Um olhar sobre a onda de greves no setor de logística na Itália (parte II)

Um olhar sobre a onda de greves no setor de logística na Itália (parte II)

em 8 ago

“Depois de 30 anos, Mubarak foi derrubado. Ninguém estava esperando nossa luta na TNT. Por isso falamos em revolução. Para nós, era igual no Egito: a revolução na TNT” Por Angry Workers of the World

Leia a parte 1 deste artigo.

4. Reino Unido e Itália: semelhanças e diferenças

Mas por que essas lutas seu contexto são relevantes para nós no Reino Unido? Alguns poderão dizer: “Mas isso foi na Itália e não na Inglaterra, lá a situação é diferente. Essas coisas podem ser possíveis lá, mas não aqui”. Com “essas coisas”, eles provavelmente estão se referindo à combatividade das greves, à participação de apoiadores externos, às barricadas “ilegais” que bloquearam a entrada e saída de caminhões nos galpões, o grande aumento salarial conquistado etc. Atualmente, tudo isso parece longínquo, levando em conta a situação das lutas por aqui.

Obviamente há diferenças entre a situação da Itália e a daqui. Mas nós acreditamos que há similaridades que podemos usar como base para pensar o que poderíamos aprender a partir da experiência deles – organizativamente e estrategicamente. Porque a gente vem tentando se organizar nos galpões do Oeste de Londres, então usaremos nossas experiências ali como base para comparação, ainda que pudéssemos extrapolar para o setor de logística de forma mais ampla no Reino Unido. Então vamos começar com o que há de comum.

A mesma coisa…

Trabalhadores imigrantes

Primeiramente, os trabalhadores dos galpões na Itália e no Reino Unido são principalmente imigrantes, que, em boa parte, não estiveram no país tempo o suficiente para terem aprendido a língua adequadamente a ponto de se sentirem confiantes. Na Itália, eles vêm, na sua maioria, dos países do Norte da África, como Egito, Marrocos ou Tunísia. Os demais são do Leste Europeu, Sudeste Asiático e da África Subsaariana e Oriental. Já no Oeste de Londres, a maioria deles vem da Polônia e outros países do Leste Europeu, como Romênia, Hungria, Letônia e do Sul Asiático. Todos eles enfrentam problemas para superar as barreiras da língua e do racismo (de fora e entre eles próprios). Isso obviamente tem consequências na auto-organização em locais de trabalho com grupos de muitos idiomas diferentes, bem como na forma com que os trabalhadores se relacionam com o mundo externo, isto é: com os apoiadores, a esquerda, os sindicatos (nos grandes eventos sindicais, por exemplo, se fala italiano). No filme, nós vemos que se lida com isso de várias formas diferentes: alguém está traduzindo um dos discursos do líder sindical na linha de piquete em árabe num megafone, os delegados de base são marroquinos ou indianos, então falam com os trabalhadores em suas línguas maternas. De forma semelhante, no Oeste de Londres tem muita gente (especialmente poloneses) que não fala nada, ou muito pouco, de inglês. É por isso que nosso jornal operário é bilíngue.

“O primeiro problema era como unir todos os trabalhadores da companhia para enfrentar o medo juntos, enfrentar a chantagem dos baixos salários e as ameaças de perdermos o emprego, uma pressão constante que deixou muitos de nós doentes. Para dominar, eles nos jogam uns contra os outros. Italianos contra estrangeiros (90% de nós), egípcios contra marroquinos. No GLS há vários indianos, a maior parte deles fala italiano com muita dificuldade e o patrão tira vantagem disso para nos explorar mais. Nós organizamos assembleias com os trabalhadores indianos e chineses, sentimos a diferença entre eles e os trabalhadores árabes, mas eu disse: ‘Vamos esquecer de onde viemos, nós estamos todos sendo explorados. Só precisamos nos concentrar nisso’”. (Mohamed, trabalhador da TNT)

Reprodução

Em segundo lugar, as condições de moradia e a pressão trabalho/casa é comparavelmente ruim. Na Itália, leis como a Bossi Fini fazem com que muitos trabalhadores percam o direito de ficar no país se perderem seus empregos, aumentando sobre eles a pressão para aceitar os pagamentos baixos e as más condições de trabalho. A falta de benefícios e assistência social para imigrantes europeus e de fora da União Europeia produz, no Reino Unido, uma pressão parecida: as mudanças que vieram em abril de 2014, implementando regras mais restritivas quanto à assistência para imigrantes da União Europeia, fizeram com que muitas pessoas ficassem com dificuldades insanas para ter moradia, créditos fiscais e até mesmo auxílio-desemprego depois de três meses. As novas regras que o governo pretende instaurar em abril de 2016 enviarão todos os imigrantes de fora da UE que recebem menos que £35,000 de volta ao seus países de origem. Podemos ver que a tendência em aumentar a pressão sobre os proletários está convergindo cada vez mais na Europa.

