Por que antinacional?

Por que antinacional?

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em 21 mar

O nacionalismo é uma das ideologias mais poderosas para justificar a exploração e a subordinação. Por Gegen Kapital und Nation & Critisticuffs

É senso comum na esquerda brasileira o combate ao “imperialismo”, personificado em um ou dois países, em defesa das instituições democráticas, da soberania nacional, da pátria grande, etc. Esse texto, traduzido dos coletivos irmãos Gruppen Gegen Kapital und Nation (Alemanha e Áustria) e Critisticuffs (Londres), desmistifica os principais argumentos que buscam ver no Estado-nação uma forma quase natural ou historicamente inevitável de organização dos seres humanos. Pelo contrário, os autores defendem que o nacionalismo vai de encontro a qualquer projeto emancipatório anticapitalista. Mais recentemente, vale dizer, revisaram alguns argumentos. Num momento em que o discurso nacionalista mostra sua verdade e revela as profundas intersecções entre a extrema-esquerda e a extrema-direita, parece fundamental discutir o tema. As notas, salvo em caso de [N.T.], são do original. Traduzido por Macário

Por que antinacional?

Quando declaramos nossa oposição ao capital e à nação, muitas pessoas poderiam concordar se colocássemos um “ismo” depois de “nação”. Hoje em dia ser um nacionalista não é motivo de orgulho, pelo contrário, isso é restrito ao British National Party e a seus semelhantes. Um verdadeiro e democrático cidadão não se considera um nacionalista, pois prefere o muito mais honrado título de “patriota”. Um patriota, segundo o senso comum, não despreza outras nações, mas, “ao contrário” e “apenas”, ama a sua própria. Esse amor se expressa de várias maneiras:

– Torcer para as equipes inglesas, galesas, escocesas ou britânicas, em qualquer esporte que esteja passando na televisão é uma obvie

dade. Se elas ganham “nós” ganhamos é, por alguma razão, implícito[1].

– “Trabalhos britânicos para trabalhadores britânicos” [British jobs for British workers] – Gordon Brown e alguns grevistas selvagens de Lindsay compartilhavam a apreciação pelo slogan. A única discordância de um liberal seria o prejuízo à “nossa” economia.

– “Estamos” todos juntos na crise financeira e precisamos apertar os cintos. No interesse da “nossa” economia teremos que tomar umas pancadas. Embora alguns daqueles “banqueiros gananciosos” talvez tenham, também, que abrir mão de algumas regalias por “todos” nós nesses tempos de crise.

– “Nossas” tropas merecem o “nosso” apoio no Afeganistão. Alguém pode discordar do governo, mas isso não “nos” afasta das tropas que arriscam suas vidas para “nos” servir.

– Alguns até se perguntam quantos imigrantes “nossa” cultura e país podem aguentar.

Ainda que essas afirmações digam respeito a tópicos bem diferentes, todas elas têm algo em comum: em primeiro lugar, são baseadas numa definição comum de “nós”, isto é, quem pertence a esse grupo e quem não pertence: “Nação denota um povo que, acredita-se, compartilha costumes, origens e história comuns” (Wikipedia). Algumas pessoas também mencionam a língua. Em segundo lugar, essas afirmações sugerem algum conteúdo que deriva dos membros do grupo (direito a tratamento melhor ou coletivo pelo qual vale a pena se sacrificar). A justificativa dos grupos em questão e as demandas em nome desses grupos é o que chamamos de nacionalismo.

Na primeira parte desse artigo vamos considerar os vários argumentos usados para justificar a nação. Alguns deles estão atualmente fora de moda e pode parecer um pouco desnecessário e tedioso combatê-los nesse nível. No entanto, essas justificações não são tão obsoletas quanto alguém poderia esperar e, além disso, elas têm uma existência implícita na lei da cidadania.

Na segunda parte explicaremos o porquê e como as pessoas são subordinadas na nação moderna. Também daremos razões do porquê da ideologia do coletivo nacional obter tanto sucesso – e por que todos os exemplos de “patriotismo” citados são exemplos de partidarismo da própria nação. Mesmo se aceitarmos a separação comum entre patriotismo e nacionalismo, notamos que o amor à própria nação é pré-requisito para nacionalistas desprezarem outros. É o julgamento positivo de “sua” nação que os permite julgar outros negativamente. Embora nem todo “patriota” deva fazer a transição, a apreciação por uma nação é uma condição para a desaprovação nacionalista de outros. De todo modo, criticamos o nacionalismo por seu amor a um país. Assim, a divisão proposta entre patriotismo e nacionalismo não desempenha papel na nossa crítica.

