Amélie Poulain e o fabuloso destino dos proletários

Amélie Poulain e o fabuloso destino dos proletários

em 2 fev

Amélie Poulain tinha 23 anos quando ganhou vida em 2001, através do filme Le fabuleux destin d’Amélie Poulain (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, no Brasil), dirigido por Jean-Pierre Jeunet. Por Leo Vinicius.

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A obra já pode ser considerada um clássico, e a personagem que ganhou vida na película se tornou uma espécie de referência para garotas na faixa dos 14 aos 23 anos. Um fenômeno, denotado por pins em mochilas, estilo de roupas, comunidades virtuais etc. Uma identificação que evidentemente não é simples casualidade.

Garçonete em uma lanchonete, Amélie é uma proletária, trabalhadora. Há muito, principalmente no chamado Primeiro Mundo, ser proletário não significa necessariamente não ser classe média, se entendermos por classe média um certo padrão de vida e de poder aquisitivo. Amélie é proletária mas não sofre privações econômicas. Através do seu trabalho no setor de serviços, em uma tarefa de atendente que normalmente exige uma alta dose de trabalho imaterial relacionado à comunicação e à afetividade para lidar com os clientes, ela é financeiramente independente e mora sozinha em um apartamento. Garota introspectiva, que, até mesmo pela sua história familiar, vive em um certo distanciamento social em relação aos outros. Ela é uma personagem sem amigas, sem amigos propriamente, sem um círculo social efetivo. Poderia configurar o átomo da multidão solitária de Riesman, ou de algum outro conceito que busque compreender e descrever a individualização nas sociedades capitalistas de pelo menos uns sessenta anos para cá.

Amélie representa, já no prosaísmo de seus declarados e destacados prazeres de vida — como quebrar a casca do pudim com a colher –, um mundo encolhido a um horizonte de prazeres privados, ou de prazeres privados de um horizonte que aponte a uma intervenção em uma esfera pública, de gestão coletiva, de influência nas suas condições de vida. A política, como ação mobilizadora, de instituição de sociedade e de suas regras, inexiste no âmbito de vida de Amélie Poulain. É como se a política estivesse extinta do seu mundo, sua possibilidade já não mais existisse. Resta a naturalização do confinamento e da atomização, e a emergência de uma vida de prazeres moldados por essa ausência e restrição. Um mundo privado de ação política.

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Poulain aparenta uma verdadeira compulsão em jogar com os outros, com aqueles que aparecem ou fazem parte do seu cotidiano. E jogar com o outro, na vida da personagem, não significa jogar junto com o outro, em uma participação consciente numa brincadeira, mas se divertir e se entreter através do outro, manipulando-o de alguma forma. Mesmo que suas intenções não sejam moralmente condenáveis ou ao menos prejudiciais a terceiros, os planos elaborados por Amélie visam quase sempre fazer o outro agir, pensar ou ter experiências conforme pré-determinado pela vontade dela, sem que esses o saibam. E em última análise, transparece que, antes de tudo, a motivação de Amélie é seu prazer no jogo, e em conseguir o que havia planejado: seja com o rapto do anão do jardim de seu pai e o envio de fotos do anão visitando pontos turísticos do mundo para convencê-lo a também viajar, seja com a carta romântica supostamente escrita pelo marido da vizinha antes de ele ter falecido. Até mesmo sua empolgação demonstrada quando ela ajuda o cego, conseqüência da expansão de um estado de êxtase pessoal, aparece mais como uma busca de auto-satisfação do que como conseqüência de uma ética, que por definição independe de humor.

Os jogos de Amélie Poulain se estendem até mesmo ao homem que ela deseja, fazendo-o ir aonde ela designa através de mensagens e da posse de uma bolsa que ele procura. O caráter lúdico dessas intervenções de Poulain na vida de pessoas em sua volta se assemelha, na forma, ao que se denomina em certos meios por terrorismo poético. Porém, no caso da personagem, não há sequer uma intencionalidade crítica, política, por trás dessas intervenções. O “terrorismo poético” de Amélie, além de ser ação individual, já não possui sequer intenção política manifesta. Mais uma vez, o que está presente a todo momento no filme e na vida da personagem é a total ausência de política, de questões relativas ao condicionamento de sua vida e dos outros.

