Uma patrulha do ICE almoçou num restaurante que serve comida mexicana em Minneapolis. Horas depois, foram atrás de funcionários do restaurante e os prenderam. Passa Palavra

5 COMENTÁRIOS

  1. E agora, a face séria do humor. Leio numa das newsletters de hoje de The New York Times:

    «Trump’s aggressive immigration crackdown in Minnesota, nearing its third month, is taking a toll on local stores and restaurants.
    Sales have plummeted by nearly half at CentroMex Grocery, owned by a naturalized U.S. citizen born in Colombia. Federal agents drove by the store for weeks, and four of its 10 employees have disappeared, terrified to come to work. Traffic at the Minneapolis location of El Guanaco, a restaurant and bakery that serves pupusas and tacos, has plunged by 80 percent, and three other locations have cut their hours and staff.»

  2. João,

    Trump está avançando uma agenda 100% ideológica, que vai de encontro às necessidades econômicas. O futuro dirá o que irá acontecer quando (ou se, pois pode ser que não aconteça) a bolha das IAs estourar, pois pelo que muitos falam são muitos e muitos data centers muito caros e que têm um custo muito grande pra um retorno financeiro que ainda não veio (pelo menos pra OpenAI, dona do ChatGPT). Muitos também falam que existem galpões e galpões cheios de placas gráficas da NVIDIA que não estão sendo utilizadas; mas isso é especulação, porém é uma especulação baseada numa realidade: a IA é uma ferramenta poderosa para a produtividade no capitalismo (e eu experiencio isso dia após dia na minha área de TI; economizo muito tempo passando prompts no Claude e combinando com as minhas próprias habilidades), mas não é tão poderosa quanto se esperava.

    Note que eu não estou fazendo alarmismo e nem anunciando o fim próximo do capitalismo que vai acabar num apocalipse. Mas acredito que, quando a água bater na bunda, a coisa vai arder (principalmente no furico do trabalhador, com o perdão do palavreado).

    Antonio

  3. António,

    No segundo volume de Labirintos do Fascismo (São Paulo: Hedra, 2022) mostrei como no Terceiro Reich os pressupostos ideológicos superaram os interesses económicos. A ideologia racista levou à instauração de formas económicas não produtivas entre as populações eslavas, consideradas sub-humanas, e à chacina massiva da força de trabalho judaica, considerada uma anti-raça. Ambos estes processos eram absolutamente contrários aos requisitos da mais-valia, por isso eu classifiquei aquela submissão da economia à ideologia como uma forma de metacapitalismo.

    Ora, nos Estados Unidos a actual administração de Donald Trump está a orientar-se por uma forma de fascismo em que os temas sociais são sobretudo aplicados numa versão racial, por isso a semelhança é maior com o nacional-socialismo germânico do que, por exemplo, com o fascismo italiano. E note que Trump não se limita a prender e deportar o proletariado mais pobre, negro ou de origem latino-americana. Ele toma igualmente como alvo a força de trabalho não-americana tecnicamente mais qualificada, quer por uma perseguição directa feita nos grandes centros de pesquisa universitários, quer pela imposição de preços astronómicos aos vistos exigidos aos especialistas estrangeiros que viriam trabalhar nas grandes empresas vocacionadas para a Inteligência Artificial. Ou seja, desde os patamares mais elementares da mais-valia absoluta até ao patamar mais sofisticado da mais-valia relativa, os critérios raciais estão a constituir um obstáculo à prossecução dos mecanismos centrais do capitalismo.

    Veremos se esta ressurreição do metacapitalismo conseguirá enraizar-se.

  4. João,

    Antes que eu me esqueça: como, na minha leitura do Labirintos, eu não cheguei na parte sobre metacapitalismo, embora eu já tenha te visto comentar sobre, gostaria de perguntar: o que você classifica como metacapitalismo? Digo, qual a sua definição desse fenômeno?

    Mas sobre o que tu falas do regime nazista, tendo assistido/escutado esta tua aula de uns anos atrás (https://www.youtube.com/watch?v=nMY_ekk6sgE) já repetidas vezes, sei do que você está falando. Lembro-me de ter visto, não lembro onde, alguém criticar a noção segundo a qual a racionalidade da lógica movida pelo dinheiro anularia uma política baseada em pressupostos puramente ideológicos, como se, diante da perspectiva de lucrar mais e mais, os atores sociais que movem a economia mundial (os capitalistas) colocariam e economia à frente das crenças subjetivas que eles porventura tivessem. Ora, o fascismo a meu ver mostrou (e mostra) que é possível que os capitalistas sejam orientados não pelo racional, mas pelo mais puro irracionalismo, inclusive levando as economias dos seus próprios países pro buraco. Não sei se estou viajando na maionese, como dizem as pessoas da minha idade, mas pensar que o âmbito das crenças perderia força frente à racionalidade do dinheiro é não compreender que nós, enquanto seres humanos, somos perpassados por afetos, sentimentos, num sentido Spinozano do termo (e pelo que me lembro Spinoza inclusive defende que a própria racionalidade é um afeto). Se nós fôssemos pura racionalidade, nós não escutaríamos música, nem teríamos mais do que 3 ou 4 peças de roupas, nem passaríamos 30 minutos cuidando da barba (no caso dos homens), e nem muito menos teríamos atitudes nocivas à saúde, tais como ingerir álcool ou usar drogas. Penso que é quando a política é feita com os sentimentos ao invés de com a cabeça que temos o surgimento de fenômenos como Hitler, ou agora Donald Trump 2.0. Não que os sentimentos não façam parte da política, muito pelo contrário: não há como anular nossos sentimentos, e nesse sentido concordo contigo que a arte deve sim fazer parte do jogo. Acho que é uma questão de como lidamos com eles; afinal de contas, não é o socialismo libertário também uma ideologia, uma crença, e portanto tem uma componente afetiva?

