Por Davi

Como todos que possuem acesso à alguma mídia devem saber, os Estados Unidos sequestraram Nicolás Maduro, chefe de Estado da Venezuela, no último dia 3 de janeiro. O tema toma conta quase integralmente do noticiário e redes sociais desde então, com eventos ainda em desenvolvimento, mas acredito ser possível realizar uma leitura inicial – não exaustiva – da situação.

Traição

A ação militar sugere traição interna no regime bolivariano, como disse Rafael Uzcátegui em seu artigo. De fato, já fora divulgado que haviam agentes da CIA no terreno coletando informações de contatos internos do regime, que passavam informações precisas sobre a rotina de Maduro. Traições de figuras próximas do regime não seriam novidade, como no caso do major-general Manuel Cristopher Figuera, que se refugiou em 2019 após uma tentativa fracassada de golpe. Somente lunáticos como Breno Altman acreditam que o regime segue firme, sem fissuras internas e que a ação foi realizada de forma isolada pelos EUA.

Chavismo trumpista

Provavelmente não foi por acaso que Trump indicou Delcy Rodriguez, militante histórica do chavismo e que exerceu diversos cargos de importância como ministra de Economia, diretora do Banco Central e ministra do Petróleo. Segundo alguns relatos da mídia, haveria razões para que esse pacto fosse de interesse de ambos, pois o núcleo político de Delcy estaria sendo mais escanteado no arranjo político do governo Maduro.

Manter o regime seria uma necessidade econômica para o governo Trump e as empresas conseguirem lucrar com a exploração do Petróleo venezuelano, pois uma transição forçada seria muito mais custosa em termos de perdas e conflito, com resultados mais incertos do que o sequestro do líder do regime. A solução realpolitik seria manter por enquanto um governo chavista alinhado aos EUA, pois a oposição liberal seria débil demais entre os atores políticos envolvidos — militares, Legislativo e Judiciário.

Situação política na Colômbia

Trump ameaçou uma série de outros países em sequência ao ataque: Cuba, Colômbia, México, Groenlândia e Irã. Falando especificamente da Colômbia, foi sugerido que uma ação militar semelhante poderia ocorrer contra o presidente Gustavo Petro, a quem Trump acusa de relações com o narcotráfico. Essas falas têm repercutido bastante na mídia e na política colombianas, com diversos pronunciamentos do presidente Petro feitos nas últimas horas, chegando a defender que o povo tome o poder com armas caso seja atacado. Apesar das retóricas inflamadas, penso ser muito difícil que algo semelhante se repita em breve na Colômbia, pois há uma realidade bastante diferente da venezuelana. O país tem apresentado bons resultados econômicos recentemente, há uma democracia burguesa “respeitada” e certa liberdade política. Petro está em seus últimos meses de governo e haverá eleições em março, sendo o candidato de seu partido, Ivan Cepeda, o favorito para ganhá-las. As hostilidades de Trump tendem a fortalecer a esquerda governista, inclusive políticos de oposição criticaram sua postura. Se, porventura, houver uma ação análoga contra a Colômbia, há um risco real de uma grande convulsão social com efeitos incertos. Lembremos que o governo Petro é fruto dos recentes “estallidos” sociais do país, em 2019 e 2021, que seriam inclusive as maiores revoltas populares da história da Colômbia [1]. Portanto, há motivos para acreditar que nesse caso seria mais um blefe do que uma ameaça de fato. A força dos blefes de Trump, entretanto, é poder torná-los reais.

A reação dos venezuelanos

As reações públicas dos venezuelanos foram divididas entre os venezuelanos que moram na Venezuela e os refugiados em outros países. Dentro da Venezuela, segundo reportagens, houveram reações mistas: uma celebração tímida e algumas demonstrações públicas de apoio ao regime, muito provavelmente ordenadas desde cima pela classe dominante. Em ambos os grupos existe apreensão. Longas filas para estocar alimentos foram vistas nas ruas nos dias seguintes à operação.

Fora da Venezuela, houveram comemorações em mais de 30 países com refugiados venezuelanos, segundo a líder da oposição María Corina Machado. Foram notórias as manifestações no Chile, Argentina e Colômbia. Após a euforia inicial, parece haver bastante expectativa e também apreensão entre essas pessoas, que vislumbraram uma possibilidade de retornar à sua terra natal no futuro. Esses imigrantes e refugiados também publicaram milhares de vídeos em redes sociais explicando por que estavam comemorando, apesar da ação ter sido feita pelos Estados Unidos.