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Amélie Poulain é uma proletária. E não há política no seu cotidiano proletário. Uma jovem garçonete, isolada na vida privada urbana. Alguém sem poder algum na sociedade, sem poder de intervenção sobre a política que condiciona sua vida. Na verdade, o filme mostra uma vida reduzida ao privado — ou reduz a vida ao privado, tanto faz –, sem grandes pensamentos e sonhos além de quebrar a casca do pudim ou descobrir quem seria o dono de um brinquedo escondido em uma parede por cinqüenta anos. É esse o universo de vida de Amélie Poulain. Ela é aquela que não tem poder algum na sociedade, no seu trabalho, reduzida ao confinamento privado, e bem adaptada a isso.

Mas Amélie é esperta, tem iniciativa, demonstra independência, segurança, é criativa, toma atitudes e, principalmente, busca se colocar no comando nas suas relações com os demais à sua volta. Os jogos com os outros são a única forma de poder no seu mundo. Seus jogos e planos são exercícios de poder sobre os outros, para seu deleite ou entretenimento. À proletária Amélie, destituída de poder, resta o exercício de poder sobre pessoas igualmente destituídas de poder à sua volta, através de jogos e manipulações.

A identificação de uma juventude com Amélie Poulain é também, podemos crer, a identificação com uma vida em que nem a pequena política, na acepção de Gramsci, existe no horizonte. Fora esse contexto, e além das identificações mais óbvias — por ela ser uma garota nova e comum, ser o personagem principal, e por portar características desejáveis bastante flagrantes, como sua independência e iniciativa –, a identificação dessa juventude com Amélie Poulain e o status de referência que ganhou a personagem deve partir também do poder que ela possui sobre os outros, com os ‘jogos’ que ela cria. Esse poder da manipulação é o poder possível de ser exercido sobre o outro, por uma garota que de fato não tem poder algum na sociedade.

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Amélie Poulain reflete a condição de decomposição política de um proletariado, ou de uma juventude, e ao mesmo tempo é sua referência e ideal. Espelha ao mesmo tempo sua falta de poder e seu ideal de poder. Amélie Poulain é um retrato do espírito do nosso tempo, e também por isso é um clássico — à parte a qualidade do filme como entretenimento. O retrato em si, no entanto, não chega a ser tão assustador quanto sua aceitação passiva e generalizada.


Comentários 11

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      fev 12, 2009

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      Prezado Leo Vinícius,

      Sua análise do filme expressa sensações que tive ao assisti-lo e que não havia conseguido inteligir. O filme é muito bem feito; possui, sim, um grande mérito artístico, e justamente por essa razão conseguiu representar tão bem tudo isso que você comentou: a impotência de toda uma geração e uma classe.

      É interessante notar, no entanto, que esse filme contrasta com outros que retratam a juventude a partir de uma perspectiva diferente, filmes como “Edukators” (protagonizado por Daniel Brühl), em que, destituídos de canais coletivos de organização política, opta-se pela ação direta e atomizada como último (e válido) recurso. Aliás, essa também é a tônica da adaptação para o cinema de “V de Vingança”, que também granjeou grande aceitação pelo público jovem.

      Um contraste como esse nos leva à questão: com o que verdadeiramente se identifica a juventude atual? Creio que, em um mundo cujas novas referências políticas ainda são forjadas, a resposta seja: com aquilo que lhe instigue. Afinal, Amélie Poulain é instigante – ela toma, como você mesmo analisou, a iniciativa, embora restrita à esfera privada. Mas manifestações da juventude como as que ocorrem na Grécia e se esbatem mundo a fora, a simpatia para com os zapatistas, tudo isso mostra que a juventude não está completamente encerrada em uma fábula. É preciso, portanto, acessar a sua linguagem e instigá-la. Mas é preciso também, deliberada e conscientemente, engrossar o trabalho de criações radicais de novas significações sociais que repousava, talvez, desde o refluxo das erupções de 1968 e que principiaram a despertar em Chiapas, em 1994.

      Saudações libertárias!

