Por Alessandro Peregalli
No último dia 14 de dezembro, minutos após o triunfo eleitoral do candidato da extrema direita chilena, José Antonio Kast, com contundentes 58,2% dos votos, um dos memes que apareceram repetidamente nos meus grupos de WhatsApp ou no meu feed do Instagram dizia a seguinte frase: 2019 Dignidad, 2025 Colonia Dignidad. Em outubro de 2019, de fato, o conceito de “dignidade” havia sido colocado no centro de uma série de reivindicações, materiais e simbólicas, durante o estallido social que fez tremer os alicerces do modelo neoliberal chileno — a ponto de os manifestantes terem rebatizado como “Plaza de la Dignidad” a Plaza Italia de Santiago, que por meses havia sido seu principal ponto de encontro. Apenas seis anos depois, aquela “dignidade” que o Chile prometia recuperar transformou-se tragicamente no seu oposto.
“Colônia Dignidade” foi uma comunidade agrícola isolada e autossuficiente fundada em 1961 pelo ex-militar nazista Paul Schäfer, que funcionava como uma seita religiosa e ideológica na qual os membros eram submetidos a trabalho escravo, separação forçada de crianças de suas famílias e abusos sexuais constantes. Durante a ditadura de Pinochet, a colônia serviu também como centro clandestino de detenção, tortura e extermínio de opositores políticos. Embora não provenha exatamente dessa experiência, o pai do recém-eleito presidente Kast, Michael Martin Kast Schindele, era um ex-nazista que fugiu clandestinamente para o Chile em 1950, onde fundou uma empresa de embutidos chamada Bavaria. Seu irmão mais velho, Miguel, foi um influente Chicago Boy, como eram chamados os economistas que ditavam a linha econômica do regime militar, inspirados pela escola neoliberal de Chicago. No referendo de 1988, José Antonio Kast votou a favor da continuação da ditadura e posteriormente sempre reivindicou a herança da experiência de Pinochet. Após uma longa militância no partido da direita pós-pinochetista UDI (União Democrata Independente), Kast fundou em 2019 o mais radical Partido Republicano, com o qual foi eleito presidente, depois de ter sido derrotado nas duas eleições anteriores.
Não é fácil, hoje, compreender as razões de uma reviravolta política tão radical ocorrida no Chile em tão pouco tempo. Meu propósito, nestas linhas, é tentar reconstruir os acontecimentos mais importantes dos últimos seis anos, para depois traçar algumas pistas de interpretação, articuladas em torno de três nós fundamentais: a capacidade de resiliência do neoliberalismo chileno, sobretudo no plano subjetivo do corpo social chileno; a natureza fundamentalmente contrarrevolucionária daquela “nova esquerda” chilena que chegou ao governo com Gabriel Boric em 2021, não tanto como “produto” mas sobretudo como “reação” ao estallido social; e o impasse vivido hoje, em nível global, pelo pensamento e pela estratégia revolucionários, bem como pela própria ideia de revolução, que o caso chileno evidenciou de maneira paradigmática.
O Pacto de 15 de novembro e o processo constitucional
O estallido social chileno eclodiu em 18 de outubro de 2019, quando, após a repressão a um protesto de secundaristas contra o aumento da tarifa do metrô de Santiago, várias estações foram incendiadas. A revolta se espalhou rapidamente por todo o país, com ocupações de praças e destruição de agências bancárias, estabelecimentos comerciais, prédios públicos, igrejas e monumentos associados à longa história de colonialismo. O então presidente de direita Sebastián Piñera reagiu decretando o Estado de Emergência, que causou — segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) — 45 mortes e quase 500 traumas oculares (com 82 pessoas que perderam completamente a visão), além de 1.082 casos de tortura e tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, e 282 agressões sexuais.
Em resposta à repressão, no dia 25 de outubro realizou-se a maior manifestação da história do Chile, com a participação de 3 milhões de pessoas em todo o país, em uma população total de 19 milhões. Apesar do toque de recolher decretado pelo governo, a mobilização continuou por semanas, com confrontos diários com os Carabineros e a participação extraordinária de jovens provenientes das periferias urbanas que constituíram a chamada primera línea, um cordão dedicado a manter a polícia ocupada para permitir a participação das famílias nas manifestações.
Nesse contexto, multiplicaram-se as greves, sobretudo de trabalhadores portuários que, considerando a extensão marítima do país, representam um setor extremamente estratégico para a economia nacional. No dia 12 de novembro, a plataforma Unidade Social, uma coalizão de sindicatos e organizações sociais, convocou uma greve geral por tempo indeterminado, com forte participação no serviço público (especialmente educação e saúde), além dos setores bancário, comercial, mineiro, da construção civil e, justamente, portuário.
As duas principais reivindicações que emergiram nessa conjuntura — e que articularam todas as demais, desde o fim do sistema de privatização das aposentadorias, da água e dos recursos naturais até a luta contra o extrativismo; da defesa dos direitos sindicais à legalização do aborto; do acesso universal e gratuito à universidade à defesa dos direitos territoriais dos povos originários — foram a renúncia de Piñera e a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, que permitisse superar a Constituição imposta por Pinochet em 1980 e todo o seu correlato de políticas neoliberais. A resposta do poder político articulou-se então em torno desses dois eixos, buscando por um lado garantir a continuidade institucional do governo e, por outro, conceder às ruas o início de um processo de reforma constitucional que pudesse ser limitado, canalizado e controlado pelo marco institucional vigente.
