A extrema-esquerda brasileira nos anos 1950 viveu entre a sedução nacional-desenvolvimentista e o isolamento revolucionário. Por Manolo

O Brasil vive uma profunda mudança de sua inserção na economia e na política globais. Nunca antes na história deste país se produziu, exportou e investiu tanto, em especial fora das fronteiras – desenvolvendo as empresas transnacionais de origem brasileira. Nunca antes a política externa brasileira foi tão independente – com base na exploração dos recursos econômicos da América Latina e na disputa de mercados e de espaços de investimento em África. Nunca antes o Brasil foi tão engajado – ao ponto de grandes capitalistas apoiarem políticas compensatórias “de esquerda”. Na verdade – e é o que queremos investigar com esta série de artigos – nunca antes o Brasil foi tão imperialista.

Leia aqui as demais partes do ensaio: [1][2][3][4][5][6][7][8][9][10]

No Brasil da década de 1950 qualquer interessado na construção do socialismo tinha poucas escolhas: tratava-se integrar-se às organizações majoritárias; em caso de descontentamento ou discordância da linha política, as alternativas eram o abandono da militância, a troca constante entre as organizações majoritárias ou a tentativa de construção de alternativas viáveis de militância em alguma das tendências minoritárias existentes.

Edgard Leuenroth, gráfico, anarquista
Edgard Leuenroth, gráfico, anarquista

A mais antiga delas era composta pelos anarquistas. Massacrados desde sempre pela repressão ao movimento operário, mantiveram desde sempre sua posição de recusa à legislação trabalhista e à intervenção nos sindicatos, o que lhes dificultou enormemente a atuação junto ao movimento operário. Embora ao terminar a ditadura varguista os anarquistas publicassem novos jornais como Remodelações (Rio de Janeiro, 1945-1947), O Archote (Niterói, 1947), Aurora (1947), Spartacus (Rio de Janeiro, 1947), Ação Direta (Rio de Janeiro, 1946-1959), O Libertário (1960-1964) e revivessem o velho jornal A Plebe (São Paulo, 1947-1951); embora se organizassem na Juventude Spartacus, na União Anarquista de São Paulo (UASP) e na União Anarquista do Rio de Janeiro (UARJ); embora mantivessem a Nossa Chácara (1939-1964); embora realizassem congressos em 1948 e 1959, com representantes de grupos de Curitiba, Niterói, Campinas, Rio de Janeiro e São Paulo[1]; tudo isto eram atividades de grupos de cultura e preservação da memória[2], longe da enorme influência que tiveram no movimento operário e na própria formação da classe trabalhadora brasileira antes de 1930.

Hermínio Sacchetta e a filha Lia em 1944
Hermínio Sacchetta e a filha Lia em 1944

Depois do anarquismo, a mais antiga das tendências minoritárias era o trotskismo, representado no começo dos anos 1950 pelo Partido Socialista Revolucionário (PSR). O partido surgiu em 1939 da fusão entre o Partido Operário Leninista (POL) e a Dissidência Pró-Reagrupamento da Vanguarda Revolucionária, cujos integrantes haviam sido expulsos do PCB em 1939 sob a acusação – ignominiosa nos tempos do stalinismo – de “trotskismo”[3]. O PSR marcou a transição da primeira geração de trotskistas – Mário Pedrosa, Aristides Lobo, Lívio Xavier, Rachel de Queiroz etc. –, intelectualmente refinados e extremamente antidogmáticos, para uma segunda geração – Hermínio Sacchetta, José Stachini, Patrícia Galvão, Alberto Luiz da Rocha Barros etc. – igualmente brilhante, embora mais afeita a uma atuação rigidamente disciplinada. Entre as duas gerações havia todo tipo de divergências, desde a atuação junto à IV Internacional – onde Mário Pedrosa fora publicamente censurado, inclusive pelo próprio PSR que lá representava, dentre outras coisas por divergir de Trotski quanto à tese de “defesa incondicional da URSS” na Segunda Guerra – até a caracterização do Estado Novo varguista – “ditadura policial-militar e bonapartista” para a primeira geração, “fascismo” para a segunda[4]. Hermínio Sacchetta, personalidade dominante da segunda geração, exerceu influência duradoura sobre todos que o conheceram, como Florestan Fernandes:

florestanfernandes1944
Florestan Fernandes, jornalista da Folha da Manhã (1944)

Conheci Hermínio Sacchetta por acaso. Um amigo (…), Jussieu da Cunha Batista, trabalhava como jornalista em A Folha da Manhã. Sempre que eu podia, passava pela redação, para batermos um papinho. Isso por volta de 1942 e 1943. Não me lembro exatamente quando fui apresentado ao Sacchetta. Ele era secretário-geral e ia com frequência em busca de um ou outro jornalista, para dar ordens e supervisionar a produção. O Jussieu me apresentou ao Sacchetta em uma dessas idas e vindas. Ele sentia grande simpatia pelos jovens da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e abriu o seu encantador sorriso, ao saber que eu estudava Ciências Sociais e estava no fim do bacharelado. Passei a ser incluído no seu auditório de rotina e convidado para conversar com ele em sua sala[5].

Assim, em 1943 me tornei militante do Partido Socialista Revolucionário na célula a que pertenciam o Sacchetta, Rocha Barros, Plínio Gomes de Mello, Vítor de Azevedo e José Stacchini. (…) A minha aspiração era ir para o Partido Comunista. Mas as circunstâncias me levaram ao movimento trotskista. Ademais, não gostei do tipo de disciplina do PC. (…) Os comunistas levavam as pessoas para reuniões, festas, conferências, mas havia um elemento autoritário que eu repelia. Com a filiação ao PSR, seção brasileira da IV Internacional, minha militância se tornou sistemática. (…) Eu me mantive nele até o início dos anos 50. Aí os próprios companheiros acharam que não seria conveniente que eu desperdiçasse o tempo em um movimento de pequeno alcance, quando podia me dedicar a trabalhos de maior envergadura na universidade. O Sacchetta, que era um homem esclarecido, me aconselhou: “É melhor você se afastar da organização e se dedicar à universidade, que vai ser mais importante para nós”.[6]

Hermínio Sacchetta e Maurício Tragtenberg (1956)
Hermínio Sacchetta e Maurício Tragtenberg (1956)

Outro a conhecer Sacchetta, e a tê-lo quase como um pai[7], foi Maurício Tragtenberg. Mas não sem atritos:

…na medida em que eu começava a ler a “doutrina” do Florestan e começava a ler Proudhon, eu comecei a achar o trotskismo um stalinismo mais intelectualizado; quero dizer, uma espécie de dogmatismo mais elaborado. Disse isso ao Sacchetta, que chegou a ficar dois anos sem falar comigo, porque eu fiz crítica ao trotskismo, achando que estruturalmente ele era apenas o stalinismo com consciência ideológica. E o Sacchetta era muito rígido, rompeu relações comigo. Somente depois de dois anos, quando ele começou a valorizar a obra da Rosa de Luxemburg e a crítica ao bolchevismo clássico, ele voltou a falar comigo e nós voltamos a ser amigos. O negócio era nessa base. Era barra![8]

Fernando de Carvalho, amigo de Maurício Tragtenberg, dá outra visão sobre a relação deste último com o PSR:

O PSR tinha dez pessoas, entre militantes, simpatizantes e direção do partido. Um dia apareceu alguém na Biblioteca Municipal e disse: – Maurício, o partido precisa se lembrar do seguinte: é necessário que a revolução se faça imediatamente, não vamos esperar a data. Eu, por minha vez, falei: – Maurício, o que você acha desse partido que quer fazer uma revolução com dez pessoas? Maurício observou o fato. E um belo dia Sacchetta ficou bravo com ele, e o expulsou do partido. Assim, o PSR ficou com nove pessoas.[9]

Leôncio Martins Rodrigues, influenciado por Ruth e Fernando Henrique Cardoso, abandonou o trotskismo em 1957 para seguir carreira acadêmica

