Notas sobre a luta autônoma em Salvador. 1ª parte

Notas sobre a luta autônoma em Salvador. 1ª parte

em 22 out

O engraçado é que, quase 10 anos depois, nós, que nos criamos na crítica a certas práticas, ainda não conseguimos criar outras mais fortes que as superem. Por Quatro coroas


1.

Depois de junho (e estas três palavras parece que vão virar lugar comum em textos políticos daqui por diante), percebemos que tem muita gente nova chegando nos coletivos que integramos. Essa galera, gente com quem estamos colando de boa, usa muito o discurso “apartidário”, mas rola uma “diferença de gerações” na hora de entender o que isso quer dizer; nós, que estamos entre os 27 a 35 anos, entendemos essa palavra de um jeito diferente. Nossas histórias são bem diferentes, vivemos coisas diferentes, em momentos diferentes; lutamos contra adversários que podem parecer os mesmos, mas que agiam diferente antes; enfim, parece que chegamos ao mesmo lugar por caminhos diferentes.

Por isso, um de nós teve a ideia de juntarmos um pouco da nossa história num só lugar. Assim poderemos tirar do esquecimento alguns fatos importantes e ao mesmo tempo mostrar como foi que chegamos onde estamos.

2.

Tem gente entre nós que entrou no movimento estudantil ainda em 1998, na universidade. Tempos duros, pois a situação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) era crítica. Estas restrições financeiras são bem ilustradas pelo fato de o movimento estudantil da época viver uma polêmica pesada e, aos olhos de hoje, talvez assustadora: a maioria da esquerda tradicional no movimento estudantil usava o discurso político clássico de atacar o ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, falando da submissão aos interesses do FMI e do Banco Mundial, etc., enquanto uma minoria da esquerda heterodoxa – anarquistas (entre os quais eu), marxistas libertários, autonomistas etc – queria envolver o dito “estudante comum” nestas discussões e mobilizações a partir das consequências desta falta de recursos no cotidiano, que iam desde água e luz cortadas, tetos caindo na cabeça de alunos, instalações elétricas condenadas, bibliotecas desatualizadas, até falta de papel higiênico. (Sim, durante quase toda minha graduação tive que limpar a bunda com papel de caderno amassado. Até esta técnica tivemos que inventar para sobreviver.)

Naquele tempo, eu já era um anarquista de carteirinha, mas tudo ainda andava muito mais no campo do ideológico do que na prática. Minha curtíssima experiência punk já tinha muitos anos de encerrada, não me via próximo de sindicato algum para tentar qualquer militância neste campo, e o bairro onde eu morava não era outra coisa além de um dormitório onde acordava pela manhã e ia dormir à noite. A universidade era um lugar quase natural para minha ação política, mas quase nenhum anarquista atuava no movimento estudantil da UFBA além de três num curso, dois em outro, um num terceiro… todos isolados. Além disso, os problemas imediatos da universidade apontavam muito mais a necessidade de fazer alguma coisa com quem andava mais próximo – e isso incluía petistas e “independentes” – do que a necessidade de buscar outros anarquistas em outros lugares antes disso.

Minha integração com movimentos anarquistas só veio a acontecer em 2000, durante o Congresso da UFBA, idealizado e executado pelo PT, que na época havia recém-tomado o DCE das mãos do PCdoB [Partido Comunista do Brasil), para dar o golpe de misericórdia nos “cururus” (apelido que dávamos aos comunistas). Éramos cinco anarquistas, seis comigo, quando me convidaram para conversar sobre o assunto no bar do Instituto Cultural Brasil-Alemanha (ICBA). Já no primeiro dia do congresso, quando um panfleto com nossas propostas foi distribuído, éramos sete, e cumprimos bem o papel de “terceira força” num jogo de cartas marcadas onde aparentemente apenas dois adversários eram permitidos. Defendíamos, entre outras coisas (não lembro de tudo, pois o panfleto foi perdido há muito tempo), que o DCE fosse substituído por fóruns temáticos por área e que destes fóruns saíssem delegados com mandatos vinculados a tarefas específicas. Durante as oficinas e debates, fomos convencendo tanta gente que pouco antes da plenária final já éramos mais ou menos trinta, e fomos derrotados na votação da proposta de substituição do DCE pelos fóruns temáticos por uma diferença de apenas sete votos numa plenária com mais de trezentas pessoas.