Para que isso funcionasse, contudo, era necessária a colaboração da oposição política. Na noite entre 14 e 15 de novembro, a grande maioria dos partidos representados no Congresso assinou o Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição, após muitas horas de negociações transmitidas ao vivo pela televisão. Endossaram a decisão a ex-Concertação de Partidos pela Democracia — uma coalizão da esquerda neoliberal chilena, com protagonismo dos partidos Socialista (PS) e Democrata-Cristão (PDC) — e, à sua esquerda, uma parte da Frente Ampla (FA), entre eles o jovem deputado Gabriel Boric, enquanto outra parte da FA e o Partido Comunista (PC) rejeitaram o acordo. Já a partir do próprio nome, este evidenciava, em primeiro lugar, a necessidade de restabelecer a paz social no Chile, em troca da promessa de um processo constituinte a ser realizado segundo regras extremamente restritivas.
Embora os protestos tenham continuado de forma constante nas semanas seguintes, o acordo atingiu o objetivo de superar a fase mais dura das mobilizações, encerrando a greve geral, salvaguardando a presidência da República e a impunidade dos Carabineros, e deslocando a atenção de parte dos movimentos sociais para o processo constituinte. As assembleias territoriais que haviam se constituído ao longo da revolta começaram a se dividir quanto à adesão ou não a esse caminho, enquanto a chegada do verão passou a esvaziar as ruas. Em 8 de março de 2020, uma enorme manifestação feminista prometia reabrir o ciclo de mobilizações, mas o governo foi salvo pela eclosão da pandemia da Covid-19, que permitiu restabelecer — desta vez com maior legitimidade social, dada a ameaça sanitária — o estado de exceção e o toque de recolher. O longo período de confinamento doméstico, além de evidenciar o agravamento da crise social e psicológica da sociedade, teve evidentemente um efeito de desagregação daqueles vínculos que haviam se formado de maneira intensa, porém breve, no calor da insurreição popular. Ao mesmo tempo, a pandemia permitiu adiar de abril a outubro o início do processo constituinte.
Este último, na forma prevista pelo acordo de 15 de novembro, apresentava enormes limitações. Em primeiro lugar, porque se baseava em uma Convenção Constitucional convocada pelo Parlamento e coexistente com a plena continuidade institucional dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vigentes. Não se tratava, portanto, de uma Assembleia Constituinte plenamente soberana, cujo poder emanasse diretamente do povo. Em segundo lugar, o cronograma estabelecido — agravado pela pandemia — abria o risco de um desgaste institucional, canalizando grande parte das energias populares para eventos eleitorais contínuos, como os plebiscitos de início e de encerramento do processo e, entre eles, um ciclo de eleições municipais, regionais, parlamentares e presidenciais. Em terceiro lugar, a Convenção estava limitada por um altíssimo quórum de dois terços para a aprovação de cada artigo, o que garantia à direita e à ex-Concertação um poder de veto permanente. Por fim, todos os tratados internacionais — entre eles cerca de trinta acordos de livre comércio assinados pelo Chile nas últimas décadas — eram considerados intocáveis e não passíveis de revisão.
Apesar desses obstáculos, após a fase mais dura do primeiro ano da pandemia — durante o qual, em todo caso, a iniciativa política popular não cessou totalmente, dando origem a experiências de cozinhas comunitárias nos bairros, greves de trabalhadores da saúde, protestos pela libertação dos presos políticos da revolta, a greve de fome de um grupo de detentos mapuches e diversas insubordinações nas prisões — o início do processo constituinte parecia sancionar uma mudança radical nos equilíbrios políticos do país. No plebiscito de 25 de outubro de 2020, um ano após o estallido, 78,3% da população votou a favor da abertura do processo constituinte, e 78,9% a favor de uma Convenção escolhida integralmente pela cidadania, e não por uma assembleia mista, eleita metade por sufrágio universal e metade pelo Parlamento. Nas eleições seguintes, em 11 de abril de 2021, para a composição dessa Convenção, as forças progressistas e independentes obtiveram uma ampla maioria. A Lista do Povo e a lista Independentes por uma Nova Constituição, promovidas por movimentos organizados fora dos partidos políticos, conquistaram respectivamente 26 e 11 dos 155 assentos; a lista Aprovo Dignidade, composta por uma aliança entre a FA e o PC, elegeu 28; 17 cadeiras foram reservadas a representantes dos povos indígenas e 11 foram conquistadas por candidatos independentes eleitos fora das listas eleitorais. Os partidos tradicionais saíram duramente derrotados, com 26 cadeiras para os partidos da ex-Concertação e 37 para a coalizão das direitas. No mesmo dia, candidatos comunistas e da FA venceram as eleições municipais nas principais cidades do país. A nota dissonante, contudo, foi a participação eleitoral de apenas 43% da população, um dado por muito tempo subestimado, mas que já prenunciava os limites do processo constituinte em curso.
Esses limites emergiram com força ao longo de todo o período de trabalhos da Convenção. Apesar das intenções iniciais dos movimentos sociais de exercer uma pressão constante sobre a assembleia, esta rapidamente passou a funcionar segundo lógicas semelhantes às do Congresso Nacional, atuando como um espaço separado do clamor popular que, apesar de tudo, a havia instaurado. Ao mesmo tempo, seu prestígio foi rapidamente abalado por alguns escândalos — o mais emblemático envolvendo o membro da Lista do Povo, Rodrigo Rojas Vade, que durante a campanha eleitoral havia se apresentado falsamente como doente terminal, o que lançou um enorme descrédito justamente sobre os setores mais radicais da Convenção —, pela campanha contrária dos grandes meios de comunicação e pela guerrilha digital de uma série de bots nas redes sociais, que exploraram polêmicas geradas pelo uso de linguagem inclusiva nos trabalhos parlamentares, como o emprego do termo “pessoa menstruante” em vez de “mulher”. Paralelamente, um acordo entre eleitos da FA, do PS e do PDC freou a iniciativa dos setores mais radicais de forçar os limites previamente impostos à Convenção — como a exigência de maioria simples em vez de dois terços, o questionamento da legitimidade das instituições vigentes e a inviolabilidade dos tratados internacionais — e deslocou o eixo das discussões dos temas econômicos para questões culturais e identitárias.