Formas de subcontratação

Em terceiro lugar, uma vez que muitos trabalhadores de galpões no Reino Unido trabalham para agências temporárias (em geral, com contratos de zero-horas), sua situação é semelhante às ditas “cooperativas” que empregam a maioria do setor na Itália. Muitos trabalhadores nesses galpões são empregados como “sócios” das “cooperativas”, e mais de 90% são imigrantes. Há um acordo coletivo nacional do setor de logística da Itália garantindo um salário mínimo, garantia de horas (168 por mês), cesta de natal e auxílio-doença – mas como “sócios”, os trabalhadores de cooperativas ficam excluídos disso. Os encarregados e supervisores têm um papel específico: alocar as horas de trabalho dos cooperativados. Se eles não vão com a sua cara ou se você não puxa o saco deles, você ganha menos horas. Acontecem coisas parecidas com as agências daqui. Em ambos os casos, os trabalhadores não recebem as conquistas garantidas. As cooperativas não têm que pagar as contribuições asseguradas nacionalmente aos seus trabalhadores, e aqui as agências frequentemente escapam da obrigação de pagar as garantias trabalhistas registrando seus empregados em alguma brecha na lei de viagem. A decisão de quem recebe as garantias em geral é arbitrária e depende de quão submisso você é às regras deles.

Medo

Por fim, podemos dizer que o medo foi e continua sendo um sentimento em comum entre os trabalhadores. Quando assistimos aos filmes das lutas combativas na Itália, é fácil esquecer o quanto esses mesmos trabalhadores eram, até recentemente, acuados pelo medo: de serem deportados, de criarem confusão e perderem o emprego; de colocarem em risco seus míseros salários tendo uma família para sustentar… No filme, muitos trabalhadores falam sobre essa sensação concreta de medo em tentar fazer algo coletivamente para melhorar sua condição. Muitos de nossos colegas no Oeste de Londres falam coisas parecidas, especialmente as mulheres (que aparentemente são mais capazes de admitir). Com um inglês fraco e sem pontos de referência em vitórias locais ou amplas, esse medo vira um motivo para não aderir a uma mobilização coletiva. Na Itália, isso pode ser superado graças a alguns fatores, que não podemos descartar que aconteçam em outros lugares: notícias de vitórias em outros galpões se espalharam entre os trabalhadores e deram às pessoas a noção de que algo poderia ser conquistado; apoiadores externos mostraram que, mesmo estando em minoria, era possível fazer alguma coisa; debates que vinham acontecendo dentro dos galpões há um ou dois anos criaram a base para uma “ação” espontânea.

…Mas diferente.

Apoio externo

A principal diferença entre a situação lá e cá é que os trabalhadores dos galpões da Itália têm muito apoio externo, em primeiro lugar do sindicato SI Cobas. Quando apenas uns poucos trabalhadores haviam aderido ao SI Cobas, dando os primeiros passos para se organizar no local de trabalho, os chefes tentaram persegui-los e demitiram alguns. Nesse momento, o sindicato conseguiu reunir entre 150 e 200 apoiadores externos junto a eles do lado de fora dos portões para bloquear os galpões. Depois de algum tempo, os chefes tiveram que ceder e readmitir os trabalhadores. Mais pessoas entraram no sindicato depois de terem visto essa vitória e o apoio – e começaram elas mesmas a apoiar trabalhadores de outros galpões. Foi assim que o SI Cobas conseguiu contornar o fato de muitas lutas em locais trabalho começarem em uma situação minoritária e, a partir daí, efetivamente crescerem e conseguirem se espalhar para outros galpões. Os apoiadores externos eram principalmente ativistas ligados à cena das ocupações [squats] e centros sociais, que não existe na mesma escala no Reino Unido. Tínhamos a esperança de fazer algo parecido com isso quando distribuímos um panfleto direcionado aos trabalhadores permanentes no galpão onde trabalhávamos como temporários tentando organizar uma luta por melhorias de condições e maiores salários. Fizemos um amplo chamado de apoio à esquerda para que viessem nos ajudar a distribuir esse panfleto [7], pensando que, se tivéssemos um número razoável de pessoas de fora, isso serviria para mostrar aos temporários de dentro (e também às chefias) que contaríamos com apoio se decidíssemos avançar em alguma ação coletiva. Mas como estávamos um tanto afastados da “esquerda” do centro de Londres, só conseguimos umas 15 pessoas para virem naquele dia.

