Por Crimethinc
As redes de resposta rápida organizadas pela população para defender suas comunidades contra agentes federais que buscam sequestrá-las, brutalizá-las e aterrorizá-las passaram por uma evolução vertiginosa para acompanhar as táticas em constante mudança do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Ao longo do último mês e meio de ocupação, voluntários nas Cidades Gêmeas [Minneapolis e St. Paul] atualizaram continuamente seu modelo de resposta rápida, chegando a um sistema dinâmico e resiliente. No relatório a seguir, exploramos os detalhes desse sistema para o benefício de outras pessoas em todo o país que em breve poderão enfrentar pressões semelhantes.
Em 2 de dezembro, 100 agentes do ICE foram enviados às Cidades Gêmeas como parte de uma operação conjunta de detenções e deportações em várias cidades. Desde então, as Cidades Gêmeas se tornaram cidades sitiadas, irreconhecíveis para muitos moradores. O número de agentes federais que as ocupam aumentou 30 vezes, chegando a quase 3.000. Para efeito de comparação, o Departamento de Polícia de Minneapolis tem cerca de 600 policiais. O assassinato de Renee Nicole Good, membro da rede de resposta rápida, em 7 de janeiro, seguido uma semana depois pelo tiroteio de outra pessoa em 14 de janeiro, chamou a atenção do país.
No entanto, a maioria das pessoas presume que o que está acontecendo nas Cidades Gêmeas se assemelha à atuação do ICE e à resistência em outras partes do país. Pelo contrário, a escala de detenções, deportações e confrontos não tem precedentes [1].

A Onda
Durante os meses que antecederam a chegada em massa de agentes do ICE às Cidades Gêmeas, moradores e organizações locais criaram uma rede de resposta rápida relativamente centralizada, na qual observadores enviavam relatos com diferentes níveis de comprovação a um administrador por meio de um sistema de mensagens de texto em massa. Assim que os administradores conseguiam receber, formatar e verificar os relatos, eles os divulgavam rapidamente no sistema e as pessoas próximas convergiam para lá. Isso pareceu funcionar para direcionar pessoas a grandes operações, como uma batida em um complexo de apartamentos, mas começou a falhar à medida que o ICE experimentava operações mais rápidas e menos intensivas.
Então, por volta de 1º de dezembro, as batidas praticamente cessaram e o influxo de agentes iniciou uma campanha de batidas em portas e de prisões rápidas. O modelo anterior tornou-se imediatamente obsoleto, porque a janela de tempo para intervir diminuiu para questão de minutos. Membros da comunidade que desejavam algo mais confrontativo do que o sistema existente, baseado em observadores legais e com gargalos, começaram a construir um sistema paralelo para preencher as lacunas e agir com mais agilidade.
Este novo sistema começou com um chat em larga escala para denúncias na região sul da cidade, onde qualquer pessoa podia enviar um alerta de qualquer tipo. À medida que as operações do ICE aumentavam em volume e velocidade, o chat aberto e mais ágil cresceu em número de membros e se tornou um espaço que atraiu aqueles que queriam fazer mais do que simplesmente registrar as operações do ICE. As pessoas integraram o programa de apitos existente para alertar pessoas específicas sobre a chegada do ICE e para importunar os agentes, e cada vez mais passaram a interferir — bloqueando veículos do ICE com carros particulares, usando seus corpos para bloquear os agentes, usando multidões e patrulhas de carro para intimidar pequenos grupos de agentes e fazê-los recuar.
Conforme os chats cresciam, mais chats foram criados para dividir a cidade em segmentos cada vez menores — alguns dos quais chegaram a ter um raio de apenas quatro quarteirões. Isso permite que as pessoas vejam relatos diretamente relevantes para elas e respondam a avistamentos próximos de forma rápida e eficaz.

Contravigilância
Essas redes se beneficiaram enormemente de um programa de contravigilância na sede local do ICE. O Whipple, um prédio federal em Fort Snelling, nos arredores de Minneapolis e St. Paul, há muito tempo serve como sede regional do ICE, tendo abrigado anteriormente outras agências federais. O complexo está localizado em frente a uma base da Guarda Nacional, próximo a uma base militar e ao lado do próprio forte preservado. O forte fica no local sagrado da confluência de dois rios. Foi um dos primeiros locais de colonização da região; em certa época, foi um campo de concentração que abrigava indígenas Dakota.
