Por Leo Vinicius

Nazismo no poder nos EUA

Donald Trump possui um histórico de afirmações protorracistas quando não indubitavelmente racistas [1]. Seu imaginário eugênico racial não surgiu ontem [2]. Na última campanha presidencial, por exemplo, afirmou que “os imigrantes ilegais envenenam o sangue do nosso país”. Envenenar o sangue, expressão que Hitler usou, por exemplo, no seu livro Mein Kampf (Minha Luta). Pesquisa de opinião realizada em 2024 constatou que 34% dos estadunidenses concordavam com essa afirmação de Trump — 61% dos Republicanos concordavam, 30% dos independentes e 13% dos Democratas [3]. Quando Trump estava em seu primeiro mandato, pesquisas já apontavam a importância do ressentimento racial na sua base de apoio e eleitoral [4] — o que não significa, evidentemente, que os votos necessários para o eleger vieram somente através de um ressentimento racial.

O oportunista JD Vance, atual vice-presidente dos EUA e mais provável sucessor de Trump, era antiTrump cerca de dez anos atrás. Chamou Trump de “Hitler da América” em 2016, e no mesmo ano disse que: “Não tenho estômago para Trump. Acho que ele é nocivo e está levando a classe trabalhadora branca para um lugar muito sombrio” [5]. Mas, desde que resolveu se juntar a Trump, sua retórica de supremacismo racial têm sido até mais aberta que a de Trump. Ele sabe que a onda que pegou para surfar precisa ser alimentada…

O ICE (Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro) foi criado no governo Bush filho, durante a “guerra ao terror”. No seu governo, Obama pegou aquilo que era um órgão que existia apenas em alguns estados, e o tornou em órgão de abrangência nacional, triplicando seu orçamento. Por sua vez, Trump triplicou também o orçamento do ICE, tornando seu orçamento maior do que o orçamento bélico de quase todos os países do mundo. Um orçamento maior que o do FBI e de outros órgãos federais juntos. Sem contar o orçamento para construção de prisões para confinar a população abduzida, que aumentou de três a quatro vezes.

Claramente o governo Trump transformou o ICE na sua polícia de limpeza étnica/social/política [6]. As prisões majoritariamente de imigrantes sem antecedentes criminais no governo Trump, contrastam com os dados anteriores a 2025 [7]. É a face mais brutal e espetacular da sua política racial. Em 2025, 32 pessoas morreram nas prisões do ICE, o maior número nas suas duas décadas de existência [8].

Indígenas, os mais nativos daquela terra, têm sido abduzidos pelo ICE também. Embora não sejam muitos casos reportados [9], agentes do ICE falam abertamente para indígenas que eles serão os próximos [10]. A publicidade usada para recrutar agentes para o ICE também deixa pouca dúvida sobre a transformação do ICE na polícia de uma política de supremacismo racial [11]. Em suma, uma polícia política nazista.

A política de conquista territorial de Trump — outro aspecto semelhante ao nazismo e com o fascismo histórico — também expõe a ideologia de supremacismo racial. No caso da vez, a Groenlândia, postagens da Casa Branca utilizam conceitos nazistas e se direcionam a subculturas racistas e neonazistas [12]. O interesse de Trump pela Groenlândia provavelmente foi despertado pelo seu amigo Ronald Lauder, um bilionário do setor de cosméticos, que teria sugerido a ele comprar a maior ilha do mundo no seu primeiro mandato. O próprio Lauder fez investimentos na Groenlândia e possui interesse financeiro nela. Os interesses dos donos da Big Techs estadunidenses também podem ter acrescentado, devido aos minerais e quem sabe também ao projeto de cidade utópica (ou distópica) a ser construída na Groenlândia, idealizada por Peter Thiel, bilionário dono da Palantir e principal guru da extrema direita high tech apocalíptica do Vale do Silício. Mas não se deve descartar o peso que pode ter esse tipo de expansão territorial espetacular como signo de uma América Grande Novamente, como compensação simbólica para uma base social e para um povo que não terá sua perspectiva de vida melhorada por nenhum gestor do capitalismo, nazista, liberal ou progressista.

