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	<title>Reino Unido &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Milão: vigília pela libertação de Assange no consulado britânico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Jul 2022 23:13:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Itália]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Aqueles que apoiam esta causa são aqueles comprometidos com o progresso e a emancipação. Por Comitê para a Libertação de Julian Assange – Itália e Comitê contra a Guerra – Milão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Comitê para a Libertação de Julian Assange – Itália e Comitê contra a Guerra – Milão</h3>
<p style="text-align: justify;">Domingo, 3 de julho de 2022 às 17h30, na Piazza del Liberty em Milão.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 3 de julho de 2022, Julian Assange fará 51 anos, um aniversário e tanto. Na verdade, Assange está prestes a ser extraditado para os Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na quinta-feira, 16 de junho, fomos à prefeitura de Milão entregar um formulário com mais de 2.000 assinaturas ao presidente da república, Sergio Mattarella. No nosso apelo ao chefe de Estado, pedimos que assumisse um papel ativo na defesa do jornalista Julian Assange. Sergio Mattarella declara frequentemente seu apoio à liberdade de imprensa, então pensamos em fazer mais essa tentativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os advogados de Assange estão recorrendo aos tribunais britânicos para que reavaliem o caso. Seu objetivo é impedir a Grã-Bretanha de extraditar Julian Assange, entregando-o aos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">A imprensa e os meios de comunicação não têm visto as coisas com clareza; de fato, era de se esperar que houvesse mais vozes em defesa de Julian Assange. Não tem sido este o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se até pensar que, tendo renunciado há muito à sua independência, a nossa imprensa e meios comunicação não têm qualquer motivo para defendê-lo. O verdadeiro jornalismo investigativo é raramento praticado em nosso país.</p>
<p style="text-align: justify;">Julian Assange pode ser condenado a não menos do que 175 anos de prisão nos Estados Unidos. Washington o que, entre outras razões, por causa das ações dos militares americanos no Afeganistão e no Iraque. Julian Assange, através do WikiLeaks, tornou públicos só crimes de guerra cometidos nesses países, crimes pelos quais a Casa Branca tem responsabilidade, tais como a tortura durante interrogatórios no Iraque e em Guantánamo.</p>
<p style="text-align: justify;">O WikiLeaks também tornou públicos os e-mails da Sra. Hillary Clinton, mediante os quais a então Secretária de Estado norte-americana expressava o desejo de desestabilizar Estados como a Síria e de sabotar a candidatura de Bernie Sanders durante a campanha presidencial de 2016.</p>
<p style="text-align: justify;">Sabemos que este jogo trágico não chegou ao fim. Como afirmamos em 16 de junho, na entrega de assinaturas a Sergio Mattarella, manteremos o respeito e a gratidão devidos à grande coragem de uma figura, um homem raro, como Julian Assange.</p>
<p style="text-align: justify;">Não esqueçamos que os países mais interessados em atacar o nosso direito de saber para poder decidir, um direito reconhecido pelo próprio Julian Assange, são dos Estados Unidos e a Grã-Bretanha.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos nos reunir no domingo, 3 de julho de 2022, às 17h30, em frente do consulado britânico, na Piazza del Liberty, em Milão.</p>
<p style="text-align: justify;">Comitê para a Libertação de Julian Assange – Itália<br />
Comitê contra a Guerra – Milão</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que apoiam esta causa são aqueles comprometidos com o progresso e a emancipação. É por isso que pedimos que tragam bandeiras de países, incluindo México, Venezuela, Cuba e Síria, que se pronunciaram em defesa de Assange ou lutam pela sua libertação e independência em relação a Washington, Londres, Paris, etc.</p>
<p>Evento no Facebook: <a href="https://www.facebook.com/events/577523800423644?ref=110" target="_blank" rel="noopener">https://www.facebook.com/events/577523800423644?ref=110</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dedico esta canção a Julian Assange, para que resista até sua libertação.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também a todos os jornalistas chantageados em seus locais de trabalho e que sofrem psicopatologias por não serem livres para escrever a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, acima de tudo, dedico aos corajosos jornalistas que, apesar de serem constantemente boicotados e ameaçados, lutam pela verdade, escrevem-na corajosamente e defendem-na com toda a sua tenacidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ultimo &#8211; Equilibrio mentale (vídeo com legendas)</p>
<p><iframe title="Ultimo - Equilibrio mentale - Home piano session (Lyrics video)" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/fsNQavX-pgc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<blockquote><p>Traduzido do italiano pelo Passa Palavra.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Trabalhadores da Deliveroo entram em greve</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137326/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 10:57:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve põe mais pressão sobre a Deliveroo, que já vem sofrendo com ações dos trabalhadores.  Por Freedom News]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Freedom News</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">É esperado que centenas de entregadores da Deliveroo de todo o Reino Unido entrem em greve em uma ação que coincidirá com a IPO [Initial Public Offering] da empresa, que acontecerá no dia 07 de abril.</p>
<p style="text-align: justify;">Um relatório ao investidor produzido pelo Independent Workers&#8217; Union of Great Britain (IWGB) [Sindicato dos Trabalhadores Autônomos da Grã-Bretanha], <em>Share Action e The Private Equity Stakeholder Project</em>, destacou alguns dos muitos problemas enfrentados pelos entregadores, incluindo baixa remuneração, condições de trabalho perigosas e padrões de trabalho precários.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a Deliveroo afirma que um entregador ganha em média £10 por hora, um relatório do Bureau of Investigative Journalism descobriu que <a class="urlextern" title="https://www.thebureauinvestigates.com/stories/2021-03-25/deliveroo-riders-earning-as-little-as-2-pounds" href="https://www.thebureauinvestigates.com/stories/2021-03-25/deliveroo-riders-earning-as-little-as-2-pounds" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">alguns entregadores ganham até £2 por hora</a>. Mesmo se acreditamos nas declarações da Deliveroo, os custos adicionais que não podem ser evitados pelos entregadores, incluindo seguro, combustível e manutenção, na maioria das vezes reduzem a remuneração para abaixo do salário mínimo.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve põe mais pressão sobre a Deliveroo, que já vem sofrendo com ações dos trabalhadores como paralisações e diminuições no ritmo de trabalho, e com a pressão exercida por membros do Parlamento. A empresa tem se apoiado no <em>status</em> de trabalhadores autônomos de seus entregadores para evitar o pagamento do salário mínimo nacional ou a concessão de direitos trabalhistas. Isto pode estar em jogo, já que recentemente a Suprema Corte decidiu que os motoristas da Uber eram de fato trabalhadores e que, portanto, faziam jus aos direitos trabalhistas. Resta ainda saber que impacto esta decisão terá sobre a Deliveroo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-137328" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/04/deliveroo2.jpg" alt="" width="1180" height="585" /></p>
<p style="text-align: justify;">Joseph Durbridge, um entregador da Deliveroo em Londres, expôs as preocupações dos trabalhadores ao dizer que “a Deliveroo não se importa com a estabilidade financeira ou com os direitos básicos dos seus entregadores e descaradamente afirma que os trabalhadores são em grande parte intermitentes. Não vamos deixá-los nos enganar”.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve vem na sequência do <a class="urlextern" title="https://www.itfglobal.org/en/news/food-delivery-riders-take-action-globally-major-investors-shun-upcoming-deliveroo-ipo" href="https://www.itfglobal.org/en/news/food-delivery-riders-take-action-globally-major-investors-shun-upcoming-deliveroo-ipo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Dia Internacional de Ação</a>, que aconteceu em 26 de março e no qual entregadores na Austrália, França, Itália e Reino Unido realizaram ações contra várias plataformas de entrega.</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://ridersroovolt.com/donate/" href="https://ridersroovolt.com/donate/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Você pode contribuir para o fundo de greve do IWGB aqui.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O original foi publicado <a href="https://freedomnews.org.uk/2021/03/28/deliveroo-workers-to-strike-over-exploitative-practices-and-low-pay/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>. Traduzido para o Passa Palavra por Marco Túlio Vieira.</em></p>
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		<title>Tensões da pandemia no Reino Unido</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/02/136138/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Feb 2021 10:28:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[A composição de classe está mudando e agora, como sempre, é o momento de organizar. Por Notes from below]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Notes from below</strong></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Este artigo é parte do livro Lutas na pandemia, publicado em inglês pelo coletivo <a class="urlextern" title="https://notesfrombelow.org/issue/struggle-pandemic" href="https://notesfrombelow.org/issue/struggle-pandemic" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">Notes from below</a> e cuja Introdução foi publicada em português <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/07/132906/" href="https://passapalavra.info/2020/07/132906/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">aqui</a>. Fizeram parte da publicação os artigos <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/03/130437/" href="https://passapalavra.info/2020/03/130437/" rel="ugc nofollow">A chamada da morte: pânico no atendimento</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/04/131169/" href="https://passapalavra.info/2020/04/131169/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">Atento: resistindo à chamada da morte</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/05/131484/" href="https://passapalavra.info/2020/05/131484/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">Odisseia da morte: persiste a luta pela vida na Atento</a>. A tradução é de Marco Túlio Vieira.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A medida em que escrevemos esse texto, no meio de abril, o Reino Unido ainda não atingiu o pico da crise de COVID-19, mas está no caminho para ser o país mais afetado na Europa. O governo do Reino Unido se equivocou no início, com uma tentativa abortada de uma estratégia de “imunidade de rebanho”, com o plano de que o coronavírus se disseminasse pela população, matando alguns e deixando outros imunes. Boris Johnson prometeu que “muitas famílias mais vão perder entes queridos”, enquanto seu principal conselheiro político defendia as alegações de que ele” deixaria os idosos morrerem “. Essa estratégia rapidamente se tornou insustentável e, depois de semanas, a estratégia mudou para um “lockdown”.</p>
<p style="text-align: justify;">Acompanhando isso, não é nenhum exagero dizer que o governo do Reino Unido deve ser cobrado pelas dezenas de milhares de mortes. Isso aconteceu depois de anos dizimando o sistema de saúde pública e de uma duradoura política de austeridade. Muitas outras tensões subterrâneas e crises menores também vieram à tona. A tendência em direção ao aumento da insegurança no trabalho, trabalho autônomo enganoso, habitações alugadas de péssima qualidade, falta de seguridade social e tudo mais está agora contribuindo para a crise COVID-19 de diferentes formas. Isto não é um desvio do que estava acontecendo antes da crise, mas um agravamento.</p>
<p style="text-align: justify;">O centro da estratégia do governo tem sido manter as pessoas trabalhando. Apesar de estar em um “suposto” lockdown, aqueles que não podem trabalhar de casa ainda podem ir ao trabalho. Há vários vídeos de vagões lotados do metrô de Londres na hora do rush da manhã. O governo evitou declarar os trabalhadores como “essenciais” ou “não-essenciais”, caracterizando-os na verdade como aqueles que podem trabalhar de casa e aqueles que não podem. De qualquer jeito, ele só quer manter a economia funcionando.</p>
<p style="text-align: justify;">Estas políticas até agora evitaram qualquer escrutínio sério. As taxas de aprovação do Partido Conservador no poder estão crescendo, com poucas críticas abertas sobre as escolhas que foram feitas — apesar de elas já terem levado a mais de 10.000 mortes. Quando Boris Johnson contraiu COVID-19, as críticas se tonaram quase um tabu. Mesmo os chamados pensadores de esquerda tropeçavam em si mesmos para desejar melhoras a ele, e vaquinhas online surgiram para coisas como comprar para Johnson um conjunto de abotoaduras com a palavra “obrigado”. Muitos jornais têm se concentrado em repreender aqueles que tomam banho de sol nos parques, ao mesmo tempo em que tentam invocar o chamado “espírito de blitz” da Segunda Guerra Mundial. Essa linguagem chauvinista pede às pessoas que se unam em torno da bandeira britânica para “combater” o vírus, apesar da recusa contínua do Estado em organizar respostas estruturais eficazes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-136143" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/02/martinparr03.jpg" alt="" width="1024" height="834" />Apesar desse tremular do Avental do Açougueiro [um nome alternativo para o Union Jack a bandeira britânica, chamando atenção para a história sangrenta do império britânico], também tem havido uma mudança na opinião pública a respeito do trabalho. Apenas alguns meses atrás, muitos trabalhadores imigrantes estavam sendo condenados como “pouco qualificados” e avisados de que não eram mais bem-vindos no Reino Unido. Este “pouco” tem mais a ver com o pagamento que recebem pelo trabalho do que com a necessidade do que estão fazendo. No entanto, agora esses trabalhadores são proclamados como nossos “heróis”. Essa mudança de posição não veio com aumentos salariais ou mesmo com Equipamento de Proteção Individual (EPI) adequado. No entanto, está jogando uma luz na dinâmica do trabalho no Reino Unido, abrindo conversas que não estavam acontecendo antes.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma intervenção central do Estado britânico foi o Plano de Retenção de Emprego durante o Coronavírus, que se aplica a trabalhadores cujos locais de trabalho foram forçados a fechar. Estes trabalhadores então de “licença” (ou são mandados para casa) enquanto tem 80% do seu salário pago pelo governo. Isto surgiu como uma tentativa desesperada de conter o rápido aumento do desemprego massivo. No entanto, ele não foi automático e muitos trabalhadores tiveram que lutar duramente para recebê-lo. Por exemplo, trabalhadores na Wetherspoons, a maior rede de pubs no país, foram avisados por uma mensagem de vídeo do proprietário de que eles não seriam mais pagos e que deveriam procurar emprego na Tesco, a maior rede de supermercados do país. Através de uma campanha online com seu sindicato, eles conseguiram forçar o dono a lhes colocarem no plano de licença.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao passo que o uso de contratos intermitentes vinha atraindo cobertura negativa da mídia nos últimos anos, muitos patrões usam contratos de poucas horas. Assim como nos de zero horas, isso envolve regularmente fornecer aos trabalhadores horas-extras sem reconhecê-las como tal. Isso tem o mesmo efeito disciplinar que um contrato intermitente, forçando os trabalhadores a dependerem da boa vontade dos gestores a cada semana. No entanto, para trabalhadores “dispensados”, isso significa que eles não estão recebendo 80% do seu salário total, mas 80% dos seus contratos de poucas horas. Isso pode significar que os trabalhadores estão recebendo somente 50% dos seus salários normais ou menos. Os trabalhadores na Wetherspoons continuam lutando para serem pagos 100% dos seus salários.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma segunda intervenção feita pelo governo é o Plano de Suporte a Renda do Trabalhador Autônomo. Isto envolve o pedido dos trabalhadores autônomos para receber do governo 80% dos seus lucros. Embora esse plano possa ajudar alguns dos autônomos, ele depende dos lucros relatados nas declarações de impostos, algo que muitos trabalhadores autônomos terão dificuldade em declarar ou que terá pouca relação com sua renda. Por exemplo, aqueles em contratos de trabalho autônomo enganosos — como Uber e motoristas particulares, ou entrega de comida — tiram apenas um lucro mínimo depois de deduzir os altos custos do aluguel do carro, seguro, custos com telefone celular e outros. Estes custos continuam, apesar do trabalho ter sido quase todo reduzido. Isso significa que todo “lucro” na declaração de impostos será mínimo, assim como o subsidio do governo. Na prática, isso serve como um mecanismo para forçar muitos desses trabalhadores a continuarem trabalhando apesar do lockdown. Por exemplo, construções (uma das industrias mais sistematicamente afetadas pelo trabalho autônomo enganoso) continuaram a funcionar mesmo com muitos trabalhadores denunciando nas mídias sociais os perigos de se trabalhar junto com muitas pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos destes trabalhadores terão que recorrer ao seguro desemprego e aos bancos de alimentos para poder pagar as contas. Um milhão de pessoas até agora se cadastrou no Universal Credit, o novo sistema de seguro desemprego, desde o início da crise. Para colocar esse número em perspectiva, há 30 milhões de pessoas economicamente ativas no Reino Unido. Nós acreditamos que isso só vai crescer à medida em que entramos em uma enorme e duradoura crise econômica.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tensões da pandemia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2018 os entregadores de material médico na empresa The Doctors Laboratory (TDL), um laboratório privatizado que trabalha com o NHS [National Health Service], vem se organizando. Eles lutaram pelo reconhecimento de seu real status de emprego (como trabalhadores <em>limb “b”</em>) e os direitos que acompanham, incluindo salário mínimo e alguma proteção social. Eles agora se organizam lado a lado com trabalhadores na Deliveroo e outras empresas no ramo de Entregas e Logística da IWGB [Independent Workers&#8217; Union of Great Britain]. Ainda que eles tenham tido mutas vitòrias, uma coisa que ainda não conquistaram é o auxílio-doença.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-136142" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/02/martinparr04.jpg" alt="" width="1350" height="898" />Entregadores em Londres arriscam suas vidas todo dia entrando e saindo do trânsito para entregar itens pela cidade. A falta de auxílio-doença sempre foi um problema quando os entregadores estavam desempregados, às vezes por meses, devido a acidentes. Eles estabeleceram o Fundo de Emergência dos Entregadores de Londres [London Courier Emergency Fund], uma tentativa de criar uma rede de segurança pela base para entregadores fora do trabalho devido a acidentes. No entanto, desta vez, a falta de auxílio-doença significou algo completamente diferente para os entregadores na TDL.</p>