O Whipple inclui escritórios, instalações de processamento e detenção no subsolo e um amplo estacionamento. Membros da comunidade identificaram esse complexo como um local estratégico durante o verão; mantendo presença lá desde agosto.
O prédio é cercado por duas rodovias estaduais, dois rios e um aeroporto. Com apenas duas saídas para veículos, rastrear os carros do ICE que entram e saem das instalações é fácil. O Whipple Watch, como é chamado, envolve manifestantes e observadores posicionados no local há meses, coletando informações sobre os comboios que se dirigem à cidade ou levam detentos ao aeroporto, identificando padrões de operação, como dias e horários de pico, e catalogando cuidadosamente as placas dos veículos que entram e saem. Esse banco de dados de placas é usado quase que constantemente, diariamente, permitindo que as equipes de resposta rápida a pé e em carros confirmem a presença de veículos do ICE em tempo real. O ICE começou a trocar carros e placas ao longo do dia para minar essa contravigilância, mas o volume de informações recebidas só aumenta.
O Whipple Watch descreve seus objetivos como triplos:
- fornecer um sistema de alerta precoce sobre picos e comboios para as redes locais de resposta rápida,
- coletar dados com foco especial no banco de dados de placas, e
- garantir que o ICE saiba que está sendo vigiado, mesmo em seu próprio território.
Inegavelmente o Whipple Watch obteve sucesso em atingir esses objetivos específicos, mesmo diante de uma força militarizada hostil.

Como funciona
Cada área da cidade (Southside, Uptown, Whittier, etc.) possui turnos rotativos de encaminhadores, que administram uma chamada do Signal em andamento durante o horário de operação. Às vezes, vários encaminhadores se revezam para dividir as tarefas extras de monitorar o chat, repassar relatórios para outros canais e verificar placas de veículos. A central de encaminhamento também ajuda a distribuir as patrulhas uniformemente pela área, anota informações e auxilia as pessoas em situações de confronto. Todos os patrulheiros, em viaturas e a pé, permanecem conectados à chamada durante toda a patrulha. Há um fluxo constante de informações, permitindo que outras viaturas decidam se estão em uma boa posição para se juntar à patrulha, assumir o seguimento da viatura ou continuar procurando por outros veículos.
Como a estrutura foi dividida em zonas mais específicas baseadas em bairros, as pessoas em muitas áreas também desenvolveram um sistema de chat diário, com conversas que são recriadas e excluídas diariamente para mantê-las organizadas e sem atingir o limite máximo de participantes (já que o número máximo de membros de um grupo do Signal é de 1000). Diversas áreas das cidades e dos subúrbios replicaram a estrutura básica desse sistema, mas com modelos, estruturas de bate-papo, sistemas de verificação e coleta de dados ligeiramente diferentes.
Uma equipe de coleta de dados reúne dados anonimizados enviados pelo Whipple Watch e por muitos dos chats locais de resposta rápida, agregando-os em formatos acessíveis, como mapas interativos de pontos críticos. Essa equipe também administra o banco de dados pesquisável de placas de veículos, classificadas por “confirmado como ICE”, “suspeito de ICE”, “confirmado como não ICE” e outras categorias.

“Meus pais estão num café e ouviram apitos e buzinas. Todo mundo no café se levantou e correu para a porta”
Surgiram grupos de bate-papo adicionais específicos, como de escolas, comunidades religiosas, ajuda mútua de entregas de mantimentos e similares. Outro desenvolvimento foi o bate-papo de integração das Redes de Vizinhança, que funciona como um centro de informações para novos voluntários. Pessoas de qualquer lugar da cidade — ou de qualquer lugar do estado de Minnesota — podem ser adicionadas e orientadas sobre uma lista de opções de bate-papo. Os administradores as adicionam aos bate-papos abertos ou as conectam aos processos de verificação e treinamento para os bate-papos mais fechados.
Mais recentemente, os encaminhadores experimentaram um sistema de substituição no qual os patrulheiros que seguem os veículos até o limite de sua zona podem se comunicar por meio da central de encaminhamento através de bate-papos para passar o veículo para um patrulheiro na região seguinte. Isso permite que os patrulheiros permaneçam em rotas cada vez mais restritas, que eles podem conhecer rapidamente e intimamente, navegando por elas melhor do que qualquer agente do ICE.