O nazismo está no poder nos EUA porque ele não está só no Estado. Ela está em grandes empresas. No primeiro semestre de 2025, os investimentos das Big Techs corresponderam a 92% do crescimento do PIB dos EUA. Não fossem elas, O PIB dos EUA teria crescido apenas 0.1% no período, embora as Big Techs representem apenas 4% do PIB do país. E as Big Techs, umas mais outras menos, estão surfando e alimentando a onda do fascismo. Uma conversão aparentemente por conveniência, como no caso da Meta, cuja atual presidente e vice-líder do conselho administrativo é ex-vice-assessora de Segurança Nacional de Trump. Ou como no caso de Larry Ellison, um dos dois homens mais ricos do mundo, supremacista judaico e dono da Oracle, que comprou a rede de TV CBS, a Paramount e a operação estadunidense do Tik Tok, tudo para difundir propaganda favorável a Israel e limitar informação de denúncia dos crimes israelenses. Pela permissão de agências governamentais a esses negócios, a CBS de Ellison tem feito uma cobertura favorável a Trump. Mas nenhuma é tão intrínseca e abertamente fascista quanto a Palantir de Peter Thiel. Seu cofundador, John Lonsdale, não esconde seu pensamento racial reacionário e supremacista. Também não esconde que uma missão da Palantir é acabar com “comunistas”, ou mesmo matá-los (lembrando que a Palantir realiza principalmente serviços envolvendo base de dados para governos e forças repressivas). Alex Karp, CEO da Palantir fala abertamente do orgulho da Palantir servir ao Ocidente e aos EUA, e a países que não pode falar, e em ocasiões, se necessário meter medo e até mesmo matar “nossos inimigos” [13]. Essa mesma empresa foi contratada pelo governo brasileiro em 2025 para análise de dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

No regime nazista de Hitler, a ideologia racial chegou a sobredeterminar a racionalidade econômica capitalista. No caso de Trump e do movimento MAGA, há uma tendência de sobredeterminação também, que, no entanto, ainda não é forte o suficiente para superar certas barreiras impostas pela razão econômica de uma burguesia. Trump, por exemplo, teve que limitar as incursões do ICE em fazendas, restaurantes e hotéis por pressão dos empresários desses setores, uma vez que dependiam do trabalho de imigrantes indocumentados [14]. Trump gostaria, mas ainda não conseguiu alcançar Israel. Fundado e mantido como Estado étnico colonial, Israel está na vanguarda do neonazismo mundial, com seu lebensraum [15], sua política supremacista, seu genocídio e sua ideologia étnica que é a razão de Estado.

Antinazismo popular nos EUA

Diante das incursões dos agentes mascarados do ICE em grandes e médias cidades dos EUA — levando terror a bairros, separando famílias, abduzindo crianças, deixando crianças sem pais —, uma reação de caráter comunitário e popular tem ocorrido, principalmente nas cidades com tradição mais progressista. Não se trata de protestos, que embora tenham também ocorrido, têm sido bastante limitados e pouco efetivos. Essa solidariedade ativa comunitária ganhou maior repercussão quando, em janeiro de 2026, o governo Trump enviou mais de 2 mil agentes do ICE a Mineápolis e um deles assassinou Renee Good, uma mulher branca de 37 anos que tentava dificultar a passagem de um carro do ICE.

Essa solidariedade ativa, é importante destacar, parte da comunidade independente de cor da pele e nacionalidade. Bastante expressivo o caso de dois irmãos brancos, ainda menores de idade, que passam as manhãs seguindo os carros do ICE nas ruas de Chicago, filmando as ações dos agentes, de modo a impedir violência e ilegalidades. Eles são apoiados pelos pais, que são cristãos praticantes [16]. Aliás, são os não-imigrantes e brancos, como Renee Good, que possuem melhores condições e têm geralmente realizado as formas de solidariedade ativa mais arriscadas, isto é, se colocando em situações próximas a agentes do ICE, com o risco de sofrer violência que isso comporta, por vezes consumada [17].

