Ainda acerca da crise económica. 4) o problema da produtividade

Ainda acerca da crise económica. 4) o problema da produtividade

em 16 set

Os países emergentes que adquiriram a proeminência não foram aqueles onde os patrões se limitam a deixar o proletariado morrer de fome, mas aqueles onde mais se tem feito sentir o crescimento da produtividade. Por João Bernardo

Em economia nada tem uma causa única, mas decerto um dos principais motivos dos caminhos divergentes seguidos pelos países desenvolvidos, para um lado, e, para o outro, pelos países emergentes, é a questão da produtividade. Foi por esse viés que no artigo Perspectivas do capitalismo na actual crise económica eu encarei a recessão desencadeada em Dezembro de 2007 nos Estados Unidos, considerando-a não como uma crise do capitalismo mas como uma reordenação do capitalismo, o que me evitou declarações precipitadas e previsões erradas. (Devo prevenir os leitores de que, consoante o uso português, chamo mil milhões ao que os brasileiros chamam bilhão, ou seja, 109, e bilião ao que no Brasil se chama trilhão, um milhão de milhões, ou seja, 1012.)

A questão da produtividade

Num estudo publicado há mais de cinquenta anos, o notável economista Robert Solow, um dos últimos de uma raça quase extinta, estabeleceu que as inovações tecnológicas, incluindo desde novos maquinismos até novos sistemas organizacionais, haviam sido responsáveis por cerca de 88% do acréscimo do output [1] por hora de trabalho entre 1909 e 1949, cabendo o resto ao capital e ao trabalho. O factor produtividade ficou assim determinado estatisticamente.

Uma certa familiaridade teórica com os problemas de administração e de organização da força de trabalho permitiu-me compreender que desde a década de 1980 o capitalismo mundial encontrou novas possibilidades de acumulação na exploração sistemática da componente intelectual do processo de trabalho. Aquilo que em termos genéricos se denomina toyotismo consiste no aproveitamento das iniciativas e das reflexões dos trabalhadores, abandonando um dos fundamentos do fordismo, o de que os operários seriam incapazes de pensar por si. A partir do momento em que os administradores das empresas visaram não só a força muscular e a destreza manual mas igualmente a capacidade de reflexão do trabalhador e a sua capacidade de gestão, abriram-se novos campos ao processo de exploração, cujos limites estamos ainda longe de vislumbrar. Além disso, a desarticulação das grandes instalações industriais típicas do fordismo provocou a dispersão física da força de trabalho e a precarização generalizada do emprego. Tomando em conta este enorme potencial de exploração pude reduzir às devidas dimensões a crise do mercado imobiliário norte-americano e a crise do sistema financeiro ocidental e compreendi que não estavam postos em causa os mecanismos fundamentais da acumulação capitalista.

crise-4-aA questão central aqui é a produtividade. No que diz respeito ao processo de exploração, importa apenas a produtividade medida em tempo de trabalho. Imaginemos uma hora de actividade de um trabalhador com escassas qualificações, mal sabendo ler e escrever, empregado como servente, que só desenvolve a força muscular e obedece sempre a instruções dadas por outros. Em contraste, imaginemos uma hora de actividade de um trabalhador altamente qualificado, que frequentou um curso superior e cursos de formação no interior da empresa e que, além da destreza de dedos necessária para lidar com mecanismos electrónicos, empenha no seu labor a inteligência e a capacidade de iniciativa e de organização que possui. Medidas pelo relógio, em ambos os casos se trata de uma hora, mas os sessenta minutos do trabalhador qualificado são muitíssimo mais densos do que os do não qualificado; é como se a hora, não podendo extravasar os limites temporais, crescesse em profundidade. É este o mecanismo do aumento da produtividade.

Em tempo de trabalho — a única medida que interessa aos capitalistas — o profissional não qualificado recebeu uma escassa formação, o que significa que foi gasto pouco tempo para o formar, enquanto foi necessário muito tempo para formar o profissional altamente qualificado. No entanto, o não qualificado só é capaz de executar tarefas simples e, quando muito, de operar instrumentos simples. Por seu lado, o altamente qualificado está apto a executar tarefas complexas, que podem envolver instrumentos e maquinismos sofisticados. Isto significa que, embora tenha sido gasto mais tempo de trabalho a formar o profissional qualificado, ele é capaz, graças às suas habilitações e aos instrumentos que maneja, de despender muito mais tempo de trabalho do que o seu colega não qualificado. As horas do relógio pouco representam aqui. O que interessa é o grau de complexidade do trabalho, que confere diferentes densidades a cada minuto.

Quanto mais produtivo for um sistema económico tanto mais bens se produzem durante uma hora de relógio e, assim, tanto menos tempo de trabalho pode ser incorporado em cada um desses bens. Imaginemos que num país ou numa região pouco produtivos dez trabalhadores, durante uma hora, conseguem fabricar dez pares de calças ou cem pães, enquanto num país ou numa região muito produtivos, no mesmo lapso de tempo medido pelo relógio, dez trabalhadores conseguem fabricar cem calças ou mil pães. Mesmo considerando o desgaste das máquinas e o consumo de matéria-prima e tendo em conta que no segundo caso os trabalhadores são mais valiosos do que no primeiro, o patrão ganha mais, porque explora a mão-de-obra de mais tempo de trabalho efectivo, que reverte num maior número de produtos. E desta maneira se completa o círculo da produtividade. Aparentemente, os trabalhadores recebem um salário tanto mais elevado quanto maiores são as suas qualificações e quanto mais modernas são as economias dos países ou regiões onde vivem. Mas esses salários são pagos em dinheiro, que dá acesso a bens materiais e serviços elaborados com alta produtividade, quer dizer, cada produto incorporando menos tempo de trabalho do que o incorporado em produtos resultantes de sistemas menos produtivos. Retomando o exemplo de há pouco, o trabalhador muito qualificado, vivendo num país ou numa região de economia moderna, pode adquirir mais calças e comer mais pães do que o trabalhador pouco qualificado, que vive numa área retrógrada, porque cada calça e cada pão representam um tempo de trabalho consideravelmente menor num sistema muito produtivo do que num sistema pouco produtivo. Por isto mesmo, os trabalhadores mais qualificados, apesar de aparentemente serem mais bem pagos, disporem de certa abundância de meios materiais e não passarem fome, consomem bens que representam menos tempo de trabalho do que os consumidos pelos trabalhadores poucos qualificados que vivem em regiões retrógradas. O crescimento da produtividade faz com que os ganhos dos capitalistas aumentem tanto pelo lado do dispêndio de energia dos trabalhadores, medido em tempo de trabalho, como pelo lado do consumo dos trabalhadores, medido pelo tempo de trabalho incorporado nos bens.

