Mesmo sob pressão, manifestantes voltam à rua no Rio de Janeiro

Mesmo sob pressão, manifestantes voltam à rua no Rio de Janeiro

em 11 fev

Aconteceu mais uma vez a esperada queima da catraca. Com isso ficou o recado de que elas não mais impedirão as pessoas de lutar por seus direitos ou se movimentar pela cidade. Por Passa Palavra

10 de fevereiro de 2014. Primeiro dia útil da nova tarifa na cidade do Rio de Janeiro. E, como já era de se esperar, estudantes e trabalhadores saem às ruas para reivindicar a revogação do aumento, seguindo desde o final de dezembro um intenso e extenso calendário de luta.

Após a forte repressão policial do ato anterior (06 de fevereiro), que levou a duas mortes, o ato teve o local de concentração alterado para o mesmo lugar onde o confronto com a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) se intensificou. A intenção era demonstrar solidariedade a todos os presos, feridos e mortos, inclusive o cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade e o trabalhador ambulante Tasnan Aciolly — a morte do primeiro utilizada como pretexto para uma campanha de criminalização do movimento capitaneada pelas mídias corporativas e a do segundo, atropelado em decorrência do tumulto causado pela PM na última manifestação, completamente esquecida, demonstrando o tratamento desigual oferecido pela mídia em função de seus interesses já há muito conhecidos.

Se no início o clima estava tenso, devido ao grande número de policiais, tropa de choque e constantes revistas, logo os manifestantes começaram a entoar palavras de ordem que rememoravam a motivação das manifestações: contra o aumento das passagens.

A polícia parecia querer provocar alguma situação de confronto, pois qualquer coisa, o porte de máscaras de gás por exemplo, era tratada como motivo para retirar algum manifestante do aglomerado para averiguação e fotografar suas carteiras de identificação. Também foram apercebidas diversas pessoas (supostos manifestantes) que tiravam fotos dos rostos dos que ali se encontravam.

Uma nota de repúdio à ação repressora da polícia e contra a criminalização dos movimentos sociais foi lida antes de iniciar a caminhada. Desta vez o destino da manifestação não foi a Central do Brasil, almejando sair do roteiro, já que a PMERJ havia se preparado para reprimir o ato caso desejasse voltar até àquele espaço. Assim, decidiram que o correto hoje seria marchar rumo à sede da Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro), que congrega dez sindicatos de empresas de ônibus, sendo os responsáveis pelo transporte urbano e interurbano, além de principais beneficiários com o aumento das passagens.

Ao passar pela Assembleia Legislativa, foi possível ver o contingente de cerca de 50 homens, muito paramentados, fazendo um cordão de isolamento para impedir a sua invasão. Desnecessário, já que a manifestação parou em frente ao prédio da Fetranspor, e lá um jogral foi feito para destacar o papel desempenhado pelas empresas gestoras do sistema de transporte, que, dentre outras coisas, estabelecem a política tarifária.

Após o jogral, aconteceu mais uma vez a esperada queima da catraca, símbolo da segregação espacial urbana. Com isso ficava o recado de que não aceitarão mais a existência de catracas e elas não mais impedirão as pessoas de lutar por seus direitos ou se movimentar pela cidade.

Assim, o encerramento do ato contou com o coro: “que coincidência, não tem polícia, não tem violência.” Na realidade, polícia havia aos montes, mas até o final do ato não surgiram grandes problemas. Depois ficamos sabendo por alguns relatos que já na dispersão a polícia conseguiu causar algum tumulto, sendo uma pessoa presa por estar de máscara e se recusar a mostrar sua identificação. A ironia era que, como de praxe, nenhum dos homens da PMERJ estava com as suas próprias identificações…

Este último ato no Rio de Janeiro demonstra que o movimento se afirma mesmo com toda a pressão feita pela mídia, pela polícia e pelos governantes durante os últimos dias. Se a tentativa de criminalização das manifestações não levou ao esvaziamento das ruas, percebe-se que a população não deixará de lutar pelo direito de ir e vir.

Os leitores portugueses que não percebam certas expressões usadas no Brasil
e os leitores brasileiros que não entendam algumas expressões correntes em Portugal
dispõem aqui de um Glossário de gíria e termos idiomáticos.