Apitos foram distribuídos nos bairros para que sejam usados como alertas se alguém vir a presença do ICE. Escolas em Mineápolis passaram às aulas online para proteger os alunos. Pais e vizinhos organizam caronas e acompanham a pé crianças até na ida e volta da escola, além de ficarem de vigias em frente às escolas. Grupos de vizinhos vigiam a porta de comércios, que ficam de portas fechadas mesmo quando abertos ao público, para que os funcionários possam trabalhar com mais tranquilidade. Pais de crianças em creches com imersão em espanhol têm deixado seus filhos em casa para que os funcionários não precisem se arriscar indo ao trabalho. Igrejas e grupos comunitários levantam dinheiro para fazer compras e entregá-las a famílias que não se sentem seguras saindo de casa. Ajuda mútua e dinheiro têm sido direcionados a pessoas que não podem pagar o aluguel por não poderem trabalhar, ou porque quem era responsável pela renda na família foi abduzido ou para quem precisa de um lugar quente depois que as janelas da casa foram quebradas pelo ICE [18].

Embora longo para ser inserido no meio de um texto, vale a pena ler o relato abaixo publicado por Margaret Killjoy, música e escritora anarquista, publicado por ela no Bluesky em 21 de janeiro:

Vim a Minneapolis para fazer uma reportagem sobre o que está acontecendo, e uma das principais perguntas que eu tinha em mente era: “Qual é a dimensão da resistência?” Afinal, estamos todos acostumados com as notícias chamando Portland de “zona de guerra” ou algo do tipo, quando há apenas alguns protestos em uma parte da cidade.

Cheguei tarde ontem à noite. Logo de manhã, vi carros seguindo um carro do ICE pela rua, buzinando para ele.

Mais tarde, não tínhamos percorrido nem três quarteirões quando encontramos pessoas defendendo uma creche. (A ideia de que as pessoas precisam defender uma creche… pense nisso.)

Em metade das esquinas por aqui, há pessoas — de todas as classes sociais, incluindo Republicanos — de guarda, atentas a veículos suspeitos, que são reportados a uma rede robusta e totalmente descentralizada que rastreia veículos do ICE e mobiliza as equipes de resposta.

Tenho participado ativamente de movimentos de protesto há 24 anos. Nunca vi nada que se aproximasse dessa escala. Minneapolis não está aceitando o que está acontecendo aqui. O ICE assassinou uma mulher por participar disso, e tudo o que isso fez foi atrair mais pessoas, de todas as classes sociais.

É um movimento genuinamente sem líderes (ou lotado de líderes), descentralizado de uma forma que o Estado está absolutamente despreparado para lidar. Existem algumas práticas básicas envolvidas, e as pessoas ensinam umas às outras essas práticas, refinando-as coletivamente.

Antes de vir, perguntei a um amigo local se o frio (vai chegar a -20°C nos próximos dias) impediria as pessoas de saírem. “Não, nós vamos estar lá. É o ICE que não aguenta.”

Hoje conversei com uma senhora de 76 anos que estava há horas no frio, protegendo seus vizinhos. Eu também estava começando a sentir frio, mesmo com as roupas de inverno novas que comprei para esta viagem (e eu moro nas montanhas!).

Ela nem sequer estava usando chapéu.

Outra pessoa disse: “Somos de Minnesota. Estamos ansiosos para tirar nossas roupas de inverno do armário este ano.”

Ele era um engenheiro de áudio cujo filho estudava na região. De jeito nenhum ele deixaria alguém mexer com as crianças enquanto estivesse por perto.

Um outro amigo me disse o seguinte: “O ICE cometeu o erro clássico dos nazistas. Eles invadiram um povo de inverno no meio do inverno.”

Não quero pintar um quadro cor-de-rosa, porque é uma cidade sitiada. Pessoas estão sendo sequestradas o tempo todo. Uma pessoa me contou que presenciava de um a dois sequestros por dia, só no trabalho que fazia acompanhando o ICE.

Mas quando perguntei a um dos organizadores o que eles queriam ver na cobertura da imprensa, eles me disseram que queriam que as pessoas vissem as coisas lindas que estão construindo aqui, e não apenas as piores histórias dos piores crimes do ICE.

O que as pessoas estão fazendo aqui é lindo. É uma beleza trágica, mas real.

Estou aqui há 24 horas, mas pelo que já vi, acredito sinceramente que vamos vencer. As pessoas aqui sabem muito bem que o que acontece aqui impacta o país inteiro, que isso define o tom da resistência. O ICE está furioso, o ICE está apavorado com a sua profunda impopularidade.

Nunca vi uma população tão unida. Se as pessoas conseguirem manter essa união, se conseguirem aceitar que pessoas diferentes terão maneiras diferentes de combater o fascismo, se conseguirmos lembrar às ONGs e organizações que elas podem se juntar à resistência, mas não controlá-la, então, bem, as pessoas daqui farão história.

