<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Cidades &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/category/colunas/cidades/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Mon, 28 Sep 2026 17:51:41 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.1.2</generator>
	<item>
		<title>Kasa Invisível &#8211; 1 mês de resistência e mobilizações</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/09/159881/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/09/159881/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 14:01:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159881</guid>

					<description><![CDATA[A luta pelo direito à cidade e moradia em Belo Horizonte ainda está em aberto. Por Gabriel Rios]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Gabriel Rios</h3>
<p style="text-align: right; padding-left: 120px;"><em>“Habitar não é alojar-se. Um alojamento não é nada senão uma casinha, na qual as pessoas são &#8216;alojadas&#8217;, para o bem e para o mal, depois de sua jornada de trabalho e à espera da seguinte. É uma jaula cujos muros nos são alheios. Habitar é outra coisa. É um entrelaçamento de vínculos. É pertencer aos lugares na mesma medida em que eles nos pertencem. É não ser indiferente às coisas que nos rodeiam, é criar laços: com as pessoas, com os ambientes, com os campos, com as sebes, com os bosques, com as casas, com tal planta que repousa no mesmo espaço, com tal animal que normalmente se vê ali. É ter alicerce e possibilidades abertas nos nossos espaços. É o oposto dos pesadelos da metrópole, dos quais só temos que nos desfazer”.</em></p>
<p style="text-align: right; padding-left: 120px;"><em>-Conselho Noturno</em></p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2013 a Kasa Invisível, localizada na Avenida Bias Fortes, 1034 do bairro de Lourdes (o 2º metro quadrado mais caro de Belo Horizonte) tem suas portas abertas à comunidade belorizontina, acolhendo famílias, indivíduos, cooperativas de trabalho e propostas de atividades sociais e culturais vindas de toda a cidade &#8212; e até mesmo de fora do país &#8212;, se configurando enquanto um espaço de encontro em BH, além de ser usada como moradia por três famílias. O espaço é autogerido, ou seja, sem hierarquias de comando e obediência, por um coletivo gestor que se define como anticapitalista, autônomo e horizontal.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um mês, a okupa foi surpreendida por uma ordem de despejo assinada pela Juíza Miriam Vaz Chagas da da 17ª Vara Cível de Belo Horizonte. Decisão essa que se deu ainda em primeira instância e desconsiderando o fato de que há um processo de usucapião tramitando na justiça pautado em relatos consistentes de que o espaço é usado para fins sociais, culturais, coletivos e também como moradia. Além disso, a juíza utiliza o argumento de “perigo de dano latente” do imóvel devido ao seu valor histórico de patrimônio cultural tombado, sendo que o tombamento foi efetuado por meio de esforços do próprio coletivo da Kasa.</p>
<p style="text-align: justify;">A casa que hoje está ocupada foi construída em 1938 em estilo <em>art decó</em> e ao longo do tempo, sofreu muitos danos estruturais pelo abandono de mais de 20 anos do antigo proprietário. Após anos lacrado, sem que o departamento de patrimônio da cidade conseguisse contato com os proprietários e seus herdeiros, foi somente após a ocupação que o tombamento pode ser realizado, tendo sido implementado pelo próprio coletivo gestor da Kasa Invisível. Diante disso, o argumento utilizado pela juíza demonstra a fragilidade na qual a decisão de despejo se baseia, e sua arbitrariedade diante de todas as provas processuais apresentadas durante todo o processo jurídico antes desta liminar da juíza.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob os efeitos desta liminar arbitrária, na sexta-feira, 21 de agosto, Dia Nacional da Habitação, a Kasa Invisível resistiu à sua primeira tentativa de despejo. A resistência veio pela força da mobilização, com o apoio da nossa comunidade, de parceiros e de simpatizantes, mostrando que a luta coletiva é capaz de abrir caminhos onde as instituições insistem em fechar portas. A luta começou com um café da manhã na porta da ocupação puxada por diferentes movimentos sociais e ocupações. Integrantes do coletivo, apoiadores de diversos movimentos, como o MLB, Teia dos Povos, UP, Boxe Antifa, Resistência Azul Popular, Sind-UTE, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), e Comissão de Direitos Humanos da OAB, além de advogados populares, parlamentares e assessores, se mobilizaram contra a tentativa de despejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto pessoas subiam ao telhado e estendiam faixas, movimentos e apoiadores colocavam seus corpos em frente a entrada da Kasa enquanto barricada, para que a família e seu advogado não pudessem nem sequer tentar abrir a porta da okupa com um chaveiro que foi chamado até o local. Ao mesmo tempo, a resistência também era feita de encontro e solidariedade. Pessoas traziam pães, sucos, café era baixado por cordas da varanda da Kasa. O relato completo e detalhado pode ser lido no blog do coletivo Kasa Invisível:</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/" href="https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/</a>)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159884 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50.jpeg" alt="" width="848" height="1280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50.jpeg 848w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-199x300.jpeg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-678x1024.jpeg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-768x1159.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-278x420.jpeg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-640x966.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-681x1028.jpeg 681w" sizes="(max-width: 848px) 100vw, 848px" />Barricada coletiva permanente</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Conseguir barrar o despejo pela força da mobilização, com o apoio da nossa comunidade, de parceiros e de simpatizantes, é revigorante. Mostra que a luta coletiva é capaz de abrir caminhos onde as instituições insistem em fechar portas. A ameaça de despejo, porém, ainda existe. A liminar que decide pela a imissão da posse (ou seja, conferir posse a quem nunca a exerceu) ainda não foi derrubada nem suspensa. Assim, um mandado de despejo pode ser executado em breve.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, permanecemos mobilizados, organizados e dispostos a resistir. A Kasa Invisível intensificou sua agenda de atividades, recebendo inúmeros grupos e coletivos solidários ao espaço. Foram eventos praticamente diários onde a comunidade movimentou e cuidou da Kasa com cafés da manhã todos os dias da primeira semana de resistência, apresentações musicais, cinema na calçada, arte, passeios de bike, aula com alunos do curso de arquitetura, sarau e até corte de cabelo e terapia grátis!</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos dizer que o coletivo gestor e toda nossa rede foram surpreendidos com o tamanho e diversidade das formas de apoio, presença e cuidado com o espaço que ocupamos e mantemos há 13 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mais de uma década, construímos um espaço aberto para a comunidade, que pode ser usado por qualquer pessoa, coletivo, sindicato, movimento ou grupo que compartilhe e respeite princípios básicos anticapitalistas, antifascistas, e contrários a toda forma de opressão (de raça, de gênero, transfobia, etc.), apartidária e de independência em relação ao Estado e ao mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se hoje contamos com uma comunidade inteira defendendo esse espaço e as vidas que o habitam, é porque estivemos lado a lado na abertura de dezenas de novas ocupações, em protestos, marchas, panfletagens, distribuição de marmitas e recursos, jornadas de luta, festivais, mutirões, vigílias, almoços, plantios, oficinas, debates e todo tipo de agitação cujo objetivo é melhorar a vida das pessoas oprimidas e excluídas. Mantendo, em cada passo, a perspectiva de que a vitória de uma vida livre e próspera para todas só é possível com o fim do capitalismo e toda forma de opressão estatal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-159883 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1.jpeg" alt="" width="848" height="1280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1.jpeg 848w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-199x300.jpeg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-678x1024.jpeg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-768x1159.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-278x420.jpeg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-640x966.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-681x1028.jpeg 681w" sizes="(max-width: 848px) 100vw, 848px" />Apoio internacional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No início de agosto anunciamos que foi dada a liminar que autoriza o despejo da Kasa Invisível, com base em alegações infundadas de que o imóvel “não serve de moradia” e que o coletivo de pessoas que habitam e cuidam do espaço representam “um risco para um imóvel tombado” &#8212; tombamento que só foi possível com o trabalho de ocupantes e estudantes e docentes de universidades públicas mineiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos anúncios e chamados de solidariedade contra o despejo da Kasa Invisível circularam pelo mundo e recebemos diversas imagens e mensagens de solidariedade: da Eslovênia, participantes do Acampamento de Verão Antiautoritário enviaram uma mensagem em uma faixa feita durante o evento em agosto. Outra imagem de um faixa nas ruas de Berlim foi enviada por membros do Food Not Bombs da Alemanha. No Uruguai, uma faixa contra o despejo da Kasa e fogos de artifício foram colocados em frente à embaixada Brasileira. Em Biel, na Suíça, aconteceu uma marcha de rua dia 11 de setembro, contra desalojos de ocupações na cidade e um banner em apoio à Kasa Invisível estava pendurado em um trailer seguindo a manifestação. Já no dia 13 de setembro, em Paris, a Fanfare Invisible fez uma parada tocando canções rebeldes e panfletagem em apoio às ocupações Maria do Arraial e Kasa Invisível.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas ações de quem está distante são fundamentais para nos dar força e lembrar que nossa arma é a solidariedade. O apoio mútuo dos povos não respeita fronteiras ou distâncias e fortalecem mutuamente a luta pela liberação de territórios em todo o globo. Tanto que os apoios internacionais à Kasa foram noticiados no Jornal Hoje em Dia, conferindo um peso ainda maior para o que está acontecendo na okupa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por conta da ampla repercussão midiática que a ordem de despejo da Kasa Invisível obteve, diversas figuras políticas institucionais da esquerda progressista apareceram no dia da tentativa de despejo e se dispuseram a tentar algum tipo de pressão institucional. Uma dessas figuras foi a vereadora Juhlia Santos (PSOL), que convocou junto à comissão dos direitos humanos uma audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte sobre o despejo da Kasa Invisível no dia 8 de setembro.</p>
<p style="text-align: justify;">A mesa da audiência contou com a fala de diversos parceiros da Kasa Invisível, entre eles nossas vizinhas, uma participante do nosso GT Arquitetura, apoiadores e movimentos como MOB, MLB e MLP.</p>
<p style="text-align: justify;">A audiência também colocou uma série de questões que precisam ser respondidas formalmente pelo Poder Público, provocadas por uma carta protocolada pelo gabinete da vereadora. Entre elas, está a necessidade de saber se a Prefeitura tem conhecimento da ordem judicial de desocupação ou imissão de posse dos imóveis e, diante do tombamento e do interesse público envolvido, se pretende participar formalmente do processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Também questionou se a Prefeitura buscará encaminhar o conflito envolvendo a Kasa Invisível à Comissão Regional de Soluções Fundiárias do TJMG, considerando seus impactos sociais, culturais e habitacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto central diz respeito à atuação da Diretoria de Patrimônio Cultural (DIPC). Foram solicitadas informações sobre as vistorias, laudos e demais documentos produzidos pelo órgão sobre os imóveis, bem como sobre o recebimento e a aprovação das obras de restauro e estabilização do telhado realizadas na Kasa Invisível.</p>
<p style="text-align: justify;">É particularmente importante esclarecer o que a DIPC tem a dizer sobre os laudos de deterioração apresentados pela Defesa Civil, especialmente porque a decisão judicial que fundamenta o despejo parte da premissa de que o coletivo estaria deteriorando o imóvel. Fato crucial, pois o que ocorre é justamente o contrário: foram realizadas ações de manutenção, recuperação e restauro do espaço.</p>
<p style="text-align: justify;">A audiência solicitou, ainda, uma nova vistoria conjunta entre a DIPC e a Defesa Civil, de modo a atualizar os laudos e as informações utilizadas no processo judicial. Por fim, foram pedidas informações sobre a situação tributária dos três imóveis, incluindo o detalhamento de eventuais débitos de IPTU, taxas e multas, para compreender a situação fiscal dos proprietários e herdeiros.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir desse conjunto de informações, buscamos abrir a possibilidade de que o Município avalie instrumentos capazes de incorporar os imóveis ao patrimônio público e consolidar sua utilização social, cultural e comunitária. Questões que são centrais para um peso institucional maior à causa e precisam ser respondidas com urgência. Mas o principal ganho da audiência foi ocupar mais um espaço público para demonstrar a importância da Kasa Invisível para Belo Horizonte e, sobretudo, a força da comunidade que se construiu em torno dela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-159887 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2.jpg" alt="" width="2310" height="1733" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2.jpg 2310w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-2048x1536.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-681x511.jpg 681w" sizes="(max-width: 2310px) 100vw, 2310px" />PL 574: o avanço da especulação imobiliária em Belo Horizonte</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, em 2026, a capital mineira segue os mesmos moldes desenvolvimentistas de exclusão que o da sua fundação no fim do século XIX. Depois de mais de um século de desenvolvimento capitalista, a metrópole definiu a zona sul da cidade como zona de expansão das moradias dos ricos, grandes prédios luxuosos e condomínios, e a zona norte como a região periférica, onde as indústrias mais poluentes e os indesejáveis devem ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a estratégia neocolonialista por meio da cultura bares da moda não é suficiente para alcançar os objetivos do setor imobiliário, operações urbanas começam a ser articuladas no campo legislativo. O PL 574 é essencialmente isso. Apresentado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e de autoria do prefeito Álvaro Damião (União Brasil), este projeto institui a chamada Operação Urbana Simplificada (OUS) Regeneração dos Bairros do Centro. A justificativa oficial do poder executivo é promover a “regeneração” e a “dinamização econômica” da área central e pericentral. Na prática, porém, o projeto é um grande pacote de benefícios desenhado sob medida para as grandes empresas do mercado imobiliário.</p>