Comentários 6

    • Lucas

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      fev 11, 2014

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      me faz pensar na reflexão proposta por Leo Vinicius em outro post. A necessidade dos movimentos criarem novos espaços de midia passa também pela própria proteção psicológica dos militantes, bombardeados que somos pela midia tradicional (e mesmo a não tradicional, mas governista). Essa pressão psicológica que a imprensa tem que ser combatida com contra-informação e novos meios “estáveis” de notícias que não estejam sempre pautados pelas grandes corporações. Do contrário o bombardeio diário pode tirar muita energia de militantes e de setores da população dispostos a ir às ruas. Infelizmente nesta época onde a ansiedade habita a flor da pele o excesso de comunicação tem seus efeitos bastante daninhos na saúde mental das pessoas e, em decorrência, em suas lutas.
      Fenômeno talvez parecido foi o medo do golpe de direita em Junho, expostos que estávamos todos às imagens repetidas e diluviantes das bandeiras brasileiras, do caos, da desordem e dos militantes de esquerda apanhando na rua em São Paulo.
      Haja lucidez para aguentar tudo isso!

    • Fagner Enrique

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      fev 11, 2014

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      Sobre a morte do cinegrafista da Band: está havendo alguma campanha de solidariedade no Rio de Janeiro para com o jovem que está preso, acusado de coautoria em crime de explosão e homicídio qualificado, crimes pelos quais uma pessoa pode ser condenada a até 35 anos de prisão (cf., por exemplo, aqui: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1445962)? Creio ser necessário realizar uma forte campanha de solidariedade em favor deste jovem e do outro jovem (que ainda não foi preso) que, em primeiro lugar, não podem ser acusados de terem cometido um crime com intenção de matar para serem, depois, condenados a passar o resto da juventude na prisão. É preciso enfatizar o caráter político das manifestações e da resistência à violência policial, combatendo a criminalização dos movimentos sociais, por mais que se possa tecer críticas a este ou àquele ato isolado. Não podemos permitir que se instale uma temporada de caça às bruxas no Brasil, voltada, sobretudo, contra os Black Blocs. Seria uma grande derrota para toda a esquerda anticapitalista permitir que estes jovens apodreçam na cadeia sem que tenham tido a intenção de matar o cinegrafista (afinal, a polícia responde criminalmente, acusada de homicídio qualificado, por mortes causadas por balas perdidas? É óbvio que se trata de um rojão que acertou o cinegrafista por acaso). É preciso também ressaltar a violência que os trabalhadores da imprensa sofrem, há muito tempo, por parte da polícia (cf., por exemplo, aqui: http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/cinegrafista-da-band-e-baleado-em-operacao-policial-no-rio/n1597355700271.html). Veja-se ainda, por exemplo, esta reportagem, em que está escrito que «a confusão [no ato do dia 06/02] começou no momento em que se iniciou o “catracaço”, no qual pessoas pularam as catracas. Já havia uma quantidade imensa de policiais no local, agindo com muita truculência. Foi então que os manifestantes arrancaram uma das catracas. A partir daí, a ação da polícia transcorreu de forma assustadora. Um grupo de jornalistas que registrava o protesto foi atacado por policiais ainda ali dentro. Uma bomba foi arremessada exatamente à frente de uma linha formada por vários profissionais de imprensa, muitos cinegrafistas e fotógrafos. Foi nesse momento em que um policiais deu um chute na reportagem do Canal Ibase. Dentro da Central, no hall da entrada para os trens e bem ao lado das catracas, dezenas de bombas de efeito moral joram jogadas, para todos os lados, no meio inclusive de trabalhadores que ali estavam apenas para pegar os trens de volta para casa. A palavra “jogadas” não está aí a toa. Quem tem acompanhado os protestos sabe bem que ela é apropriada, uma vez que tem sido recorrente o arremesso de bombas pela polícia sem nenhum critério, a esmo. Não raro, muitos grupos de manifestantes são atingidos pelas costas, enquanto correm, e sem oferecer, portanto, perigo, e sem possibilidade de defesa. A situação se repete em relação a jornalistas que acabam na linha de frente para registrar a situação e, com frequência, têm sido alvejados pela polícia (http://www.canalibase.org.br/morte-em-meio-a-protesto-no-rio/).» Além do mais, a própria Band precisa ser responsabilizada em parte pelo ocorrido, já que colocou um de seus funcionários numa zona de conflito e desprovido de qualquer equipamento de segurança. O cinegrafista da Band não estava usando capacete, colete e outros equipamentos de segurança. Os funcionários da BBC estavam, pelo menos, usando capacetes (cf., por exemplo, aqui: http://www.bbc.co.uk/portuguese/videos_e_fotos/2014/02/140207_cinegrafista_band_atingido_bomba_lgb.shtml). Enfim, penso que não se pode deixar estes jovens à mercê de um sistema judiciário (e de um sistema carcerário) como o nosso. Gostaria de saber se algo já está sendo feito nesse sentido. Por fim, publico este comentário aqui, e não na nota do MPL-Rio (aqui: http://passapalavra.info/2014/02/91473), porque creio ser esta uma tarefa para toda a esquerda anticapitalista, uma responsabilidade de toda a esquerda anticapitalista.

