Abrir portas, fechar ruas, construir caminhos

Abrir portas, fechar ruas, construir caminhos

em 7 jan

Algumas reflexões e apontamentos acerca da luta contra o aumento da passagem. Por Legume Lucas

catraca-4Observamos que há algo no mínimo curioso na luta por transporte – diferentemente de outros assuntos que deparam com o desinteresse da população – há um certo consenso geral de que o transporte é ruim e precisa mudar, todo mundo acha um absurdo aumentar, as pessoas pedem panfletos e falam “tem que fazer manifestação mesmo” e eventualmente “tem que quebrar tudo”. Porém, pelo menos aqui em São Paulo, é algo como “vai lá e se manifesta que eu mesmo não tenho tempo para isto”. Várias hipóteses podem ser colocadas do porque desta reação. Escolhemos aqui duas explicações. A aceitação nos parece dar-se por conta da vivência cotidiana com os problemas do transporte: horas por dia em ônibus apertados, corte de linhas recorrente, atrasos, ser o terceiro maior gasto da casa, são problemas evidentes. Já a delegação da possibilidade de manifestação nos parece fruto de uma concepção de política. Esta não seria feita por pessoas comuns, mas sim por profissionais, por aqueles representantes escolhidos para tal, não por nós pessoas que vivemos a vida. O alheamento da possibilidade de ação encontra-se então introjetada no senso comum. Não é para menos. Afinal, são anos e anos de afirmação da necessidade de representação, de tentativas de controlar e dirigir as pessoas tanto à direita quanto à esquerda, que era de se esperar que conseguissem por fim convencer as pessoas de que sua própria ação política é impossível, mesmo que considere justa aquela causa.

Como romper com esta lógica?

catraca-2Uma das ações tentadas, cujo o efeito varia, é a abertura das portas traseiras. Permite-se assim a entrada gratuita daqueles que esperam no ponto e coloca-se em questão o tema central da organização atual do transporte, o seu custeio mediante a tarifa. Temos então um ato que abole momentaneamente a mediação da tarifa e abre horizonte para um outro transporte possível, além de romper com o esperado. O que esperam como ação política é a passeata de rua, e se as pessoas abrem portas as coisas podem dar errado. Talvez por isso gere em alguns momentos o choque da população, que não adere imediatamente. Defendo que, mesmo que em algum momento a adesão seja baixa e poucos entrem de graça no ônibus, este ato é valido pois mostra na prática a possibilidade de ruptura com o esperado, ataca a normalização da tarifa e se demonstra como uma ação política não mediada.

O que esperar de um aumento que vem junto com a ressaca de ano novo?

catraca-3Primeiro vamos destacar que o poder público fez o dever de casa direitinho, alguns meses de terrorismo com apoio da grande mídia, colocando o aumento como inevitável e aumento no primeiro dia útil do ano. Obviamente no período de férias escolares, já que o setor que historicamente se mobiliza acerca do transporte é a juventude. Ainda mais que boa parte das pessoas não sente agora este aumento, seja porque o bilhete já esta carregado para o mês ou porque em janeiro os filhos não vão para a escola e, devido ao já conhecido confinamento na periferia, não vão para além do bairro em momentos que não são os de trabalho ou estudo. Podemos afirmar que boa parte das pessoas sentirá no bolso este aumento em fevereiro, mês este que marca o retorno às aulas, o que abre uma perspectiva interessante para aqueles como eu, engajados na luta contra o aumento. Temos que manter as mobilizações e o aumento em debate até fevereiro, para a partir de então mobilizar as escolas, que continuam a ser o local de maior potencial de atuação quando se trata de transporte. Claro que cabe a nós também nos esforçarmos em envolver mais pessoas nesta mobilização. Afinal, como já vimos acima, o transporte é um problema de todas as pessoas que vivem na cidade.

Hoje, quinta-feira 07/01 às 17 horas, ocorrerá o primeiro ato de rua após o aumento e a partir de então todas as quintas-feiras  no Teatro Municipal. Ocorreram no início da semana catracassos no terminal Campo Limpo e no Parque Dom Pedro. Cabe à rede continuar este trabalho e ampliá-lo. O fato de ter sido chamada meses antes permitiu o estabelecimento de um grupo de pessoas (relativamente grande) já ativo, que disparou o debate e a mobilização. Agora faz-se necessário pensar em atividades que capilarizem as ações pelos bairros e quebradas, levem a discussão e a mobilização para mais lugares. Se articular com as mobilizações no Jardim Pantanal e no Parque Cocaia pode ser uma boa alternativa. Vale lembrar que a idéia de uma rede é que nem tudo precisa passar por reuniões centralizadas e que os grupos façam também suas próprias atividades discutindo o aumento e se mobilizando contra ele.

Por uma vida sem Catracas!

Barrar o aumento será inevitável!


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