Como a esquerda reagiu?

As reações iniciais de boa parte da esquerda brasileira foram de repúdio, com a CSP-Conlutas convocando uma manifestação em protesto ao ataque à Venezuela já no dia 3. Diversas declarações públicas sobre defesa da soberania foram publicadas, houve a linha de que as ações dos EUA não terminariam na Venezuela e Vladimir Safatle disse que “o fato de Maduro ser um ditador pouco importa agora”. Houve uma reação um tanto tímida do Governo Federal, com Lula falando em defesa da soberania em abstrato, buscando não se chocar frontalmente com nenhum dos lados do conflito e preservar sua melhora de relação com Trump.

No dia 5, a CSP-Conlutas chamou um novo ato não só pela soberania, mas agora pedindo também “a libertação de Maduro”, algo surpreendente, pois o PSTU (dirigente da CSP), sempre fizera oposição explícita ao governo chavista. Ambos os atos foram pequenos, com um perfil muito mais de esquerda militante organizada.

Na Colômbia houve uma reação similar à da esquerda brasileira, mas com posições muito mais enfáticas do presidente Gustavo Petro contra a ação dos EUA. No momento existe um aproveitamento político em defesa da soberania nacional colombiana e um ato nacional convocado para quarta-feira, 7 de janeiro.

Ao redor do mundo houveram protestos contra a intervenção americana, também com um perfil muito à esquerda. Curiosamente, houve uma participação quase nula de venezuelanos em todos esses protestos, algo que inclusive foi usado por venezuelanos e pela direita para zombar dos manifestantes em alguns vídeos.

De todo modo, os atuais protestos contra a intervenção americana na Venezuela e pela libertação de Maduro parecem condenados ao fracasso. A pauta exigiria literalmente uma revolução dentro dos EUA para que Maduro fosse libertado, ou então um ataque de outra potência estrangeira. Os grupos dirigentes dos protestos, sabendo disso, aproveitam o momento para angariar mais seguidores e fazer propaganda.

Uma vela para Maduro?

Qualquer posicionamento em rechaço à intervenção americana na Venezuela que ignore as décadas de crise e regime autoritário que existem no país é caduco, cego. Parte do sucesso da operação americana foi ter escolhido um “alvo perfeito”: um regime sem legitimidade num país devastado e sem futuro. Boa parte do repúdio da esquerda se deve, na verdade, a ilusões quanto ao regime chavista: Jones Manoel, influenciador de esquerda, diz que acha Hugo Chávez uma inspiração e o maior líder popular do século XXI. O MST está avaliando o envio de militantes para protestos pró-chavismo na Venezuela.

É compreensível que a discussão sobre a Venezuela ser ou não uma ditadura pouco importe a pessoas como Vladimir Safatle, que não tiveram que virar pedintes ou trabalhadores informais em outros países e têm altos salários garantidos pelo Estado por período vitalício.

Aliás, é profundamente hipócrita que, após tantos anos de crise migratória, apenas agora a esquerda resolva “se importar” com os venezuelanos. No caso, prestando solidariedade apenas aos venezuelanos alinhados ao governo e se importando apenas em desmerecer e ridicularizar os refugiados que celebraram o sequestro de Maduro. Essa esquerda não tem coragem ou meios de tentar realizar ações conjuntas com os refugiados venezuelanos — sabem o quão ridículo seria chamá-los para um ato em prol da volta de Maduro ao poder. Resta falar apenas com sua claque de universitários e “esclarecidos”.

Façamos um exercício meramente hipotético: se Bolsonaro tivesse sido bem sucedido na tentativa de golpe em 2022, realizasse uma repressão brutal contra a esquerda e o governo Biden o sequestrasse, acham mesmo que essa esquerda que vocifera hoje nas redes sociais faria alguma coisa para exigir sua libertação e retomada ao poder, para que aí sim depois o assunto se resolvesse internamente? Aí fica escancarada a profunda hipocrisia do discurso de “defesa da soberania”.

A crise na Venezuela está longe de acabar com a continuidade do chavismo e a esquerda se encontra sem condições de intervir de qualquer maneira porque continua esquecendo quem mais importa: a população e os trabalhadores venezuelanos.

Notas

[1] MARIÑO FANDIÑO, JUAN JOSE. Historia de los paros nacionales en Colombia.

