Luta nos aplicativos: relato de uma trabalhadora do call center da Uber

A empresa segue o raciocínio do famoso pão e circo, e assim permanece soberana e intocável. Por uma trabalhadora

Dando continuidade à série sobre lutas nos aplicativos, o Passa Palavra está buscado contato com trabalhadores de empresas centradas em aplicativos, na tentativa de analisar os mecanismos de exploração nesse setor. Este relato, de uma trabalhadora numa empresa que presta serviço de call center para Uber, lança luz sobre um outro trabalho fundamental para a produção dessa tecnologia. Se você trabalha numa empresa de aplicativo, envie também seu depoimento – garantimos o anonimato.

Teleperformance transformando paixão em excelência!!! (Claro que não para os trabalhadores e sim para os patrões). Esse é o principal slogan da empresa multinacional francesa que terceiriza serviços de atendimento ao cliente no Brasil há 18 anos. Desde 1998 a corporação fatura contratos milionários no país e vem se estabelecendo cada vez mais no ramo de Call Centers. Dentre as principais empresas para as quais presta serviço, estão: Nextel, Amil/Medial, Qualicorp, Aig Seguros, Sky, Sem Parar e Itaú.

Sua mais nova menina dos olhos no momento é a prestadora de serviços em transportes particulares, a norte-americana UBER. O atendimento aos usuários e motoristas é feito por email, o que sugere um trabalho mais “tranquilo”, só não é divulgado o cotidiano e as péssimas condições de trabalho oferecidas, enquanto fatura os milhõezinhos da UBER, e solidifica cada vez mais o serviço no país. Funcionários são cobrados hora à hora por produção, sendo coagidos pelos supervisores diante dos demais companheiros de trabalho caso não tenham atingido as metas impostas. Quanto mais emails nas caixas a responder, mais perseguido é o trabalhador para fazer horas extras; e se este não pode, por sua vez, acaba sofrendo assédio e deboches entre os colegas. A operação funciona 24 horas, e também é vigiada: espécie de capatazes são pagos para se certificar de que não há nada no posto de atendimento que comprometa o “sigilo dos clientes e parceiros”. Na verdade, o medo é que se comprometa o “segredo” de que a UBER está com um serviço de atendimento no Brasil e se enraizando, assim como lucrando em massa. Não há janelas no local, e seu entorno é vedado, evitando que se enxergue o que ocorre em seu interior. A sensação é de extremo sufocamento.

Mesmo com contratos na proporção de lucro que tem (em 2008 já faturava 360 milhões de reais no Brasil), a Teleperformance oferece salários extremamente baixos. A média varia entre 880 e 1000,00 reais ao mês, por seis dias trabalhados e uma folga semanal; o “vale-coxinha” (refeição) é de 6,90 reais diários, o que mal paga as refeições nas lanchonetes internas. Já o plano de saúde só é liberado após o término da experiência de três meses, não importa que haja a possibilidade de o trabalhador ficar doente nesse período. Vale ressaltar que a empresa ainda vende a ideia de que, entre as concorrentes do ramo, ela paga salários e benefícios acima da média. Semanalmente uma pessoa do setor de “qualidade” divulga os nomes que tiveram os melhores índices de bom atendimento de acordo com pré-requisitos também estabelecidos pela empresa, gerando competição ou rebaixamento dos que não contemplam as exigências. Os “prêmios” são normalmente: canecas, cosméticos ou quinquilharias sem muita serventia a quem necessita pagar aluguéis e sobreviver na cidade mais cara do país – os “brindes” são oferecidos como a máxima de gratidão pelo esgotamento dos trabalhadores.

A corporação capitalista diz que preza pelo “bem estar” dos funcionários, mas oferece treinamentos teóricos massivos que pouco os instruem para a função, jogam-nos para trabalhar sem preparo, a fim de que aprendam forçosamente sozinhos as atividades, e assim consigam dar conta das demandas e metas que impõe. Durante o período em que treinam os funcionários, implantam a ideologia de que para alcançar o “sucesso”, os trabalhadores têm que dormir na empresa, vide vídeo onde os trabalhadores da unidade Egito são enaltecidos por terem deixado suas famílias em casa durante os conflitos de 2013, trabalhando e dormindo nos locais de trabalho, para salvar o “negócio” de bilhões que perderiam se não fosse garantida a média de atendimento para as empresas capitalistas que prestam serviço. Uma espécie de lavagem cerebral, assim como o manejo dos princípios que irão dominar sobre os novos funcionários, ou seja, sugerem o tempo todo que devem seguir este exemplo para alcançar “promoções”.

Não é exposto em momento algum o quanto a empresa fatura anualmente e o quanto poderia realmente pagar pela mão de obra dos funcionários; seu prisma é oferecer prendas e festas, como espécie de esmolas que fazem parecer ser modos de reconhecimento pelo serviço, velando a exploração e opressão presente constantemente em todos os ambientes da empresa. Em Portugal abusam da prática de aplicação de cursos durante 15 dias, o que, segundo eles, irá dizer se os candidatos a trabalho estão ou não aptos à função. Durante esse período os mesmos pagam transporte e refeição do bolso, não sendo reembolsados, algo que ainda não ocorre no Brasil, entretanto os reembolsos dos gastos durante treinamento atrasam ou são pagos por incompleto.

A famosa empresa, tida como uma das “melhores para se trabalhar no mundo”, segue o raciocínio do famoso pão e circo, e assim permanece soberana e intocável. Decerto com as costas bem largas junto aos governos atuais brasileiros e mundiais, para cometer tais atrocidades e ataques contra os trabalhadores (as). Mas isso só irá acabar quando a classe trabalhadora dessa categoria se unir, promovendo greves, pressionando melhores salários e condição de trabalho em todo globo em que esse cativeiro está implantado.

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2 respostas para “Luta nos aplicativos: relato de uma trabalhadora do call center da Uber”

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