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	<title>Passa Palavra &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Sobre o dinheiro. 9</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 May 2024 06:36:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O dinheiro é uma linguagem que ao mesmo tempo revela e dissimula. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>9</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A linguagem é uma criação social, mas a sua utilização é individual. Este é o mais imediato fundamento da ambiguidade da linguagem, porque cada pessoa confere um sentido próprio às palavras que emprega e à forma como as emprega. Se quisermos imaginar algo que se aproxime do que chamamos <em>liberdade</em>, então será esse uso pessoal de uma linguagem social. Mas o facto de a linguagem ser estabelecida socialmente marca os estreitos limites da liberdade. A questão é um pouco mais complicada, porque a ambiguidade da linguagem não se deve apenas às interpretações individuais e provém igualmente do seu emprego por grupos sociais menores. Aliás, por vezes a formação destes grupos ocorre em virtude de utilizações específicas da linguagem genérica. Assim, a linguagem comum a toda a sociedade reparte-se incessantemente num mosaico de subutilizações. Por isso as expressões, tanto as palavras como a sua organização sintáxica, podem ao mesmo tempo ser exactas e ambíguas, e sem esta ambiguidade a linguagem não conjugaria os indivíduos na sociedade nem articularia eficazmente a estrutura social.</p>
<p style="text-align: justify;">É na complexidade de uma tríade que articula 1) relações sociais entre 2) a sinalização e 3) a dissimulação que a linguagem exerce as suas funções. Ao mesmo tempo que assinala, a linguagem silencia. Aliás, para cada indivíduo talvez o não-dito seja o mais importante, e o explícito sirva sobretudo para insinuar o implícito. Todos sabemos que uma parte indispensável da arte de falar é não dizer, dizendo. Para evocar um exemplo entre tantos e tantos outros, sete das <i>Nine Stories</i> de Salinger são exclusivamente construídas na forma de diálogos em que o drama consiste no não-dito sugerido pelo dito. Mas para a sociedade é o dito que importa, e não o não-dito. A função articuladora decorre da ambiguidade, e por isso toda a linguagem é plástica.</p>
<p style="text-align: justify;">A ambiguidade da linguagem decorre também do carácter permanentemente mutável da realidade. Como a linguagem evolui mais lentamente do que grande parte da realidade perceptível, a ambiguidade não implica nenhuma inexactidão. Pelo contrário, é para cobrirem uma realidade em mutação, referindo-se a um presente que engloba a imagem do que já foi e as possibilidades que hão-de vir, que os termos duradoiros assumem a latitude da ambiguidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Resumindo, a ambiguidade das palavras é dupla. Por um lado, ela é sincrónica, e entre os contemporâneos cada pessoa, ao ouvir a palavra, associa-a às suas recordações e emoções próprias e, portanto, confere-lhe sentidos específicos. Por outro lado, a ambiguidade é diacrónica, porque cada palavra carrega consigo a herança das diferentes acepções que foi tomando ao longo do tempo, e a etimologia regista os traços desta transformação. Além disso, uma palavra de uma língua pode ser extraída do seu contexto originário, ser neutralizada e inserir-se noutra língua, passando a obedecer a este novo contexto linguístico. Uma língua é formada no decurso do tempo e carrega em si, tanto na etimologia das palavras como na organização da sintaxe, todo esse passado. É uma plasticidade no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, que a linguagem possa servir para criticar a linguagem é a prova última da sua plasticidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A monossemia foi uma utopia leibniziana, que o filósofo prosseguiu em sucessivos e baldados esforços, no impossível desejo de chegar a uma linguagem em que cada palavra tivesse um significado único. Mas que conclusões devemos extrair daqui para a matemática, se ela era o próprio modelo da linguagem desejada por Leibniz? Como escreveu Ernst Cassirer, «a primeira e mais segura analogia com a concepção da “Scientia generalis” como um todo encontra-a Leibniz na ciência dos <em>números</em>» (<em>El Problema del Conocimiento</em>, vol. II, pág. 79). Do mesmo modo, Bertrand Russell sublinhou que Leibniz «acalentou durante toda a vida a esperança de descobrir uma espécie de matemática genérica, que ele denominava <em>Characteristica Universalis</em>, mediante a qual o pensamento pudesse ser substituído pelo cálculo» (<em>History of Western Philosophy</em>, Londres: The Folio Society, 2004, pág. 567). Todavia, não é menos certo que a matemática tem mudado também. Ora, a linguagem pecuniária é derivada da matemática, e é a plasticidade do dinheiro que permite o seu uso nos mais diversos sistemas económicos e sociais. No capitalismo, porém, que tipo de linguagem é o dinheiro? Uma linguagem leibniziana, similar a uma matemática em que toda a ambiguidade fosse suprimida? Ou uma linguagem como a de todos os dias, em que as palavras são ao mesmo tempo exactas e dúbias, e que nesta ambiguidade cumpre a sua função social?</p>
<p style="text-align: justify;">No capitalismo o dinheiro tanto é rigoroso como incerto. Quando Georg Simmel, em <em>The Philosophy of Money</em>, considerou que o dinheiro «se adequa com a mesma facilidade a qualquer forma e qualquer objectivo que a vontade lhe queira incutir» (pág. 325), não devemos esquecer que ele se referia à manipulação individual de um dinheiro definido socialmente. Esta é uma das vias da dualidade da linguagem pecuniária, mas a questão é muito mais genérica. Por um lado, na medida em que é quantitativo o dinheiro é estritamente matemático, passível de operações rigorosas. Ele é o écran em que a economia se reflecte e a lente que a controla. Mas, por outro lado, na medida em que o seu carácter quantitativo serve para dissimular as diferenças qualitativas, o dinheiro é ambíguo. Como os números são terminologicamente homogéneos, eles contribuem para que o dinheiro cumpra a sua função de dissimular as clivagens sob uma aparência de uniformidade. É graças a esta ambiguidade que a linguagem executa na sociedade a sua função articuladora. Em suma, no capitalismo a ambiguidade do dinheiro, enquanto linguagem, permite-lhe indicar e encobrir, revelar e dissimular.</p>
<p style="text-align: justify;">A função dissimuladora executada pelo dinheiro é uma condição indispensável para a sua função de articulador das relações económicas e sociais, por isso as duas funções são inseparáveis. Considerando que o dinheiro permeara todas as manifestações da vida moderna, quaisquer que elas fossem, incluindo as mínimas <em>nuances</em> psicológicas, Simmel afirmou que «o dinheiro continua a ser o único objecto que, devido ao seu carácter puramente quantitativo e à sua reacção uniforme a todas as diferenças entre as coisas, fornece a possibilidade de dispor as múltiplas sensibilidades numa série uniforme» (pág. 268). Mas eu limito-me aqui à esfera económica. E se nos capítulos anteriores indiquei já, quanto mais não fosse implicitamente, o carácter matemático das operações do dinheiro no capitalismo, neste último capítulo vou recordar alguns dos aspectos flagrantes da função dissimuladora. A partir destes casos não será difícil, para quem o deseje, conceber o véu que envolve a totalidade da economia e da sociedade capitalista, a articula e a faz mover.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152107" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26-300x200.jpg" alt="" width="560" height="373" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-26.jpg 1200w" sizes="(max-width: 560px) 100vw, 560px" />a.</strong> O sistema pecuniário gerado pelo capitalismo e indispensável ao seu funcionamento tem paradoxalmente como efeito obscurecer a especificidade do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os processos de produção no capitalismo caracterizam-se pela divisibilidade das operações de trabalho, que podem ser permutadas entre os profissionais do mesmo ofício detentores de qualificações equivalentes, e pela padronização dos produtos, que podiam dever-se à intervenção de qualquer um desses profissionais. A definição do valor como tempo de trabalho incorporado, ou tempo mínimo de trabalho incorporado, restringe-se a estas condições, o que exclui toda a confusão entre um trabalhador inserido no capitalismo e um artesão ou um camponês que opere segundo outros moldes e pressupostos. Ora, as características do sistema capitalista de trabalho são reflectidas pelo dinheiro, cuja ordenação sequencial em múltiplos e submúltiplos corresponde à divisibilidade das operações de trabalho e cuja submissão a um tipo monetário único corresponde à padronização dos produtos. Porém, ao mesmo tempo que o dinheiro explicita estas características definidoras do capitalismo e as torna operacionais, também dilui as fronteiras do sistema económico capitalista ao atribuir preços ao resultado de todas as actividades, independentemente do sistema em que tenham ocorrido, e ao considerar igualmente como um preço a remuneração concedida em troca dessas actividades. Assim, aqueles que hoje imaginam que o fim do capitalismo implicaria a extinção do dinheiro ou, mais estultamente ainda, julgam que abolindo o dinheiro levariam ao desaparecimento do capitalismo são vítimas desta ilusão gerada pelo dinheiro, quando deixa o capitalismo sem limites precisos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>b.</strong> Todas as formas de dissimulação operadas pelo dinheiro no capitalismo resumem-se a variantes de um mecanismo único — o ocultamento das clivagens qualitativas inerentes à esfera dos valores mediante a homogeneidade quantitativa dos preços.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>O Capital</em>, Marx usou o que eu denomino <em>modelo a uma só empresa</em> — e que desde há cinquenta anos não tenho deixado de criticar — apresentando a globalidade do capitalismo como uma multiplicação ilimitada da relação entre os trabalhadores de uma empresa e o patrão dessa empresa. O beco sem saída a que Marx chegou quando tentou transformar directamente os valores em preços resulta desse modelo e, como é sabido, aquela pretensa transformação foi desde cedo objecto de várias críticas, começando pelas de Böhm-Bawerk. Mas os marxistas preferiram esquecer a questão em vez de tentar resolvê-la, o que aliás lhes seria impossível nos moldes clássicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Para ultrapassar o impasse eu propus no <em>Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista</em> (<a href="https://archive.org/details/jb-putdmdpc" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) um modelo do capitalismo em que a produção se eleva do particular ao geral directamente ao nível do processo produtivo e, portanto, em que a globalidade dos trabalhadores produz mais-valia para a globalidade dos capitalistas que, numa primeira fase, se apoderam dela em bloco. Numa segunda fase, a disputa entre os capitalistas leva à desigualdade na distribuição da mais-valia, consagrada na forma final da sua apropriação particular. Assim, os valores são definidos na primeira fase, mediante a relação entre a totalidade dos trabalhadores e a totalidade dos capitalistas; e a segunda fase, em que ocorre a apropriação particular da mais-valia, define os preços. Porém, graças ao dinheiro a dissimetria entre a produção de valores e a formação de preços fica oculta, porque a relação jurídica do assalariamento, estabelecida em preços, disfarça a relação económica da produção de mais-valia, estabelecida em valores. A vã ilusão de alterar a estrutura social através de reformas sucessivas decorre de uma infundada esperança de atingir os valores mediante os preços.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta obnubilação da clivagem social na produção de valores sob a homogeneidade dos preços é específica do capitalismo, porque noutras sociedades e noutros sistemas económicos ou o dinheiro não cobria a totalidade das relações entre os indivíduos ou os vários tipos pecuniários não eram reciprocamente convertíveis nem eram passíveis de se integrar num circuito único.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>c.</strong> Uma das funções centrais da linguagem monetária no capitalismo é a de dissimular a extorsão de mais-valia. O dinheiro homogeneíza o tempo de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">No âmago de todas as contradições da sociedade capitalista, a mais-valia consiste num insuperável desfasamento (defasagem) de tempos de trabalho, que faz com que o tempo de trabalho despendido pelos trabalhadores durante o processo produtivo seja maior do que o tempo de trabalho incorporado nos bens e serviços que os trabalhadores consomem. É como uma entropia negativa, e onde a economia vulgar afirma que <em>there is no free lunch</em>, a crítica da economia mostra que, para os capitalistas, a mais-valia é o <em>free lunch</em>. Ora, o dinheiro transforma a clivagem qualitativa entre os tempos de trabalho despendidos e consumidos pelos trabalhadores numa simples gradação quantitativa e, assim, dissimula a mais-valia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>d.</strong> Se o dinheiro dissimula a mais-valia, dissimula igualmente a mais-valia relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas as operações de trabalho têm uma componente física e uma componente intelectual, embora varie o peso relativo de cada uma, e o tempo de trabalho é o factor comum ao esforço muscular e ao esforço cerebral. Ora, quanto maiores forem as qualificações dos trabalhadores, ou seja, quanto maior e mais desenvolvida for a componente intelectual da sua actividade e maior for a destreza com que executam as suas funções, tanto mais complexo será o trabalho, o que significa que aumenta a capacidade dos trabalhadores para incorporarem mais valor nos mesmos limites horários. Por outras palavras, o tempo de trabalho complexo corresponde a uma multiplicação de tempos de trabalho simples, fazendo o tempo de trabalho decorrer de uma forma cada vez mais concentrada. Em vez de se escoar linearmente, o tempo aumenta de densidade e como que se aprofunda, permitindo que dentro da mesma jornada medida pelo relógio seja produzido um maior número de bens, ou de bens com melhor qualidade. Assim, enquanto aumenta a mais-valia resultante do trabalho complexo, a multiplicação dos bens produzidos faz com que cada um deles incorpore um menor tempo de trabalho, o que implica a progressiva diminuição do tempo de trabalho incorporado nos artigos que os trabalhadores consomem. É este o funcionamento da mais-valia relativa, que aumenta, por um lado, a produtividade no dispêndio de trabalho e, por outro lado, aumentando a produtividade com que são fabricados os bens e serviços consumidos pelos trabalhadores, leva à diminuição do tempo de trabalho incorporado na força de trabalho. Ora, o dinheiro, assim como torna possível a conjugação destes processos, também lhes oculta o mecanismo central, escamoteando os valores sob os preços.</p>
<p style="text-align: justify;">Um exemplo elucidativo, a que gosto de recorrer, é o aparente paradoxo resultante da comparação entre o Haiti e a Suécia, dois países com populações equivalentes, cerca de onze milhões e meio de haitianos e dez milhões e meio de suecos. Note-se que os dados que vou apresentar não são desvirtuados pela actual implosão do Haiti, que só nos anos seguintes foi dilacerado pelo colapso do Estado e pelas disputas entre grupos de criminosos rivais. Segundo as estatísticas do Banco Mundial (<a href="https://data.worldbank.org/indicator/NY.ADJ.NNTY.PC.CD" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), o rendimento nacional líquido <em>per capita</em>, medido em dólares, em 2021 foi de 1.725 no Haiti e de 51.831 na Suécia, ou seja, trinta vezes superior neste último país. Apesar disto, segundo o <em>World Investment Report 2023 </em>(<a href="https://unctad.org/publication/world-investment-report-2023" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), enquanto o fluxo de investimentos externos directos dirigido para o Haiti foi só de 51 milhões de dólares em 2021, foi de 21.133 milhões para a Suécia, ou seja, mais de 414 vezes superior. Esta situação explica-se porque a exploração do trabalho no Haiti está no limiar inferior da mais-valia absoluta e, portanto, é pouquíssimo rentável para os capitalistas, enquanto a rentabilidade é muito elevada na Suécia, onde a exploração do trabalhador atinge os graus superiores da mais-valia relativa. Ora, o dinheiro oculta estes mecanismos, porque, segundo as taxas de câmbio, os salários e os preços dos bens são muito inferiores no Haiti em comparação com a Suécia, enquanto, devido às diferenças na produtividade e na complexidade do trabalho, o tempo de trabalho incorporado nesses bens é muito maior no Haiti do que na Suécia e, do mesmo modo, o tempo de trabalho despendido pelo trabalhador durante uma hora de relógio é muito menor no Haiti do que na Suécia. Mas os capitalistas possuem um faro apurado e não se deixam iludir pelos preços quando estes têm uma função apenas dissimulatória, por isso os investimentos externos fogem do Haiti e se canalizam para a Suécia. Já o faro dos anticapitalistas deixa a desejar, e a perversa noção de <em>aristocracia do proletariado</em>, que tão funestas consequências teve na conversão da luta contra o imperialismo numa soma de lutas nacionalistas, resulta dessa dissimulação dos valores por detrás dos preços. A comparação pode repetir-se para outros países com resultados semelhantes; e quando as companhias transnacionais estabelecem empresas em países menos desenvolvidos, procuram as regiões mais evoluídas, onde a produtividade da força de trabalho pode ser maior, ou criam e administram as suas próprias condições gerais de produção, gerando verdadeiras ilhas de desenvolvimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-152109" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-300x225.jpg" alt="" width="560" height="420" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a-681x511.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-29-a.jpg 2000w" sizes="(max-width: 560px) 100vw, 560px" />e.</strong> O dinheiro dissimula o  mecanismo central da mais-valia relativa, que é o aumento da produtividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A tese de que o capitalismo estaria irremissivelmente condenado devido a uma baixa efectiva da taxa de lucro baseia-se no cálculo dos elementos do capital constante em termos de volume, expresso em preços, e não em termos de valor, ou seja, do tempo de trabalho incorporado nas instalações, na maquinaria e na matéria-prima. A forma como esta famigerada tese esquece os valores para evocar preços decorre do modelo a uma só empresa, que se cinge a uma relação entre os patrões de uma empresa e os trabalhadores dessa empresa, quando, pelo contrário, a relação se estabelece entre a globalidade dos trabalhadores e a globalidade dos capitalistas. Com efeito, o aumento da produtividade não conseguiria reduzir o tempo de trabalho incorporado em cada um dos bens que os trabalhadores consomem, reduzindo igualmente o tempo de trabalho incorporado nas instalações, nos meios de produção e nas matérias-primas, se já antes não se houvesse reduzido o tempo de trabalho nos factores de produção que contribuíram para erguer aquelas instalações, fabricar aqueles meios de produção e extrair aquelas matérias-primas, e o mesmo em todas as fases anteriores, retrocedendo sem limites, num processo que engloba necessariamente a totalidade da classe trabalhadora. Nesta perspectiva, a baixa da taxa de lucro não deve ser referida como uma lei necessária, mas apenas como uma lei tendencial, ou seja, uma lei que pressiona os capitalistas a aumentarem incessantemente a produtividade de modo que a taxa de lucro não baixe. O dogmatismo ideológico que acompanhou a burocratização dos partidos marxistas edificou uma religião laica; e a expectativa de um colapso do capitalismo decorrente da interpretação da baixa tendencial da taxa de lucro como uma baixa inevitável transformou o marxismo numa religião apocalíptica. Porém, uma lei tendencial determina o modo de ela própria ser combatida e, neste caso, define o caminho que deve ser seguido para manter e acelerar o crescimento económico, fazendo com que a evolução do capitalismo não leve à diminuição da taxa de lucro, mas ao seu oposto. Ora, o dinheiro, enquanto linguagem, se é certo que assinala a preeminência da produtividade e articula os meios para a pôr em prática, dissimula também os mecanismos subjacentes a esse processo de desenvolvimento da produtividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A principal lição do <em>Economia dos Conflitos Sociais</em> (<a href="https://archive.org/details/jb-ecs/mode/2up" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) é a possibilidade de integração dos conflitos no capitalismo, enquanto aceleradores da produtividade e, assim, promotores da mais-valia relativa. O dinheiro, na forma salário, dissimula sob a aparência do preço do trabalho a absorção dos conflitos sociais pela tendência ao crescimento económico.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>f.</strong> A forma salário dissimula também as classes sociais, porque cobre tanto os trabalhadores como os gestores, disfarçando sob a manifestação de um preço uma clivagem que só é empiricamente perceptível em termos de valores, quando observamos quem controla o tempo de trabalho alheio e quem não controla o seu próprio tempo de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, o argumento habitual para negar que os gestores sejam uma classe social consiste em afirmar que, tal como os trabalhadores, eles são assalariados. É elucidativo constatar que o obscurecimento desta clivagem social, sob o pretexto de que ambos os lados se inserem na forma salário, é um recurso correntemente praticado pela grande maioria dos marxistas, como já Makhaisky denunciou quando pela primeira vez formulou uma teoria da classe dos gestores. Confundirem-se com os trabalhadores é um dos mais sólidos e perversos sustentáculos do poder político dos gestores, o que contribui para explicar a evolução de todos os regimes fundados no marxismo. E assim esta função dissimulatória do dinheiro tem como consequência disfarçar que o capitalismo de Estado é um capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>g.</strong> No capitalismo, o dinheiro indica e ao mesmo tempo dissimula o poder. Se quisermos usar um critério realista, não devemos prestar atenção apenas ao dinheiro que um rico tem, mas sobretudo à quantidade de trabalhadores que um capitalista pode despedir (demitir).</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de mais, o montante da fortuna individual é meramente nocional, porque se um multimilionário vendesse ao mesmo tempo a totalidade dos seus bens, eles sofreriam uma forte depreciação. A fortuna individual é só um factor para a obtenção de crédito. O coeficiente de Gini não é uma expressão transparente das diferenças de poder, e o único critério sólido para aferir o lugar de alguém nas hierarquias sociais capitalistas é a autoridade que detém sobre os trabalhadores. Ora, a forma mais drástica dessa autoridade consiste em privá-los de trabalho. É a partir daqui que se deve fazer a crítica às reformas exclusivamente centradas na desigual distribuição dos rendimentos. Aliás, uma esquerda que esquece as relações sociais de trabalho para se concentrar na distribuição dos rendimentos passa da esfera da produção, ou seja, da mais-valia, para a esfera do mercado e, portanto, passa dos valores para os preços. As funções de dissimulação exercidas pelo dinheiro, enquanto linguagem, foram indispensáveis a esta degenerescência da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>h.</strong> No capitalismo, a distinção entre circuitos pecuniários é mais uma clivagem que o dinheiro obscurece. Noutros sistemas socioeconómicos a diferenciação desses circuitos era clara e explicitamente marcada pela própria diferença dos suportes materiais do dinheiro, mas no capitalismo passa-se o contrário.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa dissimulação dificulta a crítica ao dogma central do monetarismo, baseado numa equivalência estabelecida por Irving Fisher: <em>MV</em> = <em>PQ</em>. Isto significa que a quantidade disponível de meios de pagamento (<em>M</em>) multiplicada pela velocidade média da sua circulação (<em>V</em>) é igual aos preços (<em>P</em>) multiplicados pela quantidade de bens e serviços transaccionados (<em>Q</em>). Nestes termos, para que uma alteração de <em>M</em> tivesse como consequência uma alteração equivalente de <em>P</em>, assumindo que <em>Q</em> se mantinha constante, seria necessário supor a estabilidade de <em>V</em>. Com efeito, presumindo que a velocidade de circulação dos meios de pagamento seria independente das alterações da quantidade disponível desses meios, os monetaristas concluem que o nível dos preços estaria sempre em estreita correlação com a quantidade de meios de pagamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Para entendermos o logro torna-se indispensável introduzir aqui a principal clivagem social do capitalismo, porque não é possível limitar drasticamente a quantidade de meios de pagamento nos circuitos pecuniários que articulam as relações entre grandes empresas, baseados no crédito e no <em>clearing</em>. Além disso, os meios monetários ao dispor das grandes empresas ampliam-se graças à crescente panóplia de instrumentos financeiros. Porém, a população comum não tem o crédito e o <em>clearing</em> como base das suas relações mútuas, assim como não gera nem põe em circulação substitutos monetários, excepto em circunstâncias extremas e em âmbitos restritos, como sucede, por exemplo, com a transformação de vales de refeição ou de transporte em meios de pagamento aceites em lojas de frequência habitual, ou salvo em situações económicas catastróficas, quando o elevadíssimo grau de depreciação da moeda local leva à sua substituição pelo dólar. Assim, são os circuitos pecuniários articuladores das relações entre particulares que ficam mais sujeitos aos limites pretendidos pelos monetaristas. Em sentido contrário, porém, a população comum pode reagir de tal forma que uma redução de <em>M</em> seja pelo menos parcialmente compensada por uma aceleração de <em>V</em>. Também nos pagamentos de particulares a empresas, o uso de cartões magnéticos acelera <em>V</em> e permite que se efectue muito rapidamente um número ilimitado de transacções com a mesma <em>M</em>. Em suma, além de <em>V</em> não se manter independente das alterações de <em>M</em>, deve considerar-se que <em>M</em> é constituída por diversas formas de meios de pagamento, acessíveis a classes e grupos sociais distintos, e por isso as médias podem dissimular curvas de preços diferentes e até opostas.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob a aparência funcional de uma circulação pecuniária única, coberta pelas mesmas denominações monetárias, ocultam-se circuitos distintos, com efeitos económicos diferentes, o que permitiu às políticas monetaristas agravar a estratificação social do capitalismo, tanto nos meios de pagamento como nas suas formas e na sua circulação. O dinheiro, enquanto linguagem comum, unifica ilusoriamente os vários tipos de mercado, quando na realidade a equivalência de Fisher se desdobrou em duas grandes modalidades, uma vigente nas transacções correntes entre particulares dispersos e outra no mercado das grandes empresas concentradas e das instituições financeiras que as servem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-152110" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27-300x200.jpg" alt="" width="560" height="373" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-27.jpg 1200w" sizes="(max-width: 560px) 100vw, 560px" />i.</strong> No capitalismo, a inflação é a expressão mais plástica da ambiguidade do dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Fundamentalmente, a inflação, mesmo quando na aparência não ocorre porque os preços permanecem estáveis ou até declinam, dissimula a divergência entre duas curvas: uma curva que devemos exprimir em valores, resultante da diminuição do tempo de trabalho que, graças ao aumento da produtividade, é incorporado em cada produto; e outra curva representando a evolução do preço dos bens. É aqui que a discrepância entre valores e preços se tornaria mais notória e, portanto, mais necessário é disfarçá-la. Por isso a curva dos preços é a única exibida e divulgada, o que constitui uma forma derivada de dissimulação da mais-valia. Acessoriamente, a inflação contribui também para apresentar o processo de diminuição do tempo de trabalho incorporado nos bens que o trabalhador consome como um processo de diminuição do montante de valor possível de adquirir com um dado título monetário, ou seja, o declínio do valor das unidades do <em>output</em> aparece como um declínio da capacidade aquisitiva do dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Convém esclarecer que a inflação, tal como é usualmente apresentada, não consiste num simples aumento dos preços, porque, se todos os preços subissem simultaneamente na mesma proporção, a relação entre eles manter-se-ia inalterada e os efeitos inflacionários não ocorreriam. Numa percentagem moderada e estável, e distribuída mais ou menos equitativamente por todos os bens e serviços, a inflação representa um estímulo ao investimento em detrimento da poupança, porque beneficia os devedores perante os credores. E constitui também uma forma de ocultar a descida dos salários reais sob a continuidade dos salários nominais, o que aliás foi essencial para as reflexões de Keynes. Mas acima disto a inflação caracteriza-se por ser um conjunto de aumentos diferenciados e irregulares, que distorce as relações económicas e os tempos dos processos produtivos, e a homogeneização quantitativa proporcionada pelo dinheiro obscurece este agravamento das desigualdades. Por isso a medição da inflação através de uma taxa média foge da questão principal.</p>