Antes de continuarmos com as justificações particulares em favor das nações e do nacionalismo em geral, notamos que a necessidade de explicar ou de justificar um grupo ou coletivo particular só aparece se os interesses comuns daquele grupo não forem laços suficientes ou autoevidentes. Quem se preocuparia tanto com a base comum de algum grupo de boliche (comparado a membros competindo entre si num Estado-nação moderno)? Porque no grupo de boliche a base comum é tão óbvia – jogar boliche – que ninguém se preocuparia em justificar ou dar razões do porquê desse grupo ter fortes laços e ser considerado um grupo de interesses comuns.

1. Os mitos fundacionais da nação

Sangue Comum

A ideia de que seres humanos podem ser separados em várias raças e povos baseados em sua biologia e, particularmente, em seu sangue está fora de moda (exceto para a maioria dos fascistas) e pode ser facilmente refutada. As variedades de tipo sanguíneo são o fator rhesus (positivo ou negativo) e grupo sanguíneo. Em todas as partes do mundo há pessoas de tipo A, AB, B e 0 e não há nação que tenha apenas indivíduos de um só grupo[2]. Há variações biológicas dentro de uma distribuição geográfica. Em alguns casos, certa doença pode existir apenas em certas áreas ou em uma área onde as pessoas tenham mais semelhanças biológicas que a média global. No entanto, não há correspondência para a maneira como o mundo é dividido em Estados-nação; características biológicas não respeitam fronteiras. Não nos debruçaremos agora sobre o motivo das pessoas tomarem essa classificação característica fundacional da unidade da nação. Aqui o ponto é simplesmente mostrar que a biologia não é uma justificativa lógica para o pertencimento de cidadãos a uma nação.

Linguagem Comum

Linguagem é algo a que todos os Estados[3] se referem: é um assunto legal e todos os Estados possuem uma língua oficial – ou várias línguas oficiais. A Suíça, por exemplo, por sua mera existência, mostra que a linguagem não pode ser tão decisiva para constituir uma nação: o país tem quatro línguas oficiais. Isso não parece ser motivo para uma ampla defesa de sua divisão em quatro unidades separadas ou para sua anexação a vizinhos sob uma justificativa linguística. Por outro lado, os britânicos não possuem o uso exclusivo da língua inglesa como língua materna. Uma nação = uma linguagem não é, obviamente, o critério segundo o qual o mundo é dividido, e critério linguístico não pode ser a razão da existência de cada nação.

Mesmo assim, a linguagem é um instrumento comum de legitimação para movimentos nacional-libertadores. Durante os anos 90 na Iugoslávia, era muito comum salientar que Serbo-Croata não era uma língua – Bósnio, Croata, Sérvio (e Montenegrino), por outro lado, sim. Após árduo trabalho os primeiros resultados apareceram: em Croata, por exemplo, palavras foram inventadas a fim de que Sérvios não as entendessem, e vice-versa. A formalização daquelas diferenças, de fato, separou o que era falado e escrito em diferentes partes do país[4]. O contrário também foi verdade: quando o Estado alemão foi fundada em 1871, 2% falavam um alemão mais ou menos similar ao de hoje. A unidade linguística foi estabelecida por decreto e força para ser aceita de bom grado pela população da maioria dos Estados modernos.

Diferenças estabelecidas ou não, o argumento da linguagem ignora o fato de não existirem fronteiras rigidamente traçadas entre linguagens: muitas línguas vizinhas são similares e influenciam-se mutuamente. Não há critério objetivo para definir o que faz de um dialeto um dialeto de uma língua ou uma língua independente[5].

Ainda que a língua fosse um meio adequado para dividir o mundo em nações, ela é uma habilidade que pode ser aprendida. Ela é apenas a forma exógena de um pensamento. O conteúdo de qualquer texto pode ser escrito, falado ou pensado em qualquer língua. A língua na qual a ideia é expressa não pressupõe nenhum conteúdo ou sentimentos. Portanto, não pode ser uma razão para diferenciar nacionalidades e, assim, uma prova do porquê nações são nações.

Cultura Comum

O mesmo argumento vale para os “costumes”. É certo que muitos ingleses adoram uma xícara de chá – mas é óbvio que nem todos (e há rumores que alguns até odeiam), sem falar nos estrangeiros que amam. Toda a preferência de comportamento, habilidade, cheiros, etc. é uma questão de gosto. Tomar um gole de chá pressupõe só duas coisas: a pessoa conhece a bebida e está interessa ou quer descobrir se o gosto lhe agrada. Mas a decisão de participar em determinada atividade é uma questão de vontade. O resultado da decisão de alguém não é determinado por sua nacionalidade; portanto, a nacionalidade não pode ser a razão nem para destaques culturais e nem para horrores culturais.