5 COMENTÁRIOS

  1. Embora o artigo acerte ao denunciar a conivência da esquerda mundial com as atrocidades do regime chavista e sua hipócrita defesa do direito internacional (a mesma esquerda que defende a invasão russa na Ucrânia), acho que ele peca em diminuir a gravidade da intervenção militar dos Estados Unidos contra a Venezuela. Não se trata apenas de violação do direito internacional, mas das próprias leis americanas. No seu discurso logo após a operação que sequestrou Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, Trump disse que agora Maduro “não poderia mais ameaçar cidadão americanos” e agradeceu à Guarda Nacional, às Forças Armadas e às forças de segurança por terem “acabado com o crime” em cidades como Chicago, Los Angeles, Washington DC, etc., e concluiu: “Deveríamos fazer isso em todas as cidades”. A agressão militar contra a Venezuela não é só a imposição de um poder imperial sobre outros povos: é também a consolidação de um poder sem limites contra o próprio povo americano. Não à toa, logo após o ataque, diversas cidades americanas presenciaram protestos em solidariedade à Venezuela. A empatia com o sofrimento dos venezuelanos não deve se dar às custas do abandono de todos os limites à intervenção estatal, entregando a população americana — e consequentemente do resto do mundo — ao arbítrio de um poder imperial do Sr. Trump. Nesse sentido, recomendo a leitura do Comunicado do Partido Comunista da Venezuela, publicado aqui, que a meu ver coloca a questão de forma correta.

  2. Ontem, 7 de janeiro, houveram diversas manifestações pela Colômbia, convocadas pelo governo, em defesa da soberania colombiana após as ameaças de Trump. Houve significativa participação, especialmente em Bogotá, em que o presidente Gustavo Petro discursou pela noite. Horas antes do discurso, ele e Trump falaram pela primeira vez por telefone, e logo depois o presidente americano publicou sobre a conversa, dizendo ter sido “uma honra” falar com o presidente colombiano e que iriam se encontrar em breve para uma reunião em Washington. No seu discurso, Petro bateu muito mais na oposição política colombiana que em Trump e assumiu que tivera que mudar o discurso após a ligação. A conversa foi tida como uma vitória política do governo colombiano.

    https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/07/trump-petro-telefone-colombia-eua.ghtml

    Isso reforça a noção de que a estratégia de Trump ameaçar a Colômbia não faz sentido politicamente e apenas ajudou o governo, com quem tenta agora uma aproximação.

    Emerson,
    Embora entenda plenamente seu ponto, no artigo quis reforçar os pontos que achei mais esquecidos no meio de toda a discussão, penso em fazer contribuições quando tenho coisas a acrescentar além do que já está circulando aos quatro ventos. Acho que tem essa questão de cenário de terra arrasada, em que não havia solução interna à vista na Venezuela – e ainda não há. Dizer que os problemas dos venezuelanos devem ser resolvidos pelos próprios venezuelanos tem a mesma força de dizer que o funcionário deve negociar com o patrão, sabemos que isso implica na continuidade do regime e da miséria daquele povo. E aliás, a questão já deixou há muito tempo de ter consequências apenas internas, dado a crise migratória que impacta os países da região. O que significa uma luta em defesa da soberania venezuelana, em termos práticos? Qual o valor das notas de repúdio? Não há oportunidades no meio dessa crise além do que está sendo proposto?

    Sua questão sobre as implicações para a população americana é muito boa e talvez possa ser uma oportunidade de fortalecer laços com organizações desse e de outros países. Se houvesse uma luta anti-imperialista séria, penso que uma articulação com os americanos seria uma das coisas mais importantes a serem feitas nesse momento. Assim como com as forças progressistas da Venezuela que tenham um mínimo de crítica ao governo, como o PCV que você citou e que tem tido posições interessantes nos últimos tempos. Penso que nossa única saída seja a internacionalização das lutas, algo que ainda engatinhamos enquanto esquerda anticapitalista.

  3. O texto é tão raso nos seus desenvolvimentos e argumentos que, na minha primeira leitura, achei ter sido escrito por um militante da direita. O autor, na masturbação teórica de apresentar-se em um posicionamento disruptivo em relação à “esquerda hegemônica “, partidária, a qual é perdida sim em diversos de seus argumentos, ações e posicionamentos, perde-se na encruzilhada e faz um coro ao mesmo que é proferido do lado de lá da luta de classes.