Parecia “bobagem” atacar os “companheiros” do PT e do PCdoB (o PSTU existia, mas era irrelevante na época) quando estávamos todos unidos na oposição aos governos da Bahia e federal. Mas aquilo que para tantos era “erro tático” ou “criancice” não era outra coisa além da intuição do que aconteceria caso nossos “companheiros” – que fraudavam ou roubavam urnas nas eleições para o DCE, que agiam com os estudantes como generais diante de uma turba de soldados que mandariam para a morte sempre que necessário para atingir seus objetivos, que diziam uma coisa em reunião e faziam outra depois, etc. – fariam caso chegassem ao poder. Era melhor lutar pela destruição do poder, pela pulverização do poder, pela horizontalização do poder, era melhor lutar por qualquer que fosse o nome de outra coisa além da reprodução do velho com roupas novas.

Quando veio a jornada de lutas pela cassação de Antonio Carlos Magalhães (ACM), em maio de 2001, parecia que era mesmo um grande erro. Afinal, não era aquela moça do PCdoB quem estava ao meu lado no Vale do Canela, de camisa amarrada no rosto, jogando paralelepípedos na tropa de choque? (Hoje ela está na Itália, militando no Partito di Alternativa Comunista.) Não era aquela moça do PT ajudando a tirar gente de dentro da Faculdade de Medicina para escaparem do gás e dos cachorros? (Hoje ela ainda está na Bahia, trabalhando numa ONG que executa projetos sociais para a Petrobras.) Não era aqueles meninos e meninas do CEFET [Centro Federal de Educação Tecnológica] a chegar por baixo, pelo Vale do Canela, a nos ajudar a sair do cerco policial? (Hoje eles estão em vários lugares.) Mas, dois anos depois, a Revolta do Buzu veio mostrar o quanto estávamos certos. PT e PCdoB mostraram ali como podem trair reivindicações de massa muito claras em troca de sua “pauta histórica” – pauta justa, mas sem qualquer ligação imediata com o desejo de tantos milhares de pessoas que estavam em luta nas ruas. Jogaram fora uma oportunidade de ouro de fortalecer os movimentos de rua e, depois, aí sim, trazer de volta sua pauta histórica e empurrá-la goela da Prefeitura abaixo. O combate aos métodos dos partidos políticos nos movimentos sociais não era mais um problema teórico, mas uma questão prática importante demais para ser deixada para “depois da revolução”.

Voltando ao assunto, por volta de 2002, havíamos conseguido – o movimento estudantil inteiro – evitar na marra que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e seu ministro da Educação vendessem universidades públicas para a iniciativa privada – sim, isto mesmo, vender; literalmente, compra e venda, com papel passado e tudo, sabe? Por tabela, conseguimos queimá-lo tanto que ele teve que desistir de suas pretensões de pré-candidato do PSDB à presidência. Meio por necessidades do ensino fundamental, meio pela crise econômica vivida pelo Brasil desde 1998, meio por vingança contra as universidades públicas em luta, Paulo Renato arrochou ainda mais o orçamento para as universidades públicas, e o que já era ruim foi piorando. Mas com o começo do primeiro mandato de Lula em 2003 nada mudou muito. Como ainda estavam “arrumando a casa” depois de terem recebido a “herança maldita”, não houve qualquer mudança significativa no trato com as universidades públicas – apesar de Cristovam Buarque ter aparecido aos olhos de muitos como promessa de mudanças positivas. A UFBA crescia vigorosamente enquanto polo de pesquisa e inovação tecnológica. “Hein? Como assim? Desse jeito?” Sim. São as contradições do real. A infraestrutura era, literalmente, uma merda, mas a UFBA estava bombando. Acontece que os “anos FHC” levaram à busca de saídas privadas para um problema público. Para se ter uma ideia, um debate recorrente na mídia, na opinião pública e na universidade na época era que os estudantes de universidades federais deveriam pagar mensalidades, pois todos eram ricos vindos de bons colégios e os pobres eram uma minoria insignificante que poderia ser contemplada com isenções. Na falta de recursos públicos, grupos de pesquisa dentro da universidade buscaram solução na parceria com empresas privadas. E assim a pesquisa acadêmica passou a ser, mais profundamente que antes, extensão da P&D [Pesquisa & Desenvolvimento] empresarial.