O argumento pode parecer muito formal. Afinal, ninguém (exceto o BNP [British National Party] e gente do tipo) defende que os todos os membros de uma nação compartilham as mesmas qualidades. Isso seria apenas uma tendência: pessoas no Reino Unido, em média ou por números, falam inglês, bebem cerveja, são educadas e críticas da Guerra no Iraque. Falando mais globalmente: é claro que há lugares onde a cítara é tocada regularmente, enquanto em outros ela é completamente desconhecida. No entanto, essa diferença estatística não serve de base para uma nação. Para cada exemplo no campo das línguas, dos costumes, da cultura etc. haverá membros de uma nação com mais características em comum com membros de outras nações, e um membro de uma nação que não tem nada a ver com outro membro da mesma nação, ao menos segundo essa definição. A única diferença objetiva é que um membro de determinada nação está mais suscetível à exposição de um costume particular, um prato etc. enquanto pessoas de muito longe podem ignorar sua existência – uma situação tal que pode ser resolvida a nível pessoal, como lendo um livro, por exemplo. Finalmente, mesmo que houvesse uma região particular com um costume particular não praticado em lugar nenhum, isso ainda não seria suficiente para constituir uma nação. Os adeptos poderiam simplesmente fundar um clube, um time ou o que achassem melhor.

O alastramento de uma cultura não é tão inocente como pode parecer. O Estado “apoia” seus cidadãos fazendo escolhas culturais. O significado de cultura nacional é ensinado do jardim de infância à universidade. Por meio de diversos programas e esquemas do Ministério da Cultura, o governo decide quais exibições, quais artistas, qual vertente cultural impulsionar. Cultura nacional é algo coproduzido pelo Estado e é um resultado de suas ações.

A apreciação nacionalista da cultura inclui a afirmação do “verdadeiro inglês” [real Englishman] Shakespeare ou da “nossa” J.K. Rowling – como se todo britânico que apreciasse a escritora fosse seu melhor amigo e, portanto, ficasse feliz por seus livros serem tão bem recebidos. O ponto é outro: “nossa” cultura nacional é ostensivamente expressada por meio da “nossa” J.K. Rowling. É certo que qualquer trabalho cultural se refere a outros produtos culturais e isso inclui peças de arte de mesma origem nacional. É uma reflexão sobre o que existe. No entanto, desnudando e processando a arte do presente e do passado, cada peça de arte é algo novo exatamente por fazer tal referência. Em outras palavras, é exatamente a falta de identidade que distingue um produto cultural, sua singularidade, não sua identidade com qualquer cultura nacional. Os tão adorados tesouros culturais são tesouros porque não são como o resto. Além do mais, ao passo que as referências feitas por produtos culturais não serão um tributo de todos os tipos de trabalho em todo o lugar, a arte nunca foi detida por fronteiras nacionais, nem nunca foi um produto nacional. Somente por causa da cidadania do artista a arte é classificada como inglesa, francesa ou qualquer outra – devendo ser considerada assim pelas pessoas. Mas não há nada sobre a própria peça que a faria pertencer a uma nação.

História Comum

Numa primeira olhada, “história comum” parece um princípio fundacional bastante objetivo. É algo que aconteceu e (geralmente) exigiu a participação de muitas pessoas. Ninguém pode escrever a história sozinho. História comum, isto é, a história compartilhada por uma nação é aquilo que aconteceu às pessoas pertencentes àquele grupo no passado. O Reino Unido, por exemplo, foi fundado em 1707, foi um poder mundial até um pouco depois do século XIX e ajudou a vencer a Segunda Guerra Mundial. Em tempos mais modernos, seu governo assumiu posição firme contra o movimento organizado dos trabalhadores nos anos 80, seu público discutiu calorosamente a necessidade de tropas britânicas no Iraque, o tamanho de uma modelo saudável e as preocupações sobre as taxas de gravidez na adolescência.

Até agora bem bizarro. De novo, a questão é se tudo aquilo funda uma nação. Falar sobre esses fatos do passado e do presente britânicos já pressupõe a unidade do povo que deveria ser explicada. A história nacional antes do Estado-nação é uma projeção anacrônica: somente quando o “nós” é definido que um grupo de pessoas, há muito mortas, pode ser transformado num coletivo. Um coletivo preso ao atual pela história. De qualquer maneira, para todos os efeitos, não pode existir um “nós” cem anos atrás, pois daquela época ninguém mais está vivo. Mas até para eventos mais recentes a maioria dos empreendimentos e das decisões são tomadas com uma minoria considerável de pessoas opondo o projeto; e, mesmo assim, eles ainda são cidadãos. O processo contrário faz as coisas se encaixarem: se a nação já existe, com todos os seus cidadãos, então há um coletivo e uma história que pode ser referida como “nossa”.

