Por Um Outro João

Como João Bernardo escreveu em um comentário recente, o que mais preocupa não é a truculência dos apoiadores de Bolsonaro, mas “o estado de espírito de tanta gente de esquerda, assustada, incapaz de fazer frente e já a fugir antes ainda de o Bolsonaro ter ganho”. Além de preocupar, impressiona que sejamos nós os mais perplexos diante de uma vitória da extrema direita aqui no Brasil. Perplexos, em primeiro lugar, pelo crescimento tão acelerado desse movimento que elegeu Bolsonaro: “como, tão de repente, tanta gente passou a acreditar nessas ideias desumanas e antidemocráticas e votou num capitão do exército?”. A maior parte da esquerda se tranquiliza na ideia de que os trabalhadores que votaram nele o fizeram por falta de conhecimento, porque teriam sido enganados pela difusão de fake news – “das duas uma: ou você é realmente um fascista por pensar essas coisas, ou você está sendo enganado”. Outra perplexidade, tão surpreendente quanto, é em relação à capacidade das classes dominantes de exercerem seu poder: “como pode um general e um capitão do exército falarem que vão matar os esquerdistas?”. Como não poderiam, camaradas? Como disse Paulo Arantes recentemente, enquanto a esquerda só se preocupava com a gestão da sociedade, a direita voltou a fazer política de fato. De repente, eles nos recordam que vivemos numa sociedade de classes e que as coisas que aprendemos nos livros de Marx têm correspondência com a realidade.

Essas perplexidades mostram 1) a enorme distância entre a esquerda e a maior parte dos trabalhadores, e 2) como a esquerda se anestesiou e passou a acreditar nos mecanismos democráticos, de mediação dos conflitos de classe, se percebendo agora absolutamente impotente e assustada. Nesses 13 anos de governo, e no período que lhe antecedeu e lhe gestou, o Partido dos Trabalhadores foi tão bem sucedido em sua estratégia de apaziguamento dos conflitos, de transformação dos instrumentos de luta em instrumentos de gestão e conciliação de classe, que foi desaparecendo qualquer poder de fato proletário (seja no trabalho, nos bairros, nas igrejas, nos movimentos sociais). Daquele último grande ciclo de lutas dos anos 70 e 80 parece não ter sobrado muita coisa além de um grande saco de identidades, onde lê-se grafado Partido dos Trabalhadores, Democracia, ou #EleNão e onde cabe esse amontoado de identidades que nos tornamos: negros, índios, mulheres, lésbicas, transexuais, quilombolas, sem teto, sem terras, etc e seus simpatizantes.

Diante desse quadro de isolamento e impotência, o que a maior parte da esquerda tem feito é criar frentes antifascistas e frentes amplas e democráticas em vários locais e com diferentes formas, para justamente afirmar os valores da esquerda, contra o crescimento dos valores da extrema-direita – o vermelho e preto e o colorido contra o verde e amarelo da bandeira nacional, a Democracia contra a Ditadura. As posições mais recuadas se contentam em pedir somente a volta da democracia de forma abstrata, criticando Bolsonaro por ele atacar os valores democráticos. As posições mais radicais, enfatizam a necessidade de se combater o fascismo com seriedade, e levantam palavras de ordem como “fascismo não se discute, se combate”, ou “fascismo é na ponta do fuzil”, resgatando o episódio da Revoada das Galinhas Verdes, por exemplo. Também essas posições se mantêm no campo abstrato e discursivo: o que significa combater o fascismo hoje na ponta do fuzil? Quem são os fascistas, nossos colegas de trabalho que votaram no Bolsonaro? Vamos organizar um ato que “colocará os eleitores do Bolsonaro para correr” como os integralistas revoaram em 1934? Essas frases e essa memória também dizem muito pouco e se mantém como combate meramente figurativo do fascismo.

Apesar do momento atual nos induzir ao desespero, pois sabemos que com o Bolsonaro eleito as coisas vão ficar cada vez mais sinistras, não me parece possível outro caminho que não o de construir as “formas de poder própria dos trabalhadores”, que um João escreveu em um texto recente no Passa Palavra. E, para isso, o que temos que começar a pensar são enfrentamentos aos ataques concretos que já estão ocorrendo e que se intensificarão, como contra a violência policial aos trabalhadores em geral, contra os ataques a imigrantes, transexuais, gays, negros e outros grupos por bandos fascistas, comitês de apoio aos desempregados, de apoio às greves; grupos de segurança para os militantes de esquerda; grupo de apoio mútuo entre jornalistas progressistas que reportem as violências que sofreremos, dentre outras coisas, ao invés de focar sempre no combate à figura do Bolsonaro, ou em uma luta abstrata pela “Democracia”. Nessas lutas, teremos que conseguir mobilizar trabalhadores independentemente de suas ideologias, inclusive eleitores do Bolsonaro e toda essa multidão cansada, não sem razão, dessa tal democracia.