O facto de nas últimas duas décadas ou duas décadas e meia se terem instalado sistemas mais produtivos do que o velho fordismo, porque capazes de aproveitar a capacidade de raciocínio e de gestão dos trabalhadores, faz com que tivesse aumentado muito a acumulação do capital. Por isso não me pareceu verosímil que a actual crise económica atingisse os mecanismos fundamentais do sistema capitalista e procurei encontrar noutros lados os seus traços definidores.

A produtividade em alguns países emergentes

Engana-se muito quem julgar que alguns países emergentes passaram para o primeiro plano da economia mundial por disporem de uma mão-de-obra paga miseravelmente. Abaixo de um certo ponto, os baixos salários não permitem a aquisição de qualificações e, portanto, são impeditivos do aumento da produtividade. «O preço de um crescimento elevado», afirmou Adrian Wooldridge num suplemento de The Economist de 17 de Abril de 2010, «é um investimento contínuo em capital humano». Os países emergentes que adquiriram a proeminência não foram aqueles onde os patrões se limitam a deixar o proletariado morrer de fome, mas aqueles onde mais se tem feito sentir o desenvolvimento da produtividade.

Os empresários inovadores dos países emergentes têm de contar antes de mais com o mercado interno, já que numa fase inicial os seus concorrentes dos países mais evoluídos dominam o mercado externo. Ora, para satisfazer a procura de uma população com um nível de vida muito baixo é necessário diminuir drasticamente os custos de produção e reduzir ao essencial um bem ou um serviço. Quando cada consumidor é pobre, ou pelo menos não é rico, os empresários só podem atingir um volume de lucros considerável se pensarem em margens muitíssimo pequenas para cada artigo, tanto na produção como na distribuição e no marketing. Esta pressão à redução dos custos é, no capitalismo, um dos maiores estímulos à inovação. Não se trata aqui só, nem especialmente, da invenção de sistemas tecnológicos completos, porque talvez sejam ainda mais úteis as pequenas mudanças parciais introduzidas em fases específicas de cadeias de produção ou de distribuição. Algumas destas remodelações dos processos produtivos levaram nos países emergentes a reduções de custos podendo alcançar 90%, taxas muitíssimo mais elevadas do que as atingidas hoje nos Estados Unidos e na União Europeia. E as alterações nas técnicas organizacionais são tão relevantes como nas técnicas materiais. Em vários casos os empresários dos países emergentes têm adaptado a organização da força de trabalho às estruturas sociais nativas, transformando em factores positivos aspectos que os seus correntes dos países ricos consideram negativos.

O Nano, da Tata Motors

O Nano, da Tata Motors

O objectivo não é apenas produzir com custos menores os mesmos tipos de bens que foram inventados e começados a fabricar no Ocidente, embora isto, só por si, seja uma contribuição de vulto para o aumento da produtividade. A frugalidade de um produto, nesta perspectiva, não quer dizer que ele seja de segunda ordem. Pelo contrário, a frugalidade implica inovações tecnológicas. A companhia indiana Tata Motors, por exemplo, que pertence ao colossal conglomerado Tata Group, responsável por quase 6% do Produto Interno Bruto (PIB) da Índia, começou a produzir em 2009 o Nano, o automóvel mais barato do mundo, graças à combinação de dezenas de técnicas de redução de custos.

O Dr. Devi Shetty, especialista em cirurgia no coração e nos custos

O Dr. Devi Shetty, especialista em cirurgia no coração e nos custos

Mas o que na verdade deve colocar alguns países emergentes no centro das atenções é o facto de empresários autóctones terem começado a aplicar plenamente os princípios da produtividade a actividades que até agora se haviam mantido em boa parte imunes ao progresso capitalista e terem aberto novas áreas ao crescimento económico. Enquanto os governantes dos Estados Unidos e da União Europeia permanecem de olhos fixos nas curvas demográficas e deixam toda a gente apavorada com previsões catastróficas acerca do aumento dos custos da segurança social, houve empresários de países emergentes a aplicar aos partos e às operações cirúrgicas dos olhos e do coração os princípios clássicos da divisão do trabalho e das economias de escala, reduzindo os custos sem deterioração da qualidade. Adoptando extensivamente estes princípios e conjugando-os com o recurso à electrónica e a difusão de seguros de saúde, um empresário indiano que é ao mesmo tempo um cirurgião muito reputado fundou um hospital onde o preço das operações ao coração se situa entre 10% e 2% do preço praticado nos Estados Unidos, a taxa de sucesso é a mesma e o lucro líquido é mais de 10% superior ao lucro líquido médio dos hospitais privados norte-americanos. Na mesma perspectiva, outro empresário indiano conseguiu reduzir as agências bancárias a um minúsculo estabelecimento móvel — na realidade, um funcionário com uma bicicleta — que dispõe apenas de um telemóvel [celular] e de um mini-scanner para impressões digitais. Levando esta técnica mais longe, em África, onde as infra-estruturas são péssimas ou inexistentes, diversas companhias de telemóveis têm usado as suas redes para serviços bancários, incluindo transferências de dinheiro. Especialmente notável é o caso do Quénia, onde praticamente 1/4 da população recorre a este sistema, movimentando anualmente o equivalente a mais de 10% do PIB, graças a cerca de 17.600 pequenos lojistas que funcionam como veículos das transferências monetárias, enquanto no país existem só 840 agências bancárias.

O World Investment Report, publicado pelas Nações Unidas, calcula que existam hoje cerca de 21.500 companhias transnacionais com sede nos países emergentes; e o número destas companhias com sede nos BRICs [2] e incluídas na lista das 500 maiores, tal como é estabelecida pelo Financial Times, passou de 15 em 2006 para 62 em 2008. Há uma década atrás não havia uma só companhia fundada num país emergente que se contasse entre os líderes mundiais do seu ramo, enquanto hoje, a crer na firma de consultadoria [consultoria] Boston Consulting Group, isto sucede em 25 grandes indústrias.

