Por ex-chanich

Se minha memória não falha, foi aproximadamente entre meus 11 e 17 anos que frequentei a sede e as atividades da Hashomer Hatzair de São Paulo, diversos sábados e um ou dois acampamentos por ano. As relações entre sionismo e esquerda são delicadas (assim como, de uma maneira geral, o nacionalismo), mas o objetivo destas memórias não será polemizar sobre uma posição ou outra. Se marco “sionismo” e “esquerda” nestas memórias é para jogar luz sobre as tradições eminentemente práticas das construções políticas de diferentes matrizes ideológicos: uma organização de juventude sionista socialista no Brasil, pelos olhos de um gói (gentio).

Primeiro, um pouco sobre a organização. Fundada em 1913 na Polônia, a Hashomer Hatzair (traduzido como “Guardião da Juventude” ou “Jovem Guarda”) nasce da fusão entre uma organização de escoteiros (em um contexto em que judeus não podiam integrar o movimento escoteiro oficial) e círculos de cultura judaicos. Durante o levante do gueto de Varsóvia participa de forma muito ativa na resistência com outras organizações da esquerda judaica (sionista e não sionista) e posteriormente se espalha por outros países, com particular presença nos países latino-americanos. Quanto à sua atuação na terra prometida, a política socialista-sionista da Hashomer levou à criação de muitas dezenas de kibutzim na Palestina Britânica e chegou a ter uma expressão política entre 1946-48, o Partido dos Trabalhadores da Palestina Hashomer Hatzair, que defendia a criação de um estado binacional (árabe e judeu). Em 1948 o partido se integrou ao Partido Unificado dos Trabalhadores (MAPAM) mas o movimento juvenil escoteiro seguiu caminho com sua autonomia. Tendo atravessado momentos de maior e menor influência do marxismo, ainda em meus dias o movimento tinha como lema ESCAUTISMO, SIONISMO e SOCIALISMO, que eram (talvez ainda o sejam) representados por um gesto com a mão direita onde apenas três dedos são levantados (o indicador, o médio e o anular), cada um representando um destes conceitos.

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Sionismo de esquerda: memórias juvenis na Hashomer HatzairFicar para dormir na casa de um amigo de sexta para o sábado. “Você quer vir? Lá a gente joga bola e tem brincadeiras”. Foi mais ou menos assim que acabei indo parar no Bom Retiro, bairro no qual eu nunca havia pisado e provavelmente não o faria por mais 10 anos ao menos não fosse pela Hashomer, ou simplesmente “Shomer”, como era referida pela grande maioria dos membros. Com apenas 11 anos comecei a frequentar a sede (ken, “ninho”) pelo convite de um amigo da escola, que mais do que nada curtia jogar futebol e se reunir com um pequeno grupo de jovens num espaço longe da casa dos pais. Ninguém nunca me perguntou se eu era judeu, ninguém se perguntava muito sobre o que era o socialismo, e o escautismo, bom, já falaremos um pouco disso. A sede da organização ficava na Rua dos Bandeirantes, era um edifício de 3 ou 4 andares, com um pátio/quadra de futebol, diversas salas de diferentes tamanhos, uma escada central e no subsolo um salão grande. Alguma quantidade de imagens e palavras em hebraico pelas paredes, a cor azul dominante e uma certa precariedade material: paredes descascando pela umidade, lâmpadas que não funcionava, etc. Fato não menor é que entre as organizações da juventude sionista, a Shomer era conhecida por ser… pobre. Sua base social não era tão diferente: o Bom Retiro, bairro de judeus pobres de São Paulo. Ainda assim contava com a presença de algumas pessoas acomodadas economicamente (moradores de Higienópolis inclusive), mas enquanto entidade certamente tinha as finanças muito magras, provavelmente contando com muito pouco dinheiro enviado do exterior e pouca contribuição orgânica de famílias e ex-membros.

Bem, ali estava eu, moleque de apartamento, em um lugar um pouco inóspito para minha vivência até então. Ainda mais porque não era apaixonado por futebol, mas gostava de passar tempo com meu amigo e nessa idade qualquer brincadeira é melhor do que nada. Havia um horário definido para as atividades “oficiais” nos sábados, algo como entre as 14h e as 18h. Mas nós chegávamos sempre algumas horas antes para bater uma bola e terminávamos almoçando pelo bairro. Uma sequência de cenas marcou minha infância. Cena 1: na padoca escolhendo o que iríamos comer e beber para o almoço, eu pego na geladeira uma garrafinha de guaraná Antártica de 250ml, causando risos e piadas entre os companheiros. Cena 2 (um par de anos depois): sentados em círculo no salão do subsolo, compartilhando um frango assado de padaria com farofa, comendo com as mãos e passando de mão em mão um guaraná Dolly de 2 litros.

Para explicar como eram as atividades passo agora a comentar a organização interna.