<p style="text-align: justify;">No início de março se espalhou lentamente o boato de que os entregadores na TDL estavam transportando amostras de COVID-19. Em geral, isso foi descartado como uma das piadas cruéis que os controladores pregavam nos entregadores. Afinal, muitas dessas amostras não eram devidamente embaladas de acordo com as diretrizes da Public Health England. No entanto, em poucas semanas, ficou claro que não era uma piada, pois os entregadores estavam correndo entre os hospitais e o laboratório entregando amostras de COVID-19. A empresa aumentou o auxílio-doença de £0 por semana para £95 por semana, de acordo com o mínimo previsto para empregados. Neste exemplo, podemos ver uma tensão que vem crescendo desde muito antes da pandemia se manifestar sob a pressão da crise.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses entregadores tem que fazer uma escolha difícil. Se eles desenvolvem os sintomas e seguem a diretriz do governo para se auto isolarem, eles não conseguem dinheiro para viver. Se continuam a trabalhar, correm o risco de infectar aqueles que estão nos hospitais, no laboratório ou em outros lugares. Ainda que este seja apenas um caso, situação similar se apresenta para trabalhadores que são incapazes de parar de trabalhar devido a não terem um auxílio-doença adequado. Os entregadores, assim como muitos outros, sejam trabalhadores autônomos ou com contratos, tem poucas redes de segurança. O auxílio-doença oficial não dá nem para cobrir os custos de vida básicos desses trabalhadores. Muitos não têm outra opção a não ser continuar trabalhando. O Reino Unido vai ser duramente atingido pela COVID-19 porque muitas pessoas simplesmente não têm como ficar em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro grupo de trabalhadores que foi duramente atingido são os trabalhadores da saúde, nas linhas de frente do NHS. Ao mesmo tempo em que os elogia como heróis, e se junta às manifestações populares de apoio, como os aplausos toda noite, o governo falhou em fornecer-lhes mesmo o equipamento de proteção básica. O número de trabalhadores no NHS mortos está aumentando rapidamente, já tendo ultrapassado 30, enquanto médicos, enfermeiras e outros trabalhadores da saúde ou relacionados estão atualmente trabalhando longas horas e tendo suas férias anuais canceladas. Meio milhão de voluntários, a maioria ex-trabalhadores da saúde ou aposentados foram convocados para ajudar a tapar os buracos de um sistema de saúde cronicamente subfinanciado, fornecendo efetivamente milhões de horas de trabalho não-pago.</p>
<p style="text-align: justify;">Para aqueles que podem ficar em casa e ainda trabalhar (ou pelo menos fingir trabalhar), a situação apresenta outros riscos. Muitos comentaristas no Reino Unido têm dito que agora entramos em uma nova era de trabalhar em casa. Esse novo argumento (que parece bem velho) diz que alguns de nós agora estão livres da tirania do escritório. No entanto, ao invés de ver isso como algum tipo de férias prolongadas do trabalho de escritório, é crucial entender como isso pode remodelar o trabalho. A COVID-19 fornece um campo de testes para o capital, no qual novos métodos de vigilância e controle podem ser testados.</p>
<p style="text-align: justify;">Para muitos trabalhadores de escritório, trabalhar em casa na verdade envolve uma intensificação do trabalho. Muitos estão sendo obrigados a trabalhar mais e mais rápido pelos chefes, com medo de que eles possam estar enrolando em casa. A ameaça de demissões ou dispensas significa que a pressão não diminuiu. Facilitadas pelas novas e reluzentes tecnologias do Vale do Silício, velhas formas de vigilância estão sendo reanimadas. Um trabalhador de escritório que conversou conosco contou sobre o <em>monday.com</em>, um software de trabalho remoto usado no seu local de trabalho, que permite que gerentes “centralizem toda a comunicação dentro do contexto de fluxos de trabalho e projetos.” O aplicativo registra o tempo gasto trabalhando até os segundos, assim como monitora outros indicadores de performance [key performance indicators &#8211; KPI]. Com a revelação de que o Zoom permite que a sua empresa rastreie quando você clica fora da chamada, ficou claro que gerentes estão usando essa crise para implementar mais vigilância no trabalho. Quando novos e mais lucrativos meio de organizar o trabalho são criados em uma crise, eles não são abandonados quando a crise acaba. A não ser que os trabalhadores resistam ativamente, haverá pouco para se celebrar deste tempo trabalhando em casa. Na verdade, para alguns trabalhadores, como os das universidades, a crise foi usada para forçar o fim de uma ação de enfrentamento em andamento, com os trabalhadores sendo forçados a trabalhar horas extras para transformar as aulas em aulas online, enquanto suas demandas por melhores salários e condições foram postergadas com pouca ou nenhuma resposta do sindicato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-136144" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/02/martinparr01.jpg" alt="" width="850" height="595" />Trabalhar de casa, ou pelo menos gastar tanto tempo em casa, tem destacado a mudança na composição social de muitos trabalhadores no Reino Unido. No Notes from Below, nós consideramos a composição social como um importante aspecto da análise da composição de classe, tentando entender os trabalhadores além do trabalho. O isolamento chamou a atenção para a falta de uma comunidade em muitas partes do Reino Unido, com um grande número de pessoas sem acesso a ela durante a pandemia. Apesar disso, em todo o Reino Unido tem havido o estabelecimento de milhares de grupos de “ajuda mútua”. O movimento começou com grupos no Facebook para grandes áreas, que então foram sendo divididas em áreas cada vez menores. Por exemplo, isso começou para dois de nossos editores no bairro de Londres em que eles moram (que abriga mais de 300.000 pessoas). O grupo no Facebook ficou tão grande que foi divido em grupos do Whatsapp (nosso grupo cobria uma área onde mais de 30.000 pessoas moram). De novo, esse grupo foi dividido em 18 grupos locais diferentes. Nós agora estamos em um grupo com mais de 50 membros que cobre as três ruas em volta do bloco de prédios em que moramos. O surgimento desses grupos de apoio hiperlocal é estimulante e necessário, dado o colapso econômico que se aproxima. Embora ainda não tenhamos visto os grupos fazerem mais do que facilitar a coleta e entrega de alimentos aos vizinhos, eles são redes em formação. É claro que será uma luta difícil mantê-los vivos como locais de resistência e solidariedade e não como grupos de vigilância de bairro, mas eles criam uma oportunidade para construir algo que raramente existiu antes no Reino Unido.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Para onde?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As primeiras semanas de COVID-19 foram uma confusão para o movimento sindical no Reino Unido. No IWGB, o pequeno sindicato em que alguns dos editores de Notes from Below estão envolvidos, isso envolveu apagar uma serie de incêndios: tentar garantir os empregos e equipamentos de proteção para os membros. Um ramo inteiro do IWGB, os instrutores de ciclismo, foi informado de que teriam apenas mais um pagamento. Os faxineiros das universidades e de outros locais de trabalho em Londres receberam diretrizes confusas e pouco claras, e muitos foram solicitados a continuar trabalhando normalmente. Em uma universidade, eles foram solicitados a limpar uma sala de aula usada por um aluno que testou positivo para COVID-19, sem equipamento de proteção e sem serem informados. Também houveram boas notícias: a filial da Universidade de Londres garantiu aumentos salariais para trabalhadores terceirizados na UCL em meio à crise.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar dos sindicatos menores como o IWGB e o UVW entrarem em lutas contra os patrões, os principais sindicatos do Reino Unido mais uma vez foram incapazes ou não quiseram responder adequadamente a nível nacional. Poucas campanhas tem acontecido — com o sindicato de professores UCU encurtando sua greve em muitos campis e outro sindicato cancelando a greve por inteiro. Os chefes sindicais caíram na história de que esta crise requer unidade nacional, acompanhando a nova liderança de direita do Partido Trabalhista. Em todo o Reino Unido, muitos trabalhadores ficaram sem apoio. Isso não impediu que a raiva borbulhasse nos locais de trabalho — tanto aqueles que são conhecidos por serem mais militantes quanto aqueles sem qualquer histórico de luta. A resposta do IWGB a isso foi lançar um ramo a que qualquer trabalhador pode aderir, fornecendo suporte aos trabalhadores não organizados anteriormente.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, resta saber se haverá um acerto de contas quando tudo isso acabar. O governo escapou de um escrutínio sério até agora e ainda pode escapar depois. Muitos estão pedindo algum tipo de ajuste de contas quando “voltarmos ao normal”. Esta ameaça, que pode ser útil em alguns contextos, visa vingar-se de quem não apoiou os trabalhadores durante este período de crise. No entanto, também destaca como muitos se sentem impotentes no momento. Assim que a fase COVID-19 da crise terminar, é claro que as coisas não “voltarão ao normal”. Uma crise econômica sem precedentes foi deflagrada e haverá uma tentativa de reformular seriamente o trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">A composição de classe está mudando e agora, como sempre, é o momento de organizar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mais informações:</strong></p>
<ul>
<li class="li">Notes from Below: <a class="urlextern" title="https://notesfrombelow.org/" href="https://notesfrombelow.org/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">https://notesfrombelow.org/</a></li>
<li class="li">IWGB: <a class="urlextern" title="https://iwgb.org.uk/covid-19" href="https://iwgb.org.uk/covid-19" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">https://iwgb.org.uk/covid-19</a></li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Angry Workers: <a class="urlextern" title="https://angryworkersworld.wordpress.com/" href="https://angryworkersworld.wordpress.com/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">https://angryworkersworld.wordpress.com/</a></li>
</ul>
<p><em>As fotografias que ilustram esse artigo são de Martin Parr.</em></p>
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		<title>Emanuel Gomes morreu de COVID-19 enquanto limpava o prédio do Ministério da Justiça em Londres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 May 2020 17:34:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Se ele tivesse recebido um salário um pouco maior, se pudesse tirar licença médica remunerada, ainda estaria vivo conosco. Por United Voices of the World]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por United Voices of the World</h3>
<p style="text-align: justify;">Emanuel era um trabalhador da limpeza do Ministério da Justiça, que tragicamente faleceu com suspeita de COVID-19 no dia 23 às 22h30. Nos cinco dias anteriores à sua morte ele esteve com febre alta, a ponto de ter delírios, e não estava conseguindo se alimentar. Deveria ter conseguido licença para cuidar da sua saúde, descansar e ter tratamento médico, mas a empresa terceirizada OCS e o Ministério da Justiça ameaçaram cortar seu ponto se ele perdesse dias de trabalho por conta da doença — mesmo durante a pandemia de COVID-19. Também se recusaram durante anos a pagar um salário mínimo, e seu salário era de £9.08 por hora.</p>
<p style="text-align: justify;">Por medo de não conseguir pagar o aluguel, comprar comida e não conseguir sustentar sua família se tivesse seu ponto cortado, Emanuel se sentiu coagido a continuar trabalhando, sem ter sequer uma máscara para se proteger no Ministério da Justiça e tendo de pegar transporte público lotado. Trabalhou até o dia anterior à sua morte, que foi noticiada em <em><a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/world/2020/may/04/moj-cleaners-death-raises-concerns-over-lack-of-sick-pay-for-workers" href="https://www.theguardian.com/world/2020/may/04/moj-cleaners-death-raises-concerns-over-lack-of-sick-pay-for-workers" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">The Guardian</a></em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A morte de Emanuel é uma tragédia e um escândalo. Poderia ter sido evitada. Se ele tivesse recebido um salário um pouco maior, que lhe permitisse ter uma poupança, se pudesse tirar licença médica remunerada, ainda estaria vivo conosco hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora estamos em luto e a sua família precisa de ajuda.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quem era Emanuel?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Emanuel nasceu na Guiné-Bissau e se mudou para Portugal quando adulto. Em 2018, depois de ficar desempregado e sem conseguir sustentar sua família, teve de fazer a difícil decisão de deixar para trás sua esposa e seus filhos e ir para Londres, para que pudesse proporcionar sustento para eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Emanuel era estimado pelos seus colegas, que o descrevem como um homem gentil, comprometido com o trabalho, esforçado, que sempre chegava cedo e ajudava todo mundo durante o trabalho e fora dele. Também o descreviam como uma pessoa inteiramente dedicada à sua família, para a qual sempre mandava qualquer pequena quantia que fosse de dinheiro que conseguisse juntar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A luta de Emanuel contra a In-Justiça no Ministério da Justiça</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Emanuel sabia do perigo de não uma conseguir licença médica remunerada e que um dia isso poderia colocá-lo em risco de vida, risco que infelizmente se confirmou no seu caso.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que ele e seus colegas do Ministério da Justiça corajosamente <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/society/2018/aug/07/cleaners-protest-at-ministry-of-justice-for-london-living-wage" href="https://www.theguardian.com/society/2018/aug/07/cleaners-protest-at-ministry-of-justice-for-london-living-wage" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">organizaram e realizaram</a> vários dias de ação de greve desde 2018, para tentar comunicar o quanto a licença médica remunerada era importante para eles. Emanuel também entrou em greve para lutar pelo Salário Mínimo de Londres (London Living Wage ou LLW), para que pudesse receber o suficiente e proporcionar um sustento mais adequado para sua família em sua terra. Você pode ouvir, <a class="urlextern" title="https://www.facebook.com/703269199741322/videos/1852070194861211/" href="https://www.facebook.com/703269199741322/videos/1852070194861211/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">aqui</a>, seus colegas falarem sobre o porquê acharam necessário realizar um dia de greve.</p>
<p style="text-align: justify;">O LLW que ele estava reivindicando no dia de sua morte era de apenas £10.75 por hora, comparado com seu salário de £9.08 por hora. Quando Emanuel começou a trabalhar no Ministério da Justiça, recebia £7.50 por hora. Foi apenas pela coragem desses trabalhadores em realizarem ações de greve que seus salários aumentaram para £9.08 por hora, mas esse aumento ainda não era o tão almejado salário mínimo de que ele tão desesperadamente precisava.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sua doação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A família de Emanuel quer repatriar seu corpo para a Guiné-Bissau e lá dar-lhe um funeral digno. Mas isso é muito caro e ela não tem dinheiro para fazê-lo. Estão em situação financeira muito difícil, porque dependiam do salário de Emanuel para viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua doação seria para ajudar cobrir os custos de:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li class="li">repatriar o corpo de Emanuel para a Guiné-Bissau,</li>
<li class="li">seu funeral,</li>
<li class="li">ajudar a sua família nesse momento difícil.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Esse levantamento de fundos está sendo organizado pelo sindicato de Emanuel, o <a class="urlextern" title="https://www.uvwunion.org.uk/" href="https://www.uvwunion.org.uk/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">United Voices of the World</a>, que está comprometido com a responsabilização da OCS e do Ministério da Justiça pela morte de Emanuel. E também está comprometida com a luta para que os colegas de Emanuel recebam o Salário Mínimo de Londres (LLW), a insalubridade e Equipamentos de Proteção Individual adequados para que eles possam evitar o mesmo destino trágico.</p>
