Por Gustavo Emygdio Halfen e Joacy Ghizzi Neto


1.
Em O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho reafirma um cinema autoral reconhecível: atmosfera sensorial e uma leitura do Brasil mediada por memória política e tensões sociais. A reconstrução dos anos 1970 é sedutora, a direção de arte é precisa, o desenho de som envolve, e Wagner Moura sustenta o drama, obviamente. A brasilidade aparece nos detalhes — da coxinha à capivara — compondo um cotidiano afetivo e reconhecível.

2. Quando a análise avança da estética para a ambição política do filme, surgem limites relevantes. Como em outros trabalhos do diretor, a camada média ocupa o centro moral da narrativa, apresentada como espaço ambíguo de acomodação e resistência frente ao autoritarismo e a expansão do capital (Aquarius, 2016)

3. O problema é que O Agente Secreto recorre a atalhos simbólicos. Ao eleger um pesquisador universitário como alvo central da repressão, o filme se afasta da materialidade histórica da ditadura brasileira, que perseguiu e assassinou majoritariamente militantes comunistas, sindicalistas, estudantes organizados, lideranças populares, do campo e da cidade, e agentes políticos. O conflito sai da esfera do coletivo e vai para a do individual, despolitizando a repressão e tornando-a mais confortável ao olhar contemporâneo das camadas médias esclarecidas, consumidoras em potencial do filme. Destaca-se que o professor é perseguido não por algum enfrentamento ao regime, mas tão somente pelas pesquisas que realiza em seu trabalho.

4. Essa lógica reaparece na construção dos antagonistas. Ao associar o grande empresário e o assassino de aluguel ao Sul do país, o filme reforça um estereótipo que sugere que o autoritarismo teria região definida, talvez apenas invertendo os sinais do senso comum brasileiro. Trata-se de uma leitura historicamente frágil. Houve e há resistência organizada nos três estados do Sul, assim como em todo o Brasil. Movimentos estudantis, sindicatos urbanos e rurais e organizações políticas enfrentaram dura repressão. Operários, professores e estudantes foram perseguidos, presos e cassados. Militantes de esquerda, lideranças sindicais e setores da Igreja progressista sofreram vigilância, tortura e desaparecimentos. O Sul não foi exceção: foi também território de luta, repressão e resistência.

5. No filme, o filho do empresário desenha um mapa que separa o “Brasil” do Nordeste/Norte, e o ostenta contra o protagonista. O assassino de aluguel, executado por outro local, ganha manchete no jornal como “Turista sulista”. Na verdade, essa fórmula Sul x Nordeste já está em Bacurau, (2019) no qual o sulista é o turista ignorante e assassino por prazer, enquanto o nordestino é o símbolo da diversidade e da resistência criativa.

6. Ora, mais interessante para uma estética da resistência brasileira seria articular Leonel Brizola e Miguel Arraes ao mesmo tempo, ou seja, RS e PE, ou ainda, a Guerra de Canudos (BA) com a Guerra do Contestado (SC/PR), a Revolta da Catraca (SC) com a Revolta do Buzu (BA), o poeta Cruz e Sousa (SC) com o Augusto dos Anjos (PB), do que reforçar um estereótipo separatista.

7. Da mesma forma, o conservadorismo e o autoritarismo não são exclusividade do Sul. Movimentos separatistas, elites econômicas alinhadas ao regime militar e projetos políticos profundamente conservadores atravessam diversos estados brasileiros. Regionalizar a opressão é apagar seu caráter de classe e aliviar a responsabilidade nacional das elites civis que sustentaram a ditadura, ontem e hoje, em todos os estados brasileiros. No limite, o ressentimento regionalista de Kleber Mendonça Filho parece mais preocupado com balanço das urnas nas últimas eleições do que com a riqueza da história brasileira.