Um caso em que a dona da casa gravou a situação em que se encontrava diante do ICE do início ao fim é bastante expressiva da diferença que a ação coletiva, o apoio ativo da comunidade, realiza concretamente. Mãe de uma criança pequena, ela estava em casa em Mineápolis e pediu comida por aplicativo. Quando abriu a porta para receber o pedido, a entregadora da empresa DoorDash entrou na casa apavorada, falando coisas em espanhol. O ICE estava atrás dela, e já estava do lado de fora da casa querendo entrar. A dona da casa falava aos agentes do ICE que ela era mãe de uma criança que estava na casa, tendo em mente o recente assassinato de Renne Good. Nervosa e sem saber o que fazer diante da situação, na qual era pressionada pelos agentes do ICE a fazendo temer pela sua segurança e de sua filha, mas não queria entregar aquela trabalhadora nas mãos de uma Gestapo. Ela ligou para a polícia para ao menos saber o que fazer. A resposta da polícia a induziu a entregar a trabalhadora (embora a polícia não tenha dito que legalmente, naquela situação, ela não precisava fazê-lo). Ela pediu para trabalhadora sair, mesmo com muito pesar e desespero. Nesse meio tempo vizinhos começaram a aparecer envolta do terreno da casa com apitos e antagonizando os agentes do ICE. O número de vizinhos foi aumentando com seus apitos. Nessa nova situação, de apoio e ação coletiva, o comportamento da dona da casa muda totalmente. Ela já não fala mais para a entregadora sair, e antagoniza também o ICE, de forma destemida. Eles começam a se retirar e ela continua os antagonizando, de forma ainda mais forte, numa espécie de descarga final de adrenalina. A entregadora foi salva [19].

Após o assassinato de Renee Good, pesquisa de opinião apontou que quase metade dos estadunidenses apoiam a abolição do ICE, 42%, contra 48% que são contra a abolição, sendo que 52% veem o ICE de forma bastante negativa [20]. Mas se o antinazismo tem base popular ativa, o nazismo no poder se ergue a partir de uma base popular também. As opiniões sobre o ICE, por exemplo, são bastante polarizadas entre eleitores Democratas e Republicanos. No entanto, esperar que a tendência de ascensão do neofascismo seja modificada por via eleitoral, evidentemente é uma ilusão que até mesmo muitos liberais já não possuem. Certamente o ICE não será abolido pelos Democratas caso voltem ao governo. O histórico dos governos Democratas é de ampliação do ICE e de seu financiamento. Mas o mais importante é o fato de que são os partidos de (extrema) direita que possuem o ímpeto e um projeto de transformação. O centro e a esquerda institucionais seguem a reboque da onda, sem interromper a tendência, embora possam em certas situações significar um alívio momentâneo para grupos sociais quando estão no governo. Terrivelmente simbólico de como seguem ao reboque da onda neofascista foi o apoio incondicional que o governo Joe Biden deu para que Israel cometesse genocídio.

Se existe algo ainda no que se apoiar, nos EUA, é nesse antinazismo popular, ativo e prático existente em muitas cidades. O nível de violência empregado pelo ICE e pelas foças do Estado ainda não conseguiu deixar as pessoas aterrorizadas, de modo a romper essa solidariedade ativa. Conseguirão escalar a violência a ponto de colocar as pessoas em isolamento e em silêncio diante da limpeza étnica nas suas cidades e bairros? Servirão esses processos de resistência para fortalecer laços, ampliar a força da população organizada contra o nazismo estatal e abrir um horizonte alternativo à tendência de ascensão e aprofundamento do neofascismo?

Dia 23 de janeiro aconteceu em Minnesota algo que não ocorria há oitenta anos nos Estado Unidos: uma greve geral. A paralisação com slogan “ICE fora de Minnesota: Dia da Verdade e da Liberdade”, foi convocada por sindicatos e endossada por diversas organizações. Legalmente os sindicatos dos EUA não podem convocar greve geral, então a convocação não foi feita de forma explícita como greve. As grandes federações sindicais, geralmente coveiras de ações significativas, endossaram o chamado. Algo que mostra o impulso popular que a causa está tendo naquele estado. O fato é que foi uma paralisação comunitária, envolvendo toda a sociedade civil.