A eleição de Boric e a vitória do “Rechazo“
O desgaste da Convenção Constitucional — com a desintegração da Lista do Povo após o escândalo Vade e uma série de conflitos internos — e o refluxo progressivo das mobilizações de rua conduziram o cenário político-eleitoral chileno a uma estabilização institucional, recolocando os partidos políticos tradicionais no centro da iniciativa política. Nas primárias para escolher o candidato da aliança Aprovo Dignidade, em julho de 2021, Gabriel Boric – que havia sido um dos responsáveis pelo acordo de pacificação de 15 de novembro de 2019 e, por isso, era duramente rejeitado pelos setores sociais protagonistas do estallido social – derrotou de forma surpreendente o candidato comunista Daniel Jadue, considerado mais próximo das demandas da revolta. Para a vitória de Boric contribuíram numerosos eleitores dos partidos da ex Concertação. Nas eleições de 21 de novembro de 2021, Boric ficou em segundo lugar, com 25,8% dos votos, sendo superado pelo candidato de extrema direita José Antonio Kast, que obteve 27,9%. Em terceiro lugar, a grande surpresa foi Franco Parisi, fundador do Partido da Gente, uma força “antipolítica” e tecno-populista, cujas principais propostas econômicas apontavam para um liberalismo radical e para a redução da burocracia pública (Estado mínimo). Parisi era uma figura ambígua, consultor econômico residente nos Estados Unidos, que acumulava uma dívida milionária por se recusar a pagar pensão alimentícia aos filhos. No segundo turno, em 19 de dezembro, Boric venceu com 55,87% dos votos, graças ao aumento da participação eleitoral de 47% para 56%, impulsionado sobretudo pelo voto dos setores populares.
A figura de Boric havia emergido no movimento pela gratuidade do acesso ao sistema universitário em 2011. Junto à comunista Camila Vallejo e a Giorgio Jackson, da Frente Ampla, Boric fazia parte de uma geração política de elite no Chile, cujos membros se destacaram como figuras responsáveis e pacifistas, em oposição às práticas de ação direta dos coletivos anarquistas e insurrecionalistas, que no Chile têm uma forte presença especialmente entre estudantes do ensino médio das escolas das periferias urbanas.
A trajetória política de Boric, assim como o seu governo, passou por um deslocamento constante à direita. Para vencer o segundo turno das eleições presidenciais, Boric moderou suas posições, e uma vez eleito nomeou o neoliberal Mario Marcel para o Ministério da Economia e vinculou o debate sobre reformas à negociação parlamentar, descartando qualquer apelo à mobilização social. Dado que sua base parlamentar original — a aliança entre a Frente Ampla e o Partido Comunista — havia obtido pouco mais de um quarto dos assentos, Boric passou a depender do apoio dos partidos da esquerda neoliberal, como o Partido Socialista (PS), a Democracia Cristã (DC) e o Partido pela Democracia (PPD), cujo peso se tornou cada vez mais central também dentro do próprio governo.
Apesar de se apresentar como defensor da aprovação da nova Constituição que estava sendo elaborada naquele período pela Convenção, desde o início do mandato, em março de 2022, o governo Boric não fez senão obstaculizar o processo constituinte, que já se encontrava em crise por dinâmicas próprias. Isso ocorreu tanto por escolhas políticas estruturais que iam na direção oposta às reivindicações expressas no estallido social, quanto por erros grosseiros decorrentes da total inexperiência política da classe dirigente que chegou ao governo com ele. A soma desses fatores — frequentemente entrelaçados — acabou não apenas comprometendo a nova Constituição, mas também facilitando, quatro anos depois, a chegada da direita neo-pinochetista ao Palácio da Moneda.
Apenas quatro dias após a posse do governo, a nova ministra do Interior, Izkia Sassen — que, como presidenta do Colégio Médico, havia se destacado pelo bom trabalho no enfrentamento da pandemia e havia feito campanha por Boric — decidiu entrar no território mapuche de Temucuicui, na região da Araucania, sem diálogo prévio com as autoridades locais. Sua delegação foi recebida com barricadas, um veículo incendiado e disparos de armas de fogo, sendo forçada a evacuar a área. No entanto, o erro mais grave cometido pelo governo foi, sem dúvida, a recusa em permitir o quinto saque dos fundos das AFP. As AFP (Administrações de Fundos de Pensão) são entidades financeiras encarregadas de gerir integralmente as aposentadorias dos chilenos, em um sistema previdenciário totalmente privatizado desde o governo Pinochet. Durante a pandemia, sob pressão da oposição, o governo Piñera havia aceitado permitir quatro retiradas dos valores mensalmente confiscados dos salários pelas AFP. Uma vez no governo, Boric recuou e bloqueou novos saques, justificando a decisão com a necessidade de proteger a economia de pressões inflacionárias. Essa decisão contribuiu para reduzir rapidamente o apoio popular ao governo, que se manteve em torno de 38% durante os meses que antecederam o plebiscito final da Constituição — um resultado idêntico ao percentual obtido pelo voto favorável à nova Carta no plebiscito de 4 de setembro (38,1% para o Apruebo contra 61,9% para o Rechazo). Durante toda a campanha eleitoral do referendo constitucional, além disso, Boric contribuiu para deslegitimar os trabalhos da Convenção ao assegurar que, após a eventual aprovação do texto, seria aberta uma discussão sobre correções a serem feitas na Carta.