<p style="text-align: justify;">Se em situações extremas a inflação se precipita numa hiperinflação e destrói a função das unidades monetárias, qual é o seu equivalente na linguagem genérica? A prolixidade é a hiperinflação da linguagem, enquanto a concisão é uma marca de estilo, realçando o texto e evitando que ele caia na indiferença. Com efeito, a pletora de palavras, a multiplicação de adjectivos, a repetição das evocações banalizam os termos e transformam-nos em lugares-comuns, destruindo-lhes o significado e obrigando a criar novos nomes ou a adjectivar aqueles que perderam a capacidade de expressão. Entretanto, as palavras originárias, esvaziadas de conteúdo, reduzem-se a elementos de rituais, equivalentes a um gesto de mão ou um aceno de cabeça, ou são mesmo postas de lado e saem de uso, tal como as unidades pecuniárias vítimas de uma hiperinflação são lançadas no lixo e substituídas por outras. Só que o processo é muitíssimo mais lento na linguagem geral do que na linguagem pecuniária.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se a linguagem nos rodeia completamente e se apenas através dela percebemos a realidade, e se o dinheiro é uma linguagem que ao mesmo tempo revela e dissimula, então a crítica da economia consiste em usar uma linguagem para desmontar outra linguagem. A crítica da economia é uma crítica económica da economia.</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor interessado pode encontrar aqui o <a href="https://passapalavra.info/2024/03/152021/" target="_blank" rel="noopener">primeiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152040/" target="_blank" rel="noopener">segundo capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152046/" target="_blank" rel="noopener">terceiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152049/" target="_blank" rel="noopener">quarto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/" target="_blank" rel="noopener">quinto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152057/" target="_blank" rel="noopener">sexto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152066/" target="_blank" rel="noopener">sétimo capítulo</a> e o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152070/" target="_blank" rel="noopener">oitavo capítulo</a>.</p>
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		<title>Sobre o dinheiro. 8</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 May 2024 06:48:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Se aplicarmos ao crédito o modelo da linguagem, abre-se a compreensão dos problemas obscurecidos pela falsa noção de capital especulativo. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>8</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O uso do dinheiro como instrumento requer a elucidação de um aspecto crucial da linguagem matemática, que Heinrich Hertz expôs no final do século XIX. «A partir do momento em que tenhamos conseguido derivar imagens da nossa experiência passada com as características necessárias, podemos usá-las como modelos para desenvolver rapidamente as consequências que muito mais tarde se hão-de manifestar no mundo exterior ou em resultado da nossa própria intervenção» (<em>apud</em> Ernst Cassirer, <em>The Philosophy of Symbolic Forms</em>, vol. I, pág. 75). Ou seja, a linguagem consiste num sistema de inter-relações que se sobrepõe à realidade material e social, mas sem a decalcar. A linguagem enquanto sintaxe, incluindo a matemática com as suas regras específicas, não se sobrepõem ponto a ponto à realidade sensível enquanto estrutura, mas têm a sua génese num ponto inicial e, através de percursos próprios, atingem um ponto final. Tal como Cassirer sublinhou, «Heinrich Hertz é o primeiro cientista moderno a efectuar uma mudança decisiva da teoria imitativa do conhecimento físico para uma teoria puramente simbólica» (vol. III, pág. 20). E noutra obra Cassirer retomou a interpretação de Herz. «Aqui não é possível comparar um <em>dado</em> símbolo com uma <em>dada</em> coisa para verificar a sua semelhança com ela; tudo o que é necessário é que a <em>ordenação</em> dos símbolos seja de uma natureza tal que sirva para exprimir a ordenação dos fenómenos» (<em>El Problema del Conocimiento</em>, 4 vols., México D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1948, 1953, 1956, 1957, vol. IV, pág. 141). Não se trata de reproduzir linguisticamente a natureza, mas de construir uma linguagem inteiramente simbólica, cujas consequências lógicas estejam de acordo com resultados observáveis experimentalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, as implicações são mais amplas, porque equações concebidas para solucionar de uma dada maneira um dado problema têm sido usadas para solucionar outros problemas ou dar uma solução diferente ao mesmo problema, o que confirma que o encadeamento da linguagem matemática não decalca a realidade sensível. E não faltam exemplos de uma dada linguagem matemática ter sido criada e desenvolvida antes, por vezes muito antes, de estarem disponíveis quaisquer possibilidades reais de aplicação, revelando de modo ainda mais flagrante a falta de coincidência nos passos do percurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, aquela observação de Hertz, aplicável à matemática que se sobrepõe à realidade material sem a decalcar, aplica-se igualmente às operações do dinheiro no capitalismo, que partem de uma dada situação económica para, mediante percursos próprios, estritamente pecuniários, alcançarem outra situação económica e, graças aos <em>feedbacks</em>, além de surgirem como previsão, servirem também de quadro organizativo para a execução das previsões. Aliás, se uma das funções da linguagem é, desde a sua génese, a antecipação do futuro e a preparação desse futuro, então o dinheiro, enquanto linguagem, serve para articular a constatação do passado com a avaliação do presente e a sua projecção posterior. Como Georg Simmel observou em <em>The Philosophy of Money</em>, «não há um símbolo mais flagrante do carácter inteiramente dinâmico do mundo do que o dinheiro» (pág. 510). No capitalismo a linguagem pecuniária é inseparável do decurso do tempo e, por isso, representa sempre uma economia em movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Especificamente, a linguagem pecuniária funciona no capitalismo como programação de consumo e de investimentos, e o crédito é um corolário desta capacidade de previsão, ou melhor, da capacidade de construir ou facilitar aquilo que se prevê. Graças ao crédito, a previsão é, ou tende a ser, <em>self-fulfilling</em>. No capitalismo o crédito não é um artifício nem uma aposta de casino nem uma especulação, e a função de crédito exercida pelo dinheiro não é algo que lhe seja acrescentado e muito menos uma anomalia, mas é uma componente estrutural, inerente à confiança depositada em qualquer símbolo pecuniário. Referindo-se às crises de 1847, 1857 e 1866, Michiel Hendrik de Kock observou que o Banco de Inglaterra «foi forçado a prestar atenção às relações estreitas entre moeda e crédito» (<em>A Banca Central</em>, Lisboa: Banco de Portugal, 1982, pág. 17), mas infelizmente não são poucos os críticos do capitalismo que, mais de um século e meio depois, ainda não aprenderam o que aprendeu o Banco de Inglaterra. Ora, sem elasticidade nenhuma linguagem conseguiria cobrir o permanente aparecimento de novos elementos e processos resultantes tanto das transformações naturais como da acção da sociedade. E se basta o desenrolar da História para que o mundo se amplie no presente e mais ainda na memória acumulada, não se trata apenas de criar novos termos, mas também de transformar a sintaxe de modo a conceber novas estruturas. O mesmo sucede com a linguagem pecuniária, que tem de ser suficientemente plástica para cobrir as taxas de crescimento da vida económica e os seus saltos bruscos, e também para acompanhar as contracções da economia, tantas vezes repentinas. Através da emissão de dinheiro e do crédito, os bancos são o órgão que, apesar de alguns insucessos, tem geralmente garantido essa plasticidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A função originária do crédito foi a mobilização de poupanças para, com o dinheiro depositado pelos clientes, estimular iniciativas que necessitassem de empréstimos. Assim, os bancos substituíram o entesouramento pré-capitalista pelos investimentos capitalistas e foram o agente promotor e acelerador do novo sistema económico. Além disso, ao adiantar como crédito um volume monetário que, no máximo, é equivalente aos depósitos totais multiplicados pelo inverso da fracção de depósitos que cada banco tem de manter em reserva, o conjunto do sistema bancário procede a uma expansão múltipla dos depósitos e torna-se, portanto, criador de dinheiro, ampliando muito a circulação pecuniária. Por outro lado, já nos alvores do capitalismo os bancos estendiam as suas operações a distâncias capazes de cobrir o mercado mundial dessa época e impossíveis de atingir pelos outros tipos de empresas, e assim, sendo os primeiros a internacionalizar-se, abriram o caminho à evolução económica posterior. E como têm sempre existido vários centros emissores com denominações monetárias próprias, os diferentes sistemas pecuniários equivalem a línguas diferentes e são os bancos, ao executarem funções de câmbio, quem serve de dicionário. Na medida em que os bancos são os intervenientes indispensáveis a todas estas operações eles têm lucros, e sem esses lucros não poderiam assegurar a estabilidade pecuniária.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste quadro torna-se fácil compreender por que motivo é imprescindível que os grandes bancos não caiam em falência ou, se um cair, não arraste os outros, quando o mesmo não se passa com as grandes empresas dos demais ramos. Conta-se a história de um famoso banqueiro americano do início do século XX a quem alguém pediu um empréstimo. O banqueiro disse que não lho concedia, mas prometeu que atravessaria com ele a sala principal da Bolsa, na hora de maior movimento, colocando-lhe afectuosamente a mão por cima do ombro. O banqueiro substituiu a linguagem pecuniária do crédito pela linguagem alegórica dos gestos — ambas linguagens, e com os mesmos efeitos. O sistema bancário é um dos emissores e o principal articulador da linguagem pecuniária e, se ficar disfuncional, as informações económicas ficam pervertidas ou deixam até de ser emitidas. Uma economia sem um sistema bancário eficaz é como uma sociedade que perdesse a linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Convém definir as áreas políticas de instituições que cumprem um papel tão decisivo. Desde pelo menos um artigo de 1985 («Gestores, Estado e Capitalismo de Estado», <em>Ensaio</em>, 14, 1985) (<a href="https://archive.org/details/jb-geecde" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) que eu classifico como Estado Amplo o conjunto das empresas, devido à capacidade de exercerem soberania quer sobre os seus próprios trabalhadores quer sobre a sociedade em redor, e denomino Estado Restrito os três órgãos clássicos do poder estatal. É no contexto desta dualidade que tenho analisado a organização política moderna e contemporânea. Ora, as operações de crédito não surgiram de um único centro, mas foram geradas dispersamente; e não se desenvolveram pólos de acumulação capitalista que não fossem também pólos de emanação de crédito e da respectiva emissão pecuniária. Do mesmo modo, a formação de bancos centrais deveu-se à iniciativa conjunta do Estado Restrito e do Estado Amplo, embora predominassem umas ou outras instituições consoante os países e as épocas. Em traços muitíssimo resumidos, vou apresentar aqui dois exemplos extremos — o Banco de Inglaterra e o Banco de França.</p>
<p style="text-align: justify;">O Banco de Inglaterra foi o primeiro banco emissor a assumir a posição de banco central. Criado em 1694 graças a uma subscrição pública que reuniu vários capitalistas, o Banco de Inglaterra tinha como objectivo adiantar dinheiro ao governo em troca do privilégio da emissão de notas. De então em diante oscilaram no Banco os poderes relativos do Estado Amplo e do Estado Restrito, porque se em 1826 outras sociedades anónimas bancárias adquiriram o direito de emitir notas, desde que estivessem estabelecidas a mais de uma certa distância de Londres, a legislação promulgada em 1833 conferiu às emissões do Banco de Inglaterra o exclusivo do curso legal. E como entretanto o Banco de Inglaterra foi gradualmente ampliando as funções de banqueiro e agente do governo, ele passou a beneficiar de uma posição de supremacia relativamente às restantes instituições bancárias, que desde o século XVIII consideraram vantajoso depositar naquele Banco parte das suas reservas monetárias. Em contraste com o sucedido no Banco de Inglaterra, o Banco de França, fundado em 1800 com a ajuda de fundos públicos, mas sobretudo com capital privado, esteve desde início estreitamente dependente do governo, servindo-lhe de banqueiro e recebendo em troca o exclusivo da emissão de notas em Paris. Além disso, era o governo que nomeava o governador do Banco e dois vice-governadores, embora os accionistas se encontrassem representados por quinze regentes. Em 1848, nove bancos provinciais com poderes de emissão de notas foram convertidos em filiais do Banco de França, o que lhe ampliou o capital e o âmbito de emissão, e posteriormente criaram-se mais filiais e o Banco obteve o monopólio da emissão de notas em todo o país.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152114" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1-300x201.jpg" alt="" width="560" height="375" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1-768x514.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1-628x420.jpg 628w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1-537x360.jpg 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1-640x428.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1-681x456.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-1.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Como vimos, a diferença entre aqueles dois bancos centrais não residiu nas forças que os compuseram, mas apenas no seu peso relativo, e talvez possamos discernir melhor o que estava em jogo se recordarmos as ideias de Saint-Simon, o primeiro grande teórico do prevalecimento do Estado Amplo perante o Estado Restrito. Saint-Simon atribuiu aos banqueiros e ao sistema bancário o lugar cimeiro na organização social, e facilmente se deduz que a administração da sociedade devesse caber ao banco central. Foi a esta doutrina que os seus seguidores se devotaram na acção política e económica. Numa obra colectiva publicada em 1830, Bazard, um dos mais notáveis discípulos de Saint-Simon, evocou uma «instituição social do futuro», que se encarregaria de dirigir todas as indústrias no interesse da globalidade da sociedade e especialmente dos trabalhadores. «Designaremos provisoriamente esta instituição pelo nome de sistema geral de bancos, fazendo todas as reservas sobre a estreita interpretação que hoje poderia dar-se a esta expressão. O sistema compreenderia, em primeiro lugar, um banco central representando o governo, na ordem material; este banco seria depositário de todas as riquezas, de todo o fundo de produção, de todos os instrumentos de trabalho, numa palavra, do que hoje compõe toda a massa das propriedades individuais» (<em>apud</em> Charles Gide e Charles Rist, <em>História das Doutrinas Económicas</em>, Lisboa: Inquérito, 1938, pág. 262 n. 3). Mas Gide e Rist acrescentaram que esta concepção talvez se devesse a Enfantin, outro dos notáveis discípulos de Saint-Simon. De qualquer modo, o banco central consubstanciava a sociedade ideal ambicionada pelos saint-simonianos, em que se espelhavam os anseios do capital financeiro. Quando sabemos que Napoleão juntara à sua hostilidade à Grã-Bretanha um desprezo mercantilista pelas formas modernas de dinheiro e crédito, entendemos melhor tanto o antijacobinismo de Saint-Simon como a razão profunda que levara o imperador a ser finalmente derrotado em Waterloo. Era mais do que um Império que estava então em jogo, era toda uma concepção antiquada do dinheiro e do crédito.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal como sucedeu na Inglaterra e em França, também na generalidade dos outros países capitalistas os bancos centrais foram adquirindo progressivamente o privilégio exclusivo da emissão de notas e assumiram a posição dominante no <em>clearing</em> interbancário, assim como passaram a receber em depósito as reservas de caixa dos restantes bancos e, enquanto foi uma prática obrigatória, as reservas de ouro e prata, o que multiplicou a capacidade de emissão pecuniária dos bancos centrais e a sua capacidade de facultar crédito aos outros bancos. Mas de quem dependiam os bancos centrais, das instituições políticas oficiais ou de grupos de capitalistas, do Estado Restrito ou do Estado Amplo? Ao longo do século XIX reproduziu-se aquele mesmo jogo incerto das forças económicas, com a participação exclusiva ou dominante de capitais privados na fundação dos bancos que viriam a assumir o papel central e se destinavam a adiantar empréstimos ao governo, em troca do privilégio da emissão de notas, e cujos conselhos de administração juntavam representantes do governo e dos accionistas particulares, em proporções variáveis e com diferentes níveis de autoridade. Gradualmente, este processo levou à preponderância dos governos sobre os bancos centrais, que por seu turno aumentaram a supremacia exercida sobre os bancos particulares, nomeadamente pela função de prestamista de última instância, ampliada na segunda metade do século XIX. Apenas os Estados Unidos se mantêm como a grande excepção, porque não se fundou ali um banco central nacional e só tardiamente, já na segunda década do século XX, se criou o Sistema de Reserva Federal, que se limita a harmonizar a actuação de bancos dispersos, tanto Bancos de Reserva Federal regionais como bancos privados.</p>
<p style="text-align: justify;">Em qualquer caso, na emissão pecuniária e no crédito, já que ambos são inseparáveis, tem sempre ocorrido uma articulação variável do Estado Amplo com o Estado Restrito, e os estatutos que continuam hoje a regular os bancos centrais, atribuindo-lhes uma maior ou menor independência relativamente aos governos, reflectem as oscilações e ambiguidades do processo em que se geraram. Ora, a conjugação daqueles dois tipos de Estado traça o perímetro das classes dominantes, e salvo em circunstâncias extremas, em que a população comum recorre a substitutos monetários de diversos tipos, é naquele âmbito que se mantém o monopólio da emissão de dinheiro e do lançamento de operações de crédito. Em suma, no capitalismo o crédito foi sempre um pressuposto da emissão pecuniária, sem o qual a economia e a sociedade não podem funcionar, vincando-se assim a clivagem de classes no contexto do dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas no capitalismo desenvolvido o crédito vai muito mais longe do que a sua função originária de mobilização das poupanças e canalização dos investimentos, e a mais importante função do crédito passou a ser a antecipação de lucros futuros. Assim, a taxa de juro não é o preço do dinheiro, porque o dinheiro, não sendo uma mercadoria, não tem preço. Existe uma relação muito estreita entre as taxas de juro e as expectativas ou os desejos, porque a taxa de juro prevê a situação económica a que se pensa chegar ou indica a situação económica a que se quer chegar. A taxa de juro representa a projecção da linguagem pecuniária no tempo. Sem o crédito, os lucros futuros seriam impossíveis. Este tipo de crédito, não como equilíbrio de contas no presente, mas enquanto adiantamento do futuro, converteu-se num dos mais espectaculares engenhos do capitalismo. Rebatendo a ilusão de que os mercados possam antecipar directamente situações futuras, George Soros, um especialista prático do dinheiro — e poucos tem havido tão sabedores — disse que «na verdade, não são as expectativas actuais que correspondem aos acontecimentos futuros, mas os acontecimentos futuros que são moldados pelas expectativas actuais». Ora, este vai-e-vem, se serve para construir realidades, serve também para constatar fracassos. «Existe uma conexão em reflexo bidireccional entre a percepção e a realidade, que pode gerar processos de expansão e recessão [<em>boom-bust processes</em>] que inicialmente se auto-reforçam, mas que por fim se autodestroem, ou seja, bolhas», escreveu Soros. «Cada bolha consiste numa tendência e num erro de avaliação, que interagem em reflexo» (<em>apud</em> Niall Ferguson, <em>The Ascent of Money</em>, Londres: Penguin, 2009, pág. 317).</p>
<p style="text-align: justify;">Através do crédito, o dinheiro, enquanto modalidade de linguagem, tornou-se inseparável do decurso do tempo. E o tempo para nós, decorrente da segunda lei da termodinâmica, é irreversível. Todavia, no capitalismo a linguagem pecuniária implica uma notável excepção, porque o tempo pode ser reversível no decurso das operações de crédito. E então ocorrem as crises ou, no âmbito particular, as bruscas oscilações na reputação económica ou social de que alguém ou alguma instituição possa beneficiar. Neste contexto, as crises — de uma pessoa, uma empresa ou toda uma economia — consistem em colapsos no processo temporal. Quando, graças ao crédito, se dá um salto no futuro e se vive já nesse mundo previsto, a crise financeira alerta cruelmente para o facto de a linguagem ser só linguagem e representa um brusco regresso ao passado. Em suma, no capitalismo o dinheiro pressupõe a reversibilidade do tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, talvez já noutros sistemas económicos e sociais pudesse pensar-se essa reversibilidade. Se interpretarmos o <em>potlatch</em> como uma modalidade invertida de crédito, então também ele tornava o tempo reversível, porque o esbanjamento público restabelecia a situação anterior à perda de prestígio.</p>