Pequenos comerciantes fecharam seus estabelecimentos. algumas grandes empresas também, já prevendo o alto absenteísmo e talvez também para preservar suas imagens. Cerca de 700 empresas fecharam em Minnesota e cerca de 300 ações de solidariedade ocorreram por todo o país no dia 23 de janeiro. Uma multidão ocupou o aeroporto de Mineápolis e 100 clérigos foram presos na ação – muitos imigrantes trabalham no aeroporto e a incrível rede informal de inteligência formada pela classe trabalhadora apontou planos do ICE para abduzir motoristas de aplicativo no embarque e desembarque, além de informar que o ICE possui reservas em hotel da cidade até junho. Apesar do frio glacial, dezenas de milhares de pessoas se encontraram nas ruas de Mineápolis para dizer em alto e em bom som que querem o ICE fora do estado.

A ausência de plano e programa do governo do estado e da prefeitura para defender a população do terror do ICE, apesar da retórica anti-ICE do governador e do prefeito, acabou também abrindo espaço para a população tomar a iniciativa. Mas a solidariedade popular ativa e a mobilização em Mineápolis, em um nível sem precedentes em muitos anos nos EUA, evidentemente não vem do nada. A cidade tem um histórico progressista, e esse atual levante de resistência foi constituído a partir de experiências de luta anteriores e de redes e organizações existentes. A experiência de luta e formação de redes decorrentes das ações em resposta ao assassinato de George Floyd pela polícia em 2020, que ocorreu em Mineápolis e gerou uma revolta que se espalhou pelo país, foram uma importante base para a mobilização atual, segundo ativistas locais.

Restrita ao estado de Minnesota, uma paralisação geral acaba tendo um efeito mais simbólico e de demonstração de potência, pois não pressionará economicamente o governo federal. A expectativa de Kieran Knutson, dirigente da seção local de Mineápolis do sindicato de trabalhadores da comunicação, CWA, era de que a paralisação de 23 de janeiro “não será apenas um evento isolado. Deve ser algo impactante, que mostre que estamos falando sério e que nos ensine lições valiosas para a construção do movimento, além de nos dar ideias sobre como dar o próximo passo” [21].

Trump abertamente deixou de enviar suas milícias do ICE para San Franscisco a pedido de dois bilionários de Big Techs, os donos da Nvidia e da Salesforce [22]. Nvidia que é uma das três empresas estadunidenses com maior valor de mercado, e agente fundamental do crescimento do PIB dos EUA. Podemos supor que, ainda não comprometidos com uma ideologia supremacista, perceberam que a presença do ICE na região seria ruim para a gestão de RH. Pelo menos uma parte significativa do movimento que se forma contra a política nazista do governo Trump possui clareza de que a pressão econômica é fundamental. Na mesma semana da greve geral em Minnesota, trabalhadores de tecnologia do Vale do Silício criaram um abaixo-assinado clamando para que seus patrões liguem para Trump pedindo que ele retire o ICE das cidades, para que cancelem contratos com o ICE e falem publicamente contra o ICE [23]. Em Mineápolis e em outras cidades, a rede de varejo Target, que tem sede em Mineápolis, tem sido alvo de protestos e boicote por deixar que o ICE entre nas suas lojas. Para 1º de maio já está sendo chamada mobilização e paralisação nacional contra o ICE e a política de Trump.

Quem sabe a greve de 23 de janeiro em Mineápolis posso ter servido de exemplo inicial. Um ensaio inicial de mobilização da classe trabalhadora intervindo diretamente no processo de acumulação de capital e poder. Passo esse necessário para mudar o rumo da história e realmente derrotar o fascismo.

Notas

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3 COMENTÁRIOS

  1. Após a repercussão do assassinato de Alex Pretti no dia 24 de janeiro pela milícia estatal em Mineápolis, ontem Trump ensaiou algum recuo. Deve estar vendo sua popularidade, com uma parte de sua base, está sendo prejudicada com essas ações. Algumas organizações de Mineápolis chamaram outra greve geral para dia 30 de janeiro, pedindo que tivesse abrangência nacional. A ver até que ponto esse chamado irá corresponder a ações práticas, pois me parece que não está com a mesma base real do chamado para o dia 23 de janeiro.