Considerada por muitos como estrondosa, a derrota no referendo de 4 de setembro foi objeto de inúmeras interpretações. Segundo o historiador Sergio Grez, as causas da vitória do Rechazo são certamente complexas, sobretudo “porque não houve um único Rechazo, mas múltiplos rechazos, ou seja, diversas razões que, somadas, constituíram uma esmagadora maioria de rejeição ao texto proposto”. Entre os motivos apontados, destaca-se o voto de castigo contra o governo Boric e suas políticas de continuidade neoliberal, a rejeição do desempenho da Convenção Constitucional — e de alguns convencionais em particular — e uma reação conservadora de amplos setores da população, sobretudo das classes populares, diante de propostas como o Estado plurinacional, o direito ao aborto aparentemente sem limites, além das já mencionadas polêmicas em torno da chamada “linguagem inclusiva”. A questão da plurinacionalidade, em especial, proposta pelos convencionais com o objetivo de imitar as constituições equatoriana de 2008 e boliviana de 2009, deu margem a uma série de alertas sobre o risco de “desintegração” da unidade nacional (habilmente explorados pela campanha da direita); não levou em conta a especificidade da presença indígena no Chile, muito menor em termos absolutos e muito mais concentrada geograficamente em algumas regiões; e foi contestada também por amplos setores do próprio movimento mapuche, como a histórica Coordinadora Arauco Malleco (CAM), que boicotou os trabalhos da Convenção ao reivindicar uma independência política plena em relação ao Estado chileno.
De modo geral — argumenta Grez — todos os temas baseados em questões identitárias (ambientalismo, feminismo, plurinacionalidade, regionalismo e “territórios”) não geraram adesão para além dos respectivos “nichos” que haviam possibilitado a eleição de alguns convencionais. Em contraste com a hiperabundância de temas identitários, as questões relacionadas aos trabalhadores e à sua relação com o capital ocuparam um papel marginal: dos 388 artigos, apenas seis eram dedicados a esses temas. Isso refletia também a própria composição da Convenção, formada majoritariamente por advogados e jovens profissionais, com ausência quase total de dirigentes sindicais ou pessoas oriundas dos setores populares. Tudo isso foi habilmente explorado pela propaganda do Rechazo, a partir da qual se construiu uma campanha de fake news que muitos apoiadores do governo apontam como causa principal da derrota. No entanto, para Grez, o fator decisivo do fracasso do projeto de nova Constituição foi o fato de que ela não representava uma ruptura com a ordem neoliberal, nem garantia as reivindicações mais sentidas que emergiram na rebelião de outubro. Com efeito, “embora o texto redigido pela Convenção Constitucional proclamasse direitos como saúde, educação, moradia e seguridade social, entre muitos outros, ele não os assegurava, pois não incluía nenhuma norma que permitisse seu financiamento (como a nacionalização dos recursos naturais, expressamente descartada pelos convencionais)”. Por fim, um motivo frequentemente apresentado para explicar o amplo voto no Rechazo foi a decisão do governo — iludido pelo aumento da participação eleitoral no segundo turno presidencial que lhe garantiu a vitória contra Kast — de introduzir o voto obrigatório no Chile, com a previsão de multas elevadas para quem não comparecesse às urnas, levando muitos eleitores a votar pelo “não” como forma de reagir a essa imposição, punindo o governo.
Logo após o plebiscito, os partidos acordaram um novo processo constitucional, com um Conselho Constitucional eleito pela cidadania, porém sem possibilidade de candidaturas independentes, e acompanhado por um comitê de especialistas. Nas eleições para definir esse Conselho, a extrema direita saiu vitoriosa, com o Partido Republicano conquistando 22 das 50 cadeiras em disputa. Como consequência, o texto constitucional produzido por essa nova assembleia era ainda mais à direita do que a própria Constituição pinochetista vigente. No entanto, em um segundo plebiscito, realizado em dezembro de 2023, os chilenos rejeitaram novamente (55,7%) essa segunda proposta, encerrando — ao menos por ora — as tentativas de mudança constitucional e mantendo em vigor a Constituição de 1980.
O longo crepúsculo do governo Boric
Com a derrota no referendo, o governo Boric entrou precocemente em uma longa fase crepuscular, renunciando explicitamente a qualquer tentativa — ainda que mínima — de transformação social, e concentrando-se na estabilização e na normalização do país. Ao longo dos quatro anos de mandato, o Executivo não apresentou nenhuma iniciativa de relevo que o diferenciasse dos governos anteriores. Além disso, os setores da ex-Concertación conquistaram, no dia seguinte ao plebiscito, cada vez mais espaço dentro do governo, a começar pela nomeação, em setembro de 2022, de Carolina Tohá (PPD) para o Ministério do Interior, em substituição a Izkia Siches.