Squats e centros sociais

Muitos dos enfrentamentos duraram um longo tempo: algo entre dois meses e um ano e meio, no caso da greve na Granarolo, fabricante de leite e laticínios. Eles não eram vencidos da noite para o dia. Obviamente, num contexto como o de Londres, se sustentar durante todo esse tempo sem pagamento não é tarefa simples. Parece justo afirmar que, na maioria dos casos e lugares, os trabalhadores por si só não seriam capazes de conduzir uma luta dessas, se levassem seis meses para vencê-la. Em lugares como Bolonha, eles tiveram condições graças às squats [ocupações] organizadas por grupos locais em larga escala. Não precisar pagar aluguel e contas definitivamente livra um peso imenso e pode abrir espaço para mais atividade militante. Quando estivemos em Bolonha, visitamos os dois maiores squats no centro da cidade. Os squats foram ocupados por ativistas do Social Log, junto a famílias imigrantes, a maior parte do Marrocos. Um velho prédio da Telecom agora abrigava mais de 300 pessoas, a maioria delas desempregada e algumas trabalhando em galpões. Só o fato de existirem squats já torna possível aos trabalhadores aderirem a formas de luta que podem levá-los a perder várias semanas de salários. Essa conexão entre organização no local de trabalho e no de moradia/reprodução precisaria ser feita numa escala enorme aqui – mas parece improvável que seja possível em um lugar como a cidade de Londres. Organizações como a Plan C e outras que vêm fazendo o debate sobre a “greve social” perceberam a importância de construir essas conexões a fim de fortalecer o apoio às atividades de greve [8].

“Então nós começamos a construir um movimento combativo, não só no setor de logística. Os trabalhadores de logística frequentemente vão a marchas pelo direito à moradia e apoiam outros setores. Eles não se restringem apenas ao setor de logística. Agora eles apoiam os metalúrgicos também. Eles já apoiaram os trabalhadores hoteleiros.” (Karim, trabalhadora e delegada do SI Cobas)

Leis trabalhistas e sindicais

Há também diferenças quanto às leis trabalhistas e sindicais. Por exemplo, na Itália o SI Cobas conseguiu aumentar seu tamanho aproveitando o fato de os delegados sindicais oficiais terem oito horas disponíveis ao mês. Delegados podiam usar isso para irem a outros galpões fazer agitação e debater com trabalhadores de lá. A ideia era espalhar o conflito para além de um local de trabalho em particular e criar uma perspectiva mais geral para a luta. Da mesma forma, greves de solidariedade são legalizadas na Itália, o que também pode ser usado em sua estratégia de organização. (Nem precisamos dizer, mas agora algumas dessas leis estão sendo revistas…). No Reino Unido, os empregadores não são obrigados a pagar pelo tempo de atividade sindical e, mesmo quando pagam, existem regras bem definidas em relação ao que é permitido fazer nesse tempo – sair para agitar trabalhadores em outros locais de trabalho não entra na lista! Ampliar as disputas fica ainda mais impossível sob a estrutura sindical oficial, sobretudo uma vez que os maiores locais de trabalho contam, em geral, com sindicatos representando diferentes setores – por exemplo: em uma escola, os professores, coordenadores, faxineiras, merendeiras e zeladores provavelmente são representados por sindicatos diferentes, ficando quase impossível que, a partir das estruturais sindicais, se juntem como trabalhadores de um mesmo local de trabalho.