Por fim, os retransmissores de língua espanhola copiam os alertas do ICE das chamadas da central de encaminhamento e dos bate-papos locais, os traduzem e os enviam para grandes redes de Signal e WhatsApp em espanhol.
O que pode parecer, visto de fora, uma formalização excessiva de chats para diferentes tipos de informação, ou ainda pouca estrutura nas chamadas totalmente abertas em que todos os patrulheiros de uma determinada zona participam simultaneamente, na verdade se transforma em um ecossistema de comunicação altamente eficaz, auto-organizado e bem mantido. A informação circula de forma confiável em todas as escalas por meio dos chats e dos encaminhadores, e os patrulheiros rapidamente adotam uma cultura de práticas que lhes permitem evitar interrupções e transmitir informações de maneira clara e organizada. Os voluntários se organizam em turnos de duração variável, decidindo quais rotas percorrer com base em seus conhecimentos, habilidades, interesses e disponibilidade.
Esse sistema está em constante mudança, é altamente adaptável, um tanto difícil de explicar para quem está de fora e surpreendentemente fácil de integrar — depois que se supera o choque de receber mais de 1500 novas mensagens por dia.
“Você não imagina o quão louco é isso aqui”
A resposta do ICE tem sido clara. Eles mudaram suas táticas. Foram expulsos de bairros durante operações. Foram flagrados conversando sobre o medo que sentem e sobre o fato de muitos deles terem saído.
Eles também intensificaram de forma contínua e agressiva a violência contra observadores. Patrulheiros que seguem o ICE muito de perto ou por muito tempo frequentemente são cercados, de modo que entre quatro e dez agentes podem cercar o carro, bater nas portas, gritar, filmar e ameaçá-los de prisão. Patrulheiros que bloquearam o ICE com seus carros foram atropelados, tiveram os vidros quebrados, foram retirados à força para serem detidos ou presos. Pessoas foram colocadas em veículos do ICE, levadas a quilômetros de distância e depois jogadas para fora. Agentes tiraram pessoas de seus carros, dirigiram os veículos por vários quarteirões e as deixaram correndo na rua. Recentemente, agentes têm usado spray de pimenta em carros — às vezes tentando empestear o interior do veículo para forçar as pessoas a saírem, outras vezes apenas usando a arma química para marcar os carros de forma visível, visando maior assédio e perseguição.
Recentemente, agentes do ICE jogaram uma lata de gás lacrimogêneo para fora do veículo enquanto dirigiam na rodovia, na tentativa de impedir que alguém os seguisse. Os agentes não apenas seguiram os policiais até suas casas, como também identificaram o motorista ou o veículo que os seguia e os conduziram até seus endereços residenciais como forma de intimidação. Patrulheiros relataram que foram agredidos, tentaram atropelá-los, dirigiram diretamente em direção aos seus veículos, foram mantidos sob a mira de armas, tiveram seus pneus furados e foram arrastados para fora de veículos em movimento. Embora o assassinato de Renee Nicole Good tenha chocado a nação, não foi nenhuma surpresa para aqueles que estiveram nas ruas das Cidades Gêmeas nas últimas seis semanas.

O modelo das Cidades Gêmeas: não o copie, aprenda com ele
O que diferencia a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas e seu ecossistema circundante não é a estrita adesão a uma estrutura específica. É uma análise clara de suas condições, a disposição para se adaptar e a coragem para lutar à medida que a violência aumenta.
Os moradores das Cidades Gêmeas têm observado atentamente seus oponentes. Eles sabem como os agentes do ICE se posicionam, onde se concentram, como se vestem, dirigem e reagem. Vivem em uma área urbana relativamente pequena e densamente povoada, com muitas áreas onde se pode ir a pé, e com ruas planejadas em formato de grade para facilitar a locomoção de carro. As pessoas estão conectadas aos seus vizinhos, construindo sobre os laços remanescentes de movimentos e levantes passados. O prefeito de Minneapolis tenta manter a aparência liberal de sua administração; é improvável que a polícia seja mobilizada como reforço para as operações do ICE. Essas são condições concretas e observáveis que definiram diretamente o planejamento e a implementação da resistência aqui.