Em 2002, Naomar de Almeida Filho, professor do Instituto de Saúde Coletiva (ISC), foi eleito reitor pela esquerda “pelega”, composta pela direita do PT, por professores ligados ao que de pior havia em termos de privatização interna da universidade pública e por todas as máfias de grupos de pesquisa captadores de recursos na iniciativa privada. Ainda no primeiro governo Lula, Tarso Genro assumiu o ministério da Educação depois de Cristovam Buarque e começou uma reforma universitária fatiada. O movimento estudantil da UFBA concordava que esta reforma era uma forma disfarçada de aprofundar a privatização interna através das parcerias com grupos de pesquisa da pós em detrimento da graduação, amplamente sucateada. Assim que surgiram as primeiras notícias sobre a reforma universitária, em 2004, os estudantes puxaram uma greve política, sem qualquer coordenação com greves docentes ou de servidores. Nós arrastamos os outros dois setores para a greve e recebemos bastante apoio da APUB [Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior da Bahia], então sob a gestão do grupo capitaneado por Antônio Câmara. A greve começou em cada curso, sendo tirada em assembleias locais, e quase todos os prédios de aula da UFBA foram ocupados por estudantes, não apenas a Reitoria. A UFBA inteira estava sendo paulatinamente transformada num espaço para formação política, debates com movimentos sociais, deliberação coletiva, debate sobre a reforma universitária, vivência em grupo… Lembrem-se: a Revolta do Buzu tinha acontecido havia pouco mais de um ano; os saberes de autonomia construídos nas ruas ainda estavam fortes na memória das pessoas e a lembrança da cagada feita pelo PT durante ela ainda era fresca. Some tudo isso, e há aí um “caldo”, um “clima” para o surgimento de uma militância mais autônoma.

A ocupação da UFBA teria sido uma experiência interessantíssima se não houvesse sido abortada pela ocupação da Reitoria, iniciada onze dias depois do começo da greve. Ela foi, na verdade, uma jogada política da Articulação de Esquerda (PT) para ao mesmo tempo trazer para si o controle da greve e acabar com um movimento que, se não fosse concentrado num só lugar, colocaria em xeque inclusive a necessidade de um Diretório Central dos Estudantes (DCE) para a UFBA. E era isto que nós, anarquistas, queríamos desde 2000. O resto é história: a Reitoria foi ocupada por onze dias, cada grupo político quis tirar dali seu pedaço de vitória (um companheiro nosso, de Física, vivia com fichas de filiação ao PT na ocupação), e toda aquela efervescência parece ter servido apenas para “reoxigenar” o movimento estudantil.

Houve mais, muito mais. Só que aí eu já estava formado e não tinha mais como acompanhar as coisas. Já estava atuando junto a movimentos de bairro e a movimentos de luta por moradia como assessor. Era outro tempo, outras práticas, outras ideias.

3.

No meu caso, entrei na universidade nos últimos dias de governo de Fernando Henrique Cardoso, quando a luta contra o neoliberalismo juntava a todos, depois peguei os primeiros anos do governo Lula, o consequente surgimento das lutas autonomistas/libertárias (portanto, de novos grupos com poderes reais no Movimento Estudantil [ME]) e saí após o processo de reestruturação das universidades. Quando eu entrei o ME reivindicava ainda o Maio de 68, quando saí a referência já era a periferia e os movimentos sociais. Nestes seis anos, de 2000 a 2006, mudou muita coisa. Este lapso de tempo criou gerações distintas. Esse momento é muito rico e não é porque eu tenho dificuldade ainda hoje de sistematizar tudo que não devemos começar.