Se essa história é considerada como uma (ou até a única) justificativa para a nação, então esse procedimento põe de ponta cabeça e relação entre nação e história: sem a nação simplesmente não haveria nada da sua história, a história é, simplesmente, o resultado de sua formação.

De novo, é o Estado que cria esse ​quid pro quo por meio da educação de seus sujeitos sênior e juniores, educando-os sobre “sua” história nas aulas de história, nos museus e nos canais de TV públicos.

Algumas observações sobre a formação dos Britânicos

Olhemos mais de perto como os britânicos foram formados. Por onde devemos começar? Stonehenge e rei Arthur? As tribos celtas na Bretanha não se referiam como bretões e não se consideravam pares; rei Arthur é um mito. Talvez a Batalha de Hastings? Um massacre causado pelo conflito entre duas elites disputando a terra e a exploração de camponeses – que ótimo ponto de partida. Que tal a fundação da Igreja Anglicana? Um rei que queria um herdeiro homem e aproveitou a chance de se apossar da igreja (além da riqueza do clero) mais uma rainha que usou a fé protestante para estabilizar seu reino; eis um motivo para adorar uma nação! Talvez Cromwell e a Primeira Revolução seja um lugar para começarmos? É claro, principalmente pela invasão da Irlanda e o regime colonial, quase racista. Um marco na história Inglesa e Irlandesa, com certeza. Deveríamos continuar com a união entre Inglaterra e Escócia, quando a nobreza escocesa foi subornada pela coroa inglesa – se não pode vencê-los, compre-os! A intenção não era unir os “irmãos britânicos”, mas apenas livrar-se de um competidor e permanente ameaça à ilha britânica e permitir à burguesia escocesa um acordo quando a Bretanha começasse a conquistar seu Império. Seria possível continuar, mas chegaríamos a uma só conclusão: a Grã-Bretanha, como qualquer outra nação, é um produto de combates implacáveis, massacres, guerras, lutas de classe, interesses econômicos, estratégias monárquicas e até meras coincidências.

Quando o processo de construção da nação começou, ninguém pensou num Estado-nação, mas foi o resultado – com todas as consequências. É possível que reis e rainhas tivessem em mente prestígio, adoração e sujeitos leais; padres elevaram a rainha Virgem acima da virgem Maria; aristocratas e mercadores se importavam com a riqueza. Tudo isso culminou num Estado com um único objetivo: sucesso nacional. Convencidos de sua missão branca e protestante, com medo de seus competidores, franceses, espanhóis, holandeses, portugueses, suecos e outros, interessados em súditos leais e soldados, as elites mandantes da Bretanha fizeram todo o possível para espalhar a “britanidade” [Britishness]. Por mais de dois séculos britanidade significou Inglaterra por causa da predominância econômica, política e cultural da pequena nobreza e burguesia inglesas. Ensinada em escolas, rezada em Igrejas Anglicanas e dissidentes, representada na arte e na literatura, transportada até por meio de propaganda para os produtos Olde English e etc. A invenção de uma herança nacional não era uma conspiração, mas era baseada em convicção.

Mas temos que esquecer e perdoar se realmente amamos nosso país. História nacional é precisamente isso – encorajar todos a verem a história através de lentes nacionais: a Grã-Bretanha é aquela retratada pela alta classe ​kitsch dos campos ingleses no verão. Não pense em todas as pessoas mortas na formação da Grã-Bretanha. Se o fizer, não a considere como banho de sangue, fome, terror, o uso cínico de vidas em favor de políticos, capitalistas, reis, nobres, generais – considere-a “um sacrifício heroico por todos nós”. E não se atreva a perguntar quem somos “nós”.

Agora algumas pessoas podem dizer: você está certo, a Grã-Bretanha é inventada. A Inglaterra, a Escócia, o País de Gales, o Ulster e/ou Irlanda – esses são de verdade! Com o declínio do Império um novo nacionalismo começou a nascer na Grã-Bretanha, parcialmente inventado, parcialmente revivido – e, hoje, discussões sobre identidade, devolução e uma possível divisão da Grã-Bretanha prendem a atenção do público. Mas isso não adianta, pois é uma prolongação e intensificação: pode-se mostrar que o que é verdade para a história britânica também é verdade para a história das “quatro[6] nações das Ilhas Britânicas”. Não faz sentido elucubrar sobre identidades nacionais e lamentar histórias nacionais suprimidas ou escondidas. Seria melhor ater-se à política real dos Estados-nação. Essa resposta não reside na história.