Aqueles que estão inseridos no modelo estão comprometidos com a agilidade e a adaptabilidade à medida que as condições mudam. A cidade possui bairros com características e perfis demográficos distintos, portanto, a expansão do modelo foi concebida para variar de um bairro para o outro. Após o fim das batidas, o ICE passou a operar quase exclusivamente a partir de um local principal com entradas e saídas limitadas, o que levou os organizadores a investirem fortemente em contravigilância nessa área. Quando as operações do ICE mudaram para sequestros rápidos e aleatórios nas ruas e a bater nas portas das pessoas, a única maneira possível de prever onde eles agiriam era identificar os veículos do ICE à medida que se aproximavam. Assim, as pessoas passaram a se concentrar em identificar os veículos do ICE nas ruas e a permanecer perto deles. O ICE precisava recorrer a táticas de surpresa e emboscada, então os socorristas empregaram ruídos — apitos e buzinas — para alertar rapidamente à distância. Os agentes do ICE não gostam de operar em menor número nem de serem cercados, então os patrulheiros reúnem carros e formam bloqueios improvisados de trânsito.
Poucas dessas condições poderiam ter sido previstas com antecedência. A única maneira de se adaptar efetivamente foi cultivar uma cultura aberta e acolhedora que incentivasse a iniciativa e a auto-organização.
Não podemos subestimar a importância da coragem que transborda para as ruas das Cidades Gêmeas. É fácil desconsiderar as redes de resposta rápida, pois sabemos que simplesmente filmar e observar essa crescente onda de violência não basta. Muitas redes em todo o país se desmobilizaram antes mesmo de começarem, ao tentarem controlar rigidamente as ações de seus participantes, apesar da ampla disposição para agir mais contundentemente. Os instrutores muitas vezes pregam a não interferência; alguns voluntários de resposta rápida se policiam mutuamente nas ruas por atirar projéteis ou até mesmo por gritar. Em alguns casos, isso decorre de um medo de autopreservação em relação à repressão contra as ONGs envolvidas nas ações de resposta rápida. Em outros casos, manifesta-se como um algo bem-intencionado, porém equivocado, na “segurança”, que nada mais é do que paternalismo, decidindo quais níveis de risco são apropriados para outras pessoas.
Essa cautela excessiva também pode ser encontrada nas Cidades Gêmeas. Há instrutores e encaminhadores que, por padrão, dizem às pessoas para se afastarem em vez de apoiá-las no que quer que se sintam compelidas a fazer. Há pessoas que, em vez de atrapalharem o trabalho do ICE, atrapalham aqueles que estão agindo.
Mas a luta aqui é definida por aqueles que ultrapassam os limites. As pessoas usam seus carros e seus corpos para bloquear agentes e libertar pessoas presas. Elas atiram bolas de neve e pedras; chutam para trás as bombas de gás lacrimogêneo. Cobrem carros e agentes com tinta e quebram os vidros dos veículos. Não param de gritar na cara dos sequestradores quando são agredidas, atingidas por spray de pimenta ou balas de borracha. Elas testemunham os sequestros com pessoas mascaradas, os desaparecimentos não divulgados e o número recorde de mortes causadas por esse novo ICE, agora mais ousado, e estão dispostas a correr riscos reais para impedi-los. Elas vivenciam a violência retaliatória e, apesar disso, são mais fortes e mais corajosas.
Estar preparado para a onda de fiscalização do ICE em sua cidade — e lembre-se, ela está chegando — significa estudar o terreno em que você está lutando e usar a criatividade. O que funcionar melhor para a sua cidade provavelmente não será exatamente como essas unidades de observação diárias em seus quartéis-generais e patrulhas móveis de resposta rápida. Será necessária uma análise minuciosa de como melhor utilizar seus pontos fortes e explorar as fraquezas deles em seus contextos específicos. Comece a estudar, planejar, conectar-se e experimentar agora.
Observamos as Cidades Gêmeas, não para replicar os detalhes, mas sim pela clareza de análise, ação rápida e decisiva, experimentação ágil, profundo cuidado mútuo e coragem contagiante.
Este relatório foi enviado por visitantes das Cidades Gêmeas, que foram gentilmente acolhidos na rede por alguns dias. Agradecemos a todos que nos mostraram sua cidade, nos explicaram os sistemas e nos acompanharam em patrulhas. Amor e indignação.