Todavia, as inovações tecnológicas nos países emergentes tanto se têm devido a empresários nativos como a filiais locais de grandes companhias transnacionais originárias dos países ricos, e o facto de estas instalarem centros de pesquisa [3] nas principais economias emergentes constitui um reconhecimento de que existem ali qualificações técnicas e científicas elevadas. O número de pessoas que obtém diplomas de engenharia e de ciências de computação nas universidades chinesas e indianas é o dobro, anualmente, dos que os obtêm em universidades norte-americanas. No começo de 2010, entre as 500 maiores companhias mundiais que constam da classificação anual da revista Fortune, estavam estabelecidos 98 centros de pesquisa na China e 63 na Índia, alguns com uma grande importância estratégica para a companhia. A Microsoft, por exemplo, edificou em Pequim o seu segundo maior centro de pesquisa, logo abaixo do que existe na sede norte-americana. E em algumas companhias transnacionais de capital nipónico tem-se verificado ultimamente uma tendência para a adopção de inovações originadas nas filiais situadas em países emergentes. Um exemplo típico é a Panasonic, cujos produtos vendidos nos mercados emergentes incorporam hoje em 80% ou 90% dos casos remodelações introduzidas por especialistas locais, a tal ponto que, dos 1.390 novos empregados com curso universitário que a firma planeja recrutar em 2011, só 21% serão japoneses. Os próximos anos mostrarão em que medida os países mais ricos conseguirão adoptar e absorver as inovações tecnológicas geradas nos países emergentes e até que ponto isto lhes estimulará a produtividade. Veremos então se a «inovação policêntrica» de que falam os especialistas será mais do que um termo na moda.

A produtividade na China

Mas entre os países emergentes é a China que se destaca. Numa primeira abordagem, o facto de nos últimos anos o output da China ter crescido a uma taxa anual superior a 10% e o emprego a uma taxa anual de 1% é suficiente para indicar que o desenvolvimento económico do país assenta no aumento do valor produzido por cada trabalhador. De acordo com um estudo efectuado por Harry Wu, da Universidade Hitotsubachi, e por Vivian Chen e Bart van Ark, da Conference Board, uma organização de pesquisa económica sustentada por administradores de empresa, enquanto os custos das grandes empresas chinesas com a sua força de trabalho triplicaram entre 1995 e 2004, o output por trabalhador mais do que quintuplicou. Este aumento da produtividade levou os custos unitários do trabalho nas maiores empresas a caírem 43%, residindo aqui o fundamento mais sólido da posição hegemónica que a China começou a ocupar. Com efeito, a taxa média anual de crescimento do PIB por pessoa empregada, que na China se aproximou de 8% no período entre 1995 e 2008 e esteve um pouco acima de 8% em 2009, foi inferior a 2% nos Estados Unidos no período de 1995 a 2008 e caiu para 1% em 2009. Mas deve sofisticar-se um pouco a análise.

crise-4-bSe tomarmos como critério o aumento de capital necessário para obter um dado aumento de output [4] — uma taxa correspondente ao investimento anual dividido pelo aumento anual do PIB — verificamos que na China essa taxa se tem mantido bastante estável ao longo das três últimas décadas. Se ela tivesse aumentado, isto significaria que para conseguir um mesmo aumento do output eram necessários investimentos cada vez maiores e que, portanto, a produtividade estava a diminuir. A firma Pivot Capital Management tirou ilações negativas do facto de aquela taxa ter subido em 2009 para mais do dobro do que fora a sua média nas décadas de 1980 e 1990. Mas, em primeiro lugar, o desempenho da taxa só deve ser avaliado a médio e longo prazo, para evitar os efeitos de uma recessão induzidos do exterior. Em segundo lugar, o governo chinês anunciou em Novembro de 2008 um conjunto de medidas no montante de 4 biliões de yuans, então equivalentes a 585 milhares de milhões de dólares, uma soma colossal destinada a investimentos em infra-estruturas e a subsídios e reduções fiscais para as empresas, o que motivou uma concentração inusitada de capital num período reduzido. Nestas circunstâncias, muitos comentadores temem que diminua o acréscimo de produtividade motivado pelos novos investimentos ou até ocorra um decréscimo de produtividade, sobretudo porque na China os investimentos vinham já a ser muito consideráveis. Calcula-se que em 2009 o investimento fixo total representasse ali 47% do PIB, mais do dobro da taxa de cerca de 20% que ocorre na maior parte dos países desenvolvidos. E avalia-se que a diferença entre o output real e o output potencial, que serve para medir se os investimentos estão ou não a ser excessivos, equivalesse na China apenas a 2% do PIB, em comparação com cerca de 7% nos países ricos, ou 8,5% no início de 2009 [5].

Todavia, um estudo elaborado por Helen Qiao e Yu Song, dois economistas da firma financeira Goldman Sachs, considerou que não havia motivo para que ocorresse um risco de sobreinvestimento, porque os países emergentes necessitam de uma elevada taxa de investimentos relativamente ao PIB, sem que isto afecte a eficiência dos novos investimentos. Nos Estados Unidos e no Japão há 20 vezes mais capital per capita do que na China. Além disso, o crédito aberto pelo governo no referido pacote de 4 biliões de yuans não se encaminhou preferencialmente para sectores onde existia já a ameaça de excesso de capacidade, tais como o cimento e a siderurgia, mas, segundo uma informação de Outubro de 2009, 3/5 desse crédito dirigiu-se para projectos de infra-estruturas, enquanto a taxa de crescimento dos investimentos industriais declinou acentuadamente em 2009. Ora, os investimentos em infra-estruturas provocarão aumentos da produtividade por toda a economia. Aliás, segundo Tao Wang, uma economista da firma financeira UBS, nem sequer se pode considerar que a produção siderúrgica seja excessiva para um país que está na fase de industrialização da China, com uma capacidade de produção de aço um pouco inferior a 0,5 toneladas per capita em 2009, enquanto a dos Estados Unidos em 1920 fora 0,6 toneladas e a do Japão em 1973, o máximo atingido por este país, fora 1,1 tonelada. Note-se ainda que, a crer em Andy Rothman, um economista da firma de corretores CLSA, as empresas estatais chinesas decidiram usar o pacote governamental de estímulos económicos sobretudo para melhorar as suas instalações, em vez de simplesmente as ampliar, o que terá como efeito um aumento da produtividade.

crise-4-iDe qualquer forma, quase 40% do pacote de investimentos e subsídios definido pelo governo chinês em Novembro de 2008 destina-se especialmente, entre as infra-estruturas, ao ramo dos transportes, onde as carências são notórias. Segundo o Banco Mundial, 1/4 do tráfego mundial de caminhos-de-ferro [estradas de ferro] ocorre na China, tendo o país apenas 6% das ferrovias mundiais. Ora, os investimentos em caminhos-de-ferro triplicaram ao longo de 2008 e, segundo previsões da firma financeira JPMorgan Chase, os investimentos nos transportes cresceriam 70% em 2009. Com efeito, no primeiro semestre de 2009 os investimentos ferroviários haviam aumentado 111%. Reduzindo o custo dos transportes, estas infra-estruturas não deixarão de repercutir em cadeia aumentos de produtividade.