Leôncio Martins Rodrigues, estudante que entrara no PSR em 1950 e largou os estudos pouco depois para se profissionalizar na militância, diz que o partido tinha “mais ou menos uns quinze militantes em São Paulo, um punhado no Rio e outro, ainda menor, no Paraná”[10]. O partido, já pequeno, começou a década de 1950 com um racha. Antes do III Congresso da IV Internacional (1951), Sacchetta e Stachini afastaram-se do PSR após uma Plenária Ampliada: Sacchetta aproximava-se cada vez mais das posições defendidas por Vanguarda Socialista, jornal do grupo de Mário Pedrosa que definia o regime soviético como um capitalismo de Estado, e era-lhe impossível continuar a defender a URSS como um “estado operário degenerado” tal como faziam os trotskistas desde sempre[11]. Luiz Alberto Moniz Bandeira, à época um militante socialista recém-saído da adolescência, define a situação:

…a IV Internacional, fundada em 1938, praticamente desapareceu quando, por volta de 1952, Sacchetta rompeu com Pablo, sendo um dos motivos da divergência a política do ‘entrismo’, e evoluiu para a tese de que a URSS era um capitalismo de estado. Aliás, ele passou a ver no bolchevismo e a responsabilizá-lo as origens do stalinismo. Por volta de 1953/1954, havendo a IV Internacional praticamente desaparecido no Brasil, o BLA (Bureau Latino-Americano) mandou gente tratar de reorganizá-la, o que foi feito com José Maria Crispim, que promovera uma dissidência no PCB, do qual fora expulso, creio que em 1951/52. Ai foi organizado o POR e em começo de 1955 estava no Brasil Manuel (esse era seu codinome e creio que ele era argentino), como representante do BLA. No início de 1956, foram presos no Rio, Leôncio Martins Rodrigues, Marimbondo (esqueço o primeiro nome), José Barroso e León (um operário, remanescente do PSR, de Sacchetta). O fato foi noticiado por O Globo.[12]

Guillermo Almeyra, hoje professor da Universidade Autônoma do México (UNAM)
Guillermo Almeyra, hoje professor da Universidade Autônoma do México (UNAM)

“Manuel”, na verdade Guillermo Marcelo Almeyra, era o representante do Birô Latino-Americano (BLA) da IV Internacional enviado para o Brasil.  O III Congresso da IV Internacional havia definido tarefas para sua seção brasileira, a ser “apoiada pela Internacional”[13]; esta resolução indicava, na prática, a reconstrução da seção brasileira desde fora do país assumida por Almeyra enquanto representante do BLA, pois a esta altura o PSR havia praticamente desaparecido. Em novembro de 1952 o processo de reconstrução foi iniciado com o lançamento do jornal Frente Operária[14]; ele nucleou no seu entorno a terceira geração de trotskistas brasileiros, que poucos meses depois fundaria o Partido Operário Revolucionário (POR). O partido reuniu poucos egressos do PSR e alguns dissidentes do PSB, chegando a ter neste momento inicial entre 20 e 50 militantes[15].

Paralelamente, uma outra organização se formava, pois as críticas ao regime soviético que levaram Sacchetta e outros a sair do PSR e a renegar o trotskismo estavam longe de fazê-los abandonar por completo a militância socialista. Guillermo Almeyra chegou a procurá-los para que se integrassem ao POR, mas Luiz Alberto Moniz Bandeira, próximo ao grupo, não tem boas lembranças do encontro:

Manuel procurou Edmundo Moniz, em cujo apartamento eu morava, eu vim com ele a São Paulo, onde então me reuni com Crispim, os irmãos Fausto (Boris, Rui e um outro). Mas nem eu nem Sacchetta nem Alberto Luiz [da Rocha Barros] aceitávamos a conceituação da URSS como estado operário degenerado, nem as posições que considerávamos muito sectárias dessa pessoa.[16]

Che Guevara se reúne com Jânio Quadros; Moniz Bandeira acompanha a reunião, ao fundo
Che Guevara se reúne com Jânio Quadros; Moniz Bandeira acompanha a reunião de pé, ao fundo

Cerca de quatro anos após sua saída do PSR, este grupo fundou outra organização: a Liga Socialista Independente (LSI), que reivindicava a herança política de Rosa Luxemburgo para fundamentar a crítica ao regime soviético. É novamente Luiz Alberto Moniz Bandeira quem resgata os fatos de então:

…nós três [Sacchetta, Moniz Bandeira e Rocha Barros] procuramos alguns trotskistas para formar a LSI porque ainda havia aqueles velhos trotskistas que tinham rompido com a IV [Internacional] e que eram revolucionários (…) Maurício Tragtenberg e Paul Singer também estiveram na Liga, mas logo se afastaram, pois adotaram uma posição mais moderada. (…) Michael Löwy, Gabriel Cohn, os irmãos Eder e Emir Sader também fizeram parte do grupo. (…) essa Liga Socialista que nós fundamos era mais luxemburguista, considerava a União Soviética um capitalismo de Estado, que era a tese que eu defendia, não Estado Operário, nunca acreditei nisso e sim uma tese de que na Rússia era capitalismo de Estado, claro que era ideia de uma facção trotskista que rompeu com a IV, já no tempo de Trotski. Mario Pedrosa começou a defender esta tese e foi expulso da IV Internacional. [17]

Michael Löwy também rememora o período – embora com sarcasmo:

…por volta de 1956, Maurício [Tragtenberg] e eu participamos – junto com Paul Singer e Hermínio Sacchetta – da fundação de uma pequena organização que se reclamava das ideias do socialismo revolucionário e democrático de Rosa Luxemburg: a Liga Socialista Independente. Éramos, como se diz em bom português clássico, “meia dúzia de gatos pingados”, mas bem decididos a acabar com a exploração capitalista no Brasil… Maurício investiu sua excepcional cultura socialista e suas convicções éticas e políticas no trabalho coletivo de redação do Programa da Liga e de seus primeiros documentos. Mas depois de algum tempo, cansado dos intermináveis debates sobre a natureza da URSS – coletivismo burocrático ou capitalismo de Estado? –, acabou se afastando, embora continuasse a simpatizar com a pequena – minúscula seria mais preciso – organização e a ajudá-la.[18]

 

Michael Löwy (primeiro à esquerda), jovem militante estudantil
Michael Löwy (primeiro à esquerda), jovem militante estudantil

Conheci Hermínio Sacchetta por volta de 1956, quando se gestionava a fundação da Liga Socialista Independente, em reuniões de que participavam vários intelectuais e militantes em busca de uma nova organização, ao mesmo tempo revolucionária, marxista e anti-stalinista: Alberto Rocha Barros, Maurício Tragtenberg, os irmãos Sader etc. (…) A LSI nunca passou de um grupo de 20 pessoas (no máximo), que publicava um pequeno jornal, Ação Socialista. A maioria dos membros eram jovens estudantes. O único operário era um sapateiro de origem anarquista. O que nos reunia era, antes de tudo, o culto a Rosa Luxemburgo (…). O retrato de Rosa Luxemburgo era a única decoração no austero quartinho da Brigadeiro Luiz Antônio que servia de sede à “Liga”. Combinando sua formação no PCB no começo dos anos 30, sua passagem pelo trotskismo e sua adesão ao luxemburguismo nos anos 50, Sacchetta formulava uma orientação política que ia categoricamente à contrapelo dos lugares comuns da esquerda brasileira desta época. Recusando o populismo, o nacionalismo, a ideologia do desenvolvimento e a política das reformas, ele insistia obstinadamente na necessidade de uma orientação classista, internacionalista, socialista-revolucionária. O inimigo era o capitalismo nas suas duas versões: a sociedade burguesa Ocidental e o capitalismo de Estado soviético. Seus editoriais no Ação Socialista, redigidos num estilo inconfundível – com muitos adjetivos raros e substantivos pouco usados – denunciavam as várias facetas da política das classes dominantes, e em particular as ilusões do “desenvolvimentismo” juscelinista (e seus porta-vozes no movimento operário). Obviamente, no clima da época, era uma vox clamans in descertum (sic): o jornal tinha pouca audiência e pouquíssima influência… (…) Em 1960, nossos caminhos se separaram: com um grupo de amigos (Eder e Emir Sader), deixamos a LSI para participar da unificação de várias correntes marxistas em uma nova organização, mais ampla e mais ambiciosa: a POLOP…[19]