Patriotismo Cívico

Alguns defendem que o que garante a manutenção do Estado-nação é uma suposta decisão comum dos indivíduos. Esse entendimento supõe um acordo comum sobre valores e o coração da organização política da nação – sejam os direitos humanos, a constituição ou a Carta Magna. Em suma, é a ideia do contrato social de Rousseau como fundamento da nação. Pode ser verdade que a maioria dos cidadãos concordam com os princípios que governam suas sociedades – mas alguém os haveria alguma vez perguntado? Ou alguém poderia entrar num Estado moderno simplesmente pela assinatura da Bill of Rights dada por um amigável policial do aeroporto? Obviamente não[7]. É mais ou menos dado como certo (e ativamente fomentado) que, numa democracia, as pessoas compartilham a confiança num sistema político, mesmo que isso não seja declarado.

Comunhão e afirmação

Mesmo que todas as nossas refutações estivessem erradas e quaisquer características mencionadas acima fossem, de fato, fundacionais de uma nação, seria possível basear sua existência apenas num caráter autoevidente de filiação. Provaria que as pessoas de uma nação são culturalmente, historicamente ou linguisticamente, de alguma forma, destinadas umas às outras. No entanto, ainda não explicaria porque as pessoas deveriam se referir positivamente à nação. Mesmo que a língua nativa de alguém seja inglês, mesmo que o vovô tenha lutado na Segunda Guerra Mundial pelo Aliados e mesmo que se goste de chá. Nada disso implica partidarismo em assuntos que não envolvam chá, discussões em inglês e histórias de guerra. Essas características não explicam partidarismo.

2. Fundação da nação

Até agora esse artigo apenas desconstruiu o mito segundo o qual as nações existem por causa da ligação entre seus indivíduos. Mas essa desconstrução só pode ser o começo: as explicações comuns para a nacionalidade não explicam a nação. No entanto, Estados-nação existem e estão longe de ser mera ilusão[8]. Seu ato fundamental é a asserção do monopólio da violência. Ninguém, a não ser o Estado, pode usar a força para subjugar outrem. Isso exige pessoas sob o domínio do Estado e um território onde seu poder não seja desafiado: o Estado-nação se impõe como o poder supremo na sociedade e faz as pessoas vivendo em seu territórios sujeitas a si.

Declarando e exercitando o poder sobre seus sujeitos, o Estado cria certa similaridade entre eles: cada um de seus súditos é subordinado ao seu poder[9]. A nação é uma comunidade forçada e é baseada na violência: em cada fronteira pessoas arriscam suas próprias vidas e muitas morrem tentando entrar (ou sair, dependendo da situação). Ninguém nascido em qualquer Estado é perguntado se quer ou não – de cara, ter garantida a cidadania[10]. Assim, o popular “nós” é objetivamente baseado num ato de poder do Estado. Consequentemente, o uso da palavra “nós” para se referir aos súditos sob o mesmo monopólio da violência não seria ideológico. O Estado britânico cria os britânicos. Mas quase nunca isso é o que se entende quando as pessoas falam de “nós”. Elas consideram natural, uma qualidade das pessoas que vivem sob uma área que um dia foi subordinada e unida por um Estado-nação. “Nós” expressa identificação, uma atitude positiva com respeito à nação.

3. Nacionalismo

Com todo o poder sobre os seus sujeitos, há uma coisa que o Estado não pode fazer: criar uma consciência em geral. Não pode fazer das pessoas nacionalistas, não pode criar a consciência adequada. Ele pode punir as pessoas por algumas coisas, mas não pode controlar o que elas pensam. Isso elas têm que fazer por si mesmas. Ainda assim, quase todo mundo tem uma atitude positiva com “sua” nação[11]. Quase todo mundo a considera um coletivo desejável. Essa ubiquidade do nacionalismo nos leva de volta à maneira como as pessoas trabalham e consomem nessa sociedade.

Dependência mútua

Todos precisam de certas coisas: comida, roupas, cerveja, Macbook Airs, as obras completas de Calvin e Haroldo… Já que a maioria desses produtos é difícil de se conseguir de uma vez só, as pessoas dependem umas das outras por meio da divisão do trabalho. Em qualquer forma de divisão do trabalho os produtores são materialmente dependentes uns nos outros. No entanto, nessa sociedade, a divisão do trabalho é algo muito longe do racional, de uma divisão do trabalho de produtores trabalhando de acordo com um plano comum.