<p style="text-align: justify;">Por favor, nos ajudem a conseguir justiça para Emanuel.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-131809" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_1.jpeg" alt="" width="720" height="385" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_1.jpeg 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_1-300x160.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_1-640x342.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_1-681x364.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px" /></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-131808" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_2.jpeg" alt="" width="546" height="824" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_2.jpeg 546w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_2-199x300.jpeg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/05/emanuel_2-278x420.jpeg 278w" sizes="auto, (max-width: 546px) 100vw, 546px" /></p>
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		<title>Um breve relato do Reino Unido</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Mar 2020 14:18:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Zona euro]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Angry Workers World Johnson ganhou as eleições com a mais fácil de todas as promessas: se você me conseguir uma maioria, eu conseguirei obter o Brexit através do parlamento dentro de semanas e depois disso eu gastarei dinheiro em hospitais e na polícia. Isto manifesta uma viragem populista dentro do campo conservador. A estratégia [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Angry Workers World</h3>
<p style="text-align: justify;">Johnson ganhou as eleições com a mais fácil de todas as promessas: se você me conseguir uma maioria, eu conseguirei obter o Brexit através do parlamento dentro de semanas e depois disso eu gastarei dinheiro em hospitais e na polícia. Isto manifesta uma viragem populista dentro do campo conservador. A estratégia dos Tory resultou, mas o seu sucesso baseia-se no desenho de uma nova fronteira política em torno da nação inglesa, para desvantagem de outras regiões do Reino Unido. O acordo de Johnson para o Brexit esgotou a integridade do Reino Unido e, assim, também ajudou o partido nacionalista escocês SNP a obter sucesso eleitoral. O SNP [Partido Nacional Escocês] se beneficia do anúncio de Johnson de que não haverá um segundo referendo sobre a independência — tudo isso pode se transformar em uma versão mais lamentável da disputa nacional catalã. Não fez mal à popularidade de Johnson entre as pessoas que veem a classe política atual como incapaz e arrogante e que não pensam muito sobre o sistema político em geral o fato de que, pouco antes das eleições, ele havia mandado o parlamento entrar num recesso prolongado (e ilegal). Três anos de negociações grotescas de Brexit foram frustrantes e muitas pessoas queriam que o resultado do referendo fosse reconhecido, mesmo que elas próprias tivessem votado para permanecer na União Europeia. Os trabalhistas perderam mais votos para os partidos &#8216;remanescentes&#8217; (LibDem, SNP, Verdes) do que para os conservadores, mas provavelmente ainda mais para as pessoas que não se deram ao trabalho de sair para votar. O comparecimento diminuiu de 68,8% em 2017 para 67,3% em dezembro de 2019. A mídia mostrou de que lado estava. A esquerda continua chamando a atenção para o fato de que, desde que Murdoch deteve uma posição de monopólio na mídia, nenhum candidato trabalhista além de Tony Blair ganhou uma eleição — e que Blair agiu como o padrinho de um dos pirralhos de Murdoch.</p>
<p style="text-align: justify;">A maioria dos eleitores Tory tem mais de 45 anos, com níveis de educação relativamente mais modestos, votaram no Brexit e não vivem em cidades metropolitanas. Os trabalhistas se perguntam por que a parte marginalizada da população votou em um palhaço elitista como Johnson e não em um programa partidário que lhes prometeu acesso livre à internet de banda larga e às universidades e a defesa do icônico Serviço Nacional de Saúde. Existem algumas explicações que vão além de culpar o mau marketing eleitoral. Os trabalhadores das regiões desfavorecidas do país não confiam no aparelho político que os Trabalhistas agora querem usar para lhes fornecer novos programas sociais. Há pouca ligação entre a participação popular e a administração do Estado, o que significa que o manifesto Trabalhista apareceu como uma lista de presentes de Natal. Os Trabalhistas não apresentaram um inimigo de classe explícito que teria de ser vencido para obter os meios financeiros necessários para o programa do partido. Ao contrário, os trabalhistas falaram de uma aliança com empresários criativos e pequenas empresas e McDonnell anunciou com certo orgulho que uma parte significativa dos banqueiros seria simpática ao seu programa. De fato, após o colapso do prestador de serviços privados Carillion em maio de 2018, até mesmo o setor financeiro viu uma renacionalização parcial da infra-estrutura terceirizada como uma opção viável.</p>
<figure id="attachment_130507" aria-describedby="caption-attachment-130507" style="width: 400px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-130507" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/03/Brexit-Corbyn.jpg" alt="" width="400" height="260" /><figcaption id="caption-attachment-130507" class="wp-caption-text">&#8220;Você não pode parar um Brexit tory com um Brexit trabalhista&#8221;. Manifestantes provocam Jeremy Corbyn, que buscou apoio no Partido Trabalhista para o Brexit.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No final, a única coisa que o corbinismo [campo político do líder trabalhista Jeremy Corbyn] conseguiu renacionalizar foi extrema-esquerda. A campanha eleitoral foi frenética, milhares de voluntários levaram dias de viagem pelo país para baterem às portas em lugares marginais. Pouquíssimas pessoas na extrema-esquerda deixaram de participar da campanha e da agitação eufórica de uma forma ou de outra. Para eles, os resultados eleitorais são um pontapé nos dentes. Pelo menos os resultados eleitorais criaram um pouco de debate coletivo, não só sobre o resultado, mas sobre a política em geral. O Brexit já tinha forçado a esquerda — e os trabalhadores em geral — a concentrar-se em banalidades como a composição da economia nacional, por exemplo, se os seus medicamentos para diabetes eram importados ou produzidos localmente. Agora os resultados eleitorais forçam a esquerda a olhar para algo semelhante à composição de classe, mesmo que sua visão seja distorcida pelas lentes da política eleitoral. O que torna a perspectiva política de uma classe trabalhadora mais jovem e mais educada na área metropolitana diferente da geração mais velha e mais provincial? Esta última não vê muita da riqueza metropolitana (que poderia ser redistribuída) e não testemunha os poucos momentos de ação coletiva, como as greves nas universidades ou os tumultos em Londres. Esta lacuna não pode ser colmatada por alguns dias de safari eleitoral para o interior profundo. Estas são considerações mais inteligentes. Uma parte diferente do projeto Corbyn, sob a liderança ideológica de pessoas como Paul Mason, fala da necessidade de “alianças progressistas” contra a extrema-direita no governo e apela para que o Partido Trabalhista volte ao terreno central da política. Outros, como o vigarista stalinista George Galloway, formam o Partido dos Trabalhadores da Grã-Bretanha para um Brexit de esquerda, fazendo um favor à “verdadeira” classe trabalhadora que bebe cerveja, assiste ao futebol e fala em dialetos locais. Em seu primeiro discurso de candidatura, Long-Bailey, o candidato à liderança, que é amplamente visto como o verdadeiro representante da linha de Corbyn, fala sobre a necessidade de um “patriotismo progressista”, flertando com uma compreensão cultural semelhante do que constitui a classe trabalhadora. Deixando de lado estes desvios políticos, muitos falam agora da necessidade de um “verdadeiro processo de enraizamento” dentro da classe. Organizações comunitárias, como a Acorn, que organiza sindicatos de inquilinos, entre outras coisas, têm visto um aumento significativo no número de membros desde o resultado das eleições. Embora &#8216;enraizar&#8217; dentro da classe seja um bom passo, a questão continua a ser como e com que objectivo. A Acorn tem origem nos EUA, onde a organização recolheu os dados dos eleitores para os Democratas. No Reino Unido, o seu financiamento inicial teria vindo de fontes governamentais do projecto “Big Society” de Cameron. A ironia aqui é que a decisão inicial de se envolver na política eleitoral não vai de mãos dadas com esforços sérios e enraizados para construir o poder da classe, mas sim para desviar sua força e foco dele. É surpreendente como muitos jovens camaradas “socialistas democráticos” nos dizem que a transformação social do <em>status quo</em> neoliberal para um governo socialista levará de 20 a 30 anos. Onde está o espírito jovem e a impaciência?! Da mesma forma, nas discussões, alguns desses camaradas descrevem as greves do “Inverno do Descontentamento” de 1979 como “lamentáveis”, pois ajudaram a levar o governo Thatcher ao poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a esquerda cura as suas feridas, o governo cria os fatos. Johnson não só conseguiu fazer passar o seu acordo pelo parlamento, mas também uma nova lei que limita o período de negociações para um novo acordo comercial a onze meses. Isto significa que a aposta de um Brexit “sem acordo” ainda está sobre a mesa. Johnson não tem mais nada a oferecer além de uma aceleração imprudente quando se aproxima de um muro de tijolos. Na declaração política do seu acordo, Johnson concorda que o Reino Unido e a UE evitariam uma espiral descendente de concorrência, rebaixando os padrões das normas ambientais e de outras normas reguladoras. Os burocratas da UE podem usar isso como um tampão formal que eles podem puxar quando as negociações não seguirem seu caminho. Trump, por sua vez, anunciou em outubro que o acordo de Johnson não permitirá nenhum acordo comercial com os EUA, já que impediria uma expansão das exportações americanas de produtos agrícolas ou farmacêuticos. A UE representa 49% do comércio externo do Reino Unido, os EUA 15%, e o sistema de produção da UE e do Reino Unido está muito mais entrelaçado. Mais cedo ou mais tarde, mesmo uma maioria considerável no parlamento é um tigre de papel quando se trata de “conseguir fazer o Brexit”. As consequências dos recentes ataques militares dos EUA mostram que a classe política britânica está espremida entre o regime dos EUA, que os relega para a posição de parceiro subalterno, e a burocracia da UE, que pode usar a dependência econômica do Reino Unido como alavanca política.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o debate prolongado sobre “votar ou não votar” e sobre as eleições espalhou depressão e ansiedade entre os (antigos) radicais de esquerda, criou frustração entre os trabalhadores de quatro fábricas de alimentos onde os nossos camaradas tentaram organizar uma greve por £1 [1 libra] para todos. Os camaradas organizaram piqueniques familiares, jogos de cricket e protestos no portão da fábrica para mobilizar os seus colegas de trabalho. A liderança e a direção sindical forçaram os trabalhadores a votar por uma eleição indicativa (isto ainda é apenas uma partida de teste, não é para valer!) para decidir se aceitavam ou não a mísera oferta salarial da direção. Isto significou que as negociações salariais se arrastaram por mais de um ano. A gerência ficou satisfeita com isso e o GMB [central sindical] temia as consequências legais caso não esgotassem todas as vias de negociação. O GMB exige uma participação de 66% nas eleições indicativas (enquanto as eleições reais exigem legalmente apenas 50%) por medo de “perder eleição”. Eles definitivamente fizeram com que os trabalhadores perdessem essa eleição, atrasando-a até que todos estivessem completamente fartos, quando uma greve teria pouco impacto, e as pessoas só queriam dinheiro no bolso. No final, os trabalhadores aceitaram um aumento de salário de 16p [16 centavos de libra] acima do salário mínimo atual. Abaixo o circo eleitoral! Alguns dias depois de os trabalhadores terem concordado com a oferta, o governo Johnson anunciou um aumento no salário mínimo de 6% para £8,74 — um aumento de 53p. Agora a gerência da fábrica de alimentos terá de pagar o que eles disseram que não seriam capazes de pagar — e muitos trabalhadores acreditaram neles. Para as mulheres nas linhas de montagem é um sinal de que elas podem esperar mais de um governo populista do que do seu &#8220;próprio&#8221; sindicato. É tempo de organizar o poder de classe para além dos procedimentos frustrantes da política parlamentar e sindical!</p>
<p><strong>Traduzido pelo Passa Palavra a partir do <a class="urlextern" title="https://libcom.org/blog/short-report-uk-06012020" href="https://libcom.org/blog/short-report-uk-06012020" rel="nofollow">original disponível no site Libcom</a>.</strong></p>
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			</item>
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		<title>Voto Brexit: outro sinal de agravamento da crise do capitalismo global</title>
		<link>https://passapalavra.info/2016/07/108641/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Jul 2016 17:37:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
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					<description><![CDATA[É um círculo vicioso que transforma o espectro do nacionalismo em ascensão em outra ameaça ao futuro da humanidade. Por CWO Análise do resultado do referendo da saída do Reino Unido da União Europeia, como ele surgiu e como a classe trabalhadora em luta por seus próprios interesses foi completamente espremida para fora da agenda. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>É um círculo vicioso que transforma o espectro do nacionalismo em ascensão em outra ameaça ao futuro da humanidade</em>. <strong>Por CWO</strong><span id="more-108641"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Análise do resultado do referendo da saída do Reino Unido da União Europeia, como ele surgiu e como a classe trabalhadora em luta por seus próprios interesses foi completamente espremida para fora da agenda.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/07/1-mod.jpg" target="_blank"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-108639 size-medium" src="/wp-content/uploads/2016/07/1-mod-300x200.jpg" alt="1-mod" width="300" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/1-mod-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/1-mod.jpg 700w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>O referendo britânico sobre a UE pode ter acabado, mas o debate continua a fazer estragos. Para começar, vamos apenas deixar uma coisa fora do caminho. Em nenhum lugar do Reino Unido a classe trabalhadora tem algo a ganhar com o Brexit e o “Remain” igualmente não tem nada a proporcionar para uma classe que já sofre a dor da austeridade. Um voto para um ou outro é um voto para dar ao capital nacional um cheque em branco para mais austeridade. A Grã-Bretanha está “dividida”, tudo bem, mas a divisão não é entre Londres e as províncias, Inglaterra e Escócia ou jovens e idosos. A verdadeira divisão está entre aqueles que querem aumentar os seus lucros e aqueles que pagam por isso em salários mais baixos, empregos precários e padrões de vida geralmente mais baixos. Todos aqueles que fizeram campanha no referendo (quaisquer que sejam suas reivindicações para permanecer ou sair) fizeram campanha pela agenda capitalista e nacionalista de “o que é melhor para a Grã-Bretanha?”. Como escrevemos em novembro:</p>
<p style="text-align: justify;">“A nossa posição como internacionalistas comunistas é cristalina. A escolha real para os trabalhadores é agir em nossos próprios interesses. Não ser arrastado para debate de araque dos patrões”. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Vamos voltar ao referendo e a classe trabalhadora mais tarde, para esse momento é evidente que a poeira ainda não baixou sobre as consequências da votação Brexit. A renúncia de Cameron sem invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa abriu um período de incerteza. Isto significa que as consequências da votação aparecem como sendo de longo prazo, no que toca não só à Grã-Bretanha e a Europa, mas também para o mundo mais amplo do capitalismo global. Sem dúvida, os <em>players</em> imperialistas chave – incluindo os Estados do Reino Unido, EUA, França, Alemanha e as respectivas empresas nacionais / transnacionais – vão usar o tempo para encontrar uma solução que melhor corresponda aos seus interesses individuais e comuns.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira pergunta que temos de enfrentar é como é que a classe dominante britânica vai deixar que isso tudo aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é a primeira vez na história que uma classe dominante, quando confrontada com uma crescente crise política e econômica, deixou a conveniência política de curto prazo ficar no caminho dos seus interesses estratégicos de longo prazo e, em seguida, se arrependeu. O caso clássico é talvez a decisão do Estado czarista em 1904, quando, assolado por motins rurais e ondas de greves políticas, optou pela distração de uma “curta guerra vitoriosa”, como disse o ministro do Interior Plehve. Então eles escolheram uma briga com esses “pequenos macacos marrons” (Nicolau II) no Japão apenas para descobrir que o Japão estava anos-luz à frente em tecnologia e a guerra que se seguiu, embora “curta” foi tudo menos “vitoriosa”. Ainda pior, sua consequência imediata foi o aumento da agitação social que o regime estava tentando evitar e que quase derrubou o czarismo em 1905. A Revolução de 1905 deu ao mundo os “sovietes” ou “conselhos de trabalhadores” e abriu o caminho não só para a queda do czarismo, mas também para a Revolução de outubro de 1917.</p>