Em um local de trabalho onde já existe um sindicato atuando, construir um sindicato alternativo tem também a dificuldade de conseguir ser reconhecido pela gestão. Há regras determinando o quanto da categoria você precisa representar, e os galpões do Oeste de Londres na maior parte dos casos já são sindicalizados, pelo menos os trabalhadores permanentes. Durante as exibições do filme que fizemos pela Inglaterra, foi um pouco deprimente ver vários militantes sindicais (sobretudo os mais velhos) ficarem focados no campo jurídico na hora de avaliar os problemas e os potenciais de fazer uma luta semelhante no Reino Unido.

Essa visão “legalista” sobre o que os sindicatos podem ou não fazer reflete o fato de sua base material ter erodido e seu reconhecimento jurídico como instituição ter se tornado o principal motivo de continuarem existindo. Sua estrutura nacional, de categorias formais, focada na “filiação permanente”, não foi capaz de dar conta dos seguintes desafios: uma alta oferta de trabalho, a ameaça de mover a produção para outros países, segmentação da força de trabalho, capital móvel assegurado pela subcontratação e regimes temporários. Tudo isso contribuiu para os sindicatos ficarem para trás.

É sobre esse plano de fundo que os sindicatos tomam decisões que vão contra setores de seus filiados, por exemplo: em 1998, todos os trabalhadores da companhia aérea Alpha LSG em Southall eram membros do sindicato T&G. Havia um plano de fusão e a gestão queria mudar os contratos de trabalho já existentes. Os gerentes contrataram alguns temporários para provocar os trabalhadores, e uma “greve” de um dia resultou em um locaute de mais de um ano. Se a T&G tivesse usado sua forte base de 20 mil trabalhadores no Aeroporto de Heathrow para ameaçar uma greve, mesmo que de uma hora, os trabalhadores da Alpha LSG poderiam ter vencido. Uma situação semelhante se repetiu na luta de Gate Gourmet em 2005. [9]

Acordos salariais nacionais

Na Itália, eles também têm um acordo salarial nacional para o setor de logística, ainda que não passe de um pedaço de papel. Com um tanto de pressão real e uma correlação de forças favorável aos trabalhadores, ele foi aceito por alguns patrões — principalmente nas maiores empresas multinacionais. Isso acabou dando às greves um sentido de “lutar pela legalidade”, no qual as lutas passavam a ser justificadas pelo fato de que os patrões não estariam seguindo as leis existentes. No Reino Unido, não há uma legislação nem uma vinculação jurídica dos acordos coletivos que possa servir para que os sindicatos locais representem todos os trabalhadores. E a porcaria do salário mínimo é tão baixo que qualquer reivindicação salarial acabaria automaticamente indo além de uma simples exigência “legal”. A questão passa a ser, então, o que nós enquanto trabalhadores precisamos para nos reproduzir — independentemente do que a lei diz. Porém, ainda que no Reino Unido as ações mais ofensivas dos trabalhadores — ou seja, qualquer coisa que exija “mais” do que o que já existe, e especialmente “mais” do que o salário mínimo — tenham esse potencial de ir além do discurso da “lei” e da “lógica” das políticas de austeridade, o mais comum é que elas terminem recorrendo a um discurso de pagamentos e condições mais “éticas”, que obviamente é bem problemático. Um exemplo são os trabalhadores temporários de um galpão da M&S em Swindon, organizados pelo GMB [sindicato geral britânico], que estão denunciando os calotes da Diretoria de Agências de Trabalho com palavras de ordem do tipo “a ética nos negócios começa em casa” e apelando à imagem supostamente “ética” da empresa — porque, na prática, o que ela está fazendo é perfeitamente “legal”. [10]

Estruturas “clandestinas”

Ainda que a forma como os trabalhares explicam “publicamente” os motivos de suas lutas só arranhe superficialmente o verdadeiro conteúdo e potencial dessas lutas, achamos que é preciso falar disso mesmo assim. Em geral poderíamos dizer que os trabalhadores dos galpões da Itália explicam publicamente suas lutas taxando de “ilegais” as condições às quais estão submetidos. Quer dizer, é bem comum que eles falem do envolvimento da máfia, de subornos para obter contratos, acordos salariais nacionais sendo ignorados etc., enquadrando suas lutas num “motivo meramente legal”. Ainda que os trabalhadores possam por vezes usar algumas táticas “ilegais”, as reivindicações exigem na maioria das vezes aquilo que já existe para outros setores de trabalhadores. No Reino Unido, por sua vez, já é legalizado que as agências não paguem auxílio-doença ou não paguem para os seus empregados o mesmo que os trabalhadores permanentes recebem. É por isso que nós achamos que as lutas que exigem mais do que o salário mínimo no Reino Unido precisam usar automaticamente um discurso diferente como “justificativa” — um que vá além do mínimo que está estabelecido pela lei. No Reino unido, nós precisamos tentar entender e apoiar esse tipo de luta em todo lugar que conseguirmos.