Para fazer um balanço geral, posso seguir aqui a BCA Research, uma firma canadiana de pesquisa no campo dos investimentos, quando afirma que a taxa investimento / output é menor na China do que em muitos outros países, o que indica uma produtividade acima da média. Usando como critério o aumento de output que não pode ser directamente atribuído aos novos inputs de capital e de trabalho [6] — e é deste modo que mais nos aproximamos do aumento de produtividade resultante do desenvolvimento do processo de exploração — verificamos que durante as décadas de 1990 e 2000 nenhum país do mundo alcançou um ritmo de crescimento desta taxa tão rápido como a China. Por alguma razão The Economist de 9 de Janeiro de 2010 considerou que «é provável que o crescimento futuro das exportações chinesas não provenha das indústrias hoje existentes mas de produtos de valor mais elevado, como chips para computador e automóveis». Uma grande firma de telecomunicações chinesa, a Huawei, é hoje, em todo o mundo, a quarta maior em pedidos de patentes, e talvez isto indique o caminho futuro. Com efeito, entre 1993 e 2008 a taxa de aumento das exportações de máquinas e artigos eléctricos da China para os Estados Unidos foi o dobro da dos têxteis.

É também significativo considerar que as greves e demais agitação laboral que nos últimos tempos têm grassado nas empresas japonesas estabelecidas na China assinalam a transição entre uma época em que as companhias nipónicas procuravam aquele país para proceder com baixos custos às fases trabalho-intensivas das suas cadeias de produção e a época actual, em que passam a fases mais complexas e portanto necessitam de profissionais mais qualificados. Os trabalhadores chineses encarregaram-se de recordar aos administradores dessas companhias transnacionais que o trabalho qualificado tem um preço mais elevado.

Mas para avaliarmos melhor a posição actual da China devemos compará-la à dos Estados Unidos e dos países europeus mais evoluídos.

A produtividade nos Estados Unidos e na União Europeia

As estatísticas rezam que no período de 2000 a 2008 os custos unitários de trabalho diminuíram a uma taxa média anual de 1,4% na Alemanha e de 0,7% nos Estados Unidos, subindo a uma taxa de 0,8% em França e de 0,9% no Reino Unido. Sob este ponto de vista, o aumento da produtividade nos Estados Unidos fora metade do verificado na Alemanha, mas a recessão alterou estas posições relativas. Segundo a Conference Board, a economia norte-americana declinou cerca de 2,5% em 2009; e como a quantidade de horas de trabalho declinou o dobro dessa taxa, a produtividade medida em PIB por hora aumentou 2,5%. Entretanto, nos quinze países que formavam a União Europeia anteriormente à sua expansão em 2004, a contracção média do PIB foi 4,2%, bastante maior do que a verificada nos Estados Unidos; mas como a quantidade de horas de trabalho declinou menos, a produtividade nestes países europeus caiu 1,1%.

crise-4-jEste tipo de exercícios estatísticos confunde a produtividade nos processos de produção com uma simples competitividade no mercado. Devemos distinguir rigorosamente os dois conceitos. É claro que, se um dado output for fabricado com custos salariais menores, ele é concorrencial, mas a que se deve essa redução de custos? O crescimento da produtividade, tal como creio que deve ser definido, resulta de um aumento das qualificações dos trabalhadores e de uma reorganização dos sistemas de trabalho que fazem com que, em cada hora marcada pelo relógio, a actividade seja mais complexa ou mais intensa. O crescimento da produtividade permite que os trabalhadores, ao mesmo tempo que são cada vez mais explorados, recebam remunerações que põem ao seu alcance um número cada vez maior de bens e serviços. Por isso o crescimento da produtividade tem efeitos auto-estimulantes e dá azo à recuperação dos conflitos. Aumentar a produtividade é a receita capitalista do progresso económico sólido e da ordem social. Pelo contrário, reduzir os custos porque se despedem [demitem] trabalhadores ou se pagam baixos salários e não se renova a maquinaria permite, durante algum tempo, vender a produção a baixo preço, mas compromete as possibilidades de expansão futuras. Ora, no caso da economia norte-americana em 2009 ocorreu um declínio da produção acompanhado por um declínio ainda maior do emprego. Em termos marxistas, tratou-se de uma operação de mais-valia absoluta, ou seja, o exacto contrário do aumento da produtividade, que fundamenta a extorsão de mais-valia relativa. A noção de produtividade serve para analisar e medir o desenvolvimento económico, e pretender aplicar o conceito a economias em franca recessão denuncia involuntariamente a situação crítica a que chegaram nesses países os mecanismos de aumento da produtividade. Bart van Ark, economista-chefe da Conference Board, declarou em 2010 que a recessão ensinara aos administradores de empresa que podiam manter a actividade empregando menos força de trabalho. O objectivo do capitalismo, no entanto, não é tornar competitiva uma recessão, mas expandir o emprego em formas de produtividade que expandam mais ainda o output.

Notas

[1] Em economia, o termo output denota o conjunto dos bens e serviços produzidos numa empresa, num país ou num grupo de países.
[2] Chama-se BRICs ao conjunto formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China. Ver a este respeito o segundo artigo desta série.
[3] Denomino aqui, de maneira simples, «pesquisa» o que em inglês se chama «research and development», que vai desde a pesquisa pura até aos estudos acerca da aplicabilidade prática das descobertas e da sua rentabilização em processos produtivos.
[4] É o que em termos técnicos se denomina ICOR, incremental capital-output ratio.
[5] Note-se que, segundo o Economic Outlook publicado pela OCDE em Novembro de 2009, essa taxa era então de quase 5% nos Estados Unidos.
[6] Em termos técnicos, TFP, total factor productivity. Em economia, chama-se input a qualquer factor de produção ou ao conjunto dos factores de produção que entram no fabrico de bens ou na prestação de serviços.

Não sabemos quem é o autor da primeira ilustração, mas ela aparece em vários lugares, por exemplo aqui ou ali.

Esta série inclui os seguintes artigos
1) O declínio dos Estados Unidos
2) A nova hegemonia
3) A China em primeiro plano
4) O problema da produtividade
5) Transnacionalização e espaços nacionais
6) A crise do neoliberalismo
7) Uma crise de regulação
8) A crise de regulação na zona do euro


Comentários 18

    • |

      set 17, 2010

      |

      Olá,

      Como contribuição para a análise crítica aqui desenvolvida, dois artigos – publicados, e por esse motivo os limites evidentes de cada um deles, numa revista acadêmica – chamam a atenção para a questão da inovação pelas empresas (inclusive, subsidiárias de multinacionais) dos países emergentes.

      Apesar da defesa da inovação “às cegas” – aliada ao “desenvolvimento brasileiro” – que os artigos apresentam, ainda assim penso serem importantes visadas sobre o tema tratado neste artigo da série.