    “É compreensível que a discussão sobre a Venezuela ser ou não uma ditadura pouco importe a pessoas como Vladimir Safatle, que não tiveram que virar pedintes ou trabalhadores informais em outros países e têm altos salários garantidos pelo Estado por período vitalício.”
    E quais “riscos” o autor enfrenta de sucumbir a essa situação? Algum? De onde o autor escreve? Sua afirmação aqui, além de limitada, dá a compreender uma retomada à ideologia do local de fala, apenas quem partilha de um sofrimento tem o direito a falar sobre o mesmo.

    “Façamos um exercício meramente hipotético: se Bolsonaro tivesse sido bem sucedido na tentativa de golpe em 2022, realizasse uma repressão brutal contra a esquerda e o governo Biden o sequestrasse, acham mesmo que essa esquerda que vocifera hoje nas redes sociais faria alguma coisa para exigir sua libertação e retomada ao poder, para que aí sim depois o assunto se resolvesse internamente? Aí fica escancarada a profunda hipocrisia do discurso de “defesa da soberania”.”
    Marxistas não trabalham com hipóteses, mas com fatos e realidade concreta. Não há para nós a metafísica do “e se?”, isso é apenas a infantilidade de um pensamento metafísico, abstrato. A situação esquizofrênica descrita pelo autor não ocorreu, então pouco importa as hipóteses do que teria vindo a ser.

    No mais, tendo a fazer coro com o colocado no comentário de Emerson. Nem tudo precisa ser quadrado como a perspectiva levantada pelo autor, opor-se e criticar a invasão dos EUA não é anistiar Maduro pela sua ditadura e vice-versa. Ou todos os outros países já ameaçados por Trump após a ação em solo venezuelano estão também sob direções ditatoriais?
    Às vezes falta maturidade à esquerda autônoma e heterodoxa. É vaidade querer elaborar posicionamentos tortos apenas para se mostrar disruptivo.

  4. Juliana, não sei se te ensinaram na faculdade, mas adjetivos não são argumentos. Desde o início disse que era uma leitura inicial e não exaustiva – ressaltei pontos que acho muito importantes no contexto atual, para atingir o senso comum da bolha de esquerda – e que bom que atingi! Gostaria de que eu dissesse que sou contra a Venezuela virar uma colônia dos EUA e que a intervenção viola leis internacionais? Pois bem, concordo! Mas o que isso faz avançar em qualquer lado? Qual seria a posição “de direita” que o texto assume?

    Quanto a mim, sou apenas um trabalhador comum que prefere manter o anonimato. Te incomoda que pessoas que não sejam carreiristas acadêmicas das humanas critiquem a posição de intelectuais como Safatle, que certamente não se colocou no lugar desses refugiados ao dizer que pouco importa agora a Venezuela ser uma ditadura? Para eles eu tenho certeza que isso importa muito.

    https://www.vidaysocialismo.com.ar/para-quienes-no-son-venezolanos-por-diego-colombo/

    Coloquei um exercício hipotético e sabemos a resposta para ele, pois é quase uma pergunta retórica. Mas se quiser um exercício concreto, basta observar o comportamento da esquerda brasileira após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, que foi uma violação de soberania ainda mais grave do que fez os EUA na Venezuela, e que conta com centenas de milhares de mortos e feridos numa guerra de conquista que ainda segue. Isso inclusive deu o contexto geopolítico para que a intervenção na Venezuela ocorresse. Será que estão pensando em juntar as pautas para “defender o direito internacional” e promover o internacionalismo? Sabemos também a resposta para essa questão.

    Os questionamentos que fiz no comentário anterior prosseguem. Não vou mudar meus posicionamentos para agradar ninguém, pois apesar de tudo, acho que a principal função desse site é postar textos que desagradem o consenso. E ainda bem que ele existe.

  5. “A única maneira de evitar a distorção resultante da assimetria entre o a posteriori e o a priori consiste em levar a historiografia a incidir nos factores e relações que, apesar de serem realidades possíveis, acabaram por ser eliminados e nunca chegaram a ser realidades efectivas. Só estudando o que não aconteceu poderemos elucidar o que sucedeu. Deste modo, o a posteriori deve resultar do estudo do fracasso dos — de quantos? — a priori.

    A historiografia só atingirá um nível científico quando se transformar na história do não.”

    Fica a pergunta para Juliana Antunes: a “Historiografia do Não” de João Bernardo é comparável com o exercício de reflexão que Davi apresenta?

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