Liberdade uns dos outros – propriedade privada

Nessa sociedade, mercadorias são produzidas para o mercado e vendidas para se conseguir dinheiro. Um fabricante de aço não se preocupa, primordialmente, com o aço que é produzido em sua fábrica, nem com o que pode ser feito com esse aço, mas com o lucro que se pode obter. Similarmente, os trabalhadores da fábrica não são obrigados a se preocupar com o produto final, eles trabalham para ganhar um salário. A organização desse processo é feita sem coerção direta. Mesmo os participantes mais dependentes, a classe trabalhadora, não são obrigados a trabalhar pela força bruta. Sua condição material é suficiente para acender o interesse em trabalhar para alguém. Seu interesse no salário é suficientemente convincente, porque eles dependem materialmente dele. Sujeitos econômicos perseguem seus próprios interesses privados, um direito garantido a eles pelo Estado.

O Estado capitalista garante a seus sujeitos liberdade um do outro. Isto é, nenhum cidadão pode subjugar outro cidadão (exceto quando explicitamente sancionado pelo Estado). A vontade de Alice é o limite da vontade de Bob: ele não pode obrigar Alice a fazer algo que ela não queira por meio da força. Isso se aplica no geral, mas também no particular: a propriedade privada. O Estado capitalista insiste que, por exemplo, Alice pode dispor de sua fábrica de cadeiras da maneira que quiser: Bob não pode dizer nada, pois a propriedade é dela; portanto, a vontade de Alice se aplica, sem exceções. Enquanto Bob depende de produtos (como cadeiras) produzidos por outras pessoas, Alice pode ignorar completamente as necessidades das outras pessoas simplesmente porque a fábrica de cadeiras pertence a ela. E nem importa se Alice ou qualquer um está de fato usando a fábrica. Alguém pode ser dono de um pedaço de terra no norte da Escócia sem nunca sair de Cardiff; é assim que essa exclusão é tão fundamental. Vice-versa e ao contrário. Alice depende dos produtos de outros que tiveram o direito à ignorância garantido pelo mais alto poder da sociedade, o Estado. Sobre a base da propriedade privada, a única maneira que eles podem chegar a um acordo é oferecendo sua propriedade em troca; explorar o interesse de outra parte é o que podem oferecer. Isso sugere colisão de interesses: um indivíduo depende dos outros e é, portanto, compelido a explorar a necessidade desses outros sobre si. Os outros tentarão fazer o mesmo.

O fato de as pessoas colocarem-se umas contra as outras dessa maneira é interessante ao Estado. O Estado explora esses interesses em benefício próprio: usa o poderio de sua economia contra outros Estados, usa impostos para financiar seu próprio aparato. O Estado estabelece, nutre e depende de uma economia na qual seus participantes persigam seus próprios interesses livremente[12]. Essa economia depende do materialismo de seus sujeitos. O Estado não força seus cidadãos a produzir tal coisa de tal maneira. Ele apenas garante as condições, e todos são livres para usá-las em benefício próprio.

Lei

O Estado controla a relação entre seus sujeitos e dos sujeitos consigo mesmo por meio da lei. O Estado capitalista garante que se as pessoas tiverem um conflito, e elas terão, ele seja resolvido por regras gerais e universais; geralmente compreendidas como direitos. Em troca, é garantido que suas demandas sejam válidas e que possuam tanto poder quanto a lei permitir. Sob o jugo das leis, a oferta do Estado é a seguinte: se você se restringir (isto é, se obedecer às leis), você pode usar o poder máximo em busca de seus interesses legalmente permitidos. Praticamente isso significa que o Estado prende ladrões, faz cumprir contratos e despeja invasores. Ou se, por exemplo, uma rabalhadora não vai ao trabalho, descumprindo seu contrato, um capitalista pode acioná-la legalmente com a ajuda de uma corte civil. Vice-versa, a trabalhadora pode processar seu patrão para receber o redundancy pay[13]. Não importa a questão, sendo possível recorrer à lei, o Estado defenderá ou proverá os meios legais para perseguir os objetivos do cidadão[14].

Chances e oportunidades

O Estado garante por meio da força que o materialismo do povo seja limitado pela propriedade privada e por outras regulações. Ele garante que não há alternativa à propriedade. Milhares de policiais e juízes vigiam os sujeitos para se certificar que obedecem à lei. Como os sujeitos estão desprovidos da imensa coleção de mercadorias e não possuem alternativas, a única opção é utilizar-se do meio mais miserável – a lei[15]. Como trabalhadores, donos de lojinhas de esquina e banqueiros de investimentos, eles precisam de direitos, pois qualquer negócio é feito sob dependência mútua e conflito de interesses. A precondição para que persigam seus próprios interesses é o Estado. Todos eles são máscaras na economia capitalista. Como tais, têm interesse na garantia da ordem político-econômica atual para perseguir seus objetivos. O Estado, portanto, é a expressão da garantia do interesse público geral.