Claude Lefort, um dos fundadores do grupo Socialisme ou Barbarie, ensinou na USP na década de 1950
Claude Lefort, um dos fundadores do grupo Socialisme ou Barbarie, ensinou na USP na década de 1950

A proliferação de organizações na extrema-esquerda brasileira da década de 1950 não se dá de maneira isolada, mas, como visto, no quadro de um amplo movimento de crítica e autocrítica dentro do movimento socialista internacional. Não faltavam às pequenas organizações da extrema-esquerda brasileira conexões internacionais. Tratava-se de um internacionalismo prático, marcado pelo constante intercâmbio de militantes – como atestam a ininterrupta atuação de anarquistas ibéricos no Centro de Cultura Social (CCS)[20] – pela primazia da escala internacional de organização sobre a nacional – demonstra-o a chegada de Guillermo Almeyra ao Brasil e as tarefas que desempenhou – e pelo intercâmbio internacional entre organizações – como foi a visita de Claude Lefort, professor francês de filosofia integrante do grupo Socialisme ou Barbarie que então ensinava na USP, à sede do POR[21]. Mas qual a política destas organizações quanto ao nacional-desenvolvimentismo?

Hermínio Sacchetta (em foto de 1949) rompeu com o trotskismo mas manteve a militância

Pouco se pode falar da política da LSI e da organização que a sucedeu, o Movimento Comunista Internacionalista (MCI). Os únicos documentos da LSI e do MCI encontráveis fora de arquivos (públicos ou privados) estão reunidos na coletânea O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos, mas são tão poucos que dificilmente se poderia traçar um perfil político da organização com base neles. Arriscando cometer grave injustiça histórica, ao que tudo indica e a julgar por alguns depoimentos, tanto uma quanto o outro foram verdadeiros grupúsculos, dificilmente maiores que quinze militantes centrados na mesma cidade[22], ousados o suficiente para arriscar uma candidatura a vereador em 1959 na tentativa de captar votos de dissidentes do PCB[23]. A LSI era dura em suas críticas ao desenvolvimentismo juscelinista em 1958:

A menos que a classe operária, através de suas organizações sindicais e políticas, some suas forças de modo a torná-las a espinha dorsal de potente movimento popular em defesa das liberdades democráticas e por SEU ROBUSTECIMENTO, não tardará e teremos restauração da ditadura bonapartista, desta feita, provavelmente, sob o império da espada. O intermezzo legal de Juscelino se encaminha para o fim. Só o pânico diante das explosões de revolta do povo que, de norte a sul, vem manifestando sua repulsa à classe dominante em geral, contém os ditatorialistas militares e civis. Não é outro, também, o motivo dos repetidos apelos de conciliação entre os partidos ‘centristas’, feitos principalmente por Felinto Müller, do governo, e Vilasboas, da oposição. (…) Sem dúvida, mais dólares virão [dos EUA após a promessa de desvalorização do cruzeiro em 1959, tida como barganha de um “período de austeridade” oferecido em troca de dólares para a consecução do Plano de Metas de JK], a pretexto de salvar-se o Brasil das garras de Moscou, pois essa é, agora, a chantagem usada pelas podres e impotentes burguesias dos países subdesenvolvidos como o nosso, para se encherem e, mais ainda, aos seus SÓCIOS ricos de Washington, que levam a seiva do trabalho nacional em polpudos juros, royalties e amortizações. (…) É nesses moldes que a ‘burguesia progressista’ promove o desenvolvimento da economia brasileira, sob calorosos aplausos dos ‘nacionalistas’, de todos os matizes, que defendem a industrialização… para o imperialismo e seus aliados nacionais. A classe operária, ou melhor, os trabalhadores em conjunto, principiam a compreender a natureza desse ‘nacionalismo’ esfomeador, cujos líderes, COM RARÍSSIMAS EXCEÇÕES, a serviço de interesses ocultos, os mandam apertar o cinto e colaborar com a burguesia nacional ‘progressista’. A cantilena colaboracionista está, porém, se desmoralizando rapidamente, como se vê pelos quebra-quebras e manifestações de protesto em todo o país. Esta a razão por que, face à bancarrota do governo Juscelino, os partidos ‘centristas’ buscam unir-se CONTRA o povo, para melhor contê-lo, de sua parte os nacionais-reformistas-stalinistas, paisanos ou militares, estimulam um golpe bonapartista do general Lott, que este hesita em desferir, temeroso das represálias econômico-financeiras do imperialismo norte-americano, que alimenta a falida burguesia nacional COBRANDO-SE REGIAMENTE, bem como da reação de setores das forças armadas e grupos burgueses, dispostos a encontrar no ‘quadros legais’ solução para a crise. (…) Longe estão os socialistas marxistas de ‘amar’ a legalidade burguesa. Mas de modo nenhum desejam vê-la substituída por um DITADURA BURGUESA, civil ou militar, que apenas poderá trazer para o proletariado e as massas populares maior miséria e mais dura opressão. Ao contrário, o que reclamam os socialistas marxistas, que não creem absolutamente na burguesia e, menos ainda, em um ditador ‘iluminado’ é, antes, a ampliação em seus limites máximos, das atuais instituições democráticas. (…) À FRENTE ÚNICA BURGUESA PROPOSTA EM NOME DOS EXPLORADORES por Felinto Müller e Vilasboas, oponhamos a FRENTE-ÚNICA DAS ORGANIZAÇÕES OPERÁRIAS POLÍTICAS E SINDICAIS contra a exploração capitalista e qualquer espécie de golpe, seja lottista ou dos cartolas burgueses[24].

Gabriel Cohn, ex-militante da LSI

A análise da conjuntura política feita pela LSI era também bastante clara e dura:

O quadro sucessório para a presidência da República em 1960 começa a adquirir contornos menos obscuros, após a definição do ministro da Guerra como provável candidato. Pode-se, assim, embora em perspectiva passível de alteração, opor-se, desde agora, o marechal Lott a Jânio Quadros: o chefe do Exército, aglutinando as correntes basicamente industrialistas, nelas compreendidas larga parcela do PSD, o PTB e o PCB, e o ex-governador de São Paulo, somando, fundamentalmente, o agrarianismo latifundiário, a classe média ‘liberal’ e as camadas plebeias menos ativas na vida política do país. A UDN constituirá, por sua maioria, a espinha dorsal do arcabouço eleitoral de Jânio. Certo, essa distribuição de forças entre os dois candidatos não deve ser levada a rigor, mas em termos de aproximação, dada a fluidez dos partidos, que exprimem, em vez de unidades ideológicas nacionais, um conglomerado de interesses regionais, dado o desenvolvimento desigual das várias regiões brasileiras. Se o PSD, em conjunto, pode ser considerado expressão do industrialismo, incorpora, contudo, ‘coronéis’ latifundiários das áreas econômicas mais atrasadas. De sua parte, a UDN, além dos potentados do latifúndio cafeeiro e cacaueiro, abarca restritos setores da indústria. Não se apresenta menos ‘impuro’ o PTB. Haja vista seu ‘líder’ Jango, um dos maiores proprietários de terras do Brasil. Essas considerações são, de igual modo, válidas para os pequenos partidos, exceção feita do PCB. De toda maneira, a polarização ‘ideológica’ dos candidatos apontados verificar-se-á em torno do pretenso nacional-reformismo de Lott e do agrarianismo conservador antiestatista de Jânio Quadros. Mas não tenhamos dúvidas: qualquer dos dois que venha a ser eleito – é verdade que o demagogo casposo em maior medida – subordinará sua administração aos interesses da burguesia brasileira e de seus sócios imperialistas. (…) Existe, ainda, um traço comum aos dois candidatos – no Antonio Conselheiro caspento, como sempre, em maior dose: a ausência de compromisso com os partidos e, por consequência, a falta de plataforma definida (…) eleito presidente, qualquer dos dois tenderá a evoluir para o bonapartismo, isto é, para o poder unipessoal, supostamente acima das classes. E as presentes e catastróficas condições econômico-financeiras do Brasil, que prometem agravar-se, ao extremo, no decurso deste ano, conforme os próprios economistas burgueses, propiciarão, com as greves e lutas de massas em ritmo ascendente, o clima para tentativas de ditadura, facilitada pela origem híbrida e formação mental de ambos os candidatos. Se é que um dos candidatos chegue mesmo a tornar-se presidente, hipótese insegura, face ao descalabro da situação econômico-financeira e por força dos dois blocos eleitorais em presença, ambos de cunho inelutavelmente demagógico. (…) Sem dúvida, Prestes e o Estado-Maior do PCB, cumprindo seu destino de mulher de soldado que gosta de apanhar, apesar de repelidos, desde já, por Lott, anticomunista declarado, que nada quer com eles, vão tentar, a todo custo, arrastar os trabalhadores para o rebanho eleitoral do ministro da Guerra, enfeitando este com inexistentes virtudes democráticas e aintiimperialistas. (…) Não obstante a distância que ainda nos separa das eleições de 1960, desde logo os trabalhadores conscientes devem opor um NÃO aos chamados dos prestistas-lottistas e ‘pelegos’ janistas, assim como dos ‘líderes’ pecebistas. Aos cantos das sereias oportunistas do PCB de Prestes, que proclama nada mais pretender senão ‘nacionalismo’ para o Brasil de hoje e aos dos demagogos de Jango Goulart ou do farsante Jânio, os trabalhadores precisam responder com uma frente-única de classe contra a miséria crescente, pela escala-móvel de salários, por uma Central Sindical Operária, desligada do Ministério do Trabalho, por ações de massas contra os exploradores burgueses nacionais e seus sócios imperialistas. Para o proletariado e seus aliados de todas as camadas pobres da população, o pleito presidencial de 1960, nos termos em que está sendo posto no momento, não deve significa outra coisa senão o robustecimento de uma política independente contra o capitalismo e pelo socialismo, através dos sindicatos e das organizações marxistas revolucionárias.