Talvez o que mais revele esse deslocamento à direita seja a mudança de postura em relação aos Carabineros. Se antes de ser eleito Boric afirmava que era urgente uma “refundação” dessa corporação — que no Chile goza, aliás, de enormes privilégios econômicos e políticos desde a ditadura —, após a eleição passou a falar de “reforma” e, uma vez empossado, a manteve totalmente inalterada. A ponto de que, enquanto o próprio Piñera havia afastado 29 generais por atos de corrupção, Boric não substituiu sequer um. Como argumenta Gabriel Teles, durante o governo Boric foram aprovadas dezenas de leis voltadas à segurança pública, leis que aumentaram penas, limitaram ocupações, reforçaram as atribuições policiais e endureceram o tratamento penal dos protestos. Ao mesmo tempo, nos territórios mapuche, o estado de exceção e a militarização foram mantidos e renovados repetidas vezes, com operações policiais letais, detenções preventivas prolongadas e continuidade da criminalização da luta territorial. Segundo Grez, Boric chegou inclusive a tentar algo que nem mesmo o governo Piñera havia ousado fazer: promover um projeto de lei para que as forças armadas pudessem vigiar a chamada “infraestrutura crítica” sem necessidade de solicitar ao Parlamento a autorização do Estado de Emergência.
Essa posição do governo contribuiu para criar uma verdadeira fissura entre o Executivo e os setores sociais que haviam sido protagonistas do estallido. Um episódio menor, e até ridículo, é demonstrativo dessa distância afetiva e simbólica: em maio de 2024, entrevistado sobre a figura do perro matapacos (“cão mata-policiais”) — um cachorro preto que estava na linha de frente de todas as manifestações, com um lenço vermelho no pescoço, e que se tornou um símbolo contra a repressão durante a revolta —, Boric o qualificou como uma figura “ofensiva e denegrinte”. Essa distância entre o governo e as ruas tornou-se totalmente evidente em 11 de setembro de 2023, durante a manifestação pelos 50 anos do golpe de Estado de Pinochet, quando, para que os membros do governo pudessem marchar sem sofrer contestações, o centro de Santiago foi completamente militarizado, proibindo-se o acesso de quase todos os manifestantes à Alameda central, reservada apenas a militantes de partidos e organizações de direitos humanos.
No plano das reformas que, segundo as promessas iniciais do governo, deveriam contribuir para superar o modelo neoliberal, os resultados efetivos foram extremamente limitados. No início de 2023, o projeto de uma reforma tributária progressiva — uma das principais promessas econômicas do governo — foi rejeitado pela Câmara dos Deputados e rapidamente arquivado. O principal êxito do governo foi a aprovação de uma reforma trabalhista limitada, que permite introduzir, até 2028, a jornada semanal de 40 horas, em substituição às atuais 45, mas que não altera em nada os (escassos) direitos e as (precárias) condições de trabalho. A outra reforma que avançou foi a do sistema previdenciário, que não altera a gestão privada das aposentadorias pelas AFP, mas busca introduzir alguns benefícios solidários, com atenção à compensação de gênero e aos anos de contribuição. Ambas as reformas tiveram como principal articuladora a ministra do Trabalho, Jeannette Jara, do Partido Comunista, que depois foi escolhida nas primárias do centro-esquerda como candidata presidencial, sendo derrotada por Kast. Em sentido oposto a esses tímidos avanços, o governo ratificou, no final de 2022, o tratado de livre comércio transpacífico TPP-11, duramente criticado pelo próprio Boric quando ainda era deputado.
Abundantes, por outro lado, foram os escândalos que envolveram a administração Boric ao longo do mandato e contribuíram para desgastar sua imagem. Em junho de 2023, foi aberta uma investigação sobre mais de 50 fundações ligadas a políticos do campo governista por desvio de recursos públicos da ordem de 100 milhões de dólares, enquanto uma interceptação telefônica revelava o envolvimento do próprio presidente no caso. Em julho de 2023, veio à tona um furto no Ministério do Desenvolvimento Social, no qual os ladrões se fizeram passar pelo ministro Giorgio Jackson, braço direito de Boric. O escândalo foi enorme e levou à renúncia do ministro. Em janeiro de 2024, foram reveladas uma série de reuniões — não registradas na plataforma de lobby — realizadas na casa do político de direita Pablo Zalaquett, entre os ministros do Trabalho, do Meio Ambiente e da Economia com empresários das AFP e da indústria do salmão. Em fevereiro de 2024, um incêndio devastador destruiu milhares de moradias na Região de Valparaíso e causou centenas de mortes e, embora o desastre não tenha sido responsabilidade direta da administração, quase dois anos depois registra-se apenas cerca de 50% de avanço na reconstrução habitacional, com mais de 2.500 moradias em construção ou ainda por iniciar as obras.
No final de 2024, dois verdadeiros terremotos atingiram o governo, sobretudo no plano simbólico. O primeiro envolveu uma de suas principais bandeiras de luta: o feminismo. Em 17 de outubro, o jornal La Segunda publicou que o subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, enfrentava uma denúncia por abuso sexual. Tanto Carolina Tohá quanto o próprio Boric tinham conhecimento do caso há dois dias, mas não tinham tomado providências, enquanto a ministra da Mulher, Antonia Orellana, e a porta-voz do governo, Camila Vallejo, foram mantidas à margem da situação. O segundo escândalo envolveu nada menos que o nome de Salvador Allende. No fim de 2024, o Estado decidiu comprar a casa de Allende para transformá-la em um museu, mas estourou um escândalo porque entre os proprietários havia uma ministra (Maya Fernández Allende, neta do ex-presidente socialista), algo proibido pela Constituição chilena. Isso levou à renúncia da ministra dos Bens Nacionais, Marcela Sandoval, à perda do mandato da senadora Isabel Allende, filha de Salvador Allende e envolvida na operação, e ao depoimento do próprio Boric perante a Justiça.