<p style="text-align: justify;">A plasticidade e a reversibilidade do dinheiro, somadas à sua difusão e ao seu estatuto de principal ou exclusivo articulador das relações inter-individuais, propiciam uma incessante mobilidade nas hierarquias sociais, em flagrante contraste com os regimes baseados na propriedade fundiária. Para além das várias revoluções e guilhotinas, o dinheiro foi o mais eficaz mecanismo de dissolução da velha nobreza e é irónico observar algumas boas almas dos nossos dias a imaginarem que as críticas ao dinheiro constantes em poemas ou prosas do <em>ancien régime</em> antecipariam as palavras de ordem da esquerda quando, na realidade, defendiam a sociedade senhorial. Se a democracia se define pela mobilidade social e pela circulação das elites — e não vejo de que outro modo poderíamos defini-la — então o dinheiro é o grande promotor da democracia.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a concentração da luta contra o capitalismo numa luta contra os bancos nasceu nas ideologias mais reaccionárias surgidas no final do <em>ancien régime</em> em oposição à Revolução Francesa. Rivarol, por exemplo, considerava que um governo devia proteger os súbditos «na razão inversa da mobilidade da sua riqueza» e relegava para o último lugar o financeiro que, «tal como o mágico, pode com um traço de pluma transportar a fortuna para o fim do mundo e, nunca acumulando nada senão símbolos, evade tanto a natureza como a sociedade» (<em>apud</em> Herbert Lüthy, <em>From Calvin to Rousseau</em>, Nova Iorque e Londres: Basic Books, 1970, págs. 94-95). Desde então ideias como esta têm servido, na direita, de câmara de eco às aspirações anticapitalistas nascidas na esquerda, e não espanta que um duradouro semanário fascista francês tivesse tomado o nome de Rivarol. Esse tipo de cruzamentos, ou convergências, é sempre gerador de fascismos e, neste caso, assinalar os bancos como o principal alvo da luta social, além de ser uma manifestação de fascismo, pode pressupor, <em>in extremis</em>, o anti-semitismo. Como tratei esta questão com algum detalhe no <em>Labirintos do Fascismo</em> (São Paulo: Hedra, 2022, vol. II, págs. 139-147), passo adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">A propósito de anti-semitismo, no entanto, vale a pena notar que as operações monetárias representavam a única via de ascensão social para minorias étnicas ou religiosas marginalizadas do poder político e, portanto, excluídas da propriedade fundiária. O interesse manifestado por muitos judeus pela actividade bancária não os diferenciava do que ocorria com os arménios na Turquia, os pársis na Índia ou os huguenotes em França. Assim, as formas modernas de anti-semitismo, que já não invocavam justificações religiosas, quando não se baseavam em pressupostos raciais decorriam unicamente da hostilidade ao crédito, acentuada pelo facto de ele caber à iniciativa de pessoas marginalizadas socialmente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152205" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1-300x157.jpg" alt="" width="560" height="293" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1-300x157.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1-1024x536.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1-768x402.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1-803x420.jpg 803w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1-640x335.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1-681x356.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-3-1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Foi no contexto dessa concentração das hostilidades na actividade bancária que se difundiu o mito do <em>capital fictício</em>, e se aplicarmos ao crédito o modelo da linguagem abre-se a compreensão dos problemas obscurecidos pela falsa noção de <em>capital especulativo</em>. Considerar que esse capital, que é dinheiro, possa ser fictício, é classificar como fictícia a linguagem, opondo-a à presumida realidade das coisas. Mas sem a linguagem a restante realidade seria para nós um caos, e só distinguimos coisas através dos nomes que as designam, assim como só pela sintaxe ordenamos as coisas. Se existe algum capital que seja fictício, então ele é tão fictício como qualquer componente da linguagem. Afinal, esse capital desacreditado como fictício é indispensável para a compreensão e a manipulação dos processos económicos. O crédito é tão fictício como é fictício o futuro para o qual esse crédito se propõe servir de instrumento. Quando — e se — aquele futuro estiver realizado, então ele será real, e sem o crédito não teria passado a ser real.</p>
<p style="text-align: justify;">Do mesmo modo, a diversidade dos mecanismos financeiros actuais — <em>derivatives</em>, <em>futurities</em>, <em>leveraged buyouts</em> e vários outros — é exigida pela complexidade e pela interdependência das operações económicas contemporâneas, pela impossibilidade de as conceber num dado momento sem as projectar no futuro e pela rapidez com que os problemas sentidos numa dessas operações se repercutem nas restantes. Não se trata de construções artificiais sobre uma realidade que não mudou, mas de uma adequação da linguagem pecuniária a uma realidade em veloz mutação. Por outro lado, se considerarmos como especulativas todas estas formas de capital pelo facto de se projectarem no futuro, então elas são tão especulativas como a restante linguagem, que pela sua função instrumental se destina a existir no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>The Philosophy of Symbolic Forms</em>, Cassirer esforçou-se por deixar claro que não existe uma correspondência directa e caso a caso entre uma dada sensação ou observação empírica e uma dada formulação de uma lei física ou química. «Em princípio, nunca podemos comparar a sensação particular com o seu substrato físico-objectivo determinado. O que pode ser comparado é, por um lado, a totalidade dos fenómenos observáveis e, por outro lado, o sistema total de conceitos e juízos no qual a física exprime a ordenação e as regras da natureza, e aqui podemos medir um pelo outro». Não existem coincidências, ou ausências de coincidência, parciais. «Pelo contrário, essa correspondência só pode ser procurada entre a totalidade dos dados da observação empírica e a totalidade dos conceitos teóricos e das hipóteses e leis físicas» (vol. III, pág. 412). A correspondência verifica-se entre duas globalidades, a teórica e a empírica, e só a partir daí se pode traçar a relação entre a lei particular e o fenómeno empírico particular. O mesmo ocorre com o capital dito fictício, que não tem nenhuma correspondência, ou ausência de correspondência, com qualquer processo económico específico. Esse capital erradamente considerado fictício é um elemento indispensável à compreensão da totalidade dos processos económicos e da intervenção social nestes processos.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como a linguagem matemática da ciência permitiu visualizar novas realidades e expandi-las, também a linguagem matemática do crédito abriu outras perspectivas ao desenvolvimento económico, criando realidades que nada têm de fictício. Basta recordar que as primeiras instituições seguradoras se distinguiram dos casinos fundamentalmente por aplicarem princípios matemáticos inovadores, respeitantes ao cálculo de probabilidades e à distribuição de médias. Pascal, Bernoulli e outros nomes talvez menos familiares, assim como tiveram para a matemática uma importância decisiva, também a tiveram para os seguros. E como as companhias de seguros, para aumentarem a sua defesa perante a imprevisibilidade de diversos riscos, passaram a aplicar os prémios em fundos de investimento, depressa atingiram uma posição financeira de primeiro plano e se contaram entre os maiores investidores mundiais. Foi esta uma das principais vias, se não a principal, que levou ao crescente relacionamento da matemática com o crédito, e será fictícia essa matemática?</p>
<p style="text-align: justify;">O carácter paradoxal da noção de <em>fictício</em>, aplicada a um capital, torna-se ainda mais evidente em confronto com a física desenvolvida a partir do século XIX, desde o estabelecimento da noção de campo e depois a liquidação da noção de éter, até atingir o auge na física quântica. A matemática responsável pela criação da física moderna e aquela matemática gerada já no âmbito desta física não têm nenhumas correspondências empíricas directas. Escrevi no capítulo anterior que a ciência começou quando deixou de se perguntar <em>porquê?</em> e se passou ao <em>como</em> e ao <em>quanto</em>, mas os físicos foram mais longe e abandonaram o desejo de saber o que algo <em>é</em>, para procurarem definir em que circunstâncias algo <em>se comporta de acordo com</em> um ou outro modelo matemático. O <em>como</em> transformou-se em <em>como se</em>. Recorreu-se a um cálculo em termos de ondas sem que houvesse qualquer meio físico a ondular, passou-se a um cálculo que afirma a necessária existência de algo que nunca se supusera ou se admitira, até se chegar a algo que não conseguimos visualizar nem sequer inserir nos sistemas lógicos disponíveis, mesmo em esquemas que parecem tão óbvios como o da identidade. É uma realidade matematicamente manipulável, embora logicamente impensável.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, trata-se de uma razão instrumental e de uma linguagem matemática operacional que nada têm de fictício, porque delas decorre a tecnologia em que vivemos e a base firme que para nós construímos. Só a razão instrumental nos permite sair do solipsismo da linguagem. Então — pergunta mortal para um materialista, mesmo dialéctico — será que descrever a massa em termos de energia a torna fictícia? Se m=E/c<sup>2</sup>, será que os materialistas-dialécticos se converterão em energéticos-dialécticos? Não pode haver melhor prova de que o fictício não é fictício. A nossa noção de realidade deve ser expandida, como foi ao longo das épocas anteriores. A oposição entre fictício e real implícita na noção de <em>capital fictício</em> é uma bafienta relíquia setecentista.</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor interessado pode encontrar aqui o <a href="https://passapalavra.info/2024/03/152021/" target="_blank" rel="noopener">primeiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152040/" target="_blank" rel="noopener">segundo capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152046/" target="_blank" rel="noopener">terceiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152049/" target="_blank" rel="noopener">quarto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/" target="_blank" rel="noopener">quinto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152057/" target="_blank" rel="noopener">sexto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152066/" target="_blank" rel="noopener">sétimo capítulo</a> e o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152075/" target="_blank" rel="noopener">nono capítulo</a>.</p>
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		<title>A luta dos estudantes nos EUA contra uma máquina genocida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 May 2024 09:43:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Sionismo e grande capital, é isso que os estudantes estão confrontando e enfrentando com a luta pelo desinvestimento e para tentar parar um virtual genocídio em curso.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Leo Vinicius</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">No dia 17 de abril de 2024 estudantes da Universidade de Columbia, em Nova York, que lutam ativamente há seis meses para que a Universidade desinvista seu fundo em empresas ligadas direta ou indiretamente às mortes infligidas aos palestinos por Israel, estabeleceram um acampamento dentro do <em>campus</em>. No dia seguinte a presidente da Universidade, Minouche Shafik, chamou a polícia para acabar com o acampamento, resultando em violência contra os estudantes e cerca de 100 presos. O acampamento foi reestabelecido pelos estudantes e a notícia da repressão policial fez os acampamentos por esse desinvestimento dos fundos das universidades, e de solidariedade à população em Gaza, se espalharem como fogo no palheiro por inúmeras universidades dos EUA (dezenas ou até mais de cem em algumas contagens). A repressão policial também se espalhou por inúmeros desses <em>campi</em> dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui pretendo trazer ao leitor de língua portuguesa três tópicos sobre essa luta ainda em curso no momento em que escrevo: 1) o que ou a quem esses estudantes estão confrontando e enfrentando quando lutam por essa demanda; 2) quais as condições políticas e sociais que fizeram esse levante ocorrer; 3) quais as perspectivas emancipatórias imanentes a esse movimento.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A luta contra um poder econômico e político gigantesco</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um repórter da <em>Al Jazeera</em> em Inglês pergunta a um estudante da Universidade George Washington, na capital dos EUA:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Você tem a percepção de que se você estivesse protestando, por exemplo, contra a Rússia ou sobre a mudança climática, a Universidade estaria achando legal e elogiando? Por que você acha que ela é tão particularmente virulenta contra esta manifestação?</em></p>
<p style="text-align: justify;">O estudante respondeu:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Porque a Universidade não é uma instituição educacional. É uma instituição financeira. E estamos pedindo desinvestimento</em> <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta do estudante foi certeira no objetivo de aproveitar o espaço na mídia para ter um impacto político e discursivo. Mas ele também deve saber que não é apenas por lutarem por controle sobre o investimento de capital que a repressão tem sido virulenta. Se a demanda fosse não investir em empresas ligadas ao uso de combustível fóssil, a reação seria muito diferente. Eles estão enfrentando o poder econômico e político do sionismo, que nos EUA é imenso, envolvendo os dois grandes partidos políticos. Vale salientar que há cristãos sionistas e não apenas judeus sionistas <strong>[2]</strong>. O mais poderoso grupo formal de <em>lobby</em> sionista nos EUA é a AIPAC (<em>American Israel Public Affairs Committee</em>), conhecido por despejar milhões de dólares em campanhas de políticos alinhados aos interesses de Israel e despejar milhões de dólares para que políticos não alinhados não sejam eleitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de continuarmos, é preciso ter uma ideia de algumas características do sistema universitário dos Estados Unidos. Lá as universidades, tanto as privadas quanto as públicas, possuem fundos formados por doações e outras verbas, os quais são investidos no mercado financeiro. Os estudantes da Universidade de Michigan, que é uma universidade pública, conseguiram que a administração divulgasse esse ano o tamanho do fundo e no que ele estava investido. Como exemplo, o fundo da Universidade de Michigan é de 17,9 bilhões de dólares, e após investigarem os investimentos os estudantes chegaram à conclusão de que 6 bilhões estavam investidos em empresas direta ou indiretamente ligadas à morte dos palestinos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152833 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254.jpg" alt="" width="1734" height="1254" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254.jpg 1734w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-1024x741.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-1536x1111.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-640x463.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1734px) 100vw, 1734px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tanto as universidades privadas quanto as universidades públicas nos EUA são geridas como empresas. Vale lembrar que as públicas também não são gratuitas. Tantos as privadas quanto as públicas possuem um presidente, um CEO, que é escolhido por um Conselho (<em>Board of Trustees</em>). A forma de composição desse conselho varia. Nas universidades públicas geralmente os membros ou a maioria deles são indicados pelo governador do estado. O presidente, nas privadas e nas públicas, é escolhido por esse Conselho, a partir de indicações que surgem. Trata-se basicamente da escolha de um Executivo, um CEO, no mercado. Por exemplo, na Universidade de Indiana (pública) a atual presidente tem um histórico acadêmico, mas se tornou uma gestora de universidades; e a atual presidente da Universidade de Columbia foi presidente da <em>London School of Economics</em> na Inglaterra e teve cargo de direção no Banco da Inglaterra e no FMI, além de ter sido vice-presidente do Banco Mundial. Como vemos, de fato as universidades dos EUA se parecem muito com instituições financeiras. O presidente escolhido pelo Conselho assina um contrato com a Universidade com prazo determinado.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem, portanto, dois mecanismos principais de pressão do poder econômico e político ligados ao sionismo sobre os gestores das universidades estadunidenses: a) a ameaça de cortar doações e recursos públicos direcionados à universidade; b) pelo bloqueio da carreira e da “empregabilidade” dos gestores. Sobre esse segundo ponto, vale apontar que os manifestantes da Universidade de Columbia eram ameaçados de entrarem em lista negra de empregadores durante o acampamento; e o cientista político judeu Norman Finkelstein teve seu <em>tenure</em> (que dá estabilidade de emprego) negado na universidade em que lecionava, o que correspondia na prática a uma demissão, e não conseguiu ser contratado por nenhuma universidade dos EUA durante quinze anos, devido à pressão sionista após ele ter desmascarado na TV e em livro os plágios e informações falsas contidas em um livro de um professor de Harvard, propagandista de Israel.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como manifestações em solidariedade aos palestinos ocorrem em universidades dos Estados Unidos desde outubro de 2023, a pressão sionista para aplacar essas manifestações e calar os críticos a Israel também não apareceu agora. As tropas de choque invadindo as universidades e reprimindo os estudantes são apenas a expressão de um conflito escalado. Em janeiro deste ano, por exemplo, a Universidade de Indiana cancelou uma exposição de Samia Halaby, uma conhecida artista palestina-americana de 87 anos. Halaby se graduou, fez mestrado e foi professora da própria Universidade de Indiana. A exibição foi cancelada por Halaby ter condenado no Twitter o massacre de Israel em Gaza (obviamente essa não foi a justificativa oficial do cancelamento). No mesmo mês o professor Abdulkader Sinno foi suspenso na mesma universidade. Ele era orientador do Comitê de Solidariedade à Palestina dos estudantes da universidade. Em 15 de novembro de 2023 o deputado federal Jim Banks, do Partido Republicano, escreveu à presidente da Universidade de Indiana, Pamela Whitten, afirmando que a Universidade poderia perder acesso a verba federal se tolerasse antissemitismo no <em>campus</em>. O deputado mencionou especificamente o Comitê de Solidariedade à Palestina na carta. Não é novidade que os sionistas chamem de antissemitismo o antissionismo ou críticas às políticas de Israel, uma vez que eles usam e divulgam há mais de cinquenta anos essa tática <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma regra vigente desde 1969 na Universidade de Indiana permitia manifestações, cartazes, símbolos e estruturas num espaço chamado Dunn Meadow. Após o acampamento em solidariedade aos palestinos ser estabelecido no local, dia 24 de abril a presidente da Universidade de Indiana alterou a regra, passando a proibir estruturas no Dunn Meadow. No dia seguinte chamou a polícia no <em>campus</em>, com <em>snipers</em> posicionados no terraço. Cerca de 50 estudantes foram presos e imediatamente suspensos pela administração da Universidade <strong>[4]</strong>. Tudo isso supostamente por causa de uma tenda erguida em um bosque, que até o dia anterior era permitida. Em outras universidades, como a do Texas e a do Arizona, a repressão policial também foi imediata.</p>
<p style="text-align: justify;">Em dezembro de 2023 a presidente da Universidade da Pensilvânia, M. Elizabeth Magill, renunciou ao cargo por pressão de doadores sionistas e políticos. Depois foi a vez de Claudine Gay, presidente da Universidade de Harvard renunciar. Ambas e mais a presidente do MIT, Sally Kornbluth, haviam sido convocadas para uma audiência pública no Congresso no início de dezembro, com o intuito de serem cobradas sobre a não repressão das manifestações contra o extermínio em Gaza que ocorriam nos <em>campi</em> dessas universidades. Claro, serem cobradas sob o discurso de não estarem reprimindo o “antissemitismo”. Três dias depois da audiência, mais de 70 congressistas pediram a destituição das três <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 17 de abril de 2024 foi a vez da presidente de Columbia prestar satisfação aos congressistas. Provavelmente por ter visto o que aconteceu com Gay e Magill, Minouche Shafik agiu de forma pateticamente subserviente diante dos questionamentos dos congressistas, como um empregado amedrontado diante de um patrão que o ameaça. Chegou até mesmo a afirmar que um professor mencionado seria demitido, algo que fugia até mesmo do seu poder de decisão. Por coincidência ou não, no mesmo dia em que Shafik estava no Congresso se humilhando, os estudantes da coalizão <em>Columbia University Apartheid Divest</em> estabeleceram o acampamento no <em>campus</em>, com as mesmas demandas que faziam há meses: basicamente o desinvestimento em Israel e em empresas com negócios com o governo israelense. No dia seguinte Shafik, provavelmente procurando “mostrar serviço” e agradar os sionistas que a pressionavam, chamou a polícia no <em>campus</em>, com o resultado já exposto no início deste texto. Sua decisão de chamar a polícia não passou pelo senado da Universidade, como previa o regulamento desde 1968. O acampamento foi refeito após esse episódio, estudantes foram suspensos de forma arbitrária (principalmente os palestinos), e no dia 29 de abril, 21 congressistas do Partido Democrata enviaram uma carta ao Conselho (<em>Board of Trustees</em>) da Universidade de Columbia, afirmando que era “hora de agir” e que apesar das promessas feitas o acampamento ainda não havia sido suprimido. Na noite do dia seguinte centenas de policiais entraram no <em>campus</em>, prenderam manifestantes e destruíram o acampamento. Na mesma hora a polícia também entrou no <em>campus</em> do City College no Harlem (Nova York), também destruindo o acampamento e prendendo pessoas. Os estudantes do City College, por serem mais pobres e com mais melanina, estão enfrentando acusações mais graves nos inquéritos policiais. Em Columbia a polícia permanecerá no <em>campus</em> até o dia 17 de maio (para garantir que a cerimônia de formatura ocorra).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152831 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Columbia0.jpg" alt="" width="600" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Columbia0.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Columbia0-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na Universidade da Califórnia em Los Angeles a administração da universidade deixou que uma milícia formada por Proud Boys e sionistas atacasse durante dias o acampamento em solidariedade aos palestinos. Quando a polícia apareceu, apenas observou as agressões da milícia fascio-sionista, e quando resolveu tomar alguma ação apenas dispersou a milícia sem prender ninguém. Vinte e cinco estudantes feridos do acampamento tiveram de ir ao hospital. No dia seguinte a tropa de choque entrou no <em>campus</em> para acabar com o acampamento, o que conseguiu após uma batalha com muitos estudantes presos e outros feridos. Ou seja, gestores de universidades, polícia e milícias para-policiais agiram em convergência e conivência na supressão do movimento. <em>Fascismo e grande capital</em>, para repetir o título do livro de Daniel Guérin. Mas dessa vez o fascismo se chama sionismo. Sionismo e grande capital, é isso que os estudantes estão confrontando e enfrentando com a luta pelo desinvestimento e para tentar parar um virtual genocídio em curso.</p>
<p style="text-align: justify;">Campanhas pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel não são novas nos Estados Unidos e em outros países. Em função disso Israel havia feito um grande <em>lobby</em>, principalmente nos EUA para que fossem aprovadas leis anti-BDS. Nas palavras de Benjamin Netanyahu: “Quem nos boicotar será boicotado… Nos últimos anos promovemos leis na maioria dos estados dos EUA, que determinam que ações fortes devem ser tomadas contra quem tenta boicotar Israel” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 1º de maio a câmara dos deputados dos EUA aprovou por 320 votos a 91 uma expansão do conceito de antissemitismo. Certamente será aprovada também no senado e sancionada por Joe Biden. Nesse projeto de lei o Departamento de Educação terá de adotar o conceito de antissemitismo da <em>International Holocaust Remembrance Alliance</em>, o qual favorece que se confunda antissionismo com antissemitismo e críticas a Israel com antissemitismo. Ou seja, a reação ao movimento estudantil que confronta os interesses sionistas e do grande capital foi imediata, passando pelas pressões políticas e financeiras, atravessando a repressão policial e chegando às mudanças de legislação.</p>