<p style="text-align: justify;">O PL negligencia o déficit habitacional da capital que supera 60 mil famílias. Sem garantias de moradia acessível, o mercado construirá somente para a classe média-alta, causando a alta descontrolada dos aluguéis e expulsando os moradores tradicionais e de baixa renda para áreas cada vez mais periféricas, clássico processo de gentrificação.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o estado de exceção (bem conhecido por nós críticos ao estado democrático de direito) mais uma vez atua na conformação urbana, ignorando totalmente diversas diretrizes do Plano Diretor da cidade (que é completamente criticável). Ele incentiva a construção de megaempreendimentos e torres altas, permitindo que as construtoras superem o limite básico de construção em até 70%. O mais grave é que o texto prevê a isenção de 100% do pagamento da outorga onerosa nos dois primeiros anos de vigência. Ou seja, a prefeitura abre mão de uma receita milionária que deveria ser obrigatoriamente investida em habitação popular para simplesmente dar desconto às construtoras. E dispensa a exigência de afastamentos laterais e de fundos.</p>
<p style="text-align: justify;">Como se todos esses problemas mencionados anteriormente já não fossem suficientes, há uma ameaça iminente aos territórios situados nas regiões que o PL abarca. Nos últimos meses, diversas ocupações sofreram ameaças de despejo como a Kasa Invisível, a ocupação Maria do Arraial (MLB) e outras ocupações situadas na região central do Movimento por Libertação Popular (MLP). Todas essas ordens de despejo vieram quase na mesma semana da votação do PL na Câmara, o que evidencia um projeto coordenado de gentrificação e elitização do centro da cidade e bairros adjacentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, o prefeito Álvaro Damião entrega a cidade nas mãos das empresas do setor imobiliário e expulsa tudo e todos aqueles que são vistos como marginais e indesejáveis pela elite e classe média alta belorizontina. Mais uma vez a cidade é redesenhada de cima para baixo, expulsando aqueles que não possuem um poder aquisitivo compatível com os altos alugueis que agora imperam na cidade (a média do aluguel na cidade chegou à R$1600,00 neste ano) e os bares “cool” que pipocam em cada esquina da região central.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159886 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51.jpg" alt="" width="2560" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-2048x1536.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Campanha pelo Despejo Zero</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Diante deste cenário, os movimentos por moradia e território de Belo Horizonte vem se articulando para dar uma resposta ao projeto higienista da Prefeitura. Nesta terça-feira, 22 de setembro, foi convocada uma reunião com todos os movimentos da esquerda radical de BH para discutir a construção da campanha pelo “Despejo Zero” na capital mineira. A reunião ocorrerá na ocupação Maria do Arraial às 19h30. Essa campanha se faz urgente, dado o risco de despejo que várias ocupações, como a própria ocupação Maria do Arraial e a Kasa Invisível, além de vários outros territórios de luta, passam neste momento. Esse cenário coloca em risco o direito à moradia em uma cidade com um déficit habitacional gigantesco (ultrapassa de 60 mil famílias sem moradia).</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo assim, convocamos todxs para ajudar de alguma forma nesta campanha, mesmo que de longe, seja de outra cidade, estado ou país. Qualquer ajuda neste momento será bem-vinda, seja financeira, midiática ou com um trabalho voluntário remoto com as possíveis campanhas de divulgação que irão surgir nas redes e nas ruas por meio de peças gráficas. A luta pelo direito à cidade e moradia em Belo Horizonte ainda está em aberto, este momento é crucial para que possamos dar um passo em direção à uma cidade mais plural ao invés de uma cidade homogênea e higienista que o prefeito Álvaro Damião pretende impor. Nessa luta tal articulação dos movimentos em uma campanha pelo Despejo Zero será crucial.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Contra o capital e a especulação imobiliária okupemos tudo!!</strong></em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/09/159881/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>1º dia da resistência contra o despejo da Kasa Invisível</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159683/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/08/159683/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 13:17:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159683</guid>

					<description><![CDATA[A força da comunidade impede o desalojo no Dia da Habitação. Por Kasa Invisível]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><a href="https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/" target="_blank" rel="noopener"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a">Por KASA INVISÍVEL</span></span></a></h3>
<p style="text-align: justify;">Nesta sexta-feira, 21 de agosto, Dia Nacional da Habitação, a Kasa Invisível resistiu à sua primeira tentativa de despejo. Apesar de o risco iminente permanecer, terminamos o dia ainda mais fortes para seguirmos juntos em resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta começou com um café da manhã na porta da ocupação puxada por diferentes movimentos sociais e ocupações. Membros do coletivo ficaram dentro da ocupação enquanto a comunidade e uma multidão de apoiadores se organizavam na calçada. Exatamente às 7:30 da manhã, chegaram o oficial de justiça e a família dos herdeiros do antigo proprietário, acompanhados de um caminhão de mudança, criando um momento silêncio e tensão que foi notado pelas pessoas dentro da Kasa. Integrantes do coletivo, apoiadores de diversos movimentos, como o MLB, Teia dos Povos, UP, Boxe Antifa, Resistência Azul Popular, Sind-UTE, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), e Comissão de Direitos Humanos da OAB, além de advogados populares, parlamentares e assessores, se mobilizaram pacificamente contra a tentativa de despejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto pessoas subiam ao telhado e estendiam faixas, o rapper FBC conversava com os trabalhadores do caminhão de mudança e os convencia a não ajudarem no despejo, falando da importância do espaço para a comunidade e o autoritarismo de um despejo como esse. Os dois profissionais desistiram de ajudar no carreto e algumas pessoas ainda ouviram fazer comentários de apoio ao movimento. A tensão aumentava com a presença do advogado dos antigos proprietários, filmando o rosto de manifestantes, enquanto todas as pessoas presentes cantavam, de forma irônica, sobre herdeiros perderem um imóvel e ele se transformar em ocupação: <strong><em>“Vovô deixou, você esqueceu e agora você perdeu”</em></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a resistência também era feita de encontro e solidariedade. Pessoas traziam pães, sucos, café era baixado por cordas da varanda da Kasa. Compramos marmitas coletivamente para dezenas de pessoas presente, almoçamos na calçada, compartilhando comida, conversas e a animação de quem se reúne para lutar por uma causa comum. Enquanto isso, apoiadores que não puderam comparecer presencialmente acompanhavam as atualizações em tempo real por meio de dezenas de canais de comunicação online e perfis de grande alcance que cobriram e deram visibilidade ao ato. No mesmo dia, o PL 547/25, o “PL da Gentrificação”, que permite o avanço da verticalização e especulação imobiliária nos bairros da região central da cidade, era votado na Câmara Municipal e enfrentava também mobilização popular e resistência. A PL foi barrada através de uma obstrução na justiça!</p>
<p style="text-align: justify;">Um chaveiro chegou a ser chamado para tentar abrir a fechadura, mas sequer conseguiu se aproximar da porta da ocupação. Pouco depois, desistiu de cruzar a multidão e foi embora. O oficial de justiça também deixou o local e, por fim, os herdeiros foram embora, prometendo chamar a polícia. A polícia, porém, não veio. Diversos gabinetes parlamentares enviaram manifestações ao comando e até ao governador, demonstrando solidariedade e preocupação com o desalojo de um espaço de moradia e centro social em um imóvel histórico no centro da cidade.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">No final do dia, que contava ainda com comício do presidente Lula, também no centro da cidade, o ato do Dia Nacional da Habitação contra os despejos saiu da Praça Sete, passou pela Ocupação Maria do Arraial, também ameaçada de despejo, e chegou à Kasa Invisível, reunindo gritos, cantos e discursos de apoio à resistência. Estiveram presentes centenas de pessoas moradoras de ocupações de BH, especialmente geridas pelo MLB, como Eliana Silva, Maria do Arraial e Paulo Freire.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de duas semanas marcadas por tantas derrotas no campo da justiça burguesa, conseguir barrar o despejo pela força da mobilização, com o apoio da nossa comunidade, de parceiros e de simpatizantes, é revigorante. Mostra que a luta coletiva é capaz de abrir caminhos onde as instituições insistem em fechar portas.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">A ameaça de despejo, porém, ainda existe. Ele pode voltar a acontecer em breve. É por isso que precisamos permanecer mobilizados, organizados e dispostos a resistir.<br />
Seguimos em vigília e recebendo uma intensa programação de atividades políticas e culturais em apoio à permanência da ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a"> </span></span></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/08/159683/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A greve da USP e o anjo da história</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159393/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/159393/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jun 2026 13:39:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159393</guid>

					<description><![CDATA[A greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável.  Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<div class="preview" style="text-align: justify;">
<div class="pad">
<div class="level2">
<p>A USP passou neste primeiro semestre por uma de suas mais longas greves estudantis dos últimos anos, com 54 dias parados. Haveria muito o que dizer sobre ela, mas vou me deter apenas sobre um aspecto que creio relevante neste meu lugar de colunista de Cidades do Passa Palavra: a alteração na forma de uso das forças de repressão pelo Estado de São Paulo e suas consequências nas lutas, seja na organização popular, seja na estudantil. Tenho comentado sobre o assunto particularmente no que tange às favelas, mas veremos a seguir que os métodos de abordagem em territórios distintos parecem estar se aproximando.</p>
<p>Em especial, a forma de remoção da Favela do Moinho foi amplamente comentada por mim (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" href="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>), mostrando ali uma articulação empresarial-militar específica, na qual a repressão é conformada em incursões armadas que espalham terror tanto indiscriminadamente, quanto de maneira direcionada quando se quer desbaratar núcleos dirigentes. O dispositivo é a criminalização generalizada, buscando relacionar narrativamente a organização popular ao tráfico de drogas, colocando o território, sua população e sua rede de apoio como parte do “ecossistema do crime”. O braço armado do Estado usado na forma de milícia aqui é relevante, bem como sua ampla aceitação pela sociedade, que dorme tranquila sabendo que a ordem do “cidadão de bem” está acima de qualquer direito humano.</p>
<p>Bem, eu já dizia ali que o sono não deveria ser tão tranquilo, já que o dispositivo de generalização indiscriminada do terror estava apenas em fase laboratorial, claro, no seu território preferencial, as favelas que atrapalham os circuitos de valorização. Como dispositivo político, no entanto, o pesadelo não tarda a chegar em territórios menos evidentes, como a Universidade de São Paulo. Na noite de 10 de maio, a mesma <a class="urlextern" title="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" href="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">polícia militar paulista invadiu violentamente o prédio da Reitoria</a> ocupado por estudantes em greve, que reivindicavam melhorias de <em>permanência</em>. As cenas de terror são estarrecedoras. Qualquer semelhança com a Favela do Moinho &#8211; cujos moradores reivindicavam melhorias urbanas e habitacionais para morar e trabalhar, ou seja, <em>permanecer</em> numa área privilegiada de São Paulo &#8211; não é mera coincidência.</p>
<p>Foi invasão pois, agindo como milícia, a polícia não realizou uma ação de reintegração de posse, autorizada por um juiz a partir de um mandado judicial requerido pela proprietária do prédio, como pede o rito democrático. Sem mandado algum, nem extrajudicial, a ação policial não tinha nenhuma relação administrativa com a USP, que pode inclusive inicialmente dizer oficialmente que “sem comunicação prévia à Reitoria, houve a desocupação do espaço público pela Polícia Militar”. No entanto, no mesmo comunicado, a Reitoria dizia que “informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP), no mesmo dia do ocorrido (7/5), com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais” &#8211; ou seja, lavando ao mãos quanto ao que poderia ser feito, se retirando de qualquer responsabilidade causada por uma ação certamente violenta.</p>
<p>O que é isso senão a contratação de um serviço miliciano oficial por uma elite universitária que não quer sujar as mãos? Por que a USP não se utilizou do amparo legal para realizar essa desocupação, pedindo a reintegração de posse? Estaria com medo de ser questionada na justiça sobre os motivos da ocupação estudantil? Por que uma ação política dos estudantes é respondida com violência estatal ilegal, sem nenhuma comissão de negociação, como sempre ocorreu em outras situações como esta e que certamente seriam requeridas pela justiça em situações de mediação? São perguntas que ficaram sem resposta.</p>
<p>A USP não queria mediação, não queria colocar em questão o fato de que não sabia mais o que fazer com estudantes aos quais não concederia mais nada. Aos quais queria impor uma derrota que os colocasse “no seu lugar”, aquele de receber passivamente as benesses desenhadas para transforma-los em… cidadãos de bem.</p>
<p>A culpa passou a dominar o debate político diante do silêncio atordoante dos gestores acadêmicos, que se colocam acima de qualquer necessidade de dar resposta à comunidade ou à sociedade. Com força crescente pelo apoio de setores docentes, os estudantes passaram a ser criminalizados pela gestão universitária por suas atitudes consideradas violentas. Quem diria. O trauma está instalado e, com ele, o ódio, sentimento novo entre docentes e estudantes e que se renova cotidianamente no retorno às aulas em pequenas ou grandes retaliações mais ou menos administrativas (notas, faltas…), mais ou menos explícitas ou violentas, mas nem um pouco racionais.</p>
<p>A semelhança com a remoção da Favela do Moinho não é mera coincidência também na medida em que se tratam de situações nas quais há uma população pobre e racializada, que carrega seus modos, experiências e necessidades de vida, instalada no seio do território das elites, resultado de lutas por acesso e <em>permanência</em>. Sim, pois essa greve &#8211; nas suas pautas e estratégias de luta &#8211; é um marco da transformação do corpo discente após a política de cotas. Texto muito revelador desta questão, escrito por estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU-USP), foi publicado <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui no Passa Palavra</a>.</p>