<p style="text-align: justify;">As consequências do Brexit para a classe capitalista britânica podem não ser tão dramáticas (nós podemos sonhar), mas o mesmo cálculo de curto prazo feito pelos líderes do Partido Conservador tem maciçamente saído pela culatra em face do referendo que permitiram. Embora a burguesia britânica esteja dividida sobre a pertença à UE sua evolução bastante contraditória tem sido em grande parte na direção que tem deixado a maioria dos capitalistas britânicos felizes. Os britânicos tem estado na Europa para o que eles podem obter economicamente com ela, mas não gostam de qualquer um dos esquemas para uma maior integração supra-nacional que alguns políticos europeus defendem abertamente. No entanto a Grã-Bretanha escolheu ficar fora de quase todas as importantes áreas políticas da UE: o euro; a zona Schengen de viajem sem passaporte; justiça e assuntos internos; e a Carta dos Direitos Fundamentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Economicamente, para o capitalismo britânico, não fazia sentido neste momento retirar-se de uma união que, em geral, trouxe mais benefícios do que custos. O acesso ao maior mercado do mundo trouxe o investimento direto do Japão, dos EUA, China, Tailândia, etc. Se não fosse pelo fato de que o Reino Unido era o seu ponto de entrada na UE, estas empresas não estariam aqui (como trabalhadores da Nissan foram informados por seus chefes japoneses). Como resultado, 45% das exportações do Reino Unido vão para a UE. Os periódicos que tendem a representar o <em>mainstream</em> da classe capitalista (a <em>Economist</em> e <em>Financial Times</em>) constantemente advertiram que uma votação “Fora” seria um desastre econômico para o Reino Unido e para o resto da Europa, uma posição ecoou pela grande maioria dos economistas e a maior parte do <em>big business</em> (grande negócio). Em suma, a classe dominante britânica tinha o tipo de relacionamento com a UE que eles queriam, de modo que a pergunta que grita é por que o partido favorito da burguesia britânica quis correr o risco da loteria imprevisível de uma votação popular?</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, o colapso da União Soviética permitiu aos britânicos empurrar a agenda da “ampliação” (em vez de aprofundamento) da UE para a Europa Oriental. Ampliação significa que com 28 membros qualquer esquema de uma maior integração teria grande dificuldade de passagem.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/07/2-mod.jpg" target="_blank"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-108640 size-medium" src="/wp-content/uploads/2016/07/2-mod-300x224.jpg" alt="2-mod" width="300" height="224" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/2-mod-300x224.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/2-mod.jpg 700w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Nada disso importa para os anti-europeus do Reino Unido. Sempre houve uma linha de pensamento (e não apenas no Partido Conservador) de que o Reino Unido entrar na UE (ou CEE como era na época) sempre fora algo um pouco humilhante. Afinal de contas o Império Britânico já cobriu um quarto da área terrestre do mundo e “nós” estávamos do lado vencedor em duas devastadoras guerras mundiais. Eles se lembram do tempo em que a política externa britânica estava baseada em levantar-se (com aliados europeus cuidadosamente escolhidos, isso tem de ser dito) contra o poder potencialmente dominante na Europa ao longo da história, seja na era da França de Napoleão, a Rússia de Nicolau I ou a Alemanha do Kaiser e do Führer. O que esses pequenos ingleses já não entendem é que a luta dessas duas guerras mundiais esvaziou a economia do Reino Unido e, no final, minou sua dominação imperialista. O Império Britânico foi vendido para os EUA, que, mesmo agora, domina o mundo com uma nova forma de colonialismo (que não envolve a ocupação custosa de tanto território). Apesar da propaganda interminável sobre a “relação especial” os EUA cobraram um alto preço em termos de entrega de ativos para os seus empréstimos em ambas as guerras.</p>
<p style="text-align: justify;">A nostalgia do império realmente forma o pano de fundo da mentalidade inflexível dos eurocéticos, mas eles também estão lutando outras batalhas do passado. O que os assustou na década de 1980 eram as ambições de Jacques Delors para aprofundar a integração europeia e criar uma “Europa social”. Eles, de fato, veem a si mesmos como verdadeiros herdeiros de Thatcher na medida em que não gostam muito da regulação estatal da economia, em qualquer sentido ou forma. Enquanto veem a UE como uma instituição em dificuldades eles também temem as propostas atualmente em discussão para tornar a UE mais responsável ou “democrático”. O relatório dos presidentes dos 5 principais órgãos da UE, publicado em Junho de 2015, apela para reformas para a união econômica, financeira, fiscal e política. Isto é para ser alcançado em duas etapas, a primeira a ser concluída em 2017 e a segunda em 2025. O relatório argumenta que a menos que essas reformas sejam implementadas a UE pode não sobreviver à próxima crise, o resultado que os <em>Brexiteers</em> querem acima de tudo. Mais poderosos no Partido Conservador do que na classe dominante como um todo, eles tornaram-se um problema sério para a liderança do partido, uma vez que o Partido Independente do Reino Unido (UKIP) começou a ganhar mais votos. A ameaça de que os apoiadores <em>Tory</em> iriam desertar para a UKIP antes da próxima eleição geral foi algo real. Assim, oferecer um referendo “no próximo Parlamento” parecia a melhor maneira de manter o Partido unido em uma coligação com os liberais democratas pró-europeus. Estava claro nas mentes de Osborne e Cameron que eles não iriam obter uma maioria em 2015, de modo que esperavam que a promessa não teria de ser posta em prática. Nesse meio tempo isso manteve o Partido unido e limitou as deserções para o UKIP (que tem apenas 1 MP [parlamentar] na eleição de 2015). Todavia, o colapso do eleitorado trabalhista na Escócia quase trouxe os conservadores Tory ao poder, sem os seus aliados liberal-democratas. Assim, apesar de até mesmo a maioria dos parlamentares conservadores serem contra um “Brexit” não restou a Cameron nada além de ir adiante com o referendo prometido.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo aqui, a incompetência e arrogância da estratégia de Cameron era inacreditável. Nenhuma tentativa foi feita para estipular que, para uma mudança constitucional maciça como deixar a UE seria necessário dois terços ou maioria clara, como é feito na maioria dos outros países. “Lucky Dave” escapou sem uma tal estipulação no referendo escocês, então por que não no Reino Unido? E então era chegado o momento. Tinha ficado claro desde o colapso financeiro global de 2008 que o Projeto Europa estava entrando em todos os tipos de problemas, desde a crise do euro, passando pela guerra da Ucrânia até a crise de refugiados na Síria, o que tem sido a água no moinho racista do UKIP e da direita Tory. Tudo isso apontava para a necessidade de atrasar qualquer referendo tanto tempo quanto fosse possível. No entanto, com uma maioria de apenas 12 na Câmara dos Comuns e uma economia estagnada (apesar de todas as suas ostentações) a liderança Tory decidiu que iria tentar remover o furúnculo eurocético antes que inflamasse ainda mais. Então Cameron chamou a eleição para 23 de junho e partiu para Bruxelas para “renegociar” a posição do Reino Unido na UE em fevereiro. Seu acordo especial com o Conselho Europeu liberou o Reino Unido para barrar benefícios trabalhistas para cidadãos da União Europeia (a maioria dos cidadãos da UE no Reino Unido nunca os reclamava) e absolveu o Reino Unido do objetivo de integração política e “união cada vez mais estreita”. Era muito pouco para os eurocéticos em seu próprio Partido e o Reino Unido foi jogado em uma campanha sombria que se tornou uma das mais desagradáveis que se tem na memória (que culminou com o assassinato de um parlamentar trabalhista a favor do “Ficar” por um supremacista branco e nacionalista britânico) e que ainda continua.</p>
<p style="text-align: justify;">Por trás dessa cagada política dos arrogantes tories, no entanto, encontra-se uma série de questões mais profundas sobre a atual hegemonia política e econômica do capitalismo. Em primeiro lugar, isso é parte de um fenômeno mais amplo da classe dominante tradicional perdendo o controle em todos os lugares. Por sua vez isso se deve ao fato de que o capitalismo está em um beco sem saída econômico. O fato de que uma saída do Reino Unido da Europa é agora possível é sintomático da crise global geral de um sistema que está economicamente estagnado. O fim da bolha especulativa em 2007-8 revelou que o aparente crescimento das duas décadas anteriores foi baseado em uma expansão exponencial da dívida. Em suma, o futuro tem sido hipotecado e os partidos políticos estão ficando sem correções rápidas para disfarçar a crise atual resultante da diminuição da rentabilidade do capital. Como temos escrito muitas vezes o que o capitalismo realmente precisa é de uma desvalorização maciça de capital. Tais desvalorizações exigem a destruição de um monte de valor – o tipo que só pode ser alcançado por uma grande guerra generalizada entre as principais potências imperialistas. Apesar do aumento das tensões, rivalidades e guerras locais em todo o planeta, todas as condições para isso ainda não estão dadas. Enquanto isso, os capitalistas têm duas políticas. A primeira é salvar os bancos (flexibilização quantitativa, taxas de juro baixas ou negativas etc) a fim de salvar a espinha dorsal financeira do sistema e estimular o investimento. Isso não tem funcionado porque a taxa de lucro é muito baixa e os fundos de investimento têm ido para a especulação. A segunda é aumentar sua taxa de lucro, fazendo com que os trabalhadores trabalhem mais horas por menos dinheiro ou impondo isso tecnicamente de modo a obter mais mais-valia absoluta da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/07/4-mod.jpg" target="_blank"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-108643 size-medium" src="/wp-content/uploads/2016/07/4-mod-300x200.jpg" alt="4-mod" width="300" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/4-mod-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/4-mod-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/4-mod.jpg 960w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Mesmo muitos economistas capitalistas veem o problema da maneira que nós colocamos (há muita especulação sobre o próximo colapso mundial nos papéis finos). Mas, em um sistema onde as ideias dominantes são as da classe dominante através de seu controle dos meios de comunicação não se dá destaque para esses problemas sistêmicos. <strong>[2]</strong> A culpa tem que estar em outro lugar. Com uma raivosa imprensa tablóide enfatizando e ligando deliberadamente os problemas econômicos do Reino Unido aos imigrantes <strong>[3]</strong> e, em seguida, ao fato de que isto se deve ao fato do Reino Unido ser membro da UE, a bandeira anti-imigração era, e é, a chave para a vitória da campanha Brexit. Desde a época de Thatcher grandes setores da velha classe trabalhadora têm visto a perda de seus empregos industriais mais bem pagos como uma decorrência casual do fato de que a reestruturação dos anos 1980 significava que esses trabalhos foram para o exterior, onde os patrões encontraram custos trabalhistas mais baratos. Sob Blair o <em>Trabalho</em> largamente ignorou-os (tentou comprá-los por fora, com benefícios) assim como o <em>New Labour</em> (Novo Trabalhismo) procurou o voto da classe média e prosseguiu com uma política de identidade. Então, como resultado da crise econômica global vieram políticas de austeridade que desde 2010 atingiram a população mais vulnerável e de baixa remuneração, uma situação sobre a qual os tablóides dificilmente vão se deter. É muito mais fácil encontrar alguém ou algo para culpar. A esquerda capitalista culpou os bancos (e não o sistema como um todo), enquanto a direita diz que é a UE e a migração. Isto é uma mentira transparente (e Brexit não vai resolver o problema), mas para aqueles que são as vítimas da crise e se sentem excluídos pelo sistema isso soa plausível. Geralmente a classe trabalhadora votou contra a austeridade e a diminuição dos seus padrões de vida e isso se traduziu em uma cruz para o “sair” no boletim de voto. Muitos que no passado nunca se preocuparam em votar agora acabaram por votar contra a imigração. Um homem desempregado com uma família em Leicester afirmou que ele nunca tinha votado antes e nunca votaria novamente. Ele não achava que muita coisa iria mudar, mas “qualquer coisa é melhor do que o que temos agora”. <strong>[4]</strong> Há uma certa ironia nesta aliança Brexit entre livre comerciantes delirantes como Farage, Gove e Lawson e as vítimas de sua ideologia do livre mercado, mas esse fato contraditório parece ter sido a espinha dorsal do voto para “sair”.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas consequências já estão batendo à porta. O líder SNP na Escócia já pediu um novo referendo sobre a independência para a Escócia (que votou maciçamente para “Remain”) e na Irlanda do Norte (que também votou decisivamente para “Remain”) o acordo de Sexta-feira Santa está sendo questionado com os nacionalistas pedindo mais uma vez a <em>United Irlanda</em>. Os <em>heartlands</em> protestantes em todo o Nordeste do Ulster votaram a favor da saída e, portanto, mais uma vez o sectarismo comunitário está de volta à agenda. Mais de 2 milhões de pessoas assinaram uma petição para que o referendo seja novamente aplicado uma vez que a margem de vitória para o Brexit foi de apenas 1,3 milhões de votos de um total de 34 milhões. Há precedentes para um segundo referendo, quando os capitalistas consideram o resultado como errado, como no caso da Dinamarca sobre o Tratado de Maastricht e da Irlanda sobre os tratados de Nice e de Lisboa, mas é improvável que tal pedido seja concedido nas circunstâncias imediatas. Nesta fase, tentar uma reversão tão flagrante de um referendo iria expor a verdadeira farsa que é a “democracia capitalista”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em qualquer caso, o voto Brexit significa que a incoerência do projeto europeu foi agora revelado após os desastres anteriores da dívida da zona do euro e a incapacidade de lidar com a crise migrante. Podemos esperar mais desafios para a Europa em uma base nacionalista. Em termos econômicos há muita incerteza e os efeitos são suscetíveis a ocorrer no longo prazo. No entanto, o HSBC já anunciou que está movendo suas operações em Euro (e 1000 postos de trabalho) para Paris, enquanto a empresa Tata colocou um ponto de interrogação sobre o asseguramento de postos de trabalho no aço, uma vez que isso a puxa para fora. As agências internacionais de notação de crédito estão em processo de desclassificação das ratings de crédito do Reino Unido (tornando maiores os custos de empréstimos e, assim, minando a redução do déficit).</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas coisas estão mais claras. A questão de destaque é a maneira como isso tem obliterado qualquer movimento independente da classe trabalhadora. Toda esta campanha tem sido uma campanha contra a própria ideia da classe trabalhadora, em várias sentidos. Em primeiro lugar isso permitiu que ambos os lados do chicote se erguessem na noção de defesa da nação, a epítome do regime capitalista. O fanático nacionalismo inglês, irlandês e escocês agora ganharam força extra.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/07/3-mod.jpg" target="_blank"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-108642 size-medium" src="/wp-content/uploads/2016/07/3-mod-300x200.jpg" alt="3-mod" width="300" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/3-mod-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2016/07/3-mod.jpg 700w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Então, há o fato concreto da realização de referendos próprios. O Reino Unido não realiza muito tais exercícios de voto, então, de dois em dois anos temos algo como uma disputa. O que eles têm feito é um sopro de vida nova em um processo político que foi claramente perdendo sua legitimidade. <strong>[5]</strong> Tal como o referendo escocês, aqui a única opção para a classe trabalhadora é sobre qual conjunto de gangsters políticos irá administrar um sistema que lhe explora tudo não importa quem esteja no poder. <strong>[6]</strong> Seja qual for o resultado da votação o “debate” permaneceu e permanece sendo capitalista. Não só isto foi útil para manter as questões de classe fora da agenda (o que aprendemos das greves francesas nos meios de comunicação britânicos neste exato momento?), mas irá definir um novo nacionalista desagradável e uma cultura política racista no futuro. O Reino Unido não está sozinho aqui. A ascensão da Frente Nacional na França, a AfD na Alemanha, o Partido da Liberdade da Áustria, bem como a vitória dos ultranacionalistas na Polônia e na Hungria (o Partido Tory britânico está em aliança com alguns deles, como o <em>True Finn</em>[Verdadeiros Finlandeses], o Partido do Povo Dinamarquês e o Partido Lei e Justiça Polaco) <strong>[7]</strong>. Tudo indica que estamos em um período de pesadelo na história. Maquinações imperialistas criaram infernos que vivem em todo o planeta do Afeganistão à África. Estas guerras têm impulsionado mais de 65 milhões de pessoas em todo o planeta para fora de suas casas. Eventualmente, alguns fogem para os ambientes supostamente mais estáveis dos Estados que começaram a devastação em primeiro lugar. Muitos morrem no caminho e os sobreviventes são levados para campos ou tornam-se vítimas de várias máfias. E os racistas e nacionalistas nos Estados ricos jogam com isso para seus próprios interesses imediatos. É um círculo vicioso que transforma o espectro do nacionalismo em ascensão em outra ameaça ao futuro da humanidade. Apenas uma classe trabalhadora internacional e internacionalista que recupere sua voz de classe e sua capacidade de combater o capitalismo pode se opor a isso.</p>
<p style="text-align: justify;">CWO</p>
<p style="text-align: justify;">26 de junho de 2016</p>
