Por Da Wei Yi Pai 

Desde 2012 é publicada a revista Relatos da Fábrica com reportagens sobre as condições e a luta dos trabalhadores no Delta do Rio das Pérolas (Zhujiang). O site Gong Chao selecionou e traduziu (para o inglês e para o espanhol) alguns desses relatos e agora o Passa Palavra apresenta-os em português. Todos os relatos poderão ser lidos clicando aqui.

(Relatos da Fábrica #2, 3|2012)

Depois do Ano Novo Chinês, os meios de comunicação começaram de novo a difundir o velho tema de “escassez de mão de obra”. Desde um par de anos se contam duas histórias: primeiro, o aumento dos custos tem dificultado o negócio e os donos das fábricas querem um melhor tratamento do governo, já que estão descontentes com a situação. Segundo, dizem que os trabalhadores mudaram e já não querem trabalhar duro. Quanto disso é realmente certo?

Antes da “escassez de mão de obra”, na década de 1990, existiu o fenômeno do desemprego alto e de longo prazo. Nesse momento, as empresas estatais foram privatizadas, muitas se declararam falidas e foram fechadas. Um grande número de pessoas se suicidaram depois da crise, e ao mesmo tempo uma grande parte da mão de obra rural se dirigiu para as zonas industriais da regiões costeiras para buscar uma saída. Sem embargo, regiões como o Delta do Rio das Pérolas não podiam receber muitos trabalhadores migrantes. Mesmo encontrando trabalho, tiveram que enfrentar sérios problemas: salários baixos, horas de trabalho extremadas, atrasos salariais, acidentes de trabalho, humilhação pessoal, etc., em qualquer caso, não era uma vida fácil. Esse era o momento em que os chefes estavam em uma posição forte e podiam escolher e selecionar os trabalhadores que queriam.

Nos últimos dez anos, a China experimentou um boom econômico extraordinário. As regiões costeiras se converteram nas fábricas do mundo. Apenas Shenzhen recebeu entre cinco e seis milhões de trabalhadores industriais e, na região, se abriram inúmeras fábricas novas. Devido à diminuição da força de trabalho, somada ao rápido desenvolvimento industrial e a demanda de mão de obra, encontrar trabalho, especialmente em postos de baixa remuneração e com pouca seguridade social (menos de 2000 yuans), é hoje em dia muito fácil. Não devemos esquecer de mencionar que hoje em dia não é tão difícil para as pessoas do campo ter filhos. Entretanto, se olharmos de perto, podemos ver que a “escassez de mão de obra” implica em muito problemas reais que estão desmoralizando as pessoas. Por exemplo: existe uma alta demanda por trabalhadoras jovens, por volta dos vinte anos, elas mudam de emprego com frequência; o que não significa um problema grave para as fábricas. Contudo, os namorados das trabalhadoras não tem a mesma condição. Este ano, depois do Ano Novo Chinês, muitos trabalhadores homens tiveram muito problemas para encontrar trabalho, inclusive aqueles considerados qualificados enfrentaram dificuldades para conseguir trabalho nas grandes fábricas de Shenzhen, vendo-se obrigados a começar de novo nas fábricas pequenas. Para os trabalhadores mais velhos o principal destino são as fudidas fábricas ilegais.

Shenzhen

Em resumo, além do fato de que muitos trabalhadores migrantes ganham apenas o suficiente para sobreviver, a “escassez de mão de obra” não significa em absoluto um aumento dos salários e uma melhora das condições de trabalho para eles. A grande maioria dos trabalhadores não pode exigir absolutamente nada.

Então, qual é o objetivo quando os patrões e os meios de comunicação controlam dia a dia o tema da “escassez de mão de obra” apenas para se queixar? Os chefes são bons em beneficiar-se de qualquer coisa e encontram as piores maneiras de tirar mais e mais dinheiro. O consenso publicitário em torno da “escassez de mão de obra” já se converteu em um pretexto utilizado pelos grandes e pequenos patrões para oprimir os trabalhadores. Em outras palavras, muitas fábricas que não sofrem de “escassez de mão de obra” publicam todos os dias anúncios para atrair mais trabalhadores. Ao fazerem um escândalo sobre a “escassez da mão de obra”, na verdade atraem mais trabalhadores e aumentam sua capacidade de seleção.