Nota
[1] Para saber mais sobre a versão anterior do modelo de resposta rápida, desenvolvida em Los Angeles e aprimorada em Chicago e outros locais durante o outono, comece aqui https://crimethinc.com/2025/12/03/when-the-feds-come-to-your-city-standing-up-to-ice-a-guide-from-chicago-organizers. Para aprender como configurar loops no Signal exclusivos para administradores, comece aqui https://crimethinc.com/2024/05/27/the-sunbird-how-to-start-an-announcements-only-thread-on-signal-and-how-organizers-in-austin-used-one-to-coordinate-solidarity-with-palestine#start-your-own-announcements-only-service-on-signal.
Traduzido de: https://pt.crimethinc.com/2026/01/15/rapid-response-networks-in-the-twin-cities-a-guide-to-an-updated-model






O diário El País publicou hoje uma longa reportagem sobre a resistência popular em Minneapolis-St Paul (aqui). Para quem não tiver acesso, reproduzo o texto:
El ‘sitio’ de Minneapolis: así resisten los vecinos de la ciudad demócrata el asedio migratorio de Trump
Desde hace semanas, los teléfonos vibran sin cesar en Minneapolis. Son cientos de pequeños calambrazos al día; uno por cada mensaje que reciben los vecinos apuntados en los grupos de Signal que vigilan y hostigan a los 3.000 agentes de la policía secreta migratoria de Donald Trump desplegados en la ciudad.
En esa red social encriptada, el papel de cada cual viene definido por un código de emoticonos: coches, platos, corazones vendados… Los hay que patrullan las calles en busca de los federales enmascarados, que circulan en coches sin marcar y van armados hasta los dientes. Están los que administran los primeros auxilios cuando la cosa se tuerce, los que fotografían matrículas y los que las cotejan con las bases de datos disponibles.
Hay varias llamadas al día de puesta en común. Cuando alguien avisa de una redada en marcha, los vehículos de los “observadores” que están en la zona salen zumbando para tratar de impedirla o, al menos, para ser testigos o entorpecer la cacería al inmigrante. Una vez allí, soplan sus silbatos, graban a los agentes con el móvil y se encaran con ellos. A veces acaban arrestados.
Cada barrio de las Twin Cities (que forman las ciudades gemelas de Minneapolis y St. Paul; 3,7 millones de habitantes en total) tiene su propio grupo. Y no es tan fácil ser admitido. El motivo se entiende después, con la primera advertencia al recién llegado: mejor no compartir ninguna información personal, porque “la extrema derecha se ha infiltrado” en ellos. Además, el FBI ya ha advertido de que analizará su contenido.
Así están las cosas en la nueva normalidad de la Minneapolis ocupada, que resiste desde hace dos meses a la Operación Metro Surge, ordenada por el Gobierno federal para acelerar las deportaciones en Minnesota, un Estado demócrata.
El hecho de que el porcentaje de indocumentados sea menor que en muchas otras partes del país no impidió que Trump advirtiera el 13 de enero a sus habitantes que les había llegado “EL DÍA DEL AJUSTE DE CUENTAS Y LA VENGANZA”. No estuvo claro entonces a qué se refería exactamente, pero esta semana no quedaron dudas de que la resistencia de ese “gran pueblo” está arruinando los planes de la Casa Blanca.
“La mayor deportación de la historia”
Minneapolis es la séptima parada, tras Los Ángeles, Washington, Chicago, Portland, Memphis y Nueva Orleans, de la autoritaria huida hacia delante de Trump, ansioso por firmar la “mayor deportación de la historia” de Estados Unidos y por tachar nombres de su lista de enemigos.
En todas esas ciudades, los agentes federales y la Guardia Nacional se encontraron con baches, pero lo de Minnesota se parece más a un muro infranqueable, especialmente desde que los agentes del ICE (Servicio de Inmigración y Control de Aduanas) y la Patrulla Fronteriza mataron a balazos a dos estadounidenses indefensos: el enfermero de cuidados intensivos de un hospital de veteranos Alex Pretti y la poeta Renée Good.