<p style="text-align: justify;">Cereja do bolo, dia 2 de maio Joe Biden criminaliza o levante estudantil em conferência de imprensa, sacrificando sua possível reeleição para servir ao sionismo e ao grande capital <strong>[8]</strong>. Trump e Biden apoiaram a repressão policial.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Os fatores políticos e sociais do levante</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Primeiro fator para desencadear o levante: a militância de longa data. Desde os anos 1990 existem comitês e grupos de solidariedade aos palestinos e pelo desinvestimento em Israel em universidades dos EUA. Por anos a fio eles pareceram insignificantes, mas quando o segundo e infeliz fator para desencadear uma mobilização massiva surgiu, o massacre e virtual genocídio em Gaza, esses grupos tendem se tornar a referência política para organizar e direcionar o movimento. Possuem além de tudo o conhecimento mais aprofundado da causa, além de pautas e objetivos bem estudados.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro fator é uma mudança demográfica nas universidades dos EUA, como salientou o jornalista Juan González, uma das lideranças estudantis na ocupação da Universidade de Columbia contra a guerra do Vietnã em 1968. Há uma diversidade maior de origem dos estudantes universitários estadunidenses do que em décadas atrás, e isso inclui muitos estudantes do Oriente Médio ou com origem familiar naquela região. É ilustrativa a declaração do estudante entrevistado pela <em>Al Jazeera</em> mencionado anteriormente. Na mesma entrevista ele conta ao repórter que é filho de imigrantes que tiveram que sair de seu país como consequência do imperialismo dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Um quarto fator é mais especulativo, embora tenha sido dito por mais de um professor universitário estadunidense. Nas palavras de Finkelstein, um dos fatores dessa conexão forte com a população em Gaza seria “que Gaza se tornou uma metáfora para toda uma nova geração que se sente totalmente sem poder, em um sistema controlado por um punhado de pessoas muito ricas e poderosas. E o fato de como em Gaza, uma grande parte dos nossos jovens não apenas se sente sem poder, mas sentem como se não tivessem futuro sob esse sistema. Acho que Gaza se tornou uma metáfora para os sem poder e sem futuro para muitos jovens ao redor do mundo, não apenas nos países industrializados” <strong>[9]</strong>.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152832 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254.jpg" alt="" width="1670" height="1254" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254.jpg 1670w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-1024x769.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-768x577.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-1536x1153.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-559x420.jpg 559w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-640x481.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1670px) 100vw, 1670px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Perspectivas emancipatórias</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Quanto às demandas de desinvestimento, é importante ressaltar que na Itália também houve lutas estudantis significativas desde outubro de 2023. Conseguiram que a Universidade de Nápoles rompesse relações com uma empresa pública italiana que possuía contrato com o exército israelense. Mas o fato é que, principalmente nos EUA, onde o sionismo exerce um poder político e econômico imenso, a pauta BDS a Israel tende a avançar muito lentamente. Ainda mais que o contexto nos EUA e no Ocidente é da existência e ascensão de uma extrema-direita pró-sionismo. E a demora de avançar nesse caso é crucial, não apenas para parar o massacre em Gaza como para interromper a transformação da Cisjordânia em um novo campo de concentração como Gaza, como vem ocorrendo com o aumento dos postos de controle e violência israelense contra os palestinos.</p>
<p style="text-align: justify;">A repressão em Columbia e em outras universidades, embora tivesse indignado muitos professores e funcionários das universidades, alguns dos quais colocaram seus corpos na linha de frente, necessitava de uma resposta contundente, para além de cartas de repúdio e votações simbólicas. A campanha BDS em Columbia solicitou que os professores e funcionários parassem o trabalho após a repressão e supressão do acampamento no dia 30 de abril. Era a ação que poderia manter a disputa, pois seria inesperada pelos gestores, além de potencialmente servir de exemplo a ser seguido em outras universidades. A incapacidade dos professores e funcionários pararem o trabalho apareceu assim como um limite da luta, na medida que não conseguiu envolver e colocar na mesa o poder real dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A pauta de desinvestimento, embora não toque na transformação das relações de produção, possui um caráter anticapitalista no sentido de reduzir o controle dos gestores sobre onde o capital é investido. Trata-se em última análise da comunidade definir a finalidade da produção e possivelmente também sobre como é realizada a produção (condições ambientais e de trabalho).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se existe uma característica emancipatória desse movimento de base estudantil, se trata do seu universalismo imanente, o qual uma das expressões é, nas palavras de Finkelstein, o “ato de genuína solidariedade com pessoas sem poder, despossuídas quase do outro lado do mundo”. Os estudantes assumiram riscos por pessoas que estão tão longe sem nenhum benefício próprio estar em jogo (o que os distingue da geração que lutou contra a guerra do Vietnã, que teriam o benefício de não ir pra guerra com o fim dela). Judeus, palestinos, pessoas de todas as cores, origens, religiões, se uniram por uma causa. Compartilharam espaço, refeições, luta, rituais, cuidando-se e protegendo-se; enfrentaram juntas a repressão, por uma causa que aparentemente não lhes dizia respeito diretamente. Apenas aparentemente. O salto para um movimento potencialmente revolucionário é dado na solidariedade ativa que reconhece no outro a si próprio. Esse salto é dado quando, e nas condições em que, o convívio com a diversidade e as diferenças produz o entendimento de que somos iguais.</p>
<p style="text-align: justify;">O jornalista Jamil Chade conta que quando virou correspondente internacional tinha a expectativa de conhecer muita diversidade e coisas exóticas. Embora isso tenha feito parte, com o passar dos anos, conhecendo mais de 70 países e cobrindo guerras e catástrofes humanitárias, segundo ele: “na verdade eu descobri que somos muito iguais no fundo. A gente chora pelas mesmas coisas. A gente sonha com as mesmas coisas. E a gente quer uma coisa: dignidade” <strong>[11]</strong>. E como ele ressalta, o ponto central de todos é a busca por dignidade, e para buscá-la é preciso indignação.</p>
<p style="text-align: justify;">O universalismo da busca por dignidade é o que fez os zapatistas ultrapassarem identidades e se tornarem um catalisador de movimentos anticapitalistas mundo afora <strong>[12]</strong>. Essa potência é ainda mais imanente a esse levante estudantil. Uma luta pela humanidade que foge a toda retórica, que está inscrita na própria prática. Uma luta solidária no sentido mais profundo e revolucionário que pode ter essa palavra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>P.S.</strong> O Evergreen College, em Olympia no estado de Washington, se tornou a primeira instituição de ensino superior dos EUA a se comprometer a desinvestir e não efetuar programas com Israel. Segundo um dos organizadores, o fato de Rachel Corrie estudar no Evergreen quando foi morta por um trator israelense na demolição de uma casa na Faixa de Gaza em 2003, e sua memória ser cultivada até hoje na Universidade, foi um fator para a conquista. Rachel era ativista do Movimento Internacional de Solidariedade à Palestina e morreu tentando parar o trator. Essa conquista dos estudantes 21 anos depois mostra que os mortos de ontem vivem nas lutas de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>P.P.S.</strong> O maior sindicato de trabalhadores de acadêmicos dos EUA chamou uma votação a ser realizada de 13 a 15 de maio para decidir sobre entrada em greve da categoria, como resposta à repressão ao acampamento no <em>campus</em> de Los Angeles da Universidade da Califórnia (UCLA). Trata-se do sindicato dos estudantes de pós-graduação que trabalham nos <em>campi</em> da Universidade da Califórnia. A propósito, na UCLA os manifestantes pró-Palestina têm sido alvo de agressões física de apoiadores do sionismo desde outubro do ano passado, com conivência da administração. Na Universidade de Columbia os estudantes de pós-graduação que trabalham para a Universidade estão agindo por fora do sindicato, chamando “sickouts” (paralisação com pedidos de licença médica), e recusa de entregarem notas finais à administração. Também em Nova York, na universidade The New School, foi estabelecido no dia 8 de maio o primeiro acampamento de professores pelo desinvestimento em Israel. Enquanto isso os manifestantes em inúmeras universidades, além de suspensão, prisão e violência policial, estão enfrentando ameaças de todo tipo: a polícia de Nova York está divulgando os endereços dos presos e há campanhas para fotografar e filmar os estudantes em troca de dinheiro. No <em>campus</em> da UCLA estudantes e professores continuam a ser presos, com presença constante da tropa de choque no <em>campus</em>. O virtual genocídio em Gaza continua, agora em Rafah. Como um estudante de doutorado da Universidade de Chicago respondeu quando perguntado se temia sanção da Universidade: “Não ligo. Não importa. Há coisas que importam mais do que meu futuro acadêmico: certamente cada uma daquelas crianças que estão sendo assassinadas, mortas de fome, mutiladas…” <strong>[12]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Law enforcement action at US universities &#8216;disproportionate&#8217;: UN <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=wq3VkFy9QOw" href="https://www.youtube.com/watch?v=wq3VkFy9QOw" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=wq3VkFy9QOw</a></p>
<p><strong>[2]</strong> Para ter uma ideia do cristianismo sionista nos EUA, veja o documentário Til Kingdom Come, da cineasta israelense Maya Zinshtein: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=S3YSG8sgU4g" href="https://www.youtube.com/watch?v=S3YSG8sgU4g" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=S3YSG8sgU4g</a></p>
<p><strong>[3]</strong> Os estudantes da Universidade de Columbia montaram uma planilha com os investimentos da Universidade em empresas relacionadas às Forças de Ocupação de Israel a que tiveram acesso: <a class="urlextern" title="https://docs.google.com/spreadsheets/d/1MfzTwVeg-joMrDEU12wX3C78yser91N60kMj2-_16C8/edit#gid=0" href="https://docs.google.com/spreadsheets/d/1MfzTwVeg-joMrDEU12wX3C78yser91N60kMj2-_16C8/edit#gid=0" rel="ugc nofollow">https://docs.google.com/spreadsheets/d/1MfzTwVeg-joMrDEU12wX3C78yser91N60kMj2-_16C8/edit#gid=0</a></p>
<p><strong>[4]</strong> Veja o que Noam Chomsky expôs sobre essa tática: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=OsEzZdR69vg" href="https://www.youtube.com/watch?v=OsEzZdR69vg" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=OsEzZdR69vg</a></p>
<p><strong>[5]</strong> How a Gaza protest at Indiana University became a battle for free speech <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2024/5/1/how-a-gaza-protest-at-indiana-university-became-a-battle-for-free-speech" href="https://www.aljazeera.com/news/2024/5/1/how-a-gaza-protest-at-indiana-university-became-a-battle-for-free-speech" rel="ugc nofollow">https://www.aljazeera.com/news/2024/5/1/how-a-gaza-protest-at-indiana-university-became-a-battle-for-free-speech</a></p>
<p><strong>[6]</strong> Penn&#8217;s Leadership Resigns Amid Controversies Over Antisemitism <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2023/12/09/us/university-of-pennsylvania-president-resigns.html#:~:text=The%20president%20of%20the%20University,of%20Jews%20should%20be%20punished" href="https://www.nytimes.com/2023/12/09/us/university-of-pennsylvania-president-resigns.html#:~:text=The%20president%20of%20the%20University,of%20Jews%20should%20be%20punished" rel="ugc nofollow">https://www.nytimes.com/2023/12/09/us/university-of-pennsylvania-president-resigns.html#:~:text=The%20president%20of%20the%20University,of%20Jews%20should%20be%20punished</a></p>
<p><strong>[7]</strong> US legislator: Israel &#8216;asked me&#8217; to introduce bill against groups boycotting it <a class="urlextern" title="https://www.middleeastmonitor.com/20201118-us-legislator-israel-asked-me-to-introduce-bill-against-groups-boycotting-it/" href="https://www.middleeastmonitor.com/20201118-us-legislator-israel-asked-me-to-introduce-bill-against-groups-boycotting-it/" rel="ugc nofollow">https://www.middleeastmonitor.com/20201118-us-legislator-israel-asked-me-to-introduce-bill-against-groups-boycotting-it/</a></p>
<p><strong>[8]</strong> Majority in U.S. Now Disapprove of Israeli Action in Gaza <a class="urlextern" title="https://news.gallup.com/poll/642695/majority-disapprove-israeli-action-gaza.aspx" href="https://news.gallup.com/poll/642695/majority-disapprove-israeli-action-gaza.aspx" rel="ugc nofollow">https://news.gallup.com/poll/642695/majority-disapprove-israeli-action-gaza.aspx</a> ; Biden cannot afford a boiling summer of protest <a class="urlextern" title="https://edition.cnn.com/2024/05/02/politics/biden-campus-protest-politics-analysis/index.html" href="https://edition.cnn.com/2024/05/02/politics/biden-campus-protest-politics-analysis/index.html" rel="ugc nofollow">https://edition.cnn.com/2024/05/02/politics/biden-campus-protest-politics-analysis/index.html</a></p>
<p><strong>[9]</strong> Em: <a class="urlextern" title="https://twitter.com/MayadeenEnglish/status/1785337208662102205" href="https://twitter.com/MayadeenEnglish/status/1785337208662102205" rel="ugc nofollow">https://twitter.com/MayadeenEnglish/status/1785337208662102205</a></p>
<p><strong>[10]</strong> A partir dos 23 min neste vídeo: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=kVat3sfB3EU&amp;t=1592s" href="https://www.youtube.com/watch?v=kVat3sfB3EU&amp;t=1592s" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=kVat3sfB3EU&amp;t=1592s</a></p>
<p><strong>[11]</strong> Ilustrativa a reposta do finado Subcomandante Marcos em 1994 quando perguntado sobre por que os zapatistas usam passamontanhas e se chamam &#8216;Marcos&#8217;: “Marcos é gay em <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Francisco_(Calif%C3%B3rnia)" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Francisco_(Calif%C3%B3rnia)" rel="ugc nofollow">São Francisco</a>, negro na <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81frica" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81frica" rel="ugc nofollow">África</a> do Sul, asiático na <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Europa" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Europa" rel="ugc nofollow">Europa</a>, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/San_Crist%C3%B3bal_de_las_Casas" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/San_Crist%C3%B3bal_de_las_Casas" rel="ugc nofollow">San Cristóbal</a> (…)” <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_zapatista" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_zapatista" rel="ugc nofollow">https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_zapatista</a></p>
<p><strong>[12]</strong> A entrevista inteira, enquanto ele formava uma barreira diante dos policiais, pode ser vista aqui: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=EvcLyhR7ZkE" href="https://www.youtube.com/watch?v=EvcLyhR7ZkE" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=EvcLyhR7ZkE</a></p>
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		<title>Sobre o dinheiro. 7</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 May 2024 07:18:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Não é o dinheiro que reifica — é o dinheiro que pode ser reificado. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>7</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se a linguagem, além de relatar, é um instrumento, então pode descrever o desconhecido e, a partir daí, alcançar o desconhecido. Nesta sua função a linguagem amplia o presente, desvendando o que ignorávamos, e como previsão e construção do futuro ela expande-se sem limites intrínsecos. O carácter ilimitado da linguagem permite-lhe servir como meio de reflexão sobre si mesma, abrindo necessariamente novos campos de intervenção. Nesta perspectiva, a invenção do divino é a mais surpreendente conquista da linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas como pode a linguagem reconhecer aquilo a que chegou, como pode saber se é uma ilusão ou a meta desejada e, se o for, como pode avaliá-la? Aqui saímos da linguagem, mas não completamente, porque só através da linguagem entendemos essa saída e o que dela resulta. O êxito ou o fracasso prático das alterações materiais operadas sob a orientação da linguagem servem para controlar a sua correcção ou incorrecção. A observação é a forma mais simples de controle das operações da linguagem; a observação comparada é o passo seguinte; depois, temos a experimentação científica.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das grandes inovações introduzidas por Galileo foi a conversão da observação comparada em experimentação, ou seja, uma observação provocada e verificada, com o objectivo de testar uma hipótese. Abandonou-se a especulação e iniciou-se a ciência quando deixou de se perguntar <em>porquê?</em> e passou a descrever-se <em>como</em> e a calcular-se <em>quanto</em>. A experimentação científica abriu assim uma nova via, a da razão instrumental, em que os conceitos já não são meramente descritivos e se tornaram operacionais. Foi então que o empírico mudou, e o que fora um empírico passivo converteu-se num empírico activo. E a linguagem, incluindo a matemática, é um factor determinante na organização da experimentação científica, desde a hipótese prévia até ao resultado final.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, os símbolos numéricos foram criados a partir das palavras numéricas, mas para desenvolver a linguagem dos números além das simples operações de contagem foi necessário inventar termos específicos e uma sintaxe específica que ultrapassassem a heterogeneidade das palavras para chegar à homogeneidade dos algarismos. Foi este o passo decisivo, e então a matemática quase se reduziu a uma sintaxe pura. Todas as distinções substanciais se dissolvem nos números, convertendo-se em meras diferenças do mesmo tipo.</p>
<p style="text-align: justify;">Será a matemática, porém, uma linguagem inteiramente convencional, como a linguagem das palavras? Se a linguagem genérica é o écran de todas as nossas sensações e percepções, sem que exista uma correspondência directa entre os conceitos e as coisas nem entre a sintaxe e o caos da realidade material, será que não existe também nenhuma correspondência para os sistemas de equações ou, pelo contrário, fundar-se-á a matemática em proporções existentes na natureza? Ao afirmar que o universo «está escrito em linguagem matemática», Galileo colocou o cientista acima do eclesiástico e a experimentação destronou a Bíblia. Talvez fosse isto, mais do que o movimento do nosso planeta, a incomodar os cardeais. Mas estará o universo escrito na linguagem da matemática ou é a linguagem da matemática que consegue decifrar o universo? Porém, se considerarmos as proporções expressas numericamente, muitas delas estruturam a natureza, embora só tivessem sido descobertas graças à prévia organização da linguagem matemática.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mais relevante que a questão seja, ela não diz directamente respeito ao tema deste ensaio e basta aqui considerar que o simples acto de contar implica uma passagem do qualitativo ao quantitativo, o que coloca o dinheiro na imediata sequência da linguagem matemática. Consoante os sistemas económicos e sociais, a utilização da contagem para finalidades especificamente pecuniárias pôde operar-se directamente no plano das relações sociais ou só indirectamente, mediante os mercados. Com efeito, tanto o acto de pesar como o uso do dinheiro implicam uma quantificação abstracta da realidade e, conjugados ambos os actos no mesmo quadro mental, a união do peso com o dinheiro consubstancia-se na mercadoria. Falar de mercado, porém, é tão insuficiente e pouco esclarecedor como falar de dinheiro, porque há e tem havido várias modalidades de mercado, como várias formas de dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, nas sociedades em que diferentes tipos de suporte pecuniário se inseriam em âmbitos distintos e circulavam em grupos sociais separados, e as unidades pecuniárias não eram divisíveis ou possuíam uma divisibilidade muito reduzida, a passagem da qualidade à quantidade não foi genérica. Basta evocar o caso de algumas ilhas da Melanésia, onde existiram línguas sem numerais universais aplicáveis a todos os objectos, usando designações numéricas diferentes para diferentes tipos de objectos. Isto significa que possuíam uma linguagem matemática, mas, se dispusessem de dinheiro, não se trataria de uma forma extensiva de dinheiro e apenas de diferentes modalidades pecuniárias, com esferas de circulação distintas e restritas.</p>
<p style="text-align: justify;">Na economia capitalista, porém, a elevada divisibilidade das unidades pecuniárias e o facto de os circuitos pecuniários se converterem reciprocamente e se integrarem num âmbito de circulação único, acrescido do facto de o suporte da função pecuniária se ter tornado irrelevante, fazem com que o dinheiro seja uma linguagem matemática aplicável genericamente a tudo e todos sem excepção. «A economia monetária impõe a necessidade de operações matemáticas contínuas nas nossas relações diárias», escreveu Georg Simmel em <em>The Philosophy of Money</em> (pág. 444), e acrescentou que «o ideal do cálculo numérico só se tornou possível na vida prática, e talvez mesmo na vida intelectual, através da economia monetária» (pág. 445). Aliás, se a linguagem não só reflecte a realidade, mas é ainda o utensílio na construção ideológica dessa realidade, então «a superestrutura das relações monetárias erguida sobre a realidade qualitativa determina muito mais radicalmente a imagem interior da realidade consoante as suas formas» (pág. 445).</p>
<p style="text-align: justify;">Relatos e projecções, controle do presente e antecipação do futuro, na nossa sociedade tudo isto se pode fazer — ou melhor, tudo isto é feito graças à linguagem pecuniária. A construção de uma realidade futura, ou a descoberta de uma realidade presente, embora ignorada, têm de ser demonstradas caso a caso, sem poderem ser previamente assumidas. Mas no capitalismo qualquer operação do dinheiro, enquanto linguagem matemática, pode ser presumida desde que corresponda a regras internas antecipadamente estabelecidas. «O dinheiro é a forma mais pura de instrumento», afirmou Simmel; «é uma instituição mediante a qual o indivíduo concentra a sua actividade e os seus bens para atingir objectivos que não conseguiria atingir directamente» (pág. 210). Adiante insistiu nesse carácter instrumental. «O dinheiro é a mais pura reificação dos meios, um instrumento concreto absolutamente idêntico ao seu conceito abstracto; ele é um puro instrumento» (pág. 211). E forneceu afinal a definição sintética. «O dinheiro é talvez a expressão e a demonstração mais cabal do facto de que o homem é um animal “fabricante de instrumentos”» (pág. 211). Por isso o dinheiro, enquanto instrumento, permite uma ampliação ilimitada no espaço (presente) e no tempo (futuro).</p>