Éramos divididos em grupos de faixa etária (shichva), cada grupo com um ou dois “maiores” responsáveis (madrich, educador): um membro da organização com mais de 18 anos e que houvesse feito o processo de formação. Cada grupo etário tinha uma sala onde realizava as reuniões e atividades, ainda que essas também pudessem ocorrer nos demais espaços da sede. Quanto mais jovem o grupo, mais estas atividades se misturavam com brincadeiras genéricas, enquanto os mais velhos tinham atividades com maior presença de conteúdos, conversas, etc. Ainda assim, o espírito de brincadeira e recreação era dominante, eram raros os momentos solenes durante a maior parte do dia. Lembro-me que nos primeiros sábados que fui, durante parte do dia líamos e comentávamos o livro infantojuvenil “O Gênio do Crime”; também eram bem comuns as gincanas entre todas as crianças e as vezes algumas atividades pelo bairro (ou partidas de futebol contra outras organizações de juventude do bairro). Nos anos seguintes passaram a ser comum também conversas e formações sobre datas religiosas e civis de Israel, a noção de educação “não-formal” e outros tópicos preparados anualmente numa espécie de plano pedagógico que cada grupo de “maiores” criava. Como os grupos etários eram fixos, estabeleciam-se amizades e companheirismos muito fortes entre alguns e algumas, que iam compartilhando experiências de juventude e muitas vezes também uma vida social para além da Shomer.

Lembro-me que o mais próximo que chegamos a conversar sobre socialismo era sobre o fato de que não havia bancos para todos em algumas salas, e que, portanto, deveríamos estar todos sentados no chão. Mas na prática não se reduzia apenas a isso. O lanche do fim da tarde era comprado com dinheiro de todos, de cada um segundo sua possibilidade, e era livre para ser repetido (enquanto sobrasse algo), a cada um segundo sua necessidade. Mortadela, muçarela e pão de forma, com suco – socialismo da miséria? Em alguma medida. Mas para alimentar a criançada era mais do que suficiente.

A presença de adultos era bastante limitada. Como quase cheguei a me formar como um “maior” no final de minha participação, estive presente em um par de reuniões onde falava o “representante político” da organização a nível internacional (sheliach), que tinha o papel de ser o adulto responsável, geralmente um homem de mais de 40 anos que debatia com os jovens “maiores” a situação, perspectiva e projetos da organização, além de pautar questões internas problemáticas (pessoais, de crianças específicas, etc).

Sionismo de esquerda: memórias juvenis na Hashomer HatzairAs atividades dos sábados eram sempre finalizadas com um pequeno ato-ritual chamado mifkad. Os grupos etários eram organizados em colunas que cantando uma música de marcha[1] entravam no pátio e realizavam uma formação em U, com os “maiores” responsáveis três passos adiante de seu respectivo grupo. Neste momento eram realizados os informes principais sobre a organização, datas próximas, cada responsável de grupo relatava atividades que vinham realizando e se realizava uma contagem dos presentes (me lembro de sábados cheios, com quase 100 pessoas, e dos mais vazios, com 30 e poucas) e os tradicionais gritos finais (que eram chaverim chazak! chazak ve ematz!, “amigos, força! força e coragem!”). Vale mencionar que a música de marcha e os tais gritos eram feitos em hebraico, e eu não era o único que cantava ou gritava sons apenas mais ou menos próximos das palavras originais.

Um dos principais momentos do ano era os acampamentos, especialmente os de fim de ano quando se uniam também membros do Rio de Janeiro e de Florianópolis (embora isso nem sempre ocorresse, por questões organizativas ou financeiras). Nestas ocasiões é que se expressava o pouco que havia restado do espírito escautista da organização: atividades manuais, como corte de bambu, uso de sisal para amarras, limpar mato para fazer simulacros de abrigos, acender fogueiras, etc., mas tudo em nível extremamente básico. O espírito destes acampamentos também era igualitário no sentido em que todos eram responsáveis de todos, a organização simplesmente alugava o ônibus e um sítio. Eram cinco ou seis dias em que era possível aprofundar as atividades em um eixo temático, além de muito tempo de recreação livre (piscina, futebol), músicas (em hebraico) e fogueiras noturnas (idílios para hormônios em alvoroço).

Mas existia também um detalhe carregadíssimo de ideologia. Havia uma “brincadeira” entre as outras, que tinha uma importância especial. Todo acampamento tinha uma bandeira, que era fixada em um mastro “escoteiro”, produzido logo ao se chegar. Acontece que entre todos os grupos etários havia uma tarefa rotativa de defesa da bandeira durante as horas da madrugada. Geralmente os mais jovens ficavam com os primeiros horários, enquanto os mais velhos ficavam com os turnos da alta madrugada. Em todos os acampamentos em alguma das noites havia um “ataque”, quando ex-membros da organização e amigos chegavam ao acampamento na madrugada, vestidos de negro, e assaltavam a bandeira, metendo-se no mato para que os jovens os perseguissem para recuperá-la. Se tratava de um jogo algo varonil: para colocar à prova a determinação de ambos lados, a forma de neutralizar um “atacante” era derrubá-lo ao chão e imobilizá-lo. No caso de atacantes femininas as coisas não chegavam a estes termos, e dependendo da idade dos defensores tudo era negociável. Virilidade, paranoia, coragem, defesa, diversos conceitos colocados em jogo, literalmente. Quanto mais velhos éramos, menos ansiedade nos causava o tal “ataque”, mais entendíamos que eram inclusive conhecidos nossos os que o fariam. Também porque dormíamos cada vez menos, com tanto papo e pequenas intrigas amorosas adolescentes.