J. Posadas (pseudônimo do argentino Homero Cristali), dirigente máximo do Bureau Latino-Americano da IV Internacional, depois fundador da IV Internacional Posadista
J. Posadas (pseudônimo do argentino Homero Cristali), dirigente máximo do Bureau Latino-Americano da IV Internacional, depois fundador da IV Internacional Posadista

Já os trotskistas do POR viam as coisas de modo diferente. A orientação do Bureau Latino-Americano determinava buscar resolutamente formar e cooptar quadros operários, secundarizando a cooptação de jovens universitários, artistas e profissionais liberais que havia sido a tônica do grupo trotskista anterior[25]; isto resulta, de um lado, na proletarização de certos militantes – como Leôncio Martins Rodrigues, que abandona os estudos para se tornar escriturário – e de outro em certo pragmatismo analítico. Jamais passou pela cabeça do núcleo dirigente do POR e dos articulistas de seu jornal Frente Operária, por exemplo, pautar programaticamente o voto nulo, como anteriormente fizera o PSR e, nos anos 1950, fazia a LSI; cada aliança, cada análise eleitoral, cada compreensão da conjuntura tinha como pressuposto uma leitura da realidade que tomava o nacional-desenvolvimentismo como impulsionado não apenas pelos interesses da burguesia nacional e de seus sócios imperialistas, mas também pelas lutas de trabalhadores, que arrancavam cada vez mais conquistas à burguesia enquanto a industrialização brasileira se aprofundava.

Um exemplo: se em 1954 o POR, ainda em estruturação, considerava burguesia industrial e latifundiários como um só bloco de governo que divergia quanto à divisão dos cargos e à política a levar frente às massas e ao imperialismo, em 1956 a análise se refinara: a nova hegemonia cabia ao PTB e à “ala moça” do PSD, pois o processo de desenvolvimento econômico havia criado novas forças sociais – o proletariado industrial e agrícola – que entravam na arena política em via ascendente, provocando uma crise política ao obrigar os setores hegemônicos a ter em conta, em seus planos, as ações e reações da classe trabalhadora[26]. Em 1959, um editorial de Frente Operária somava a isto o fato de o esgotamento do mercado interno estar levando a burguesia e o imperialismo a saírem de uma crise econômica através do estímulo à indústria pesada e às exportações – saídas menos dependentes do consumo das massas, cuja cooptação ao desenvolvimentismo a burguesia constatara ser difícil ou impossível – aprofundando a associação com o imperialismo[27]. Tal análise ia na contramão daquelas apresentadas pelo PCB: ao invés de uma burguesia progressista desejosa de romper os laços com o imperialismo, uma burguesia incapaz de cooptar as massas a seu programa político-econômico lançava-se à associação com o imperialismo em busca da própria sobrevivência; ao invés de um imperialismo contrário ao desenvolvimento econômico dos países da América Latina, um imperialismo que obrigava as economias latino-americanas a adaptar-se a seu crescimento inevitável[28]. Que tática concreta derivava de tais análises? O apoio a medidas concretas ditas “progressistas” por parte dos governos; o impulso a toda forma de intervenção independente do proletariado; a formação de uma central operária; por fim, a formação de uma frente única anti-imperialista pautada em pontos concretos de luta[29].

Jânio Quadros com Samuel Wainer na gráfica do jornal Última Hora (1959)
Jânio Quadros com Samuel Wainer na gráfica do jornal Última Hora (1959)

O primeiro e o segundo pontos refletiram-se diretamente na política de alianças do POR – no mínimo curiosa para quem se propunha defender a independência política da classe trabalhadora. Tentando manter a coerência entre este princípio e sua análise do papel das massas no impulso ao desenvolvimento econômico, os trotskistas do POR analisavam as votações dadas a políticos promotores do nacional-desenvolvimentismo de um modo que, à primeira vista, poderá parecer confuso. Em 1952, por exemplo, Jânio Quadros, do Partido Democrata Cristão (PDC) e já apoiado pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) na sua candidatura a prefeito de São Paulo, foi almoçar numa “república trotskista” da rua Ana Cintra (São Paulo), onde moravam Jorge Milano, Sebastião Simões de Lima e Guillermo Almeyra; lá, também na presença de outros militantes do POR como Leôncio Martins Rodrigues, Boris e Ruy Fausto, fechou um programa básico a cujo endosso o POR condicionava seu apoio. Os trotskistas, em troca disto e também de espaço no jornal A Hora, de verbas para aumentar a tiragem de Frente Operária e de um carro de som emprestado, fizeram campanha para Jânio em bairros populares e em portas de fábricas, naquilo que foi confessadamente seu primeiro contato com as massas. Jânio, como era de se esperar, logo após eleito abandonou o programa acordado, alegando jamais tê-lo assinado[30]. Fazendo uma análise retroativa da eleição de Getúlio Vargas em 1950, o POR afirmou que os votos que recebera eram “manifestações muito primitivas de anti-imperialismo”, pois “os operários não viam em Vargas o candidato da burguesia industrial” e teriam votado nele para derrotar a UDN, num “passo à frente no desenvolvimento da consciência de classe do proletariado”[31]. A situação aberta pela vitória de Vargas – que, para o POR, era um representante dos pecuaristas do Sul e de setores da indústria nacional[32] – apontava sua fragilidade diante dos latifundiários e do imperialismo, tendo-lhe sido necessário apoiar-se nas massas através de uma política de cedências controladas; os zigue-zagues do segundo governo Vargas poderiam levar tanto à “desgetulização das massas” – de que a vitória de Jânio Quadros para a prefeitura de São Paulo em 1953 seria sintoma – quanto a um golpe pró-imperialista[33]. Em 1960, finalizada a eleição presidencial, o POR interpretou a massiva votação no mesmo Jânio Quadros que o traíra em 1952 como “intervenção ativa e agressiva das grandes massas, da classe operária em primeiro lugar (…) um voto combativo, agressivo, uma arma contra o governo Kubitschek e um meio de unir-se e intervir na situação do país (…) [pois] o voto em Jânio Quadros [em 1960] não representa a intervenção das massas mas, a forma como se votou em Jânio Quadros ensina que as massas queriam intervir independentemente (…) [uma vez que Jânio conseguira] capitalizar esta tendência de voto independente das massas, mostrando-se ostensivamente independente diante dos partidos”[34].

