Os entregadores alegam que esta nova forma de contratação trará ainda mais insegurança e precarização. Por Passa Palavra

No dia 24/01/18, uma quarta-feira, o coletivo belga de entregadores de comida da Deliveroo (Collectif des coursier-e-s, em francês; Koeriers Kollectief, em alemão), que utilizam suas próprias bicicletas para o trabalho, ocupou a sede da empresa em Ixelles, região de Bruxelas, mostrando que a luta contra a precarização das condições de exploração deu um novo salto. Após as diversas ações durante o ano de 2017, uma série de greves vinha acontecendo aos sábados desde 13 de janeiro de 2018. Antes, os entregadores deram um ultimato de uma semana aos gestores da Deliveroo para que eles recebessem uma delegação dos trabalhadores e abrissem uma negociação, entretanto a empresa ficou em silêncio, talvez não acreditando nas ameaças.

Os motivos da ação paredista podemos encontrar em notícia vinculada no site Libcom.org, onde se lê o seguinte:

Ano passado, a Deliveroo anunciou que todos os entregadores teriam que adotar a condição de trabalhadores autônomos, pagos por chamado, enquanto até agora esses entregadores também podiam se vincular à empresa por meio de uma agência de emprego temporário e, dessa forma, receber mais proteção através de vínculo empregatício.

Os entregadores alegam que esta nova forma de contratação trará ainda mais insegurança e precarização e que a promessa de aumento dos rendimentos não deverá se concretizar, levando a maioria a receber menos que um salário mínimo por hora e a trabalhar sob piores condições. Ainda, os entregadores ficarão à mercê dos mais diversos fatores, a exemplo do tempo de atendimento nos restaurantes, distâncias, intempéries, elasticidade da demanda e o provável aumento de número de entregadores provocado pelo desemprego.

Além da manutenção da remuneração por hora trabalhada (respeitando o salário mínimo), ao invés de receberem por entrega como agora querem impor, os entregadores exigem: seguro em caso de acidente de trabalho e ajuda de custo para gastos telefônicos e reparos nas bicicletas, que, segundo eles, são gastos responsáveis por levar entre 30 e 40% das suas receitas. Todos esses direitos ainda garantidos pelo atual contrato de trabalho mediado pela cooperativa SMart. Mais, exigem que seja formado um comitê de concertação entre os trabalhadores e a empresa e que as discriminações arbitrárias sejam cessadas imediatamente.

O coletivo belga, então, contando com cerca de 200 entregadores, aproximadamente 10% do total cadastrado no aplicativo, pretende continuar ocupando a sede da empresa e promovendo greves até que a Deliveroo recue. As ações do coletivo estão acontecendo nas cidades de Bruxelas, Lieja e Antuérpia, mas não só. Em Liege os entregadores ameaçam entregar os pedidos a pessoas sem-teto.

Em resposta à organização dos trabalhadores, a Deliveroo cortou os meios de comunicação entre os entregadores, objetivando, segundo comunicado postado pelo coletivo no dia anterior à ocupação, “atomizá-los ainda mais e deixá-los isolados frente ao algoritmo”. A empresa está obrigando a todos migrarem do Telegram para o aplicativo próprio da empresa, o Rider Chat.

A luta dos entregadores belgas, que parece mesmo ter iniciado de baixo para cima, hoje já conta com apoio dos sindicatos, além de se autofinanciar com a ajuda de simpatizantes (há uma campanha de arrecadação em curso), mantendo a independência e a crescente radicalidade do movimento. Entretanto, eles vão mais longe e cortam na própria carne para poderem dobrar a empresa. O coletivo solicita aos restaurantes, numa operação chamada de “Zero Comandas”, que desliguem temporariamente o aplicativo em sinal de solidariedade para com eles: “uma dezena de restaurantes já nos apoia e desligou o aplicativo, um deles suspendeu o uso durante 15 dias”, declara um dos entregadores. Solicitam também que os usuários cozinhem eles mesmos suas comidas e compartilhem a ação nas redes sociais através da hashtag #OnVaCuisiner (#vamoscozinhar).

Entretanto, os trabalhadores belgas não estão isolados e, em um mapa apresentado pelo próprio coletivo, podemos contabilizar quase duas dezenas de outras organizações em luta contra a plataforma Deliveroo. As condições de trabalho para os demais chegam a ser piores do que na Bélgica, pois sequer há uma empresa/cooperativa mediando as contratações. Na verdade, para quase todos os outros as condições de trabalho são próximas às que agora querem impor aos entregadores belgas. Os receios dos belgas podem ser resumidos a uma das declarações de uma militante: “Nós somos contra a escravidão”, se referindo àquilo que os esperam pela frente caso a luta não seja vitoriosa.

Até a data de publicação deste texto, sabemos que os entregadores resistem ocupando a sede belga da empresa Deliveroo. A ocupação e demais ações do coletivo belga podem ser acompanhadas através da página deles.

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