    Sobre Trump, eu novamente vou concordar com você, e gostaria de complementar com mais elementos. Não sei o que vou falar agora é verdade, até porque, diferente dos nazistas, que mostravam a cara, os membros do ICE são covardes e vivem mascarados, então verificar tal coisa é muito complicado. Mas existem rumores que uma certa quantidade dos membros do ICE viveram da gangue fascista chamada “Proud Boys”, que apesar de ter pessoas de todas as tonalidades de pele, tem relações com grupos supremacistas brancos, o que não é de espantar. Mas para além disso, eu vejo o próprio ICE como uma milícia fascista, uma organização que entende que a única ação política possível é a da violência, e que existe, ao mesmo tempo, dentro do Estado e fora dele, fazendo aquilo que a polícia não pode (legalmente falando) fazer, e ao mesmo tempo complementando o trabalho dos azulados. Isso sem falar nos critérios de recrutamento e falta de treinamento, pois até onde eu sei basta ter os dois olhos, os dois braços e as duas pernas pra conseguir um uniforme e uma arma de fogo. E aqui entramos numa constatação extremamente triste da realidade, pois num cenário de desemprego tão grande como é o cenário americano (e mundial) atual conseguir um trabalho (por mais asqueroso que esse trabalho seja) de maneira tão fácil assim é financeiramente atraente pra muitos; aliás, a mesma coisa ocorreu com as milícias fascistas em certas ocasiões, pois elas só podem ser entendidas num contexto de desemprego muito grande.

    Por fim, uma coisa que me espantou com relação a essa questão da Groenlândia, e que só mostra que Trump só consegue conceber economia num sentido pré-capitalista da coisa, pois baseado na pilhagem e no saque, é que, se eu não me engano os EUA já tinham acesso militar à ilha dinamarquesa. Não teria sido difícil, acredito eu, chegar a um acordo com a EU para extrair os minerais raros que lá existem (se é que esse realmente foi o motivo pelo qual Trump ameaçou os dinamarqueses, pois eu mesmo não sei). A única explicação que eu consigo achar pra ameaçar a Groenlândia militarmente é pela via da ideologia. E o que é mais curioso é que, querendo enfrentar (ou afirmando que quer enfrentar) a China, Trump apenas assegura que mais parceiros comerciais fechem acordos com o país do Partido auto-intitulado Comunista Chinês, o que só agrava o círculo vicioso do maior isolamento dos EUA frente a economia global. Mas uma previsão do futuro fica mais impossível ainda porque o próprio governo de Xi está reforçando a centralização econômica, o que já está gerando problemas. um maior isolamento dos EUA frente. Só o futuro dirá o que vai acontecer com os miseráveis dos trabalhadores se a isso se somar a explosão da bolha das Ias (se é que isso vai acontecer).

    Enfim, eis aí o mundo “multipolar”, defendido por algumas esquerdas e a totalidade dos fascistas, no qual vivemos. Mais uma vitória! (?)

  5. António,

    Vou esforçar-me por ser muito breve.

    Se a busca por aumentar e intensificar a mais-valia é o motor do capitalismo, então todos os obstáculos institucionais a essa busca implicam que se está a abandonar, ou já se abandonou, o sistema capitalista, que se está a passar além dele. A essa ultrapassagem do capitalismo nos últimos anos do Terceiro Reich chamei metacapitalismo.

    Os afectos e os sentimentos dizem respeito às pessoas, individualmente consideradas, e nada têm a ver com a economia, cujos sujeitos são unicamente grupos sociais. (Na perspectiva em que eu entendo a História, os grupos sociais não são uma soma de pessoas. Cada indivíduo reparte-se de uma forma sempre variada e mutável por uma pluralidade de grupos sociais. Os afectos e os sentimentos reflectem essa mutabilidade de percursos individuais, enquanto as ideias gerais e os paradigmas lógicos e ideológicos exprimem os grupos sociais. Cada grupo social prossegue uma acção que lhe é própria, enquanto as pessoas se limitam a actuar consoante os cânones que lhe são impostos pelo grupo social cuja prática partilham num dado momento. Por isso eu descarto todas as tentativas de análise psicológica da História.)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here