    • Leo Vinicius

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      fev 12, 2014

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      Fagner,
      tendo a concordar com você. Infelizmente não há muito que eu pessoalmente possa fazer no momento, além de expressar minha opinião.

      Aqui um perfil, vindo da Globo (acima de suspeitas portanto), do “terrível fascista-terrorista” como querem pintar mídia e governo e burguesia. Um trabalhador, pobre, lutando por direitos, que obviamente não tinha intenção de machucar e muito menos matar ninguém. Se não estendemos a mão a este, massacrado pela Estado e burguesia, a quem estenderemos?
      http://oglobo.globo.com/rio/acusado-de-detonar-rojao-diz-mae-que-tudo-nao-passou-de-acidente-11578326

    • Leo Vinicius

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      fev 12, 2014

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      Só para acrescentar ao comentário anterior, levando em conta as notícias que povoam os jornais de hoje.
      A primeira ajuda a Fabio e Caio, que estão presos, e ao próprio movimento, seria faze-los entender a necessidade de destituir esse advogado (claro que para isso é preciso lhes dar outro advogado).
      Exploraram o cadáver jornalista e agora exploram o desespero desses jovens nessa situação de linchamento, através de um advogado que certamente está fazendo uso político da situação deles, para atingir simbolicamente tanto o resto dos manifestantes e as manifestações, quanto políticos de esquerda.
      Para esse advogado e para quem ele está servindo, certamente é mais oportuno que esses jovens não sejam soltos e nem sejam bem defendidos, pois mantendo a pressão e a situação de desespero deles, menos discernimento eles terão e mais fácil serão levados a dizer o que o advogado lhes pede.

      Eu havia dito num comentário a um texto neste site que se não tiver bem organizada, com tática, levando em conta o cenário complexo desse ano, a multidão corria o risco de levar olé no meio de campo. Mas tendo tempo de jogo é possível se reorganizar pra correr atrás do prejuízo.

    • Pablo

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      fev 14, 2014

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      O Ato de ontem foi show de bola. Um ótimo número de pessoas, dado o contexto de criminalização das lutas; Pessoal animado (o ato durou quase 5 horas, e caminhamos bastante, da Candelária até a Prefeitura). O recado de que não nos intimidaremos com a ofensiva da direita foi dado em alto e bom som, com muitos gritos de guerra novos e bem-humorados acusando o circo feito pela mídia. O número de BB e anarquistas foi menor do que de costume, o que já era de se esperar já que não me surpreenderia se algumas pessoas gritassem “assassinos” pra gente. Mas nada disso ocorreu, que eu tenha visto; pelo contrário, muitas janelas piscando a luz em apoio ao Ato. Única lástima que notei foi um detalhe da atuação do PCB-PSTU: andando lado a lado, com a faixa da rua separando os grupos, ficavam competindo os gritos de guerra, de modo a um prejudicar a força do grito do outro. Ex: PCB gritando “Não vai ter copa” o PSTU mal esperava e já gritava o grito que pretende ser diferente: “Na Copa vai ter luta”… Um desrespeito e competição realmente injustificáveis. Mas a história tem suas ironias, e num momento mágico e inesperado um grito genial entoado pela massa veio de trás, ganhou força e tapou os gritos dos dois partidos em suas picuinhas. Rá!

      p.s: No mais fiquei até orgulhoso dos partidos (Psol estava mais atrás com muita gente e muitas bandeiras, e tbm tinha bandeira do PCR e MEPR), muitos membros presentes até o fim, sem aquela coisa de desaparecerem ao menor sinal de enfrentamento com a PM, dispostos a enfrentar as próximas lutas e desafios. Se continuar assim daqui a pouco os Partidos entendem que os gritos são iguais e entoam juntos em alto som: “Não vai ter Copa sem luta!”

    • ulisses

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      fev 15, 2014

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      Ações espontâneas de massa contra insuportáveis condições de vida e de trabalho, ainda que não assegurem a vitória, fornecem-lhe os meios, acumulando forças e experiências necessárias.
      Hoje, os critérios para tais ações diretas de massa não se comparam aos do passado. O salto qualitativo da concentração à centralização do capital – do mais-valor absoluto ao relativo, da subsunção formal à real etc. – difundiu planetariamente as unidades produtivas, coligadas em rede, da mesma fábrica social.
      A logística informatizada suprassumiu a linha de montagem.
      Continua invariante a necessidade da luta econômica, da organização classista autônoma. Mas caducou, historicamente, a reivindicação econômico-corporativa, profissional, sindical.
      O momento exige uma concreta universalização de objetivos, posto que não haverá retorno à fase ascendente do capitalismo.
      A solução dos problemas contingentes e locais terá de suplantar as barreiras levantadas pelos que, na esquerda do capital, propugnam o atual populismo interclassista, sustentáculo e beneficiário da maior e mais longa contrarrevolução da história.

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