<p style="text-align: justify;">O carácter instrumental do dinheiro tem implícito um incessante vai-e-vem, porque a emissão de símbolos pecuniários, como qualquer mensagem, requer um <em>feedback</em>. O dinheiro, no capitalismo, veicula uma acção sobre as instituições sociais e a observação dos resultados dessa acção, mas o que sucede às observações constantes do <em>feedback</em>? Em <em>The Human Usage of Human Beings</em>, Norbert Wiener explicou que «<em>feedback</em> é um método de controle de um sistema reinserindo-lhe os resultados do seu desempenho anterior» (pág. 61). Essa reinserção é a chave da questão, porque «é falsa a ideia de que, num mundo em mudança, a informação possa ser armazenada sem uma colossal depreciação do seu valor» (pág. 120). Ora, se no capitalismo os circuitos pecuniários servem para veicular lucros e alcançar mais lucros, não para provocar depreciações, então é indispensável que as observações transmitidas pelo <em>feedback</em> sirvam para corrigir o sistema das instituições económicas e lhe conferir uma forma nova, que se exprimirá numa nova emissão de símbolos pecuniários, gerando um novo <em>feedback</em> e novas correcções, e assim ininterruptamente. «A informação», resumiu Wiener, «é mais uma questão de processo do que de armazenamento» (pág. 121). Quanto maior for a capacidade de adaptação de um sistema institucional ao <em>feedback</em>, tanto mais uma linguagem será susceptível de evolução. E como no capitalismo o dinheiro, graças à circularidade dos seus percursos, se adapta aos sucessivos <em>feedbacks</em>, o carácter instrumental do dinheiro tem implícita a sua plasticidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta plasticidade é tanto mais fácil quanto o dinheiro no capitalismo se converteu numa linguagem de classificação genérica, permitindo, por um lado, que os saltos de qualidade sejam sempre dissimulados como mudanças de quantidade e, por outro lado, impondo-se como medida de avaliação única. Vivemos numa sociedade integralmente homogeneizada pelo dinheiro, o que não sucedera nos outros sistemas económicos. A colossal obra de Simmel é talvez o mais concentrado indício desta difusão do dinheiro, não só por tratar da questão muito mais no âmbito sociológico e psicológico, até artístico, do que propriamente na esfera económica, mas ainda por usar sistematicamente as analogias como método de demonstração e de prova, já que a totalidade dos fenómenos sociais e individuais está a tal ponto permeada pela rede do dinheiro que qualquer aspecto pode ser invocado para esclarecer qualquer outro. Logo no prefácio à segunda edição Simmel explicou que «o dinheiro é simplesmente um meio, um material ou um exemplo de apresentação das relações existentes entre os fenómenos mais superficiais, “realistas” e fortuitos e os mais idealizados poderes da existência, as correntes mais profundas da vida individual e da história» (pág. 55).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152168" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-12-300x162.jpg" alt="" width="560" height="302" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-12-300x162.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-12-768x414.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-12-780x420.jpg 780w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-12-640x345.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-12-681x367.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-12.jpg 930w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Agora, hoje, exactamente nos dias em que estou a escrever e o leitor me está a ler, se soltarmos um pouco a imaginação poderemos talvez conceber o que resultará da aplicação da inteligência artificial aos mecanismos financeiros, não só tornando instantâneo o vai-e-vem entre a mensagem e o <em>feedback</em>, mas igualmente difundindo por toda a sociedade as readaptações do sistema e fazendo-o de um modo que não dependa da prévia aceitação — daquilo a que, presos a ideias de outras épocas, ainda chamamos <em>vontade</em> — dos agentes financeiros. E se já esta situação talvez provoque vertigens, imaginemos então uma associação da inteligência artificial às criptomoedas. Como habitualmente, a ficção, desde que seja boa ficção, antecipa a realidade a tal ponto que parece que a realidade a imita a ela. Aliás, talvez seja esta uma das definições da boa ficção, adiantar o relógio da História. Houve quem pensasse em tudo isto mais de uma dezena de anos antes de a inteligência artificial ter atingido a sua actual celebridade de massas, por exemplo no <em>thriller</em> de Robert Harris, <em>The Fear Index</em> (Nova Iorque: Vintage, 2011), onde a linguagem pecuniária já não é só um instrumento, mas é o campo de acção de uma cibernética que se tornou maligna.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, como em qualquer linguagem estão simultaneamente activos vários centros emissores, há sempre mensagens sobrepostas ou contraditórias, com os respectivos <em>feedbacks</em> múltiplos, um grande mosaico variegado que implica a necessidade de proceder a selecções e adaptações diversas. Mas a absorção de toda a sociedade por um mesmo padrão de avaliação fica facilitada no capitalismo devido ao carácter genérico do dinheiro, em que o suporte material é indiferente, em que todos os percursos podem incluir-se num único circuito global e em que as clivagens de qualidade se dissolvem em gradações quantitativas. O dinheiro no capitalismo não é só um instrumento que permanentemente se remodela e afina, mas também leva essas transformações a toda a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, o facto de o dinheiro ter permeado os meandros mais recônditos levanta um novo problema ou, talvez melhor, ressuscita uma situação antiquíssima, porque o carácter instrumental do dinheiro, enquanto linguagem, pode ser desviado e cair numa forma de solipsismo, num círculo vicioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, no pensamento mágico a essência de uma coisa estava contida na palavra que a exprimia, o que explica que a actuação sobre a palavra fosse considerada como uma actuação sobre a coisa. Em <em>The Philosophy of Symbolic Forms</em>, Ernst Cassirer referiu «a crença na “substancialidade” da palavra, que domina todo o pensamento mítico» (vol. II, págs. 41-42 n. 13) e insistiu que «a magia de imagem e a magia de objecto nunca são claramente diferenciadas» (vol. II, pág. 42). A linguagem, sobretudo a palavra, não era uma simples representação de elementos reais, mas era tão presente como esses elementos, ou mais ainda, porque a palavra continha o espírito do elemento. Por isso a magia era estimada como o mais potente dos instrumentos. Sendo assim, «a visão mágica do mundo está completamente impregnada por esta crença na omnipotência da palavra e do nome» (vol. III, pág. 118). Não foram poucas as culturas em que as pessoas adoptavam nomes públicos e escondiam os seus nomes privados, um ardil para não caírem sob o domínio de feiticeiros. E esta noção perdurou, como nos mostra, por exemplo, a importância atribuída ao bafo que saía da boca dos reis carolíngios ao proferirem uma ordem ou uma sentença. O documento escrito era então considerado um simples acessório, para que as gerações posteriores recordassem o veredicto, mas só o sopro da voz dava validade à decisão do soberano, sucedendo o mesmo em escalões inferiores da sociedade, pois até os meros contratos requeriam naquela época o enunciado vocal.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez os traços do pensamento mágico tenham persistido mais ainda, porque é possível interpretar o fetichismo do dinheiro no capitalismo, tomando o dinheiro por aquilo que ele exprime, como uma forma retardatária de magia. Quando Cassirer escreveu que o pensamento mítico «não possui uma linha divisória fixa entre a mera “representação” e a percepção “real”, entre o desejo e a sua realização, entre a imagem e a coisa» (vol. II, pág. 36), ele podia estar a referir-se, exactamente nestes termos, a noções hoje frequentes sobre o dinheiro, tanto mais que afirmou em seguida que «mito e linguagem são inseparáveis e condicionam-se mutuamente» e sublinhou que «o pressuposto básico é que a palavra e o nome não têm simplesmente uma função de descrever ou retratar, mas contêm em si o objecto e os seus poderes reais» (vol. II, pág. 40). Nesta perspectiva, o fetichismo do dinheiro é uma forma desviada e reificada do carácter instrumental da linguagem. Supõe-se que, se o sistema pecuniário é um instrumento, então esse instrumento poderia desencadear resultados económicos imediatos para além da linguagem. Assim como no pensamento mágico as palavras se confundiam com as coisas, o fetichismo actual confunde o dinheiro com o próprio funcionamento das instituições económicas. Aliás, numa passagem da obra de Simmel que citei há pouco, quando ele escreveu que o dinheiro «é um puro instrumento», preveniu também que «o dinheiro é a mais pura reificação dos meios» (pág. 211). Não falta quem imagine que agir sobre a linguagem pecuniária seria, por si só, agir sobre o tecido das instituições económicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Atribuir ao dinheiro a responsabilidade pelas insuficiências e contradições da economia é uma forma comum de reificação, confundindo os problemas decorrentes das instituições com a linguagem em que esses problemas se exprimem. Ora, tal como sucede com toda a linguagem, o dinheiro genericamente considerado, e mais especificamente as operações efectuadas pelo dinheiro, têm uma função de expressão e uma função de indicação. Na sua capacidade de expressão, revelam uma situação e concebem uma acção sobre as instituições e as relações sociais que compõem essa situação. Na sua capacidade de indicação, assinalam as mudanças que a acção vai produzir ou já produziu. O dinheiro não é causa de movimentos económicos, é o quadro conceptual em que, através do <em>feedback</em>, esses movimentos são percebidos e realizados. Confundir a linguagem com o seu campo de actuação é reificar a linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">E ao virar de cada esquina deparo com um curioso jogo de espelhos. Como tudo o que ocorre nas instituições é reflectido e articulado pelo dinheiro, não escasseia quem escreva a história da economia como se fosse uma simples história dos movimentos pecuniários. Em vez de a linguagem servir para estudar a realidade que está além, vira-se para si mesma como objecto único.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso parece-me um esforço vão, o de esboçar qualquer teoria geral das crises económicas, porque elas não obedecem a um modelo genérico. Cada crise é específica, resultante de um conjunto de contradições directamente sociais, que de cada vez assumem formas diferentes. O único elemento genérico nas crises é o que decorre do facto de os instrumentos pecuniários perderem efeito porque a economia subjacente perdeu valor, adaptando-se a linguagem à realidade das instituições. O dinheiro, se exprime uma situação de crise, não é causa dessa situação nem ela pode ser superada no âmbito da linguagem pecuniária. Para me limitar a um exemplo, acima de um certo nível de rendimentos o desequilíbrio entre poupanças e investimentos — que tantos problemas gerou e tantas tentativas de resolução teórica suscitou ao longo do primeiro terço do século XX, até que Keynes propôs uma solução na sua célebre obra — resultava de um desequilíbrio entre rentistas e empresários e, ainda que se exprimisse através do dinheiro, não pôde ser solucionado no plano pecuniário, mas apenas no plano directamente social.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida que as políticas deliberadamente inflacionárias de alguns governos podem resultar, até certo ponto, de uma vontade de baixar os juros reais para beneficiar os devedores, quando esses governos são, e tencionam continuar a ser, grandes devedores. Porém, em casos extremos, quando os governos se vêem pressionados por dificuldades insuperáveis no plano institucional, a política inflacionária resulta de uma forma de fetichismo que consiste em imaginar que imprimindo papel-moeda estar-se-ia de algum modo a suscitar o aparecimento dos bens e serviços que esse dinheiro se destinaria idealmente a pagar. Assim, onde Milivoje Panić escreveu que «uma das principais consequências do agravamento das tendências inflacionistas foi o prático abandono das metas de pleno emprego e de crescimento económico que dominaram a política económica dos países industrializados após a segunda guerra mundial e foram prosseguidas com tanto êxito até ao início da década de 1970» («The Origin of Increasing Inflationary Tendencies in Contemporary Society», em Fred Hirsch e John H. Goldthorpe (orgs.) <em>The Political Economy of Inflation</em>, Londres: Martin Robertson, 1978, pág. 137), eu escreveria que «uma das principais consequências do prático abandono das metas de pleno emprego e de crescimento económico, que dominaram a política económica dos países industrializados após a segunda guerra mundial e foram prosseguidas com tanto êxito até ao início da década de 1970, foi o agravamento das tendências inflacionistas».</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, em sentido inverso, também é frequente supor que a depreciação monetária, a quebra de instituições bancárias ou um colapso nas bolsas teriam directamente provocado a contracção do sistema económico, quando nestes casos a linguagem pecuniária se limitara a adequar-se brutalmente às novas circunstâncias da economia, dando a prolixidade lugar à concisão. Estava nestes dias a reler um livro de Joseph Stiglitz (<em>Freefall</em>, Nova Iorque e Londres: Norton, 2010), que tinha lido pela primeira vez em 2011, e encontrei esta nota que eu escrevera na página de rosto: «A divisão em economia “real” e bancária é paradoxal, porque como explicar então que uma crise localizada no sistema bancário afecte a economia “real”? Que realidade é essa que é alterada pelo artificial? Ou não será que a crise, para ser real, veio da economia “real”?»</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152170" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-300x300.jpg" alt="" width="560" height="558" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-1024x1021.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-768x766.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-421x420.jpg 421w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-640x638.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14-681x679.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-14.jpg 1088w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Ao contrário do que tantas vezes ouço dizer, não é o dinheiro que reifica — é o dinheiro que pode ser reificado. Cassirer parecia estar a referir-se às ilusões de tantos anticapitalistas dos nossos dias quando escreveu que «toda a “magia de imagem” baseia-se no pressuposto de que na imagem o mágico não está a ocupar-se de uma imitação morta do objecto, mas que, pelo contrário, na imagem ele possui a essência, o espírito do objecto» (vol. III, pág. 69). Afinal, entre os que julgam que acumulando dinheiro acumulam capital e os que imaginam impedir a acumulação de capital erguendo obstáculos à acumulação de dinheiro pode haver uma grande diferença política, mas não existe nenhuma diferença mental.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma forma especialmente perversa de fetichismo do dinheiro é a noção, corrente entre uma certa esquerda, de que o dinheiro é uma milagrosa panaceia, que pode fazer-se tudo com ele, aumentar sistematicamente o déficit, prescindir sempre de limites à emissão pecuniária e outras medidas — ou desmedidas — do mesmo género. O único efeito desta noção é a anulação do dinheiro como veículo de informações e a destruição das suas funções como instrumento. As inevitáveis crises que se sucedem à aplicação despropositada daquelas medidas resultam do facto de os agentes económicos terem ficado cegos ou, pior ainda, disporem apenas de uma visão distorcida da realidade. O dinheiro deixa então de ser uma linguagem apta a revelar situações e planificar intervenções e adequar-se aos <em>feedbacks</em>, deixa de ser um instrumento que contribui para corrigir a realidade. O vocabulário e a sintaxe ficam transformados numa cacofonia, e o socialismo ideal realiza-se como capitalismo disfuncional.</p>
<p style="text-align: justify;">Haverá uma grande diferença entre a destruição a que essa esquerda procede da linguagem pecuniária e a destruição que opera na linguagem corrente? Em ambos os casos trata-se de fetichização, tanto do dinheiro como do vocabulário. Retiram-se os termos do contexto empírico em que haviam sido gerados e dá-se-lhes uma acepção supratemporal, que portanto os torna inúteis para cobrir as transformações da realidade. E sintaxicamente a articulação de conceitos e o seu choque recíproco, que dão vida à linguagem, convertem-se num mantra. Esta ossificação da linguagem impede-lhe qualquer carácter instrumental. A situação piorou com a nova versão do esquerdismo, o identitarismo, que elegeu o dicionário como lugar privilegiado das disputas políticas. Retirando às palavras a dimensão temporal, na medida em que lhes ignoram a etimologia, e recusando-lhes qualquer plasticidade actual, na medida em que pretendem impor definições restritas e unívocas dos campos semânticos, os identitários impedem o uso da linguagem como meio de comunicação amplo.</p>
<p style="text-align: justify;">A inserção de todos estes processos de reificação na tradição do multimilenário fetichismo mágico é mais um argumento em abono da tese que desde há muito eu defendo, que na evolução do pensamento de Marx a noção de <em>alienação</em> foi superada pela noção de <em>mais-valia</em>. Assim, se reificar implica despossuir algo ou alguém daquilo que lhe é imanente e, portanto, pressupõe a alienação, então a concepção de exploração implícita na mais-valia transpõe para o plano concreto e objectivo de uma crítica à economia, ou de uma economia crítica, a noção que na forma anterior de alienação oscilava entre os campos difusos da psicologia e da sociologia. Deve abandonar-se uma noção e substituí-la pela outra.</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor interessado pode encontrar aqui o <a href="https://passapalavra.info/2024/03/152021/" target="_blank" rel="noopener">primeiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152040/" target="_blank" rel="noopener">segundo capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152046/" target="_blank" rel="noopener">terceiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152049/" target="_blank" rel="noopener">quarto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/" target="_blank" rel="noopener">quinto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152057/" target="_blank" rel="noopener">sexto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152070/" target="_blank" rel="noopener">oitavo capítulo</a> e o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152075/" target="_blank" rel="noopener">nono capítulo</a>.</p>
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		<title>Comando local fura-greve</title>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2024 16:10:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[Não há um pingo de solidariedade entre professores, técnicos administrativos do ensino e alunos. Por um professor universitário]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Um professor universitário</h3>
<p style="text-align: justify;">Na instituição de ensino onde leciono foi aprovada a adesão à greve do ensino superior. Foi uma assembleia cheia e, por quase 60% de votos, os/as docentes presentes aprovaram a entrada da categoria na greve. Naturalmente, muitos colegas votaram contra a greve. Os argumentos, em geral, baseiam-se no já exposto e comentado anteriormente [ver <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152400/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>]. Alguns que votaram contra a greve aderiram ao movimento — reconhecendo a legitimidade da assembleia e da decisão coletiva. Outro grupo, no entanto, se mobilizou na constituição de um comando local fura-greve. Com postagens nas redes sociais, dão a entender que furar-greve é ato de resistência. Afinal, protegem o governo contra seus pares.</p>
<p style="text-align: justify;">A mobilização do grupo envolve uma pirueta retórica: &#8220;as coisas estão começando a melhorar agora. vocês que querem a greve nos jogarão novamente para um novo governo ao estilo Bolsonaro! Por que não houve greve nos últimos seis anos?&#8221; &#8220;Por que há greve se existe mesa de negociação? &#8220;Greve é o último dos instrumentos&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Há, no discurso, uma mistura: de um lado, um radicalismo retrospectivo e ilusório. De outro, um recuo drástico. A retórica melindrosa, no entanto, não esconde seu objetivo: a preocupação hoje, para esse grupo de professores, está em manter o tímido equilíbrio do governo Lula 03. &#8220;E quando Bolsonaro vier a público para falar que as universidades não entraram em greve durante seu governo?&#8221;. Essa pergunta serve para pacificar conflitos e impossibilitar reivindicações coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152770" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-300x231.jpg" alt="" width="560" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-300x231.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-1024x789.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-768x592.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-1536x1184.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-545x420.jpg 545w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-640x493.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a-681x525.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-1-a.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Fato é: muitos professores estão dispostos a furar greve e pacificar esse conflito. Professores universitários muito dificilmente se reconhecem como classe trabalhadora. Sentados no topo da pirâmide de poder universitária, é fácil compreender o reacionarismo que circula: não há um pingo de solidariedade entre professores, técnicos administrativos do ensino e alunos.</p>
<p style="text-align: justify;">A existência de tantos fura-greves não diz de um ato de resistência, em defesa da democracia, mas revela apenas a disposição de muitos professores em permanecer como um condomínio, isolados. Dessa maneira, podem seguir reproduzindo o seu ethos e seu status e protegendo o poder — pois, quiçá, com alguma esperança, pode sobrar alguma coisa para eles.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-152772" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Segal-3.jpg" alt="" width="100" height="117" />As ilustrações reproduzem esculturas de George Segal (1924-2000)</em>.</p>
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		<title>Pensando um movimento em movimento (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 May 2024 05:00:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Defendemos uma linha de ação que garanta a independência e fuja às performances midiáticas bancando o enfrentamento através de métodos que garantem algum poder aos trabalhadores – a interrupção do trabalho e a sabotagem à imagem da empresa.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Dois Camaradas</strong></h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>1 – Um mês depois…</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Retomamos o registro pouco mais de um mês depois do período em que o trecho acima foi encerrado. Desde então aconteceu um novo processo de luta na cidade que em nossa avaliação fecha o ciclo iniciado exatamente há um ano atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">Há alguns meses a empresa iniciou uma série de reuniões regionais com os trabalhadores que participaram daquela reunião nacional no final do ano passado. A intenção supostamente era seguir o processo de escuta das demandas dos trabalhadores para alinhar melhorias. Nessa cidade a reunião está marcada para o mês de maio. Antes disso um dos linha de frente mais atuantes e que tem a linha mais radical entre os membros da Equipe tem sua conta bloqueada. Depois de várias tentativas de desbloqueio via reuniões com a intermediária da empresa responsável pela cidade, fica evidente que se trata de perseguição política e que a conta não seria desbloqueada. A intermediária enrola bastante e por fim diz que o bloqueio é resultado de uma fraude financeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa manobra enfurece o coletivo, que vai assumindo a análise feita anteriormente pelos militantes de que o suposto espaço de diálogo criado pela empresa através da reunião nacional e dos contatos pessoais com lideranças eram canais de desmobilização da luta. Nesse contexto chegam notícias de outras cidades em que outros linha de frente e vários trabalhadores mais ou menos ativos estão sendo também bloqueados.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152704 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/15947437395f0ddbbb18164_1594743739_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/15947437395f0ddbbb18164_1594743739_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/15947437395f0ddbbb18164_1594743739_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/15947437395f0ddbbb18164_1594743739_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Começa-se a articular uma mobilização nacional expondo a farsa da iniciativa de diálogo da empresa e a ausência de resultados do que tinha sido acordado (os bloqueios indevidos eram o primeiro ponto do compromisso). Se articulam principalmente os contatos de cidades fora do eixo central do país que se aproximaram no último período de lutas quando a empresa começou a expandir o esquema de terceirizadas nas cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas dessa vez o ataque da empresa não afeta o conjunto da categoria, mas alguns trabalhadores politicamente ativos e uma porção sobrante que de costume a empresa bloqueia de tempos em tempos para equalizar seu esquema. Na articulação nacional algumas cidades logo percebem a dificuldade de mobilização devido a esse contexto e poucas insistem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta cidade, na semana da mobilização acontece uma reunião de planejamento bastante esvaziada. É evidente que a ação sairá um fiasco. O linha de frente que foi naquela primeira reunião da empresa, e que agora assume cada vez mais o papel de chefe na Equipe, preocupado em demonstrar à empresa sua capacidade de mobilização se articula com um empresário/político local que tem contato com um grupo com trabalho social na periferia da cidade e negocia a participação desse grupo para inflar a manifestação e garante apoio financeiro para bancar um almoço para atrair mais trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é um ato performático, porém esvaziado, de exibição pela cidade com a condução dessa figura no carro de som. A paralisação da circulação programada não acontece. O mesmo chefe conduz a sequencia do dia de modo a desmobilizar essa possibilidade focando na performance e transformando a ação em confraternização e espaço de construção eleitoral para o político. Já no final da ação uma outra equipe da cidade se retira da concentração e trava o local combinado anteriormente, cumprindo sozinho o objetivo inicial do dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma repercussão vinculando a ação a uma manifestação lulista e denunciando o vínculo do movimento a politiqueiros (na verdade o candidato que estava apoiando a manifestação era bolsonarista) vem logo no dia seguinte, gerando desconforto no coletivo e provocando um debate duro sobre os métodos válidos e os objetivos do grupo. Se durante o último ano vimos a Equipe se consolidar como grupo de luta, nessa última fase temos visto o pragmatismo se consolidar como linha política do grupo. Se antes esse elemento aparecia como uma tendência no refluxo, agora ela aparece como a posição assumida formalmente pelo coletivo. Devido ao cansaço com um método que supostamente não traz resultados efetivos e rápidos, seria necessário buscar barganhas no Estado e com sujeitos capazes de intervir em favor da categoria, sejam eles quem for. Será essa tendência definitiva?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2 – Sobre a nossa atuação enquanto militantes</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nossa intervenção militante no grupo parece ter chegado a um limite, ao menos por enquanto. Nos últimos embates intervimos tensionando a confiança que a maioria do grupo depositava na empresa e nos oportunistas que tem se aproximado do movimento e defendemos uma linha de ação que garanta a independência e fuja às performances midiáticas bancando o enfrentamento através de métodos que garantem algum poder aos trabalhadores – a interrupção do trabalho e a sabotagem à imagem da empresa. Tem ficado evidente nosso isolamento nessa posição junto com um único linha de frente decidido contra os rumos que as coisas tem tomado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se antes avaliávamos que a Equipe não tinha intenção em frear os processos de luta, nesse último episódio foi demonstrado o contrário. Não só a luta quase não aconteceu (exceto pela ação isolada de uma equipe local) como o balanço de nossa movimentação foi abafado pelo chefe com recursos de autoridade para isolar a posição crítica. Esse chefe se tornou um obstáculo, mas que talvez não seria de tão difícil superação se não refletisse o horizonte do vale tudo compartilhado e assumido mais decididamente agora pela maioria do grupo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152701 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Entregadores-avenida-do-contorno-jpeg.avif" alt="" width="1224" height="816" /></p>