<p>Foi uma greve de enorme choque de diversas culturas políticas, para a qual a gestão universitária literalmente não estava preparada, não entende e, claro, não parava de julgar como “erradas” dentro de seus próprios parâmetros &#8211; e limites &#8211; históricos. Ora, não existe “errado” na política. Existem experiências, necessidades de vida e interesses divergentes em jogo, que entram em conflito. Se tais elementos não entram em jogo com o mesmo formato ou linguagem esperados pelas elites, como foram até então, entra-se em território desconhecido onde a barbárie parece estar autorizada, já que os velhos instrumentos não comportam uma reivindicação que, no limite, coloca em jogo a própria existência da Universidade como é conhecida.</p>
<p>Do lado do corpo estudantil, tais contradições vieram também à tona, pois a greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável: ao entrar no seu território, este corpo discente transforma-o. Por isso, percebeu que precisa assumir a tarefa política histórica de construir a nova forma universitária, que ainda não existe. Uma forma universitária que carregue uma verdade difícil para aqueles que achavam que tinham sido aceitos no paraíso: a de que este corpo estudantil faz parte da sociedade como sem-teto, como população em insegurança alimentar, no limite da saúde mental, tal qual aqueles fora dos muros. Estudante: lute como um sem-teto! É necessário articular lutas. É tarefa muito mais árdua, mas muito mais promissora, do que a reivindicação de acesso a uma forma que não comporta a sua existência. Isso ficou explícito na derrota que foi imposta violentamente ao corpo estudantil.</p>
<p>Derrota sim, é necessário assumir isso, assim como no caso da Favela do Moinho é necessário reiterar que as soluções habitacionais conquistadas não podem jamais ser consideradas uma vitória &#8211; o que seria assumir o discurso do seu algoz. No caso do movimento estudantil da USP, assumir a derrota, negando qualquer tipo de meia-vitória propagandeada pelos gestores docentes ou discentes, é ganhar a possibilidade de construir sua própria história, carregando consigo para o futuro a história dos vencidos, como diz Walter Benjamin (Teses sobre o conceito de história), e não aquela dos vencedores. Estes últimos são a classe dominante que, imbuída da noção de progresso, marcham adiante violentamente sem olhar para trás. Os vencidos devem olhar para trás e encarar seu próprio terror, pois apenas ele construirá a sua história. Segundo Benjamin, na Tese 9:</p>
<blockquote><p>Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.</p></blockquote>
<p>Para criar uma nova Universidade, não guiada pela noção de progresso, será preciso não se identificar com o mundo dos vencedores, mas construir seus próprios caminhos entre as ruínas. Neste sentido, é necessário que mostrem o cinismo da célebre frase inscrita na Praça do Relógio do Campus da Capital da USP “No universo da cultura, o centro está em toda parte”. Que todas as partes são essas, constantemente tendo negadas as suas existências? Benjamin lembra, na Tese 7, para que nunca nos esqueçamos:</p>
<blockquote><p>(…) Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes génios que os criaram, como à corveia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.</p></blockquote>
</div>
<div class="clearer"></div>
</div>
</div>
<div class="clearer" style="text-align: justify;"></div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/06/159393/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>“Moinho de Gente”: moradia como arma de guerra</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159159/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159159/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 13:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159159</guid>

					<description><![CDATA[O filme vale a pena ser divulgado e assistido, principalmente por lideranças e militantes que passam por processos de ameaça de remoção de ocupações e favelas, pois ali fica muito claro como tem se dado tais processos no tempo presente.  Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Foi lançado em abril pelo Intercept Brasil o filme dirigido por Caio Castor e Gabriela Moncau <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/04/22/favela-moinho-tarcisio-expulsao-moradores-3-cada-4-familias-ainda-nao-receberam-moradia-definitiva/" href="https://www.intercept.com.br/2026/04/22/favela-moinho-tarcisio-expulsao-moradores-3-cada-4-familias-ainda-nao-receberam-moradia-definitiva/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Moinho de Gente: A expulsão da última favela do centro de São Paulo”</a>, realizado junto a moradores e lideranças da Favela do Moinho. O filme acompanha todo o processo de remoção da favela, descrevendo, pela voz da própria comunidade, tudo o que passaram no último ano (e que fui também descrevendo <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" href="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, e o Passa Palavra também foi divulgando desde 2024 informes da luta <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/07/153800/" href="https://passapalavra.info/2024/07/153800/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/08/154404/" href="https://passapalavra.info/2024/08/154404/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/08/154555/" href="https://passapalavra.info/2024/08/154555/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156599/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156599/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/12/158352/" href="https://passapalavra.info/2025/12/158352/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/02/158710/" href="https://passapalavra.info/2026/02/158710/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). O filme vale a pena ser divulgado e assistido, principalmente por lideranças e militantes que passam por processos de ameaça de remoção de ocupações e favelas, pois ali fica muito claro como tem se dado tais processos no tempo presente. A saber, um tempo de guerra específico, no qual são os direitos sociais &#8212; no caso, a habitação &#8212; os instrumentos mobilizados para produzir a legitimidade social necessária à autorização da barbárie. Explico-me.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme explicita um processo no qual, em meio a uma violência de Estado absurda &#8212; com invasão discricionária de casas, demolição com gente dentro, enquadros com bala de borracha, mortes, desaparecimentos, tortura e prisões com flagrante forjado &#8212; os governos conseguem construir uma narrativa legitimadora. Para tanto, usam o atendimento habitacional como dispositivo de gestão responsável por efetivar seu objetivo maior: a extinção dos modos de vida populares do centro da cidade como meio de valorização territorial e obtenção de ganhos políticos num ano eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">É por meio do dispositivo habitacional que se tem ganhos políticos para ambos os lados da disputa eleitoral. De um lado, primeiramente o governo estadual de Tarcísio de Freitas ofereceu suas não-soluções habitacionais: financiamento (ou melhor, endividamento) de longo prazo para famílias acima de um salário mínimo e auxílio-aluguel insuficiente. Tal solução não atendia parte significativa das famílias, pressionadas a mentir a renda para poderem entrar nos programas oferecidos e, também, a se mudarem com urgência para moradias de aluguel completamente precárias, aumentando seu grau de vulnerabilidade social.</p>
<p style="text-align: justify;">No filme, são significativas as falas do governo estadual, que atende suas bases eleitorais: “Todo mundo aqui quer dar dignidade para essas famílias. E nós não queremos dar de graça porque de graça não tem graça. O que vale é trabalhar sim e ser digno de pagar a sua parcela e ser digno de ser proprietário da sua unidade. Todo mundo trabalha, todo mundo paga suas casas aqui, ninguém aqui ganhou nada de graça. E essas famílias também são capazes de trabalhar” e “isso aqui é a anti-reintegração de posse, porque isso aqui é o atendimento”.</p>
<p style="text-align: justify;">As famílias mobilizadas resistem a esta solução, pressionando o governo federal, proprietário da área, a se posicionar.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o governo federal entra no processo, disponibiliza ao Moinho uma solução apenas usada em casos de eventos extremos &#8212; como na tragédia do Rio Grande do Sul. Completa o valor de subsídio oferecido pelo governo estadual e garante a gratuidade da nova moradia até R$250mil e o aumento do auxílio-aluguel para R$1.200. Vale pensar qual era o evento extremo que acontecia ali: a necessidade urgente de se posicionar frente ao governo Tarcísio, no momento em que ele ascendia como alternativa da direita na disputa eleitoral federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, por um lado, de fato a conquista das famílias foi histórica &#8212; resultado de sua resistência, extensa rede de proteção e escalonamento de seu conflito por sua posição territorial estratégica &#8212;, por outro estava ali selada a conquista também dos governos estadual e federal. Ambos podiam dizer que deram solução habitacional digna às famílias e que elas permaneceriam no centro da cidade, enquanto a verdade ficava na mão do destino: a existência no mercado de moradias que se enquadrassem nos critérios de valor e de condições de compra definidos pelo acordo. O direito foi “assegurado” com a abstração do dinheiro, que não tem responsabilidade nenhuma com a concretização material das necessidades humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as famílias foram atrás dessas moradias fictícias, perceberam que a vitória tinha gosto amargo. Não as encontravam, não conseguiam firmar os contratos, se enredavam na burocracia entre a Caixa Econômica Federal e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Urbano e Habitacional do Estado de SP), entre outros problemas. E permaneciam resistindo. A violência policial aumentou. A principal liderança da comunidade, Alessandra Moja, é torturada e presa. Neste momento, numa das manifestações que impediam a entrada policial na favela, o filme mostra um policial militar, discutindo com uma moradora: “A carta de crédito é de R$250mil né? Eu acho que o imóvel da senhora não deve valer isso, né? [ela responde: Não importa!] Eu acho melhor a senhora pegar esses R$250mil e sair do lado da linha de trem, ir para um lugar digno. A oportunidade chegou, hein?”. Ou seja, não estamos te violentando, estamos apenas cuidando de vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado, que o Intercept teve acesso pela Lei de Acesso à Informação e que o <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/04/27/governos-nao-cumprem-promessa-favela-do-moinho/" href="https://www.intercept.com.br/2026/04/27/governos-nao-cumprem-promessa-favela-do-moinho/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">LabCidade FAU-USP mapeou</a>, estava escrito nas estrelas: uma enorme dispersão predominantemente para a periferia e para cidades do interior e litoral paulista (77,3% das moradias definitivas estão fora do centro expandido de São Paulo), acompanhada de um novo ciclo de insegurança habitacional para a maioria das famílias (61,9%) que aceitou o auxílio-aluguel para sair do estado de sítio em que se encontra o território da favela atualmente &#8212; em ruínas e em ameaça constante de violência policial. Os relatos de quem está em aluguel são tristes: locais insalubres, pequenos para famílias e muitas vezes com regras que proíbem crianças e animais (o que tem feito famílias se dividirem) e sob condições de instabilidade enormes pela falta de contrato formal.</p>
<p style="text-align: justify;">Retomo a argumento do início do texto: o direito social, no caso, a moradia, como arma de guerra como face característica do tempo presente. O que aparece inicialmente como contradição, precisa ser entendido como instrumento de dessensibilização social. O dispositivo técnico de gestão tira da vista da sociedade o “problema”, autorizando a barbárie e retirando a possibilidade de resistência da população. A memória da Favela do Moinho precisa ser cuidada para que entendamos e nos preparemos para o que ela significa em termos políticos mais amplos. O filme e o <a class="urlextern" title="https://www.faveladomoinho.com/" href="https://www.faveladomoinho.com/" rel="ugc nofollow">Centro de Memória da Favela do Moinho</a> são parte desse esforço e convido todo mundo conhecer.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159159/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Para além da Tarifa Zero</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158833/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/03/158833/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:45:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158833</guid>

					<description><![CDATA[O grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2025 tive a oportunidade incrível &#8211; proporcionada por Daniel Santini, a quem agradeço &#8211; de entrevistar a atual deputada federal e ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) Luiza Erundina (PSOL), seu secretário de transportes à época, Lucio Gregori, e Mauro Zilbovicius, ex-diretor da Cia. de Engenharia de Tráfego (CET) e do Departamento do Sistema Viário (DSV). A pauta era a Tarifa Zero ontem e hoje, dado que o trio foi responsável pela proposta pioneira no país durante a primeira gestão municipal do PT em São Paulo. O <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resultado da entrevista</a> foi publicado na <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Diálogos Socioambientais v.8, n.23</a>, em novembro de 2025, um dossiê muito especial com contribuições atuais sobre o tema, organizado pela professora Silvana Zioni e o próprio Daniel Santini.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê vem em boa hora, na medida em que o tema com certeza será parte da disputa eleitoral deste ano, que será delicadíssima por uma série de questões. Foi lançado justamente quando o governo federal pediu um estudo detalhado para implantar a Tarifa Zero nacionalmente e, em Belo Horizonte, o assunto foi votado na Câmara e não ganhou, mas assustou. Para quem acompanhou o nível de embate do tema em 2013, ver onde ele chegou atualmente é, no mínimo, surpreendente. Ou temerário… e por isso retomar suas origens de forma viva na entrevista foi algo muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Digo isso pois o grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. O que está em pauta é se ela será uma tábua de salvação para um setor empresarial em franca crise &#8211; e que é pedra fundamental de amplos clientelismos Brasil afora -, ou se será parte de uma transformação urbana e social mais estrutural. Politicamente relevante é que o embate institucional está acontecendo dentro do campo da dita esquerda partidária, com PT e PSOL em lados opostos: o deputado federal Jilmar Tatto (PT) tem representado o setor empresarial dos transportes e feito propostas que têm avançado mais do que as de Erundina dentro do parlamento e do executivo federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso a entrevista está especial e convido todo mundo a ler. Aquela tarde junto aos três ecoou fundo em mim, pois foi como um sopro de brisas frescas vindas de um lugar perdido. Zilbovicius colocando a racionalidade técnica no seu lugar, como instrumento político; o incrível Lucio Gregori relacionando a Tarifa Zero com a revolução social anticapitalista; e Erundina, de uma força transbordante e incansável, mas ao mesmo tempo extremamente afetiva e carinhosa durante toda a tarde, trazendo a noção de direito social como algo muito mais estrutural do que se transformou no neoliberalismo. Assim, a entrevista tem algo de incômodo, pois mexe com potências políticas adormecidas que as gerações atuais nem sonham o quão mobilizadoras foram. Faz-nos pensar no estado de coisas em que estamos, no desespero de ter que defender o pouco que restou de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o que é um governo municipal não era uma questão, mas sim o que pode ser um governo municipal dentro de uma sociedade mobilizada. Isso aparece numa fala do engenheiro Zilbovicius:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até hoje guardo uma fala da Luiza, que ela repetia constantemente: cada ação “tem que ser pedagógica”. As pessoas precisam aprender com essa luta. Ou seja, não se tratava apenas de resolver um problema imediato, mas de usar essa solução para fazer política, demonstrar uma nova possibilidade e, a partir dela, demandar mais. Estávamos ali para empurrar a fronteira do possível e alargar os limites do que era considerado realizável.