Como recebemos a revolução de fevereiro de 1917

Como recebemos a revolução de fevereiro de 1917

em 14 ago

Militante bolchevique relembra quando a notícia da Revolução de Fevereiro chegou aos deportados políticos na Sibéria. Por Ossip Piatnitsky

Este pequeno artigo é o capítulo 17 do livro Memórias de um bolchevique (1896-1917), escrito por Ossip Piatnitsky (1882-1938) e publicado em 1926. Filiado ao Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) em 1899 e desde 1901 próximo ao grupo que viria formar a facção bolchevique, foi preso três vezes por atividades revolucionárias até 1913, quando foi enviado ao exílio na Sibéria, onde permaneceu até ser libertado por força da queda do regime czarista na revolução de fereveiro. Passou, então, a militar no meio sindical, até ser redirecionado em 1921 para o trabalho na Internacional Comunista, onde permaneceu em postos de destaque até 1935. Retornando à Rússia e à militância no Partido Comunista Russo, foi preso em 1937 em meio à Yezhovshchina, a fase mais dura dos expurgos e prisões sob o stalinismo, e foi executado em 1938 após um julgamento sumário. Uma tradução hispanófona deste livro de memórias pode ser encontrada no Marxist Internet Archive, de onde foi traduzida por Marcelo Mazzoni e revisada pelo Passa Palavra.

À noite de 9 de março de 1917 encontrava-me tomado por uma tristeza espantosa. Para mim, este dia foi completamente negro. Não saí de casa. Estava deitado em minha cama, sem fogo e não abri a porta para ninguém. Já tarde, ouviram-se passos rápidos, seguidos de repetidas batidas na porta. Sem esperar minha resposta, o deportado político Goborek, que não vivia em nossa aldeia, anunciou-me com voz agitada que a revolução havia acabado de estourar na Rússia. Pedi para que me deixasse em paz, não estava com humor para brincadeiras. Vendo que eu o tomava deste modo, assegurou-me que a mulher de um deportado de Potchpt, que regressava de Kansk, havia visto lá uma grande reunião, na qual participavam os soldados. Os habitantes felicitavam-se uns aos outros pela ocasião do advento da liberdade e as casas estavam enfeitadas com bandeiras vermelhas.

Ossip Piatnitsky (1882-1938)

Convocamos, em seguida, todos os deportados e examinamos de qual maneira poderíamos saber o que se passava na Rússia e nas grandes cidades da Sibéria. Decidimos enviar os deportados por todas as estradas para perguntar aos camponeses passantes o que haviam visto em Kansk ou em Aban, e para ler jornais, caso levassem algum consigo. Se durante a noite não conseguíssemos nos inteirar de nada, concordamos que Foma dirigir-se-ia a Kasnk para saber mais detalhes.

Mais tarde, um manifesto publicado pelos socialistas revolucionários e pelos social-democratas libertados da prisão caiu em minhas mãos. Eles convidavam para nos agruparmos em torno do Comitê de Salvação Pública. O manifesto indicava que o czarismo havia sido derrotado e o poder estava nas mãos do Comitê da Duma do Império.

Aquela noite nenhum deportado dormiu. Foi debatido o desarme da polícia e a detenção de seu respectivo chefe local, já que havia mais de uma semana que a polícia e os camponeses aguardavam dia e noite o que deveria ser feito na assembleia da aldeia. Mas a questão mais candente era saber como sair o mais rápido possível daquele buraco para nos unirmos ao movimento revolucionário na Rússia. Todas as questões deram lugar às mais absurdas propostas. Alguns propunham ir até as aldeias para deter e degolar os policiais. O mais interessante é que estas propostas vinham dos camaradas que antes da revolução retrocediam frente ao menor conflito de nossos inofensivos panoramas.

Pela manhã chegaram manifestos que indicavam a composição do Governo Provisório. Em seguida, o isolamento do “socialista” Kerenski, perdido no meio dos flibusteiros, cadetes e otimistas como Guchkov e Miliukov, saltou-me aos olhos. Disse a mim mesmo que Kerenski estava desempenhando o papel de testa de ferro contra as massas revolucionárias, papel este que Louis Blanc desempenhou na França durante a revolução de 1848.