    “Amazon Prime para seres humanos”, foi assim que o diretor de imigração, Todd Lyons descreveu sua visão de estratégia de deportação. Eficiência industrial para limpeza étnica. Alguém já viu isso antes?
    https://forward.com/news/711520/todd-lyons-ice-amazon-prime-business-zygmunt-bauman/#:~:text=Like%20Amazon%20Prime%20%E2%80%94%20%E2%80%9Cbut%20with%20human,his%20vision%20for%20the%20agency's%20deportation%20strategy.

  2. The Economist publicou hoje uma notícia (aqui) sobre o crescimento da luta social e a militância de base em Minneapolis-St Paul. Parece-me particularmente importante que o relato venha num prestigiado semanário que está muito longe de ser esquerdista e que, portanto, não sofre de qualquer tendência a exagerar estas questões. Para quem não tiver acesso ao original, transcrevo o texto.

    It is 10am on January 28th in north Minneapolis and Will Stancil, a civil-rights lawyer and relentless social-media poster, is in a car chase. He and two passengers are following a black government SUV full of federal police officers. For the best part of 40 minutes the officers, assumed to be from Immigration and Customs Enforcement (ICE), have moved around a quiet residential neighbourhood, skipping red lights, making sudden turns and otherwise driving erratically. “I’m kind of excited,” Mr Stancil says. As it looks like the federal officers may get out and confront his group (with whom your correspondent is embedded), he says he is unworried. “What are they going to do? Pull me out and take me to Whipple? I don’t care.” (Whipple is a federal building and detention centre near the Minneapolis-St Paul airport.)
    As the chase goes on, Mr Stancil’s car risks running out of petrol. He and other activists in the car call their colleagues, trying to get more vehicles to follow. A live audio dispatcher crackles through Signal, a messaging app on Mr Stancil’s phone. Mr Stancil chatters away in response, almost like a police officer himself, reporting his direction and cross streets as he swerves to follow the vehicle ahead. At the same time, reports crackle through about ICE vehicles in other parts of the city, and the “commuters”, as the activists call themselves, hop between various Signal groups.
    Over the past few weeks, this sort of activism has grown into an enormous phenomenon. It is intended to both witness and disrupt Operation Metro Surge, the immigration enforcement operation in Minnesota. Outraged by scenes of immigrants and citizens alike being dragged out of cars, pepper-sprayed and beaten, Minneapolitans have rushed to take part. Thousands of people have joined Signal groups to track federal agents; hundreds are dedicating time each day to chasing around heavily-armed masked men.
    This style of disruption first emerged in Los Angeles and was honed in Chicago last year. It has been perfected in Minneapolis, and it is now spreading through liberal cities preparing for their own sieges. It is a sign of how the strategy of protesting against Donald Trump’s administration is moving away from rallies and electoral organising towards direct action. It is arguably becoming one of the most significant civil-disobedience efforts in America since the civil-rights movement.
    By tragic means, the activists have succeeded in turning the situation in Minneapolis into a setback for Mr Trump. ICE and Customs and Border Protection (CBP) agents killed two activists—Renee Good and Alex Pretti, both 37 years old—on January 7th and January 24th, respectively. The killings seem very difficult to justify. Both Ms Good and Mr Pretti were observing federal agents who then assaulted them. Videos of the killings taken by both activists and people who just happened to be on the street have shocked viewers across the country and around the world.
    In both cases, Trump administration officials initially rushed to criticise the victims, referring to them as “domestic terrorists”. Their allegations that Ms Good was trying to run over an agent and that Mr Pretti was intent upon a “massacre” were contradicted by the available evidence. Ms Good was turning away from Jonathan Ross, the officer who shot her, and moving at slow speed. Mr Pretti was carrying a legally-owned gun but had been disarmed when he was shot ten times. Agents fired repeatedly into his body when he was already prone on the ground.
    On January 26th, as questions about the killings spread even among many Republicans, Mr Trump removed Greg Bovino, a senior Border Patrol officer, from the city, together with at least some of his agents. Mr Bovino, who likes to throw tear gas grenades himself, had become the most visible face of the crackdown in Minneapolis. Mr Trump has also spoken to the governor of Minnesota, Tim Walz, and the mayor of Minneapolis, Jacob Frey, and reportedly told them that he would de-escalate.
    This represents a notable victory for activists, if a limited and possibly temporary one. Their effort is dominated by white people on the left, many of whom are older women. Dana Fisher and Arman Arzedi, scholars at American University who study community activist moments, surveyed some 7,500 people who signed up for the “Free America Walkout”, a national protest that took place on January 20th. The survey was self-selecting, so there is a response bias which probably exaggerates the results; older people, for instance, may be more likely to take the time to answer. The scholars found that 84% of respondents were female, three-quarters were college-educated, and that the median age was 71 (see chart). Some 99% of these mostly ageing boomers said they supported non-violent civil disobedience, and 65% of them said they would be willing to take part themselves. “I call this the ladder of engagement,” Ms Fisher says. It is suggestive of an underlying demand for more forceful protest.
    Julie Gann, a middle-aged bartender who works near where Mr Pretti was killed, is among those becoming more active. Before federal agents arrived in Minneapolis, the only protest she had ever attended was the women’s march in 2017, at the start of Mr Trump’s first term. Recently she attended an online training session with some 5,000 other activists to prepare for much riskier work. “Peaceful protest has just not worked as much as non-violent disruption,” she says.
    Republicans have a pejorative nickname for women like Ms Gann: AWFULs, for affluent white female urban liberals. Their actions go beyond just “commuting”. Some activists have started delivering food to undocumented immigrants and transporting their citizen children to school. Others are organising blockades and sit-ins. On January 23rd around 100 clergy, mostly from liberal churches, blocked the entrance to the Minneapolis airport until they were dragged off and arrested by local police. There are also traditional protests—but these are hardly risk-free. Outside the Whipple building, Tim Lundell, a retired teacher, says he has come out eight times since the killing of Ms Good. He has been shot twice with pepper balls by federal agents. It has only made him more committed.
    What can protest achieve? Despite the removal of Mr Bovino, it is unclear whether the federal government is retreating all that much, or for how long. On January 27th Mr Trump said Mr Pretti’s death was “very sad” but blamed him for carrying a gun. He said the changes he had made were not a “pullback” and again called the protesters “paid agitators” and “insurrectionists”. He promised an investigation, but it seems DHS will investigate itself, rather than the FBI or another outside agency. The CBP agents who shot Mr Pretti have still not been identified, but those involved in the killing have reportedly been placed on administrative leave.
    For now, Operation Metro Surge continues, seemingly as before. Your correspondent’s car chase came less than 24 hours after Mr Trump’s comments. The day before at least one ICE spotter was knocked off her bike, punched and hauled away to the Whipple building. The etymology of “martyr” comes from an ancient Greek word meaning “witness”. Unfortunately, unless Congress or the courts restrain Mr Trump’s immigration agents, there will probably be more. ■