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alargar o possível é também alargar nosso pensamento. A Tarifa Zero ser viável leva o debate, evidentemente, ao tema técnico &#8211; também discutido no dossiê &#8211; e é nesse momento que precisamos atualizar o lugar da técnica na política &#8211; onde queremos chegar com a Tarifa Zero? Sem isso, cairemos inevitavelmente na implantação de um modelo que instrumentalizará a gratuidade, sem colocar o cerne da questão da mobilidade que é, na prática, o capitalismo. Levantei essa questão quando trouxe na entrevista o exemplo da habitação: a gratuidade (ou quase) veio dentro de um modelo financeirizado de salvação empresarial que trouxe muitas vezes mais problemas urbanos e sociais do que soluções (individuais e parciais, muitas vezes logo perdidas pelo <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">endividamento</a> ou pela <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violência</a>), como vemos no Minha Casa Minha Vida. Ou seja, já conhecemos essa ladainha. Ela é sedutora, vem junto com o progressismo nosso de cada dia, com a vontade de avançar dentro do possível, de ter vitórias em meio ao cenário perturbador de espoliação que vivemos, de poder respirar. Mas não podemos nos esquecer que ela cobra a fatura, sem dó. O almoço não é grátis, embora possa parecer &#8211; o que torna a coisa ainda pior politicamente, muitas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Gregori, ao responder, chama atenção a isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, a mobilidade humana não é tratada como questão estrutural no capitalismo. A premissa básica de que a locomoção é elemento fundamental da existência humana &#8211; é um direito humano &#8211; está ausente dessa lógica.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate que travamos aqui é singular. Se levado para a esquina, a discussão se restringirá à superlotação dos ônibus ou ao preço da passagem. Falta à sociedade capitalista a compreensão de que a mobilidade transcende a mera necessidade de ir do ponto A ao ponto B. É muito mais do que isso: a mobilidade das pessoas é fundamental na vida humana.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Questionei, nesse sentido, por que a mobilização popular em torno dos transportes é tão diferente de outros setores como a habitação, a saúde e a educação. Além de muito menor, por um lado, quando “acendeu o pavio” se alastrou como palha seca, sem controle, em 2013. Por um lado, tanto tempo entre a gestão municipal e as jornadas de junho e, por outro, a persistência do tema, que volta como espectro inevitavelmente com a pergunta “ser ou não ser, eis a questão”. Gregori foi cirúrgico:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que falta é uma discussão ampla que investigue a essência do problema. Do que estamos falando? De algo que envolve a cidade em sua totalidade. E percebe-se que essa visão integral simplesmente não existe. Há falta de mobilização popular em torno do tema, durante tanto tempo, simplesmente porque é um jogo que nunca foi jogado. Como é que a população ou o cidadão comum pode, de repente, do nada, formular isso?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso leva ao tema da totalidade das lutas &#8211; e da potencialidade da mobilidade nas lutas urbanas neste quesito &#8211; e, inevitavelmente, no ponto crucial: estamos perdendo. Erundina tem clareza desta conjuntura, ainda que não se acomode. Segunda ela:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua indagação sobre a mobilização popular toca em ponto crucial. Os movimentos sociais não exercem pressão suficiente porque a mobilização popular substantiva praticamente deixou de existir. Os partidos de nosso campo ideológico abandonaram o projeto de fomentar participação das bases. O resultado é a ausência de mobilização genuína, falta de participação popular, inexistência de hegemonia das classes populares e erosão do poder popular no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdemos o tecido social vibrante do período pós-ditadura, quando a sociedade estava mobilizada e resolvia problemas coletivamente através de organizações de base.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, esse cenário foi desmontado. O povo perdeu sua voz e a crença em sua capacidade de transformação. Consequentemente, pautas como mobilidade e moradia não geram mais apelo ou participação massiva. O poder popular foi esvaziado.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daniel Santini fez a pergunta que não quer calar no tema da Tarifa Zero, replicando uma provocação que fiz a ele num congresso acadêmico da área de planejamento urbano. “A pior Tarifa Zero &#8211; que remunera bem os empresários, que não muda nada, estruturada num sistema precarizado &#8211; é melhor do que um sistema com cobrança?”. Erundina fecha a entrevista com essa resposta, que é uma pérola que coroa não só o tema da Tarifa Zero, mas a encruzilhada dos nossos tempos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo deixar de falar disso. Retomando a questão da moradia: eu trabalho com isso desde o começo da minha vida, como assistente social. A moradia conquistada na marra, fazendo caminhada a pé até o Palácio do Governo para que se ligasse água e luz nas favelas, quando vinha, tinha um peso e uma importância para aquela população muito diferente. Porque ela se capacitava a partir daquela conquista para outras lutas e para outras conquistas. Por isso, um programa massivo de moradia, tipo Minha Casa Minha Vida, não contribui para mobilizar e para conscientizar o povo da própria força. Não pode ser comparado com aquela luta na qual o próprio povo conquista a moradia. Ou para urbanizar a sua favela, em vez de fazer uma casa própria, que ele vai pagar 30 anos, ou não vai nem mesmo conseguir pagar. Isso não é uma política que emancipa os setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a questão: não se faz mais política hoje nesse país, capaz de fazer com que as pessoas se emancipem, como se fez no passado. Nós conseguimos fazer aquele governo porque a gente vivia em um período de pós-ditadura militar, em um processo de redemocratização, onde se conquistou algum nível de emancipação popular.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós tivemos apoio popular para experimentar uma forma de ser governo no qual todo mundo governou. Por isso tem uma força que não termina nunca. Aquele governo continua, porque não foi um governo de uma pessoa, nem de um partido: foi um movimento social popular, num determinado momento da história política desse país que não acontece mais. Porque os partidos estão bitolados por um modelo dentro do capitalismo que até o povo tem direito a uma casinha, tem água na favela e outras tantas coisas, mas sem alterar as bases sobre as quais essa sociedade está construída…</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Como não se sentir tocada? Quem for ler a entrevista na íntegra, verá que quem começa falando e perguntando é Erundina, a entrevistada. Vi que seria difícil me colocar. Mas, ao final, na mesa do café, ela me agradeceu a entrevista, que tomou um rumo que ela não esperava, a fazendo também respirar outras brisas. Que nos inspiremos nesse encontro geracional, pois os desafios vindouros são grandes.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/03/158833/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A centralidade do território</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158381/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/12/158381/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Dec 2025 13:15:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158381</guid>

					<description><![CDATA[Pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Por Thiago Canettieri
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p style="text-align: justify;">Em um texto já <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="noopener">clássico deste site</a>, Caio Martins e Leonardo Cordeiro refletem sobre a experiência do Movimento Passe Livre (MPL), já em um rescaldo de 2013, quando, definitivamente, a fervura entornou do caldeirão. Quem se lembra das ruas, já há mais de dez anos, sabe muito bem que ali era confronto — a imediatidade com que explodiam, os rojões de um lado e as balas de borracha de outro não deixam espaço para dúvidas. O conflito contra a tarifa do transporte público. Como notam, acertadamente, a natureza dessa luta em específico, diferentemente de “outros movimentos urbanos — de moradia, por exemplo — dificilmente ultrapassam o limite de sua ocupação ou bairro, nas lutas contra o aumento, a mobilização tem a tendência a tomar conta de toda a cidade, a se generalizar como revolta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para eles, a revolta — palavrinha-chave para compreender 2013 — se refere a “um processo de fôlego curto, mas explosivo, intenso, radical e descentralizado. As primeiras manifestações atuam como ignição de uma mobilização que extrapola o controle de quem a iniciou – que perde toda a capacidade de interrompê-la. Há uma escalada de ações diretas: ocupação massiva e travamento de importantes artérias da cidade, enfrentamento com a polícia, ataques ao patrimônio público e privado, saques”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os jovens militantes do MPL sabiam muito bem o que poderia acontecer quando lançavam a primeira marcha contra o aumento de 20 centavos. Uma manifestação pequena aqui, que explode e incendeia todo um país. Era essa a intencionalidade por trás da mobilização. Claro, não há ingenuidade em acreditar que a explosão ocorra espontaneamente — “depende quase sempre de um polo altamente organizado da luta, uma organização que elabora e formaliza seu sentido e lhe garante alguma coesão”, escrevem Caio e Leonardo.</p>
<p style="text-align: justify;">A medida que junho avança, a revolta esquenta o inverno brasileiro daquela longínqua data:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Greve geral, ocupação dos prédios públicos, tomada da cidade por barricadas em cada bairro, expropriação de frotas… eis alguns desdobramentos que o ascenso popular abria à imaginação às vésperas do anúncio da revogação do aumento. É precisamente a ameaça de um enorme salto organizativo dos trabalhadores que alarma a classe dominante – o “caos social” bate à porta e deve ser contido pelo governo, cedendo. A tática histórica das lutas contra o aumento, que aqui chamamos de “revolta popular”, aposta para seu sucesso nessa ameaça e, no entanto, depende, ao mesmo tempo, de que ela não se realize. Para conquistar a reivindicação central, a revolta deflagra um processo explosivo, que é necessariamente freado no momento em que se atinge a conquista.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a tática é eficiente, o salto organizativo já nasce castrado e vai existir apenas como vislumbre. A breve perda de poder sobre as ruas permite entrever outro poder, um poder popular, tão palpável quanto inalcançável naqueles dias. Ao existir justamente na tensão entre uma minoria altamente organizada e uma maioria não organizada, a revolta popular limita a si mesma. Pois, ao mesmo tempo que, na luta contra o aumento de São Paulo, a população agiu diretamente sobre sua vida, não é menos certo que existia um comando que decidia o que fazer. Se depois de junho uma parte da esquerda avaliou que o problema no processo era a carência de uma “direção revolucionária”, nos parece o contrário: nas revoltas contra o aumento, o que falta – e por isso se trata de revoltas – é horizontalidade, ou seja, poder direto dos que estavam nas ruas sobre o que estavam fazendo, algo que depende da existência de estruturas enraizadas no dia a dia dos trabalhadores.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta popular deve sair do controle — é nessa perda de controle que se permite conceber, pensar, sentir, viver uma transformação social, ainda que inconstante e muito breve. E, assim, junho passou; a revolta arrefeceu e foi administrada. Por um lado, forças repressivas aprenderam a dispersar as marchas, a destruir barricadas. Por outro lado, de dentro das revoltas, despontaram interesses partidários institucionais que colocaram essa energia para girar a máquina de disputa de votos. “Os protestos entram nos cálculos dos políticos, da imprensa e das seguradoras. A rua como fim em si mesma é um beco sem saída”. Dessa maneira, Caio e Leonardo apontam para o esgotamento da tática da revolta popular, não por deixar de existir, mas porque não foi possível ir além dela.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dizer que a tática histórica que aqui chamamos de “revolta popular” se esgotou não é, em nenhuma instância, decretar o fim da revolta – aquela atitude que há séculos pulsa entre os dominados. Ao contrário, esta nunca esteve tão presente: desde junho, a disposição à luta só cresceu. Mas o que construímos além dessa disposição? Milhões saíram às ruas e, de volta à casa, ao bairro, ao local de trabalho, voltaram à rotina de sofrimentos e humilhações (talvez um pouco mais indignados)? Embora tenha produzido ecos, o momento de mobilização não conseguiu ir além de si mesmo, não encontrou continuidade em um momento de organização.