<p style="text-align: justify;">Uma versão deste documento que tratará de forma mais ampla as repercussões internacionais, bem como as consequências políticas para a classe dominante, aparecerá em <em>Perspectivas revolucionárias 08</em> (que deve sair em julho).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Do artigo <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2015-11-16/european-union-referendum-%E2%80%93-more-capitalist-choices-to-reject-0]" target="_blank">“Referendum UE: mais escolhas capitalistas para rejeitar”</a>, que recomendamos aos leitores.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Temos escrito vários artigos sobre as causas precisas da crise econômica do capitalismo, que podem ser encontrados no nosso site, mas o mais abrangente é <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2009-11-24/the-fall-in-the-average-rate-of-profit-the-crisis-and-its-consequences" target="_blank">esse</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> E não apenas os tablóides. Cameron e seus companheiros, bem como toda a classe dominante fazem um jogo hipócrita sobre a imigração para dividir a classe trabalhadora. Veja <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2013-08-18/immigration-clampdown-%E2%80%93-don%E2%80%99t-let-them-divide-us" target="_blank">aqui</a> ou <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2007-11-20/the-rotten-state-we%E2%80%99re-in" target="_blank">aqui</a> ou <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2015-02-28/the-problem-is-bigger-than-pegida-the-real-issue-is-capitalism" target="_blank">aqui</a> e muitos mais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Em declarações ao Channel 4 News, 24 de junho de 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> A votação foi de 17,4 milhões para “Sair”, 16,1 milhões de “Ficar”, 12 milhões se abstiveram e 7 milhões a mais nem sequer se preocuparam em se registrar para votar, o que significa que a decisão “Sair” se baseia nos votos de 33% dos adultos elegíveis. A taxa de participação de 72% do eleitorado registrado foi por um longo tempo a mais alta e chegou a mais de 65% na eleição geral de 2015.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Ver <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2014-08-18/the-scottish-independence-referendum-the-great-diversion" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Ver <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2015-12-09/poland-the-18th-brumaire-of-jaroslaw-kaczy%C5%84ski" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tradução de Pablo Polese a partir do original disponível <a href="http://www.leftcom.org/en/articles/2016-06-27/brexit-vote-%E2%80%93-another-sign-of-global-capitalism%E2%80%99s-deepening-crisis" target="_blank">aqui</a>.</p>
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		<title>Brexit e os foras do nacionalismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jun 2016 18:11:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Nos deparamos hoje, após o resultado do referendo envolvendo o Brexit, com um novo nacionalismo desprovido de bases econômicas. Por Passa Palavra 1. Antecedentes: Portugal fora do euro Em 2012 o Passa Palavra publicou o artigo “A saída do euro e o fascismo” (conferir aqui). Esse artigo criticava a defesa da saída de Portugal da [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Nos deparamos hoje, após o resultado do referendo envolvendo o Brexit, com um novo nacionalismo desprovido de bases econômicas</em>. <strong>Por Passa Palavra</strong><br />
<span id="more-108612"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. Antecedentes: Portugal fora do euro</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/brexit2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-108629" src="/wp-content/uploads/2018/07/brexit2-300x200.jpg" alt="brexit2" width="300" height="200" /></a>Em 2012 o Passa Palavra publicou o artigo “A saída do euro e o fascismo” (conferir <a href="http://www.passapalavra.info/2012/10/65637" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Esse artigo criticava a defesa da saída de Portugal da zona euro por parte da esquerda portuguesa. Escrevíamos àquela altura que o nacionalismo é hoje desprovido de razão de ser no plano econômico, afirmando-se unicamente nos planos político e ideológico. Na época da transnacionalização do capital não há economia que não ultrapasse fronteiras nacionais, e todas as economias necessitam de créditos e financiamentos externos. Além de inviabilizar a existência além-fronteiras da economia portuguesa, a saída de Portugal da zona euro encareceria tais financiamentos e créditos devido à inadimplência que uma tal ruptura implicaria. Essa ruptura funcionaria portanto como um obstáculo ao aumento da produtividade em Portugal, ao desenvolvimento de formas mais elaboradas de exploração. O resultado seria uma maior pressão pela baixa dos salários, levando à pauperização da classe trabalhadora. Nesse cenário as camadas inferiores do proletariado português poderiam radicalizar-se à esquerda, ao passo que as camadas superiores tenderiam a radicalizar-se à direita, o que diante da fragilidade das organizações proletárias poderia potencializar uma fascistização do cenário político português.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos deparamos hoje, após o resultado do referendo envolvendo o <em>Brexit</em>, com um novo nacionalismo desprovido de bases econômicas. Embora o Reino Unido nunca tenha aderido ao euro, e Reino Unido e Portugal sejam países muito diferentes, um nacionalismo antieuropeu e meramente político-ideológico é o elemento unificador da esquerda portuguesa com os grupos que à direita defendem o <em>Brexit</em> no Reino Unido. Quando polemizávamos em 2012, o que estava em jogo para a esquerda portuguesa era o combate à especulação financeira e à economia de cassino supostamente associadas à Troika (trio formado pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional), e também a perspectiva de tornar as exportações portuguesas mais competitivas. Hoje no Reino Unido o que está supostamente em jogo é a reconquista da soberania nacional do povo britânico, supostamente ameaçada pela intervenção da União Europeia (UE) em assuntos internos e pela questão migratória. Se da saída de Portugal do euro resultaria o encarecimento de créditos e financiamentos externos, entravando a modernização econômica do país devido à perda da credibilidade de Portugal perante os investidores, o <em>Brexit</em> tem representado para o Reino Unido também uma perda de credibilidade. Um artigo publicado na <em>Folha de S. Paulo</em> em 24 de junho afirma que o resultado do referendo abalou os mercados financeiros e provocou uma “onda de choque de incredulidade global (conferir <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/06/1785097-com-metade-da-apuracao-saida-da-ue-leva-vantagem-em-plebiscito-britanico.shtml" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>)”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/Take-Control.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-108619" src="/wp-content/uploads/2018/07/Take-Control-300x188.jpg" alt="Take-Control" width="300" height="188" /></a>Esse nacionalismo retrógrado, que evoca alternativas econômicas características do período de crise dos anos 1930, quando a Grande Depressão, a queda da circulação mundial de capitais e a queda do comércio externo forçaram uma ruptura com a tendência de internacionalização da economia, continua a estar logicamente entre as preferências, por exemplo, do Partido Comunista Português (PCP). Em nota do partido afirma-se que a saída do Reino Unido da UE é uma “vitória”, um “acontecimento de enorme magnitude política para o povo do Reino Unido e também para os povos da Europa”, uma “alteração de fundo no processo de integração capitalista na Europa e um novo patamar de luta daqueles que se batem há décadas contra a União Europeia do grande capital e das grandes potências, e por um Europa dos trabalhadores e dos povos (conferir <a href="http://www.pcp.pt/sobre-vitoria-da-saida-da-uniao-europeia-no-referendo-realizado-no-reino-unido" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>)”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2012 podíamos afirmar que “não seria por abandonar o euro que Portugal abandonaria o mundo, embora possivelmente o mundo não se importasse nada de abandonar Portugal”. Contudo a situação agora é muito diferente. Logo após o referendo David Cameron apressou-se em anunciar sua renúncia, mas assegurando que a economia britânica é “fundamentalmente forte” e que “não haverá mudanças imediatas na forma como as pessoas viajam e como as mercadorias circulam”. O presidente do Parlamento Europeu apressou-se em anunciar que conversaria com Angela Merkel para evitar “uma reação em cadeia de eurocéticos”, e o ministro das Relações Exteriores da Alemanha lamentou no <em>Twitter</em> que “as notícias desta manhã procedentes da Grã-Bretanha são uma verdadeira desilusão. Parece um dia triste para a Europa e a Grã-Bretanha”. A imprensa tem alertado para um possível “efeito dominó” em toda a Europa, impulsionando movimentos separatistas como o escocês e o catalão, fazendo com que países-membros da UE queiram renegociar sua participação na união, e revivendo tensões na Irlanda do Norte. Três milhões de europeus vivem no Reino Unido, e dois milhões de britânicos vivem na Europa: o livre trânsito de europeus e britânicos entre a Europa e o Reino Unido era uma das condições de permanência do Reino Unido no bloco. Restrições nesse sentido trarão certamente muitas perturbações. Além do mais, o Reino Unido dirige metade de suas exportações para a UE, uma das razões para a queda recorde do valor da libra esterlina com relação ao dólar, em 24 de junho (conferir <a href="https://www.foreignaffairs.com/articles/united-kingdom/2016-06-21/britain-s-point-no-return" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). O presidente do IIF (Instituto de Finanças Internacionais), Tim Adams, declarou que “os eleitores do Reino Unido fizeram as suas vozes serem ouvidas e, agora, começa a difícil tarefa de fazer a retirada da União Europeia. […] A extensão do impacto da decisão sobre a economia e o mercado financeiro não será clara por algum tempo, mas é certo que será muito perturbadora no curto prazo e será um entrave ao crescimento econômico e ao emprego no longo prazo, especialmente para o Reino Unido (conferir <a href="http://www.valor.com.br/financas/4612881/brexit-resultado-foi-perturbador-e-sera-entrave-economia-diz-iif" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>)”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. O Reino Unido fora da Europa</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/Cameron-Remain.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-108617" src="/wp-content/uploads/2018/07/Cameron-Remain-300x188.jpg" alt="Cameron-Remain" width="300" height="188" /></a>A revista <em>Foreign Affairs</em> publicou recentemente um artigo que começa parafraseando Karl Marx: “um espectro está assombrando a Europa esta semana – o espectro da desintegração”. O artigo afirma que “se os britânicos votarem para deixar a UE […] eles matarão a ilusão de que o processo de integração europeia é irreversível”, o que “instigaria a besta inerte do nacionalismo na Europa, desperta novamente após a Grande Depressão e a crise do euro”, deixando “os Estados-membros da Europa profundamente divididos quanto ao destino futuro da integração europeia”. Qualquer que seja o resultado, conclui a revista, o Reino Unido ficará profundamente dividido, e sua democracia sairá gravemente ferida.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>a) O fora de David Cameron…</em></p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo artigo a revista afirma que em 2013 as pesquisas de opinião mostravam que a parcela de europeus satisfeita com a democracia sob a UE chegava a uma baixa recorde. David Cameron pensou poder “resolver a questão da Europa por uma geração” convocando um referendo. Ao mesmo tempo prometeu reformar completamente a relação de quarenta anos do Reino Unido com a UE, “reformar a Europa” em apenas seis meses, conseguir um melhor acordo para o Reino Unido dentro da UE. Cameron elaborou uma proposta contendo algumas demandas, entre elas o fim do compromisso do Reino Unido com uma integração cada vez maior. Outra proposta era limitar o número de cidadãos da UE que poderiam migrar para o Reino Unido (conferir <a href="http://www.valor.com.br/internacional/4616131/nao-creio-que-havera-brexit" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). O fato é que Cameron e outros políticos britânicos passaram a vida toda criticando a UE, mas agora viam-se forçados a convencer o Reino Unido a continuar no bloco: logo a campanha do referendo deixou de lado os aspectos técnicos e legais da participação para girar em torno da percepção do eleitorado quanto às vantagens em integrar a União Europeia, para além das calúnias e acusações mútuas, das mentiras, das profecias alarmistas, da xenofobia flagrante. A xenofobia no Reino Unido tem perigosas raízes, algumas muito antigas. Não por acaso há anos o país tem sido palco de mobilizações nacionalistas contrárias aos imigrantes, que resultaram em campanhas como a “put britain first” (empreguem os britânicos primeiro), e a criação do próprio Partido Britain First, de extrema-direita, cujo slogan é “taking our country back” (tomando nosso país de volta). Esse Partido possui um braço paramilitar, o Britain First Defence Force (Primeira Força de Defesa Britânica), famoso por suas “Patrulhas Cristãs” em que os membros usam uniformes verdes, carregam cruzes brancas e gritam slogans anti-islâmicos.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/No-mosques.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-108621" src="/wp-content/uploads/2018/07/No-mosques-300x165.jpg" alt="No-mosques" width="300" height="165" /></a>Ainda no referido artigo da <em>Foreign Affairs</em> pode-se ler “em economia, é difícil encontrar um economista que não pense que o Brexit é uma má ideia”. Porém, questionado se poderia nomear algum economista que apoiava o <em>Brexit</em>, o secretário da Justiça britânico, Michael Gove, respondeu que “o povo deste país já teve o bastante de experts”. Um artigo publicado no jornal <em>Valor Econômico</em> afirma igualmente que</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">a decisão pela “saída” envolve muito mais do que uma proporção ligeiramente majoritária de cidadãos que se recusam a seguir seus líderes políticos. Elas precisam ser vistas como uma rejeição notável às elites políticas e empresariais, assim como às “opiniões de especialistas”. E também ilustram as divisões regionais que predominam após um período de baixo crescimento, especialmente de um crescimento que beneficiou mais a alguns grupos do que a outros (conferir <a href="http://www.valor.com.br/internacional/4614699/sete-licoes-do-traumatico-plebiscito-no-reino-unido" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>b) … mas não dele apenas</em></p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que tanto os conservadores (<em>Torys</em>) quanto os trabalhistas prestaram um desserviço à causa da UE, deixando o lado favorável ao <em>Brexit</em> enquadrar o debate: como não tinham nenhum apreço pela UE foram forçados a argumentar sobretudo quanto aos aspectos negativos da saída da UE, deixando de argumentar quanto aos aspectos positivos da permanência no bloco, o que fez com que a campanha assumisse um tom emotivo em torno de questões como soberania e medo da imigração, em torno de slogans como “vamos tomar nosso país de volta” e “controle sobre nossas fronteiras”, que soaram muito mais convincentes que “é complicado” e “embora haja custos, também trazemos muita coisa de Bruxelas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>c) A vingança dos derrotados… ou não</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/Labour-Remain.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-108618" src="/wp-content/uploads/2018/07/Labour-Remain-300x213.jpg" alt="Labour-Remain" width="300" height="213" /></a>O Reino Unido verificou a partir de 1992, data da fundação da UE, a sua mais longa expansão econômica na história, com taxas de crescimento ultrapassando as da eurozona por margens significativas. Contudo, para a população mais velha e menos educada, que foi o grupo que favoreceu a saída da UE no referendo, os ganhos foram se tornando menos animadores, principalmente a partir da recessão iniciada em 2008. Foi a população mais jovem e educada, concentrada na cosmopolita Londres e nas <em>highlands escocesas</em>, que apoiou a permanência. Nos condados do sul, do sudoeste e nas <em>midlands</em> o apoio à permanência foi menor. Mas esse grupo menos favorecido provavelmente terá muito pouco para comemorar daqui para a frente, pois ao invés de “fazer a Grã-Bretanha grande novamente” a saída da UE vai provavelmente dar origem à “Pequena Inglaterra”, que ficará no final da fila, tentando negociar acordos globais de comércio com a China, a Índia e os Estados Unidos. Além disso, a relação entre Reino Unido e UE provavelmente guardará ressentimentos, como o antecipado na declaração do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, de que os “desertores” não devem esperar qualquer favor da Europa (conferir <a href="http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/05/juncker-alerta-britanicos-que-nao-havera-piedade-com-desertores-5806043.html#" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>).</p>