Lejos de amedrentar a los manifestantes, esas muertes, grabadas con los móviles de ciudadanos como Kayla Schultz —que asistió a la de Pretti y no le tembló el pulso— han atizado el activismo de miles de vecinos: desde los veteranos activistas hasta los que, como contó Joey Keillor a EL PAÍS, nunca habían protestado antes.
“Se han topado con la gente más dura del país”, advierte Jaylani Hussein, líder de esa comunidad somalí que Trump ha empleado como pretexto para la ocupación al hacerla responsable en conjunto de un fraude masivo en las ayudas públicas. “Sobrevivimos a los peores inviernos, y lo hacemos sabiendo que podemos confiar en nuestros vecinos. Hemos creado el manual de resistencia para las ciudades que nos sigan en la lista”.
Ese manual está basado en la solidaridad, y no se entiende sin el precedente de las protestas por el asesinato del afroamericano George Floyd a manos de un policía blanco, ni sin los vínculos e infraestructuras forjados entonces en las Twin Cities. Aunque esta vez sea distinta. “Lo de ahora carece de precedentes”, confirma Jim Winterer, periodista jubilado. Ha vivido toda su vida en Minnesota y fue de los pocos que levantó la mano cuando en una manifestación esta semana el orador preguntó si había alguien entre el público que hubiera participado en las protestas contra la guerra de Vietnam.
La columnista Lydia Polgreen, que ha cubierto conflictos por todo el mundo, escribió en The New York Times que lo visto sobre el terreno en Minnesota, Estado que no votó republicano ni cuando arrasó Ronald Reagan en 1980, le recordaba al inicio de una guerra civil. Aquí prefieren el paralelismo con la revolución contra los ingleses que hace 250 años trajo la independencia de Estados Unidos. “Esta vez el rey se llama Trump”, aclaró Ken Brown, mientras se manifestaba con un cartel diseñado por él mismo que acusaba a los agentes del ICE de ser “los orcos” del presidente.
Brown recordó, como decenas de otros entrevistados estos días, el momento en el que sintió la “necesidad de hacer algo”. En su caso fue pronto, cuando empezó a ver agentes enmascarados patrullando su ciudad. Pero pudo haber sido al asistir a los brutales arrestos de los que levantan acta los observadores de Signal o a las muertes en directo de Pretti y Good, dos estadounidenses blancos, como la inmensa mayoría de los que protestan.
Puente sobre la autopista
Ese “algo” puede ser, simplemente, aguantar durante horas el frío sujetando carteles que piden la expulsión o la abolición de ICE en los puentes sobre las autopistas, para que los conductores toquen sus bocinas al pasar. Los inquilinos de un edificio en el cruce de la calle 28 y la avenida Thomas salen desde hace semanas cada miércoles por la tarde a soplar con fuerza sus silbatos. Hay vecinos que donan o reparten comida a las familias necesitadas, o a las que no se atreven a salir a la calle por miedo a ser arrestadas y deportadas. Otros regalan dónuts, gafas y máscaras antigás, barras para los labios cortados por el frío y calentadores para las manos o los pies en una ciudad que esta semana ha alcanzado los 25 grados bajo cero.
A veces, basta con consumir: Miguel Zagal, de la Taquería La Hacienda contó el miércoles pasado que el negocio de sus padres estuvo tres semanas cerrado por miedo, y que, cuando volvieron a abrir, el barrio se volcó tanto en echarles una mano que cada día se quedaban sin comida antes del cierre. En otras ocasiones, funciona no gastar: muchos en la ciudad se han sumado a un boicot a los grandes almacenes Target, una de las 15 empresas del Fortune 500 con sede en Minneapolis. ¿El motivo? La prisa con la que sus gestores se plegaron a las exigencias de la Casa Blanca y eliminaron los programas de diversidad, igualdad e inclusión adoptados por un cálculo empresarial tras la muerte de Floyd.
La nativa americana Sarah Charging, miembro de las Tres Tribus Afiliadas de Dakota del Norte, empezó a protestar tras la muerte de Good, a la que un agente del ICE llamado Jonathan Ross, que aún no ha sido acusado de nada, disparó tres tiros a bocajarro. Desde entonces, Charging se planta “cuatro o cinco veces” por semana, “antes o después del trabajo” ante el edificio federal Obispo Whipple, la mole brutalista a la que llevan a los detenidos. Tanto a los inmigrantes indocumentados, a los que envían a otros Estados para entorpecer su defensa, como a los estadounidenses que detienen en las protestas o a los refugiados arrestados por error a los que luego no les pagan los billetes de vuelta desde lugares como Florida o Texas.