Sabemos que, por mais hábil que o governo bolsonarista possa ser, não estão no horizonte grandes melhoras nas condições de vida dos trabalhadores em geral, então haverá possibilidades de envolvê-los em lutas através de elementos concretos de sua realidade. Como era esperado, no entanto, permanece uma tendência na esquerda de continuar dividindo os trabalhadores de acordo com quem eles votaram, culpabilizando os eleitores do capitão como os responsáveis pela atual situação, ao invés de tentar trazê-los para o nosso lado. Uma grande parcela dos trabalhadores que elegeram o Bolsonaro, ou que foram “coniventes com sua eleição” (se abstendo de votar), que poderiam se colocar ao nosso lado na luta contra os assassinatos em geral por parte da polícia ou grupos fascistas, por exemplo, são empurrados pela própria esquerda para o outro lado da trincheira, que já os considera de antemão coniventes com essas práticas (a máxima era a palavra de ordem “seu voto mata negros”, que não dava outra possibilidade ao trabalhador que não quisesse votar no Haddad, de ser contra o assassinato de negros).

Os tempos que virão não serão totalmente novos, pois a barbárie, o individualismo, o todos contra todos, o assédio aos trabalhadores pelos seus patrões, a militarização estão todos aí já há um tempo, sendo o atual momento muito mais a consequência do nosso esfacelamento, do que a causa. É preciso considerar, porém, que haverá um recrudescimento dessas formas já colocadas, com uma intensificação da repressão e perseguição à esquerda em geral, que não sabemos ainda a dimensão.Pensando mais especificamente na nossa segurança, também me parece interessante se distanciar das simbologias, das formas e do vocabulário de esquerda. Me lembrei de uma entrevista do Waldemar Rossi, da Oposição Sindical Metalúrgica–SP, em que ele conta que parecer um militante sindical, um “operário lutando por melhores condições de vida”, e não um militante de alguma corrente ou partido de esquerda, era uma proteção para o pessoal da OSM. Ele relata uma greve, em 1964, que ele ajudou a organizar na empresa que trabalhava, em que o pessoal do DOPS é chamado pelo dono da empresa e depois de conversar com os grevistas, dizem para o dono da empresa se resolver com os operários, porque se tratava de um problema unicamente “trabalhista”, sem relação com os “esquerdistas”. Com Bolsonaro no governo, existirá uma perseguição cada vez maior e mais declarada a essa “identidade de esquerda” e cada vez menos possibilidades de defesa por meio de instâncias democráticas e simbólicas para impedir a barbárie por parte das forças da ordem.

Por isso, ao invés de ficarmos afirmando nossos valores, penso que deveríamos fazer o movimento oposto, de se misturar com a classe, voltar a ser gente comum, a travar lutas mais silenciosas, que apareçam menos, mas que voltem a mobilizar os trabalhadores e envolvê-los de fato em um projeto próprio de classe. Nesse sentido, tornam-se ainda mais importantes as relações no dia a dia, os vínculos de amizade e solidariedade com os demais trabalhadores, seja no trabalho, na faculdade, na rua, ou onde quer que estejamos, que consigam colocar nosso poder de fato – mesmo que por enquanto ainda frágil – e evitem, por exemplo, a demissão ou perseguição de um colega, o assédio das chefias sobre algum trabalhador, que assegurem as poucas condições de trabalho que nos restam, e assim por diante. Militantes de esquerda isolados serão presa cada vez mais fácil para a repressão, ao passo que trabalhadores bem vistos em seu serviços, que tenham grupos de trabalhadores que corram por eles, categorias organizadas para lhes dar proteção, que tenham “conceito” em seus bairros, nas Igrejas que frequentam, e assim por diante, mobilizarão mais gente e tornarão suas vidas mais custosas. Historicamente, é a organização da classe que protege os trabalhadores mais empenhados na luta contra o capitalismo (os ditos militantes do movimento operário) da repressão, e não o contrário.

A única certeza é que não virão tempos fáceis, mas a luta de classes nunca foi mesmo tranquila. Teremos que continuar lutando, porque não tem outro jeito. Se há uma lição que podemos tirar dessa eleição do Bolsonaro é que a História não é um conto da Carochinha. É cabeça no lugar e pé no chão; sem desespero, e com atenção redobrada.

Fotos da capa e do texto: Guilherme Santos

Manifestantes antifascistas contra Bolsonaro: Sérgio Silva

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom, essa é uma das minhas reflexões. A esquerda adormeceu com a democracia acreditando que com ela seria tudo “paz e amor”.

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