Emir Sader, ex-militante da LSI
Emir Sader, ex-militante da LSI

Os três últimos pontos combinados levaram o POR ao movimento sindical; sua intervenção, dada a conjuntura de absoluto predomínio dos trabalhistas nos sindicatos e de aliança entre estes e os comunistas, teve variados graus de sucesso. Além da frente sindical, a partir de 1959, como autocrítica prática ao entrismo que sofria severas críticas internas[35], o POR tentou algumas vezes articular outras organizações de esquerda em torno de uma pauta comum. Nas eleições de 1960, por exemplo, o POR rejeitou puxar votos em favor de qualquer das candidaturas apresentadas (Jânio Quadros, Lott e Juraci Magalhães) e propôs construir uma candidatura nascida “no pátio das fábricas e nas assembleias dos sindicatos (…), dos comitês de greve, dos camponeses em luta contra os grileiros, das massas organizadas em comissões contra a carestia, das bases militantes do PC”. Os grupos articulados foram a LSI e a Juventude Socialista[35], que tiveram como primeira ação conjunta um ato independente no 1º de Maio de 1959, do qual também participaram anarquistas e representantes do Partido Socialista Operário Espanhol no exílio. A articulação não foi adiante, e em janeiro de 1960 o POR retomaria o entrismo como tática. Entretanto, ainda em 1960, nova tentativa seria feita: militantes do PCB e da Juventude Comunista, do PSB, da Juventude Socialista, da Juventude Trabalhista, da LSI e do POR fundaram a Frente da Juventude de Esquerda, pouco renomeada em setembro de 1961 como Frente de Ação de Esquerda, que o POR pretendia transformar em partido. Em 1962 a Frente já se encontrava dissolvida por divergências internas.

José Maria Crispim foi cooptado diretamente para o Bureau Latino-Americano da IV Internacional após sua expulsão do PCB; abandonou o trotskismo pouco tempo depois
José Maria Crispim foi cooptado diretamente para o Bureau Latino-Americano da IV Internacional após sua expulsão do PCB; abandonou o trotskismo pouco tempo depois

Como se vê, a extrema-esquerda brasileira entre 1939 e 1962 era extremamente diversa, e nem sempre houve convergência entre as propostas políticas das organizações que a compunham[36]. Na verdade, suas análises e prática política demonstraram, como caso dos anarquistas, da LSI e do MCI, sua impotência política para além do campo da própria extrema-esquerda; ou, como no caso do POR, a vacilação entre seguir as massas a qualquer custo no impulso ao desenvolvimento econômico – no que perderia sua especificidade e terminaria fundindo-se com a esquerda hegemônica – e propor uma política que as tornassem independentes diante dos interesses das classes dominantes da época. As tentativas de agrupamento ocorridas a partir de 1959 apontavam para um diálogo político, para uma tentativa de resolver as divergências em favor da construção de alternativas políticas e organizacionais ao nacional-desenvolvimentismo, ao PTB e ao PCB diante de uma conjuntura política de conflitos sociais mais e mais acirrados. Entretanto, não foi o programa da extrema-esquerda quem se demonstrou adequado ao momento, e sim o contrário; a radicalização dos conflitos sociais oportunizou a grupos em luta verem nestes programas uma justificação para sua ação, e nas organizações da extrema-esquerda um espaço onde reverberar seu radicalismo. Fosse o contrário, o programa destas organizações materializar-se-ia em táticas capazes de fazer destas organizações instrumentos decisivos na conjuntura – o que, sabemos, não aconteceu.

Isto, evidentemente, ao analisar organizações que vinham de tradições políticas então já antigas. Pode-se argumentar, com certa dose de razão, que o anarquismo, o trotskismo e o luxemburguismo forneceram certas “receitas” de ação cuja inadequação ao momento histórico em que se viram transplantadas, em parte, podem ter sido a causa da impotência e das ambiguidades características das organizações analisadas. O que poderia ter acontecido caso as tentativas de agrupamento houvessem funcionado? Que tipo de programa e de organização poderiam resultar de uma leitura menos dogmática da tradição militante herdada? Talvez a história da Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-POLOP) possa dizer algo sobre o assunto.

Notas

[1]: A atividade anarquista deste período foi fartamente documentada – dentro dos limites de um arquivo pessoal – Por Edgar Rodrigues em A nova aurora libertária (1945-1948) (Rio de Janeiro: Achiamé, 1992) e Entre ditaduras (1948-1962) (Rio de Janeiro: Achiamé, 1993).

[2]: SAMIS, Alexandre. “Pavilhão negro sobre pátria oliva: sindicalismo e anarquismo no Brasil”. Em COLOMBO, Eduardo e outros. História do movimento operário revolucionário. São Paulo: Imaginário/Expressão e Arte; São Caetano do Sul: IMES/Observatório de Políticas Sociais, 2004, p. 181.

[3]: Na esteira da repressão pós-1935, a direção do PCB optou em 1935 por deslocar-se para o Nordeste do país; abriu-se então a oportunidade para o fortalecimento do Comitê Regional de São Paulo (CR-SP), uma organização local liderada por Hermínio Sacchetta e Heitor Ferreira Lima que se mantivera na oposição ao Comitê Central (CC) do PCB quanto à insurreição de 1935 e mantivera-se relativamente intacta em comparação à estrutura partidária de outros lugares mais visados pela polícia política varguista. Após dura polêmica com CC quanto ao papel da burguesia na revolução brasileira – o CC defendia já nesta época o papel progressista da burguesia brasileira e propunha ao partido aliar-se à “ala democrática” do regime varguista – o CR-SP conseguiu maioria entre os Comitês Regionais do PCB (Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Triângulo Mineiro). Acuado, o CC apelou à autoridade da Internacional Comunista; com tal beneplácito, iniciou uma campanha de perseguições e difamações contra os integrantes do CR-SP, em especial porque alguns dentre eles (Sacchetta, José Stacchini e Alberto Luiz da Rocha Barros) aproximavam-se cada vez mais de certas teses da Oposição Internacional de Esquerda dirigida por Leon Trotski, embora ainda em 1938 defendessem Stalin, a Internacional Comunista e inclusive os processos de Moscou. Como resultado da polêmica, cerca de trinta militantes do CR-SP, incluindo Sacchetta, foram expulsos do PCB em março de 1939. Esta cisão foi acompanhada de perto por Febus Gikovate, que levou os dissidentes comunistas, agrupados na efêmera Dissidência Pró-Reagrupamento da Vanguarda Revolucionária, a aproximar-se do Partido Operário Leninista (POL), organização trotskista que integrava, e esta aproximação entre o POL e os dissidentes resultou, em 1939, na fundação do Partido Socialista Revolucionário (PSR). Para maiores detalhes, ver: KAREPOVS, Dainis e MARQUES NETO, José Castilho. “Os trotskistas brasileiros e suas organizações políticas”. Em: RIDENTI, Marcelo e REIS FILHO, Daniel Aarão (orgs.). História do marxismo no Brasil, vol. 5: partidos e organizações dos anos 1920 aos 1960. Campinas: EdUNICAMP, 2007, pp. 139-141; LEAL, Murilo. À esquerda da esquerda: trotskistas, comunistas e populistas no Brasil contemporâneo (1952-1966). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003, pp. 24-25; e DEL ROIO, Marcos. “Os comunistas, a luta social e o marxismo”. Em: RIDENTI, Marcelo e REIS FILHO, Daniel Aarão (orgs.). História do marxismo no Brasil, vol. 5: partidos e organizações dos anos 1920 aos 1960. Campinas: EdUNICAMP, 2007, p. 65-68. É possível ainda conhecer os fatos a partir da pena de Hermínio Sacchetta na “Carta aberta a todos os membros do Partido” (O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos. Campinas: Pontes/EdUNICAMP, 1992, pp. 59-67).

