Por Dan Furukawa Marques

Nesta última semana, o Brasil foi palco de algumas das mobilizações populares mais importantes de sua história. No último século, protestos semelhantes somente ocorreram nas marchas de 1968, no levantamento contra a ditadura militar em 1985 e para o impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992. Diante de um fenômeno de tamanha amplitude, é necessário muita cautela para não se tirarem conclusões conjunturais precipitadas. Todavia, alguns pontos de conflito salientados ao longo dos eventos devem ser clarificados anteriormente ao debate sobre o sentido das lutas atuais: o significado de democracia, mas principalmente o conceito de política. Depois de esclarecidos, esses conceitos nos permitirão estabelecer uma relação entre o apartidarismo das manifestações e o individualismo moderno próprio de nossa era.

Muitos debates da semana passada giraram em torno do “apartidarismo”, ou melhor, do “antipartidarismo”, bandeira de uma suposta neutralidade política. Manifestantes ostentando bandeiras de partidos políticos e movimentos sociais foram alvo de violência verbal e física por parte de pessoas que se diziam “apartidárias”, que reivindicavam a causa “maior”, “unificadora”, causa essa que teria capacidade de transcender divergências ideológicas. Por uma vez, teríamos deixado de lado as etiquetas políticas, dando-nos as mãos e lutando juntos por um “Brasil melhor”. À primeira vista, nada parece mais nobre do que se elevar acima do conflito partidário para uma união enquanto “brasileiros”. Porém, algumas perguntas se impõem: Divergências políticas se resumem a divergências partidárias? É realmente possível ir além da escolha política? Para respondê-las, tomaremos um caminho histórico-filosófico, sobre a definição do conceito de política.

O filosofo francês Claude Lefort faz uma distinção entre a política (“la politique”) e o que é político (“le politique”). Para Lefort, a política surge no século XIX com a fragmentação da sociedade em esferas de atividade: política, econômica, jurídica, cultural, religiosa, artística, etc. De fato, até então não existia uma distinção, por exemplo, entre poder político e poder religioso. É também nesse período, dominado pela crença na supremacia da razão humana, que surgem a economia e a sociologia como categorias científicas e sociais distintas. Essas novas ciências carregavam a esperança de se apreender objetivamente o funcionamento do comportamento humano. Logo, a política se define como uma forma histórica de se conceber uma atividade específica dos seres humanos democráticos: a atividade política. Essa atividade passou a ser conhecida no imaginário moderno pelo mecanismo de representatividade, com a organização dos interesses políticos da sociedade em partidos.

Em contrapartida, o “pensamento do que é político” é fiel a uma antiga e constante inspiração da filosofia, segundo a qual “o” político (não a pessoa, mas o que é político) designa os “princípios geradores da sociedade, ou melhor, das diversas formas de sociedade” [1]. Essa linha de pensamento segue uma ideia comum, que se impôs historicamente, segundo a qual “uma sociedade se distingue de outra pelo seu regime”, no sentido grego do termo: a forma pela qual coexistem os seres humanos que a compõem. Nesse sentido, é político a maneira pela qual se estrutura uma determinada sociedade. Algumas se constroem democraticamente, outras monarquicamente ou ainda de maneira totalitária.

Essa definição mais abrangente do que é politico nos permite constatar que sociedades democráticas vivenciam momentos de maior e menor vigor político-democrático, onde os princípios geradores da sociedade são mais ou menos explicitados. Os momentos de menor vigor político-democrático são aqueles onde nada acontece. O povo, a cada quatro ou cinco anos, se limita a exercer seu poder na hora do voto. Os representantes governam então como bem entendem, levando a cabo suas próprias pautas. Os momentos de grande vigor político-democrático, por outro lado, são os que estamos presenciando desde o dia 17 de junho. Nesses momentos, o povo sai às ruas para exigir um real exercício do poder, tentando impor as suas preocupações e prioridades. São momentos de efervescência política onde os princípios geradores da forma de sociedade em que vivemos se tornam repentinamente mais visíveis, palpáveis e salientes aos nossos sentidos e à nossa razão, permitindo-nos enxergar com novos olhos a sociedade em que vivemos.

