ondas de fusões recentes ocorreram ao longo das cadeias de produção. Ou seja, as empresas estão voltando aos seus nichos de ação originais e buscando aumento dos lucros via ganho da fatia do mercado e devorando os competidores.

Esse cenário, associado ao aumento da composição orgânica do capital, significou a concentração e a centralização de capital em indústria após indústria, resultando não no «monopólio», mas sim num ainda mais intensa competição de empresas enormes. Alguns exemplos são: em 2009, as 10 maiores indústrias de auto-peças controlavam 1/3 do mercado de equipamentos nos EUA; as 4 maiores indústrias de alimentação controlavam de 75%-81% da produção de comida nos EUA; UPS e FedEx empregam 40% dos trabalhadores que entregam mercadorias; 5 empresas de frete ferroviário empregam 80% dos trabalhadores nesse setor.

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Atualmente, 4 companhias de telecomunicação controlam 90% do mercado com fio e sem fio. Desde 2000 o número de grandes empresas de linhas aéreas caiu de 10 para 4. Essa concentração também se aplica aos hospitais e comércio, com Amazon e Walmart. Podemos continuar dando exemplos, porém o que importa é que o capital consolidou a tendência de cada vez mais trabalhadores serem empregados por empresas cada vez maiores ao longo das cadeias de produção.

Ao mesmo tempo, mais e mais trabalhadores estão empregados em locais de trabalho que possuem mais capital e mais trabalhadores. A grande maioria dos trabalhadores nos EUA, em torno de 80%, sempre trabalhou em locais de trabalho relativamente pequenos, com menos de 500 trabalhadores e essa proporção não mudou muito. Por outro lado, enquanto o número de trabalhadores fabris por estabelecimento diminuiu, o número de trabalhadores que trabalham em instalações industriais com mais de 500 ou 1000 trabalhadores aumentou. De 1986 a 2009 há 8,2 milhões de trabalhadores a mais em locais de trabalho com mais de 500 empregados, enquanto 5,7 milhões a mais trabalham em locais com mais de 200 trabalhadores. Um dos grandes ganhos foi na área da saúde, na qual 4,4 milhões de trabalhadores a mais estão empregados em instalações com mais de 1.000 trabalhadores, hospitais pesando muito nessa conta. Por fim, cada vez mais trabalhadores nos serviços trabalham em grandes concentrações, como hospitais, hotéis, call centers e grandes centros de distribuição que, juntamente com os «bolsões de logística», são parte das fábricas atuais.

6. Tomando as rédeas

Com a virada para o século 21, essas tendências analisadas – reestruturação produtiva (lean production), aumento da intensidade do capital no trabalho, a «revolução da logística» e a consolidação industrial – convergiram para alterar o terreno do conflito entre as classes, assim como a estrutura da indústria e da classe trabalhadora.

O espectro da «desindustrialização» ainda assombra grandes partes do país e continua a imbuir o proletariado industrial com um sentimento de perda de poder. Enquanto não deveria haver nenhuma «re-industrialização», nenhuma usina de aço imponente ou fábricas de automóveis nos centros das grandes cidades, a produção de bens e serviços foi reestruturada, concentrada e interligada de diversas formas que podem ser uma vantagem à organização e ação da classe trabalhadora.

Atualmente, tanto a produção de bens quanto de serviços se aproximam das linhas de produção que fizeram o sindicalismo industrial possível nos anos 30 nos EUA. Além disso, o aumento do capital constante permite maiores ganhos aos trabalhadores. Finalmente, os sistemas de logística just-in-time que entrelaçam a produção da maioria de bens e serviços torna todo sistema mais vulnerável à ação dos trabalhadores. [1]

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A grande concentração de trabalhadores nos bolsões de logística nas áreas metropolitanas providencia um alvo de organização numa escala que pode reverter o declínio do sindicalismo. Enquanto alguns trabalhadores perderam poder ao longo dos anos, muitos mais adquiriram novas fontes de poder em potencial.

Essas são as condições objetivas e não garantias de sucesso. Há, no entanto, sinais de que a passividade e a resignação, que perduraram por tanto tempo, estão passando sobretudo aos jovens. De caminhoneiros a professores existem rebeliões vindas de baixo para cima em diversos sindicatos que rejeitaram as normas do sindicalismo burocrático-empresarial. Até trabalhadores que outrora pensavam ter pouco poder social se embrenharam na ação e estão conseguindo se organizar em hotéis, serviços de construção, hospitais e algumas redes de fast food.

A resistência e organização em algumas das principais categorias da classe trabalhadora produziu um novo ativismo em grupos de direitos humanos dos imigrantes, nos crescentes trabalhadores das cidades grandes, o movimento Black Lives Matter, a luta pelo salário mínimo de $15 por hora, greves à revelia do sindicato em alguns fornecedores de mercadorias e Walmarts, até na candidatura à presidência de Bernie Sanders, na qual um setor do movimento dos trabalhadores se engajou.

Além disso, em 2014, 56% da «geração y» se caracterizaram como classe trabalhadora ao invés de classe média, seguidos por 50% da «geração x» e 44% dos «baby-boombers». Mais surpreendente são as grandes porcentagens nas recentes pesquisas que mostram adultos com uma imagem positiva do socialismo ou que votariam num socialista. O renascimento do movimento dos trabalhadores pela base junto com as novas formas rudimentares de consciência de classe e uma abertura política podem se espalhar numa organização permanente dos trabalhadores, se, e aqui temos um grande «se», os sindicatos assumirem essa tarefa e adotarem esse ativismo ou se os trabalhadores nessas novas áreas-chave assumirem esse trabalho eles mesmos.

Nota
[1] Um exemplo dado numa entrevista do autor ao Labor Notes (organização sindical dos EUA), cita-se o caso duma empresa de auto-peças nos EUA, de apenas 60 funcionários, na qual todos trabalhadores eram terceirizados e que ela sozinha fornecia quase todo material necessário à produção da Ford em Ohio. Um dia de greve desses trabalhadores e, no outro, a Ford não teria material suficiente para produzir. Os trabalhadores, só de ameaçarem uma greve, conseguiram ser todos admitidos como trabalhadores diretos da empresa, ter os acordos cumpridos e reconhecimento legal do sindicato que eles fundaram.

As fotografias que ilustram este texto são de Tomasz Lazar.


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