Por Zaozao

Desde 2012 é publicada a revista Relatos da Fábrica com reportagens sobre as condições e a luta dos trabalhadores no Delta do Rio das Pérolas (Zhujiang). O site Gong Chao selecionou e traduziu (para o inglês e para o espanhol) alguns desses relatos e agora o Passa Palavra apresenta-os em português. Todos os relatos poderão ser lidos clicando aqui.

(Relatos da Fabrica #8, 11|2014)

Primeiro conflito: Ao retornar depois de ajudar outra linha de produção, não haviam pessoas suficiente nem para manter a nossa própria linha. Éramos somente três de nós em nossa estação de trabalho, mas eram requeridas pelo menos quatro pessoas para seu funcionamento. Pouco depois de começar a linha sobre essas condições, a líder da linha Z se apressou gritando com nosso instrutor: “W, sabe qual o volume da produção? Sabe o quão pouco você está produzindo?” W ficou muito nervoso e não sabia o que responder e eu intervim: “Você quer volume de produção, mas não se incomodou de verificar quantas pessoas estão na linha? Nem sequer há pessoas o suficiente aqui, você tem a mesma pessoa primeiro trabalhando nesta estação e depois na outra, e ainda assim está exigindo mais volume de produção?!” Depois de escutas isso, Z baixou seu tom, mas continuou falando com o instrutor de maneira brusca: “Não tem pessoas o suficiente? Se é esse o caso, devia ter dito antes!” Pouco depois alguém veio ajudar.

Segundo conflito: Quando nosso instrutor W estava descansando, um instrutor chamado L veio de outra linha para substituí-lo por um tempo. Foi pouco depois de começar o trabalho novamente, mas os materiais ainda não tinham chegado, assim nós três nos sentamos e começamos a conversar. L chegou apressada com uma expressão severa. Ela falava de uma forma séria apesar de não estar nos ameaçando assim o senti: “Vocês deveriam ter um pouco de cuidado, alguém da administração poderia vir. Se veem que vocês não têm nada para fazer, reduzem o número de pessoas na linha e no fim são vocês os que mais sofrem.” Eu estava muito furiosa porque não era nossa culpa que não tínhamos nada para fazer, assim eu disse a ele com alguma rispidez: “Claro, reduzir o número de pessoas na linha, só há três de nós agora mesmo. Necessitamos uma pessoa para operar a máquina, uma para que passe os materiais e mais dois para empacotar, e só temos três de nós! Claro que se pode reduzir o número de pessoas, mas não nos culpem quando não for possível terminar os produtos.” Ela parecia irritada e ansiosa ao mesmo tempo: “Não estou falando só se de vocês especificamente, eles têm feito cortes no número de empregados ultimamente, vocês também deveriam ser cuidadosos, não façam eles pensarem muito sobre vocês.” Fiquei ainda mais furiosa – nem sequer tínhamos pessoa o suficiente, então como que iam reduzir ainda mais, finalmente disse: “As coisas são como são, eu não posso fazer nada a respeito, se querem reduzir o pessoal não podemos trabalhar. Sempre depende dele decidir se vão fazer cortes ou não!” X, que estava de pé ao meu lado, continuou me puxando pela manga para que eu me calasse, mas eu não parei. Por que deveria? O que disse que estava errado? Eu não estava discutindo, eu só estava deixando as coisas claras! L não disse mais nada – simplesmente foi embora.

Terceiro conflito: Ultimamente não tinham nos atribuído nenhum trabalho depois do nosso turno, e a princípio parecia que hoje não seria diferente, mas justo quando nos aprontávamos para terminar o dia, o instrutor W de repente nos disse que deveríamos fazer uma hora de trabalho a mais. As pessoas de nossa estação disseram que não iam fazer a hora extra porque não valia a pena. Apesar de W insistir que fizéssemos a hora extra, continuamos nos negando. X já tinha recolhido nosso lixo. e depois de retirar o lixo normalmente não se retorna para área de trabalho; basicamente se está fora do trabalho.

Não muito depois que X saiu, a líder da linha Z veio gritando agressivamente: “Quem não está fazendo hora extra?” Eu estava de pé do lado dela quando disse o seguinte: “Ninguém vai fazer hora extra”. Ela me olhou nos olhos como se dissesse, “Não estou perguntando para você!” Disse para mim mesmo, “Merda, se não quer uma resposta não deveria perguntar e todos nós poderíamos ir para casa.” Então ela se voltou para D, que estava de pé junto comigo, e perguntou para ele, “Você fará hora extra?” D tinha planos e disse que não. Quando ela se voltou para mim fingi que não a vi, logo ela foi até o posto da máquina e perguntou a H, o operador da mesma, se aceitaria a hora extra, mas ele se negou também. Então, de repente, gritou comigo, “Senhorita, só porque você não tem uma família para manter e não tem que ganhar dinheiro, não significa que as outras pessoas não precisam fazê-lo, por isso não deveria incitá-las!” Quando escutei isso me esquentei: “Você perguntou para ele se os incitei? você acredita que eu poderia fazer isso? Eles não são crianças, eles são adultos! Eles decidem se querem fazer hora extra, não tem nada a ver comigo!” Porém ela não queria mostra fragilidade nem que a calassem facilmente, assim disse, “Se você não quer fazer hora extra só pode representar a si mesma, mas se está incitando aos outros de acordo com o regulamento da fábrica…” Eu a interrompi: “SÓ represento a mim mesma! Isso é algum problema?” Mas ela não ia me escutar e continuou: “Se não quer fazer hora extra de seu nome e seu número de trabalho ao instrutor e isso será tudo.” Disse a ela,” Certo, estava fazendo isso mesmo quando você me interrompeu fazendo perguntas. Já recolhemos as coisas e contamos para você, então qual é o problema agora?” Isso calou-a e ela saiu andando. Eu estava com um pouco de raiva, por isso grite pelas costas, “Eu estou incitando as pessoas? Desde quando tenho capacidade para incitar as pessoas? Você é líder de linha e nem mesmo VOCÊ tem essa habilidade, então como eu seria capaz de fazer isso? Se eu fosse capaz de incitar qualquer coisa não seria somente sobre a hora extra. De verdade, como pode alguém que fala sem pensar chegar, de qualquer jeito, a ser líder de linha?”

Uma conversa: Logo depois desses enfrentamentos a líder da linha Z foi particularmente respeitosa comigo – pelo menos não gritou mais comigo, pelo contrário falava-me amavelmente. Um dia, me chamou à mesa do computador para falar. Quando perguntei qual era o problema, ela me respondeu, que não havia problema e era só uma pequena conversa. Ela perguntou minha idade, de onde eu era, se era casada. eu respondi as perguntas dela uma por uma, mas me senti um pouco confusa e esqueci de perguntas por que tinha me chamado. Finalmente me perguntou se eu queria continuar na fábrica por muito tempo. Eu disse que não, que pretendia voltar logo para casa. E depois disso? Bem, então, voltarei para cá e conseguirei outro emprego.

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