<p style="text-align: justify;">Para refletir sobre os limites desse processo que envolvem elementos da nossa atuação militante, elementos externos e da dinâmica do grupo que contribuíram para que não fosse possível consolidar um polo combativo na categoria, levantamos algumas hipóteses:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Como elementos externos à categoria, principalmente em momentos de divergência não temos legitimidade em nossa intervenção. Se nos momentos de convergência somos considerados membros da Equipe tal como qualquer outro, quando assumimos uma posição que tensiona o pragmatismo, o grupo encara nossa fala como a de quem não entende a demanda real do trabalhador por não viver essa condição. Só temos “lugar de fala” se é pra concordar e operar. Faria diferença se tivéssemos a mesma posição mas fizéssemos parte da categoria?</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O grupo não conseguiu criar uma dinâmica de organização que incluísse pontos básicos como reuniões de planejamento para as ações em que pudéssemos discutir melhor nossas estratégias, pensar outras possibilidades além do que está consolidado no script dessa categoria e distribuir as tarefas para com isso engajar mais membros tornando-os mais ativos. Isso contribuiu muito pra que as demandas se centralizassem nos militantes, que ficaram numa posição de assessoria e em dois dos linhas de frente, entre eles o chefe, que ficou nessa posição ambígua de quem se dedica muito e faz as coisas como quer, alheio ao coletivo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Essa posição de assessoria faz com que a dinâmica do trabalho se recoloque internamente no coletivo. Ao ficarmos nessa posição operacional nos tornamos tarefeiros da equipe, com responsabilidade de produção de mídia, faixas, escritas, envio de e-mails, enfim, tudo que acabava sendo solicitado no calor do momento, surgido sempre com muita urgência, com pouca ou nenhuma articulação, e com cada vez menos discussão prévia. E é nessa articulação de “urgências” que o agora chefe da equipe também vai colocando seus interesses e tratorando os acordos coletivos. Por outro lado, um certo basismo dos militantes muitas vezes os levou a simplesmente serem eficientes e não tentarem alterar as dinâmicas de produção que se estabelecia internamente. Houve casos, no entanto, que as contradições dessa relação se mostraram mais claramente, com os militantes simplesmente se negando a realizar atividades que simplesmente surgiam da cabeça do chefe. Estaríamos diante de um caso curioso de greve de militantes?</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Não conseguimos travar debates mais amplos que pudessem contribuir na formação da posição do grupo. Alguns passos foram dados como em uma atividade que discutiu a experiência de um grupo de trabalhadores da mesma categoria em outro país, e ideias surgiram como a de montar um material que discutisse formas de organização como o federalismo e uma conversa sobre métodos históricos de cooptação com alguns convidados. Não conseguimos operacionalizar isso e pensamos que iniciativas nesse sentido talvez sejam essenciais para trazer elementos que permitam ao conjunto do grupo refletir com elementos que estão além do contexto imediato e particular. Quais foram, historicamente, as armadilhas da negociação?</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Não conseguimos conceber estratégias que aumentem o poder de antagonismo dessa categoria. Pela própria dinâmica do trabalho as condições para impor seus interesses é muito frágil, posto que é praticamente impossível uma interrupção total do trabalho que deixe a empresa nas mãos dos trabalhadores. Ações focadas em estabelecimentos importantes e que tem contato direto com a empresa tem se demonstrado efetivas, são um caminho a se investir. Mas ainda é insuficiente para por em cheque a capacidade da empresa em controlar a situação.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Se a Comissão, no primeiro momento, foi formada a partir de uma estrutura “federalista”, uma “união de equipes” (ou uma “Equipe de equipes”), o seu recuo trouxe uma outra forma organizativa na tentativa de se aproveitar o que restou da sua estrutura. A forma da “equipe de luta” então surge pra ocupar esse espaço. Passamos a investir muito nessa forma, nos reduzindo ao universo desta equipe. Se, por um lado é verdade que a “Equipe de luta” tem vários membros de outras equipes, também é verdade que aquela estrutura federalista não está mais presente. Nesse sentido, ao fortalecermos uma equipe em especial, deixamos de incentivar a generalização da forma, que pode ter um papel mais interessante a longo prazo (como já demonstrado através da formação da Comissão para o ato). No entanto, nos apegamos ao que se apresentava materialmente no momento, e a Comissão era uma forma que estava se esgotando. Será que ainda há espaço para aposta na forma daquela “Comissão de equipes”? Será que, ao contrário de uma estrutura sólida, a qualidade de uma “Comissão de equipes” não é justamente sua capacidade de existir e deixar de existir, a depender dos momentos que se apresentam? Há alguma forma de intervenção nessa direção?</p>
<p><em>A publicação deste artigo foi dividida em 3 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2024/04/152631/" target="_blank" rel="noopener">Parte 1</a><br />
Parte 2<br />
<a href="https://passapalavra.info/2024/05/152788/" target="_blank" rel="noopener">Parte 3</a></em></p>
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		<title>Sobre o dinheiro. 6</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Apr 2024 06:49:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Enquanto linguagem, o dinheiro é uma condição indispensável de articulações económicas e sociais, é um mediador e um instrumento. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>6</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Afirma-se com frequência nos estudos económicos que a função dos preços é a transmissão de informações. Ora, daqui até à noção dos preços como elementos de uma linguagem medeia um passo pequeníssimo, mas que raramente é dado, porque implicaria consequências porventura incómodas.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste ensaio limitei-me até agora a remeter para a definição do dinheiro enquanto linguagem, sem praticamente nunca a ter desenvolvido e desdobrado nas suas virtualidades, e se na quarta parte do manifesto <em>Sobre a esquerda e as esquerdas</em> (<a href="https://passapalavra.info/2014/05/93844/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) escrevi que «do estruturalismo linguístico podem extrair-se lições teóricas proveitosas para o estudo dos fenómenos pecuniários», não explicitei nenhuma dessas lições. Avancei um pouco no artigo <em>Capital fictício?</em> (<a href="https://passapalavra.info/2023/02/147372/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), quando considerei que «as articulações entre unidades mínimas de som e entre unidades mínimas de significado, critério indispensável para a definição de linguagem, são transpostas no dinheiro para a articulação entre unidades pecuniárias no interior de sistemas pecuniários». Porém, a partir daqui outros problemas surgem, porque não basta definir o dinheiro como linguagem. O movimento inverso torna-se também necessário e devemos partir do campo linguístico para reinterpretar o dinheiro. É o que tentarei em seguida, prosseguindo uma reflexão que, afinal, deixara só esboçada.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada um de nós nasce sem saber falar e, no entanto, a linguagem é-nos natural e distingue-nos. Homero caracterizou os seres humanos como aqueles que articulam a voz, o que inevitavelmente me lembra uma passagem do <em>Faust</em>. Li algures, não sei onde, que Gœthe, já bastante idoso, dissera que não lhe agradava reler aquela sua obra-prima, excepto na tradução de Gérard de Nerval. Então, vejamos essas linhas do drama transpostas pelo genial poeta francês. <em>«Il est écrit:</em> Au commencement était le verbe! <em>Ici, je m’arrête déjà! Qui me soutiendra plus loin? Il m’est impossible d’estimer assez ce mot,</em> le verbe! <em>il faut que je le traduise autrement, si l’esprit daigne m’éclairer. Il est écrit:</em> Au commencement était l’esprit! <em>Réfléchissons bien sur cette première ligne, et que la plume ne se hâte pas trop! Est-ce bien l’esprit qui crée et conserve tout? Il devrait y avoir:</em> Au commencement était la force! <em>Cependant, tout en écrivant ceci, quelque chose me dit que je ne dois pas m’arrêter à ce sens. L’esprit m’éclaire enfin! L’inspiration descend sur moi, et j’écris consolé:</em> Au commencement était l’action!<em>»</em>. (Quem não souber francês encontra esta passagem <a href="https://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/faustogoethe.pdf" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, na pág. 103 da tradução publicada por António Feliciano de Castilho em 1872 e que suscitou uma enorme polémica.) Passar do verbo, a palavra, para a acção, não é apenas a expressão concentrada do romantismo. É uma reflexão profunda sobre aquilo a que a linguagem se destina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas como se passa do verbo para a acção? A linguagem não nasceu como uma soma de palavras isoladas, resultantes de iniciativas individuais, que depois se foram organizando e articulando em conjuntos, progressivamente unificados. A linguagem é desde início social e gerada socialmente. Enquanto sistema convencional de signos convencionais, a linguagem não pode deixar de ser social, porque só a sociedade estabelece convenções, que pressupõem redes estáveis de relações entre indivíduos. Embora a sua utilização seja individual, a linguagem é estritamente social e, aliás, ela constitui a condição de articulação da estrutura social.</p>
<p style="text-align: justify;">A denominação, que é passiva, é um simples corolário desse carácter fundamentalmente social, que tem na frase a sua expressão originária. Na génese da linguagem não estão palavras isoladas, mas frases. O dicionário é um acessório da gramática. Depois de resumir os conhecimentos actuais sobre as origens fisiológicas da fala, Christopher Ehret observou que «por si só, a aptidão para emitir qualquer tipo de sons vocais não transforma a comunicação. A capacidade sintáxica é o complemento essencial» («Early Humans: Tools, Language, and Culture», em <em>The Cambridge World History</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2015, vol. I, pág. 345). A génese social da linguagem fê-la nascer como sintaxe. As palavras foram geradas em relação recíproca.</p>
<p style="text-align: justify;">Se consideramos a realidade material e social interligada numa estrutura unificada, isto deve-se ao facto de a própria linguagem consistir num sistema de inter-relações. Tal como Kant escreveu, «de todas as noções mentais, a da conjunção é a única que não pode ser dada pelos objectos, podendo ser gerada apenas pelo próprio sujeito» (<em>apud</em> Ernst Cassirer, <em>The Philosophy of Symbolic Forms</em>, 3 vols., New Haven e Londres, Yale University Press, 1955, 1957, vol. I, pág. 161). E Einstein afirmou o mesmo quando observou que «a ciência é a tentativa de fazer com que a caótica diversidade das nossas experiências sensoriais corresponda a um sistema de pensamento logicamente uniforme» (<em>apud</em> Bruce Gregory, <em>Inventing Reality</em>, Nova Iorque: Wiley, 1988, pág. 143). É a estrutura da linguagem que nos oferece a inspiração para a noção de combinação ou de uniformidade. A sintaxe é o modelo do universo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, como não é possível nenhuma percepção sensorial sem ser formulada em palavras nem nenhuma visão integrada que não esteja modelada pela sintaxe, a linguagem é sempre o filtro e o écran de todas sensações e percepções. Sem a linguagem, a realidade material seria um caos. Só vemos as coisas através das palavras que as designam, e quando descobrimos uma coisa ou a inventamos, atribuímos-lhe uma palavra. E as relações que estabelecemos entre as coisas são as relações imbuídas na sintaxe. A linguagem, no sentido corrente do termo, tem uma ilimitada capacidade expansiva. Ela cobre todo o universo, e o que lhe escapa tem o estatuto da <em>coisa em si</em> kantiana, ou seja, algo que para nós não existe. Quando as sucessivas correntes científicas foram desvendando a realidade que hoje conhecemos, não o poderiam fazer se para isso não tivessem inventado linguagens próprias. Em suma, a realidade que nós vemos, só através da linguagem a vemos. E como não se pode pensar sem a linguagem, então ela não é um objecto específico, mas uma forma geral. Um céptico, num momento de desalento, quando exclama que uma dada realidade não é senão a palavra que a designa, está a reconhecer a função da linguagem como écran, inelutável utensílio da nossa percepção e imaginação.</p>
<p style="text-align: justify;">O empirismo estrito é quimérico, porque diria apenas respeito a imagens, recebidas pelas sensações. Não é desse modo que nós pensamos, mas com conceitos representados por símbolos. A articulação entre imagens e símbolos corresponde à articulação entre a realidade material e a linguagem, ou seja, corresponde à noção que a linguagem nos oferece da realidade material. Ora, as palavras, enquanto elementos componentes da linguagem, abstraem as diferenças empíricas. Na parábola filosófica <em>Funes el memorioso</em>, Jorge Luis Borges contou a história de Funes, que «não só recordava cada folha de cada árvore de cada mata, mas também cada uma das vezes que a tinha visto ou imaginado». Funes «era quase incapaz de ter ideias gerais, platónicas. Não só lhe era difícil compreender que o símbolo genérico <em>cão</em> abrangesse tantos indivíduos díspares, de diversos tamanhos e diversa forma, mas incomodava-o o facto de que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e um quarto (visto de frente)». Esta vítima da singularidade da memória «era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso». E como é através das palavras que nós unificamos num quadro geral a realidade empírica diferenciada, Borges acrescentou, referindo-se a Funes, que «suspeito, no entanto, que não fosse muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No tumultuoso mundo de Funes havia apenas detalhes, quase imediatos». O vaivém da denominação é uma operação de abstracção.</p>
<p style="text-align: justify;">Convém aqui lembrar que Faust, que começara por escrever «o verbo», terminou escrevendo «a acção». Com efeito, a formação da linguagem não ocorreu consoante um percurso em sentido único, só das sensações para os símbolos, porque a linguagem serve, por seu turno, para planificar a acção prática, que modifica a realidade material, indo, portanto, dos símbolos para as sensações ou para aquilo que as suscita. A linguagem como relato é indissociável da linguagem como instrumento. Neste sentido, a linguagem é formadora do mundo, ela estabelece o quadro mental em que se define uma orientação para mudar o mundo. Uma invenção que altere a realidade subjacente é, antes de mais, a invenção de uma linguagem que se há-de materializar, e é através dessa linguagem que ela se irá materializar.</p>
<p style="text-align: justify;">Criação social, a linguagem é um instrumento que serve para executar as funções requeridas nas sociedades em que se desenvolve. Se as mãos e o cérebro estão intimamente ligados, então a linguagem é um utensílio de ambos. As mãos transformam em operacional uma linguagem que sem elas seria apenas conceitual. E de novo recordo <em>Funes el memorioso</em>, porque Funes, que não concebe as abstracções, é inerte e incapaz de actuar, «tinha-o derrubado um cavalo bravo na fazenda de São Francisco e ficara paralítico, sem esperança». E assim permaneceu Funes, «imóvel, de olhos fechados». Enquanto instrumento, a linguagem tem sempre de ser avaliada em função das operações a que se destina, por isso cada linguagem é uma expressão da sociedade que a criou e permanentemente a remodela.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152130" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-300x169.jpg" alt="" width="560" height="315" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-1.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />A acção que tem na linguagem o seu instrumento é uma acção em comum, não individual. O objectivo fundamental da linguagem não é o de denominar. A linguagem é um instrumento colectivo, destinado a combinar e planificar acções colectivas, projectadas no futuro. No capítulo que citei há pouco, Ehret escreveu que «a posse de uma linguagem plenamente sintáxica elevou a uma nova escala as capacidades de cooperação social» (pág. 346), e Colin Renfrew deu exemplos flagrantes quando mencionou os colossais monumentos megalíticos edificados por grupos humanos até então desprovidos de qualquer coordenação social conjunta, e que a partir daí começaram a cooperar em âmbitos mais abrangentes, incluindo na esfera económica. Nestes casos, «em vez de reflectirem uma ordem social pré-existente, contribuíram para o aparecimento dessa ordem» (<em>Prehistory</em>, Londres: The Folio Society, 2013, pág. 144). Ao invés do previsto no modelo marxista corrente, a superestrutura, em que esses monumentos megalíticos se incluiriam devido ao seu carácter religioso, teria determinado uma infra-estrutura económica. Ora, a linguagem constituíra ali o factor de articulação dominante, não só por ter permitido uma colaboração em vasta escala, mas ainda porque o carácter estritamente simbólico daqueles monumentos os insere também no âmbito da linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto instrumento de uma actividade prosseguida em comum, a linguagem necessariamente subordina o seu carácter descritivo à projecção de um futuro. Mas ela não se limita a constituir o quadro mental de uma previsão, pois é igualmente o quadro organizativo para realizar essa previsão. Por isso nasce como instrumento de relações planificadas no tempo. A sintaxe, por formas variadas consoante as línguas, é construída em torno de eixos temporais, o que significa que a linguagem é fundamentalmente activa. Aliás, é sugestivo que os gramáticos clássicos chineses chamassem aos verbos <em>palavras vivas</em>, por oposição aos substantivos, classificados como <em>palavras mortas</em>. Mas note-se que em muitas línguas, se não na maior parte, a distinção entre verbos e substantivos é fluida, e a noção do decurso temporal é dada de outras maneiras. O que importa aqui sublinhar é que a linguagem, enquanto sintaxe, e portanto enquanto instrumento, se projecta no tempo. Por este viés podemos entendê-la como quadro genérico das formas pecuniárias, que também existem para reproduzir acções no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de mais, a articulação dos fonemas, ou unidades mínimas de som, em palavras, consideradas como unidades mínimas de significado, e a articulação das palavras em conjuntos sintáxicos, capazes de conceber a realidade e de planificar acções colectivas, podem ser transpostas para o dinheiro como uma articulação entre suportes materiais, mentais ou virtuais na formação de um signo pecuniário, equivalente à combinação de fonemas numa palavra, e outra articulação entre os signos pecuniários, cuja conjugação numa função monetária equivale à combinação dinâmica das palavras na sintaxe.</p>
<p style="text-align: justify;">É curioso que na sua grande obra Georg Simmel se tivesse aproximado várias vezes da definição do dinheiro como linguagem, mas sem pronunciar a palavra. «A projecção de meras relações em objectos particulares é uma das grandes proezas da mente», considerou ele. «A capacidade de elaborar esses objectos simbólicos atinge o seu máximo expoente no dinheiro» (<em>The Philosophy of Money</em>, Londres e Nova Iorque: Routledge, 1990, pág. 129). O dinheiro é estritamente simbólico, pois «o que é essencial no dinheiro são as ideias nele incorporadas» (pág. 198), e assim, exprimindo relações, o dinheiro possui uma sintaxe própria. «O dinheiro é […] uma dessas ideias normativas que obedecem às normas que elas próprias representam» (pág. 122). Afinal, tal como qualquer linguagem, «o dinheiro, seja o que for que o represente, não tem uma função, mas é uma função» (pág. 169, sub. orig.). Só perto do final do livro Simmel afirmou, embora com restrições, que «em alguns aspectos, o dinheiro pode ser comparado à linguagem […]» (pág. 470).</p>
<p style="text-align: justify;">Providos de uma função, os circuitos pecuniários podem tornar-se cada vez mais complexos e as suas regras não são menos organizativas nem menos exactas do que as da sintaxe. Todavia, se a nossa linguagem não se converte directamente nos resultados da nossa acção, embora sem ela esses resultados não ocorressem, o mesmo sucede com a linguagem pecuniária na vida económica. Enquanto linguagem, o dinheiro é uma condição indispensável de articulações económicas e sociais, é um mediador e um instrumento, que não só <em>exprime</em>, mas também <em>serve para</em>. Trata-se de uma linguagem que permite verificar e corrigir o jogo económico das instituições sociais, e recordarei no último capítulo deste ensaio que ao mesmo tempo o dinheiro permite também dissimular as contradições da economia.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o dinheiro varia consoante as sociedades, e cada estrutura social, para se articular, requer uma dada forma de dinheiro. Se, como Norbert Wiener escreveu, «a sociedade só pode ser compreendida através de um estudo das mensagens e dos recursos de comunicação que lhe correspondem» (<em>The Human Usage of Human Beings</em>, s. l.: Da Capo, 1988, pág. 16), não é então o dinheiro um veículo de mensagens e um articulador de comunicações? Nos diferentes sistemas económicos e sociais pré-capitalistas a função articuladora do dinheiro pôde operar-se tanto mediante o mercado como directamente no plano estrito das relações sociais. É pela sua função que o dinheiro genericamente se define, e não pelo lugar que ocupa nem pelo âmbito da sua circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Do mesmo modo, se compararmos as várias sociedades pré-capitalistas verificamos que a existência de dinheiro não decorria de qualquer tipo peculiar de suporte material, e o dinheiro tanto podia apoiar-se em bens de luxo ou de uso corrente, os quais eventualmente transitavam entre a função pecuniária e outras funções, como podia apoiar-se em formas intencionalmente degeneradas desses bens que, portanto, começavam assim a assumir uma especificidade pecuniária, ou podia ainda apoiar-se em formas estritamente simbólicas e desde início destinadas à função de dinheiro. O dinheiro podia até prescindir de qualquer suporte material, como sucedia com o seu uso na contabilidade. Aliás, em algumas sociedades talvez o dinheiro contabilístico fosse a modalidade originária, porque as primeiras formas de escrita nasceram com a função de registos de contabilidade. Os Incas foram um caso extremo porque, desprovidos de escrita, tinham nos <em>quipus</em> um sistema complexo de registo exclusivamente numérico.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, se não confundirmos o dinheiro com o lugar e o âmbito da sua circulação nem com o seu suporte, podemos proceder ao estudo integrado das formas pecuniárias em diferentes sistemas económicos e compreendemos que não é pelo facto de um dado sistema desaparecer que o dinheiro deixa de vigorar. Apenas muda de funções, e eventualmente adquire outra fisionomia e novos suportes ou se desloca para outros âmbitos de circulação. Para procedermos ao estudo comparativo da diversidade de funções do dinheiro nos vários sistemas económico-sociais basta o uso conjugado de dois critérios — os circuitos e os suportes.</p>
<p style="text-align: justify;">Do mesmo modo que a linguagem esteve e está presente em todas as sociedades, que sem ela não podiam nem podem articular-se, também o dinheiro não pressupõe nem implica um sistema único. As palavras e a sintaxe mudam e as suas representações do mundo alteram-se tanto como o mundo se altera, tal como mudam os suportes monetários e os percursos e o escopo da sua circulação e mudam as formas como o dinheiro exerce as funções de articulador. Mas, se assim é, por que houve sociedades sem dinheiro, se não as houve nunca sem linguagem? Ou será que faltam conhecimentos aos antropólogos em vez de faltar dinheiro a algumas sociedades? Os sistemas de troca de dons exigem necessariamente critérios de avaliação, ainda que rudimentares, e desde que haja armazenamento de bens, nomeadamente de cereais, tem de haver registos. Ora, ambas estas situações implicam a existência de unidades de contagem.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152134" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-300x150.jpg" alt="" width="560" height="280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-1024x512.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-1536x768.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4-681x341.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-A-4.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No ponto de fuga daquela perspectiva histórica que elege a antropologia como ponto de vista, há quem pretenda que numa futura sociedade ideal os bens e serviços necessários seriam produzidos em quantidade suficiente e sem dilações, de modo que cada indivíduo teria de imediato acesso a tudo o que precisasse e, portanto, o dinheiro seria inútil. Mesmo reduzindo arbitrariamente o dinheiro à mera função de repartir a escassez, a falácia aqui consiste em imaginar que as necessidades individuais ou sociais possam ser estabelecidas definitivamente <em>a priori</em>, quando, pelo contrário, a efectivação das necessidades se desdobra sempre em novos anseios, ocorrendo uma ininterrupta imaginação e realização no tempo. O que nos distingue das formigas ou das abelhas ou de quaisquer outros animais é a existência de uma História, e a História não é mais do que a construção de novas necessidades a partir de necessidades já efectivadas. Enquanto linguagem projectada no tempo, o dinheiro não se torna desnecessário.</p>