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Sionismo de esquerda: memórias juvenis na Hashomer HatzairDeixei de frequentar a Shomer na época em que aparecia a disjuntiva: terminar o processo de formação e passar a ser um “maior” responsável ou guardar as lindas memórias de juventude na mochila e seguir com a vida. Titubeei um pouco. O fim de minha adolescência não foi um período emocional muito fácil, acabei afastando-me não tanto por opção consciente.

Foi apenas depois de trilhar outras tantas experiências políticas que pude resgatar estas memórias e entendê-las com mais profundidade. De fato, por muito tempo lembrava deste período e destas atividades como algo ingênuo, quase excêntrico, sem grandes significados (o que foi especialmente fácil para mim por não ser judeu e não ser confrontado, como companheiros meus, com grandes questões de identidade). Apenas depois de ler muito e entrar em contato com diversos outros tipos de organização e tradição política que comecei a entender que aquilo que eu vivi naquele momento era, além de conteúdos afetivos, resquícios de antigas formas de se fazer política de massas.

Não pretendo aqui fazer um exercício de nostalgia social, mas alguns aspectos destas vivências me levam a pensar contrastes vividos em outros âmbitos da vida. Agora passo a fazer algumas reflexões que não pretendem particularizar a Hashomer Hatzair, mas que dizem respeito às formas presentes nestas memórias (dado que não tenho notícias de sua atualidade).

Primeiramente, se tratava de uma organização de juventude, de minoria, que não buscava depender do Estado nem atuava como lobista por direitos setoriais. Embora algo de financiamento fosse feito a partir de vínculos internacionais, o custeio das principais atividades cotidianas era realizado pelos próprios integrantes. Melhorias no edifício, compra de algum móvel, etc., também eram feitos com doações de amigos, ex-membros, familiares, vínculos que eram estabelecidos em eventos abertos à comunidade (em geral, datas religiosas), formando uma espécie de comunidade ampliada.

Segundo lugar, em enorme contraste com a tendência atual, se tratava de um ambiente onde os e as jovens eram incentivadas a aceitar responsabilidades. E isso era visto em certa reprodução espontânea das responsabilidades: os jovens mais velhos (que ainda não eram “maiores responsáveis”) frequentemente cuidavam das crianças pequenas, fosse de maneira mais carinhosa ou apenas orientando. Havia certo orgulho em realizar tarefas “dos mais velhos”, e se chegava aos 18 anos com um sentimento de maturidade conquistada.

Não proponho um modelo de organização de juventude para a esquerda classista. Minha memória deixa muita coisa de fora, e havia uma etapa muito importante da qual não participei: a aliyia, a migração (temporária ou permanente) para Israel; ou os programas de formação de quadros nas organizações centrais israelenses (geralmente 1 ano ou 6 meses de duração, Shnat Hachshará, “ano de preparação”). Mas acredito que boa parte dos desclassados sociais da atualidade, urbanizados e proletarizados nas últimas 2 gerações, não tivemos quase nenhum contato com organizações sociais e territoriais deste tipo, que não sejam uma Igreja ou uma torcida de clube de futebol já profissionalizado. A fragmentação dos e das trabalhadoras também traz efeitos profundos nas novas territorialidades dos grandes centros urbanos; mas se algo persiste é o sentido de responsabilidade e de companheirismo, necessários para uma construção de longo prazo. Tendo vivido também outro lado da juventude paulistana entendo quão fácil é socializar-se em um mundo onde impera o individualismo, onde uma noção pós-moderna de urgência nos familiariza com os bairros de cultura hipsters, misturando comunidade com comércio, onde não existe qualquer noção de companheirismo que não seja a da “parceria” (de negócios, de gigs, de co-working, da arte comercial, etc.). Também somos acostumados com a falta de responsabilidades desde jovens, a aversão a qualquer responsabilidade maior do que nosso próprio prazer.

Enfim, mais além dos horizontes ideológicos, existem práticas e éticas que nos vão moldando e nos deixam marcas. Entender a fragmentação atual não passa necessariamente por incorporar a fragmentação como o novo estado ideal das coisas. Serão as novas formas de vínculo social nossas novas armas, mas elas não podem prescindir da carga afetiva e do sentido de responsabilidade frente aos e às demais, em sentido completamente oposto ao encontrado nas sempre renovadas redes sociais. Como pretendemos ajudar a formar juventudes dispostas a destruir as atuais estruturas de nossa sociedade?

As imagens que ilustram o artigo são de jovens da Hashomer Hatzair

Nota

[1] Shir Hapalmach, hino da milícia sionista na Palestina durante a Segunda Guerra Mundial.

 

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