Nesse contexto de desgaste do governo e de refluxo das mobilizações sociais, o crescimento da extrema direita — já visível desde a derrota do primeiro plebiscito constitucional e das eleições para o segundo projeto de nova Constituição — consolidou-se, apoiando-se em um deslocamento da atenção midiática das questões relativas ao modelo econômico-social para temas como segurança e imigração. De fato, a imigração no Chile, que nos anos 2010 havia registrado um aumento de haitianos, colombianos e peruanos, facilitado por uma série de leis permissivas do Estado chileno, cresceu de forma significativa a partir de 2017-2018 com o forte fluxo de venezuelanos após o início da crise econômica no país caribenho. Esse fluxo aumentou ainda mais depois da pandemia, levando a uma crise humanitária em 2023 na fronteira com o Peru e a um aumento da percepção de insegurança nas principais cidades chilenas, amplamente explorado pela propaganda da extrema direita.
Como analisou Andrés Kogan Valderrama no Avispa Midia, “essas eleições se desenvolveram em um clima político fortemente orientado para a ultradireita, no qual discursos repressivos em matéria de segurança — ao estilo Bukele —, a criminalização da migração — ao estilo Trump — e a ideia de que o setor público é intrinsecamente corrupto — ao estilo Milei — penetraram profundamente na sociedade chilena; por isso, a ideia de um governo de emergência liderado por José Antonio Kast ganhou força”. Os resultados das eleições presidenciais de 2025 são representativos desse novo clima político: no primeiro turno, em 16 de novembro, atrás de Jeannette Jara — candidata de todo o campo governista, que obteve apenas 26,8% dos votos — ficaram, em sequência, Kast com 23,9%, Parisi com 19,7%, Johannes Kaiser (autoproclamado “reacionário” e “paleolibertário”, protagonista em 2024 de uma cisão ainda mais à direita do Partido Republicano, com a fundação do Partido Nacional Libertário) com 13,9%, e a candidata da direita tradicional, Evelyn Matthei, com 12,5%. No segundo turno, em 14 de dezembro, os votos dos três últimos se transferiram majoritariamente para Kast, permitindo-lhe uma vitória histórica de 58,8%.
2019-25: resiliência neoliberal
Se agora afastarmos o olhar da rígida cronologia dos fatos que levaram à transformação de um símbolo — a dignidade — no seu oposto — Colônia Dignidade —, podemos tentar elaborar algumas hipóteses sobre as razões de uma tão clamorosa reviravolta. Me limito a considerar três questões fundamentais: a resiliência neoliberal dentro e para além do estallido chileno, a função reacionária desempenhada pelo reformismo da Frente Ampla e do governo Boric, e o fechamento dramático do horizonte revolucionário nas práticas e nos conteúdos da revolta de 2019. Todos esses elementos, a meu ver, não são de forma alguma exclusivos do Chile, mas representam, talvez neste caso de maneira mais paradigmática do que em outros, o cenário atual — o “espírito do tempo”? — em várias partes do mundo.
Em um artigo publicado em 2019, logo após a vitória eleitoral de Bolsonaro, um grupo de militantes brasileiros perguntava-se como era possível que, cinco anos após a maior revolta social da história do Brasil, com reivindicações populares como a redução do custo do transporte público, a defesa dos territórios e a exigência de melhorias na educação e na saúde, quem tivesse colhido politicamente os frutos desse movimento fosse um outsider de extrema direita nostálgico da ditadura militar. Segundo esses militantes, “Jair Bolsonaro é um nome impreciso, mas potente, porque foi capaz de combinar a escalada repressiva com a rebeldia social liberada em 2013”. Nesse sentido, Bolsonaro — mas aqui podemos traçar um paralelismo com Kast —, após o refluxo da revolta, soube interpretar ao mesmo tempo uma frustração popular difusa, que havia sido um elemento importante do estallido, e uma demanda igualmente difundida por ordem, segurança e “normalidade”, que estava na base das exigências de repressão dessa mesma revolta. Nesse sentido, Kast conseguiu, desde 2019, apresentar-se como o candidato mais intransigente contra a rebelião popular, mas ao mesmo tempo manter seu perfil radical, de outsider, que foi capaz de captar, não necessariamente de maneira entusiasmada, mas às vezes como “mal menor”, uma parte do descontentamento social que não havia sido convencida por uma proposta ideológica de esquerda e que acabou frustrada em relação ao governo de Gabriel Boric.

Um dos slogans mais comuns surgidos durante o período do estallido foi a ideia de que ”Chile despertó”. Seria fácil dizer que o Chile parecera ter logo voltado a adormecer. Talvez uma chave para essa sonolência esteja no profundo enraizamento da racionalidade neoliberal na sociedade chilena, um enraizamento que, no calor da revolta de 2019, talvez tenha sido subestimado. Em um artigo publicado após as eleições, Nelson Alvear relativiza o consenso antineoliberal que emergiu no Chile após o estallido social. Para ele, fora do núcleo duro de movimentos, coletivos e comitês militantes formados na década anterior — do movimento estudantil dos “pinguins” em 2006 à luta pela gratuidade universitária em 2011, passando mais recentemente pelas grandes manifestações feministas e pelo movimento No+AFP —, “existe um outro Chile, ainda mais amplo: um país que não foi politizado pelas mobilizações estudantis nem pelo discurso antineoliberal, mas que acreditou sinceramente no relato do progresso individual. Para esses setores, o problema não é o mercado como princípio, mas o seu fracasso prático: salários insuficientes, serviços públicos deficientes, insegurança cotidiana. Daí o apoio a candidaturas ‘antissistema’, como a de Franco Parisi: expressões difusas de mal-estar que não oferecem um projeto, mas que marcam uma distância radical em relação à política tradicional”. Segundo Alvear, a rejeição da nova Constituição e o posterior deslocamento eleitoral para a direita “não expressam uma adesão entusiasmada ao conservadorismo, mas sim uma punição. Uma mensagem clara: a esquerda não soube falar com esse Chile majoritário. O problema não foi apenas político, mas também cultural. Uma parte da esquerda falou a partir de uma posição de incômoda superioridade moral, colocando em questão aspirações materiais elementares — ordem, estabilidade, segurança — como se fossem valores menores ou reacionários”.
