Vidas revolucionárias: Batko Pravda (1877-1921)

Vidas revolucionárias: Batko Pravda (1877-1921)

em 3 jul

Biografia do ferroviário ucraniano que perdeu as duas pernas num acidente de trabalho e tornou-se comandante makhnovista. Por Nick Heath

Batko (ou Simeon) Pravda nasceu numa família de trabalhadores rurais em Lyubimovka, próximo a Alexandrovsk. Tornou-se anarco-comunista em 1904, participando de ações armadas contra o regime czarista. Trabalhou no engate de trens ferroviários na estação Gaychur em 1905, e foi lá que se envolveu num acidente que levou à perda de ambas as pernas. De 1907 a 1917, ganhou a vida tocando acordeão.

Tachanka makhnovista, em museu hoje

No outono de 1918, ele organizou bandos armados para combater o hetman Skoropadsky[1] e seus aliados austríacos e alemães, e participou pessoalmente da batalha usando um tachanka (um carrinho com uma arma montada, muito usado pelos makhnovistas). Ele provavelmente ajudou as forças makhnovistas quando atacaram Zherebets na noite de 20 de novembro de 1918, levando à retirada das tropas nacionalistas que dominavam a vila. Em janeiro de 1919, as tropas de Pravda aderiram ao movimento makhnovista com o Congresso de Líderes de Tropas Guerrilheiras [partisan] que ocorreu em Pologi no dia 3. Ele foi indicado como deputado-chefe para a formação de novas unidades. Belash [chefe do Estado-Maior makhnovista] conta que Pravda se envolveu em uma série de incidentes em Krasnopil, próximo a Zherebets, e num deles terminou atirando em seu próprio irmão, Mitka, durante uma discussão de bêbados. Pravda contou a Gerhard Schroeder, professor menonita alemão[2], que nunca seria capturado vivo, pois usaria um revólver para se matar.

Em junho de 1919, participou do enfrentamento contra o governo bolchevique. Em outono do mesmo ano, ele era já um comandante de regimento makhnovista, até o inverno de 1919-1920. Ficou então responsável pelos hospitais makhnovistas entre dezembro de 1920 até março de 1921, quando passou a cuidar do quartel-general. Após Makhno fugir pela fronteira da Romênia, ele continuou a luta de guerrilha. O Exército Vermelho avançou com sua unidade de Turkenovka ao condado de Alexandrovsk em 13 de novembro de 1921, e Pravda morreu na batalha. Aparentemente, ele de fato honrou sua palavra e atirou em si mesmo para não ser capturado pelos Vermelhos. Os soldados do Exército Vermelho cortaram seu corpo em pedaços e Grichka, seu irmão, foi fuzilado.

Seu nome está entre os que têm má reputação na comunidade menonita alemã que viveu na Ucrânia. Ele é citado pejorativamente no romance sobre a comunidade, Russlander, de Sandra Birdsell. Nele, descrevem-no como alguém que “não é bom nem para um piolho, um camponês que caiu em tempos difíceis”. As relações infelizes entre os menonitas e os makhnovistas merecem ser examinadas com mais detalhes, e é preciso fazer uma pesquisa sobre as atrocidades que os makhnovistas supostamente cometeram.

Notas da tradução

[1] Hetman era o nome dado ao mais alto comandante militar na República das Duas Nações entre os séculos XV e XVIII que, tendo autoridade para tomar decisões com autonomia em relação ao próprio monarca, acabava por atuar como um verdadeiro chefe de Estado. Desde o século XVI, o título passou também a ser adotado entre os cossacos ucranianos e russos, mas terminou abolido pela czarina Catarina II. No contexto revolucionário de 1917, o hetmanato foi recuperado pelos contrarrevolucionários que, com apoio dos conservadores alemães, derrubaram a República Popular Ucraniana com um golpe de Estado no início de 1918 e entronaram o general aristocrata Pavlo Skoropadsky (1873-1945) – descendente distante de Ivan Skoropadsky, hetman do século XVIII. Apesar de ter logrado estabelecer um acordo de paz com a Rússia Soviética, Pavlo foi destituído ao final do mesmo ano por um levante dirigido pelo socialista nacionalista Simon Petliura. Pavlo fugiu e sua família, que atualmente vive em Toronto no Canadá, continua hoje reivindicando o trono ucraniano.

[2] Os menonitas são um grupo cristão anabatista, adeptos dos escritos de Menno Simons (1496-1561), e se estabeleceram na Rússia desde o século XVIII a convite da czarina Catarina II.

Regimento menonita durante a guerra civil na Ucrânia

Referências
Malet, M. Nestor Makhno in the Russian Civil War
Skirda, A. Nestor Makno: le cosaque libertaire 1888-1934
<http://www.makhno.ru/>

Traduzida do original no Libcom pelo Passa Palavra, esta biografia integra o esforço de traduções de 100 anos da Revolução Russa (confira aqui o chamado e a lista completa de obras).


Comentários 1

    • Bocha da Silva

      |

      jul 5, 2017

      |

      Parabéns por mais este resgate histórico e bibliográfico, que o esforço em garimpar outros textos não morra em cada participante do coletivo, há muito a ser realizado, força e vida longa.

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