Moradores do extremo sul de São Paulo lutam pela criação de linhas de ônibus

Moradores do extremo sul de São Paulo lutam pela criação de linhas de ônibus

em 3 mar

Hoje os moradores de bairros do Extremo Sul paulista estão em luta pela criação do transporte. Mas qual transporte? Por Passa Palavra

Na manha desta terça-feira (3), centenas de pessoas protestam em frente à Subprefeitura de Parelheiros e bloqueiam o trânsito da Avenida Sadamu Inoue. Os moradores estão denunciando a inexistência de qualquer serviço de transporte coletivo em seus bairros, situados na zona semi-rural da capital paulista. Eles exigem do governo a criação imediata de cinco linhas de ônibus e a melhoria urgente das vias.

O ato teve início ainda de madrugada, em quatro locais diferentes de concentração. Os moradores se reuniram nos pontos centrais de seus bairros e seguiram – alguns de ônibus, outros em caminhada – até o Cemitério dos Girassóis, onde os diferentes grupos se encontraram por volta das nove horas para dar início à marcha.

Assembleia dos moradores dos bairros da Barragem

Assembleia dos moradores dos bairros da Barragem

Não é de agora que a população desses bairros reivindica o transporte público. Mas esta é a primeira vez que as várias comunidades que sofrem com o mesmo problema se juntam em uma mobilização unificada: Parque Oriente, Estrada do Juza e Bosque do Sol, próximos ao centro de Parelheiros; Jd. Paulista, Cidade Luz, Santo Antônio, Evangelista de Souza e Jd. Vera Cruz, na Barragem; Ponte Seca, Mambu e Reserva, no Marsilac; além das aldeias indígenas Tendoré-Porã, Krucutu e Eukalipto-Tekoa.

A falta de transporte força os trabalhadores da região a enfrentar quilômetros a pé todos os dias até algum ponto de ônibus mais próximo, tornando sua jornada de trabalho ainda mais exaustiva. Sem luz ou asfalto, caminhar pelas vias quando é noite ou madrugada é um risco: não faltam histórias de atropelamentos e de violências contra mulheres. Os problemas da região não se limitam ao transporte. Nas escolas, faltam professores. Nos postos de saúde, os pacientes sequer chegam.

Mobilização dos moradores da Ponte Seca

Mobilização dos moradores da Ponte Seca

A decisão de marcar o ato de hoje foi tomada no início de fevereiro, numa assembleia dos moradores da Barragem. Daí em diante, foram dias de intenso trabalho de divulgação: panfletagens – nos pontos finais de ônibus, de porta em porta, nas igrejas e nas festas comunitárias –, cartazes nos postes e comércios, anúncios nas ruas com carro de som, etc.

A luta da região do Marsilac em 2014

Se os problemas não são de hoje, a luta também não começou agora. No primeiro semestre de 2014, a mobilização da população da Ponte Seca e do Mambu, no Marsilac, fez chegar aos noticiários dos jornais o nome de seus pouco conhecidos bairros. Após um ano de tentativas de diálogo com o poder público em vão, os moradores cansaram da enrolação e organizaram por si próprios uma “linha de ônibus popular”: com o dinheiro levantado em bingos e quermesses, fretaram um micro-ônibus que operou ao longo de um dia inteiro sem cobrar tarifa.

Mesmo após a mobilização, o poder público não tomou qualquer atitude. Foi então que alguns moradores viajaram quase cinquenta quilômetros até a Prefeitura Municipal, onde se acorrentaram até que tivessem suas urgências atendidas. A ocupação tomou de susto os assessores que cuidavam do prédio, e em reunião foi acordado que a linha reivindicada iniciaria suas operações em vinte dias.

O prazo passou e nada aconteceu, mas ao mesmo tempo em que se abateu a frustração, descobriu-se que além da região do Marsilac, vários bairros próximos sofriam com a falta de transporte. Para vencer, seria preciso então somar forças.

Assembleia na Paróquia São José, no Bosque do Sol

Assembleia na Paróquia São José, no Bosque do Sol

Organização popular nos bairros do Extremo Sul

Ao longo do segundo semestre, a Luta do Transporte no Extremo Sul se espalhou por outras regiões de Parelheiros que sofriam com o mesmo problema. A experiência de auto-organização e ação direta dos trabalhadores do Marsilac, registrada em vídeo e divulgada, passou a servir de exemplo e inspiração para os de outros bairros.