      Vale a pena conferir e saber desses casos:

      – Inovação nas multinacionais no Brasil (Sérgio Queiroz) – http://www.comciencia.br/reportagens/2004/08/11.shtml;

      – Desenvolvimento de produtos nas montadoras de automóveis no Brasil (Flávia Consoni) – http://www.comciencia.br/200404/reportagens/13.shtml

      Abraços – e parabenizo o autor pela importante séries e reflexões. Gostaria que o debate continua nesse artigo – assim como foi forte no primeiro item da série.

    • João Bernardo

      |

      set 17, 2010

      |

      Xavier,
      Pela parte que me diz respeito, no primeiro artigo desta série não ocorreu qualquer debate. Houve um dado incorrecto, e aliás inverosímil, apresentado por um leitor e que eu corrigi.

    • Danilo Chaves Nakamura

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      set 19, 2010

      |

      O leitor “corrigido” – que por um acaso sou eu – apenas duvidou da hipótese de descolamento da economia chinesa da economia norte americana. E divergiu sobre a hipótese de que o que vivemos não é uma crise do capital, mas sim uma crise no capital.

      Lido honestamente, o que estava colocado ali era: Como pensar num descolamento de duas economias interdependentes? Como justifica a economista chinesa Yuan Gangming: “é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase U$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes”.

      Isso foi levantado com base nas minhas leituras. E poderia gerar um debate.

      O autor preferiu, primeiro, ignorar as objeções. A partir do meu primeiro comentário apenas disse que ilustraria abundantemente suas hipóteses e que seria um senso comum dizer que a China depende das exportações. No segundo comentário, ao invés de falar que aproximadamente 70% da produção chinesa era exportada e que o maior exportador era o EUA, errei e disse que 70% era exportado para os EUA. Ai ele aproveitou para me “corrigir”.

      Não creio que os dados que apresentei a partir de alguns autores sejam incorretos e/ou inverossímil. Eles estão inventando?

      Mas enfim, o debate acontece quando há abertura para objeções. Continuo acompanhando a série de textos e se no final eles me convencerem, não terei nenhum problema em assumir. O que eu não concordar será levantado com humildade.

      O que eu apenas apontaria após a leitura dos textos (até a 4° parte), é que ao contrário de um certo “otimismo” em relação ao crescimento dos países emergentes, a integração da população por meio do crédito e do consumo, o acesso a propriedade da terra (no caso da China) e etc. Eu, a partir das tendencias, prefiro apostar numa possível reviravolta das lutas ainda dispersas que ocorrem no campo e na cidade da China e de todos esses países emergentes.

    • João Bernardo

      |

      set 19, 2010

      |

      Este leitor, que num dos comentários que colocou no primeiro artigo desta série declarou «não tenho muita afinidade com números», insiste em escrever que «aproximadamente 70% da produção chinesa era exportada». Trata-se de um dado errado, como se pode verificar consultando várias passagens desta série de artigos e, aliás, como outros leitores fizeram notar também.
      Quanto ao decoupling, tem sido bastante comentado na literatura especializada, a meu ver com razão. Não se trata de negar a interdependência das economias mas de observar que duas economias ou dois grupos económicos revelam tendências de desenvolvimento divergentes tanto no plano da produção como nos do comércio externo, do consumo interno, da poupança, da evolução dos preços e dos mecanismos financeiros. A interdependência dos elementos de uma estrutura não implica que eles tenham de evoluir de maneira paralela ou convergente.
      De resto, não se trata aqui de palavras, mas de factos, e em economia os factos são números.

    • Danilo Chaves Nakamura

      |

      set 19, 2010

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      Por não ter afinidades com números, me apoio em especialistas. São citações o que eu apresentei (insisto)…

      Os números que este autor apresenta, em boa parte eu tenho contato. Também sou leitor quinzenal da The economist. Os números aqui já foram apresentados como fatos e ilustrações. Eu prefiro tratá-los como dados, informações.

      Do ponto de vista da crítica da economia política, os números são importantíssimos, sim. Mas o trato (o trabalho de crítica) é essencial. E é ai que eu discordo da hipótese deste autor.

      Não nego que as duas economias revelam tendencias divergentes. Não nego uma possível quebra da hegemonia norte americana.
      Não diminuo o alcance do déficit exterior norte americano.

      Na minha compreensão, esses problemas são problemas de uma grande crise do capitalismo. O que não significa que ele não poderá se recuperar. E essa recuperação teria (ou terá) a China como o principal pilar.

      Enfim, mas já que não se tratam de palavras… O debate será impossível novamente.

    • R.D.

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      set 19, 2010

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      Em relação ao último comentário de Danilo Chaves Nakamura, talvez os problemas venham mesmo de ele ser “leitor quinzenal” de uma revista que é semanal!

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      set 20, 2010

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      “Por não ter afinidades com números”, você se apóia em “especialistas”. Sem o apoio dos “números” apontados pelos “especialistas” — que já se demonstrou serem errados — como ficam suas “citações”? Percebe que não há debate quando sua premissa — informações corretas — não existe, e que enquanto não se trata de debater fatos realmente existentes o debate necessariamente circunscreve-se a indicá-los?

      Isto pode te criar problemas.

      Repare: se “uma grande crise do capitalismo” “não significa que ele não poderá se recuperar” até aí tudo bem, seria preciso analisar o estado da economia e das lutas anticapitalistas em nível global. A primeira tarefa é ao que esta série parece se propor.

      Mas o problema vem mesmo quando você “não nega que as duas economias [EUA e China] revelam tendências divergentes”, que “não nega uma possível quebra da hegemonia norte-americana”, que “não diminui o alcance do déficit exterior norte-americano” etc. Ao juntar isso com “a China como o principal pilar” de uma “recuperação” capitalista, negando a negação (“não nego” = “concordo”) você concorda com quem discordava, pois é exatamente esta a tônica da série até agora. Nesta discussão, sem números, sem dados, sem fatos econômicos demonstrados através deles, não há debate possível, porque o debate transformar-se-ia então em mera troca de palavras sem qualquer consequência prática além do uso de nosso tempo para fazer da digitação de certo número de caracteres dada quantidade de palavras inflamadas.

      Ou seja: em política como em tudo, confiar nestes “especialistas” sem saber do que falam leva a problemas sérios. A não ser, evidentemente, que você apresente boas informações sobre as lutas sociais na China, nos EUA ou em qualquer dos países citados que contrabalancem a aridez dos números pela sua força e amplitude, a situação é tal como você a descreveu neste comentário mais recente, concordando em toda a linha com o autor da série — de quem você discordava usando dados incorretos fornecidos por “especialistas”.