Na época eu ia fazendo as coisas. Lembro que meu lema era “não cometer os mesmos erros”. Era ingênuo, mas mostrava o nível de decepção e da possibilidade de fazer algo novo. Havia espaço para isso, mas faltava algum norte. Além do mais, se hoje não existe mais Acampamento da Juventude e Articulação de Esquerda como referencial de esquerda, há os EIVs [Estágios Interdisciplinares de Vivência] da vida e a Consulta Popular cumprindo o mesmo papel, muitas vezes sequer utilizando termos distintos. Eu peguei o final daquele período de lutas pesadas do movimento estudantil contra o governo federal. Os professores eram “brothers”. Faziam greves, faziam debates políticos, cumpriam um papel importante na formação dos militantes. Havia solidariedade e uma consciência de classe. Talvez seja daí que a geração que conheci primeiro ser mais academicista, mais ligada ao Maio de 68. Alguém do ME que não tinha lido os clássicos nem podia abrir a boca. Um horror! E ainda havia a situação específica da Bahia, comandada por ACM, o avó. O 16 de maio de 2001 expressou muito isso. Mas havia muitas divergências também, principalmente contra o pessoal do PCdoB.

Cheguei a fazer parte de grupos de pesquisa e eram uma lástima. Ninguém sabia nem o que produzir. Esta era a realidade de quase todos. Como a economia estava estagnada, o que a UFBA se especializou foi em vender discurso. Grupo sobre hegemonia aqui, economia solidária lá, multiculturalismo do outro lado… Não se produzia conhecimento nenhum, muito menos tecnologias. A maior parte dos recursos angariados no mercado pela UFBA vinham de cursos, que supriam a carência de formação mais básica do mercado de trabalho especializado, em um período em que as universidades privadas não tinham se consolidado. Talvez esta realidade fosse diferente na área de Exatas e Engenharia. Mas na de Humanas era triste. Do segundo governo Lula para a frente isso mudou. E aquele clima de unidade na esquerda já tinha ido pro beleléu fazia tempo.

Um caso bem marcante foi o do II Acampamento da Juventude, em 2004, feito pela Articulação de Esquerda (AE-PT) num assentamento do MST na Chapada Diamantina. Ali a “demanda” foi maior do que a “oferta”, mas a vontade de arrebanhar todos aqueles jovens garotos e garotas era tamanha que a crise se transformou em oportunidade. Até o ícone da época, Zé Rainha, se fez presente. Escolheram um assentamento grande no sertão da Bahia, onde havia somente um filete de rio e nenhum pé de planta. Lembro claramente o tédio dos dias sem nada a fazer, com sede e fome e dentro de algo que um dia foi um rio. Alguns tentaram ir embora, mas não havia como. Foi então que se desenhou o futuro: certo dia a fila para pegar um prato de arroz era tão grande que se estendeu do refeitório até à casa da coordenação do evento, e pela janela podíamos ver um delicioso banquete sendo degustado pelas lideranças da juventude petista. Já não bastassem a fome e a sede, ainda teve aqueles que levaram sopapos e a pecha de reacionários. E, claro, desceram a porrada em alguns “anarcos” debaixo daquele calor infernal. Este evento foi, quem sabe, a primeira vez em que se encontrou muita gente que depois veio a formar o campo libertário (autonomista e anarquista) de uma geração do movimento estudantil lá pelos meses imediatamente seguintes à Revolta do Buzu. E a coisa não ficou restrita à constatação, mas a um protesto generalizado, a várias cartas abertas e a tamanho constrangimento ao MST e à AE que se viram forçados a escrever uma carta-resposta em termos estritamente depreciativos. No retorno deste encontro, alguns começaram a procurar “alternativas teóricas”, a tentar se organizar por fora de organizações políticas tradicionais, a ler coisas de gente “proibida”…

Lembro que foi uma grande surpresa para mim receber uma resposta dupla das instâncias superiores da juventude do PT a um email de denúncia despretensioso. Naquela época eles tinham até algum prestígio… Na verdade foi uma resposta a vários relatos, todos muito duros. E as lideranças iluminadas deles estava tomando pau de um monte de menino nos espaços do movimento estudantil por causa desse Acampamento. Tiveram que intervir. Além disso, este processo de organização de um campo libertário em Salvador contou com outros elementos mais importantes, como a Revolta do Buzu e as primeiras medidas do governo Lula. A Revolta do Buzu e os protestos contra as primeiras medidas de Lula puxaram gente para a rua, mas “cada um no seu quadrado”; se não estou enganado, este acampamento foi um dos primeiros momentos pós-Revolta do Buzu (lembre-se de que ela aconteceu entre final de julho e começo de setembro de 2003, poucos meses antes do acampamento, portanto) em que muita gente que se formou politicamente nas ruas saiu do seu “quadrado” ao se ver diante de uma situação em que mais uma vez tiveram que articular na hora alguma resistência ad hoc às práticas da AE. No acampamento o mundo só estava começando a ruir.