    *** *** ***

    Pouco depois de ter publicado este comentário soube que Bruce Springsteen lançou ontem a sua nova balada Streets Of Minneapolis, Ruas de Minneapolis, aqui. O hino de uma luta.

    [… … …]
    Oh our Minneapolis, I hear your voice
    Singing through the bloody mist
    Here in our home they killed and roamed
    In the winter of ’26
    We’ll take our stand for this land
    And the stranger in our midst
    We’ll remember the names of those who died
    On the streets of Minneapolis
    We’ll remember the names of those who died
    On the streets of Minneapolis

  3. O governo Trump faz alguns recuos retóricos com a repercussão do assassinato de Alex Pretti pelo Ice em Mineápolis dia 24 de janeiro. Também fez uma troca de comando do ICE, que é basicamente foi uma mudança para nada mudar. A imprensa em geral tem explicado esse ligeiro recuo de Trump a críticas de políticos Republicanos e pesquisas de opinião. Mas eu apostaria que um fator mais importante é a menos visível pressão que alguns gestores das Big Techs sentem e repassam ao Trump, vinda da sua força de trabalho.

    Como escrevi no texto, gestores/donos de Big Techs se colocam contra ações do ICE por uma questão de gestão do seu RH. O CEO da Apple deixou isso muito claro, enviando um memorando sobre o assunto aos funcionários, no qual disse que falou com Trump sobre o assunto e tal. É preciso apaziguar a força de trabalho: https://www.newsweek.com/tim-cook-full-memo-apple-staff-ice-shooting-white-house-visit-11429635

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