“Stikyhiynost”: a Revolução de Fevereiro, espontânea ou planejada?

“Stikyhiynost”: a Revolução de Fevereiro, espontânea ou planejada?

em 22 mar

Uma análise sobre a ideia da espontaneidade na Revolução Russa de 1917. Por Nick Heath

Apesar de todos os agrupamentos revolucionários da Rússia saudarem a Revolução de Fevereiro de 1917, eles também negaram a responsabilidade por eclodi-la. Isso inclui os poucos bolcheviques clandestinos que estiveram ativos nos acontecimentos. Dessas recusas, surgiu a teoria da natureza espontânea da Revolução. Como escreveu E. H. Carr em A Revolução Bolchevique:

A Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou a dinastia Romanov, foi o levante espontâneo de uma multidão exasperada pelas privações da Guerra e pela desigualdade patente na distribuição dos sacrifícios. Ela foi saudada e utilizada por um amplo estrato da burguesia e da burocracia estatal, que haviam perdido sua confiança no sistema autocrático, especialmente na pessoa do Czar e seus conselheiros; foi deste setor da população que o primeiro Governo Provisório foi formado. Os partidos revolucionários não cumpriram nenhum papel na construção da Revolução. Eles não a esperavam, e num primeiro momento ficaram um tanto perplexos com ela.

Katkov, em seu Rússia 1917: a Revolução de Fevereiro, discorda desta visão. Ainda que concorde que os partidos revolucionários foram mais ou menos passivos, ele pontua que a palavra “stikhiyny” — espontâneo — sugere, num grau maior do que sua tradução, que as dificuldades da guerra levaram ao: “grau de coesão e intencionalidade necessário para uma efetiva ação política”. Segundo ele, o termo “espontâneo”, como definido por Carr, indicaria uma predisposição das massas em organizar manifestações multitudinárias como em São Petersburgo. Ele argumenta que, se tal predisposição à ação existiu, por que ela não se manifestou em outras partes do Império Russo onde prevaleciam exatamente as mesmas condições? E argumenta ainda que, se essa predisposição existia, por que não houve continuidade das ações entre os trabalhadores nos meses seguintes? Todavia, tais questionamentos parecem pedantes quando comparados com testemunhos oculares, por exemplo o de Trotsky. [1]

Contra a teoria da espontaneidade é contraposta uma teoria conspiratória. Não há evidências de nenhum grupo liberal chamando os trabalhadores à greve. De fato, o círculo Gachkov fizera planos para um golpe palaciano em março, mas foi ultrapassado pelos eventos, e seria exatamente aquilo: um golpe palaciano, completamente desvinculado de qualquer noção de levante popular. Os liberais contribuíram, sim, para atmosfera geral com sua enxurrada de propaganda antigovernamental, mas nada fizeram além disto, salvo pelo envolvimento de alguns dos oficiais da guarnição de São Petesburgo no pretenso golpe, que pode ter minado a moral dos oficiais como um todo.

Assembleia de deputados operários no soviete de São Petersburgo.

Não se pode dar credibilidade nem à teoria de que agentes provocadores do governo incitaram um levante que virou uma revolução. Realmente, agentes de Protopopov se infiltraram em círculos operários. Eles tentaram promover ideias derrotistas nos Comitês de Indústrias de Guerra a fim de desacreditá-los aos olhos do público. Não havia planos de mobilizar os trabalhadores nas ruas. A verdade é que Protopopov temia a ideia de fatalidades nas ruas de São Petesburgo.

Pode-se argumentar que a Revolução de Fevereiro não foi só a ação das massas, e que uma confluência com os elementos liberais que rejeitavam a autocracia czarista fez com que a revolução acontecesse e desse resultados. Mas essas duas forças, ainda que tenham trabalhado lado a lado, não tinham qualquer unidade de objetivos e ações. Ainda que ambas estivessem se movimentando para derrubar o Czar, elas frequentemente se viam em oposição uma à outra.

Rosa Luxemburgo definiu uma revolução espontânea como aquela iniciada pelas massas e não dirigida por uma elite ou partido revolucionário. Dos relatos de Fevereiro, podemos ver que os trabalhadores foram à luta, não com a intenção de começar uma revolução, mas com certos objetivos em mente, e sem a liderança de minorias revolucionárias organizadas. Neste sentido, os primeiros momentos da revolução podem ser descritos como espontâneos. É preciso lembrar que as primeiras ações, no dia 23 de fevereiro, foram organizadas em torno do Dia Internacional das Mulheres. Panfletos dizendo que a guerra prejudicava os trabalhadores, especialmente as mulheres, foram distribuídos pelos Mezhraiontsy (este grupo, que contou com Trotsky entre seus aderentes, era formado tanto por mencheviques quanto por bolcheviques, e se opôs ao racha no Partido Social Democrata Russo). Apesar de seu tom inflamatório, o panfleto pretendia ser meramente formativo. Não foi concebido com o objetivo de levar os trabalhadores às ruas.

Os bolcheviques, por sua vez, consideravam a construção da força organizativa de seu partido como vital, e se recusaram a gastar energia desnecessariamente fazendo propaganda relativamente insignificante. Alguns militantes de base se incomodaram e chamaram ações mais ousadas, incluindo greves. Um operário bolchevique organizou um comício de mulheres trabalhadoras para explicar o significado do Dia das Mulheres, mas conclamou-as a não entrar em ação e a seguir apenas as diretivas do Partido Bolchevique. Todavia, todos os grupos revolucionários subestimaram os ânimos dos trabalhadores. Como o próprio Trotsky admitiu, “A revolução começou a partir de baixo, superando a resistência de suas próprias organizações revolucionárias, com as camadas mais oprimidas e subjugadas do proletariado tomando a iniciativa segundo sua própria vontade”.