    • Leo Vinícius

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      fev 13, 2009

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      Eduardo, concordo plenamente com suas colocações. Um belo acréscimo ao tema, e bastante claro.

      Para continuar as reflexões sobre o assunto aproveito o estímulo dado e acrescento também mais alguma coisa.

      Uma das questões é que acho que a “forma-Amélie” (para usar essa expressão) não está em oposição com uma “forma-militante”. Não está em oposição no sentido que o retrato refletido na Amélie Poulain é também o da juventude militante hoje em dia (ou pelo menos considero que a juventude militante não esteja excluída desse retrato). Em outras palavras, o indivualismo que esse e outros filmes retratam atravessa mesmo a juventude (e não só a juventude) que se engaja politicamente e forma movimentos sociais.
      Lembro de uma palestra informal do anarquista Eduardo Colombo, que militava no movimento operário na Argentina na década de 40. No final dos anos 60 ele se mudou para França. Bem, ele afirmou que então encontrou um movimento libertário que era basicamente um movimento de juventude e no qual já não havia a ética e o coletivismo que se via no movimento operário.
      Se se acha que essa ética e esse coletivismo são importantes dentro de uma organização política ou movimento social, e levando em conta o contexto social exposto, há que se pensar em formas, estruturas ou mecanismos para que, ao menos e inicialmente dentro dos movimentos e organizações, esse quadro se reverta.

      Abraço!

    • Ronan

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      fev 15, 2009

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      Olá. O filme continua a grande apologia do individualismo e a descrença em opções coletivas. Seu texto me fez lembrar como se pode viver sem consciência política e como se pode ser feliz afastado das decisões coletivas. As pessoas não deixam de se verem como protagonistas na vida. Daí que procurem universos menores onde possam ser atuantes, significativas. Ser clubber, rapper, skatista, punk, pagodeiro, mano, ladrão, da rua 8, da zona x, da escola y, são várias formas de ser algo onde não se é ninguém, formas de se ter identidade onde se era somente um número. Pode-se mesmo ter poder nesse universo de sem poder.

    • Cássia

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      mar 14, 2009

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      Achei o texto do Leo interessante, mas também perigoso. Possibilita, para alguns, a interpretação da existência de uma hierarquia (pautada no critério da importância) para os assuntos da ‘vida’; e também possibilita, para outros, a crença de que alguns aspectos da vida estão excluídos do conceito ‘política’. Micro e macro. Coletividade e individualidade. Políticas e afetos. Etc., etc… Sempre a mesma dificuldade em bater tudo isso no liquidificador da inteligência sensorial e beber sem ter indigestão.

    • Imaculada

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      ago 15, 2009

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      Gostei de ler sua crítica e os comentários.
      Mas eu vi Amélie apenas assim: um filme de otimismo e poesia. Sem contar todo esse lance de solidão, de poder, de manipulação… que existem, sim…

    • Douglas Anfra

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      fev 18, 2010

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      Esse filme pode ser posto em certo paralelo com outros que fizeram sucesso na época, como o Edukators e outro que mostra diretamente isto que colocou sobre o filme a partir mesmo do título: Adeus Lênin. Um átimo de política que se esvai no jogo inútil de criar uma realidade alternativa para a mãe que nem mesmo a Stasi da DDR conseguiu de fato, evocando para justificar a ausência de política a construção de uma fantasia inspirada no socialismo. O jovem tenta inutilmente manipular uma mãe que não acredita, nem acreditava nos ideais que o filho acreditava serem os dela. Um jogo de duplo distanciamento com as ferações anteriores que teriam igualmente passado pela experiência da despolitização paradoxalmente me nome da política socialista. E tudo em nome do consumo, veja-se o papel no filme da idéia da assimilação da coca-cola pela DDR.
      Mas outro filme que tenta, ou ao menos parece, intencionalemnte com esta idéia de uma utopia em torno da auto-suficiência onde o outro aparece como jogo é o Funny Games do Haneke. Que explicita este jogo de violência. No mais, nunca gostei de Amelie Poulain, apesar da cosntrução interessante da narrativa que esconde o vazio de seu mundo ausente de sentido.

