Por Centro de Informação Kongra Star

Resumo:

Diante do aumento das tensões e ataques realizados nos últimos meses, o Governo de Transição Sírio (HTS), junto com o Exército Nacional Sírio (ENS), soldados vestidos com uniformes do ISIS e conhecidos nacionalistas turcos, lideraram um ataque conjunto contra os bairros de maioria kurda de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, que formam parte da Administração Autônoma Democrática.

Com tanques, ataques aéreos e outras armas pesadas, o exército sírio iniciou uma forte ofensiva no dia 6 de janeiro. No dia 9 de janeiro, os conselhos populares de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh fizeram uma declaração conjunta na qual afirmavam que iriam permanecer e defender seus bairros. As forças de segurança interna e o povo continuaram sua resistência contra a ideologia islamista fascista e os ataques físicos.

História:

– Alepo é a segunda maior cidade da Síria.

– Está situada no norte da Síria e tem uma população de mais de 2 milhões de habitantes. Sheikh Maqsoud e Ashrafieh são bairros de Alepo com maioria kurda e uma população entre 100.000 e 200.000 habitantes.

– Em 2011, Alepo se converteu em um dos centros da revolução e foi cenário de intensos combates durante a guerra civil síria. Os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh expulsaram o regime de Assad com resistência armada e declararam autonomia. Em seguida, os bairros ficaram sob proteção das YPG (Unidades de Proteção Popular). Foram as primeiras zonas que se levantaram contra o regime de Assad e, posteriormente, enfrentaram embargos, assédios e ataques tanto das forças pró-Assad quanto das islamistas. Em 2016, após bombardeios indiscriminados e uso de armas químicas proibidas, a Anistia Internacional declarou que estavam cometendo crimes de guerra nos bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Também em 2016, as forças de Assad recuperaram o controle de toda a cidade, exceto dos bairros de maioria kurda, que defenderam com êxito sua autonomia.

– Muitas pessoas que foram removidas forçadamente de Afrin em 2018 e muitas outras que precisaram fugir de Shahba no fim de 2024 se refugiaram em Sheikh Maqsoud.

– O Governo de Transição Sírio, apoiado pela Turquia, Grã-Bretanha, Estados Unidos, União Europeia e Israel, tem uma ideologia jihadista e pretende estender seu poder por toda a Síria.

Acordos:

No dia 29 de novembro de 2024, o HTS e o ENS, respaldados pela Turquia, avançaram contra Alepo em uma ofensiva para derrotar o regime de Assad e se converter no Governo de Transição Sírio. Isto levou as SDF e o HTS a firmar dois acordos:

– O “Acordo do dia 10 de março” criou uma via para a integração do norte e leste da Síria em um novo sistema político e militar sírio. Isso deveria ocorrer antes do final de 2025.

– O “Acordo do 1º de abril” tinha como objetivo pôr fim aos enfrentamentos que ocorriam nos bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Com esse acordo, as SDF retiraram seus combatentes e armas pesadas e somente restaram as Asayish (Forças de Segurança Interna) com armamentos leves.

Os ataques contra os bairros se deram após o suposto fracasso dos diálogos destinados a aplicar as negociações do dia 10 de março e após a pressão do Estado turco para que essas negociações fossem interrompidas.

O que ocorreu e os números:

– Os meios de comunicação informaram que, até o momento, mais de 23 civis foram mortos. No entanto, não existem cifras oficiais de vítimas mortais e é de se esperar que esse número aumente na medida em que mais informação seja disponibilizada. Os feridos que abandonaram recentemente os bairros informaram que as ruas estão cheias de cadáveres.

– Há mais de 100 pessoas feridas, uma grande quantidade delas são mulheres e crianças. Muitos dos feridos foram retirados de Alepo e se encontram agora na Administração Autônoma de Raqqa e Heseke.

– Muitos civis foram sequestrados e se encontram em mãos dos jihadistas, incluindo profissionais da saúde. O Governo de Transição Sírio afirma que detém 300 cidadãos detidos. Seu paradeiro é desconhecido e há um temor pela iminência de um massacre.