Essa necessidade prática de lidar com as condições postas pelo Estado, a necessidade de perseguir o próprio interesse sob condições hostis, e a oferta feita pelo Estado sugerem uma maneira de ver o mundo: as liberdades garantidas não são apenas restrições (por exemplo, quando garantida a outros em relação ao uso contra o interesse de outrem), mas também oportunidades (por exemplo, quando aplicadas a si mesmo). Esse ponto de vista considera o Estado pelas lentes do que ele é para mim ao invés do que ele é de verdade.

A conclusão incorreta que as pessoas chegam é traduzir suas próprias restrições em um punhado de chances e oportunidades. Até aquilo que se torna redundante é visto como nova oportunidade. Desse modo, os cidadãos estão prontos a aceitar uma oferta que eles não podem recusar e a considerar a garantia de direitos como uma oportunidade, não uma restrição. Em primeiro lugar, o Estado os priva dos meios de reprodução e então oferece meios para acessá-los. Tomar essas ofertas por chances é como se um prisioneiro apreciasse a oportunidade do trabalho na prisão como um passatempo, sem considerar as próprias grades como uma restrição fundamental. Mesmo que essa compreensão seja encorajada pelo Estado e por seus agentes, ela não pode gerar aceitação por si só, é necessário um sujeito consciente: é preciso acreditar ou não[16].

Sucede que a coerção estatal não é necessária: muitas pessoas acreditam. Elas criticam a economia por ser muito bruta e elogiam o Estado por neutralizar seus efeitos, na medida do possível, por meio de programas de bem-estar social como educação, ruas e planos de proteção ao meio ambiente. O Estado é visto como o domador que domestica o leão, seja ele a economia ou a parte de todo ser humano que precisa ser controlada[17].

Materialismo virtuoso [virtuous materialism]

Esse materialismo – que confunde condições hostis com chances e oportunidades – é muito particular. O Estado espera que seus sujeitos se perguntem se lhes é permitido fazer aquilo que desejam. Como materialistas de tipo decente, eles querem a restrição do materialismo de todos em benefício do próprio materialismo[18]; eles exercitam o materialismo virtuoso ou decente. Não exigem os meios de vida, mas um salário justo.

O materialismo virtuoso tem dois aspectos que formam o núcleo da ideologia nacionalista. Primeiro, qualquer um que seguir essa linha aceita a restrição de interesses privados em nome do interesse público; essa pessoa quer que os direitos das pessoas sejam restringidos de acordo com uma regra geral e universal. O nacionalista que defende o sacrifício em favor da nação segue a mesma linha de raciocínio. Segundo, lança a ideia de que se alguém for decente, tiver comportamento virtuoso e restringir os próprios interesses segundo as regras da propriedade privada, receberá o que merece[19]. No materialismo virtuoso o materialismo inicial ainda aparece. Por exemplo, a palavra de ordem nacionalista “trabalhos britânicos para trabalhadores britânicos” pressupõe, por um lado, a submissão, mas, por outro, postula a busca por interesses virtuosos.

Ponto de vista do interesse público geral

Mesmo a soma dos interesses perseguidos de maneira virtuosa não forma o interesse público geral. Tampouco o interesse público é conquistado por si mesmo. Ele demanda pessoas que o possua no coração, seja como profissionais (como políticos e vários jornalistas) ou amadores. Eles relembram ao resto dos cidadãos que a restrição como pré-requisito da busca pelo interesse privado ainda é uma restrição. Eles tomam a perspectiva de quais sacrifícios devem ser impostos em benefício da nação[20]. Frequentemente os interesses privados aparecem como negativos, como algo que deve ser restringido em nome do seu próprio benefício.

Nacionalismo

Em suma: nacionalismo é a concepção errônea de considerar a nacionalidade como predecessora do Estado-nação, invertendo a relação[21]. Nacionalismo é lealdade ao Estado como tal e supõe a própria subordinação a este Estado e a seus fins nocivos às pessoas. Na maior parte do tempo o nacionalismo não tem nada a oferecer se não “sangue, trabalho duro, lágrimas e suor” (Roosevelt/Churchill). Mas, é óbvio, as pessoas não seguem esse slogan porque desejam sofrer. Em algum lugar, escondido atrás do nacionalismo, está a esperança de que o bem-estar do país significa o bem-estar dos cidadãos.