Não conseguia acreditar que os trabalhadores revolucionários de Petersburgo tivessem posto à frente Kerenski, sujeito que conheciam tão pouco. Para mim tornou-se claro que era necessário agora, não mais combater o czarismo, mas a burguesia. O que não conseguia me dar conta, na época, era até que ponto a burguesia havia se fortalecido durante a guerra, e se conseguiríamos organizar rapidamente nosso partido bolchevique, já que agora era só ele que conseguiria agrupar em torno de si as massas proletárias e de guiá-las no caminho da luta contra a burguesia. A principal questão que eu me propunha era saber quem se organizaria mais rápido: O partido, e ao redor dele, o proletariado ou a burguesia? Não concebia que os socialistas revolucionários tomaram um papel preponderante após a revolução de fevereiro e que os mencheviques atuariam em bloco com eles. Portanto, era necessário esperar a que questão da hegemonia do proletariado ou da burguesia em nossa revolução fosse posta de novo frente à social-democracia.

Nosso partido se organizou rapidamente, e sua tática agrupou ao seu redor não somente o proletariado, mas também os camponeses. Venceu não somente a burguesia, mas também a pequena burguesia, personificada nos mencheviques, nos socialistas revolucionários, nos populistas e em outros “socialistas”.

Em Fedino estávamos tão separados do mundo que ignorávamos qual era a situação real nos fronts. Eis aqui o porquê de muitos deportados políticos não se darem conta da maneira que terminaria a guerra após a revolução de fevereiro. Mas, pouco depois desta revolução, continuei sendo um adversário da guerra. À medida que me aproximava de Kansk via que os soldados voltavam para suas casas por todas as estradas. De Kansk até Moscou, as estações e os trens estavam repletos de soldados que desertavam do front. Escutavam, com certa angústia, os deportados políticos que regressavam da Sibéria e falavam contra a guerra, e fugiam rapidamente quando um orador falava de continuá-la até a vitória. Compreendi, então, que a massa estava saturada da guerra, que ela se havia tornado odiosa e não duraria mais tempo.

Em 10 de março pedi emprestado dinheiro para a viagem e deixei a aldeia de Fédino. Toda a aldeia me acompanhou até a estação. Quando cheguei em Potchett, encontrei ali dois telegramas, um de Penza e outro de Moscou, informando-me que a anistia havia sido acordada, e assim poderia voltar à ação. Uma reviravolta vinha juntamente com estes telegramas. Fui a cavalo até Kansk, onde cheguei na manhã de 12 de março. Em Kansk, havia já um Soviet de deputados e soldados. O Soviet de deputados operários devia reunir-se na tarde de minha chegada. Em Kansk a cidade estava de pé. Os soldados, conduzidos pelos comissários, iam para todos os lados, registravam e levavam pessoas detidas. No Soviet a confusão era completa. O Comitê executivo do Soviet trabalhava de manhã até a noite. Perguntei-me: se num lugar perdido como este a efervescência poderia chegar a este nível, o que estaria se passando em Petrogrado e Moscou? Decidi dirigir-me até Moscou. Sem esperar mais, tomei um trem cheio de anistiados que saia à noite. Durante o caminho escrevi ao Comitê Central para perguntar-lhe para onde deveria dirigir-me e a que trabalho deveria me dedicar.

Em 18 de março, o dia de minha chegada em Moscou, dirigi-me ao Soviet, onde encontraria, em seguida, antigos camaradas: Smidovitch, Noguin e muitos outros. No Comitê do partido encontrei Zemliachka e a oficina regional do Comitê Central. Todas estas organizações encontravam-se no mesmo edifício: a escola de Kaptsov. Quando recebi a resposta do Comitê Central que me convidava a ir para Petrogrado, eu já estava militando entre os ferroviários de Moscou. Decidi não partir, a fim de continuar a ação que havia começado.

A revolução de fevereiro marcou o princípio de uma nova etapa na luta que teve que levar nosso partido a combater a influência dos mencheviques e dos socialistas revolucionários sobre a classe operária, para instaurar a ditadura do proletariado e por fim à Guerra Mundial. Com todas as minhas forças e com toda minha energia cooperei para a realização da tarefa que a revolução acabava de designar para nosso partido e para a classe operária.

Esta artigo integra o esforço de traduções de 100 anos da Revolução Russa (confira aqui o chamado e a lista completa de obras).


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