<p style="text-align: justify;">A solução nacionalista talvez não seja realmente a solução do grande capital, como quer o PCP, mas apenas porque é a única que impede o capital de crescer, modernizando assim o sistema econômico e as relações sociais, tornando a exploração menos brutal. O nacionalismo parece, na verdade, preferir um “pequeno capital”: um capital que não se multiplica como poderia, e que por isso não aponta para o capitalismo da abundância. O dramático é que não se trata apenas de um país econômica e politicamente pouco expressivo, como Portugal, marchando contra a integração econômica global: trata-se do Reino Unido, quinta economia mundial. E, embora Portugal não faça muita falta, certamente o Reino Unido fará.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3. Portugal à parte, falemos de coisas sérias</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>The Economist</em> definiu recentemente o futuro como sombrio, cheio de incertezas, inibindo investimentos (conferir <a href="http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21701292-uncertainty-abounds-expect-global-chilling-effect-investment-why-brexit" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Segundo o semanário, investidores odeiam incertezas, e o resultado da votação trouxe exatamente isso, uma abundância de incertezas. O Reino Unido contribui em 3,9% do <em>output</em> mundial, o que não seria o bastante para abalar a economia mundial em outra conjuntura, não da forma como fariam Estados Unidos e China. Mas o cenário internacional é desanimador, pois a economia americana se recupera ainda lentamente, com crescimentos do PIB oscilando entre 1,9% e 2,4% nos últimos 3 anos. Ao mesmo tempo, a China desperta cada vez mais preocupações quanto à sua capacidade de lidar com uma montanha de débitos.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/Britain-first.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-108616" src="/wp-content/uploads/2018/07/Britain-first-300x200.jpg" alt="Britain-first" width="300" height="200" /></a>Segundo a revista, uma recessão no Reino Unido parece provável, mesmo que o Banco da Inglaterra afirme o contrário: os investimentos serão afetados, tanto no Reino Unido quanto fora dele. Em tempos de incerteza as empresas postergam todos os gastos possíveis, e o mesmo o fazem os consumidores, agravando ainda mais o cenário. Para <em>The Economist</em>, os consumidores não vão provavelmente interromper seus gastos do dia para a noite, mas, conforme fiquem mais claros os impactos do <em>Brexit</em> para a economia, o consumo sofrerá uma queda. Além do mais, o colapso da libra vai elevar a inflação, diminuindo rendimentos reais, e o emprego será afetado, da mesma forma que as horas trabalhadas e o crescimento dos salários. A recessão no Reino Unido terá um impacto significativo sobre a UE: para qualquer redução do PIB do Reino Unido, a economia europeia sofrerá aproximadamente a metade dessa redução. E não se trata apenas da Europa, sobretudo da Europa meridional, mas também da China. Para <em>The Economist</em>, o principal risco, porém, é sobre o dólar: o enfraquecimento das moedas europeias vai provavelmente impactar sobre o dólar, que por sua vez vai impactar sobre o yuan. Todo esse “efeito dominó” será causado provavelmente pelo cenário de incertezas gerado pelo <em>fora</em> britânico.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse cenário de incertezas está relacionado ao impacto da surpresa do <em>Brexit</em>: segundo <em>The Economist</em>, se o Reino Unido, campeão histórico do livre comércio, pode escolher revogar um acordo comercial regional, quanta fé podem os investidores depositar em acordos econômicos internacionais? O <em>Brexit</em> seria portanto uma ameaça à ordem mundial liberal. Contra essa ordem emergiriam forças nacionalistas, populistas e protecionistas em diversos países. Segundo a revista, a Organização Mundial do Comércio (OMC) alerta para a multiplicação de medidas protecionistas no G20 desde 2008. E, além do mais, a desaceleração da migração de trabalhadores será custosa, podemos acrescentar que tanto para capitalistas quanto para os trabalhadores. A recessão na Europa pode contaminar a Ásia e a América, de modo a aumentar a pressão para a restrição dos fluxos de capitais. Tudo depende, conclui <em>The Economist</em>, do tipo e da rapidez com que o Reino Unido possa negociar um acordo comercial com a UE: se o Reino Unido obter um acordo rapidamente, sem reduzir seu acesso ao mercado comum, o cenário mais sombrio pode ser evitado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. A Europa fora do Reino Unido</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/Believe-Britain.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-108614 alignleft" src="/wp-content/uploads/2018/07/Believe-Britain-300x200.jpg" alt="Believe-Britain" width="300" height="200" /></a>A perspectiva de negociação rápida entre Reino Unido e UE, o único meio de conter a já previsível recessão, ao que parece não se vai efetivar. O cenário na UE é de divisão: segundo reportagem publicada no <em>Valor Econômico</em>, “enquanto representantes de países como Alemanha, Hungria e Polônia defendem a necessidade de uma abordagem construtiva para a saída do Reino Unido, outros querem se livrar dos britânicos o mais rápido possível (conferir <a href="http://www.valor.com.br/internacional/4616129/ue-tenta-mostrar-uniao-mas-diverge-quanto-reformas" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>)”. Charles Michel, primeiro-ministro belga, afirmou, por exemplo, que “apenas os interesses belgas e europeus me importam hoje – não os britânicos […] Não tem caminho de volta”.</p>
<p style="text-align: justify;">A Europa se divide entre os federalistas, defensores de uma maior integração europeia, e aqueles que privilegiam a soberania nacional, complicando as negociações com o Reino Unido. Em conformidade com a primeira perspectiva, os ministros das Relações Exteriores da França e da Alemanha defenderam um fundo monetário para a zona euro, bem como um orçamento compartilhado, que ajudaria os países da zona euro atingidos por crises financeiras, e o ministro alemão insistiu que qualquer orçamento comum demandaria reformas estruturais profundas em cada país-membro. O problema é que essa política não é aprovada por Angela Merkel. Por outro lado, o ministro das Relações Exteriores polonês, Witold Waszczykowski, esboçou um projeto que vai na contramão da proposta dos ministros alemão e francês, no qual os poderes dos países-membros seriam reforçados.</p>
<p style="text-align: justify;">Também há divergências sobre como estruturar futuras negociações com o Reino Unido. Alguns diplomatas têm sugerido que as conversações entre Reino Unido e UE devem se concentrar em questões envolvendo a saída do Reino Unido do bloco, como a interrupção dos pagamentos do país à UE. Discussões sobre os laços entre a UE e o Reino Unido, incluindo comércio, acesso ao mercado comum e aos bancos de dados de segurança do bloco não seriam uma prioridade. Há também divergências quanto à renegociação do Artigo 50 do Tratado da União Europeia, que governa a saída da união: o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, defende que não pode haver renegociação. No entanto, países com fortes ligações comerciais, econômicas e migratórias com o Reino Unido se opõem. E, além disso, há disputas entre a Comissão Europeia e o Conselho Europeu, que representa os governos individuais da União Europeia. Digno de nota, assim que constatou-se a vitória do Brexit o Reino Unido teve rebaixada sua nota de crédito (rating) pelas agências de classificação de risco S&amp;P (Standard &amp; Poor&#8217;s) e Fitch (conferir <a href="http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/06/reino-unido-perde-nota-maxima-dada-pela-sp-apos-vitoria-da-brexit.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Em comunicado, a Fitch avaliou que “a incerteza trazida pelo referendo britânico deverá provocar uma desaceleração abrupta da economia do Reino Unido, com adiamento de investimentos por parte das empresas e mudanças no ambiente regulatório, o que tende a afetar o cumprimento das metas fiscais”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/Encontro-sem-Reino-Unido.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-108624" src="/wp-content/uploads/2018/07/Encontro-sem-Reino-Unido-300x200.jpg" alt="Encontro-sem-Reino-Unido" width="300" height="200" /></a>Outra reportagem publicada no <em>Valor Econômico</em> (conferir <a href="http://www.valor.com.br/internacional/4614703/reino-unido-enfrenta-agora-vacuo-politico-e-isolamento" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) afirma que o Reino Unido enfrenta agora “a dura realidade de uma desintegração de sua influência no cenário mundial”. Diante desse cenário, Jim Stavridis, ex-comandante supremo da OTAN, declarou que “os EUA têm de enfrentar a realidade de que o Reino Unido deverá ser um parceiro menos eficaz e confiável em assuntos mundiais”. Segundo a reportagem, o país também depara-se com a “perda iminente de seu poder na regulamentação europeia sobre serviços financeiros, um setor vital para a economia do Reino Unido”. O país, segundo Jonathan Hill, citado pela reportagem, enfrenta a possibilidade de ser obrigado a cumprir regras bancárias europeias formuladas sem que os britânicos estejam à mesa. A renúncia de Hill ao cargo de comissário da União Europeia para Serviços Financeiros, segundo Erik Nielsen, economista-chefe do UniCredit, também citado na reportagem, demonstra que “fosse qual fosse a influência do Reino Unido na UE, ela desapareceu a partir deste fim de semana”. Para Hill, é improvável que os bancos com sede no Reino Unido preservem seus “direitos de passaporte”, direitos que lhes permitem atender clientes em todo o bloco, pois isso depende da aceitação pelo Reino Unido da livre circulação de pessoas. “Não vejo como isso poderia se manter, dado o peso da imigração no debate do referendo”, afirmou. Vários grandes bancos, incluindo o HSBC, JPMorgan Chase e Goldman Sachs, já iniciaram preparativos para uma possível mudança de algumas operações para Dublin, Paris e Frankfurt. A reportagem afirma ainda que “os mercados financeiros mundiais preparam-se para mais volatilidade, após as turbulências vistas na sexta-feira, quando a libra esterlina caiu para seu mais baixo valor em 30 anos e as ações dos bancos europeus caíram 18%. Enquanto o choque inicial vai sendo substituído por preocupações sobre a profundidade do impacto que a decisão britânica terá sobre a economia mundial, a libra e as ações de bancos continuarão sob forte atenção”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. Fora Temer ou luta de classes?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, como em outros países de proporções continentais, essas questões internacionais tendem a ser tratadas com provincianismo, como se fossem distantes demais para nos afetar. Não iremos, nesse momento, analisar as consequências econômicas do Brexit para o Brasil. Porém, o mais provável é que o resultado do referendo britânico influencie o cenário nacional do ponto de vista econômico, não do ponto de vista político. É outro o cenário em Portugal, onde a esquerda que pretende livrar Portugal das garras da Europa sairá provavelmente fortalecida. O nacionalismo político-ideológico existe também no Brasil, mas de outro modo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2016/06/Fora-Dilma-fiesp.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-108623" src="/wp-content/uploads/2018/07/Fora-Dilma-fiesp-300x199.jpg" alt="Fora-Dilma-fiesp" width="300" height="199" /></a>Este site tem analisado desde algum tempo como os brasileiros que defenderam a “reconquista da nação” desde meados de 2013, mas com maior força a partir das últimas eleições presidenciais, compreendem a “reconquista” como reconquista perante o PT e a esquerda, o que significaria varrer a esquerda em geral do cenário político nacional (conferir <a href="http://www.passapalavra.info/2016/03/107758" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Parte significativa da esquerda reivindica para si o verdadeiro nacionalismo e o utiliza como argumento para atacar o governo Temer que segue “as políticas neoliberais e imperialistas”. Perante a ascensão de mobilizações, feitas por trabalhadores, abertamente conservadoras em torno do ideário nacionalista dos dois lados do Atlântico, a esquerda apenas consegue assustar-se com a ascensão dessas pautas, sem fazer uma reflexão profunda dos caminhos que levaram a este cenário. Deveria se assustar é com as proximidades que encontra com essas mobilizações, e com a perda de capacidade de pensar e de oferecer alternativas próprias para os problemas da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar dos muitos “foras” do governo interino permanente, é provável que Temer encontre no agravamento da instabilidade econômica internacional um fator de estabilização política nacional, afinal um retorno de Dilma seria catastrófico, criando ainda mais insegurança econômica, da mesma forma que eleições antecipadas introduziriam novos fatores de incerteza. O governo temerário deu demonstrações suficientes de que goza de pouca ou quase nenhuma aprovação popular. Esse deverá ser o raciocínio do grande capital. Ainda assim, Temer é a solução da estabilidade, da confiança, ainda mais diante de uma esquerda que se limita a “marcar posição (conferir <a href="http://www.passapalavra.info/2016/06/108543" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>)”. Não foi por acaso que o Presidente interino afirmou ter uma “missão” de “fazer o que é necessário” ou, como ele afirmou em entrevista transmitida em rede nacional: “eu posso ser até — digamos assim — impopular, mas desde que produza benefícios para o país, para mim é suficiente (conferir <a href="http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2016/05/michel-temer-diz-vai-demitir-ministros-que-cometerem-irregularidades.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>)”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas e a classe trabalhadora? Caberia a ela varrer de vez a influência nefasta do PT e das organizações que giram em sua órbita, ao mesmo tempo em que enfrenta a pauperização decorrente das medidas encaminhadas a partir do Executivo. Para a classe trabalhadora, o capitalismo em crise coloca em pauta a sobrevivência econômica de seus membros. Para ela, lutar é uma imposição, uma necessidade. A crise, ao lado das iniciativas governamentais para a sua superação, são para ela golpes, golpes verdadeiramente dolorosos, golpes verdadeiramente relevantes. O golpe que tirou Dilma do poder é um golpe intercapitalista, que não nos diz respeito. Temer veio terminar o que Dilma teve a infelicidade de começar. A classe trabalhadora deve se preocupar agora em lutar contra tudo o que tanto Temer quanto Dilma representam, sem aliviar para a extrema-direita raivosa das ruas e dos gabinetes. Parte fundamental desta luta diz respeito à recusa de todo e qualquer nacionalismo. E dessa luta devem emergir as condições para uma nova ofensiva contra o capitalismo. Resta saber se a classe trabalhadora será capaz de constituir uma esquerda à altura do desafio, uma esquerda capaz de pautar a resistência à exploração econômica, capaz de promover as lutas ao invés de contê-las, ou de promover lutas que não entrem em contradição com a consciência de classe e a luta de classes.</p>
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		<title>Os motins, os estudantes e a vigilância intensiva: o ressurgimento dos protestos no Reino Unido</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Dec 2013 11:23:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ Por João Nunes Almeida &#160; Após a destruição parcial, em Londres, de um dos grandes quartéis-generais conservadores em Dezembro de 2010, no contexto do protesto contra o aumento das propinas e dos motins que puseram as cidades inglesas em estado de sítio durante o mês de Agosto de 2011, poder-se-ia pensar que os conflitos sociais, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"> <strong>Por João Nunes Almeida</strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Após a destruição parcial, em Londres, de um dos grandes quartéis-generais conservadores em Dezembro de 2010, no contexto do protesto contra o aumento das propinas e dos motins que puseram as cidades inglesas em estado de sítio durante o mês de Agosto de 2011, poder-se-ia pensar que os conflitos sociais, despoletados pelo governo de Cameron e Osborne, estariam doravante pacificados na festa nacionalista dos jogos olímpicos. Estabelecer uma relação entre estes acontecimentos e as manifestações e greves de Novembro e Dezembro de 2013 no ensino superior poderá explicar o ressurgimento desse conflito, se se tiver em conta o que parece ser uma resposta da população a um aumento do policiamento, vigilância e intensiva racionalização das instituições de ensino. Não é de estranhar, por isso, que numa das faixas utilizadas recentemente nos protestos de Londres se pudesse ler: “estudantes contra a universidade”.</p>
<p style="text-align: justify;">O facto de se pagar 9000 libras [cerca de 34.200 reais] por ano para se frequentar um curso superior numa universidade pública em Inglaterra deve-nos levar a questionar se existe de facto contradição entre o público e o privado ou se porventura um é apenas uma extensão do outro. Não é por ser estatal que a universidade se torna um lugar de menor exploração: o governo poderá voltar a aumentar as propinas e desse modo conduzir, como até agora o tem feito, a um aumento da exploração de indivíduos que se endividam para pagar os seus estudos. Talvez por isso, a reivindicação nas ruas já não recaia em uníssono na defesa exclusiva dos serviços públicos e do <em>welfare-state</em>, mas sim contra a universidade enquanto instituição que já não beneficia quem a frequenta, despojando de todos os instrumentos de autogestão, aprendizagem e convívio entre estudantes que fujam da lógica empresarial ditada quantas vezes pelas associações de estudantes. A universidade tornou-se um símbolo descarado de exclusão social desde que as propinas triplicaram o seu valor após os protestos de 2010. Tal aumento das propinas traduziu-se na exclusão imediata de 15000 estudantes do ensino superior. É contra a universidade, enquanto instituição estatal, que vê estudantes como consumidores afortunados e proletários a disciplinar quando estes se rebelam contra ela, que os protestos reemergiram em Inglaterra e algumas universidades foram ocupadas nas duas últimas greves convocadas pelos sindicatos University and College Union (UCU), Unite e Unison.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151028" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/PF-student-fees_1370727c.jpg" alt="" width="460" height="288" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/PF-student-fees_1370727c.jpg 460w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/PF-student-fees_1370727c-300x188.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 460px) 100vw, 460px" /></p>
<p style="text-align: center;">
<h4><strong>As universidades em mutação: a gestão intrusiva e o cliente que estuda nas universidades inglesas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os acontecimentos que se passaram nos últimos meses, e que são apenas a ponta do iceberg do descontentamento que poderá reemergir a partir de Janeiro, têm como pano de fundo uma intrusão agressiva de vários instrumentos de gestão que visam a crescente obtenção de lucro às custas de uma maior exploração e perda de autonomia tanto dos estudantes como dos académicos na produção de conhecimento dentro da universidade. Pode resumir-se tal colonização a um assédio ininterrupto a estudantes e professores através de uma suposta inevitável relação de causa entre o que se investiga e ensina e o mundo empresarial. Académicos são chamados à atenção, através de sucessivos <em>mails</em> da universidade à qual estão vinculados, para o imperativo de criarem currículos e programas de estudo que satisfaçam as necessidades das empresas. Estudantes recebem semanalmente anúncios de como planear as suas carreiras profissionais relativamente às exigências do mercado de trabalho na crise. Dentro dos departamentos de ciências sociais, encontram-se afixados posters de eventos promovidos por multinacionais. Na ânsia de cativar futuros estudantes, empresas e universidades organizam feiras de carreira consoante as áreas de estudo, ainda que isso implique promover empresas relacionadas com o negócio de armas. Neste ponto, é importante salientar a recente informação obtida através de um <em>freedom of information act</em> [Lei da Liberdade de Informação] de que a universidade onde estudo, por exemplo, investe 2,36% das propinas na British Aerospace Engineering (BAE), uma empresa ligada à venda de armas a regimes como os da Arábia Saudita, Bahrain e Líbia. A própria universidade tinha um programa de mestrado financiado pela BAE, bem como parcerias na organização de eventos cujo objectivo consistia em atrair estudantes para tal empresa.</p>