[4]: Quanto às divergências frente à IV Internacional, ver a segunda parte da série Mário Pedrosa político; quanto às divergências de caracterização do regime varguista, ver o depoimento de Luiz Alberto Moniz Bandeira em COGGIOLA Oswaldo. “O Trotskismo no Brasil (1928-64)”. Em: MAZZEO, Antônio Carlos e LAGOA, Maria Izabel (orgs.). Corações Vermelhos: os comunistas brasileiros no século XX. São Paulo: Cortez, 2003. Cabe lembrar que tais caracterizações, apesar de aparentemente inócuas aos olhos de quem hoje as vê com os olhos do “tanto faz”, serviam para tirar conclusões importantes para a ação política, como os inimigos a combater, as alianças a se estabelecer, as forças políticas e sua correlação, os campos de ação e seus limites etc.

[5]: FERNANDES, Florestan. “Depoimento sobre Hermínio Sacchetta”. Em: SACCHETTA, Hermínio. O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos. Campinas: Pontes/EdUNICAMP, 1992, p. 75.

[6]: VENCESLAU, Paulo de Tarso. “Memória: Florestan Fernandes”. Em Teoria e Debate, nº 13, jan./fev./mar. 1991.

[7]: TRAGTENBERG, Maurício. “Hermínio Sacchetta, uma perda de todos”. Em: A falência da política. São Paulo: EdUNESP, 2009, pp. 234-235.

[8]: TRAGTENBERG, Maurício. Memórias de um autodidata no Brasil. Org. por Sonia Alem Marrach. São Paulo: EdUNESP/Escuta/FAPESP, 1999. Mesmo levando em conta os limites da oralidade, pois o livro é baseado numa longa entrevista concedida em 1983, esta que é a única biografia disponível de Maurício Tragtenberg recebeu péssimo tratamento historiográfico. Não há notas indicando datas de fatos notórios, os nomes próprios não são citados corretamente (Oreste Ristori vai como “Oreste Ettore”, Claude Lefort vira “Leffort” etc.) e nenhuma das pessoas citadas é brindada com uma nota explicativa que permita ao leitor contextualizar o campo de relações do biografado.

[9]: CARVALHO, Fernando de. “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Em:  ACCIOLY E SILVA, Doris e MARRACH, Sonia Alem (orgs.). Maurício Tragtenberg: uma vida para as Ciências Humanas. São Paulo: EdUNESP, 2001, p. 41.

[10]: LEAL, Murilo. À esquerda da esquerda: trotskistas, comunistas e populistas no Brasil contemporâneo (1952-1966). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003, p. 28.

[11]: Murilo Leal, com base em diversos depoimentos de ex-militantes do PSR, diz que Sacchetta também poderia ter se afastado do PSR – e do trotskismo – por causa da política de “entrismo sui generis” adotada pela IV Internacional a partir de 1953 sob a influência de seu secretário-geral, Michel Raptis (“Pablo”), que dizia ser impossível permanecer neutro à bipolarização do mundo na Guerra Fria e que era preciso fazer “apoio crítico” à URSS entrando nos partidos comunistas para, dentro deles, formar “oposições de esquerda” e disputar seus programas por dentro. Como o próprio Murilo Leal aponta, isto pode ter servido como a última pá de cal na relação entre Sacchetta e os trotskistas, mas a ruptura já estava dada desde pelo menos dois anos antes. Cf. LEAL, Murilo, ob. cit., pp. 27-34. O entrismo foi praticado com variados graus de sucesso junto ao PSB, ao PCB, ao PCdoB e à ala brizolista do PTB. Embora houvesse momentos em que o próprio PSB ofereceu sua legenda a candidatos do POR, este último praticou entrismo no primeiro para cooptar militantes, quase sem sucesso. (Maurício Tragtenberg, por exemplo, por suas antigas ligações com o PSR e com Sacchetta, era constantemente acusado de fazer “entrismo” quando frequentava os cursos do PSB, mesmo já militando na LSI.) Muito embora seja justa a tese de que havia na prática dois PCBs – um, ligado às bases, pautado por um ativismo intenso, e outro, ligado à cúpula partidária, cada vez mais descolado da vida política cotidiana devido às agruras da clandestinidade (COSTA, Hélio da. Em busca da memória: comissão de fábrica, partido e sindicato no pós-guerra. São Paulo: Scritta, 1995) – o que talvez facilitasse o entrismo, o monolitismo burocrático do partido na década de 1950 chegara ao ponto – segundo Leôncio Martins Rodrigues – de o IV Congresso haver sido convocado para que delegados escolhidos a dedo, sem eleição junto à base, aprovassem sem emendas um programa pré-aprovado em Moscou; dificilmente haveria espaço dentro do partido para a formação de algum tipo de “ala esquerda” ou “revolucionária”, embora fosse possível cooptar individualmente militantes – como Tullo Vigevani, José Maria Crispim (acompanhado por núcleos comunistas de Sorocaba e Rio de Janeiro) e outros. No PCdoB, partido infinitamente menor que o PCB, os dois militantes do POR lá infiltrados foram descobertos e expulsos pela direção numa reunião onde os acusados tiveram apenas cinco minutos para sua defesa e chegaram inclusive a ser ameaçados de morte. O entrismo foi praticado também junto às Ligas Camponesas, onde militantes trotskistas conseguiram certo destaque e cooptaram sem grandes dificuldades parte do Movimento Revolucionário Tiradentes. Cf. LEAL, Murilo, ob. cit., pp. 73-101.

[12]: Depoimento de Luiz Alberto Moniz Bandeira, em COGGIOLA Oswaldo. “O Trotskismo no Brasil (1928-64)”. Em: MAZZEO, Antônio Carlos. e LAGOA, Maria Izabel (orgs). Corações Vermelhos. Os comunistas brasileiros no século XX, p. 266.

[13]: Eis a resolução completa sobre o Brasil: “No Brasil, nossa seção reorganizada (que deve ser apoiada pela Internacional) deve concentrar sua atenção especialmente no trabalho sindical aproveitando-se do impulso atualmente dado às organizações sindicais de trabalhadores pelo movimento ‘trabalhista’ de Vargas. O proletariado agrícola, numeroso, desorganizado e duplamente explorado nos latifúndios, deverá ocupar especialmente sua atenção”. (“Latin America: resolution and task. Resolution adopted by the Third Congress of the Fourth International – Paris, April 1951”. Fourth International, vol. 12, nº 6, pp. 207-212.)

[14]: O jornal foi publicado regularmente até 1971, quando a repressão da ditadura e uma sucessão de cisões estraçalhou o POR. A IV Internacional Posadista exprime suas posições no Brasil hoje através do jornal Revolução Socialista, na prática restrito a alguns comentários conjunturais e à republicação de artigos de J. Posadas.

[15]: LEAL, Murilo. À esquerda da esquerda: trotskistas, comunistas e populistas no Brasil contemporâneo (1952-1966). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003, p. 39.

[16]: Depoimento de Luiz Alberto Moniz Bandeira, em COGGIOLA Oswaldo, ob. cit., p. 266.

[17]: Depoimento de Luiz Alberto Moniz Bandeira, em OLIVEIRA, Joelma Alves de. POLOP: as origens, a coesão e a cisão de uma organização marxista (1961-1967). Dissertação de mestrado em História. Araraquara: UNESP, 2007, p. 42.

[18]: LÖWY, Michael. “Maurício Tragtenberg, espírito libertário”. Em: ACCIOLY E SILVA, Doris e MARRACH, Sonia Alem (orgs.). Maurício Tragtenberg: uma vida para as Ciências Humanas. São Paulo: EdUNESP, 2001, p. 32.

[19]: LÖWY, Michael. “Testemunho”. Em: SACCHETTA, Hermínio. O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos. Campinas: Pontes/EdUNICAMP, 1992, pp. 81-82.

[20]: Cf. TRAGTENBERG, Maurício. Memórias de um autodidata no Brasil. Org. por Sonia Alem Marrach. São Paulo: EdUNESP/Escuta/FAPESP, 1999.