<p style="text-align: justify;">Considerado o dinheiro nesta perspectiva, como linguagem e na multiplicidade das suas formas, o que há de novo no capitalismo não é a relação obrigatória entre os mercados e o dinheiro — num só sentido, porque a relação não é obrigatória entre o dinheiro e os mercados. É que o dinheiro, incluindo o denominado quase-dinheiro, embora se diferencie em modalidades cada vez mais amplas, classificadas tecnicamente de M<sup>1</sup> a M<sup>5</sup> e distinguíveis pela maior ou menor facilidade com que se convertem umas nas outras ou em bens e serviços, move-se num circuito único ou, se cada modalidade obedecer a circuitos distintos, estes inserem-se num circuito genérico, abarcando toda a população e todos os estratos sociais. Essa possibilidade de todas as formas pecuniárias poderem ser expressas na forma mais ampla e em última instância se inserirem numa esfera de circulação única é uma marca distintiva do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos sistemas pré-capitalistas um tipo de dinheiro baseado num dado tipo de suporte não circulava num circuito onde outro tipo de suporte sustentava outro tipo de dinheiro. Mas no capitalismo o dinheiro levou a um grau sem precedentes a independência relativamente ao seu suporte. Embora certos suportes possam ser excluídos de alguns circuitos pecuniários, como todos os circuitos se unificam num circuito único, na sua dimensão mais ampla prevalece a independência do dinheiro relativamente ao suporte, que pode ser apenas fiduciário, como sucede com as notas de banco, tornando-se até cada vez mais comuns os casos em que o dinheiro prescinde de qualquer suporte material não só mediante a renovação de antigas formas de dinheiro contabilístico, mas também mediante o recurso a processos electrónicos, desde os desencadeados pela colocação de cartões magnéticos em máquinas especiais até às criptomoedas. Aliás, a emissão e circulação de criptomoedas levanta problemas novos, que seria conveniente analisar num capítulo próprio, mas não possuo os conhecimentos técnicos necessários para discorrer com segurança sobre o assunto. Uma vez mais este ensaio parece uma <em>Via Crucis</em> de lacunas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é sem ironia que podemos ler hoje o que Simmel escreveu há mais de um século acerca dos suportes da função pecuniária que, na sua opinião, embora tendessem a tornar-se independentes do respectivo valor, nunca conseguiriam atingir tal objectivo. Simmel reconhecia que «mesmo o objecto mais útil tem de prescindir da sua utilidade para funcionar como dinheiro» (pág. 152), mas considerava que essa renúncia seria, por si mesma, uma fonte de valor, que ele entendia numa acepção estritamente psicológica. «É sem dúvida exacto que os outros valores da substância da moeda têm de ser rejeitados para que essa substância se converta em dinheiro; mas o valor que o dinheiro possui, e lhe permite desempenhar a sua função, pode ser determinado por aqueles outros usos possíveis que têm de ser dispensados. […] Em vez de a renúncia aos outros usos reduzir o valor do metal empregue para dinheiro ao de um material praticamente irrelevante, esses usos não efectivados do material contribuem em grande medida para o valor do dinheiro» (pág. 155). Além deste factor psicológico, haveria ainda um obstáculo institucional, porque «embora, em princípio, a função de troca que cabe ao dinheiro possa ser cumprida por dinheiro meramente simbólico, nenhuma potência humana é capaz de proporcionar suficientes garantias que impeçam usos impróprios» (pág. 159). Em suma, «o dinheiro não pode dispensar um resíduo de valor material […]» (pág. 158). E assim «não é viável tecnicamente executar o que é conceptualmente correcto, ou seja, transformar a função monetária num dinheiro puramente simbólico e separá-la completamente de qualquer valor substancial que limite a quantidade de dinheiro, ainda que o progresso real do dinheiro leve a crer que seja este o resultado final» (pág. 165). Mais adiante, depois de recordar vários casos de depreciação de materiais usados como suporte pecuniário, Simmel considerou que «a continuação desta tendência parece pressupor como seu objectivo a completa eliminação da base material do dinheiro». Mas, tal como na caminhada de São Cristóvão, o horizonte sempre fugia, porque «ainda que um dinheiro sem valor intrínseco possa ser o melhor meio de troca numa ordem social ideal, até lá chegarmos a forma mais satisfatória de dinheiro deve ser a que está vinculada a uma substância material. Esta situação não pressupõe qualquer desvio da tendência persistente no sentido da transformação do dinheiro num representante puramente simbólico da sua função essencial» (pág. 191). A segunda edição da obra data de 1907, e afinal os obstáculos que, na opinião de Simmel, impediriam que o dinheiro se reduzisse completamente a uma forma simbólica em nada estorvaram essa inelutável evolução.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, já num ensaio de 1752 David Hume escrevera que «o dinheiro não é, a bem dizer, um dos objectos do comércio, mas só o instrumento, com que os homens se puseram de acordo para facilitar a troca de uma mercadoria por outra. Não é uma das rodas do negócio; é o lubrificante que torna o movimento das rodas mais suave e cómodo» («Of Money», em A. A. Walters (org.) <em>Money and Banking</em>, Harmondsworth: Penguin, 1973, pág. 25). E insistiu. «É, com efeito, evidente que o dinheiro não é senão a representação do trabalho e das mercadorias, e serve apenas como meio de as classificar ou avaliar» (pág. 28). Mas, infelizmente, o que há quase trezentos anos parecia evidente para o notável filósofo ainda hoje não o é para muita gente.</p>
<p style="text-align: justify;">O valor atribuído ao dinheiro no capitalismo nunca decorreu de qualquer material, mas apenas do facto de a sociedade o aceitar, tal como as palavras não precisam de ser escritas em pedra para ser aceites por todos os que as ouvem. Aliás, numa perspectiva histórica, a evolução dos suportes pecuniários no capitalismo mostra que o valor intrínseco das cunhagens do ouro e da prata ou das emissões convertíveis a estes metais era meramente psicológico, uma concessão a um fetiche tranquilizador. Foi a criação de sociedades por acções e de bolsas de valores e a emissão bancária de dinheiro, e não a detenção de minas de metais preciosos, que assegurou a prosperidade dos países onde se gerou o capitalismo moderno. É certo que a renovação do sistema bancário e financeiro antecedeu o primeiro surto do capitalismo industrial, mas isto significa que a nova economia necessitava de uma linguagem prévia que a concebesse e articulasse. O único efeito do uso de metal precioso como suporte pecuniário era o de contribuir para limitar o volume da emissão de dinheiro em função da capacidade de extracção das minas, o que equivalia a um mecanismo anti-inflacionário. Quando o aumento da produtividade e a ampliação dos mercados exigiu a flexibilidade dos suportes pecuniários, os requisitos de reservas metálicas nos bancos emissores de notas foram progressivamente diminuindo, até que por fim as moedas de ouro e de prata acabaram nos museus. Só assim se conseguiu a expansão pecuniária indispensável ao desenvolvimento económico. Em suma, o que quer que a quase totalidade das pessoas daquela época pensasse — e o que quer que pensem hoje todos os que se mantêm presos a concepções antiquadas — o valor atribuído às moedas de ouro ou prata não resultava do suporte, mas era, como continua a ser, estritamente simbólico, dependendo de uma convenção estabelecida na sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta perspectiva, a fatalidade de John Law foi ter tentado aplicar o novo modelo bancário e financeiro, incluindo o papel-moeda, num país como a França daquela época, com instituições políticas disfuncionais e uma economia de base agrícola que, portanto, estava condenada a uma taxa de crescimento muito lenta. Meio século depois, Francisco Cabarrús foi vítima do mesmo dilema em Espanha. A linguagem articuladora da nova economia só podia aplicar-se aos gérmenes dessa nova economia, e não a restos moribundos do sistema pré-capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Posta assim a questão, os critérios da linguagem permitir-me-ão em seguida analisar melhor tanto a função instrumental do dinheiro (capítulo 7) e a sua projecção no tempo (capítulo 8) como o seu carácter dissimulador (capítulo 9).</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor interessado pode encontrar aqui o <a href="https://passapalavra.info/2024/03/152021/" target="_blank" rel="noopener">primeiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152040/" target="_blank" rel="noopener">segundo capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152046/" target="_blank" rel="noopener">terceiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152049/" target="_blank" rel="noopener">quarto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/" target="_blank" rel="noopener">quinto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152066/" target="_blank" rel="noopener">sétimo capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152070/" target="_blank" rel="noopener">oitavo capítulo</a> e o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152075/" target="_blank" rel="noopener">nono capítulo</a>.</p>
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		<title>O 25 de Abril está morto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Apr 2024 19:48:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Migrantes]]></category>
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		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Aceitar a derrota quando ela de fato ocorre é o mínimo que deve fazer um revolucionário. A crença em uma falsa vitória é sempre pior que uma derrota assimilada conscientemente. Por Dois imigrantes em Portugal]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Dois imigrantes em Portugal</strong></h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">O 25 de Abril está morto. Isto é o que pudemos constatar em poucos meses de vida e trabalho em Portugal. Isto é o que pudemos constatar em nosso primeiro “feriado” comemorativo desta data, que o 25 de Abril está morto. Afirmamos isso ao não notarmos sequer sombra do ímpeto contestatório do Processo Revolucionário em Curso (PREC) de outrora, entre os trabalhadores. A partir de nossas experiências imediatas e daquilo que acompanhamos da vida política recente em Portugal, não de um estudo sociológico, o que vemos é a total apatia dos trabalhadores, concomitantemente a uma ascensão considerável da extrema-direita fascistizada e da xenofobia, capitaneada eleitoralmente pelo Chega. Em nossos trabalhos, o que vemos são trabalhadores rindo dos colegas humilhados por seus chefes e gerentes, regozijando-se quando é o outro que teve seu salário descontado por um “pedido errado” ou uma taça quebrada. Uma total ausência de solidariedade e consciência de classe, mesmo que totalmente prática. Uma colega brasileira, fodida como todos nós, chegou a reclamar que o filho tinha que fazer um trabalho sobre o 25 de Abril, “aquela merda de revolução dos esquerdistas”. A mesma disse que sua maior contradição era gostar de Raul Seixas e Paulo Coelho, pois ela era de direita e ambos “eram comunistas”. Outro colega, português e tão fodido como nós, afirmou que o problema do 25 de Abril era “não ter matado todos os comunistas”. Enquanto isso os patrões podem dormir sossegados. Poderia o 25 de abril não estar morto?</p>
<p style="text-align: justify;">Os patrões jogam ainda com a questão dos contratos de trabalho, pois sabem que os setores como a Restauração (restaurantes, cafés, bares, etc.) e a Construção Civil são a porta de entrada para o trabalho de milhares de imigrantes em busca de trabalho. Ter um contrato de trabalho é condição primordial para tentar uma permanência legalizada no país, por meio das chamadas Manifestações de Interesse. Prometem-se contratos que nunca chegam e, quando chegam, são totalmente inferiores ao que de fato se trabalha, pagando-se “por fora” o restante de horas trabalhadas, o que é muitas vezes muito mais do que o número de horas previstas no contrato. Jornadas de 12 horas são comuns, pois “quanto mais você trabalhar, mais você irá ganhar”, dizem os patrões. Assim como toda a sonegação de impostos realizada com burlas diárias, chegamos a ouvir que “afinal, não estamos aqui a trabalhar para eles [o Estado], não é mesmo?! Prefiro pagá-los por fora do que dar dinheiro a eles!”. Um de nós chegou mesmo a ouvir do proprietário de um bar: “isto aqui é uma família!”. Certos setores econômicos de Portugal se encontram no futuro do pretérito, reproduzindo de forma modernizada relações trabalhistas que há muito já deveriam ter desaparecido, mesmo no capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Portugal vive ainda uma brutal crise habitacional, com aluguéis atingindo patamares sem antecendentes nas últimas décadas. Centenas de trabalhadores dividem apartamentos superlotados, alugando quartos individuais quando muito. Para se alugar um apartamento de 1 quarto, fora dos grandes centros, paga-se quase 1000 euros mensalmente. Mas, para conseguir esse “privilégio” de alugar uma moradia só para a sua família, pede-se de 4 a 6 meses de adiantamento, entre aluguéis e cauções, além de fiador em muitos casos. Isto pode representar um mínimo de 3500 euros só para conseguir começar a morar com um mínimo de decência. Fora a xenofobia. Não vamos gastar o tempo do leitor com longas descrições de situações vividas, mas sim, ela existe. No trabalho, no banco, no mercado, nas ruas, em todo lugar e em diversos níveis, do mais sútil ao mais grosseiro e violento. Aonde vive o 25 de Abril?</p>
<p style="text-align: justify;">Acordamos hoje para trabalhar no feriado (um de nós apenas, pois o outro quase partiu para a ação direta contra um gerente histérico ontem e pediu demissão), assistindo a cobertura do 25 de Abril nos jornais locais. O que vimos foi um “7 de Setembro à portuguesa”, com paradas militares celebrando a hierarquia na corporação e diante dos Chefes de Estado. A declaração do presidente português, que repercutiu pelos maiores jornais do mundo, que afirmou a “dívida histórica” e o “dever de reparação financeira” dos “povos escravizados”, demonstra que a luta anticolonial dos revolucionários de outrora também foi totalmente recuperada, apropriada pelo programa fascistoide “decolonialista” e identitário, hoje hegemônico na esquerda. Não sobra nada. Nas ruas, o que vimos foram apresentações escolares, cravos de papel sendo distribuídos e comemorações vazias. E turistas, muitos turistas circulando e consumindo, conforme já aguardavam os patrões da Restauração. Ontem não havia o menor “espírito” do 25 de Abril nas ruas, e amanhã já não haverá vestígios novamente. Transformando-se em uma “data cívica” como outra qualquer, o 25 de Abril morreu.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, não foi uma vitória para a Democracia, o 25 de Abril? Para aqueles que vendem sua força de trabalho, que insistimos em chamar de proletários, com certeza foi uma vitória a derrubada do fascismo salazarista. Sob o porrete fascista é muito mais difícil para a classe se organizar politicamente. Enfim, Portugal se tornou uma grande Democracia, de fato. Isto significa que instaurou-se um regime político mais adequado ao imperativo da mais-valia relativa, especialmente após o estabelecimento da União Europeia, que retirou Portugal do ostracismo econômico de 5 décadas de fascismo. No entanto, como toda Democracia surgida da derrocada de regimes totalitários, graças à luta de milhares de trabalhadores, trata-se de um regime inerente à dominação capitalista (burguesa e gestorial) de classe. Politicamente, as Democracias são de fato ambientes um pouco mais abertos à organização política. Mas, não nos emocionemos muito com isso, pois sabemos o que acontece com iniciativas que se ponham a questionar a ordem dominante, no “Estado Democrático de Direito”. Neste sentido, que é hoje o mais importante por ser aquele que constitui o real processo em curso, enquanto os democratas e muitos conservadores comemoram a “vitória da liberdade” conquistada pelo 25 de Abril, para os trabalhadores (de fato, independentemente, dos matizes ideológicos), assim como para as debilitadas forças sociais anticapitalistas, significa hoje uma grande derrota, pois foi completamente fagocitado pelo Estado e suas instituições.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata de uma reflexão ressentida ou derrotista. Aceitar a derrota quando ela realmente ocorre é o mínimo que deve fazer um revolucionário. A crença em uma falsa vitória é sempre pior que uma derrota assimilada conscientemente. Não temos “esperança”, um instrumento dos idealistas. Temos a certeza racional de que, enquanto o capitalismo existir, as contradições que lhe são inerentes podem eclodir em novas lutas e novas formas de organização da classe. Se isto ocorrer novamente em Portugal (não apenas), e é o que desejamos que aconteça, poderemos dizer que o 25 de Abril está vivo novamente.</p>
</div>
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		<title>Sobre o dinheiro. 5</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Apr 2024 06:54:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A aplicação ao dinheiro da perspectiva da linguagem permite uma compreensão lúcida dos processos revolucionários no capitalismo. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>5</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em 2 de Fevereiro de 2009, mal o <em>Passa Palavra</em> acabara de ser fundado, publiquei o artigo <em>Perspectivas do capitalismo na actual crise económica</em> (<a href="https://passapalavra.info/2009/02/119/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), onde insisti no que me parece ser a principal contradição por detrás da crise de 2007 e 2008, a impossibilidade de organizar e supervisionar no âmbito de instituições nacionais um capitalismo que se havia tornado transnacional. «Ao contrário do que é comum afirmar, não creio que a actual crise tivesse sido precipitada pelo carácter demasiado ousado dos instrumentos financeiros mas, em vez disso, pelo carácter demasiado arcaico a que se têm circunscrito as instituições oficiais. Ficou patente a inadequação dos organismos de base nacional perante uma actividade económica transnacional». Nestas circunstâncias, quando a generalidade da esquerda, marxista e não marxista, punha em causa a criação ou a difusão de novas formas pecuniárias, eu adoptei uma perspectiva oposta. «Uma economia em que as nações e os respectivos governos perderam a primazia e em que as companhias transnacionais tendem a assumir a forma de uma rede de pólos interligados e com perfil mutável não pode depender de moedas nacionais». Foi este, aliás, o alvo da minha crítica ao neoliberalismo, pois «a admissão de que a macroeconomia não consiste numa mera soma de microeconomias constitui uma renúncia a um dos postulados fundamentais do neoliberalismo».</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a propósito de uma crise que todos insistiam em considerar sobretudo financeira, eu pouco adiantei na análise do dinheiro, excepto quando prossegui na crítica às noções de <em>capital especulativo</em> e <em>capital fictício</em>. «Fala-se muito de “capital especulativo”, mas não existem capitais úteis e capitais inúteis, pois a função do crédito é agilizar a produção. Em vez de ter inaugurado uma “economia de casino”, a banca adaptou-se às necessidades do sistema produtivo actual». Foi este tipo de observações que me permitiu tomar plenamente consciência do carácter do dinheiro enquanto linguagem, mas o tema nem sequer foi evocado no artigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um ano e meio depois, regressei a esse conjunto de questões com uma análise mais ambiciosa no longo ensaio <em>Ainda acerca da crise económica</em>, publicado no <em>Passa Palavra</em> entre 26 de Agosto e 14 de Outubro de 2010, e na quinta parte, «Transnacionalização e espaços nacionais» (<a href="https://passapalavra.info/2010/09/28317/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), dei o passo decisivo que até então me tinha iludido. Comecei por considerar que «o dinheiro é um instrumento técnico antiquíssimo, que não tem nenhuma relação exclusiva com qualquer modo de produção ou sequer com os sistemas de exploração», e excluí-me, portanto, da habitual cartilha do marxismo vulgar. Pude assim, assente numa base histórica sólida, definir em traços gerais a especificidade do dinheiro no capitalismo, insistindo na sua função homogeneizadora, que associei ao tipo de racionalismo de matriz jacobina. «O capitalismo adoptou uma das modalidades de dinheiro antes existentes e levou-a até limites nunca vistos, fazendo com que ela ou, mais tarde, diversas formas pecuniárias interligadas e reciprocamente convertíveis permeassem todos os níveis da sociedade e executassem todas as funções, o que nunca sucedera. O dinheiro, tal como o capitalismo o transformou e desenvolveu, tem como característica principal tornar homogéneo o que é diversificado. O racionalismo extremo, com o seu corolário, a redução das distinções de qualidade a diferenças de quantidade, são o quadro filosófico necessário a uma sociedade permeada por essa forma de dinheiro». Creio que não poderia ser mais sintético.</p>
<p style="text-align: justify;">Continuando a referir-me ao tipo de dinheiro específico do capitalismo, afirmei que no âmbito social ele homogeneíza no mercado todos os intervenientes, qualquer que seja a sua classe ou o seu estatuto. Além disso, «o dinheiro torna operativa a mobilidade social, ascendente ou descendente, sem a qual não se efectiva a permanente instabilidade do capitalismo». No âmbito geográfico o dinheiro homogeneíza igualmente os espaços, cada vez mais complexos dada a «coexistência dos espaços nacionais e das companhias transnacionais», e insere-os a todos num padrão comum. Nas circunstâncias da época, porém, e sobretudo dada a forma como eclodiu a crise de 2007 e 2008, assumia um especial relevo outra esfera de acção das modalidades pecuniárias especificamente capitalistas. «O dinheiro cumpre ainda uma terceira função homogeneizadora, lançando uma ponte entre o passado, o presente e o futuro. É o sistema bancário que opera essa ponte, e o resultado é a taxa de juro. A taxa de juro é uma previsão de crescimento, e quanto mais estreita for a relação entre a actividade económica num momento e a actividade futura tanto mais o dinheiro deverá cumprir funções de crédito». E como estes diferentes âmbitos se confundem numa economia integrada, o dinheiro encontra aí a sua suprema função homogeneizadora. «Tudo isto só é redutível a um conjunto operativo graças ao dinheiro e exige modalidades fiduciárias inovadoras e diversificadas. Daí o advento de novos tipos de bancos, capazes de actuar no âmbito transnacional e entre os quais não há lugar para delimitações consoante as especialidades, porque elas se imbricam reciprocamente».</p>
<p style="text-align: justify;">Foi no contexto desta função homogeneizadora que pela primeira vez evoquei de maneira explícita a definição do dinheiro como linguagem. «Tem competido ao dinheiro a função de homogeneizar aquilo que o capitalismo divide. Não é por acaso que alguns autores comparam as operações do dinheiro às operações da linguagem. Em vez da definição clássica de uma das funções do dinheiro como repositório de valor, devíamos defini-lo como repositório de informação». Depois de tantos anos a iludir o problema, não podia agora ter sido mais claro.</p>