    • Danilo Chaves Nakamura

      |

      set 21, 2010

      |

      Manolo,

      A questão é muito mais simples do que ficar misturando minhas palavras. Eu não faria essa bricolagem com as palavras de ninguém.

      Eu, assim como muitos, considero que o que vivemos é uma crise DO capitalismo. Você, o João e outros acham que não. Tudo bem!

      Eu só usei o espaço “comente!” para discordar da hipótese. Só isso… E acho que esse é o espírito do site, ou não? Prefiro discutir aqui o assunto, do que ir no Painel da Folha de São Paulo discordar dos economistas do PT que acham que a crise já passou.

      Não estou pedindo para ninguém concordar comigo. Ao contrário, sei que até agora (pelo menos desse espaço) ninguém concordou. Também não quero fazer papel de polemista, só levantei uma leitura diferente que não é só minha.

      Os caras que eu citei e chamei de especialista são todos estudiosos e militantes sérios (um deles um grande amigo meu). Também não sei porque ironizá-los com esse especialista entre aspas.

      Agora se você considera que minhas indagações são palavras sem valor. Também tudo bem!

      Enfim, não vou mais me alongar diante dum não-debate.

      abraços,

      Danilo

    • |

      set 21, 2010

      |

      Se usei “especialista” entre aspas como faço novamente agora foi porque você usou a palavra em seu texto, e quis ressaltar este fato como fiz com todas as palavras que citei ou parafraseei de seus comentários. E a bricolagem não é minha, é sua. Só fiz colocar as peças na devida ordem para extrair-lhes o sentido.

      O fato que está em debate é bastante simples. Você afirma estarmos vivendo uma crise DO capitalismo, enquanto eu e outros — o autor deste artigo, inclusive — afirmamos que vivemos uma crise NO capitalismo. Em resumo (se entendi realmente sua posição): enquanto, para você, ao que indica esta é uma crise que tende a por fim ao sistema, eu e outros pensamos que esta é uma crise que será resolvida ainda nos marcos do sistema, embora com alterações nas correlações de força da economia mundial. Isto são teses, afirmações, que precisam de fundamentos na realidade — ou seja, de provas.

      Ocorre que só chega a estas conclusões, a estas teses, a estas afirmações com base em fatos concretos quem analisou, dentre outras coisas, números que expressam fatos econômicos. E os números que você cita são errados, inapelavelmente.

      O que se tentou fazer então: mostrar o erro para seguirmos no debate. Talvez vocẽ se dignasse a checar com suas fontes — inclusive este que você diz ser amigo seu — onde encontraram estes números, e como os empregam. Foi o que tentei fazer há exatos dezoito dias com a seguinte pergunta: “que fontes usaram Chesnais, Letizia, Gill e Husson para chegar aos números que você apresenta, e através de que métodos o fizeram?” Seria bom até para você mesmo, para melhorar seu conhecimento do assunto e inserir-se melhor no maldito reino dos números (e dos fatos que expressam de modo sintético). Afinal, mesmo pessoas sérias e estudiosas podem errar, e isto nem de longe afeta sua dedicação ou seriedade quando nem uma nem a outra não lhes sobe ao ego.

      Mas, ao que parece, seu objetivo em momento algum é debater. Você quer afirmar uma tese, tão-somente. A crise é DO capitalismo, punto e basta! O debate, para você, parece parar aí. Onde ficam os fatos que fundamentam sua tese? Com base em quê você chega a estas conclusões? Sem saber disto, não há debate, há esgrima de teses.

      Aí você usa citações, “por não ter afinidade com números”. Também faço isso, mas prefiro entender do que trata um argumento de autoridade — é este o fundamento de toda citação — antes de empregá-lo num debate. Do contrário, posso terminar fazendo um papel não muito honroso para minha própria reputação.

      Quando foi mostrado que um dos fundamentos de sua tese — os números que refletem os dados econômicos em que ela se baseia — está errado, você não teve outra reação a não ser fechar-se num castelo de aspas e posar-se de vítima. Pergunto: quem está promovendo um “não-debate”? Aqueles que — mesmo não se mostrando intransigentes — defendem convictamente as próprias posições? Ou quem se sente quase ofendido (é o tom de seu discurso) e ameaça se retirar do debate quando vê questionado o valor das citações a que se agarra como a uma tábua de salvação?

    • Danilo Chaves Nakamura

      |

      set 21, 2010

      |

      É a última vez que respondo sobre meu posicionamento.

      Em parte você entendeu. São teses diferentes.

      De resto continuou atacando (ou cobrando de um comentário uma tese), simplesmente por eu ter discordado. Não usei nenhum argumento de autoridade. Não falei em “senso comum”, não falei em “dados errados”, “não embaralhei a fala de ninguém para tentar fazer ele concordar comigo”.

      Ao contrário, desde o meu primeiro comentário, a palavra DÚVIDA aparece. Utilizei a argumentação de outros pesquisadores (especialistas, estudiosos, militantes – chame do que quiser) para levantar um outro ponto de vista (que pra mim é mais viável).

      E não sei porque o espanto. Muito antes do João escrever seus textos, diversos autores já escreveram que o que vivemos é uma crise DO capital. Pra mim, é muito louvável o João escrever e levantar outra tese.

      Os textos que eu citei são mais do que conhecidos. É só procurar no google e ler. Se quiser passo pro seu e-mail.

      Mas longe de me sentir ameaçado (da onde tirou isso?). Aliás, desde o primeiro texto do João sou a única pessoa que tentou debater aqui, de trazer uma outra leitura.

      Enfim, vou continuar lendo a continuação da série e se tiver alguma observação vou fazer.

      Você prefere ficar incomodado com uma discordancia de ponto de vista do que com comentários que vem aqui avisar que a The Economist é semanal.

      Mais é isso…

      abraços,

    • Danilo Chaves Nakamura

      |

      set 21, 2010

      |

      Minha derradeira intervenção (agora de verdade). Tentemos resumir nossa posição e racionalizar esse debate sobre o não-debate.

      1 – Sobre o descolamento eu já falei. A interdependência das economias – creio eu – não nos permite afirmar isso. As questões da moeda, da poupança e da exportação estão todas interligadas. Não há no horizonte uma nova forma de regulação (substituição do dólar nas trocas internacionais, por exemplo). Por enquanto, o funcionamento divergente das economias apenas eleva as contradições.

      2 – Afirmar que o que vivemos não é uma crise DO capital, mas sim uma crise NO capital, não é uma afirmação sem consequências.

