Por Invisíveis de Goiânia

Este texto é uma continuação do texto publicado AQUI, dia 24/03.

A princípio, tudo era na base da brincadeira. Se alguém tossia ou espirrava perguntavam “não tá com corona não, né!?” A empresa argumentava para a gente que “call center não tinha problema continuar, pois não significava risco para o cliente!” Ok! Mas e a gente? Dia 13 de março, quando começou a quarentena em Goiás, foi também o dia em que a primeira colega desapareceu. Ela havia ficado duas semanas de atestado. Quando viram ela voltar de máscara, tiraram às pressas. Nunca mais a vimos.

Então as notícias da mídia começaram a dar um sinal de alerta. Não para os gestores, mas para os funcionários. Os gestores começaram a se articular quando souberam da notícia de uma suposta greve geral da categoria.

Trouxeram, sei lá de onde, uma tal de “Polly”, dita superintendente da Atento, horas antes da hora marcada para o início da manifestação. Foi no dia 20 de março. Ela foi falar bonito, dizer que pegou um avião e deixou a filha dela em casa só para vir tranquilizar todo o mundo, que era seguro. Mas será que ela tem noção de que deixamos nossos filhos em casa e pegamos um ônibus lotado para ir ao trabalho todos os dias? Será que ela tem noção de que às vezes esperamos horas para conseguir pegar esses ônibus? Que dentro deles tem N pessoas tossindo e não sabemos o porquê? “Saiam mais cedo de casa!” e voltem se conseguirem!

Isolamento feito durante inspeção do MPT e retirado logo após a visita

Faça chuva ou faça sol, quantas vezes vi colegas trabalhando as seis horas de jornada, encharcados de chuva, no ar condicionado? Ela, Polly, dizia e repetia a frase “nós já estamos fazendo de tudo! Vamos fazer de tudo para garantir a segurança de todos vocês, vamos garantir que todos façam home office, estamos fazendo reuniões todos os dias, das 8h às 21h por vocês! Mas se mesmo assim vocês quiserem deixar as PAs (posições de atendimento) de vocês e ir para a manifestação, fiquem à vontade.”

Os gestores todos foram à manifestação, mas não para manifestar. Chamaram polícia, fizeram alarde. Tinha mais polícia que manifestante, e embora tenham calado a voz de quem estava lá, naquele momento começaram a fazer algumas mudanças.

No dia seguinte, 21/03, o que mais se via era supervisor correndo de um lado para o outro, fazendo perguntas, querendo saber quem era do grupo de risco (família não consideravam). Perguntavam e listavam se tinham filhos pequenos, notebook, internet (mas só servia quem tivesse conexão de 20MB para cima).

Decretaram o uso obrigatório do álcool em gel 70º nas empresas e o sindicato levou uma garrafinha para cada operador, pela metade. Álcool em gel? Ouvi dizer até que era etanol! Era um líquido estranho, que se fosse sacudido ficava branco e tinha umas coisas dentro que ninguém soube identificar. Da parte da empresa, foi colocado álcool em gel de limpeza mesmo. Proibiram o uso de máscaras, por cobrir parte do rosto. E se alguém chegasse mascarado, eles botavam para correr imediatamente. E o mais engraçado é que esses colegas que usaram máscaras sumiram e ninguém mais tocava no assunto. Se alguém perguntasse por eles para a gestão, desconversavam. Se alguém fosse atrás deles pessoalmente, davam todos a mesma resposta: “Estou de atestado” e de forma tácita, estranha, e só. Sumiam de vez.

Álcool em gel disponibilizado pela Atento

Decretaram que todos deveriam ficar a dois metros de distância uns dos outros e na empresa intercalaram as PAs com “um metro de distância no máximo!” A fiscalização foi lá e disse para a supervisão que estava tudo errado, que era para “sumir com toda aquela bagunça”, ou “iria sobrar para eles”.

Assim, os gestores fizeram as moças da limpeza tirarem fotos sorrindo, mas dava para ver o desespero e o cansaço nos olhos delas. A pressão e o medo também. Interditaram alguns bancos do refeitório, mas só até a televisão ir lá. Depois tiraram e começaram a liberar o pessoal.

A respeito do home office, quem tinha notebook e internet eram na grande maioria adolescentes, com pais que os sustentam. As mães e pais de família, com filhos pequenos, com familiares em grupos de risco, ficaram trabalhando na empresa mesmo. O argumento a princípio era falta de equipamentos para distribuir aos atendentes. Mas eles estavam liberando equipamentos para outras áreas. Ouvi uma supervisora dizer às escondidas “do jeito que tá aqui é só embalar e levar para casa!” Mas a Atento estava escolhendo para quem liberar! E continua com o argumento de uma tal lista de prioridades pelo serviço prestado. Mas espera… Não era para priorizar a lista que eles fizeram? E os filhos pequenos? A família em risco? Mas esses não tinham notebook ou internet de 20MB úteis para a empresa, então continuam no fim da fila.

E quanto ao decreto de que “se tiver alguém com tosse ou sintomas de gripe, ou alguém da família, é para ficar em casa”? O que mais se ouve lá dentro são pessoas tossindo, espirrando, assoando o nariz. Houve quem passou mal com falta de ar e eles disseram para “ficar quietinho” até melhorar. Eu vi gente pedindo para ir embora e eles não liberaram porque tinha uma fila. Mas, claro, as pessoas continuavam sumindo.

O argumento de agora para não liberar home office é a falta de técnicos, sendo que outros falam que não precisa de técnicos para instalar nada, que é só ligar na tomada e pronto. A cada dia tem uma nova placa de cuidado. A impressão que dá é que a placa quer dizer que “morreu alguém que se infectou aqui por coronavírus.” Mas ninguém fala nada, ninguém sabe de nada, nem de ninguém.

Fazem vídeos com fotos de quem está em home office, fazendo coração com as mãos e dizendo “estamos aqui por vocês!” Mas e nós que estamos correndo risco dia após dia? Estamos aqui por quem? E quem está por nós?Fazem vídeos com fotos de quem está em home office, fazendo coração com as mãos e dizendo “estamos aqui por vocês!” Mas e nós que estamos correndo risco dia após dia? Estamos aqui por quem? E quem está por nós?

Já estamos há um mês esperando, perdi as contas dos dias e das inúmeras desculpas. Alguns de nós, todos os que prestamos serviço para a BMG, fomos liberados para o home office nessa quinta feira, 16 de abril, depois de muita luta. Mas e o resto de nós que presta serviço para as outras empresas? Por que não fomos liberados também? Tem colegas de grupo de risco que cuidam de familiares doentes que também são de grupo de risco e não foram liberados. Vamos precisar da solidariedade dos que foram. E construir mais força entre os que ficaram.

Atento, nós não precisamos dos bombons que vocês estão nos dando dia sim dia não para fazer gracinha, porque estamos trabalhando enquanto deveríamos estar em casa, tendo os mesmos direitos dos “escolhidos”. Não estamos à venda! Trabalhamos nessas condições porque temos família para sustentar. Mas a cada dia fica mais claro que, enquanto não for um de vocês, vocês não vão entender que a situação é grave!

Não queremos deixar de trabalhar, apenas queremos o que é de direito nosso! Tratamento igual para todos! Liberou um, liberou todos!

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