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alguns anos mais tarde, Francesc e El Quico escreveram<a href="https://passapalavra.info/2021/03/136271/" target="_blank" rel="noopener"> outro texto para este site</a> que ecoa as formulações apresentadas. Com um ano de pandemia e dois de governo Bolsonaro, os conflitos na sociedade brasileira se acumulavam. O trabalho urbano ganhava uma nova fisionomia, marcada agora pela<a href="https://blogdaboitempo.com.br/2020/07/30/breque-no-despotismo-algoritmico-uberizacao-trabalho-sob-demanda-e-insubordinacao/" target="_blank" rel="noopener"> gestão algorítmica do trabalho precarizado</a>, que aumentou na pandemia. E nesse cenário, Francesc e El Quico identificam que a esquerda se retirava do conflito &#8211; para eles, há nas fileiras da esquerda, um temor pelo conflito que acabam “imobilizando sua capacidade de imaginar conflitos que não terminem por voltar-se contra ela mesma”. Daí se deriva o caráter restauracionista do progressismo brasileiro, enquanto “os reacionários se tornaram progressistas no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro”, como escreve <a href="https://blogdaboitempo.com.br/2019/07/23/a-decisao-fascista-e-o-mito-da-regressao-o-brasil-a-luz-do-mundo-e-vice-versa/" target="_blank" rel="noopener">Felipe Catalani</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a esquerda via-se enredada na manutenção governamental da administração securitária do colapso social — o que necessariamente resulta na incapacidade de transformar o mundo. Mais do que isso, como se olha essa situação com os olhos de um passado idílico, carece na esquerda os instrumentos epistemológicos e organizacionais para pensar a partir desse novo terreno social. O mapeamento cognitivo que fez sentido para a esquerda, baseado num mundo do trabalho relativamente estável e em instituições democráticas e republicanas mais ou menos consolidadas, parecia dar régua e compasso à ação da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">O capital, enquanto processo cego, automático e contraditório, não permite que sua existência seja sempre idêntica ao longo da história. Enquanto forma social, o capital se reproduz de modo contraditório. Na medida em que busca aumentar a produtividade do trabalho para abocanhar uma fatia sempre crescente de mais-valor, ele impede a valorização de acontecer, pois, no mesmo golpe, expulsa o trabalho vivo das tramas produtivas. Assim, em sua ânsia de valorização, acaba tornando a si mesmo anêmico de valor. Essa dinâmica contraditória foi primeiramente exposta por Marx, mas foi mantida como contribuição marginal à esquerda marxista. O diagnóstico de Marx envolveu reconhecer a necessidade da crise. Contudo, essa leitura foi negligenciada pelas organizações políticas que se diziam inspiradas em seus escritos. Há causa para essa situação controversa: o diagnóstico não cabia na gramática política, que, desde antes de Marx, já colocava o trabalho como categoria privilegiada da ação política. Colocar ênfase na crise do trabalho e em sua obsolescência significaria a dissolução de sua gramática política — o que definitivamente aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, essa interpretação marxiana ficou relegada às correntes subterrâneas do marxismo e apenas germinou novamente quando se tornou patente a situação descrita por Marx um século antes. A crise se instalou à medida que os desenvolvimentos das forças produtivas, propiciados pela revolução da robótica, da programação e da microeletrônica, se disseminavam: a elevação da produtividade é tamanha que o trabalho, enquanto mediação social, torna-se estruturalmente supérfluo ao capital. Situação percebida não só pelos marxistas subterrâneos, mas também pelo nosso presidente-sociólogo tucano: agora há os inempregáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses estão fora do mundo do trabalho — a sobrevivência dessa classe crescente depende da viração. Uma vez que uma massa de “<a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/12/04/mais!/18.html" target="_blank" rel="noopener">ex-proletários virtuais</a>” já não encontra como se inserir nessa gramática política, o mapeamento cognitivo que permitia estruturar a prática política por meio das organizações vai ao chão. A despeito, é claro, do sincero apego de muitos em relação a essas formas, o que ocorre nas últimas décadas do século XX e se intensifica ao longo do século XXI é a dissolução dessas formas sociais. As categorias que determinaram a existência social por muito tempo vêm se erodindo. Trata-se de uma impossibilidade lógica de continuar a utilizá-las para substancializar o mapeamento cognitivo de nossa realidade em crise.</p>
<p style="text-align: justify;">A complexidade não diminuiu em nada — o mundo não se tornou mais transparente porque as determinações de existência impostas pelo processo social do capital entraram em debacle. Ao contrário, a situação embaralha ainda mais nossa capacidade de tomar ações comensuráveis à realidade social. Embaralha-se porque as formas pelas quais era possível estabelecer a transitividade entre as escalas, do local ao global, do específico ao geral, também são corroídas pela crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo de crise contemporâneo colocou um desafio, podemos dizer, metapolítico para a tradição que se dedica não só à interpretação do mundo, mas também à sua transformação. Para pensar uma resposta comensurável com a realidade do <a href="https://sentimentodadialetica.org/dialetica/catalog/book/132">novo tempo do mundo</a> é preciso pensar uma resposta comensurável com a realidade em que uma organização política se encontra.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem mais um mapa da realidade, “É por aí que se deve compreender a ressurreição periódica e intempestiva do trabalho de base e certas noções meio franciscanas de solidariedade e autodisciplina” &#8211; como escrevem Franscesc e El Quico. Curiosamente, às vezes, as saídas são mais fetichistas do que a porta de entrada nessa realidade social em desagregação.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, por motivos de desposessão originária, as pessoas em todo o mundo tornaram-se trabalhadoras, durante um tempo, essa condição de reprodução social compartilhada servia de âncora política para a ação. Agora, parece que “a única alternativa é seguir na correria sem fim, se virando em condições mais e mais adversas”, como ensina a <a href="https://www.xn--estilhao-y0a.com.br/masterclassdofimdomundo" target="_blank" rel="noopener"><i>Masterclass de fim do mundo</i></a>. A reprodução social passa agora por uma miríade de estratégias que frequentemente prescindem da forma-trabalho, o que, claro, produz efeitos políticos profundos, como tentei escrever em um texto anterior para este site. Nessas condições, a ação política toma a forma de motins que não permite o acúmulo de forças:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sem o antigo “horizonte de ‘conquistas’ a serem acumuladas, numa perspectiva mais ampla de integração progressiva”, o que resta às lutas do nosso tempo é refluir aos poucos ou escalar imediatamente, assumindo, sem qualquer mediação, formas insurrecionais (sem antes e depois).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há luta, insurgência e conflito na sociedade, “tão intensos quanto descontínuos, sem jamais assumir formas estáveis” &#8211; continua a <i>Masterclass</i>.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na viração das esquinas, entre “empregos de merda” e “trampos” temporários – ali onde não há nada de promissor à vista a não ser cair fora –, a insubordinação irrompe com a mesma urgência, o mesmo imediatismo da produção just in time. Os conflitos explodem como um gesto desesperado, um grito de “foda-se” em que se misturam “sofrimento, frustração e revolta”, frequentemente sob a forma de um ato de desforra individual – ou, quando muito, coletiva. Assim como a recente onda de deserções do trabalho nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, a debandada dos call centers nos primeiros dias da pandemia no Brasil era um sinal de recusa a uma rotina que, para arcar com a “normalidade” em colapso, torna-se ainda mais infernal. A cada nova emergência – sanitária, ambiental, econômica, social –, gira o parafuso da intensificação do trabalho, todos integralmente mobilizados num esforço sem fim em que não se formam senão “experiências negativas”. Se os “não-movimentos” trazem uma boa notícia, contudo, ela é justamente essa: eles “indicam que o proletariado já não tem nenhuma tarefa romântica”, sem ter nada a esperar e também nada a perder.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltemos a 2013. Caio e Leonardo, no primeiro texto resenhado aqui, notam que “ Se não saímos de 2013 com um aumento na organização dos de baixo, talvez o terreno para essa organização esteja mais fértil. Ao apontar para algo vivo para além do cotidiano morto de consensos e consentimentos, junho quebrou o feitiço”. Se essa afirmação “envelheceu mal” como se diz, não é por erro de análise dos camaradas no calor do momento, mas porque a própria realidade agudizou suas contradições em direção ao cenário de desagregação social e de motins sem acúmulo. O que interessa, contudo, é o questionamento levantado pelos autores ao final do texto: “Como fazer com que o vislumbrado passe do possível para o real? É, no mínimo, indispensável superar a centralidade da tática de revolta e formular uma perspectiva estratégica mais ampla, a perspectiva de uma recusa mais potente, enraizada no cotidiano. É preciso construir o que se tornou imaginável.” Questão que foi acompanhada por outras colocadas por Leo Vinicius, em um <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/#comment-232857" target="_blank" rel="noopener">comentário ao texto</a>: “É possível ir além da ‘revolta popular’ quando a tarifa aumenta (e lembrando que são relativamente poucas vezes que há manifestações com forte adesão quando elas aumentam), em direção a uma construção/situação de conflito permanente? É possível ir da greve na cidade-fábrica à construção do conflito permanente na cidade-fábrica? É possível construir um conflito cotidiano, permanente no transporte coletivo, que torne cada vez mais insustentável a forma de organização/gestão do transporte, abrindo caminho para a tarifa zero? Se sim, como?”</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se navega de dentro da crise, encontramos um cenário de crise que acumula adversidades, dificultando a construção da centralidade da tática da revolta. O mundo do trabalho entre o emprego de merda, a uberização, e o empreendedorismo; a renda familiar carcomida por pagamento de juros dos endividamentos sucessivos ou da fantasia nas apostas online; a presença irremediável de recursos dos programas assistenciais do Estado ou das igrejas, entre tantos outros. Contudo, essa mesma crise parece oferecer possibilidades de ação que não colocam a centralidade no conflito, mas sim no território.</p>
<p style="text-align: justify;">Por território, entendo o conjunto de relações de reprodução social que ocorrem em um determinado espaço. O território é o lugar onde o cotidiano acontece. São várias as experiências militantes que parecem produzir uma sobrevida temporal das experiências de luta a partir da construção de um vínculo territorial. As ZADs, as ocupações, os territórios liberados. <a href="https://www.glacedicoes.com/product-page/casa-encantada-renato-baruq" target="_blank" rel="noopener">Baruq</a>, da ocupação em BH, Kasa Invisível, compreende a importância de se construir infraestruturas reprodutivas para liberar pessoas das relações sociais capitalistas, permitindo que mais energia seja dispendida em organização e em luta (inclusive na produção de revoltas populares) do que a energia gasta no trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desta maneira, pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Um território pode surgir de uma revolta — não foi isso que aconteceu, por exemplo, na <a href="https://fpabramo.org.br/editora/wp-content/uploads/sites/17/2021/05/Luxo-Comunal.pdf" target="_blank" rel="noopener">Paris de 1870</a> ou em <a href="https://web.archive.org/web/20200610164217/https://industrialworker.org/the-birth-of-the-capitol-hill-autonomous-zone/" target="_blank" rel="noopener">Capitol Hill, de 2020</a>? É no território que é possível a fusão entre política e cotidiano, militância e reprodução. Nessas condições, a ação política não se torna um momento de interrupção dos fluxos da cidade, mas estende-se ao cotidiano. Mesmo nos casos efêmeros, como a Comuna (72 dias) ou a Capitol Hill Autonomous Zone (23 dias), há um saldo: a transformação se colou ao cotidiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro, se um determinado território vai se tornar uma plataforma eleitoral, de comércio ou mais um bairro comum — perdendo seu vínculo com uma política de transformação social —, o tempo revelará. Ou então, pode ser massacrado, despejado e perdido. Frequentemente, esse parece ser o destino dos territórios.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata aqui de negar os conflitos — ou não apostar nos conflitos como faíscas para incendiar o rastilho de pólvora de uma vida desgraçadamente incorporada ao colapso que vivemos. Por exemplo, <a href="https://illwill.com/memes-without-end" target="_blank" rel="noopener">Wohleben </a>reconhece que “O que importa é identificar, nesta ou naquela situação, como práticas anônimas, sem dono e inapropriáveis, originárias da vida cotidiana, são magnetizadas por conflitos, e qual o alcance potencial que cada uma delas ainda pode ter.”</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos, mais uma vez, a 2013. No dia 27 de junho de 2013, numa ocupação da prefeitura de São Paulo convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL) no contexto da onda de grandes manifestações que tomou as ruas de todo o Brasil, ocorreu uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=QyPBUDlV4d4" target="_blank" rel="noopener">aula pública com Paulo Arantes</a>. O professor tratou de responder a seguinte questão: Como se explica o fato de que um milhão de pessoas tomaram as ruas das metrópoles brasileiras em menos de uma semana? O próprio filósofo já descarta a resposta usual que atribuía importância à internet e às novas redes sociais, que tentava explicar Occupy Wall Street, Primavera Árabe ou a experiência das acampadas dos Indignados espanhóis. Para tanto, Paulo Arantes faz uma resenha de um <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/a-revolucao-nao-sera-tuitada/" target="_blank" rel="noopener">artigo de Gladwell</a> no qual busca pensar as condições da livre associação com potência de transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">Gladwell então recupera uma pequena história do movimento negro por direitos civis na segunda metade do século XX nos Estados Unidos, uma sociedade profundamente segregada.  A história é sobre quatro jovens negros, calouros na North Carolina A&amp;T, uma faculdade para negros. Eles entraram numa lanchonete e se sentaram na área destinada aos brancos (os negros deviam se alimentar de pé no balcão). Um deles pediu: “um café por favor”. A atendente recusou e lembrou os jovens que não poderiam se sentar naquele local, mas insistiram no pedido e não saíram da posição a despeito do risco de serem linchados. Brancos, que provavelmente estavam dispostos a tomarem tal atitude, se colocaram logo atrás dos jovens negros e proferiram as ameaças mais terríveis contra eles, mas, ainda assim, continuaram sentados até o fechamento da lanchonete e, no dia seguinte, retornaram ao mesmo local e repetiram o pedido. Continuaram durante a semana inteira, enquanto corria a notícia por todo o Estado, e, em menos de dez dias, caravanas de negros que se organizavam foram até a pequena cidade do interior de 50.000 habitantes, até o momento em que esses peregrinos militantes eram equivalentes a metade da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O que interessa é notar as condições que permitiram tal ato de existir e de lograr sucesso. Paulo percebe três características fundamentais: i. vínculos fortes entre os envolvidos, de amizade e camaradagem &#8211; ou seja, uma rede através das quais ações podem repercutir e se acumular; ii. a implicação do corpo de cada um em uma situação de risco compartilhado com seus amigos &#8211; uma vez que o corpo negro faz diferença no sistema de opressão racializada e; iii. o envolvimento em uma mesma causa, ou seja, a capacidade de adotar uma perspectiva comum, a partir da qual as perturbações sociais produzidas pelo “experimento” dos estudantes podiam ser reconhecidas e transmitidas entre todos os que se engajaram na luta.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas características marcaram, por exemplo, a experiência política dos Black Panther Party: trata-se de uma forma de organização comunitária para que jovens negros permaneçam vivos, atrelada fortemente aos vínculos cotidianos, aos riscos corridos e ao compartilhamento da pauta. Frequentemente esquecidos, os Panteras Negras organizaram, por mais de uma década, <a href="https://blackpast.org/african-american-history/black-panther-partys-free-breakfast-program-1969-1980/" target="_blank" rel="noopener">o programa de cafés da manhã</a> para as crianças das comunidades negras onde atuavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tipo de atuação desloca o eixo que tradicionalmente caracterizou a prática política. Nesse formato clássico, o espaço da política é um espaço separado da vida cotidiana — baseado nas ideias de representação que informaram tanto a democracia formal quanto a ação de muitas das organizações revolucionárias por aí. Uma forma de organização da política, direcionada ao que estou chamando aqui de território, produz uma aproximação, um amálgama entre o gesto político e a prática reprodutiva cotidiana. Como escreve Wohleben, “Podemos até dizer que o verdadeiro movimento começa no momento em que as pessoas deixam de procurar alguma fonte externa para legitimar suas ações e passam a confiar e agir de acordo com sua própria sensibilidade, sua própria percepção do que faz sentido e do que é intolerável. A partir desse momento, todo o aparato da política oficial começa a entrar em colapso, permitindo que todos vejam que ele é o inferno gerencial que realmente é.” O mesmo autor reconhece que o verdadeiro horizonte dessas ocupações do espaço não é interromper o fluxo da economia, mas “produzir bases territoriais habitadas” e que, assim, permita colocar a ação política no “mapa da vida cotidiana”.</p>