– A população não tem acesso a água, petróleo, gás, alimentos, tratamento médico e instalações humanitárias. O resultado de tudo isso é uma enorme catástrofe humanitária.

– O hospital Khaled Fajr, em Sheikh Maqsoud, carece de eletricidade desde o dia 8 de janeiro, após ter sido atacado mais de cinco vezes com recorrentes bombardeios, o que constitui um crime de guerra.

– O Governo de Transição Sírio utilizou 80 tanques e 42.000 soldados procedentes de toda a Síria. A população dos bairros, em virtude do acordo do 1º de abril, não dispunha de armas pesadas.

Vínculos internacionais:

Como vimos no último ano, o reconhecimento e o apoio externos frequentemente conduzem diretamente à violência contra as minorias a nível interno.

– 6 de janeiro (dia em que começaram os ataques): o Governo de Transição Sírio e Israel chegaram a um acordo mediante conversas mediadas pelos Estados Unidos. Segundo o primeiro-ministro israelense, “os diálogos continuariam para avançar nos objetivos comuns”.

– 8 de janeiro: Turquia declarou seu apoio ao Governo de Transição Sírio em seus contínuos ataques.

– 9 de janeiro: enquanto ocorriam ataques em Alepo, a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, realizou sua primeira visita oficial a Damasco e elogiou o novo regime por seus “avanços” neste processo de transição e falou sobre um possível “novo começo” nas relações. A União Europeia se comprometeu a prestar apoio financeiro e político ao Governo de Transição.

– 10 de janeiro: Estados Unidos concordou em retirar as sanções da Síria e “ampliar seu apoio ao governo sírio do presidente Ahmed al-Sharaa em seu trabalho para estabilizar o país”.

Provas do envolvimento da Turquia:

– O ENS conta com o respaldo e financiamento da Turquia. Os soldados do ENS recebem salários do Estado turco, e por isso os chamamos de mercenários turcos. O ENS se uniu recentemente de maneira formal ao HTS como parte do Exército sírio e os ataques em Alepo são um esforço conjunto.

– Informes de civis atacados em Alepo que afirmam que muitos soldados falavam turco, fotos de supostos combatentes sírios fazendo o signo do Lobo Cinzento (nacionalismo turco) e cidadãos turcos conhecidos registrados em vídeo lutando em Alepo.

– No dia 8 de janeiro, o Ministério da Defesa turco declarou que “a Turquia proporcionará o apoio necessário (ao HTS)” e que apoiam essa luta. No dia 10 de janeiro, a Turquia lançou um ataque militar direto contra uma posição das SDF em Tabqa e ameaçou ampliar o conflito. A partir do dia 11, a represa de Tushrin também está sendo atacada com drones e artilharia, e foram visualizados aviões de combate pertencentes ao exército turco.

– Tom Barack, enviado especial para a Síria e muito ativo nas negociações e acordos entre o HTS e as SDF, é também embaixador dos Estados Unidos na Turquia.

Resistência e apoio:

– A resistência em Sheikh Maqsoud e Ashrafiyah é um poderoso ato de vontade e força popular. A comuna e os conselhos de bairro lideraram o caminho, sendo a voz democrática da resistência popular. As mulheres estiveram entre as primeiras a declarar que não iriam embora, com a comuna de mulheres desempenhando um papel importante nos debates do conselho.

– Em todo o mundo foram feitos chamados para deter os ataques e construir uma Síria democrática. Especialmente na região kurda da Turquia, onde milhares de pessoas se manifestaram em Amed [Diyarbakir] contra os ataques.

-Durante a resistência, quatro membros das ISF (Forças de Segurança Interna) cometeram um ato de sacrifício, três deles eram mulheres. Suas ações heroicas deram esperança para continuar a resistência e as YPJ afirmaram: “Enquanto existirem sacrifícios de pessoas como Farashin, Deniz, Rojbin e Hawar, a vitória sempre será do nosso povo”

Centro de Informação Kongra Star

13.01.2026

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