      Quando dizemos que a crise aberta com o estouro da bolha especulativa localizada no setor imobiliário dos EUA é apenas uma crise de reconfiguração, de re-acomodação do capital, estamos dando o resultado de um processo ainda em andamento.

      Por mais que se tente deixar a questão em aberto, essa tese já escolhe os protagonistas (China e outros emergentes sobem e EUA desce) e, o que pra mim é inconcebível, já se dá o resultado. Trata-se apenas de uma troca de hegemonia.

      O outro incomodo é que isso tudo não é sustentado a partir de tendências ancoradas em forças sociais. São tendências ancoradas nos números econômicos. Não que eles não tenham valor, mas tudo se passa como se o andamento do capitalismo pudesse ser projetado apenas com cálculos econométricos.

      Para mim, o resultado está em aberto. Dizer que é a crise derradeira do capitalismo é um grande exagero (não sou kurziano e da “turma do colapso”). Mas dizer que o capitalismo não vive uma de suas maiores crise é outro.

      Onde estão as pessoas de carne e osso (que sustentam esses números). É por conta disso que levantei o pacote econômico do governo Chinês para conter a crise (eu dei números!). É por isso que lembrei do artigo da Der Spielgel sobre a corrosão da classe média norte americana. É por isso que duvido que o Partido Comunista Chinês terá carta branca para proletarizar sua população sem nenhum tipo de reação (como se as pessoas se mexessem apenas no sentido de entrar no mundo do consumo).

      É por isso que podemos lembrar do relatório sobre as condições de trabalho na China publicado pelo passa palavra.

      Crise do capital. Ela apresenta tendências e contra-tendências (tese do Grespan: “Negativo do Capital”). Isso significa que o capital pode encontrar uma saída (mudança de hegemonia seria uma possibilidade). Mas nada nos garante…

    • |

      set 21, 2010

      |

      Sim, entendi desde o princípio que são teses diferentes. Desde há dezoito dias. O que você parece não entender é que, do meu ponto de vista, estas teses precisam estar baseadas em fatos, e os fatos que você apresenta, ainda do meu ponto de vista, simplesmente não existem.

      Ainda há dezoito dias, reforçando a tese do desengate como expressão da mudança de bloco hegemônico dentro dos marcos do sistema capitalista, apresentei os fatos que me levam a concluir que se trata de uma crise NO capitalismo através de dados do Escritório Nacional de Estatística da China, indicando inclusive o site do Escritório caso você (ou qualquer outra pessoa) quisesse ter acesso a eles diretamente. A partir destes dados, demonstrei que os números que você apresentou com base em citações, do meu ponto de vista e com os dados de que disponho, estão errados. Infelizmente para o tom deste debate não há outra palavra para exprimir um erro, então é errados mesmos que eles estão.

      A tese da interdependência extrema das economias chinesa e americana que fundamenta sua posição depende, também, de dados. Afinal, em suas próprias palavras, “75% da produção chinesa é exportada” “sendo os EUA o maior exportador [não seria importador?] de seus produtos”. Se discordo disto não é simplesmente por querer discordar e fincar pé sem base alguma, mas porque os números de que disponho — eles, os malditos números! — exprimem não apenas fatos diferentes, mas sim fatos tão absurdamente diferentes que simplesmente deslegitimam a tese da interdependência extrema.

      Há uma divergência de dados. Aí, para seguir debatendo, a gente precisa verificar a legitimidade das fontes. Do meu ponto de vista, não vejo porque discordar do Escritório Nacional de Estatística da China quando ele diz que as exportações de toda a economia chinesa em 2009 representam 24,02% do PIB nominal chinês daquele ano. São os chineses falando de si mesmos. Quando você cita estudiosos, especialistas etc. (uso agora as palavras sem aspas por não pretender duvidar da seriedade de quem quer que você haja citado e por me parecer que as pobres aspas te soam ofensivas quando não é você mesmo a empregá-las para legitimar suas posições) eles obtiveram os dados — a meu ver errados — que você cita a partir de alguma fonte. Daí haver perguntado dezoito dias atrás: “que fontes usaram Chesnais, Letizia, Gill e Husson para chegar aos números que você apresenta, e através de que métodos o fizeram?” E já é a terceira vez que o faço sem obter qualquer resposta sua além da recomendação de uma pesquisa em sistemas de busca.

      É a isto que se resume seu conhecimento — buscar artigos no Google para legitimar suas teses, como você me recomendou? A dita seriedade, a suposta competência ou mesmo afeição pessoal a determinado pesquisador — em síntese, argumentos de autoridade — são por acaso seus critérios de estabelecimento do verdadeiro e do falso?

      A tentativa de entendimento das raízes, dos fundamentos dos argumentos do outro para, a partir daí, dialogar, são — assim o penso — os fundamentos mínimos de um debate. Se para você é outra coisa, sinto muito. Você anda tão incomodado com uma simples divergência numa ínfima discussão de um artigo na internet que se preocupa mais com o fato de haver sido lembrado sobre a real periodicidade do Economist que com a continuidade do debate — prova do quão enviesada é sua leitura de textos, e mesmo seu polemismo vazio. Esgrima aí sua tese até enjoar que me dou por vencido e paro por aqui, pois não posso ser mais claro quanto ao que pretendia neste debate do que fui neste comentário.

    • Danilo Chaves Nakamura

      |

      set 21, 2010

      |

      Ninguém falou que a The Economist não é semanal. Essa é a questão. Apenas uma pessoa entra no debate e contribui com isso… O intuito? Deslegitimar uma posição.

      E porque a periodicidade dela enviesaria uma leitura?

      E os textos são possíveis de achar no Google, mas isso não quer dizer que eu pesquiso pelo google (o que não teria problema). Recebo pessoalmente, ou leio em períodicos (Carre rouge, Margem Esquerda, De olho na História). Eles estão on line. Você prefere ver isso como? Deslegitimar a argumentação novamente.

      Ao invés de ler os textos, (que estão disponíveis on line – o que seria uma oportunidade de você ver como os pesquisadores argumentam. E ai, por exemplo, explicar o que mudou desde que eles levantaram que 70% da produção chinesa era exportada), o que você prefere? Deslegitimar…

      Mudanças nos números há. Agora, “erro”, deixo esse julgamento para suas incorruptíveis certezas.

      A sua tal “clareza” é ficar chamando por números ou deslocando minhas frases. Eu tentei ser claro. Argumentei sobre dois pontos que discordo. Retomei argumentos de todas minhas intervenções.

      O João argumentou e eu discordei. Quem entrou com polemismo vazio? Você.