Al lado de un cartel que da bienvenida al complejo, en el que alguien ha tachado la palabra “empleados” y ha escrito “cerdos”, un coche que dice “Haven” (refugio) hace guardia 24 horas al día para asistir a los que sueltan sin cargos, muchas veces, de madrugada. “Les confiscan los teléfonos móviles y les quitan los abrigos”, advierte Cathy Anderson, una de las voluntarias.
En el Whipple no es raro que huela a gas lacrimógeno y hay gente a todas horas que, con o sin megáfono, gritan e insultan a los uniformados que custodian la entrada o a los 4X4 con cristales tintados que ingresan en el recinto, en torno al que han levantado una valla para contener a los manifestantes. A veces, los agentes cargan o lanzan botes de humo. A eso de las 10.00 del viernes, uno de ellos se fue para los que en ese momento estaban allí concentrados, y arrastró a un hombre por el suelo y lo detuvo sin aparente motivo.
Disfraz de rana
Estos días, en el Whipple había muchas banderas estadounidenses del revés, vieja señal marinera para advertir del peligro que aquí sirve de espejo de un país en crisis, y una mujer disfrazada de rana, que definió su estrategia de protesta como un acto de “frivolidad táctica”. Mike Camilleri, profesor de Denver (Colorado) y padre de tres hijos, contó que había conducido 13 horas para “tomar nota” y así poder contar a sus vecinos cómo se defendió “el pueblo libre de Minnesota”. Una jubilada llamada Lesley Ernst llevaba un silbato colgado del cuello y un cartel que decía “Jesús te ama”. “Supongo que soy uno de esos agitadores violentos de los que habla Trump”, dijo con ironía.
El presidente de Estados Unidos suele añadir, sin pruebas, que todo esto está financiado por agentes “desestabilizadores” como el magnate progresista George Soros. Aunque la aportación de Julie Prokes parezca mucho más modesta. Funcionario estatal, esta semana se la cogió libre para montar una mesa en el parking del Whipple, que ofrece gratis a los manifestantes desde barritas energéticas hasta café caliente o los silbatos que, dijo, fabrica en una impresora en 3-D en su casa, “a razón de 50 por día”. “Todo lo pago de mi bolsillo”, aclaró. También ofrece su coche, encendido a todas horas y con la calefacción puesta, por si alguien necesita entrar en calor.
Además de en ese improvisado puesto, los silbatos los dan gratis en muchos puntos de Minneapolis: desde Birchbark Books, la librería de la premio Pulitzer Louise Erdrich, a la pastelería que hay frente al lugar en el que hace un par de sábados unos agentes de la patrulla fronteriza acribillaron por la espalda a Pretti. Por allí, como por el sitio en el que Good perdió la vida, centenares de personas pasan cada día para llorar en silencio, presentar sus respetos, compartir sus pensamientos en voz alta, dejar una vela encendida o un papel con algo escrito.
En todos esos escenarios predominan los hombres y mujeres blancos. No solo porque representan el 77% del censo de Minnesota, un Estado en proceso de diversificación demográfica. También porque miles de personas, especialmente entre las familias hispanas y asiáticas, llevan semanas sin salir de sus casas por miedo a ser arrestadas. No son solo los indocumentados; también los ciudadanos y aquellos que residen legalmente en una ciudad en la que se ha vuelto una imprudencia ir por la vida sin el pasaporte encima.
Ese ambiente de pesadilla disuade a muchos latinos de sumarse a las protestas, o de participar en los grupos que vigilan los movimientos del ICE. Rogelio Aguilar —que asistió a la manifestación multitudinaria que tomó el viernes esas calles de Minneapolis del himno improvisado Bruce Springsteen poco después de que este actuara por sorpresa en una sala de la ciudad—, se cuenta entre los que sí se atreven. Llevaba una bandera y un poncho mexicanos, y contó que estos días se da largos paseos por la ciudad de esa desafiante guisa, porque, agregó, “los chicanos son siempre los que dan un paso al frente”.