<p style="text-align: justify;">O que importa aqui salientar é que o discurso que se traduz nessas práticas é o mesmo que produz o estudante, enquanto cliente, a quem a universidade deve servir uma “experiência” que ultrapassa os limites do campus universitário e penetra na sua vida fora da universidade. Este estudante, endividado, regerá os seus hábitos de acordo com a disciplina da dívida das propinas, tendendo a aceitar mais facilmente a chantagem imposta pela relação de causa entre o seu plano de estudos e o mundo empresarial. Caso se decida pela leviandade de estudar o que deseja, arriscará o desemprego a par de uma dívida por pagar de 27.000 libras, incluindo os respectivos juros. Não se deve deduzir deste raciocínio, no entanto, que esta nova subjectividade é necessariamente domesticada e incapaz de resistir à chantagem do controlo social da dívida. As ocupações e os protestos nos últimos dois meses (no caso de Sussex, ocupada durante o mês de Março) levados a cabo por estudantes, endividados ou não, no pano de fundo do desemprego ou do trabalho precário, não nos permitem chegar a conclusões fáceis quanto à pacificação da universidade através do instrumento político da dívida. Ainda relativamente ao endividamento dos estudantes, soube-se em Novembro de 2013 que a coligação entre conservadores e liberais-democratas se prepara para vender 890 milhões de libras [mais de 3380 milhões de reais] de dívida contraída por estudantes no período entre 1990 e 1998, o que levará a um aumento das taxas de juro impulsionado pelas empresas detentoras dessa dívida e, consequentemente, a um aumento dos custos da dívida suportados por ex-estudantes. Ora, o que esta transferência do total da dívida para os estudantes revela é que, precisamente por ser uma subjectividade ambígua entre o estudante e o cliente, o estudante endividado passará crescentemente a suportar os custos de produção da universidade, enquanto a mesma não deixa de apresentar uma mais-valia que ronda um bilião de libras.</p>
<h4><strong>Impasses de uma solidariedade nas greves de 31 de Outubro e de 3 de Dezembro de 2013</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Denunciando a perda de 13% do salário da maioria dos trabalhadores nas universidades, o aumento considerável no das chefias e a diferença abismal entre o salário dos vice-<em>chancellors</em> (cujo salário, em média, rondava as 250.000 libras por ano em 2011-2012) e os restantes trabalhadores, o UCU, o Unite e o Unison (estes dois últimos estão financeiramente ligados ao Partido Trabalhista, tendo direito a voto nas políticas do partido) convocam para o dia 31 de Outubro uma paralisação das universidades em todo o território durante 24 horas. É neste contexto que me solidarizei com os piquetes da universidade onde estudo e pude constatar a miséria da acção dos sindicatos envolvidos bem como da inexistência de um amplo movimento estudantil que pudesse confrontar o conservadorismo da acção dos sindicatos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151027" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/Sussex-university-protest-008.jpg" alt="" width="460" height="276" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/Sussex-university-protest-008.jpg 460w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/Sussex-university-protest-008-300x180.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 460px) 100vw, 460px" />Antes de mais, importa não romantizar o que sucedeu na Universidade de Sussex e de Londres de modo a não generalizá-lo a todo o país. Convém relembrar que o UCU tem uma estratégia nacional de não bloquear estradas ou travar fura-greves. O sucesso da greve em Sussex, por exemplo, deveu-se em grande parte ao papel de estudantes radicalizados que efectivamente bloquearam as entradas da universidade (o que mais tarde reverteu em processos judiciais por perturbação do normal funcionamento da universidade). Ainda assim, no piquete com o qual me solidarizei, alguns estudantes decidiram ocupar meia-faixa de rodagem e jogar ténis com os tristes e derrotistas cartazes do UCU (Honk for support!), depois de não mais de quinze estudantes terem procedido à única marcha, considerada ilegal, tentando assim desacelerar a circulação de um autocarro. Trinta pessoas, incluindo estudantes, sindicalistas e membros da associação de estudantes, posicionaram-se ao longo da manhã na berma da estrada que dá entrada para a universidade. Mesmo com um tão reduzido número de grevistas e a evidência deprimente de uma greve falhada, os sindicalistas, que batem palmas quando os fura-greves buzinam e aceitam o panfleto da greve, não hesitaram em confrontar os estudantes que ocupavam a faixa de rodagem, argumentando que não queriam problemas com a polícia e que a lei nos obrigava a ficar na berma da estrada. A associação de estudantes, nestes casos, alia-se silenciosamente ao sindicato: em anos anteriores, a mesma associação de estudantes posicionou-se contra o protesto antipropinas de 9 de Novembro de 2010, em Londres, e não se solidarizou com a agressão policial (causando ferimentos no crânio) a um estudante dentro da área residencial da universidade e a sua posterior detenção após um protesto antipropinas a 19 de Novembro de 2010. Tendo confrontado um dos sindicalistas relativamente à palhaçada do que se passava nesse piquete, foi-me dito que não havia condições para fazer mais e que nós aqui não somos assim tão militantes. Apesar de esta ter sido a primeira greve dos trabalhadores da universidade desde há sete anos e que reuniu pela primeira vez os três maiores sindicatos da função pública, tal não alterou minimamente o contexto político e a postura antidisruptiva de tais sindicatos.</p>
<p style="text-align: justify;">A 3 de Dezembro de 2013 realizou-se, então, uma nova greve do ensino superior. Vários estudantes ocupam edifícios nas universidades de Birmingham, Sussex, Londres (Goldsmith), Edimburgo, Manchester, Liverpool, Sheffield, Warwick, Exeter e Ulster em solidariedade com os trabalhadores em greve. Voltei a juntar-me, em conjunto com um colectivo, ao piquete do UCU, Unite e Unison. Alguns estudantes decidiram escrever frases a giz na estrada e tentaram causar alguma dificuldade aos fura-greves, dançando, para isso, no meio da estrada. Fomos avisados novamente por um membro do UCU de que não podíamos interromper o trânsito. Um estudante acabou por confrontar o sindicalista em questão, perguntando-lhe se para ele as greves serviam para alguma coisa e se alguma vez o UCU iria fazer mais do que o espectáculo decadente dos panfletos e das palmas, encorajando os que buzinam a trabalhar em vez de os impedirem de o fazer. Além do mais, esta greve surgiu num momento em que se passou a saber pelo jornal da universidade de que centenas de trabalhadores, professores incluídos, estavam em regime de contratos de zero horas (contratos flexíveis onde só se recebe um salário quando se é contactado pelos serviços e sem direito a qualquer tipo de subsídio ou a um mínimo de horas garantidas por mês). Os representantes sindicais do UCU, Unite e Unison acharam, portanto, que a berma da estrada era o limite da greve contra a precarização geral em curso dos estudantes e profissionais das universidades.</p>
<h4> <strong>#Copsoffcampus [<em>polícia fora do campus</em>]: a vertente policial na gestão das universidades</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A escalada repressiva que se vive nas universidades inglesas deverá, assim, ser contextualizada na reestruturação em marcha das universidades. Tornou-se evidente que a estratégia da coligação em fazer da universidade uma empresa lucrativa, onde a produção de conhecimento perde cada vez mais a sua autonomia, não poderá ser bem-sucedida sem que os aparelhos repressivos do Estado cooptem todos os envolvidos na universidade a aceitar as novas práticas de gestão. Essa repressão indicia contornos de autoritarismo que se manifestam na contenção de colectivos dissidentes dentro das universidades. Na universidade onde estudo não é possível reservar uma sala para debater questões políticas caso não esteja sob a alçada de alguma <em>society</em>. Não significa isto que elas não possam acontecer. Mas apenas que há todo um processo que passa por se declarar que se vai debater uma questão “não política”. É-nos negado, sem qualquer motivo razoável, um espaço dentro da universidade para se fazer actividades que fujam da lógica das <em>societies</em>. A associação de estudantes, para além de controlar todos os bares no campus e uma discoteca na cidade, não se mostra minimamente preocupada com o facto de não haver um único lugar para os estudantes conviverem e realizarem actividades fora do circuito dos <em>pubs</em> e das <em>societies</em>, algumas delas vistas como um extra vantajoso para se ter no CV. A par desta situação, há uma esquadra dentro da universidade, sendo auxiliada na vigilância do campus universitário por seguranças contratados pela universidade e por uma empresa privada. Em traços gerais, este microcosmo policial repercute-se pelas universidades inglesas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151025" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/Student-protesters-on-a-C-009.jpg" alt="" width="460" height="276" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/Student-protesters-on-a-C-009.jpg 460w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/12/Student-protesters-on-a-C-009-300x180.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 460px) 100vw, 460px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ora, é no seguimento da greve de 3 de Dezembro que se vem revelando com clareza a aliança entre o paradigma de gestão acima descrito das universidades e a repressão policial. O receio de que o rastilho de 2010 se propague novamente exigirá eficácia na supressão do menor sinal de conflito social alargado. É neste sentido que se deram as detenções de pelo menos 40 estudantes em apenas uma semana, incluindo a detenção do presidente da associação de estudantes da Universidade de Londres; o escândalo de um vídeo que mostrava o aliciamento de um estudante de Cambridge para colaborar com a polícia; a suspensão dos estudos de 5 estudantes na Universidade de Sussex; a proibição de qualquer manifestação no campus da Universidade de Londres e, por último, as agressões policiais a estudantes nas noites que se seguiram à greve de 3 de Dezembro. É nesta sequência de acontecimentos que a irrupção em Londres do #copsoffcampus, o nome do protesto convocado para o dia 11 de Dezembro, se tornou viral nas redes sociais, sendo organizadas manifestações em universidades um pouco por todo o país, com o apoio e solidariedade das associações de estudantes para com os estudantes agredidos pela polícia. Desde então, A.C.A.B (<em>All cops are bastards</em> [todos os polícias são filhos da puta]) tornou-se um grito que tenta ecoar para lá da luta na universidade, fazendo uma ligação inteligente com os motins de Agosto de 2011, quando cerca de 1000 estudantes protestaram no dia 11 nas ruas de Londres e o nome de Mark Duggan foi lembrado. O ponto alto da manifestação terá sido a invasão de uma área da Senate House &#8211; a administração da Universidade de Londres. No entanto, se, por um lado, essa ponte é mais do que desejável para que a revolta surja nas ruas, ela poderá comportar uma escalada repressiva, tendendo a representar os estudantes, a par dos <em>chavs</em> (“chungas”) e dos <em>welfare scroungers</em> (“subsídio-dependentes”), como o inimigo interno a abater. Ecoa aqui, certamente, o legado de Thatcher aquando da revolta dos mineiros em 84-85, mas também uma solidariedade imprevista dos estudantes para com o resto da comunidade e vice-versa.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desta agressiva gestão das universidades, colectivos de estudantes organizados à margem do National Union of Students (NUS) aprofundam contactos entre si e começam a formar uma rede que transcende o meio universitário e se relaciona, por exemplo, com diversas lutas sociais de acordo com a região da sua universidade. Não é de estranhar, portanto, que a gestão das universidades tenha vindo a mostrar sinais de que perseguirá judicialmente estudantes ao menor indício de contestação, ameaçando alunos com a suspensão dos seus estudos e, sobretudo, com a chantagem de que a universidade é uma intermediária dedicada do mundo empresarial, não tolerando mais protestos dentro do seu espaço que questionem o discurso do empreendedorismo e a subjectividade submissa do estudante endividado/cliente que, por ele, é produzida.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Os leitores portugueses que não percebam certas expressões usadas no Brasil<br />
e os leitores brasileiros que não entendam algumas expressões correntes em Portugal<br />
dispõem <a href="http://passapalavra.info/2013/04/76628" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> de um Glossário de gíria e termos idiomáticos.</p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A insurreição urbana britânica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Aug 2011 14:16:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Não é preciso ser um gênio para prever que os motins hão-de regressar periodicamente se não ocorrerem transformações nesta sociedade fundamentalmente desigual e racista. Por Paul Tiyambe Zeleza Recentemente, durante quatro dias e quatro noites, as cidades britânicas, de Londres até Manchester, Birmingham e outras cidades menores, foram atravessadas pelas chamas da raiva. Os motins [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Não é preciso ser um gênio para prever que os motins hão-de regressar periodicamente se não ocorrerem transformações nesta sociedade fundamentalmente desigual e racista</em>. <strong>Por Paul Tiyambe Zeleza</strong></p>
<p><span id="more-44669"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-44720" title="motins-5" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-5-300x168.jpg" alt="motins-5" width="300" height="168" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-5-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-5.jpg 624w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Recentemente, durante quatro dias e quatro noites, as cidades britânicas, de Londres até Manchester, Birmingham e outras cidades menores, foram atravessadas pelas chamas da raiva. Os motins urbanos lançaram fogo a bairros e lojas, transformaram ruas em zonas de guerra, levaram a centenas de prisões e deixaram este ex-império em declínio profundamente abalado e em busca de respostas, de reparações, de culpados. Os políticos proferiram as banalidades previsíveis de líderes desligados da realidade, chamando aos motins, nas palavras do primeiro-ministro <a href="http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/crime/8691034/London-riots-Prime-Ministers-statement-in-full.html" target="_blank">David Cameron</a>, de “criminalidade pura e simples”. Especialistas pretenciosos afadigam-se em dar explicações e lançar insultos contra os manifestantes e os revoltosos, enquanto o público aturdido busca desesperadamente a restauração da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-44723" title="motins-8" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-8-300x225.jpg" alt="motins-8" width="300" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-8-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-8.jpg 650w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Como é comum em momentos de perturbação nacional, posições ideológicas e discursos de longa data são frequentemente ressuscitados e reforçados. Previsivelmente, especialistas de direita fazem-se eco das posições do governo, condenando os manifestantes. <em><a href="http://www.telegraph.co.uk/comment/telegraph-view/8691352/The-criminals-who-shame-our-nation.html" target="_blank">The Telegraph</a> </em>recusa-se mesmo a chamá-los de “manifestantes”, preferindo taxá-los de “saqueadores, vândalos e ladrões”. Indo além dos “marginais” e dos “gangues”, lançam as culpas sobre os pais por abdicarem dos valores da família, da disciplina e da responsabilidade. Gostam de chamar a atenção para a juventude dos revoltosos. Nas palavras de <a href="http://blogs.telegraph.co.uk/news/cristinaodone/100100154/london-riots-absent-fathers-have-a-lot-to-answer-for/" target="_blank">um comentarista</a> do jornal, “os pais ausentes têm grandes responsabilidades”. Outro acha que <a href="http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/crime/8689004/London-riots-why-did-the-police-lose-control.html" target="_blank">a polícia perdeu o controle</a> porque “ficou tão sensível à questão racial que isso a impede de fazer o seu trabalho”; preocupam-se “<a href="http://www.telegraph.co.uk/comment/letters/8691802/The-riots-are-a-result-of-the-police-caring-more-for-community-relations-than-for-the-rule-of-law.html" target="_blank">mais em ter boas relações com a comunidade do que em impor a lei</a>.” Lançam-se as culpas sobre o multiculturalismo por criar <a href="http://blogs.telegraph.co.uk/news/damianthompson/100100087/london-riots-this-is-what-happens-when-multiculturalists-turn-a-blind-eye-to-gang-culture/" target="_blank">um clima permissivo para a cultura de gangues</a> que se desenvolve na comunidade negra, uma cultura “que rejeita todos os princípios da sociedade liberal. É violenta, sexista, homofóbica e racista.” Um que tem o telhado de vidro e que lança pedras no do vizinho!</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-44726" title="motins-1" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-1-300x190.jpg" alt="motins-1" width="300" height="190" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-1-300x190.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-1-1024x650.