Piquetes

“Um dia inteiro de piquete na loja da IKEA em Piacenza significa que as mercadorias não foram carregadas nos caminhões. Estes não saíram a tempo de alcançar os navios, criando um atraso nas entregas para destinos da Europa Ocidental, Oriente Médio e Norte da África. Um dia inteiro de piquete faz a organização do processo todo explodir, e para recomeçá-la as empresas precisam esperar pelo menos dez dias, o que significa um prejuízo econômico imenso, bem como um dano incalculável na sua imagem… Num galpão onde se armazena comida fresca, um piquete de quatro horas significa cerca de 200 a 300 mil euros perdidos. De qualquer modo, para se ter uma ideia do tamanho do prejuízo causado pelos piquetes, basta olharmos para o ritual de ataques brutais da polícia contra os trabalhadores em luta.” (Aldo, militante do SI Cobas)

Nos dois países é proibido fazer piquetes, mas, como sempre, isso não é tão importante quanto a correlação de forças que determina quando podemos ou não fazê-los. Na Itália, contudo, são os piquetes individuais que são punidos com multas, não os dos sindicatos. Isso significa que o sindicato tem a possibilidade de mostrar mais “poder de luta”, o que também pode ser usado para atrair mais trabalhadores. Nas negociações na Itália, tirar as multas de indivíduos chega a ser parte de alguns acordos. No Reino Unido, são os sindicatos que são multados, o que, ainda que não garanta que os piquetes não sejam punidos “não-oficialmente”, faz com que os sindicatos tenham reduzidas suas chances de mostrar força aos demais trabalhadores, bem como os torna mais avessos a apoiar e organizar esse tipo de ação.

Divisões nos locais de trabalho

Em relação a como os locais de trabalho estão organizados, provavelmente no Reino Unido a gestão tem formas mais sofisticadas de dividir os trabalhadores, uma vez que esse tipo de galpão de logística já existe aqui há mais tempo. Na Itália, um emprego através de uma cooperativa será sempre igual — não há nunca uma verdadeira chance de obter um contrato permanente e se integrar com segurança à estrutura produtiva. Essa talvez tenha sido a razão que levou os trabalhadores a se revoltarem na Itália: não havia uma rota de fuga a longo prazo. Já no Reino Unido, nossa experiência é de que essas agências criam propositalmente a ilusão do contrato permanente para manter os trabalhadores leais e trabalhando com velocidade. “É só você trabalhar duro que eu te passo para permanente”. Algumas pessoas passam bons três ou quatro anos trabalhando antes de entenderem que isso não acontecerá com elas. A diferença salarial entre os trabalhadores permanentes e temporários (que era de quase 3 euros por hora — quase 40% a mais — para os permanentes) também é um bom jeito de fazer os trabalhadores se manterem de cabeça baixa, tentando conseguir um contrato permanente. Alguns galpões têm inúmeros contratos, cada um com um salário e condição diferente, o que também deixa mais difícil das pessoas se unirem. Por exemplo, visitamos recentemente o galpão da Alpha LSG próximo ao Aeroporto de Manchester (ele dá provisões ao aeroporto), e um trabalhador nos contou que lá dentro há 37 tipos diferentes de contratos! Em certa medida, essas divisões mais sofisticadas no interior dos galpões também refletem a natureza mais segmentada do mercado de trabalho no Reino Unido, a exemplo da divisão entre imigrantes da União Europeia e de fora, e entre imigrantes de fora da União Europeia com documentos e sem documentos.