A resiliência do neoliberalismo tem a ver com o caráter de “racionalidade” deste último, que — como argumenta a teoria foucaultiana — o torna algo muito mais profundo do que uma simples ideologia ou um conjunto de dogmas e políticas específicas. A profundidade dessa racionalidade foi evidenciada pelo livro Realismo Capitalista, de Mark Fisher, que analisa a percepção difundida segundo a qual o capitalismo não é apenas o sistema dominante, mas é percebido como o único possível. Para Fisher, o capitalismo apresenta-se como natural e inevitável, produzindo, por meio de um complexo sistema de dispositivos de medo, avaliação constante e precariedade, uma subjetividade individualista que tende a se opor e a neutralizar visões alternativas que busquem enfrentar os problemas sociais e psíquicos que ele provoca a partir de uma perspectiva sistêmica e não individual. O resultado é que, embora o sistema econômico — baseado em um constante processo de destruição criativa — não possa deixar de produzir crises sociais contínuas, torna-se cada vez mais provável que essas crises sejam enfrentadas com uma demanda por mais neoliberalismo, competitividade e mérito. Nesse contexto, eventos como o estallido social podem, de fato, interromper por um momento a lógica individualista dominante e — na ruptura radical com a ordem política e com o fetiche da mercadoria, assim como na constituição de embriões de formas organizativas coletivas — criar prefigurações de uma possível sociedade alternativa; mas, sem a capacidade de se enraizar e de durar no tempo, para além do momento explosivo e efêmero da revolta, essa lógica tende inevitavelmente a se reafirmar.
Progressismo como reação
Mas a que se deve a incapacidade desse “outro mundo possível”, surgido no estallido, de se enraizar, de se tornar uma nova hegemonia? Provavelmente as razões são muitas, mas gostaria de me concentrar aqui na função reacionária desempenhada pelo reformismo, tanto antes quanto durante o governo de Gabriel Boric. Em oposição à vulgata comum, no marxismo tradicional, de um fascismo entendido como instrumento da burguesia para esmagar uma revolução nascente, João Bernardo argumenta que o sucesso do fascismo sempre ocorreu não diretamente “contra”, mas “depois” da liquidação das forças revolucionárias pela ordem política existente, afirmando-se como alternativa “antissistema” (uma “revolta na ordem”) no contexto de desilusão e refluxo gerado pelo fracasso da revolução.
Se pensarmos na história do fascismo — se de fato aceitarmos mobilizar esse paralelo discutível para descrever hoje a plataforma política de Kast no Chile — e, mais recentemente, em algumas experiências da extrema direita contemporânea, podemos identificar a sucessão cronológica proposta por Bernardo. Tanto o fascismo quanto o nazismo emergiram — de maneira mais ou menos rápida — no refluxo do Biênio Vermelho de 1919-20, na Itália, e da revolução espartaquista e da breve experiência da República Soviética da Baviera, na Alemanha — sendo que, neste segundo caso, a repressão foi inclusive orquestrada pelo governo social-democrata de Friedrich Ebert com o apoio das tropas paramilitares freikorps. Mais recentemente, são bastante emblemáticos o caso, já citado, do Brasil, e o dos Estados Unidos, onde Trump se afirmou, em 2016, no refluxo de um período de contestação social inaugurado em 2011 pelo Occupy Wall Street e prolongado em 2014 com o movimento Black Lives Matter. Em todos esses casos, antes da ascensão do fascismo, o levante social já tinha sido liquidado, seja pelo esgotamento da sua dinâmica interna como pelo trabalho sujo da elite liberal ou progressista no poder.

Retomando o exemplo chileno, é possível argumentar que o estallido social de 2019 não foi derrotado pela extrema direita de Kast, mas pela ação do governo de Gabriel Boric — aclamado por muitos, de forma equivocada, como um aliado, senão um produto direto, da revolta social — à qual se somam uma série de fracassos estratégicos internos e uma boa dose de acaso e imprevisibilidade. Essa função “reacionária” do progressismo chileno manifestou-se tanto antes da chegada ao governo quanto durante os quatro anos de exercício do poder executivo, como podemos observar na sucessão de acontecimentos apresentada neste texto. Antes, o progressismo de Boric e da Frente Ampla salvou o sistema político (a queda iminente do governo Piñera era considerada altamente provável em novembro de 2019), freando a articulação entre motins urbanos e greve geral e permitindo canalizar as energias liberadas pela revolta para um percurso — tortuoso, desgastante e institucionalmente dirigido e limitado — de reforma constitucional. Nesse sentido, o início da hegemonia da extrema direita chilena não começou em 14 de dezembro de 2025, com a vitória eleitoral de Kast, nem em 4 de setembro de 2022, com a derrota do plebiscito constitucional, mas em 15 de novembro de 2019, quando Boric, setores da Frente Ampla, partidos da ex-Concertación e o governo Piñera assinaram o Acordo pela Paz e a Nova Constituição. Como argumenta Teles, com o processo constituinte e eleitoral, o conflito foi retirado do terreno em que produzia efeitos imediatos — a rua — e transferido para espaços onde tudo precisa ser convertido em linguagem jurídica, calendário político e negociação permanente.