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-1.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Quanto aos liberais, eles se equivocam quando, por um lado, condenam a violência e, por outro, sentem pena dos manifestantes e apontam as condições que os levaram à explosão de fúria. Esta ambiguidade pode encontrar-se em <em>The Guardian</em>. Em <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/09/urban-riots-battle-streets-editorial" target="_blank">um editorial</a> o jornal foi inequívoco: “Os motins britânicos de 2011 tornaram-se um confronto definidor entre a desordem e a ordem. Neste confronto, e apesar de importantes ressalvas, só se deve estar de um dos lados. Tem de se pôr cobro aos ataques, à destruição, à criminalidade e ao reino do medo […] Pode discutir-se depois questões mais vastas. Hoje, neste momento de perigo, é necessário apoiar a polícia.” Enquanto isso, os colunistas do jornal atribuem os motins, diversamente, ao aumento da desigualdade e à implementação de drásticas medidas de austeridade; à brutalidade da pobreza e à psicologia explosiva de <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/09/uk-riots-psychology-of-looting" target="_blank">aspirações consumistas não realizadas</a> entre os pobres; à cultura de <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/10/riots-without-responsibility" target="_blank">exercício de direito e irresponsabilidade</a> que perdeu as estribeiras entre os jovens; e ao resultado perverso de <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/10/uk-riots-vigilantism-big-society" target="_blank">comunidades estimuladas a preencher vazios deixados pelo Estado</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em momentos de insurreição nacional também é tentadora a busca de analogias. <em>The Independent</em> pretende que a Grã Bretanha <a href="http://www.independent.co.uk/opinion/leading-articles/leading-article-britain-has-experienced-its-katrina-moment-2334812.html" target="_blank">experimentou seu momento Katrina</a>. Tal como sucedeu em Nova Orleans, rebentaram os diques destinados a manter a ordem social e, do mesmo modo que a administração republicana do presidente Bush, o governo de coligação parece não saber o que há-de fazer, além de ameaçar com ações policiais ainda mais severas. Tal como com o furacão Katrina, este tem sido um momento angustiante para a Grã-Bretanha, fazendo as atenções incidirem nas classes subalternas, frequentemente invisíveis tanto para o Estado quanto para a elite. “Muito pouco tem sido feito por gerações sucessivas de políticos e servidores públicos para integrar estes indivíduos na sociedade normal. O rastilho desta explosão tem estado a arder desde há anos, talvez mesmo desde há décadas. Se algo bom pode emergir dos horrores dos últimos dias será que nós finalmente enfrentaremos a escandalosa exclusão de nossas classes subalternas.”</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns procedem a comparações mais evidentes. O caso dos motins franceses de 2005 é especialmente sedutor. Ambas estas explosões de fúria urbana foram desencadeadas por policiais matando homens negros em comunidades relativamente pobres, com uma vasta população minoritária e uma longa tradição de violência policial, de discriminação política e econômica e de privação de direitos. Os motins de Londres são ainda mais assustadores, afirma <a href="http://globalspin.blogs.time.com/2011/08/09/the-riots-of-paris-and-london-a-tale-of-two-cities/?xid=fblike" target="_blank">um observador</a>, por conta de sua geografia social expansiva e de seu impacto. Enquanto as revoltas francesas estavam confinadas às <em>banlieues</em> [periferias], aos subúrbios remotos da linda Paris das elites e dos turistas, os motins britânicas estão “a chegar à porta das confortáveis residências das classes médias e médias-altas.” Isto é facilitado pelo fato de Londres ser uma cidade que se alastra e pelo fato de a demografia dos bairros pobres se caracterizar por uma mistura sócio-económico-étnica.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra analogia européia intrigante é a Grécia, onde a morte a tiro de um jovem em dezembro de 2008 desencadeou manifestações generalizadas, que agitaram Atenas ao longo de uma semana e pressagiaram os motins anti-austeridade dos meses recentes. Um <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/10/riots-uk-athens-greece" target="_blank">autor que presenciou os dois conjuntos de manifestações</a> observa que “ambos ocorreram sob governos conservadores que se recusaram até mesmo a reconhecer, e muito menos a tentar responder, às razões da insatisfação.” Como deveria ser desnecessário dizer, “uma violência urbana de tamanha intensidade não pode ser meramente atribuída a motivos oportunistas […] Se a Inglaterra quiser aprender com a violência urbana de outras cidades européias, deverá incidir a atenção nas motivações e nas razões de queixa dos participantes. Se não o fizer, na próxima vez as coisas serão piores e mais dolorosas, como sucedeu em Atenas.”</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-44729" title="motins-10" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-10-300x233.jpg" alt="motins-10" width="300" height="233" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-10-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-10.jpg 468w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Todas estas comparações ajudam a esclarecer a insurreição britânica de 2011. Ainda mais pertinente é situar os recentes motins generalizados no contexto da história britânica. Nos séculos XVIII e XIX abundaram na Grã-Bretanha os motins desencadeados pela insatisfação política, econômica ou social. No século XX, a questão racial cada vez mais juntou a sua dinâmica incendiária aos surtos periódicos de perturbações e de insatisfação pública. No pós-guerra, o grande número de imigrantes oriundos do Caribe, da África e da Ásia, todos eles chamados “negros”, quebrou os elos de caráter inglês e branco, de caráter britânico e europeu, e reorganizou as relações e as tensões entre raça e classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Raça e classe sempre estiveram entrelaçadas no contexto da Grã-Bretanha imperial, a principal nação comerciante de escravos no século XVIII e a principal potência colonial nos séculos XIX e XX. Isto só para chamar a atenção para a circulação permanente das ideologias de raça e de classe entre a Grã-Bretanha e o seu império, que marcou as relações sociais tanto nas periferias coloniais como no centro metropolitano durante o apogeu do império e posteriormente. Em resumo, a Grã-Bretanha tem um problema persistente de desigualdade e exclusão raciais e de classe, que leva ocasionalmente à eclosão de motins. No pós-guerra irromperam motins raciais com uma frequência previsível: os motins de Notting Hill em 1958, os motins de Brixton em 1981, os motins de Handsworth e Broadwater Farm em 1985 e os motins de Brixton e Bradford em 1995.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-44732" title="motins-12" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-12-300x193.jpg" alt="motins-12" width="300" height="193" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-12-300x193.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-12.jpg 620w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />É claro que variam os contextos específicos de cada uma destas revoltas, mas a situação subjacente, as condições estruturais, permanecem profundamente enraizadas nas hierarquias e marginalizações raciais e de classe da sociedade britânica, sustentada por uma classe política cada vez mais incompetente. Quanto aos motins de 2011, importa especialmente considerar dois contextos: primeiro, a redução das oportunidades econômicas e, segundo, a decadência da democracia. Tal como boa parte da Euro-América, a Grã-Bretanha foi devastada pela Grande Recessão e a economia está mancando desde que foi declarado oficialmente o termo da recessão. Na última estimativa, o <a href="http://www.guardian.co.uk/business/2011/aug/10/bank-of-england-uk-economy" target="_blank">Banco da Inglaterra</a> “reduziu para 1,5% sua estimativa de crescimento em 2011 no Reino Unido, quando a previsão anterior fora de aproximadamente 1,8%, e baixou a sua estimativa para 2012 de 2,5% para cerca de 2%.”</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-44735" title="motins-13" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-13-300x210.jpg" alt="motins-13" width="300" height="210" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-13-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-13.jpg 634w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />A adoção de um programa drástico de austeridade pelo governo de coligação, envolvendo cortes massivos nos setores sociais e de serviços, incluindo a educação, ameaça converter a prolongada recessão, sentida pela classe trabalhadora e pela classe média inferior, numa depressão permanente. Em consequência, aumentou o nível de desemprego para essas classes, em que as minorias raciais jovens têm uma participação muito superior à média. Assim, em grande medida os motins representam uma irrupção dos marginalizados, numa altura em que os seus dirigentes políticos gozavam férias no estrangeiro, das quais ignominiosamente regressaram a um país em chamas. Não há dúvida de que estes motins britânicos são mais multi-raciais do que os motins de 1981 ou 1985, e muito mais ainda do que os motins franceses de 2005. Isto os torna potencialmente mais ameaçadores e é mais difícil para o Estado contê-los com ataques baratos contra os “<em>hooligans</em> negros” ou contra as promessas vazias do multiculturalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No fundo, este é um país falido liderado por uma classe política falida, apesar da retórica barata de “<a href="http://www.guardian.co.uk/politics/2010/jul/19/david-cameron-big-society-launch" target="_blank">Grande Sociedade</a>” do primeiro-ministro Cameron ou da extravagante encenação das núpcias reais. O Estado e seus funcionários policiais estão amplamente desacreditados. A capacidade da classe política para administrar a economia em benefício da maioria mais do que da minoria foi severamente danificada pela Grande Recessão e evaporou-se com o brutal regime de austeridade. Enquanto isso, políticos, policiais e a imprensa ficaram desacreditados pelo escândalo de escutas telefônicas envolvendo o império midiático de Murdoch. Os imperadores da classe política britânica nunca apareceram tão nus.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitas pessoas comuns não se deixaram impressionar, e menos do que todos as minorias marginalizadas e os trabalhadores mal pagos e subempregados. Alguns perguntam abertamente por que seus saques são piores do que os das elites. Para citar <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/10/riots-reflect-society-run-greed-looting" target="_blank">um escritor</a>, “Enquanto os banqueiros saquearam publicamente as riquezas do país e não lhes sucedeu mal nenhum, não custa a entender o motivo por que aqueles que são excluídos do trem da alegria podem pensar que têm direito a meter no bolso um celular [telemóvel]. Alguns dos amotinados são explícitos. ‘<a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/10/riots-reflect-society-run-greed-looting" target="_blank">Os políticos dizem que nós saqueamos e roubamos, mas eles são os verdadeiros gangsters</a>,’ disse um deles a um repórter.”</p>
<p style="text-align: justify;">Nas palavras pungentes de <a href="http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/law-and-order/8630533/Riots-the-underclass-lashes-out.html" target="_blank">um comentarista</a>, “Os amotinados de Londres são o produto de uma nação que se desmorona e de uma classe política insensível que lhes virou as costas.” A amplitude do desastre social é surpreendente. “Na bolha da década de 1920, os 5% mais ricos apoderaram-se de 1/3 da renda pessoal. Hoje, na Grã-Bretanha, a desigualdade em salários, riqueza e oportunidades de vida é a maior desde então. Só no ano passado, a fortuna conjunta dos 1.000 mais ricos da Grã-Bretanha subiu 30%, atingindo 333,5 bilhões [milhares de milhões] de libras.” O autor lamenta que “sucessivos governos britânicos conspiraram para gerar pobreza, desigualdade e desumanidade, exacerbadas agora pela perturbação financeira” e alerta, “Olhem para os bandos de jovens destruidores nas ruas das cidades e chorem todo o nosso futuro. A ‘geração perdida’ está a juntar-se para a guerra.”</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo contexto é a decadência da democracia britânica, a desestabilização ou desmobilização da participação popular em nível local e a centralização do poder manifestada pelo crescimento da vigilância eletrônica para a população como um todo e da vigilância policial contra os grupos marginalizados. Como observou <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/aug/09/local-leaders-real-power" target="_blank">um jornalista veterano</a>, “Compreende-se que forasteiros presenciando os motins urbanos nesta semana pudessem pensar que as cidades britânicas sejam comandadas pela polícia e pelo ministro do Interior. É certo que existem conselhos municipais e que Londres tem um prefeito eleito, mas em lugar nenhum os vemos nos postos de comando. Não têm poder real e, portanto, gozam de pouco ou nenhum <em>status</em> como líderes cívicos. Na linha de frente está a polícia, e por trás dela apenas o poder central do Estado […] Não existe nada que em qualquer nível de governo substitua uma democracia adequada, aberta, receptiva.”</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-44739" title="motins-7" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-7-300x200.jpg" alt="motins-7" width="300" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-7-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-7.jpg 468w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />O crescimento da vigilância eletrônica foi estimulado pelos atentados terroristas do dia 7 de julho de 2005. Por ocasião de uma visita a Oxford e Londres, há três semanas atrás, eu estava atônito ao ver quão extensa a vigilância eletrônica se tornou neste país. Em 2009, um jornal conservador, <em><a href="http://www.dailymail.co.uk/news/article-1205607/Shock-figures-reveal-Britain-CCTV-camera-14-people--China.html" target="_blank">The Daily Mail</a></em>, mostrou-se chocado: “A <em>Big Brother</em> Grã-Bretanha tem mais câmeras de vídeo de circuito fechado do que a China.” Segundo este jornal, “Existem aqui 4,2 milhões de câmeras de vídeo de circuito fechado, uma para cada 14 pessoas. Mas no Estado policial da China, com uma população de 1,3 bilhões [milhares de milhões], há apenas 2,75 milhões de câmeras, o equivalente a uma para cada 472.000 cidadãos.”</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-44742" title="motins-11" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-11-300x190.jpg" alt="motins-11" width="300" height="190" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-11-300x190.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/08/motins-11.jpg 950w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Tal como sucedeu nos Estados Unidos, as medidas antiterroristas adotadas pelo governo britânico ameaçaram corroer a liberdade interna. Os suspeitos de sempre nos Estados de vigilância policial são as minorias pobres e raciais. As relações entre a polícia e essas comunidades, particularmente a juventude, se tornaram mais intromissoras e repressivas. Tão flagrante é o <a href="http://www.guardian.co.uk/uk/2010/oct/17/stop-and-search-racisl" target="_blank">fichamento racial</a> que “As pessoas negras têm 26 vezes mais probabilidades do que as brancas de ser abordadas pela polícia e sujeitas a buscas na Inglaterra e no País de Gales” (em comparação, há apenas <a href="http://www.guardian.co.uk/education/2011/may/27/only-50-black-british-professors?intcmp=239" target="_blank">50 professores universitários negros</a> num total de 14.000 professores nas universidades britânicas). E, assim, as lições dos motins das décadas de 1980 e 1990 ficaram perdidas na demência da vigilância antiterrorista e da centralização do poder de Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Viu-se que a conjugação da austeridade econômica e da brutalidade policial é uma mistura combustível que tem alimentado as chamas da fúria nas cidades britânicas e agitado o país. Não é preciso ser um gênio para prever que os motins hão-de regressar periodicamente se não ocorrerem transformações nesta sociedade fundamentalmente desigual e racista. Como consequência desta insurreição, <a href="http://www.reuters.com/article/2011/08/10/us-britain-riots-austerity-idUSTRE77953X20110810" target="_blank">o modelo de austeridade britânico</a> perdeu sua aura e agora serve como alerta para os limites da paciência popular perante as devastações selvagens do neoliberalismo, que levou à Grande Recessão e está desesperadamente tentando renascer das cinzas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Este artigo foi publicado originalmente em</em> <a href="http://www.zeleza.com/blogging/european-affairs/british-urban-uprising-2011" target="_blank">The Zeleza Post</a>.<br />
<em>Acerca do autor, veja</em> <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Tiyambe_Zeleza" target="_blank">aqui</a>.<br />
<em>Traduzido para o</em> Passa Palavra <em>por Lucas Morais</em>.</p>
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		<title>Convencido</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 15:16:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair sempre se opôs à realização  de um rigoroso inquérito sobre as circunstâncias em que foi desencadeada  a guerra contra o Iraque, em 2003. Finalmente o seu sucessor, Gordon  Brown, aceitou nomear uma “comissão independente”. Tony Blair foi  chamado a depôr perante essa comissão na sexta-feira 29 de Janeiro.  Nesse dia, mais uma manifestação de protesto à porta do edifício e  vários protestos na própria sala de audiência. Um dos manifestantes  disse à tv: «É extraordinário! Apesar de, no dia em que tomou a decisão,  ter tido à porta de casa um milhão e meio de cidadãos a dizerem não à  guerra, ele argumenta agora que estava plenamente convencido da justeza  da sua decisão. Pois é: todos os grandes criminosos históricos disseram o  mesmo.» <strong><em>Passa Palavra</em></strong></p>
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