Aconteceram comícios no distrito de Vyborg, e uma massa de mulheres marchou até a Duma Municipal exigindo pão. Cerca de 90 mil trabalhadores, tanto mulheres quanto homens, entraram em greve. Operárias foram das fábricas têxteis às metalúrgicas para chamar os homens a aderirem à greve.

Nas fábricas, os bolcheviques foram colocados em seu devido lugar. Eles sabiam que seu Comitê Central estava relutante em partir para a ação direta. Por outro lado, eles não queriam ficar isolados. Conforme disse o bolchevique Kaiurov (que advertira as operárias no dia anterior), “eu estava extremamente indignado com as ações dos grevistas. Não só ignoraram descaradamente as decisões do comitê distrital do Partido, como justamente na noite anterior eu tinha pedido às trabalhadoras que se mantivessem contidas e disciplinadas. E de repente, esta greve. Parecia que não tinha objetivos ou propósitos, se não levarmos em conta a sempre crescente falta de pão, que foi fundamentalmente o motivo da greve”. Após consultar os socialistas revolucionários e os mencheviques, ficou decidido levantar as palavras de ordem “Abaixo a guerra” e “Queremos pão”. Kaiurov relembra: “Foi adotada minha proposta de que, uma vez que decidíssemos agir em protesto, deveríamos levar imediatamente levar todos os trabalhadores às ruas, sem exceção, e assumirmos, nós mesmos, a frente da greve e da manifestação.

Primeiro número do Izvestia, jornal do soviete de São Petersburgo.

O mesmo cenário se repetiu em outras fábricas. Então, por mais que a revolução tenha começado espontaneamente em São Petesburgo, ela foi sendo transformada em uma mobilização altamente politizada pelos elementos mais experientes entre os trabalhadores. À noite, alguns bolcheviques de Vyborg se reuniram e tomaram várias decisões importantes, incluindo a intensificação das atividades de propaganda entre os trabalhadores e três dias de greve geral. Eles estavam agindo independentemente do líder local do Partido, Shliapnikov, que desaprovava essas ações diante do cenário de falta de recursos e pessoas. Mas o próprio movimento grevista criara um número de trabalhadores com senso de direção, independente de qualquer organização política. Na falta de qualquer instrução clara da organização partidária, criou-se ao nível da base uma cooperação entre socialistas-revolucionários, mencheviques, bolcheviques e estes militantes sem partido, produzindo uma unidade na ação.

O Domingo Sangrento de 26 de fevereiro fortaleceu a determinação da massa de trabalhadores em seguir na luta, embora tenha enfraquecido temporariamente a determinação dos líderes. Quarenta pessoas foram mortas e outras quarenta feridas na praça Znamenskaya por metralhadoras operadas pelos guardas, chegando a 150 baixas durante o dia. As pessoas do Partido ficaram mais exasperadas do que encorajadas por tais eventos. Os bolcheviques tinham pouca confiança no movimento que tinham apenas seguido ao invés de incitar, porque era estranho ao método da insurreição armada que, segundo eles, era o único que poderia ter sucesso.

Kazhurov, um dirigente bolchevique, disse: “A revolução está se esgotando. Os manifestantes estão desarmados, ninguém pode fazer nada contra o governo agora que ele partiu para o tudo ou nada”. Quando Chugurin propôs “comandos armados”, Shliapnikov se opôs, temendo que algum ato imprudente pudesse colocar os soldados contra os trabalhadores. Seria melhor continuar o trabalho de propaganda para “ganhar os soldados e paralisar o czarismo”. Convencidos de que a revolução não poderia ter sucesso, mal informados sobre o escrito mais recente de Lenin que apontava o contrário e subestimando o movimento, especialmente porque era um movimento anônimo e não conseguiam controlá-lo, os dirigentes bolcheviques, malgrado sua aptidão para se organizar entre as massas, confessaram sua incapacidade de tomar iniciativas políticas sem que houvessem recebido ordens.

Já para os mencheviques, “a reação está crescendo; a inquietação nas fábricas é secundária. Está claro que os operários e os soldados não têm os mesmos objetivos. Os primeiros não podem sonhar acordados com a revolução, mas se preparar para dias melhores a partir de uma propaganda sistemática nas fábricas”.

Foram precisamente os motins de soldados, de novo sem incitação de nenhum dos partidos revolucionários, que deram a faísca ao combustível dos protestos das mulheres e operários e fizeram com que se conflagrasse uma revolução. Agora, os saques a padarias e confeitarias em plena luz do dia começaram. Em resposta às ordens de Nicolau de sufocar os distúrbios com o máximo de severidade no dia 25 de fevereiro, as tropas primeiramente desobedeceram as ordens dos superiores e depois se amotinaram abertamente, juntando-se à multidão para atacar os policiais que haviam sido desarmados, quando não forçados a se esconder, espancados ou mortos. Com a insurreição aberta, no dia 28 quase toda a tropa havia mudado de lado e, em 1º de março, as coisas chegariam a Moscou.

Nota da tradução
[1] Nick Heath coloca Trotsky como testemunha ocular do processo, mas durante a Revolução de Fevereiro este não estava na Rússia, e sim no Canadá, de onde voltou apenas em maio. É provável que o autor estivesse se referindo às obras historiográficas de Trotsky, como a História da Revolução Russa – que, apesar de muito baseadas em seu testemunho ocular, não é o caso deste momento específico.

Traduzido pelo Passa Palavra a partir do artigo no Libcom. Este artigo faz parte do esforço coletivo de traduções do centenário da Revolução Russa mobilizado pelo Passa Palavra. Veja aqui a lista de textos e o chamado para participação.


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