[21]: Segundo Ruy Fausto: “…fizemos uma reunião lá no [Edifício] Martinelli [prédio na Rua São Bento, 405, em cuja sala 1032-b funcionava a sede pública dos Círculos Karl Marx – grupo de estudos público do POR – e onde o partido guardava jornais e fazia reuniões públicas] e convidamos o Lefort para falar e fomos lá. O Manuel fez um pequeno discurso de apresentação, que também foi uma piada, mas vai te dar uma ideia de como era a coisa. A gente foi naquele prédio e o Lefort muito nervoso, estava com muito medo. Ele entrou, aí o Manuel disse uma frase que ficou famosa: ‘Camaradas, o camarada é um ex-camarada’, aí a gente caiu na gargalhada. O que mostra que as relações não eram tão ruins, todo mundo deu risada. Aí ele falou da ‘Ideologia Alemã’, não-sei-o-quê, e no final a coisa começou a ficar política, a sair da parte teórica, ‘com isso a gente concorda, mas politicamente…’” (LEAL, Murilo, ob. cit. p. 38)

[22]: O depoimento de Michael Löwy, já citado, diz que a LSI deveria ter “umas 20 pessoas (no máximo)”. Destes vinte originais, saíram Maurício Tragtenberg e Paul Singer logo no início das atividades (v. depoimento de Luiz Alberto Moniz Bandeira), restando dezoito; com a fundação da POLOP em 1961, saíram Michael Löwy, Eder e Emir Sader (v. depoimento de Michael Löwy) e Luiz Alberto Moniz Bandeira, restando quinze; como não há, no momento, outras fontes disponíveis ao público que contem a história da LSI e do MCI, é com este número máximo que se trabalhará.

[23]: LEAL, Murilo, ob. cit. p. 126.

[24]: SACCHETTA, Hermínio. “Frente única burguesa e golpe bonapartista”. Em: O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos. Campinas: Pontes/EdUNICAMP, 1992, pp. 105-107.

[25]: Secundarizar não significa abandonar; fosse assim, não teriam entrado no POR os irmãos Fausto (Boris, Ruy e Nelson), todos eles estudantes universitários – sendo o primeiro, hoje, historiador de renome.

[26]: LEAL, Murilo, ob. cit., pp. 105-106. Esta análise tem como base um artigo de L. Martins: “Nenhum crédito ao Governo JK”. Frente Operária, 19, 1956.

[27]: LEAL, Murilo, ob. cit., p. 107.

[28]: LEAL, Murilo, ob. cit., p. 109.

[29]: LEAL, Murilo, ob. cit., p. 106.

[30]: LEAL, Murilo, ob. cit., pp. 56-59.

[31]: LEAL, Murilo, ob. cit., p. 52.

[32]: LEAL, Murilo, ob. cit., p. 52.

[33]: LEAL, Murilo, ob. cit., pp. 52-53.

[34]: LEAL, Murilo, ob. cit., pp. 110-111. A fonte é o artigo “Balanço das eleições e perspectivas para o próximo governo” (Frente Operária, 43, nov. 1960). No mesmo artigo, entretanto, o POR – que  afirmava que Jânio faria um governo “reacionário e anti-popular”, pois representa “a aliança reacionária entre a grande burguesia de São Paulo, as finanças, o grande comércio e o imperialismo, os grandes latifundiários do centro e do sul (com exceção do Rio Grande do Sul) por uma política de desenvolvimento capitalista realizada às custas e sem atenção pela situação das massas”.

[35]: Parte da história da Juventude Socialista será vista na parte seguinte deste ensaio. É mais uma das organizações cuja história ainda resta sistematizar e tornar pública.

[36]: Tratei aqui apenas de duas delas por severas limitações de espaço, e mesmo assim esta parte do ensaio, como se pode ver, ainda ficou muito grande. Sinal de que ainda há muito a pesquisar neste campo.

8 COMENTÁRIOS

  1. Prezados senhores
    Apreciei muito o artigo que li acima, sobre a esquerda brasileira.
    Gostaria de saber o nome do autor do artigo, e se possível receber as outras 9 partes, que não conseguir abrir aqui.
    Gostaria também de saber quem organiza o “Passa Palavra”.
    Estou escrevendo alguma coisa a respeito do POR no Rio Grande do Sul, e gostaria de fazer um intercâmbio a respeito da história deste partido.
    Para referência, sou professor e economista do Estado do Rio Grande do Sul, aposentado, e participante do CEDS/Centro de Estudos e Debates Socialistas, existente aqui no Estado.
    No passado militei no POR.
    Cordialmente
    Clovis Oliveira

  2. Caro Clovis,

    Eu sou o autor do artigo, como está indicado pouco depois do “lead”. E as demais partes dele estão todas acessíveis clicando-se em cada um dos números colocados logo após “Leia aqui as demais partes do ensaio”, também no início da página.

    Como disse na primeira parte da série, “Na medida do possível a um historiador diletante, sem bolsas de pesquisa ou recursos para viajar a outras cidades e lá permanecer pelo tempo necessário à pesquisa arquivística rigorosa, tentei fazer um quadro amplo do contexto em que surgiram e atuaram tais organizações para tentar ajudar a integrar estas lutas num contexto econômico e geopolítico global, mas pode ser que haja falhas grosseiras, de minha inteira responsabilidade. Nada obsta a complementação ou contestação através de comentários, que serão muito bem-vindos.”

    Sobre o POR, minha principal fonte foi o livro À esquerda da esquerda: trotskistas, comunistas e populistas no Brasil contemporâneo (1952-1966) (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003), de Murilo Leal. Até onde me lembro, é o único livro no Brasil a tratar especificamente da história da organização, embora o livro História das tendências no Brasil: origens, cisões e propostas (São Paulo: Proposta, 1987), de Antônio Ozaí da Silva, fale um pouco do partido. Recomendo buscar as duas obras, pois elas esgotam tudo o que escrevi acima e ainda apresentam muitos outros detalhes a mais.

  3. Companheiro Manolo, saudações!

    Primeiramente, gostaria de te parabenizar pelo excelente artigo. Tenho total acordo na reflexão trazida pelo último capítulo, de que a esquerda continua a enfrentar um tremendo desafio buscando atuar sem trair os próprios princípios, porém também sem acabar caindo na irrelevância política. Porém, tenho uma crítica a colocar nesta parte específica em que comento.

    Achei que o artigo como um todo trabalha brilhantemente as histórias das diversas organizações que podem ser consideradas de extrema-esquerda, com exceção da corrente anarquista, na qual achei que faltou drasticamente a atenção. Acima você justifica isso, mas de uma forma que me soou um tanto contraditória. Confesso que me surpreendi um pouco com o parágrafo em que, após citar os diversos jornais, os diversos núcleos organizativos, os diversos espaços culturais e os congressos realizados — tudo de iniciativa anarquista — você conclui que tudo se limitava a “grupos de cultura e preservação da memória”.

    Ainda que eu ache que você mesmo já tenha contradito tal limitação na atuação dos anarquistas, vou também mencionar um estudo que saiu recentemente pelo companheiro Rafael Viana da Silva intitulado “Elementos Inflamáveis: organização e militância anarquista no Rio de Janeiro e São Paulo (1945-1964)”, em que é também este o período retratado. Nele, é apontado que esta visão do anarquismo no pós-guerra como uma meio de atuação meramente artístico-cultural se tratava de mais uma tentativa de deslegitimar o anarquismo, como décadas anteriores se fazia com a associação ao terrorismo. “Era construída pelos jornais uma significação imaginária sobre o anarquismo que reduzia esta ideologia como algo do passado, superado historicamente e restrito ao campo das práticas culturais” (SILVA. 2017, PP. 307).

    Segundo o trabalho supracitado, essa superação também é desmentido porque, além das iniciativas já mencionadas por você, os anarquistas nunca perderam o apreço pela estratégia sindical. Além das resoluções de todos os congressos darem como encaminhamento de os militantes buscarem construir nos seus locais de trabalho grupos de resistência sindical, isso também é visto na prática com a atuação do Grupo de Orientação Sindical dos Trabalhadores da Light, no Rio; que viria a se juntar com o grupo semelhante dos gráficos de São Paulo, formando o Movimento de Orientação Sindical (MOS).

    Claro que nada, de fato, se compara com as grandes mobilizações operárias da Primeira República, mas o meu questionamento é: se boa parte dos partidos mencionados no seu trabalho, segundo suas próprias conclusões e vários dos relatos citados, se limitaram a grupos de intelectuais que compartilhavam afinidades, sem praticamente nenhuma inserção social, porque houve tão grande atenção a todos eles e tão pouca atenção às organizações anarquistas?