Logo depois deste acampamento aconteceu a greve da UFBA, em 2004. Processo interessante, mas que terminou com uma grande derrota para os libertários. É importante também lembrar que poucos destes que a gente chama de “libertários” se sentiam confortáveis com este rótulo. Era difícil criar um campo que nem se assumia enquanto tal. Enquanto houvesse lutas concretas acontecendo, a unidade e a solidariedade naturalmente acontecia, pouco importava se um era conselhista, outro anarquista não sei das quantas e o terceiro vinha apenas de uma experiência frustrante com os partidos. Mas quando estas lutas foram sendo assimiladas, uma a uma, pelos governos e partidos, ficamos todos sem chão. Por exemplo, quem ganhou as eleições para o DCE após esta greve foi um coletivo de independentes, mas com forte orientação de O Trabalho (OT-PT). Foi o grupo mais autoritário que eu vi surgir em todo o movimento estudantil. Uma lástima. Se afastar deste grupo, em práticas e objetivos, levou muita gente a assumir posições mais libertárias. Ser independente já não bastava. Além disso, havia uma crise gigantesca na UNE [União Nacional dos Estudantes], que deu origem à CONLUTE (que hoje se chama ANEL), que também levou muita gente que não era do bolo dos partidos a sentar junto e conversar. Também foi o momento em que começamos a olhar para fora da universidade. Os limites da atuação ali dentro estavam muito claros. A Prefeitura aprendeu a realizar aumentos sem enfrentar resistências, os partidos aprenderam a neutralizar a influência das “assessorias” dentro dos movimentos sociais, a injeção de grana e de cargos no ME criou um abismo de recursos entre os grupos mais à esquerda e os mais à direita e o pragmatismo que tomou conta de todos coibiu qualquer forma de crítica e de reflexão.

Entretanto, para mim o marco da nossa derrota foi o congresso do Movimento dos Sem Teto da Bahia (MSTB) em 2005. Ali nos juntamos todos. Uns se doaram mais, outros menos, mas todos nós sabíamos da importância daquele evento. Era um dos maiores movimentos sociais do país e que havia feito mobilizações significativas. E o que aconteceu? Após meses de dedicação, desgastes e tudo mais, tivemos que ver um pelotão de alienígenas descendo no Congresso com suas camisas vermelhas e pautando os grupos de trabalho, negociando os cargos do movimento nos corredores, e os otários pudicos aqui, que por princípio não poderíamos orientar o movimento, ficamos estatelados e chorosos vendo toda aquela tragédia. O engraçado é que, quase 10 anos depois, nós, que nos criamos na crítica a certas práticas, ainda não conseguimos criar outras mais fortes que as superem.

 

As ilustrações reproduzem obras de Kasimir Malevitch.

Os leitores portugueses que não percebam certas expressões usadas no Brasil
e os leitores brasileiros que não entendam algumas expressões correntes em Portugal
dispõem aqui de um Glossário de gíria e termos idiomáticos.

Leia a 2ª parte e a 3ª parte destas Notas sobre a luta autônoma em Salvador.


Comentários 4

    • Sandra

      |

      out 23, 2013

      |

      Lido o relato tive mais ainda a certeza que o meio autônomo esteve presente e forte nas universidades. Em vários cantos, são os independentes, sem partido e militantes libertários a tocarem lutas por várias coisas, fazerem a roda girar.

      No entanto, e talvez isso explica a inquietação que vem no final do texto, quando sai da universidade o setor autônomo pulveriza. Não há um movimento ou organização que os concentrem, como há com os movimentos e partidos. Até hoje nunca existiu uma organização macro do campo autônomo. A verdade é que o meio autônomo não possui enraizamento social.

      Agora está se consolidando uma presença pioneira na discussão sobre transportes. Mas também porque era um campo aberto, que não foi ocupado ainda pelos partidos e não havia um movimento da área. No entanto, com um controle majoritário de gente da universidade.