    • |

      set 21, 2010

      |

      Não se trata de “mudanças nos números”. Em nenhuma série estatística lá no site do Escritório Nacional de Estatística da China as exportações chinesas representam mais que 40% do PIB. Volto a dizer: são os chineses falando deles mesmos. O que está num dado importante que você usa para sua argumentação é erro mesmo, porque se exportações não se medem através de porcentagem no PIB, gostaria de entender qual seu critério para chegar a este percentual com base em quem você cita. Recomendar a leitura dos artigos que você usa não resolve o problema, pois não consigo acreditar, ainda, que você resuma seu conhecimento à repetição acrítica de argumentos alheios. Que critério usar para mensurar as exportações além da participação delas no PIB, então?

      Quanto à mudança na hegemonia, que bom que concordamos. Porque lá atrás, em seu primeiro comentário à primeira parte desta série, está a chave do debate: “O que nos espanta é que nenhuma oposição, nenhum movimento da sociedade no sentido de questionar o capitalismo aparece em nosso horizonte”. Como pode haver uma crise sistêmica generalizada (é como eu entendo uma “crise do capitalismo”) sem o que você mesmo chama — e eu concordo — de “movimento da sociedade no sentido de questionar o capitalismo”? Sem este elemento fundamental, o que vejo é uma “troca de guarda” nas fortalezas do capital, pura e simplesmente. Uma “crise no capitalismo”.

      Mesmo as mais duras condições de exploração na China, minuciosamente descritas naquele relatório publicado em julho pelo PassaPalavra, não significa, automaticamente, a conversão destes explorados chineses neste “movimento da sociedade” que esperamos. Afinal, a superexploração que ali se descreve, condição básica para o descomunal crescimento econômico chinês, é a mesma superexploração que fundamenta qualquer crescimento econômico continuado. É semelhante à que vejo, por exemplo, numa pequena cidade do interior baiano onde estive recentemente. A economia da cidade, direta ou indiretamente, depende de uma grande granja lá instalada, mas as condições de trabalho são tão brutais quanto aquelas do relatório. Isto tem seus efeitos sobre os trabalhadores, que vão dos físicos, mais evidentes (alergias, LER, lesões musculares, acidentes de trabalho mais graves etc.), a outros mais sutis. Para se ter uma ideia, uma amiga psicóloga que atende no Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) local diz estar cansada de tanto atender pessoas atacadas por pesadelos com galinhas, gente que desenvolveu alectorofobia (fobia a galinhas), gente com depressão por se sentir menos importante que galinhas… Cita até o caso extremo de uma moça que “virou galinha” e passa o dia ciscando. Creio que nem das duras condições de superexploração na China, nem dos efeitos nefastos da granja sobre a cidade podemos esperar uma mobilização social anticapitalista como consequência direta, semi-automática, imediata. Ou podemos? Penso que há, nos dois casos, mobilização contra estas formas mais duras de exploração (não ver nisto, além de miopia, seria dar muito crédito à servidão voluntária), mas não penso que esta mobilização resulte, de imediato, em luta anticapitalista.

      Daí dizer: além de a correção da tese do desengate, demonstrada com fatos econômicos, apontar uma mudança na hegemonia do capitalismo mundial dentro dos quadros sócio-econômicos mais amplos do sistema, até onde vão meus conhecimentos não vejo em curso uma mobilização social questionadora do capitalismo, ou mesmo várias que pudessem se coordenar. Consequência a tirar daí: como não se trata de uma crise séria o suficiente para abalar os fundamentos da dominação capitalista e nem há movimentos sociais globais fortes o suficientes para forçar esta queda, a crise é no sistema.

    • Guilherme

      |

      set 22, 2010

      |

      No sistema……Do sistema…….Como é triste ver pessoas gastando suas habilidades e energias disputando a credibilidade de suas afirmações, apontando para espaços enormes e nebulosos que não podem ser tocados e sentidos com a ponta dos dedos, prendendo-se a detalhes de ortografia e pontuação. Vocês sabem muito, com certeza mais do que eu, mas exponho sinceramente que precisamos de mais sensibilidade. É, vago desse jeito mesmo. É vago porque sensibilidade é humana, é um termo que o sistema e grandes empresários não conhecem, apesar de eficientemente apaga-lo do espírito das pessoas. Sei lá, eu sei que a pegada de vocês é outra e imagino estejam dispostos a fazer um trabalho legal. Só acho que as pessoas poderiam ser mais pessoais, valorizando o ser humano, escrevendo sobre os problemas que se vê nos olhos das pessoas que moram na mesma rua, analisando a sua felicidade e a do vizinho, ajudando a plantar uma horta na escola do bairro, querendo bem as pessoas que passam na rua. essa visão agigantada que vocês discutem me cega os olhos, tira as forças dos meus braços, e parece que é exatamente para isso que o sistema trabalha.

    • DC

      |

      set 22, 2010

      |

      O legal deste debate todo é que eu pude viver, agora e na prática, a crise NO capitalismo. Estou aqui a ler isto tudo, ou pelo menos tentando (minha chefe olha pra mim e faço cara de trabalhador!), em pleno expediente, diminuindo drasticamente a minha produtividade e, assim, ajudando a Nakamura provar sua tese. Se milhões pessoas lerem o Passa Palavra e consequentemente este debate, e se isto for feito no horário de trabalho, em apenas uma semana a tese de Nakamura estará correta e a do JB completamente errada. Mas eu tento fazer outros colegas participarem do debate, e todos eles estão trabalhando que nem loucos! Ou seja, se depender da teoria, o capitalismo vai ser derrotado. Vamos todos ler e vamos fazê-lo no horário de trabalho! O problema é que estão todos sem tempo, porque “nunca na história deste país” se trabalhou tanto. Alguns estão até ganhando bem, comprando apê, fazendo filhos, carro do ano… Enfim, por enquanto só eu e poucos estamos causando crise DO capitalismo, infelizmente… Opa, nem mais eu, me passaram aqui mais trabalho!

    • Rodrigo Araújo

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      set 23, 2010

      |

      Pessoalmente acho desestimulante quando a coisa decai nos termos em que foi travada esta discussão.
      Acompanhei até o fim para ver como se sairiam os debatedores.
      A respeito disso, penso que o pior cego é aquele que não quer ver, e se não quer ver, eu sinceramente sou tentado a acreditar que não devemos gastar nossas energias em debates estéreis.
      É dar atenção demais para quem não o merece. Contudo eu sei que muitas vezes o sangue esquenta e que é difícil não dar a merecida resposta.
      Então este comentário é crítico e autocrítico.
      Percebi que houve um esforço enorme da parte de um comentarista para que o debate não decaísse.
      Mesmo assim ouso dizer que acredito que são nestes momentos que somos tentados a deixar a fera existente em nós sair.

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