<p style="text-align: justify;">Duas citações podem, talvez, iluminar meu argumento. A primeira, de Marx, nos <a href="https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap05.htm" target="_blank" rel="noopener">Manuscritos de 1844</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quando artesãos comunistas formam associações, o ensino e a propaganda são seus primeiros objetivos. Mas, sua própria associação cria uma necessidade nova &#8211; a necessidade da sociedade &#8211; o que parecia ser um meio torna-se um fim. Os resultados mais notáveis desse fato prático podem ser vistos quando operários socialistas franceses se reúnem. Fumar, comer e beber não mais são meios de congregar pessoas. A sociedade, a associação, o divertimento tendo também como fito a sociedade, é suficiente para eles; a fraternidade do homem não é frase vazia, mas uma realidade, e a nobreza do homem resplandece sobre nós vindo de seus corpos fatigados.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cento e setenta e cinco anos depois, <a href="https://illwill.com/print/memes-with-force" target="_blank" rel="noopener">Torino e Wohleben</a>, escrevem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Foram estas últimas lutas que mais claramente provaram a eficácia estratégica de armar “lugar” como elemento de ataque, de converter a habitação vital de um território de vida intensa em um meio de deslegitimação da gestão estatal e econômica. Ao mesmo tempo, a manobra dos Coletes Amarelos é diferente. Em vez de muitas pessoas de toda a Europa convergindo em duas ou três “zonas a defender”, as rotundas de Coletes Amarelos permanecem próximas da vida cotidiana. Esta proximidade à vida cotidiana é a chave para o potencial revolucionário do movimento: quanto mais próximos os bloqueios estiverem da casa dos participantes, mais provável é que esses lugares se tornem pessoais e importantes de um milhão de outras formas. E o fato de ser uma rotunda que é ocupada em vez de uma floresta ou um vale retira o conteúdo prefigurativo ou utópico desses movimentos. Embora isto possa parecer, à primeira vista, uma fraqueza, pode revelar-se uma força.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Apesar da distância histórica, elas se encontram ao elucidar uma questão de método: é no compartilhamento de um território, a partir de práticas cotidianas de reprodução da vida, que reside a possibilidade de transformação. Como escrevem Torino e Wohleben, “É a constituição de lugares coletivos que forma o núcleo destituinte/revolucionário do movimento, que supera a oposição entre a revolta e a vida cotidiana”.  A ação política transformadora não estaria fundamentada essencialmente no local de trabalho ou na figura do trabalhador, nem na identidade territorial delimitada, nem em um evento de verdade, muito menos em uma campanha eleitoral apoteótica, mas sim em questões de reprodução social que atravessam o tecido social e constituem um território. Talvez esteja aí o lugar para pensarmos uma estratégia política para o tempo presente.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/12/158381/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>10</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Depois de outubro, a guerra será total</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/11/158137/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/11/158137/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Nov 2025 13:21:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158137</guid>

					<description><![CDATA[Da insurgência à paz armada ao abraço no próprio assassino, o que se passou? Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level2">
<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">O título é uma releitura do título do texto de Paulo Arantes, “Depois de junho, a paz será total” <strong>[1]</strong>, que se referia às Jornadas de Junho de 2013. Embora pareça ter sentido inverso ao original, entendo mais como um aprofundamento dos processos que ele descreve ali, pois a “paz” do título de Paulo, com certeza, tem aspas invisíveis &#8212; na medida em que ele constrói, no texto, a ideia de uma era da <em>paz armada</em> desde a década de 1990, após as chacinas da Candelária e do Vidigal em 93, sem que nos esqueçamos do Massacre do Carandiru em 92, que só foi superada no último dia 28 de outubro pela megaoperação policial no Rio de Janeiro, que deixou mais de 120 mortos. Outubro, aqui &#8212; longe da revolução &#8212; também é uma referência às eleições do ano que vem que, com certeza, já são desde este outubro um marco do estado de guerra que nos encontramos. Chacinas como estas não são eventos pontuais. Elas inauguram novas eras políticas pois condensam períodos históricos ao mesmo tempo em que reorganizam o que vem pela frente. Entendê-las, portanto, é fundamental &#8212; embora eu não vá fazer isso aqui, pois nem conseguiria, gostaria ao menos de deixar isso assinalado como tarefa coletiva necessária.</p>
<p style="text-align: justify;">Paulo construía naquele texto do início de 2014 a noção de que nossa redemocratização estava baseada na eficiência de uma gestão do social &#8212; que, sem isso, seria explosivo &#8212; que articulava a miríade ascendente do terceiro setor e empresariado com a “pacificação contrainsurgente”, ou o que, citando Andrew Bacevich, ele chamou de “trabalho social armado” contra nosso “inimigo interno”: o tráfico de drogas territorializado nas favelas. O que, como vejo na prática, também já define o “favelado”, se não como inimigo declarado, ao menos como um <em>socius matável</em>, elemento necessário para a conflagração, inclusive, do território da guerra. Para Paulo, a definição de um inimigo interno seria um dispositivo necessário para produzir e manter essa <em>gestão do social como paz armada</em>, uma espécie de pacto de transição do Estado autoritário &#8212; que, portanto, se mantém durante o período democrático ali ao lado, ou nas franjas, altamente aquecido e atualizado nas mais modernas formas de guerra, a guerra urbana &#8212; com direito à campo de treinamento no Haiti.</p>
<p style="text-align: justify;">Junho de 2013 seria, neste texto de Paulo, um ponto de virada pois demarcaria o momento de <em>reação</em>, pois até então a “contrainsurgência preventiva” se dava sem ser resposta a qualquer insurgência de fato. Em 2013, os manifestantes não fogem da polícia, eles a enfrentam &#8212; e, para Paulo, “o país não voltará a ser o mesmo”. Em outubro de 2025, olhando para os corpos enfileirados na Praça da Penha no Rio de Janeiro, podemos afirmar: o país de fato nunca mais foi o mesmo e não será. Pois não se trata de mais uma chacina dos mesmos corpos pretos de sempre, no mesmo território periférico de sempre, pela mesma polícia assassina de sempre, dentro da lógica de pacificação armada da nossa frágil democracia. Há algo de novo seja no número superlativo, no modo como ocorreu, ou ainda na <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/01/quaest-64percent-dos-moradores-do-rj-aprovam-megaoperacao-nos-complexos-do-alemao-e-da-penha.ghtml" href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/01/quaest-64percent-dos-moradores-do-rj-aprovam-megaoperacao-nos-complexos-do-alemao-e-da-penha.ghtml" rel="ugc nofollow">reação</a><a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/01/quaest-64percent-dos-moradores-do-rj-aprovam-megaoperacao-nos-complexos-do-alemao-e-da-penha.ghtml" href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/01/quaest-64percent-dos-moradores-do-rj-aprovam-megaoperacao-nos-complexos-do-alemao-e-da-penha.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> da sociedade</a> &#8212; cujos aplausos não se restringiram à Zona Sul, mas foram ainda mais intensos junto ao “público alvo”, como diria Paulo, os mesmos moradores de favelas que estão na mira do fuzil da polícia. Juntemos na mesma frase as duas <em>reações</em>: da insurgência à paz armada &#8212; que Paulo adjetiva como “profanatória” &#8212; ao abraço no próprio assassino, o que se passou?</p>
<p style="text-align: justify;">O curto-circuito é grande, com ares de patologia psicossocial &#8212; e me parece que a narrativa heróica, claramente alucinada, da “retomada de território pelo Estado” envolve deslizamentos semânticos tão grandes quanto a psicose coletiva que não deixa ver que esse Estado não é nada daquilo que a rápida brisa de esperanças pós-redemocratização sonhou. O desespero de viver em território conflagrado é tamanho que vemos as apelações por salvação recaírem sobre figuras tão evanescentes quanto Deus e o Estado Democrático de Direito. A “terapia social”, forma de governo que teria sustentado o sofrimento das populações empobrecidas até 2013, segundo Paulo, dá agora claras mostras de não existir mais. Segundo ele,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>“(…) foi se consolidando no Brasil a ideia verdadeiramente consensual segundo a qual, sendo Democracia e Estado de Direito uma coisa só, a gradativa submissão do político ao ordenamento jurídico nada mais seria do que a expressão conforme de uma prática social fundamentada no discurso dos direitos humanos” (Arantes, 2014, p.454).</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não é este Estado como terapia social que o abraço no assassino pede, mas sim o Estado vingador, com braço forte. Pois é esta a forma de governo que tais populações conhecem, e que se aprofundou definitivamente em todo o país após 2016, ano não só do fim da era de terapia social, mas também ano de virada no controle de fronteiras do país para o tráfico internacional de cocaína &#8212; quando Jorge Rafaat Toumani, chefe da fronteira Brasil-Paraguai é morto e, desde então, as facções brasileiras mudaram substancialmente o tamanho de seus negócios, sua forma de governo de territórios e seu poder de guerra, competindo pelo domínio logístico.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então, não há alternativa de vida a estas populações que não aquela de ser controlada por grupos armados em disputa pelo seu <em>governo</em>, pela legitimidade de ser ao mesmo tempo aquele que protege e aquele que extorque, que extrai. E o Estado que disputa território da maneira que vimos no último 28 de outubro no Rio de Janeiro nada mais é do que mais uma milícia &#8212; a única lógica de governo que a população passou a legitimar. Assim, um governo de milícias legitimado por sua população parece ser o único futuro-presentificado no horizonte. É um mundo de falência das possibilidades de construção de alternativas, cuja criatividade &#8212; que fazia parte do <em>ethos</em> do trabalhador em seu metabolismo com a natureza &#8212; não tem lugar, dando espaço a uma forma política que busca apenas a <em>salvação</em>, um destino messiânico guiado por um governo implacável com a “injustiça”, que não aguenta mais sofrer sem terapia.</p>
<p style="text-align: justify;">Falando em mundo do trabalho, o empreendedorismo aparecia no texto de Paulo como a tábua salvadora oferecida para os territórios sem emprego (“o empreendedorismo dos pobres não é nenhuma esquina da história nacional, mas uma saída de emergência para o colapso da sociedade salarial” p.375), mas pacificados e abertos, portanto, ao mercado. Segundo ele,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>“De UPP em UPP, a contrainsurgência sem insurgência vai assim gerando o objeto do acordo tácito entre Estado, Empresas, Terceiro Setor, Comunidade, o simulacro de uma &#8212; como se diz no jargão impiedoso &#8212; sociedade civil ativa e propositiva, o sonho de consumo no qual convergem as supracitadas entidades, regidas todas por uma mesma e nova racionalidade política, contra a qual </em><span style="text-decoration: underline;"><em class="u"><em>ainda estamos aprendendo a lutar</em></em></span><em>. Pois a Pacificação assim entendida não é mais um baluarte a ser tomado de assalto, e sim um processo de autoempresariamento sem fim &#8212; </em><span style="text-decoration: underline;"><em class="u"><em>pouco importando o grau de ficção e padecimento no processo</em></em></span><em>, bem como a </em><em>predação concorrencial que ele necessariamente comporta” (Arantes, 2014, p.372. Grifos meus).</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pouco mais de uma década decorrida deste texto, na qual o social foi deixando de ser gerido e passando a explodir de fato, parece que a “ficção e padecimento no processo” passaram a importar sim, na medida em que <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2022/04/143178/" href="https://passapalavra.info/2022/04/143178/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as lutas que fomos aprendendo a lutar refluíam</a>, a pacificação se mostrava ilusória na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2022/09/145800/" href="https://passapalavra.info/2022/09/145800/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">disputa armada cada vez mais acirrada por mercados</a> e a salvação se mostra cada vez mais longe de algo que se possa fazer por si mesmo, dentro da racionalidade empreendedora. A necessidade de um Deus vingador, ou de um líder messiânico, que salve a todos, sem gestão, nem terapia, parece ser a única possível para uma população em desespero. A era da pacificação parece chegar ao fim, junto com a derrocada das ilusões colocadas no empreendedorismo.</p>
<p style="text-align: justify;">As eleições, em meio a essa conjuntura, não são mais um simples rito democrático de troca de governo, ainda mais <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2023/01/147145/" href="https://passapalavra.info/2023/01/147145/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">agora que o outro “Messias”, que ainda jogava o velho jogo político</a>, está fora do tabuleiro. Elas são o ponto focal para onde se dirigem os candidatos a deuses vingadores. Sua plataforma política não tem mais propostas, mas sim corpos enfileirados no chão, <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/reel/DRAjAkpEq5F/?igsh=NzNibzBpaXJmMzhs" href="https://www.instagram.com/reel/DRAjAkpEq5F/?igsh=NzNibzBpaXJmMzhs" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“sumidos” em casas terapêuticas ou sem poder parar na rua sob a mira do fuzil, como estamos vendo em São Paulo</a>. Isso porque a competição apenas começou &#8212; e a profanação mudou de significado.</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn">
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Arantes, Paulo. “Depois de junho, a paz será total”. In: O novo tempo do mundo. São Paulo, Boitempo Editorial, 2014.</div>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/11/158137/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Favela do Moinho: “Vocês ainda estão aqui?!”</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157652/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/09/157652/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Sep 2025 12:23:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157652</guid>