    • |

      out 23, 2013

      |

      Gostei do artigo. Lembra muito de coisas que eu mesmo vivi, por ter sido contemporâneo disso tudo.

      E o que Sandra levanta tem sua parcela de verdade. Digo “parcela” porque muita gente que conheci como militantes do PT, do PCdoB e do PSTU na universidade passou por processos semelhantes: largaram tudo depois do movimento estudantil. Então não me parece que esta “apatia pós-universidade” seja característica apenas do meio autônomo.

      Um exemplo: quando era estudante conheci um sujeito que cursava Ciências Sociais. Ainda na fase pré-cotas, era o exemplo do cara guerreiro: filho de empregada doméstica mãe solteira, estudou por conta própria, passou no vestibular, comeu o pão que o diabo amassou para cursar regularmente um curso que tem horários irregulares frequentemente conflitantes com seu horário de trabalho, e ainda encontrou tempo para organizar um pequeno grupo de estudos militantes e divulgar muita coisa que de outro modo ficaria esquecida nas memórias de um ou outro mais velho.

      Formou-se com um belo trabalho onde cruzou muito fertilmente Erving Goffman, Max Weber, Pierre Bourdieu e Robert Michels para fazer uma análise das rotinas partidárias dentro do PT. Casou-se, foi morar em Candeias (região metropolitana de Salvador), separou-se, num processo bastante traumático; hoje mora com a filha, que deve ter uns doze anos, se não me falha a memória. De todo aquele esforço militante, de toda aquela enorme carga de superação de obstáculos para “tirar a mãe da miséria” (era o que dizia-nos a todo tempo), não restou outra coisa que não um homem amargurado pela virada de 180º do seu partido e pelas experiências militantes que teve. Hoje, quando nos encontra (a mim e a outros que lhe foram inclusive mais próximos), ele, logo ele, homem inteligentíssimo e guerreiro, aproveita toda e qualquer oportunidade para atacar qualquer iniciativa política de seus antigos companheiros de curso e de universidade, pelo simples fato de serem “coisas de boy universitário”.

      Justo ele, que consegue na mesma frase articular concepções de três a quatro sociólogos diferentes de modo muito perspicaz e preciso, a acusar seus velhos companheiros por serem o mesmo que ele: diplomados em universidades. Pouco importa que escolhas fizeram, pouco importa que rumos tomaram, pouco importa inclusive que estejam em espectros políticos diametralmente opostos, pouco importa que suas práticas políticas convirjam — ou não — com o que ele próprio acredita: são todos “universitários”.

      Uma pena. Uma tragédia, na verdade. Fenômenos como este, a meu ver, são importantes e precisam ser investigados com calma, pois ele não é o único que conheço a agir desta maneira. São as necessidades da vida cotidiana quem empurra para fora da militância? Seria só a diferença entre origens de classe a criar esta amargura? Não sei. Só sei que casos como estes andam se proliferando, infelizmente.

    • Neto

      |

      out 25, 2013

      |

      Excelente iniciativa esta série de artigos. Além já da Sandra e do Manolo, certamente continuará a reverberar em outras experiências parecidíssimas, a despeito da diferença de cidades ou níveis de atuação/consciência.
      (como acredito ser meu caso)

      Sobre o texto, aguardo com expectativa a segunda parte,
      já que a problematização já está dada e só não está na cara de quem está disposto a passar a vida inteira no “rolê” ou integrar-se/resignar-se docilmente no momento pós-universidade.

      Sobre o comentário da Sandra, ao fato de não existir há muito tempo uma “organização macro” dentro do próprio campo autônomo, de fato, deve-se ao fator do sentimento “anti-organização”/”anti-coletivismo” (=individualismo) que ainda está assombrosamente enraizado neste meio.
      Eu faria uma ressalva quanto ao “pioneirismo” de um campo autônomo na discussão dos transportes, não só porque esta pauta institucionalizou-se nacionalmente (não falo de modo necessariamente pejorativo), mas principalmente porque é somente uma pauta específica, que não dá conta da totalidade da nossa luta.