Portanto, o comportamento dos “antipartido” traz à tona algumas facetas reveladoras da sociedade brasileira. O desejo de não se querer partidos nas manifestações traduz um cansaço profundo com todos os partidos atuais. Esse cansaço criou um desejo ilusório e perigoso de neutralidade política. No Brasil, como escreve o militante da UNEafro, Douglas Belchior, essa conjuntura se explica em parte pela “prática fisiológica, aliancista e acordista promovida nos últimos 10, 15 anos, [que] desconfigurou o papel ideológico e de demarcação política que se espera dessas organizações [partidos políticos]” [2].

No entanto, para os “antipartido” a presença do povo na rua não parecia refletir o tão esperado exercício efetivo do poder popular que revigoraria a democracia brasileira. Porque esse exercício exige, no mínimo, a formulação de horizontes políticos comuns do que seria uma sociedade justa, o que os “antipartido” não desenvolveram. Pelo contrário, o que se viu foi a expressão de um descontentamento vazio de conteúdo, despolitizado, muitas vezes orientado pela mídia, mas principalmente individualizado. Com efeito, a violenta repugnância de toda organização de caráter explicitamente político – incluindo movimentos sociais como a UNEafro e a Marcha Mundial das Mulheres – reflete uma lógica da superioridade da representação individual dos interesses do povo; povo este na sua versão puramente abstrata e desconectada da realidade. Essa atitude nada mais é do que uma forma política pela qual se manifesta o individualismo moderno e democrático de nossas sociedades ocidentais.

Em outras palavras, os “antipartido” não propunham nada mais do que uma consagração da opinião política individualizada, sem preocupação com princípios que unem politicamente um grupo social. Não obstante, a fachada da bandeira do Brasil, no melhor dos casos, demonstrava um analfabetismo político e, no pior dos casos, um nacionalismo de direita. Ter partido não é somente partido político; também significa tomar partido politicamente, fazer escolhas quanto ao tipo de sociedade na qual desejamos viver. Essas escolhas podem muito bem ser feitas por outros meios que não sejam os partidos políticos (sindicatos, movimentos sociais, estudantis, etc.), mas elas são necessariamente políticas, pois implicam, por definição, a forma de sociedade na qual desejamos viver.

Para concluir, devemos ressaltar a fundamental importância de outro efeito das mobilizações: o despertar da consciência política. De forma geral, temos, de um lado, os que “nunca dormiram” e, de outro lado, “os que acordaram”. Os dois grupos são variados e ecléticos. No primeiro encontramos todo tipo de militante, de todos os tipos de grupos políticos. Esses, sem dúvida, tirarão lições importantes dos eventos atuais. Dentro do segundo grupo encontram-se os “antipartido”, mas também os ativos silenciosos. Ativos, pois estão nas ruas, silenciosos, porque (talvez pela primeira vez) ao serem tocados de corpo e espírito por questões sociais e políticas, escutam humildemente, tentam entender e se posicionar nos debates, compreender a história sendo escrita por eles. Tanto os ativos silenciosos quanto os “antipartido” – com a condição de que esses últimos reflitam e revejam seriamente suas práticas atuais – contêm um potencial político imenso. Amanhã, esses novos sujeitos, independentemente de suas orientações ideológicas, se permanecerem “fiéis ao evento” [3] que os transformou, continuarão a revigorar a democracia e a política brasileiras.

Notas

[1] Claude Lefort, Essais politiques, Paris: Gallimard, 2001, p. 280. Minha tradução.
[2] http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-bandeira-do-meu-partido-3725.html
[3] Termos do filósofo francês Alain Badiou, Esthétique, Paris: Éditions Hatier, 1993.

Nota sobre o autor

Dan Furukawa Marques é doutorando da Escola de Estudos Políticos, Universidade de Ottawa, Canadá.

Ilustram o artigo as ocultações de Fernando de Azevedo produzidas em 1949 e 1950.

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