Aguilar, que se ha vuelto conocido en estas calles, dice que lo hace por la gente que no pueden protestar. Gente como Clara y Manuel, por ejemplo, que accedieron a hablar con EL PAÍS en el modesto apartamento del sur de Minneapolis en el que llevan recluidos dos meses.
No tienen papeles; por eso Clara y Manuel son nombres ficticios. Apenas trabajan, así que viven de la solidaridad de los vecinos, que, cuentan, son “puros güeros”. “Descubrir que estaban ahí para nosotros ha sido la parte positiva de todo esto”, explica ella, que a veces pierde la esperanza de que algún día “vuelva lo de antes”, y puedan sacudirse “el miedo”.
Su hijo mayor, que es estadounidense, va a la compra y lleva a los pequeños al colegio, donde estos escuchan historias sobre lo que está pasando que obligan a sus padres a tener conversaciones que nunca creyeron que llegarían a tan temprana edad.
En la ciudad, sigue muy fresco el recuerdo de Liam Conejo Ramos, el niño de cinco años al que el ICE usó de anzuelo para tratar de arrestar a su madre. Cuando lo detuvieron, llevaba un gorro que le venía grande y una mochila de Spiderman que le han quitado en el centro de detención de Texas en el que aguardaba a ser deportado junto a su padre, antes de que este sábado un juez federal ordenara la liberación de ambos. La imagen se convirtió en un símbolo de la brutalidad del operativo de Trump. Pero no ha logrado que esta remita: otros dos niños de su colegio han sido arrestados esta semana.
Una vecina de Clara y Manuel, hispana también, explicó que, aunque ella sí cuenta con papeles, le da miedo “hasta ir a la esquina a sacar la basura”, y que cuando le toca médico se mete en una app para pedir un “raiter”, un conductor voluntario. “Si el que está al volante es blanco”, dice, “entonces vas más segura”.
El presidente de Estados Unidos relevó el lunes al frente del operativo a Greg Bovino, con su aspecto de paramilitar de saldo, para poner al llamado zar de la frontera Tom Homan, y ha hablado de “desescalada” para hacer frente a una crisis de imagen por la muerte de dos ciudadanos estadounidenses y las evidencias que desmienten que su policía migratoria solo va a por “lo peor de lo peor”.
The New York Times informó de que el jefe en funciones del ICE, Todd Lyons, al que un juez amonestó dos días antes por entorpecer la justicia, envió el miércoles un documento a sus agentes. En él, les autoriza a hacer registros en viviendas sin orden judicial, pese a que la ley lo prohíbe.
También se han intensificado las detenciones de ciudadanos estadounidenses. Un grupo de ellos, a los que ya se les conoce como los “16 de Minnesota”, adquirió notoriedad a su pesar cuando la fiscal general, Pam Bondi, publicó en X sus fotos y su información personal, sin importarle la presunción de inocencia o el hecho de que les estaba poniendo una diana digital en la espalda.
El viernes, dos periodistas fueron arrestados. El día anterior, Nekima Levy Armstrong rememoró a EL PAÍS su propio calvario. Armstrong fue detenida por participar en una protesta en una iglesia de St. Paul, a cuyo pastor se vincula con el ICE. La Casa Blanca difundió después una foto de ella, manipulada con inteligencia artificial. “Me sacaron llorando, histérica, cuando en ningún momento derramé una lágrima”, recordó Armstrong, abogada de profesión, cuyo caso dio la vuelta al mundo como otro ejemplo de la falta de escrúpulos de la Administración de Trump. “Además, exageraron mis rasgos y oscurecieron mi piel. Eso solo tiene un nombre: racismo”.
La activista denuncia que le colocaron grilletes, “como si fuera una asesina”, que aún no le han devuelto el teléfono y que los agentes se tomaron fotos con ella y con las otras dos personas detenidas por esos mismos hechos como quien posa con un trofeo.
“Pueden hacer todo eso, pero no van a callarnos. No lograrán intimidarnos. Seguiremos enfrentándonos a sus armas con nuestros silbatos”. La advertencia, que seguramente suscribirían muchos aquí, la soltó Armstrong a mitad de la conversación. Interrumpida por el zumbido constante del teléfono móvil, esta acabó con el mismo ruego al forastero que todas las demás en la nueva normalidad de Minneapolis: “Ve con cuidado y mantente a salvo”.