					<description><![CDATA[A resistência histórica da Favela do Moinho no centro de São Paulo é exemplo contundente de que muitas pessoas “ainda estão aqui”, apesar da brutalidade a qual estão cotidianamente submetidas pelo Estado. Por Isadora Guerreiro e Débora Ungaretti]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora Guerreiro e Débora Ungaretti</h3>
<p style="text-align: justify;">No último dia 8 de setembro foram presas em suas casas as duas principais lideranças da Favela do Moinho, Alessandra Moja e sua filha, Yasmim Moja Flores, além de mais 9 pessoas da comunidade. Cenas de violência invadiram a favela ao alvorecer daquele dia. Pelos <a class="urlextern" title="https://youtu.be/h1BPAMfa_Eg?si=ulYixbth851RjdZD" href="https://youtu.be/h1BPAMfa_Eg?si=ulYixbth851RjdZD" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatos</a>, além da injustiça das prisões e das acusações, a polícia forjou a existência de drogas na casa de Alessandra, sem se preocupar em esconder o ato, pelo contrário, deixando ostensivamente explícito que estava fazendo aquilo; seguiram-se cenas de tortura física e psicológica, com uso de choque elétrico. Apesar da semelhança, não era um porão da ditadura militar &#8212; mas podemos dizer que a resistência histórica da Favela do Moinho no centro de São Paulo é exemplo contundente de que muitas pessoas “ainda estão aqui”, apesar da brutalidade a qual estão cotidianamente submetidas pelo Estado. Desde então, o medo e a apreensão com a violência desproporcional tomou conta de quem ainda está na favela, o que tem acelerado a saída de famílias e pessoas mesmo antes de receberem o atendimento habitacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Particularmente em uma gestão do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157626/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157626/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Governo do Estado de São Paulo que sabemos a filiação</a>, e que no dia anterior à prisão das lideranças declarou publicamente durante a manifestação da direita nas comemorações da independência brasileira &#8212; regado à bandeira americana na Av. Paulista &#8212; apoio incondicional àqueles julgados e condenados no último dia 11 de setembro por Golpe de Estado. O grito dos policiais ao entrarem na Favela do Moinho na manhã seguinte foi bastante significativo: “vocês ainda estão aqui?!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sabemos se os policiais assistiram ou não ao filme, mas seria uma citação bem colocada. Eles se referiam, no caso, ao acordo feito entre os governos estadual e federal para a desocupação da área, que comentamos <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">na última coluna</a> &#8212; na qual terminávamos justamente analisando que, independente do acordo de atendimento habitacional, as famílias seriam removidas a todo custo e com urgência. O processo violento de limpeza social &#8212; esse sim de necessidade absoluta do Governo do Estado &#8212; não estava sendo interrompido pelo Governo Federal, como se propagandeou à época, mas mediado por forças que, no fim ao cabo, deram instrumentos para a aceleração do processo.</p>
<p style="text-align: justify;">A favela já está em ruínas, com cerca da metade da sua população deslocada. Os que “ainda estão ali”, dizem que aguardam a tramitação de sua documentação para o atendimento habitacional pelo Governo Federal e pelo Governo do Estado, temendo a violência policial, prisões em flagrante forjadas, e sair sem garantias. Evidentemente não parece ser apenas uma falta de comunicação entre a polícia e a CDHU, ou entre o Governo Federal e Estadual a questão: parece tratar-se de movimento típico do poder estatal na qual o emaranhado burocrático e a espera infinita, por um lado, e a repressão violenta, por outro, se combinam para negar qualquer tipo de saída digna. Aqui, a violência não é mera externalidade, mas parte constituinte desse processo de reestruturação urbana usado como dispositivo para eliminar um território popular e reconfigurar a correlação de forças no poder &#8212; aqui em uma escala bastante ampla, que sai do Moinho e chega na disputa nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Alessandra e Yasmim foram denunciadas por associação ao tráfico de drogas, acusação que mantém atualmente preso o irmão de Alessandra, Leo do Moinho &#8212; que dominaria, pelo PCC, o “ecossistema do tráfico de drogas” na região vizinha da dita “cracolândia”. A luta por <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/remocao-da-favela-do-moinho-revela-politica-habitacional-que-nao-atende-as-necessidades-das-pessoas/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/remocao-da-favela-do-moinho-revela-politica-habitacional-que-nao-atende-as-necessidades-das-pessoas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">garantia de atendimento habitacional que corresponda às necessidades habitacionais das famílias</a>, reconhecida e apoiada por movimentos sociais, entidades e coletivos que atuam historicamente pelo direito à moradia e a cidade, e universidades, dentre outros, foi desqualificada como defesa dos interesses do referido “ecossistema”. Digno de nota é o <em>timing</em> da polícia &#8212; que retoma, acompanhada pelo GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), a ampla operação <em>Salus et Dignitas</em> do Ministério Público iniciada em agosto de 2024 para a eliminação da “cracolândia” e que, notoriamente, não investiu contra estas lideranças naquele momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Timing </em>este que se dá logo após a megaoperação da Polícia Federal no dia 28 de agosto que articulou as operações Quasar e Tank com a Carbono Oculto do próprio GAECO do MP de SP. Neste dia, foi a vez da Av. Faria Lima, coração empresarial-financeiro de São Paulo, amanhecer sob investida da ação policial &#8212; um tanto mais comportada do que os porões da ditadura que reapareceram na casa de Alessandra, claro. A Faria Lima aparecia então dentro de outro “ecossistema” criminal, também ligado ao PCC &#8212; cujo dinheiro ilícito se mostra espalhado por toda a economia. A investida no Moinho logo após essa operação parece uma resposta, como que a (re)lembrar que bandido mesmo é quem está na favela… e se articula com o campo da esquerda, claro.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois de “ecossistema” em “ecossistema”, o dispositivo de criminalização vai sendo acionado, evidentemente, de forma política. O <em>timing</em> inclui um mês para a abertura dos envelopes da concorrência internacional da concessão da <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/nota-tecnica-ppp-sede-governo/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/nota-tecnica-ppp-sede-governo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Parceria Público-Privada (PPP) de transferência da sede do Governo do Estado para a mesma região</a> &#8211; <em>timing </em>esse que também está recaindo sobre as famílias das pensões das quadras onde será implantado o projeto, que estão sendo pressionadas individualmente pela CDHU a iniciar a desocupação a partir de 20 de setembro, após aderirem ao atendimento habitacional oferecido.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo <em>timing</em> inclui o calendário eleitoral federal e estadual que começa a se acirrar justamente nas duas figuras políticas maiores que estão disputando a narrativa do Moinho: Lula e Tarcísio, cujo evento do 7 de setembro praticamente colocou este último como candidato da direita, em meio à semana de condenação de Jair Bolsonaro. Não à toa, a imprensa soltou reportagens em seguida à prisão das duas lideranças do Moinho com fotos delas junto a Lula e a Boulos no dia do acordo sobre a destinação habitacional das famílias do Moinho, com chamadas bastante explícitas: “<a class="urlextern" title="https://www.metropoles.com/sao-paulo/video-lula-dividiu-palco-com-presa-por-trafico-na-favela-do-moinho" href="https://www.metropoles.com/sao-paulo/video-lula-dividiu-palco-com-presa-por-trafico-na-favela-do-moinho" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Vídeo: Lula dividiu palco com presa por tráfico na Favela do Moinho</a>” ou “<a class="urlextern" title="https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/ongueira-que-negociou-visita-de-lula-extorquia-moradores-diz-mp" href="https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/ongueira-que-negociou-visita-de-lula-extorquia-moradores-diz-mp" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Líder comunitária que preparou visita de Lula extorquia moradores</a>”. Guilherme Derrite, secretário de Segurança Pública de SP, também fez questão de fazer tais conexões em suas redes sociais, bem como outros políticos da direita, como Kim Kataguiri.</p>
<p style="text-align: justify;">O jogo de escalas aí está bem grande, ainda assim Alessandra, Yasmim e as demais pessoas presas, bem como as famílias que permanecem no Moinho, resistem para não sucumbir a ele, apoiadas por enorme rede de proteção &#8212; que inclui academia, advogados populares, coletivos variados, imprensa autônoma, movimentos populares e partidos e mandatos legislativos à esquerda. A repressão ao ato que se seguiu a sua prisão, realizado em 10 de setembro, foi expressão desse jogo de escalas desproporcional. Embora com poucas pessoas, o ato nem bem saiu da Favela do Moinho e já foi interceptado e dispersado com bombas de gás. Mesmo depois da dispersão, a polícia se dirigiu ostensivamente a um estabelecimento comercial no qual parte dos apoiadores se reuniram, capturou e conduziu coercitivamente um dos ativistas, ex-deputado estadual, que justamente tinha buscado interlocução com a polícia durante o ato para negociar o seu andamento, e assim evitar violência e dispersão. Afinal, tal rede de apoio também está na mira: segundo <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/09/08/operacao-do-mp-e-da-pm-mira-acusados-de-chefiar-trafico-de-drogas-na-favela-do-moinho-no-centro-de-sp.ghtml" href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/09/08/operacao-do-mp-e-da-pm-mira-acusados-de-chefiar-trafico-de-drogas-na-favela-do-moinho-no-centro-de-sp.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria do G1</a>, “os promotores afirmam que o grupo criminoso manipulava e financiava movimentos sociais que atuam na favela para dificultar a remoção das famílias”. Sem apresentar indícios ou provas, se reproduz a narrativa criminalizante que apoia o aprofundamento das alianças entre repressão estatal e negócios nos territórios do centro de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação em que chegamos é bastante grave. O que está ocorrendo em toda a região de Campos Elíseos em São Paulo não deve ser entendida apenas como mais um novo projeto de reestruturação urbana, ou ainda como guerra às drogas ou sua variante de “fim da cracolândia”. Isso tudo existe na região há muito tempo, mas nunca chegou ao grau de conflito e à escala de forças políticas que estamos assistindo. A articulação entre todos esses aspectos, na mão de um candidato à presidência que representa o bolsonarismo eficiente de face técnica e empresarial, com uso estratégico das forças de repressão &#8212; que inclusive transitam muito bem entre a legalidade estatal e a ilegalidade miliciana &#8212; deveria chamar a atenção de quem se preocupa com a ascensão da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos aspectos mais preocupantes é a ampla legitimação social das ações de repressão na região, em torno do binômio valorização imobiliária e guerra às drogas &#8212; que ganha adeptos num espectro social muito maior do que o próprio bolsonarismo. Em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/05/138119/" href="https://passapalavra.info/2021/05/138119/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">outro momento eu falava da guerra às drogas como cortina de fumaça</a> para o verdadeiro objetivo das forças estatais: avançar com domínio territorial em áreas que, por sua história e processo de produção urbana, se conformaram como espaços regidos por outras normatividades e lógicas sociais que impediam o avanço dos negócios. No Rio de Janeiro, cidade que eu tratava naquele momento a partir da chacina na Favela do Jacarezinho em 2021, o mecanismo das operações policiais parecia servir para a entrada de milícias em territórios antes dominados por facções do tráfico de drogas. Ali já ficava clara a articulação entre repressão estatal e negócios, num enfrentamento com lógicas comunitárias de produção dos territórios, onde o próprio lugar de mediação política e organização popular passou a ser tomado pelas milícias.</p>
<p style="text-align: justify;">Em São Paulo, Tarcísio já percebeu que a coisa é diferente, pois o PCC atua de outra forma em relação às facções cariocas: ao invés de ter domínio territorial, atua em redes de negócios dispersos, articulando empresários e empreendedores variados e, portanto, diluindo as fronteiras entre a economia formal e as informais ou ilícitas. Assim, o Governo do Estado sabe muito bem que destruir um território popular com as clássicas armas da reestruturação urbana &#8212; agora financeirizada por meio das PPPs &#8212; não desestrutura uma organização internacional como o PCC.</p>
<p style="text-align: justify;">Não tem nada a ver com o PCC, muito menos com as drogas. Tem a ver com um projeto político-econômico em curso, no qual a articulação empresarial-militar parece fazer cada vez mais sentido e ter consequências muito práticas e nefastas para todos aqueles que insistirem em “ainda estar ali”, resistindo. A criminalização da luta por direitos e da existência da Favela do Moinho escancara o significado do <a class="urlextern" title="https://www.geledes.org.br/todo-preso-e-um-preso-politico-os-panteras-negras-e-o-mnu-como-organizacoes-pioneiras-em-enfrentar-o-carcere/" href="https://www.geledes.org.br/todo-preso-e-um-preso-politico-os-panteras-negras-e-o-mnu-como-organizacoes-pioneiras-em-enfrentar-o-carcere/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">repertório que vem sendo construído pelos movimentos negros e abolicionistas penais de que “toda a prisão é uma prisão política”</a>. Reiteramos que Alessandra e Yasmim são presas políticas, antes de mais nada. Toda mobilização em torno da sua liberdade é necessária nesse momento, por quem “ainda está aqui”.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/09/157652/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>“Cabeça de vencedor”: a concepção de trabalho na racionalidade empreendedora de um motorista de aplicativo</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/08/157297/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/08/157297/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Aug 2025 17:40:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157297</guid>