Durante seu período de governo, por sua vez, Boric criou as condições para o retorno da extrema direita. Realizando reformas de fachada que, em vez de atacar o modelo econômico, o modernizaram; defendendo instituições chilenas em crise de legitimidade, em primeiro lugar o Exército e os Carabineros; cooptando uma parte dos movimentos sociais e reprimindo com força os setores não alinhados, militarizando a Araucania contra a insurgência mapuche e garantindo um novo marco legal para a proteção das infraestruturas estratégicas; e mostrando constantemente, por meio de uma série interminável de escândalos, o profundo nível de corrupção e de cumplicidade com a classe empresarial da nova geração progressista no poder. Segundo Teles, a experiência chilena deixa uma lição desconfortável: “o progressismo não é uma etapa intermediária rumo à ruptura. Ele é, muito frequentemente, o mecanismo que impede que a ruptura avance. Governar uma crise estrutural sem enfrentá-la significa estabilizá-la em favor da ordem existente”.
Revoltas sem revoluções
Se o progressismo representou uma barreira fundamental ao estallido social, se conseguiu deslocar as energias da rua para um caminho controlado e desgastante como o processo constituinte, chegando inclusive a cooptar muitas assembleias territoriais para reprimir com maior facilidade os setores mais radicais, isso não significa, contudo, que a revolta expressa em 2019 não tivesse limites próprios que a impediram de superar essas barreiras: de evitar a cooptação, o isolamento, a repressão e, em última instância, de não permitir que a raiva social fosse canalizada para propostas populistas e de direita.
Se aceitarmos a ideia de que as revoltas tendem a proliferar no capitalismo global a partir de ciclos, influenciando-se mutuamente nas práticas, nos símbolos e nos objetivos, é fácil enquadrar o estallido social chileno em um segundo ciclo de tumultos globais que se seguiu à grande crise de 2008. Após uma primeira fase de insurreições e proliferação de lutas anti-austeridade, que viu a rápida sucessão, em 2011, das primaveras árabes, dos indignados espanhóis, do Occupy Wall Street, das insurgências sociais na Grécia e, depois, em 2013, na Turquia e no Brasil, um novo ciclo parece ter se aberto em 2018 com o movimento dos coletes amarelos na França, a insurreição no Sudão e a luta pela independência de Hong Kong, para no ano seguinte deslocar seu epicentro para a América Latina com as revoltas no Equador, na Colômbia e, justamente, no Chile. A essa lista poderíamos acrescentar uma série de outros casos, além de considerar que, em 2025, com a chamada Geração Z, já se fala em um novo ciclo de revoltas.
Em um artigo recente, Adrian Wohlleben sustentou que o que mais caracteriza a nossa época é o fato de se tratar de um período rico em tumultos e insurreições globais que foram incapazes de encontrar uma bússola estratégica que conduzisse à revolução. Em um contexto de crise estrutural do capitalismo neoliberal, no qual a violência e as relações de força substituem cada vez mais o crescimento econômico como principal motor das dinâmicas globais, as revoltas contemporâneas, embora difundidas e por vezes espetaculares, também geraram novas formas de auto-organização e autonomia, mas permaneceram incompletas, detendo-se muitas vezes na simples denúncia da corrupção ou da austeridade, sem enfrentar a própria estrutura do capitalismo, e acabando por deixar espaço para um retorno negociado ao status quo. De fato, não é difícil imaginar que, se essas revoltas tivessem ocorrido — com o mesmo grau de participação, violência e capacidade de bloqueio dos fluxos produtivos — em um período anterior aos anos 1970, ou ao menos antes de 1989, provavelmente teriam desembocado em revoluções políticas.
Talvez pela potência simbólica de ter sido o laboratório das políticas neoliberais em escala global, o Chile entusiasmou muitas pessoas no final de 2019 quanto à possibilidade de também ser o país capaz de reinventar um caminho para a revolução. Provavelmente, o bloqueio do pensamento estratégico revolucionário revelou-se, ao contrário, como outra face da resiliência do neoliberalismo, aquela síndrome do realismo capitalista que nos torna mais fácil, como dizia Mark Fisher, imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Por outro lado, não é surpreendente constatar que o amplo movimento anarquista e radical chileno — crescido no proletariado juvenil durante os trinta anos de frustração com os governos do período pós-democratização — pratique uma prática política fortemente niilista e estética, resumível no conceito, proposto pelo coletivo Vitrina Dystópica, de “subjetividade ACAB (All Cops Are Bastards)”. Trata-se de um movimento que produziu uma enorme capacidade de ruptura do consenso, mas também um impasse estratégico quando foi chamado a dar uma resposta à altura do desafio revolucionário. Um exemplo disso foi a total incapacidade daqueles setores que se opunham ao Acordo de 15 de novembro de 2019 de propor um caminho de luta sério que fosse alternativo ao processo constituinte em curso. O Chile que, no início dos anos 1970, havia sido tomado como modelo de um experimento revolucionário de tipo novo — que ao mesmo tempo em que recusava o modelo da ditadura do proletariado ou do totalitarismo burocrático dos socialismos reais, era dinamizado por processos inovadores de construção de poder popular — representa hoje, de maneira exemplar, o curto-circuito histórico de um capitalismo cada vez mais destrutivo, que alterna continuamente progressismos cada vez mais limitados e fascismos cada vez mais audazes, e uma incapacidade constante de transformar a revolta em revolução.