      Sobre o relato do Manolo, do seu colega que passou a denunciar toda iniciativa política à esquerda como coisa de “boy universitário” – apesar do trabalho acadêmico rigoroso ora trabalhado – vejo como um sintoma de um fator amplo que seria:
      entregamos de mão beijada para a universidade, ou ao período que estamos nela, duas ferramentas imprescindíveis da luta de classes: a necessidade de se organizar e a necessidade de pensar criticamente (teoria, pensamento complexo, etc.) Sobre o primeiro elemento, a hesitação e o vacilo de denunciar e enfrentar o atropelo dos alienígenas no Movimento dos Sem Teto da Bahia (MSTB) em 2005 é também sintomática; sobre o segundo elemento, o que precisa aí ser investigado, acredito, é o fortíssimo anti-intelectualismo (elogio constante da prática/ativismo) também enraizados no meio.

      no mais, saúdo novamente a iniciativa da série.
      até breve

    • |

      nov 1, 2013

      |

      Minhas experiências no movimento estudantil já começou com a esquerda toda solta no líquido da conjuntura. Ao entrar na UfBa, com aquela ânsia de mudar o mundo que muitxs tem ao entrar num curso de humanas, fui bombardeada diversas vezes por convites de pessoas que faziam parte do PT, quando não bombardeada, assediada…eram cervejinhas, miguxinhos numa profusão de argumentos orgasmáticos na defesa da transformação social atrás do modelo de representação partidária. E eu que venho de colégio onde o mais perto de política que se chegava era em um assunto e outro nas aulas de história (foi numa dessa que quase me filiei ao pcdob via net).
      Depois veio o estágio de vivência do mst, onde havia um processo de formação política orquestrado pela consulta popular, que centralizavam várias discussões ao seu bel favorecimento, um verdadeira máquina de encaixe de perspectivas militantes. Tudo era Paulo Freire, como se para o processo de transformação econômica, política, social, ideológica só se desse através da educação com elementos lúdicos (nada contra isso, não deturpem por favor), mas parecia que tudo era só fazer teatro, bater tambor e criar musiquinha masturbando uma ideia de poder popular centralizado nos pressupostos organizativos de tal grupo político e na sua tática de militância baseada na expressão ‘vamos com calma, companheiro’.
      Essa minha experiência com consulta popular, se deu em época de eleição de Dilma para presidenta, e haja campanha disfarçada nos acampamentos e assentamentos…me perguntava: esta merda é legítima? primeiro fazem uma formação falando que não disputavam eleição por acreditarem que ao entrar no sistema político uma série de conchavos e promessas de almas são feitas aos fortes grupos econômicos, depois fazem campanha se aproveitando de uma série de pessoas que estão ali na luta por terra e sobrevivência, justificando que é melhor o PT para que a classe trabalhadora não perca suas conquistas históricas?
      E hoje, 2013, a consulta com seus tambores e musiquinhas engessam o movimento estudantil na UfBa se multiplicando como ratxs.
      Mas qual o papel da militância anti-capitalista, anti-racista, anti-sexista, anti-um bocado de merda que só faz nos lenhar num movimento estudantil atualmente?
      Depois das cotas se tornou mais importante ainda lutar por assistência estudantil, por uma educação não-branca, por uma educação voltada para nossas necessidades e superações, não para os interesses do mercado, é um espaço para se pautar o que se vem debatendo nos diversos movimentos sociais…porém a universidade é uma caixinha fechada, trancada e soldada, mesmo que se debata sobre e ‘diga que se apoia’ as lutas dos movimentos sociais isto não sai de lá, são academicistas que acham que só suas pesquisas sobre precarização do trabalho vão revolucionar, ou a agitprop vai fazer ‘as massas de estudantes se levantarem contra o capital’…bom, não é novidade que a universidade é composta em maioria por uma classe pequeno-burguesa branca, como mobilizar? estamos perdendo energia? deixamos para os trabalhos acadêmicos revolucionarem? ou para as ocupações fajutas em espaços que de nada influenciam no andamento dos trabalhos na universidade?
      Está foda por que a universidade do jeito que tá, é um espaço de inicio de militância para muitxs e as referências estão transitando entre governistas e para-governistas que acabam ‘ensinando’ uma maneira de lutar pela transformação social que não é nada anti-autoritária e para além das representações.

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