Em nosso galpão, a hierarquia no chão de empresa era tamanha que os supervisores acabavam sendo, muitas vezes, da mesma nacionalidade que os trabalhadores (que eram, em sua maioria, poloneses). Isso contribuiu para a ilusão de que trabalhando duro seria possível subir a escada. Isso também significou que os trabalhadores que falavam mal o inglês acabavam conversando mais com seus supervisores, que podiam falar na sua língua nativa, do que com seus colegas da Romênia ou da Somália, com quem precisariam falar em inglês. Na Itália, a força de trabalho era dividida entre os supervisores “italianos” e todos os trabalhadores “imigrantes” (ainda que obviamente houvesse variações no quanto eram capazes de falar o idioma). Nessa situação, podemos imaginar o fortalecimento de um sentimento de “nós” contra “eles” que contribuiu para o estopim das lutas.

Rotatividade

Outra diferença importante é a rotatividade, embora provavelmente esse ponto seja mais relevante para Londres do que em qualquer outro lugar no Reino Unido, onde as pessoas tendem a ficar nos postos de trabalho por mais tempo. Em Londres, a rotatividade é alta e é muito fácil encontrar empregos parecidos em outros galpões. Por mais que isso não tenha nos favorecido até agora (“qual o sentido de se organizar para conseguir melhorar as coisas aqui se eu posso ir até a esquina e conseguir outro emprego melhor?”), a verdade é que poderia nos favorecer (“a chance de tentar melhorar as coisas é pequena, eu posso simplesmente conseguir um emprego em outro lugar”). Na Itália, as taxas elevadas de desemprego têm feito com que as pessoas fiquem mais tempo em seus cargos, então criar laços de confiança é mais fácil. E talvez crie mais frustração: não há a opção de um trabalho “melhor” e sabem que se este aparecer não vai ser muito melhor.

Isso teve um efeito em cadeia como apelo para que os trabalhadores se sindicalizassem. É raro que trabalhadores que recebem um salário mínimo paguem as taxas de filiação, sobretudo quando os sindicatos não têm nenhum programa a oferecer. Fazer as coisas burocráticas leva tempo, tempo o suficiente para as pessoas já terem ido e vindo (no galpão onde trabalhávamos antes, homens ficavam em média quatro meses, mulheres um pouco mais). Não é coincidência que os trabalhadores do centro de distribuição de Swindon que estavam encaixotando para a M&S se organizaram através do GMB: todos eles trabalhavam há anos no mesmo local e o GMB fez um esforço estratégico para filiá-los (isto é, disseram que conseguiriam aumentar seus salários).

Movimento social mais amplo

Como em muitos galpões da Itália se falava árabe, a Primavera Árabe coincidiu com o movimento, e houve um ímpeto para lutas mais ofensivas. Numa das cenas mais comoventes do filme, trabalhadores cantam gritos anti-Mubarak misturados com as músicas contra seus chefes. Essa conexão de empatia e o sentimento de fazer parte de uma luta mais ampla “em casa” foi algo muito específico da dinâmica da luta de então na Itália.

“Depois de trinta anos no Egito, Mubarak foi derrubado, e isso foi algo que ninguém nunca tinha imaginado antes. Da mesma forma, ninguém estava esperando nossa luta na TNT. Por isso nós falamos sobre revolução. Para nós, era igual no Egito: a revolução na TNT.”

Imigração

A imigração polonesa em Londres está em fluxo constante. Os voos são consideravelmente baratos e a participação na União Europeia fazem com que seja fácil ir e voltar [artigo de 2015, anterior ao Brexit (N.T.)]. Várias pessoas voltam à Polônia por um ou dois meses, saem, retornam, vão de novo. É uma rede segura de iguais. Mas, até agora, ela não deu a segurança necessária para embarcar em uma luta na qual você pode passar alguns meses sem receber. Temos achado que na verdade essa é uma força mais restritiva, porque muita gente jovem, que, em sua maioria, odeia Londres, pretende voltar à Polônia depois de um certo tempo. Os um, dois ou três anos que passam em Londres são um período para ganharem experiência e fazerem algum dinheiro. Esse “prazo” imaginário pode atenuar a urgência da luta e faz com que as pessoas continuem trabalhando duro, acreditando que isso não vai durar para sempre. Isso é obviamente diferente da imigração do subcontinente ao Reino Unido nos anos 1960 e 70, por exemplo, que era uma mudança mais permanente. Havia mais incentivo para se fixar e fazer exigências.