8. Esse deslocamento ganha uma imagem quase didática na casa de Sebastiana. Ali, todos estão reunidos em harmonia por motivos aparentemente aleatórios. O espaço funciona como uma utopia reduzida na casa: miniatura idealizada, a própria Bacurau dentro de O Agente Secreto, um refúgio moral onde as contradições internas parecem suspensas. É uma lógica semelhante à de Pantera Negra e sua Wakanda: aqui dentro está tudo bem; o problema são os de fora. Os conflitos não nascem ali, eles chegam. São os turistas, os empresários do Sul e os estadunidenses. O mal é sempre externo, invasor, estrangeiro. Em Bacurau, seu Manoel, proprietário de muitos cavalos, é visto com simpatia pelos moradores locais.

9. É nesse ponto que emerge um problema mais amplo do cinema recente de Mendonça Filho. Tanto em O Agente Secreto quanto em Bacurau, constrói-se um modelo interpretativo da luta social como tensão entre regiões, e não entre classes. O Nordeste surge como espaço moralmente preservado, quase imune às próprias contradições, enquanto a responsabilidade histórica é deslocada para “os outros”. Esse recurso isenta o Nordeste de seus próprios problemas estruturais, de suas elites locais, de seus pactos de poder, de suas desigualdades e violências internas, e oferece uma explicação confortável para o fracasso social brasileiro.

10. O efeito é um recurso subjetivo tranquilizador: a culpa é sempre externa. Como se bastasse eliminar um suposto inimigo de fora — outra região do país — para que o Brasil se tornasse um paraíso. Ao substituir a luta de classes por um embate regional, o filme empobrece a análise social e transforma um problema em drama moral: a fórmula possível é um orgulho nordestino que sublima seus problemas locais, e uma culpa sulista, reduzida a resignação e auto-flagelo.

11. Sendo original o roteiro, a questão até se agrava. Não é mais uma memória da ditadura restrita às camadas médias, é a elaboração de uma nova. O diretor criou intencionalmente uma história que fortalece esse conflito regional. Kleber escolheu seu protagonista acadêmico que não tinha nenhum conflito com a ditadura, seu problema era individual, econômico e profissional com o empresário “do Sudeste”. O conflito entre o protagonista e o antagonista não é político, é somente econômico, devido a uma disputa de mercado entre patentes. De costumes também, devido ao cabelo comprido.

12. Destaca-se que a regulamentação da privatização das patentes criadas em universidades públicas foi feita pelo governo Lula, pela Lei 10.972/2004. O embate só existe porque o governo eleito “pelo nordeste” criou uma lei que facilita empresários de obter patentes criadas em universidades, com dinheiro público, ou que pesquisadores transformem sua pesquisa em patente particular, caso do protagonista do filme, conforme acusa seu antagonista.

13. Ao regionalizar o autoritarismo e deslocar a luta de classes para um conflito entre regiões, o filme escolhe caminhos confortáveis. O espectador sai satisfeito, sem nenhuma tarefa política. Afirmar que essa não é a função do cinema não faz sentido para uma produção que se apresenta exatamente assim, política. E é justamente aí que revela seu principal limite: ao tentar denunciar o Brasil autoritário, acaba oferecendo uma crítica reduzida, um recorte distorcido da história e da realidade, menos complexa e menos incômoda do que o nosso papel histórico exigiu na ditadura e segue exigindo atualmente.

6 COMENTÁRIOS

  1. Eu gostei do filme. Curti que o diretor não só reconstituiu um cenário de época, mas também referenciou o estilo de cinema da época, com várias tiradas que vem direto das pornochanchadas (na repartição, a dentista etc.) ou da violência que lembrou o Lúcio Flávio. Se a intenção política principal do diretor era retratar a normalidade da violência, ou o pouco valor que se dá à vida, com gente sendo morta de todo jeito em meio ao carnaval, fez um ótimo filme. Diferente do Tarantino e também do Bacurau, o sangue nesse filme não tira gozo ou risos do público, porque a galera já tá gozando no próprio filme. Então é meio perturbador. Dormi mal na noite seguinte. Isso é o que eu considerei ponto forte da obra.