    • Isadora

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      jan 2, 2011

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      Bom, não posso comentar muito, porque, afinal, dormi antes da exibição acabar. Até onde vi, achei o filme uma decepção e a Amelie Poulain uma personagem com um quê de retardada. Além de entrona, claro. Deus me livre uma Amelie Poulain no meio do caminho, querendo decidir a minha vida pela cabecita autoritária dela.

    • Cristiane

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      mar 2, 2011

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      Nossa Isadora, como você pode fazer uma crítica tão anti-construtiva assim?? Até mesmo porque pelo que você mesmo mencionou não o assistiu, e muito menos o compreendeu?!!
      Nós, ainda encontramos muitas Amélie’s nos dias de hoje, creio que o que mais esta cheio nas ruas são de Amélie’s…pessoas que gostam de algo simples e ao tempo intensos, que trás algum significado ou simplesmente o faz por vontade comum, a disponibilidade de querer ajudar o próximo, como ela o faz o tempo todo no filme, exemplo disso é a travessia do cego na rua, e a camêra deixa no final a “expansão” de vida que ela o ajuda a ter ate então, o senhor que possuí a dificuldade de sair pois tem os ossos muito fracos, e ela começa a dar cenas do mundo fora daquela vida que ele leva dentro de quatro paredes com video cassete, até mesmo no seu próprio relacionamento ela faz com que seje algo diferente, misterioso, quando começa a cortar retratos, e fazer ‘jogos’ de encontro com o Nino, e o gnomo então que ela faz viajar e mandar fotos para o pai que no fim ela consegue com muito êxito a sua vontade de faze-lo sair de casa, você nunca usou de técnicas básicas até mesmo fúteis para sair de casa? Como ‘persuadir’ sua mãe falando que em determinados lugares estaria melhor que dentro de casa??? ….e isso nem mencionei as cores vibrantes, fortes, que o filme expressa o tempo todo, com muita intensidade…que é bem o que passa da vida de Amelie Poulain…são coisas que não são nem um pouco intediantes, e uma “cabecita autoritária” que o podia executa-lo. Simplesmente você não soube nem um pouco entender a verdadeira essência do filme, e da história de Amélie Poulain, reveja o filme, dessa vez com mais atenção e precisão. Se não conseguir ver e achar no minimo bem elaborado, então veja novamente…pois o defeito muitas as vezes não deve estar naquilo que se vê, e sim em quem o vê….Repense.

      ATT
      Cristiane

    • fernanda

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      nov 24, 2014

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      Gostei dos personagens da atriz o filme não é ruim porem achei a historia bem simplista, pelas criticas eu o assisti com muitas expectativas e não achei o filme tão bom assim mas não é ruim.

    • Mariana

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      nov 24, 2014

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      Eu assisti o filme em 2002. Na época estava fazendo intercâmbio em Paris, cidade onde moro ha seis anos. Amélie é antes de mais nada, um retrato estranhado da parisiense solteira trabalhadora da sua geração. Dentro do seu contexto, Amélie é ao mesmo tempo o oposto da tipica parisiense e também o que secretamente ela esconde dentro dela. A interferência dela na vida das pessoas representa o inverso do comportamento das pessoas nessa cidade: ninguém se olha mais que dois segundos, pouco se fala e os circulos são limitados e fechados. Ninguém interfere na vida de ninguém. Amélie é a antitese disso. Ela quer interferir, quer “salvar” os outros do isolamento social extremo da vida parisiense, ao mesmo tempo que quer ser salva dele. Sim, existe uma exclusão da perspectiva politica, mas o olhar sobre o contexto que o filme retrata é humano, poético e faz todo sentido quando se conhece as dinâmicas sociais interpessoais que se estabelecem por aqui. Amélie representa uma quebra de protocolo social nesse sentido. Ela joga e aposta numa forma de intervenção totalmente fora dos padrões do seu contexto. O filme é um poema cinematografico sobre o isolamento da vida urbana e sobretudo da vida urbana parisiense. Dentro do seu contexto, o discurso da obra do Jeunet encontra grande ressonância para essa geração por isso, pela identificação com o isolamento dela, com a necessidade de se quebrar protocolos e padrões e aqui isso é ainda mais forte.

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