					<description><![CDATA[Para além da novilíngua coach, o que será que isso significa? Por Thiago Canettieri]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p style="text-align: justify;">Conheci Reinaldo <strong>[1]</strong> saindo de mais um trabalho de campo realizado na área onde faço pesquisa. Neste dia, por conta de um compromisso, resolvi chamar um Uber. Reinaldo foi quem aceitou a corrida. Na conversa durante a viagem, fiquei sabendo que ele é morador do bairro desde o começo. Reinaldo trabalha de Uber desde 2020 – quando perdeu seu emprego anterior por causa da pandemia. Ele se define como um “empreendedor”<strong>[2]</strong> de “pensamento estratégico”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para ele, dirigir Uber demanda o que ele chamou de “cabeça de vencedor”. Para além da novilíngua coach, o que será que isso significa?</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto conversávamos, ele explicava suas “estratégias” para “colocar o aplicativo para trabalhar para ele”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tem que pensar lá na frente, sabe?” ele disse enquanto dirigia e me mostrava o trânsito no sentido contrário. “A gente que é Uber tem que fazer assim, tem que pensar lá na frente, cada vez que o aplicativo toca, tem a região da corrida e o preço. Aí a gente tem que calcular: vale a pena ou não vale? Mas não só com essa corrida em mente. Tem que pensar na próxima. Vou rodar muito ainda? Vou voltar para casa? Como está o combustível? Tudo isso em questão de segundos.”</p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhar como Uber envolveria um cálculo estratégico de tomada de decisão. Pode-se contar com a experiência – Reinaldo já roda com seu carro há cinco anos – mas “é sempre uma aposta”, ele diz. “Tem rota que a gente já conhece, já passou mil vezes, mas vai lá e, naquele dia, tá com trânsito.”</p>
<p style="text-align: justify;">Reinaldo, enquanto dirigia seu carro, comentava como era importante esse pensamento de empreendedor. Pois, as decisões que se toma vão definir se foi um dia bom ou um dia ruim rodando. Ele tenta sempre pegar corridas para onde acredita existir “melhores oportunidades”. Segundo ele, é mais vantajoso pegar menos corridas com valores mais altos, apostando em corridas que o levarão a lugares onde o preço está em modo dinâmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Perguntei a ele como tinha essa noção. Ele repetiu “é pensamento estratégico, sabe?”. Tentar se antecipar às possibilidades de ganho e às adversidades para tomar as melhores decisões e, desse modo, voltar para casa “como um vencedor”, tendo cumprido sua “meta de ganhos”.</p>
<p style="text-align: justify;">“É que nem fazer investimento”. Achei curiosa a referência que Reinaldo mobilizou para descrever sua jornada de trabalho de seis dias por semana que vai de meio-dia até meia-noite. Enquanto dirigia pelas ruas, Reinaldo transformava seu trabalho em um investimento. Seu tempo de trabalho aparece para ele como um investimento financeiro: não se trata do seu esforço, da oferta de emprego, do algoritmo do aplicativo, mas sobretudo, a questão para se tornar um “vencedor” reside exclusivamente nas suas próprias decisões.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Reinaldo explica: “A corrida tem que valer a pena financeiramente, não pela corrida sozinha, mas considerando o seu planejamento do dia, sacou? De como você vai organizar seu dia.” Cada decisão tomada, de pegar ou não pegar uma corrida – afinal, ele diz, “tem corrida que não vale a pena” – está orientada para “fazer um resultado legal, para valer a pena financeiramente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto chegávamos finalmente ao meu destino, ele disse como era importante, com esses cálculos, prever o que está no seu caminho, conhecer como o trânsito se comporta e tomar as melhores escolhas &#8211; assim é possível fazer um bom investimento. Perguntei sobre quando não dá certo e ele respondeu: “Olha, ontem mesmo, ontem foi um dia ruim. Pouca corrida, o aplicativo pagando pouco. Mas eu fui na resiliência, na paciência, na estratégia e consegui fazer um resultado legal”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me chamava atenção na nossa conversa de Uber era como ele mapeava seu trabalho. Sua jornada de trabalho é maior do que a média dos motoristas de aplicativo na RMBH.<strong>[3]</strong> É um trabalho extenuante. Ele mesmo deixou escapar em um determinado momento: “é cansativo, né, cara”. Mas mesmo diante de tudo isso, de sua experiência mais concreta atrás do volante, para ele fazia muito sentido pensar o que ele faz como um investimento. Por que Reinaldo mapeou seu trabalho como um investimento? Não tenho uma resposta direta para isso. Seria fácil tergiversar com uma resposta que falaria da doutrina neoliberal e como os ideais se colaram em Reinaldo. Não acho que só isso ajude a explicar a forma como Reinaldo compreende o próprio trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez, a resposta para isso, o próprio Reinaldo tenha dado já quando aproximávamos do final da corrida. Perguntei qual era seu plano para o futuro e ele confidenciou seu objetivo: “comprar mais um carro e ter alguém para rodar para ele”.</p>
<h4>Notas</h4>
<p><strong>[1]</strong> O nome é fictício.<br />
<strong>[2] </strong> Todas as aspas são da conversa com Reinaldo<br />
<strong>[3] </strong>Cf. Tozi, F.; Gianasi, L. M. (2023). Dirigindo para Uber: resultados da pesquisa. Belo Horizonte: Instituto de Geociências, UFMG. Disponível em:<a href="https://continenteufmg.com/" target="_blank" rel="noopener"> https://continenteufmg.com/ </a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/08/157297/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Trajetórias incertas no urbano da crise</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/06/156881/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/06/156881/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2025 12:42:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=156881</guid>

					<description><![CDATA[A vida de Douglas representa as trajetórias incertas que tantos outros moradores das periferias estão sujeitos. Por Thiago Canettieri]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas, um jovem adulto negro, estava me esperando com o portão aberto, sentado na calçada. Ao me apresentar, Douglas sorriu e cumprimentou de volta, apontando para entrar no seu “negócio”, como ele se referia. “É só não reparar na bagunça, está bem?”, falou enquanto entrava pelo portão. Atravessando o portão dava para um pátio, com dois barracões: um de alvenaria, com porta e janelas, onde Douglas estava morando e outro, ainda menor, estavam guardados os materiais de trabalho de Douglas: baldes, flanelas, cera veícular. Neste estava a inscrição Lava-jato Mil Grau também em estilo grafite. Havia um carro estacionado e rapidamente Douglas comentou: “esse daí fica para amanhã, hoje já encerrei o expediente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas usava uma bermuda e era possível ver uma tornozeleira eletrônica. Ele já adiantou: “estou respondendo em liberdade por tráfico”. Quando já sentamos, ele explicou: “Pois é, eu rodei e peguei cana por um tempo. Estava traficando. Mas graças a Deus isso ficou para trás. Agora estou no caminho certo, graças a Deus”.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o ensino médio completo, Douglas trabalhava como caixa de supermercado na região central da cidade desde 2012. Certo dia de outubro de 2016 foi chamado pelo gerente que o despediu. “Assim, sem mais nem menos”. Lembrando da época de carteira assinada, o discurso de Douglas é repleto de ambiguidades. Embora reconhecesse a importância da estabilidade e do seu salário, mesmo que diminuto, lembra das sucessivas humilhações que recebia dos clientes do supermercado: “Cliente é foda. Acha que pode tudo. E aí desrespeita demais, né?”. Em determinado momento diz: “Foi até bom deixar isso para trás”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele conta que chegou a procurar emprego por quase cinco meses, mas era em vão. As notícias da época apontavam para o aumento do desemprego. A situação o deprimiu e passou outros 03 meses “ficando só em casa”. Douglas é pai de duas filhas com a ex-esposa e, em sua situação, não estava conseguindo ajudar na criação das meninas. “Sorte das meninas que a mãe delas é fichada, é empregada, doméstica que fala, né? E a patroa é muito boa para as meninas, dá muita coisa para elas, porque se dependessem de mim, não dava” — confidenciou, encabulado.</p>
<p style="text-align: justify;">A plataforma Uber chegou ao Brasil no segundo semestre de 2014. A plataforma cresceu continuamente, em especial, com as restrições do mercado de trabalho de 2016, rapidamente se tornou uma das “maiores empregadoras do país” &#8211; mesmo que não se reconheça dessa maneira. Douglas foi um desses. Assim, uma vez despedido do trabalho como caixa de supermercado, Douglas “entrou no negócio da Uber” no final de fevereiro de 2017 &#8211; aproveitaria o carnaval, momento de maior demanda por corridas. No primeiro momento foi uma explosão de usuários — tanto de clientes, como de motoristas parceiros (como são tratados pelo aplicativo). Apesar de não ser um emprego formal, a Uber rapidamente começou a figurar entre as opções para a reprodução das pessoas, sobretudo aquelas recém-despedidas — ao menos para aquelas que dispunham de um carro. Douglas já tinha sua carteira de motorista, mas não tinha um carro seu. Recorreu ao seu pai, mecânico, que estava com um Gol 1.0 do ano 2012. Lavou o carro com cuidado em um final de semana e, com o cartão de crédito, encheu o tanque do veículo. Na segunda cedo baixou o aplicativo da Uber em seu smartphone e disse “estou indo trabalhar”.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu primeiro cliente apareceu mais de uma hora depois que estava rodando — “eu lembro”, falou. Fez a viagem, ofereceu a bala que havia comprado no sinal. O aplicativo apitou uma notificação: “recebi uns oito reais e uns quebrados”. As corridas chegavam uma atrás da outra e Douglas trabalhava das dez da manhã até às dez da noite. Parava para almoçar, e às vezes, encontrando uma rua calma, desligava o aplicativo para um cochilo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pô, o esquema é interessante… você faz seu horário, você trabalha o quanto quer e o aplicativo te paga. Não tem chefe falando na sua cabeça, não tem que bater ponto. O negócio funciona mesmo. Teve mês que tirei dois mil reais, pô. Vê se não vale. Claro, tem os custos com o carro, tem a gasolina, mas mesmo assim. E eu aproveitei que meu pai não cobrava nas manutenções do carro.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar da jornada de trabalho expandida, Douglas se sentia mais livre do que antes. E conseguia uma remuneração maior pelo seu trabalho. Quando questionado sobre o seu ritmo de trabalho, ele não hesita: “ah, é puxado né… pesado dirigir por tanto tempo, pegar cliente de tudo que é jeito. Peguei gente que vomitou no carro voltando de baladinha, só aí morre cinquenta pau para colocar o carro para rodar de novo. Você tromba com cada um”. Contudo, rapidamente ele completa: “Mas era bom!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas narrou longamente sua jornada como motorista de aplicativo, e relatou que a partir de um determinado momento, que ele atribuiu a uma “enchente de novos motoristas” que entraram para o negócio, ficou “mais difícil fazer grana”. Rapidamente ele lembra: “o aplicativo começou a fazer sacanagem” — a inflação galopante crescia e a remuneração das viagens permanecia a mesma, com eventuais reduções da fração repassada ao motorista. Para lidar com as reduções da tarifa que recebia, Douglas passou a trabalhar cada vez mais como motorista de aplicativo.</p>
<p style="text-align: justify;">A condição em que vivia, na casa dos pais, com o trabalho autônomo do pai, a aposentadoria por invalidez da mãe, permitia uma vida, ainda que sem luxos, muito digna. O dinheiro do Uber ajudava em casa, mas sobrava uma parte para que Douglas pudesse curtir. “Trabalhava demais, né? Então precisava despressurizar, ir curtir um pouco” — disse. Começou a frequentar o baile funk do bairro. Trata-se de uma grande festa, que começa sábado de madrugada e vai até domingo cedo, organizado pelos “meninos do corre”, isto é, os traficantes locais. O termo “menino”, dito em uma entonação específica, designa os jovens responsáveis pelo tráfico de drogas na região.</p>
<p style="text-align: justify;">Começou como um frequentador casual, mas rapidamente se tornou um frequentador assíduo, enquanto ia se relacionando com as pessoas da festa. Entre garrafas de Skol Beats e de Red Label, Douglas se aproximou dos “meninos”. Alguns eram conhecidos de infância dele, estudaram juntos na Escola Estadual do bairro. No vai e vem das festas, Douglas recebeu uma proposta: “o cara, falou assim: você já roda para cima e para baixo nessa cidade, por que não busca umas encomendas para nós? A gente pode te pagar legal”. Já não era só uma questão de “ganha-pão”, mas de aproveitar o momento. Seria uma espécie de complementação de renda. O crime, muitas vezes, é uma forma de garantir um recurso a mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, ele começou a transportar maconha. Era final do ano de 2018 &#8211; ou seja, em pouco mais de um ano rodando como parceiro da Uber, ele estava fazendo essa função. No começo, não circulava com mais de 1 kg. Sempre muito bem embalada e escondida no bolso frontal do banco do motorista. À medida que “a grana começou a entrar, os olhos foram ficando grandes”: começou a transportar até 5 kg por dia, indo em diferentes biqueiras na cidade para a distribuição. Depois da maconha chegou a transportar cocaína. “Nunca peguei cliente com droga no carro, seria sacanagem” — completou. Segundo ele, sempre foi algo muito tranquilo: “Era suave, bastava olhar no Waze e no Facebook onde tinha blitz e evitar esses locais. A grana era fácil”. Tudo correu bem até o momento que Douglas foi parado em uma: “aí rodei, né? Peguei por tráfico. Eu fiquei nervoso, os homens começaram a perguntar e eu estava saindo de um lugar cheio da droga. Resolveram revistar o carro e aí rodei”. Douglas foi preso em janeiro de 2020. Seu “trampo” de “mula do tráfico” durou pouco mais de um ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não entrou em detalhes sobre o seu tempo na prisão. Apenas falou que “viveu o inferno lá dentro”. A maior parte do seu período de reclusão foi durante a pandemia de COVID-19, que tornou a experiência ainda mais traumática. As visitas semanais da mãe (somente da mãe, Douglas fez questão de frisar que, desde então, nunca mais falou com seu pai) foram interrompidas pelo isolamento social e ele pegou COVID-19 duas vezes enquanto esteve lá dentro: “fiquei mal, mal mesmo. A febre não baixava e não tinha muito o que fazer”.</p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2021, Douglas saiu da prisão, indo para o regime aberto monitorado. Ficou sabendo pela mãe que o pai vendeu o carro para pagar um advogado para ele que atuou para garantir a progressão de sua pena como réu primário. Contudo, apesar do pai ter investido em sua soltura do sistema carcerário, ele cortou o contato por completo com o filho.</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas cumpriu quase três anos encarcerado e, desde que saiu, tenta se restabelecer. “Mas fica muito difícil para quem passou um tempo na prisão, ninguém contrata”. Depois de alguns segundos de pausa, Douglas continuou:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A saída então foi vir para cá. Esse lote é de um amigo, ele também já esteve enrolado com a justiça, mas quando saiu, parou de mexer. A família dele deixou esse lote para ele e aí ele começou a oferecer lava-jato. Como ele viu que eu estava precisando, ele me chamou para trampar com ele. A gente divide os dias e cada um tira o seu. Aqui atrás tem um barraco que eu estou dormindo por enquanto.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Douglas refletia sobre a precariedade que estava inserido: O emprego anterior, a demissão, a impossibilidade de encontrar novas oportunidades, o trabalho de Uber, a entrada para o tráfico, a cana e, agora, o lava-jato. “É, não é fácil, não”, concluiu. A vida de Douglas representa as trajetórias incertas que tantos outros moradores das periferias estão sujeitos no urbano da crise contemporânea.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/06/156881/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