    De resto, eu concordaria com os autores desta resenha, no entanto acho equivocado dizer que o diretora “substitui a luta de classes” por alguma coisa, pois nada indica que o filme buscasse tratar de luta de classes. Nem sequer da luta política contra a ditadura. Nesse sentido, sinto que os autores da resenha desejam que o filme fosse outro filme. Eu até achei legal que o foco não é a ditadura em si, e sim uma certa violência autoritária transversal, do matador, do delegado, que poderia ocorrer em qualquer época do Brasil. Pra mim isso pareceu ser uma sacada do filme, já que o cinema brasileiro é saturado da épica da luta contra a ditadura. Mas faz sentido a leitura do texto de que essa despolitização seja um subterfúgio para entregar um conteúdo mais palatável.

    Por fim, o conflito do personagem principal é mesmo ridículo e anacrônico: o diretor não só antecipou a lei da privatização das patentes, como também o Reuni e o Ciência Sem Fronteiras. Um golpe contra o lulismo fora de época. Pior camada do filme. A cena do jantar com o empresário paulista é totalmente cringe. Mas, diferente da comunidade rural mistificada de Bacurau, a trama tosca da disputa de verba deixa claro o que está de fundo nesse conflito regional entre norte e sul que habita o imaginário do Kleber e de mais uma galera do seu meio social: uma disputa de elites! Concorrência por editais e políticas públicas, acesso a recursos e espaços para os projetos, prestígio etc. Nesse sentido, estimular a richa contra o eixo Rio-São Paulo é uma trincheira identitária para a afirmação de uma elite cultural de Recife que se vê subalternizada. Apesar de querer se fazer parecer, ela está bem distante da trajetória de lutas e preconceitos enfrentados pelos milhares ou milhões de migrantes nordestinos que massificaram o proletariado no sudeste durante o século XX. Como a resenha expõe bem em breves exemplos, a história das lutas sociais apontou um sentido oposto, de superação das barreiras regionais.

  2. O Passa Palavra é um site feito por humanos e lido por humanos, inclusive a caixa de comentários. Deixemos as máquinas para a preguiça do corpo, não do pensamento.

  3. O comentário do Caio me lembrou de um resenha que eu havia feito do filme Aquarius, do mesmo diretor. Ali também não há luta de classes, mas uma disputa de elites. No caso, a disputa entre a protagonista, Clara (Sônia Braga) e a construtora que pretende comprar seu apartamento. A luta de classes, quando aparece (se é que dá pra chamar de luta de classes), é sempre de forma acidental, como nos pesadelos que Clara tem com a ex-empregada da família, que foi demitida por roubar as jóias dos patrões. O ponto de vista de Kleber Mendonça em Aquarius e n’O Agente Secreto é o ponto de vista das elites. Entendidos assim, seus filmes são expressões coerentes de uma certa classe social — que não é o proletariado, evidentemente.

  4. ATENÇÃO
    Esse comentário foi escrito por humano: eu.

    Afinal, qual o desconforto dos acomodados? E quem é o agente secreto?

    São as duas perguntas chave deixadas sem resposta pelo artigo e pelo filme, respectivamente.

    No filme há uma rápida referência ao “Agente 86” (seriado de TV, uma comédia paródica produzida entre 1965 e 1970), sem haver nenhuma conexão explícita com algum personagem do enredo.

    Na crítica apresentada no artigo tampouco o desconforto é indicado com clareza, numa repetição do que acontece no próprio filme.

    Curiosamente, ou não, a dupla lacuna está presente nos títulos, tanto do filme quanto do artigo.

    A sequência da perseguição ao matador terceirizado (cuja identidade secreta é de trabalhador braçal) pode ajudar desvendar a dupla charada.

    Há uma referência velada a “Bacurau” naquelas cenas. A revolta e vingança do personagem duplamente oprimido e explorado: como trabalhador braçal e como matador terceirizado.

    Enquanto os matadores de aluguel contratados pelo empresário do “Sul” se divertem na praia, o trabalhador braçal executa “serviço de bicho” carregando sacos pesados.

    A sequência começa com ele matando dois policiais, agentes da repressão política envolvidos com desaparecimentos forçados de opositores da Ditadura Empresarial-Militar.