    Ademais, parabenizo-o novamente pelo artigo. Traz, sem dúvidas, uma reflexão que urge pela esquerda independente nos dias de hoje. Só quis contrapor alguns pontos de uma parte específica, mas fico muito contemplado com a ideia do trabalho como um todo. Recomendo também, seriamente, o livro do companheiro Rafael. Acredito que vá contribuir muito nas suas pesquisas do período em questão.

    Atencionsamente,
    Penna.

  4. Penna,

    A expressão “grupos de cultura e preservação da memória” é de Edgar Rodrigues, que viu e viveu aquilo tudo: quem sou eu para contestar o que viu enquanto testemunha ocular e epistolar? Se há material disponível sobre o assunto agora, escreva, ao invés de cobrar que eu escreva sem ter, seis anos antes do lançamento do livro, material disponível.

    E digo mais. Creditar a fundação do MOS apenas a anarquistas é falsificar a história — para dizer o mínimo. O MOS resultou da confluência de várias tendências socialistas anti-stalinistas, envolvendo anarquistas, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), elementos ligados à Diocese de Santo André… Mas é verdade, havia esquecido, para a historiografia especifista o anarquismo era a única corrente anti-stalinista dentro do socialismo, e quando não é possível demonstrar que se tratava da única corrente há sempre o recurso da afirmação da hegemonia sobre as demais. Há historiadores anarquistas, sem contar outros sem qualquer filiação ideológica ou organizativa explícita, bem mais honestos com os fatos.

  5. Compa,

    não foi num intuito de cobrança que eu escrevi o comentário. Quis mesmo complementar tudo o colocado por você com informações adicionais, mencionando materiais que saíram recentemente, apenas isso. Não tenho a menor capacidade e tampouco vontade de escrever um artigo intitulado “Anarquismo e desenvolvimentismo”, mas acreditei que seria plausível somar aqui com dados referentes a uma corrente de extrema-esquerda — o Anarquismo — que achei pouco trabalhado ao longo do artigo. Peço perdão se me enganei…

    Não só o Edgar Rodrigues, mas vários outros teóricos, inclusive especifistas, tendem a limitar assim a atuação dos anarquistas no período da redemocratização. O questionamento que eu fiz a você eu também faria a eles: isso é plausível, visto que são listáveis as atividades para além desse campo por parte dos anarquistas? É justamente essa limitação que o Elementos Inflamáveis tenta contrapor, mesmo indo talvez contra a opinião mais vigente no momento. Recomendei a leitura apenas porque você escreve sobre o momento e achei que pudesse se interessar. Faria o mesmo com Edgar Rodrigues se ele estivesse vivo…

    Nem eu e nem o Rafael afirmamos em nenhum momento que o MOS foi fundado apenas por anarquistas. Até porque isso não seria apenas falsificação histórica, mas um erro grotesco na estratégia sindicalista revolucionária de respeito à neutralidade sindical. O Rafael mesmo cita João da Costa Pimenta como um dos contribuidores do jornal Ação Sindical. “Cabe dizer que independente dos matizes ideológicos no interior do MOS, o que parecia condensar a unidade deste, era justamente a posição sobre as questões sindicais e não um corte ideológico estrito.” (SILVA. 2017, pp. 279). O MOS não foi apenas a confluência de diversas tendências socialistas anti-stalinistas, mas também anti-trabalhistas; num cenário em que o PCB e o PTB dominavam os sindicatos. Porém, ainda assim, o Movimento conseguiu enraizar um trabalho e ter uma atuação plena. Considero isso válido de menção porque foi uma exceção à situação em que a extrema-esquerda se encontrava de: ou trair os próprios princípios se unindo aos stalinistas e trabalhistas; ou perder a inserção social e, consequentemente, a relevância política. Mas volto a reiterar: menciono isso na intenção de somar, não de cobrar de ti.

    Fato é, porém, que o MOS foi, dentre as contribuições das diversas tendências, o resultado das resoluções dos congressos anarquistas realizados no período. Afirmar isso não é desmerecer as outras correntes ideológicas ou afirmar uma “hegemonia”, mas, sim, reconhecer os grupos políticos específicos como contribuidores na constituição dos movimentos sociais, como o PSB e a Diocese que você citou também foram. Mas algum deles pode ser considerado de extrema-esquerda?

    Não sei o motivo de você afirmar isso dos historiadores especifistas. Eu, particularmente, comecei apenas recentemente a explorar materiais deles, porém em certa quantidade, e confesso que não notei, até o momento, nada que justifique uma acusação dessas. Mas isto sou apenas eu.

    Ademais, lamento se me fiz entender equivocadamente ou transmiti um tom rude. Não tinha qualquer intenção de causar um atritamento.

    Att,
    Penna.

  6. “Resultado das resoluções dos congressos anarquistas realizados no período”? Quero ver documentos. Porque não são poucos os intérpretes que, com base em farta documentação, creditam a criação do MOS à pastoral operária católica, e ainda apresentam o MOS como parte do Movimento Sindical Democrático (MSD), este sabidamente ligado ao Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), este último comprovadamente financiado pela CIA. Em São Paulo era evidente a hegemonia anarquista sobre o MOS, pois mesmo os socialistas do PSB participavam das reuniões do MOS na sede do CCS-SP, mas fora daí era tudo católico. É esta a herança reivindicada pelo especifismo assim tão acriticamente e com tanto orgulho? Claro, é preciso a qualquer custo dizer que os anarquistas fizeram alguma coisa no movimento sindical, então até aliança com católicos conservadores está valendo. Alguns mais lúcidos falam de “alguma participação no Movimento de Orientação Sindical (MOS)”, mas não entram neste apologismo.

  7. As atas dos congressos anarquistas documentam que havia a orientação da criação de grupos de resistência sindical. Feito isso, os grupos em que os anarquistas tinham maior inserção — trabalhadores da Light do Rio e gráficos de São paulo — participaram da criação do MOS. Daí que digo que foi resultado das resoluções. Não pelo fato de os anarquistas serem hegemônicos ou por terem protagonizado a ação, mas sim por eles já terem a intenção, por resolução de congresso, de compor uma tendência sindical que se opusesse ao trabalhismo, o que foi o MOS.

    Não vejo cabimento na associação do MOS com o MSD; não só pela completa dessemelhança entre a proposta de ambos (o MSD era o que havia de mais reacionário dentro do sindicalismo, com toda a ala do trabalhismo moderado separando-o do MOS), mas também pela quase uma década de diferença entre a criação de ambos. A maior parte da atuação do MOS se deu bem antes da criação do MSD.

    Estranho você de novo ser tão áspero com a historiografia especifista e citar o Felipe Corrêa… Até porque o mesmo escreveu o prólogo do livro do Rafael e, nele, afirma que, apesar de ter sempre reproduzido o senso comum que limita a atuação dos anarquistas no período em questão a grupos de cultura e preservação de memória, com o livro, ele sente que pode estar enganado e isso pode ser algo mais discutível.

  8. Todas as correntes políticas de esquerda ou extrema-esquerda da época, sem exceção alguma, recomendavam a atuação em sindicatos. O negócio está em saber: estas resoluções passaram à prática? No caso anarquista paulista e carioca, mais precisamente, eles criaram o MOS? Isto ainda está por demonstrar, dado que o livro citado não é conclusivo acerca do assunto. O que se diz lá é que os anarquistas participaram do MOS, nada mais. Nem uma palavra sobre os anarquistas terem criado o MOS. Mas, claro, é preciso dizer que os anarquistas fizeram algo além das atividades culturais e de preservação de memória. Que bom que tenham feito! Importante ressaltar sua participação no MOS. Mas entre participar e criar há um abismo.

    Se o MOS e o MSD não eram correlatos? Basta ler os links que mandei no comentário anterior, todos bem documentados. Mas é claro, o importante é afirmar que os anarquistas criaram o MOS, nada mais. Não vou prosseguir neste diálogo. Que quem lê decida sobre quem anda falsificando a história.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here