Falando sem rodeios, a investida da “escassez de mão de obra” significa que as fábricas que não apresentam maiores problemas em relação aos salários e condições, as que não parecem tão ruins como as outras, estão cheias de trabalhadores. De fato, apenas não parecem ser tão ruins. Tomemos como exemplo a famosa companhia eletrônica onde os trabalhadores tem pulado continuamente dos edifícios desde 2010. Este ano, depois do Ano Novo Chinês, foi declarado o “aumento proativo do salário mínimo” para 1.800 yuans, criando certa hesitação entre os trabalhadores, que durou muito pouco tempo. O que aconteceu realmente? 300 yuans foram descontados dos salários pela comida e alojamento (dois anos antes eram grátis) e os trabalhadores assalariados receberam o mesmo que o estipulado pelas normas de salário mínimo de Shenzhen. Contudo, na empresa onde os trabalhadores pulavam dos edifícios da fábrica, os trabalhadores eram “rigidamente controlados nas horas extras”, prática chamada eufemisticamente de “permitir que os trabalhadores descansem bem”. Por outro lado, aumentou-se a intensidade do trabalho. Assim, enquanto trabalhavam mais duro, ganhavam o mesmo. Além disso a dita empresa se aproveitou do fato de haver muitos trabalhadores e diferentes seções.

A respeito da questão do aumento salarial, descaradamente os chefes utilizaram um duplo padrão. Muitas funções com salário básico acima do salário mínimo não obtiveram nenhum aumento. Na internet os trabalhadores publicaram essa informação: alguns empregados qualificados receberam o aumento de 7 RMB, outros de 10 RMB, mas outros não receberam nenhum aumento em absoluto. Como resultado, levando em conta as deduções mensais de seguridade social, alimentos e alojamento, muito empregados recebem apenas 2.000 RMB. Porém, os chefes obtiveram o resultado que desejavam: a contratação de trabalhadores depois do Ano Novo Chinês, que se deu sem problemas, e mesmo que o salário básico de muitos novos empregados tenha aumentado, depois da série de deduções o salário total basicamente não havia mudado. Isto se fez em meio a todo o ruído sobre uma “ferida aberta”, a necessidade de mudar as fábricas para o interior, a busca de um tratamento preferencial por todas as partes e com todo o caos que se fez para obtê-lo.

Em resumo, os chefes aproveitaram o fato de que o público havia aceitado a existência de uma “escassez de mão de obra”: os pequenos chefes usavam frequentemente a oportunidade de baixar os salários, apresentando um nível bastante alto de “salário composto” para ter mais horas extras do que o permitido pela legislação laboral. Frequentemente os chefes fazem ameaças na forma de pergunta: “Não aceita?”, dando em seguida a seguinte justificava: “Atualmente, não ganhamos nenhum dinheiro mantendo a fábrica aberta; é só para garantir o emprego…” Os chefes um pouco maiores realizam manobras ruins e truques como a mudança de endereço interior, as fusões, a colaboração com o Estado para reduzir impostos, etc.

O que significa “escassez de mão de obra” para os trabalhadores? Obviamente, os trabalhadores se atrevem a esperar aumentos salariais substanciais e uma melhora das condições de trabalho, já que uma “escassez de mão de obra” implica em existirem oportunidades de emprego relativamente abundantes para os trabalhadores chineses. Relativamente, muitos trabalhadores não se preocupam muito com seus próprios direitos e opções, estão muito interessados em um ambiente de emprego relativamente relaxado. Quando os trabalhadores se sentem fora das formas de luta é pouco provável que cheguem longe e arrisquem tudo para provavelmente não ter o que comer. Deste ângulo, se o auge industrial continua, os trabalhadores do Delta do Rio das Pérolas aprenderam mais ou menos sobre seu próprio poder, desenvolveram confiança em si mesmos e acumularam uma experiência em primeira mão de resistência de classe.

A “escassez de mão de obra” não pode melhorar o trabalho e a vida dos trabalhadores, mas pode dar ao trabalhadores mais valor para sua luta. Esta é a razão pela qual temos visto uma série constante de greve nos últimos 10 anos.

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