O período das eleições no segundo semestre aguçou a desconfiança geral da população em relação à política. Nos bairros, não faltavam casos de candidatos que haviam prometido a criação das linhas, ou seus cabos eleitorais organizado abaixo-assinados. Esse contexto levou o movimento a afirmar mais claramente seu caráter autônomo, para não ser confundido com os candidatos: “a única promessa aqui é uma promessa de luta”.

Assim, tal qual ocorrera na Ponte Seca, moradores de outros bairros também organizaram bingos e quermesses, arrecadando fundos para fazerem também uma “linha popular”. Essa interessantes experiências trouxeram ainda um importante ganho político: esses eventos serviram como experiências iniciais de organização coletiva e de construção de vínculos entre os moradores – principalmente das mulheres, visto que em geral são os maridos que tem carros ou motos próprias. A luta coletiva em torno de um problema comum demonstrou ser capaz de superar cisões ideológicas internas das comunidades, juntando em um mesmo movimento evangélicos, católicos, umbandistas e indígenas.

Linha tarifa zero no pós-balsa, São Bernardo do Campo

Linha tarifa zero no pós-balsa, São Bernardo do Campo

Implementação das pautas, recuperação das lutas

O principal entrave à criação das linhas de ônibus alegado pelos gestores é de ordem técnica: como parte dos bairros está no perímetro de uma área de proteção ambiental, seria necessária uma licença especial. Mas nada sustenta que tal licença não possa ser dada, visto que existem comunidades consolidadas, onde já passa caminhão de lixo, ônibus escolar, caminhão-pipa; e que vários outros bairros na mesma região já contam com linhas regulares de transporte.

Há ainda outro entrave, que talvez pese mais: no atual contrato, as empresas de ônibus são remuneradas a cada passageiro embarcado. Assim, itinerários longos com baixa rotatividade de passageiros jamais serão interessantes a seu lucro. Soma-se isso à situação precária das vias, que aumentaria os gastos com manutenção dos veículos. A saída proposta pelos moradores é que as futuras linhas sejam subsidiadas – algumas das comunidades chegam a defender que as viagens sejam gratuitas.

A ideia de uma experiência localizada de Tarifa Zero e municipalização não é realidade distante. Na zona do pós-balsa de São Bernardo do Campo, que faz divisa com os bairros da Barragem, há uma série de linhas rurais gratuitas que operam com intervalos maiores, em trajetos como Taquecetuba, Água Limpa, Tatetos, Curucutu, Tubão, etc. Devido à densidade populacional própria do campo, é comum que não se cobre tarifa no transporte coletivo rural.

Linha popular Mambu-Marsilac, em 2014

Linha popular Mambu-Marsilac, em 2014

É esse modelo que defende o movimento, mas nada indica que será implementado. Se em um primeiro momento o governo simplesmente rechaçou a criação da linha, no último período isso parece vir mudando. Empresários da região – donos de chácaras e hotéis de ecoturismo – agora também encampam a pauta, subvertida, é claro, a seus interesses: se o problema era o meio-ambiente, então que tal uma linha ecológica e turística, com horários mais restritos e só aos finais de semana, tarifas mais caras e venda antecipada só no centro da cidade?

Na mesma toada, o novo Plano Diretor da cidade esboçou o projeto de transformar a região, até hoje abandonada pelo governo, em polo turístico. Aí se encaixam outros projetos de transporte mirabolantes para lá, como a reativação da antiga ferrovia de carga do Varginha à Evangelista de Souza, no Barragem, como linha turística; e a construção de um aeroporto particular encampada por Paulo Skaf, líder da FIESP e ex-candidato à Governador do Estado.

Hoje os bairros do Extremo Sul estão em luta pela criação do transporte. Mas qual transporte? Os trabalhadores se mobilizam pelas linhas de ônibus para viver: ir e voltar do trabalho mais rapidamente e com dignidade, ter acesso ao atendimento médico, estudar fora, passear. Mas também na região estão capitalistas interessados em ampliar seus lucros. De que forma se efetivarão as reivindicações, dependerá da luta.

ATUALIZAÇÃO: Leia aqui o informe da mobilização de hoje publicado pela Luta do Transporte no Extremo Sul.

Imagens da ação de hoje (03.03.2015)

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