    Enquanto um matador caça o outro, a música da Banda de Pífanos de Caruaru acrescenta uma camada extra de tensão e dramaticidade. E no fim prevalece o “serviço de bicho”.

    Seria ele o agente secreto? Era até muito bom se fosse…

    Pois sua dupla identidade tem mais complexidade do que a do personagem principal. Além do mais ele não é um apenas um fugitivo se escondendo, mas alguém capaz de se livrar de seus perseguidores.

    Apesar de sua duração (2:40h), o filme não tem ator coadjuvante. Foi concebido para ganhar prêmios em festivais internacionais.Tudo no enredo gira em torno de Wagner Moura. Até mesmo o filho do personagem principal é interpretado por ele.

    E os prêmios vieram em profusão. Cannes, Globo de Ouro e vários outros.

    A co-produção envolveu CinemaScópio (Brasil), MK2 Films (França), Lemming Film (Países Baixos), One Two Films (Alemanha), Arte France Cinéma (França) e Black Rabbit Media. A Netflix investiu e garantiu direitos de distribuição na plataforma no Brasil.
    Seria Wagner Moura, ele mesmo, o agente secreto? Numa identidade é o ator identificado com desconfortáveis questões sociais e políticas, mas na outra, quase secreta, completamente acomodado no cinema de mercado.

    O assassinato do personagem principal gera um desconfortável anti-clímax. Quem matou? Como? Nem mesmo na pesquisa conduzida no futuro se tem qualquer informação. E até ela é paralisada. Também o filho se acomoda no desinteresse quanto a história do pai.

    No fim os filmes já não passam no cinema, virou banco de sangue. O sangue não flui, fica estocado como mercadoria. Tudo se acomodou.

    Então por que permanece o desconforto? O filme não desagrada, tampouco chega a empolgar.

    Talvez porque circule por aí um “bicho solto”, matador sem misericórdia de quem o persegue. Ele é o agente secreto.

    Quem será?

  5. Melhor repensar essa resenha aí vendo o filme mais umas cinco vezes. Pois como disse o Caio, os resenhistas queriam um filme padrão sobre Ditadura, que o filme fosse outro. A crítica da cena “cringe” é vergonha para quem? A cena é muito plausível, e no meio de tudo ela serve para o Armando trazer à tona os negócios em que todos estão envolvidos, inclusive ele, Armando, patenteando tecnologia e no fundo desenvolvendo a força produtiva para o Capital. A única coisa que todos aqui não entendem é que arte moderna é feita exatamente da quebra da representação ou de modelos. O vilão delegado, o vilão matador de aluguel, o vilão empresário não são simples estereótipos. Eles existiram na realidade do regime. A quebra da expectativa está justamente nessa articulação entre os três níveis: a alta burguesia paulista ligada à burocracia estatal, o matador de aluguel, o delegado da repressão local e o matador sublocado, que por sua vez vira alvo dos matadores, que por sua vez eliminam Armando. O esquecimento e a indiferença para todos os tipos de elos, e não a memória ou a unidade de classe, é a FORMA do filme, coisa que tais leituras apressadas fundadas apenas no conteúdo e no roteiro não capturam. Quanto ao maniqueísmo suposto de Recife x São Paulo, a leitura de Caio me dá depressão, sobretudo quando leio que a comunidade rural de Bacurau é algo “idealizado” e os paulistas são caricaturais. Venha morar em São Paulo para vc ver o que os paulistas pensam de nordestinos, sobretudo os sertanejos.

  6. Uma pergunta pro Cláudio: quais paulistas e quais nordestinos sertanejos? Ariano Suassuna seria um sertanejo (pensando como uma identidade), mas sua crítica ao funk por exemplo seria, de modo bem justo, rejeitada por muitos paulistas, como o que ela de fato é: um ranço aristocratizante (aliás, a identidade cultural de uma fração da elite recifense se cacifa precisamente nesse ranço herdeiro da sacarocracia, tendo como uma de suas principais produções a ideologia filofascista do Freyre).

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