Na Itália, muitos imigrantes têm em mente uma mudança permanente, sobretudo quando estão vindo da África do norte, do oeste africano ou da África subsaariana. Ou, mesmo se quisessem, eles não têm recursos para voltar:

“Eu era um estudante universitário em Marrocos. Estudei até o último ano. De repente, meu pai veio e falou: ‘Olha, consegui um contrato de trabalho na Itália. Se você quiser ir…’ O contrato dizia: salário básico de 1.200 euros mais dois salários mensais extras por ano. Eu calculei e pensei: se eu for pra Itália, eu vou precisar de pouca coisa, o aluguel, os primeiros dias… Então eu vendi o que eu tinha, pra tentar conseguir levar pelo menos uns 5 ou 6 mil euros comigo, assim eu poderia ficar garantido no começo, enquanto eu não falasse a língua e não soubesse várias coisas. Então eu vendi tudo que tinha e vim aqui… Aí comecei a calcular e percebi que estava sendo enganado. O salário estava errado, e ao final do ano eu não recebi os dois salários extras, não pagaram minhas férias, nada! Então eu estou sendo enganado, e não posso voltar uma vez que vendi tudo que eu tinha. Então estou preso.” (Karim, trabalhador e delegado do SI Cobas)

Talvez seja por esse o motivo que tantas reivindicações de trabalhadores da logística na Itália, bem como de outros grupos de imigrantes, falem em “dignidade”. Os trabalhadores usam essa palavra várias vezes ao longo do filme, e ela também tem aparecido em outras lutas recentes, a exemplo de campanhas como o Fight for $15 dos trabalhadores de fast food nos EUA, o Tres Cosas em Londres etc.

Como podemos entender sua recorrência, especialmente em lutas de comunidades minoritárias? Em contexto de racismo, xenofobia, de várias divisões entre diferentes setores da classe trabalhadora e de imigração recente num momento de cortes e “austeridade”, talvez a vontade de “reivindicar” no país “anfitrião” fique desencorajada. Apresentar suas reivindicações a partir da noção de “dignidade” dos trabalhadores pode ser, talvez, uma forma de ultrapassar essas barreiras à luta e superar essas divisões. A mesma retórica foi usada por Jayaben Desai quando ela estava convencendo seus colegas de trabalho a entrar na greve de Grunwicks en 1976, que foi a primeira greve de trabalhadoras imigrantes mulheres no Reino Unido desde a Segunda Guerra Mundial [11]. Quando eles estavam preocupados em naufragar como imigrantes recém-chegados, ela disse: “A greve não é tanto pelo pagamento, é uma greve por dignidade humana.” Reivindicar dignidade dentro do capitalismo pode ser lido como a expressão de um desejo de ter nossas vidas acima de um sistema de lucro – ou como um apelo não-ameaçador à “benevolência da opinião pública”.

Cabe a nós, então, encorajar as lutas a enunciar exatamente aquilo que elas querem dizer com dignidade. Poderia significar que nós queremos (apenas) o mesmo tratamento legal que qualquer outra pessoa, sem sermos considerados cidadãos de segunda classe. Mas também poderia ser uma forma de abrir o debate de se é possível haver dignidade trabalhando sob o regime industrial/logístico em geral: carregar caixas o dia todo, ser uma marionete das metas de produtividade etc, nada disso é vida.

“…nós reconquistamos alguma dignidade, o que é muito mais importante que o dinheiro. Antes disso, nós costumávamos ir ao trabalho como se fosse uma prisão, cada dia era pior que o outro; agora nós conseguimos superar o medo que o chefe usava para reprimir todas as lutas. Agora nós sabemos que, se nós não lutarmos para mudar nossas vidas, ninguém fará isso por nós: nós somos donos dos nossos futuros”

Traduzido por Passa Palavra a partir do original inglês publicado pelo grupo Angry Workers of the World em julho de 2015. Este artigo será publicado semanalmente em três partes:
Parte I: Introdução
Parte II: Semelhanças e diferenças entre a Itália e Inglaterra
Parte III: Reflexões críticas e cronologia das lutas

Notas
[7] A call to our friends – Distribution day and after-action drinks in Gr**nford, 21st December, Angry Workers of The World.
[8] Nota da tradução: os autores se referem aos debates da organização britânica Plan C, que podem ser lidos aqui.
[9] Mobilização da GMB em Swindon, aqui e aqui.
[10] Gate Gourmet dispute.
[11] Grunwick dispute.


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