Por Rede de Enquetes Operárias

Está é a introdução do livro Lutas na pandemia publicado em inglês pelo coletivo Notes from below. Fizeram parte da publicação os artigos:

– A chamada da morte: pânico no atendimento;

– Atento: resistindo à chamada da morte;

– Odisseia da morte: persiste a luta pela vida na Atento.

– AnkerMag: uma imagem da Bélgica

A tradução é de Marco Tulio Vieira.

Este ebook é fruto de um esforço coletivo de uma rede de grupos de enquete operária. Durante o último ano nós estávamos discutindo a mudança na composição da classe trabalhadora em diferentes contextos nacionais e como a enquete operária pode ser desenvolvida como uma ferramenta para a luta. Antes da crise de COVID-19, estávamos planejando uma publicação coletiva, contendo as nossas diferentes enquetes. No entanto, como muitos outros planos, este foi varrido pelo surgimento da COVID-19. Ao invés disso, voltamos nossa escrita coletiva para tentar entender esta crise — na Bélgica, França, Itália, Reino Unido e Estados Unidos. O que vem a seguir é uma coleção de relatos sobre os impactos da COVID-19 nos trabalhadores e suas lutas em resposta. Queremos começar delineando alguns rumos e tendências gerais que parecem emergir dessas fotografias nacionais.

Uma coisa está clara: nunca voltaremos ao normal. As coisas não voltarão a ser como eram antes da crise. Enquanto escrevemos, há quase 2,5 milhões de casos em 190 países diferentes. Mais de 160.000 pessoas morreram até agora. Ainda que tenha ocorrido há mais de 100 anos atrás, a pandemia de gripe em 1918 fornece um importante ponto de comparação para entender tudo isso. Estima-se que um terço da população mundial contraiu o vírus e que dezenas de milhões morreram. A pandemia começou no final da I Guerra Mundial. Ela chegou em um momento de crescente radicalização da classe trabalhadora em diferentes contextos nacionais, com uma onda de greves gerais e selvagens nos EUA, o movimento dos conselhos de trabalhadores na Europa e as revoluções russa e mexicana. A resposta à pandemia naquele momento foi também uma resposta para equilibrar a luta de classes tanto durante a Guerra quanto no período posterior. O medo frente aos trabalhadores mobilizados — e, na verdade, apenas recentemente desmobilizados — levou à expansão dos direitos e proteções sociais. Assim começaram a ser estabelecidas as bases para o (agora decadente) estado de bem-estar social, concretizado durante e após a II Guerra Mundial.

A situação hoje é muito, muito diferente. Nós estamos na maré baixa do movimento dos trabalhadores em geral, apesar de algumas breves explosões de radicalismo em setores particulares. Não há nenhuma vontade dos de cima de introduzir um contrato social melhor, e pouca capacidade dos de baixo de impor um no momento. A estratégia inicial de “imunidade de rebanho” praticada no Reino Unido, México, Japão e Suécia é um claro exemplo dessa indiferença, esperando que ao permitir que o vírus se espalhasse a economia de alguma forma iria continuar. A pandemia tem sido um laboratório para o capital, testando novas formas de gerenciar os trabalhadores e aumentar os limites da exploração. As novas correlações que podem emergir da pandemia estão atualmente em fase de testes. Os resultados vão ser decididos através da luta de classes que já está acontecendo nos locais de trabalho que ainda estão abertos e nos lares recentemente convertidos em locais de trabalho. A luta de classes também acontece nas nossas comunidades transformadas, sendo canalizada através das organizações dos trabalhadores, modificada pelas ações do Estado e travada entre os trabalhadores e o capital. Qualquer sugestão de suspender a luta até depois da quarentena e colaborar com os patrões esquece que a luta já está acontecendo. A tarefa agora é entender o que está acontecendo, o que pode acontecer, e o que nós podemos fazer para fazer esse entendimento circular e se expandir.

No primeiro capítulo, Ankermag, discute-se a situação na Bélgica. O segundo e o terceiro capítulos cobrem a França, feitos pela Plateforme d’enquêtes militantes e em seguida pela Acta. O quarto capítulo foca a Itália, escrito conjuntamente pelo Into the Black Box e pela Officina Primo Maggio. Notes from Below discute o Reino Unido no quinto capítulo. O sexto, escrito por Robert Ovetz, introduz a situação nos EUA. O sétimo capítulo, escrito pelos Invisíveis Goiânia, discute o Brasil. O capítulo final, como uma forma de conectar passado, nosso presente e os tempos à frente, é uma tradução do ensaio de Sergio Bologna, “O longo outono: lutas dos trabalhadores nos anos 1970”.

Este ebook pretende ser uma contribuição ao debate sobre o que vem a seguir. Mesmo que pareça ser uma gota no oceano, o desenvolvimento de redes e o compartilhamento de experiências se tornaram cada vez mais importantes a medida que o isolamento e o distanciamento social continuam. Nossa rede pretende ser um começo, mas muito mais é necessário. Por um lado, nós pensamos que é necessário aumentar os esforços para circular a luta de classes. Por outro lado, à partir deste ebook, nós propomos as cinco demandas a seguir, desenvolvidas por Ankermag:

1. Um salário ou renda de “quarentena”;
2. Suspensão de aluguéis, hipotecas e contas;
3. Requisição dos equipamentos e infraestrutura privados necessários para responder à emergência, particularmente no setor de saúde;
4. Paralisação de todas as atividades não essenciais;
5. Anistia para os detidos e regularização imediata de todos os migrantes sem documentos.

Nós esperamos respostas e mais contribuições para o livro. Nossa rede ainda está em formação e nós estimulamos outros grupos que estão interessados em trocas sobre enquetes operárias e lutas. Se você quer começar um grupo, nós ficaremos felizes em fornecer apoio e conselhos. Nós esperamos que você entre em contato com os autores para trocar ideias, nos contar sobre suas lutas e contribuir para a nossa rede.

2 COMENTÁRIOS

  1. Ótima contribuição ao entendimento destes tempos confusos,alguma chance de tradução do livro na íntegra?

  2. Caro Mad,

    Agradecemos pelo seu interesse. Planejamos publicar mais capítulos do livro. Em breve outras traduções serão publicadas.

    Cordialmente,
    Coletivo Passa Palavra.

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