<p style="text-align: justify;">Esperar-se-ia talvez que de então em diante eu desenvolvesse com afinco as virtualidades daquela noção do dinheiro como linguagem. Mas foi o contrário que sucedeu. Várias vezes, em artigos e ensaios publicados no <em>Passa Palavra</em>, tive oportunidade de tratar não só temas económicos, mas especificamente a questão do dinheiro, sem que, no entanto, me ocupasse do seu carácter de linguagem. Nomeadamente na primeira parte de <em>Crise na zona euro</em>, publicada em 22 de Abril de 2012 (<a href="https://passapalavra.info/2012/04/55658/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), descrevi a substituição em 1999 do ECU (European Currency Unit, Unidade Monetária Europeia), uma unidade contabilística que fora criada em 1979 e se baseava num cabaz (cesta) de moedas europeias, por outra moeda contabilística, o euro. «Com a enorme diferença», observei então, «de que o euro possuía um valor próprio, independente das oscilações das moedas nacionais, que se obrigavam a manter para com ele paridades fixas, ficando assim criado um sistema monetário unificado. Deste modo, e como sucedeu várias vezes ao longo da história de outros regimes económicos, uma moeda começou a existência enquanto unidade contabilística. Só no final de Fevereiro de 2002 as notas e moedas de euro se converteram materialmente na única moeda legal em circulação nos países aderentes». Ora, a passagem de uma unidade contabilística baseada num conjunto ponderado de moedas efectivamente cunhadas para uma unidade contabilística possuidora de valor próprio, até que finalmente esta última unidade contabilística assumisse um suporte material, teria sido uma excelente oportunidade para empregar como fio condutor dessas metamorfoses a noção do dinheiro enquanto linguagem. Mas não o fiz, e preocupei-me exclusivamente com circunstâncias que me pareceram mais urgentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152152" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1-300x201.jpg" alt="" width="560" height="375" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1-768x514.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1-628x420.jpg 628w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1-537x360.jpg 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1-640x428.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1-681x456.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-1.jpg 900w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Até que, na quarta parte do manifesto <em>Sobre a esquerda e as esquerdas</em>, publicada no <em>Passa Palavra</em> em 18 de Maio de 2014 (<a href="https://passapalavra.info/2014/05/93844/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), comecei a mostrar algumas das virtualidades decorrentes da definição do dinheiro como linguagem. Depois de aplainar o caminho, estigmatizando — mais uma vez, e quantas seriam ainda necessárias! — a propensão da esquerda para adoptar a noção fascista de que existiria um <em>capital especulativo</em> oposto a um <em>capital produtivo</em> e que todo o crédito seria especulativo, eu entrei no âmago do problema. «Se pretendermos lutar contra o capitalismo sem correr o risco de cair no socialismo da miséria, a grande questão é: como pode instaurar-se uma organização política igualitária e comunitária numa sociedade e numa economia muito complexas, baseadas na divisão do trabalho e que já não permitem a rotatividade em todas as funções? Este tipo de sociedade não dispensa o mercado nem o dinheiro e exige uma coordenação».</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das mais funestas concepções que a esquerda herdou de <em>O Capital</em> é a assimilação do dinheiro ao mercado, que lhe serve para os recusar a ambos. Ora, como eu preveni naquele manifesto, «os mercados precederam de milénios o capitalismo e, além disso, não pressupõem necessariamente a existência de relações de exploração, como mostram os estudos históricos e antropológicos. […] Ao longo do tempo, os mercados têm-se revelado uma instituição plástica, adaptável e sempre em mutação […]». Exactamente o mesmo tem sucedido com o dinheiro. «O dinheiro coexistiu com os mais variados modos de produção, incluindo algumas sociedades sem exploração». Mencionei então as frustradas experiências utópicas de supressão do dinheiro, que na realidade provocaram a sua substituição por outras formas pecuniárias, tal como já havia exposto trinta anos antes, no artigo «O Dinheiro: da Reificação das Relações Sociais até o Fetichismo do Dinheiro» (<a href="https://archive.org/details/jb-od-drdrsaofdd" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), e acrescentei que «outros casos extremos confirmam que nas sociedades modernas, sempre que a emissão central de dinheiro se torna insatisfatória, quer pela insuficiência do volume de dinheiro em circulação quer por uma acentuada e rápida perda de valor das unidades monetárias, surgem formas pecuniárias devidas à iniciativa dos particulares». E prossegui. «O dinheiro dá corpo a uma abstracção. Historicamente, nas sociedades em que o dinheiro teve relevância o pensamento abstracto ocupou um lugar importante na actividade intelectual. E numa sociedade evoluída como a de hoje, em que cabe a hegemonia ao raciocínio abstracto, o dinheiro permeia todas as relações. Mas de que modo o faz, esta é a questão, tal como é uma questão também a maneira como as abstracções se articulam e estruturam o pensamento. Assim como existiram e virão a existir diferentes sistemas de pensamento abstracto, também existiram e existirão diferentes formas de dinheiro. Pretender a abolição do dinheiro numa economia evoluída é uma utopia, porque isso implicaria a instauração de uma sociedade em que a abstracção não tivesse a primazia. O primitivismo económico seria acompanhado pelo primitivismo lógico».</p>
<p style="text-align: justify;">A relação do dinheiro com a abstracção conduziu-me imediatamente à definição do dinheiro como linguagem. «Em qualquer das suas modalidades e em todos os sistemas económico-sociais em que vigorou, o dinheiro serviu e serve acima de tudo como transmissor de informação. A relação é muito estreita entre o dinheiro e a linguagem, e do estruturalismo linguístico podem extrair-se lições teóricas proveitosas para o estudo dos fenómenos pecuniários. Pretender que o dinheiro seria, por si só, um factor de reificação é como pretender que a linguagem seria obrigatoriamente um meio de dissimulação ou de distorção. A reificação não é gerada pelo mercado nem pelo dinheiro, mas pelas relações sociais estabelecidas nos processos de produção de bens e serviços, materiais e imateriais. Sistemas de trabalho igualitários determinarão a fundação de novos tipos de mercado nas relações entre os colectivos produtores e a criação de novas formas de dinheiro nas relações intercolectivas e interpessoais».</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta abertura para outras possibilidades históricas, a comparação com a linguagem foi um factor determinante. «Há uma notável afinidade entre a circulação do dinheiro e as redes electrónicas. Se o dinheiro serve de transmissor de informação e em boa medida deve ser concebido na perspectiva da linguagem, o mesmo sucede com as redes informáticas. Ora, se estas redes veiculam hoje uma recolha de informações que segue da periferia em direcção ao centro e de emanação de decisões que vai do centro para a periferia, elas têm condições técnicas para sustentar percursos inversos, em que instituições coordenadoras recebam as decisões emanadas da periferia, as articulem e as reenviem para a periferia, juntamente com novos fluxos de informação». Esta cadeia de raciocínios permitiu-me formular o horizonte mais longínquo que somos hoje capazes de esboçar. «Só assim poderá instaurar-se uma democraticidade que não coloque em risco a produtividade e sustente um socialismo da abundância».</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152156" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2-300x169.jpg" alt="" width="560" height="315" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-2.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Foi necessário passarem cinco anos para que no ensaio <em>Anticapitalismo. Anti o quê?</em>, publicado no <em>Passa Palavra</em> desde 21 de Agosto até 25 de Setembro de 2019, eu iniciasse um tratamento extensivo do dinheiro em relação íntima com a sua definição enquanto linguagem. «Reinam grandes confusões na esquerda acerca do mercado e do dinheiro», preveni a abrir a quinta parte desse ensaio (<a href="https://passapalavra.info/2019/09/127901/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). «Nunca existiram e não existem hoje sociedades inteiramente desprovidas de trocas, e a continuidade das trocas gera o mercado, mas são variadíssimas as formas assumidas pelos mercados». E depois de observar que, historicamente, «nem todas as formas de mercado exigem o dinheiro», considerei que «é importante discriminar os vários tipos de dinheiro que encontramos ao longo da história». Comecei pelos casos em que um dado artigo tanto pode cumprir funções pecuniárias especializadas como pode entrar na circulação pecuniária e sair dela para ser usado como bem de consumo ou animal de trabalho. Depois evoquei os casos em que o dinheiro é emitido centralizadamente, por um soberano ou um chefe local, ou, pelo contrário, é emitido descentralizadamente, por particulares. Em seguida distingui os casos em que o dinheiro ou tem um valor intrínseco, decorrente do artigo que lhe serve de suporte, ou é meramente fiduciário, com um valor proveniente de uma convenção aceite por toda a sociedade. Em quarto lugar, considerei que o dinheiro tanto pode ser objecto de circulação geral numa sociedade como pode circular apenas em grupos restritos. E concluí insistindo num aspecto fundamental, que «as categorias gerais mercado e dinheiro não definem, por si só, sociedades nem sistemas económicos. São plásticas, tendo cada sociedade os seus tipos de mercado e de dinheiro, que obedecem a regras distintas dos mercados e do dinheiro noutras sociedades e sistemas. Quem perora contra o mercado e o dinheiro julgando que assim põe em causa o capitalismo tudo o que consegue é estabelecer confusões». Não me parecendo suficiente, repeti. «Assim como não foi o dinheiro que provocou o capitalismo, também não é abolindo o dinheiro que se suprime o capitalismo».</p>
<p style="text-align: justify;">A partir daqui, dei o salto para o núcleo do problema e afirmei que «as principais funções do dinheiro no capitalismo vão muito além da mera aquisição de mercadorias. O dinheiro no capitalismo é acima de tudo um veículo para a transmissão de informações e, como tal, ele é uma linguagem, e é-o na plena acepção do termo». A amplitude das funções pecuniárias no capitalismo explica-se pelo seu carácter de linguagem. «[…] o dinheiro, enquanto linguagem, além de ser instrumento de redes de cooperação, constitui um elo de ligação do presente ao futuro, uma forma de planificação, e é esta a função do crédito». Em suma, «o dinheiro converteu-se assim, de uma simples medida de valores, numa linguagem genérica». E aqui evoquei Jean Pierre Faye que, na linhagem de Roman Jakobson, nos permite formular a tese de que «a linguagem não se circunscreve ao plano das ideias, mas constitui a própria articulação das relações sociais, tanto das relações reais como das imaginárias».</p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida prossegui. «Vemos que neste modelo o dinheiro consiste numa modalidade da linguagem, e não estamos aqui longe do que afirmou Norbert Wiener, o fundador da cibernética, quando escreveu que “a sociedade só pode ser compreendida através de um estudo das mensagens e dos recursos de comunicação que lhe correspondem”». Ora, na terceira parte deste ensaio (<a href="https://passapalavra.info/2019/09/127832/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) eu dissera, a propósito da informática: «[…] só raramente os trabalhadores têm conseguido manter-se à frente de uma luta, sem delegarem a sua condução às burocracias sindicais ou sem criarem outras burocracias, durante o tempo suficiente para que as novas relações sociais de trabalho possam materializar-se em esboços de uma nova tecnologia. Os casos mais importantes dizem agora respeito à inversão dos fluxos informáticos decisão / informações, já que a electrónica sustenta uma condição geral de produção indispensável à actual remodelação capitalista das relações de trabalho. Com efeito, só os fluxos decisão / informações prevalecentes na informática permitem que as empresas obtenham economias de escala independentemente da concentração física dos trabalhadores num mesmo local e mantenham a autoridade central da gestão apesar da dispersão física dos trabalhadores. É esse fluxo que sustenta a exploração na economia e a opressão no poder, por isso é compreensível que nas lutas em que os trabalhadores conseguiram afastar ou secundarizar as burocracias um dos objectivos tivesse sido a tentativa de inverter o sentido do fluxo». Se relermos esta passagem à luz de Wiener, por um lado, e de Faye, por outro, temos a chave das transformações que poderão ser operadas sobre o dinheiro num processo revolucionário contemporâneo. E a questão coloca-se agora com mais acuidade, porque o número crescente de trabalhadores que têm na internet a condição técnica da sua actividade, especialmente a camada mais precária, como os uberizados, confere uma nova urgência à possibilidade de inversão dos fluxos informáticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguindo neste caminho, pude encerrar o ensaio, na sexta parte (<a href="https://passapalavra.info/2019/09/127922/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), com uma crítica à «utopia de uma sociedade transparente», expondo a futilidade das tentativas de supressão do dinheiro. «Em resposta à utopia da abolição do dinheiro, o que sempre ocorreu foi a criação particular de dinheiro, porque o dinheiro é a insubstituível condição da plasticidade de uma sociedade complexa». Em suma, a aplicação ao dinheiro da perspectiva da linguagem permite uma compreensão lúcida dos processos revolucionários no capitalismo. «Uma sociedade sem dinheiro», concluí, «é como uma sociedade sem linguagem, um mito irrealizável, a não ser que se animalize a humanidade».</p>
<p style="text-align: justify;">Glosei estas questões na segunda parte do ensaio <em>São Marx, rogai por nós</em>, publicada no <em>Passa Palavra</em> em 11 de Junho de 2020 (<a href="https://passapalavra.info/2020/06/132188/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), mas para não ser demasiado repetitivo vou restringir-me agora ao tema do dinheiro. «É através da cibernética que podemos ver a íntima ligação entre o dinheiro, na sua função de transmissor de informações e organizador de sistemas de troca, e as relações sociais de produção. A internet possibilita a fusão ou a conexão entre os meios de pagamento e as redes interbancárias, incluindo a criação bancária de dinheiro». Aqui citei Matthieu Favas em <em>The Economist</em>, 7 de Maio de 2020, que afirmara que «os sistemas de pagamento destinam-se mais a transferir informação do que dinheiro», e observei que «eu diria antes que o dinheiro consiste precisamente nessa informação». Depois de mencionar novamente Roman Jakobson e Jean Pierre Faye, escrevi: «O dinheiro exprime as relações sociais e, ao mesmo tempo, exerce um efeito de <em>feedback</em>. Nisto consiste a sua função articuladora e, tal como a linguagem, o dinheiro serve ainda para perverter a informação. Talvez seja mesmo a função mais comum das palavras, a de ocultar em vez de indicar, a tal ponto que o primeiro passo da análise crítica é o de, mediante palavras, passar além das palavras. No capitalismo o dinheiro, se serve para veicular as informações que estruturam a sociedade, serve igualmente para ocultar as relações de exploração». O ensaio <em>São Marx, rogai por nós</em> é, aliás, um exercício de análise crítica, procurando entender no dinheiro uma das características fundamentais da linguagem, que é a sua ambiguidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152158" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-4-300x204.jpg" alt="" width="560" height="381" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-4-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-4-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-4-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-4-640x435.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-4-681x463.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/Dinheiro-B-4.jpg 1023w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Depois de tudo isto, é curiosa a indignação de vários leitores quando publiquei no <em>Passa Palavra</em>, em 9 de Fevereiro de 2023, o artigo <em>Capital fictício?</em> (<a href="https://passapalavra.info/2023/02/147372/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), e tanto mais curiosa quanto eu já havia múltiplas vezes afirmado que aquele capital nada tem de fictício. Limitei-me a expor com concisão e um pouco de veemência algumas teses que vinha a desenvolver desde há muitos anos. «[…] um modo de produção cujas relações sociais são mediadas pela relação com o tempo de trabalho exige formas específicas de dinheiro, tão ilusórias ou reais como é ilusória ou real a sociedade capitalista. O dinheiro é indispensável à articulação das relações sociais no capitalismo, e quem o considerar em alguma medida ilusório terá de considerar ilusório também o próprio capitalismo».</p>
<p style="text-align: justify;">Como a noção de <em>capital fictício</em> arrasta consigo a noção de <em>capital especulativo</em> e implica, portanto, uma crítica ao crédito, foi ali que me concentrei. «[…] basta mencionar o dinheiro para pressupor o crédito, que sempre surge quando na circulação pecuniária ocorrem dilações temporais, o que não pode deixar de suceder, dada a continuidade das sociedades. Assim, praticamente não existiu dinheiro sem ter existido crédito, e considerar como fictícios os mecanismos do crédito é um resultado da mesma ignorância que considera o dinheiro como ilusório e que reduz o capitalismo ao fabrico de bens palpáveis». Aliás, a questão do crédito é muitíssimo mais vasta do que o capitalismo, como evidenciam a história económica e a antropologia, e a concepção do dinheiro enquanto linguagem permite entender as dimensões do problema. «A linguagem não se limita a narrar, porque tem a capacidade de criar. Se ela servisse só para classificarmos e sistematizarmos o nosso conhecimento do presente não teria havido nenhuma alteração na história das sociedades, que se reduziria à repetição do idêntico, o que mostra que a importância decisiva da linguagem consiste em conceber futuros possíveis e em organizar o modo de os alcançar. A nossa linguagem caracteriza-se pela antecipação, e é exactamente isto que ocorre com o dinheiro, cuja circulação não só permite a durabilidade das relações presentes, mas constitui a ponte para relações futuras, previsíveis ou desejadas. Esta ligação do presente ao futuro cabe aos instrumentos pecuniários usados no crédito, precisamente aqueles que tanta gente nos meios de esquerda considera estultamente como capital fictício». Em suma, «enquanto antecipação do futuro, o crédito equivale à capacidade antecipadora da linguagem e, se ele fosse fictício, então a nossa linguagem sê-lo-ia também».</p>
<p style="text-align: justify;">A indignação foi tanta e tantos os comentários que dois meses depois, em 13 de Abril de 2023, na primeira parte do artigo <em>Respostas? Perguntas</em>, publicado no <em>Passa Palavra</em> (<a href="https://passapalavra.info/2023/04/148098/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), decidi mostrar como todo o meu trabalho, não só de análise económica, mas também de historiografia, pode ser usado para fundamentar a crítica à noção de capital fictício. «Praticamente não houve sociedades sem dinheiro, quaisquer que fossem os seus suportes materiais […] Mas o estudo comparado serve para reduzir a complexidade a traços comuns, e vemos então que em qualquer das múltiplas formas que tem adoptado ao longo de milénios, o dinheiro é composto por sistemas de signos convencionais destinados a satisfazer simultaneamente duas funções: a de sinalizar e a de articular relações sociais. E conclui-se então que, definido como veículo de informação e agente de relacionamento, o dinheiro é uma modalidade de linguagem. É no quadro de uma teoria geral do dinheiro assim esboçada que podemos entender os mecanismos pecuniários específicos do capitalismo». Mas para quê tentar aqui resumir o artigo? Afinal, o que escrevi até agora neste ensaio é uma última tentativa de expor, com mais fôlego e maior minúcia, a coerência de uma longa pesquisa que me levou a adoptar a noção do dinheiro como linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos capítulos seguintes irei inverter o percurso e modificar a forma de apresentação, e tentarei indicar algumas vias que, partindo da linguagem, nos conduzem ao dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor interessado pode encontrar aqui o <a href="https://passapalavra.info/2024/03/152021/" target="_blank" rel="noopener">primeiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152040/" target="_blank" rel="noopener">segundo capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152046/" target="_blank" rel="noopener">terceiro capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152049/" target="_blank" rel="noopener">quarto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152057/" target="_blank" rel="noopener">sexto capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152066/" target="_blank" rel="noopener">sétimo capítulo</a>, o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152070/" target="_blank" rel="noopener">oitavo capítulo</a> e o <a href="https://passapalavra.info/2024/05/152075/" target="_blank" rel="noopener">nono capítulo</a>.</p>
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		<title>A Política Identitária e a Captura pela Elite</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Apr 2024 04:46:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Frazier guarda as suas críticas mais contundentes para a imprensa negra, “o principal meio de comunicação que cria e perpetua o mundo do faz-de-conta para a burguesia negra”. Por Olúfémi O. Táíwò.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Olúfémi O. Táíwò*</h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um trecho do artigo <em>Identity Politics and Elite Capture</em>, publicado na <a href="https://www.bostonreview.net/articles/olufemi-o-taiwo-identity-politics-and-elite-capture/" target="_blank" rel="noopener"><em>Boston Review</em></a> em maio de 2020</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em 1957, o pioneiro sociólogo afro-americano E. Franklin Frazier publicou uma tradução para o inglês do seu estudo sobre a classe média negra dos EUA, <em>Black Bourgeoisie [Burguesia Negra]</em>. Poderíamos também considerá-lo um trabalho pioneiro no estudo da captura da política pelas elites. Frazier acusa a classe média negra de ser insegura e impotente, construindo constantemente um mundo de “faz-de-conta” para lidar com um “complexo de inferioridade” causado pela história brutal de dominação racial nos Estados Unidos. Polêmico de imediato após sua publicação, o livro aponta, no prefácio da edição de 1962, que Frazier foi aplaudido por sua coragem e ameaçado de violência.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos argumentos do livro diz respeito à estratégia política de gerações anteriores para a elevação dos negros: o projeto de construção de uma economia paralela e separada dentro dos Estados Unidos. Em 1900, por exemplo, Booker T. Washington organizou a National Negro Business League, convocada pela primeira vez em Boston. Foi recebida com entusiasmo e alarde; muitos líderes empresariais afro-americanos presentes esperavam que esse tipo de empreendimento fosse a chave para erradicar os danos do racismo branco.</p>
<p style="text-align: justify;">Frazier argumenta que a abordagem de Booker Washington não foi apenas equivocada, mas baseou-se numa análise errada do potencial econômico dos negócios afro-americanos. O patrimônio líquido total de todos os 115 participantes originais não chegava nem a US$ 1 milhão. Na altura em que Frazier escreveu o livro, em 1955, todos os onze bancos pertencentes a negros no país, juntos, não representavam o montante de capital de um banco local médio de pequenas cidades brancas. Simplesmente não havia riqueza negra suficiente para que uma economia paralela separada se “iniciasse”. Mesmo que a iniciativa encorajasse com sucesso as pessoas a comprarem de negros &#8211; por exemplo, com os dólares ganhos nos seus empregos na fábrica da Ford &#8211; ainda assim não se criaria uma economia paralela. No entanto, pouco depois do quinquagésimo aniversário do grupo, a liga redobrou o seu objetivo de pregar o evangelho da fé nos negócios negros. Não admira que Frazier conclua que uma economia afro-americana continuaria a ser um sonho na década de 1960, tal como tinha sido na virada do século.</p>
<figure id="attachment_152588" aria-describedby="caption-attachment-152588" style="width: 1024px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-152588 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/NationalNegroBusinessLeague-ExecutiveCommittee.jpg" alt="" width="1024" height="697" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/NationalNegroBusinessLeague-ExecutiveCommittee.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/NationalNegroBusinessLeague-ExecutiveCommittee-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/NationalNegroBusinessLeague-ExecutiveCommittee-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/NationalNegroBusinessLeague-ExecutiveCommittee-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/NationalNegroBusinessLeague-ExecutiveCommittee-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/NationalNegroBusinessLeague-ExecutiveCommittee-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption id="caption-attachment-152588" class="wp-caption-text">Comitê Executivo da Liga Nacional dos Negócios Negros, 1910.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Por que é que o mito de uma economia paralela como resposta abrangente ao racismo antinegro sobreviveu, mesmo quando empresários negros proeminentes já deviam saber que não era uma possibilidade séria? Nas palavras de Frazier, foram os interesses de classe específicos da pequena, mas influente, burguesia negra que levaram a ideia adiante. Alguns eram proprietários de empresas na esperança de desfrutar do monopólio do mercado econômico afro-americano. Outros eram profissionais assalariados &#8211; de longe a maior percentagem da classe média negra na altura &#8211; que esperavam ingressar em empresas de marketing detidas por brancos com base no seu suposto conhecimento do inexplorado poder de compra dos negros. De qualquer forma, a National Negro Business League promoveu um ponto de vista que encorajou as pessoas a confrontar o complexo problema da hegemonia branca sobre a política, a cultura e a economia com a premissa mítica de que os negros poderiam gastar e investir para sair da dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">Frazier guarda as suas críticas mais contundentes para a imprensa negra, “o principal meio de comunicação que cria e perpetua o mundo do faz-de-conta para a burguesia negra”. Embora reconheça as contribuições de publicações negras como o <em>Chicago Defender</em> e o <em>Paper</em> de Frederick Douglass, ele insiste, no entanto, que a “demanda da imprensa negra por igualdade para o negro na vida americana está preocupada principalmente com oportunidades que beneficiarão economicamente a burguesia negra e melhorarão o status social do negro”. O controle da elite sobre os meios de comunicação proeminentes dos negros promoveu os interesses desses subgrupos, aparentemente sem ter em conta o grupo maior. Como exemplo, Frazier observa que o jornal negro <em>Journal and Guide</em> de Norfolk, Virgínia, comemorou a eleição de um médico negro para a presidência de uma afiliada local da Associação Médica Americana &#8211; apesar de ele ter se oposto à “medicina socializada”, o que sem dúvida teria beneficiado os afro-americanos da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Frazier conclui que, seja na imprensa negra ou nos negócios, “a burguesia negra não demonstrou qualquer interesse na &#8216;libertação&#8217; dos negros” &#8211; isto é, a menos que “isso afetasse o seu próprio estatuto ou aceitação pela comunidade branca”. Em todas as oportunidades, “a burguesia negra explorou as massas negras tão impiedosamente como os brancos”. Frazier certamente exagera aqui, mas seu livro é uma janela para um fenômeno comum.</p>
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<p>* Olúfémi O. Táíwò é Professor Associado de Filosofia da Universidade de Georgetown. Entre seus livros estão <em>Elite Capture</em> e <em>Reconsidering Reparations</em>.</p>
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