Decepção

A ideia de que as restrições gerais são boas para os indivíduos é refutada cotidianamente pela realidade: as pessoas são pobres, vivem sob condições miseráveis e, potencialmente, trabalham longas horas se forem “sortudas” o suficiente para encontrar trabalho. A realidade fornece as bases para refutar o erro segundo o qual a legitimidade de um interesse supõe apoio à sua realização. A busca legítima por um trabalho não garante emprego. Se os direitos de alguém são violados e o Estado age, não há garantias de reparação dos danos. Se a bicicleta de alguém é roubada, a polícia pode até procurar pelo ladrão, mas não garantirá outra bicicleta à vítima. Ao invés de identificar a fonte dos males na conformação social e então criticá-la ou aceitá-la, a maioria das pessoas acha respostas no nacionalismo. Alguns de forma pura, outros de forma misturada e confusa.

Idealistas insistem no erro: em princípio, seu materialismo virtuoso deve ser realizável. Ao lado ou acima da lei real, colocam um ideal de lei que deveria ser realizado. Partidos de esquerda como Respect e suas demandas para “taxar os ricos” caem nessa categoria: colocam seu ideal de Estado acima do Estado real, verdadeiro. O slogan não tão de esquerda, “trabalhos britânicos para trabalhadores britânicos”, segue a mesma lógica. O ponto de partida materialista ainda é bem visível; essa ideologia insiste que a ordem fundamental deveria permitir a satisfação desses interesses justos.

Pessoas de retidão moral também partem da violação de seus interesses privados. Notam algo as prejudicando, e então reclamam. Elas também insistem na não hostilidade da ordem fundamental, seja ela a economia de mercado ou o Estado-nação. Estão orgulhosas porque vivem de acordo com os princípios aqui delineados. Na procura pela origem de seus males, acabam encontrando as pessoas que violam esses princípios. Como corolário, nem eles nem “sua” sociedade são a causa desses males. Pessoas que só reclamam por “nós” termos que pagar pela bagunça “deles” nos escombros da crise financeira, não querem ceder em seus interesses nem em princípio. Pessoas de retidão moral aceitam as medidas de austeridade e os cortes, mas sempre deixam claro que a responsabilidade não é sua. É aqui que a crítica moral para, não sendo capaz de providenciar uma saída que melhore as condições dos indivíduos. Não importa o quão virtuoso fosse seu materialismo, no fim, ele já não está presente.

Fascistas, pelo contrário, concluem que a culpa é do sistema que não restringe suficientemente os interesses privados. Defendem que os interesses privados arruínam a nação. Exigem a supressão desses interesses pelo Estado em favor do interesse público geral. Não permitem a contradição entre o interesse público e o privado, mas exigem sua identidade. Materialistas virtuosos querem que o interesse público seja precondição de seus interesses privados; fascistas querem que os interesses privados sejam expressão do interesse público geral[22]. Finalmente, os fascistas colocam a nação como um fim em si, acima de quaisquer outros interesses. Eles são os nacionalistas mais consequentes, a apoteose do nacionalismo.

Atitude frente ao exterior

O nacionalismo é, sobretudo, uma ideologia de identificação com a nação. No entanto, é também uma base para julgar negativamente os semelhantes – isto é, outros cidadãos – se eles são estrangeiros – isto é, cidadãos de outros países. Para explicar porque isso não é um tipo de “falha moral” desse ou daquele indivíduo, é necessário olhar para a base material dessa depreciação. É evidente que o mundo se divide em Estados-nação e que nenhum nacionalista sonha em convidar todos os seres humanos para sua pátria[23]. Até agora bem geral. Complexos de apartamentos também são divididos em flats e é raro que vizinhos convidem os outros para morarem juntos. No entanto, Estados-nação não existem lado a lado, relativamente indiferentes uns aos outros, no máximo se cumprimentando quando se encontram no corredor, para continuar na analogia. Eles se relacionam no mercado mundial, disputam territórios e populações e competem por poder e recursos: competem uns contra os outros. Certos Estados são abertamente hostis uns aos outros (como o Irã e o Reino Unido, atualmente), alguns formam alianças para promover seus interesses (como os membros da OTAN e da OMC) e outros até discutem a própria moeda comum (Alemanha e Grécia, por exemplo). O mundo está cheio de Estados-nação que dizem representar o interesse público geral e cada um deles entra em conflito com seus pares, refutando essa afirmação. Do ponto de vista do Reino Unido os interesses franceses são apenas franceses (quando discordantes), e os interesses britânicos são apenas justos, globais e necessários. Vice versa e ao contrário. Não é de surpreender que, nessas condições, a atitude frente a outros Estados e seus cidadãos não seja positiva ou de indiferença.

Se os interesses são conflitantes, o menosprezo a outras nações é uma consequência lógica do apreço à própria. Contudo, isso não quer dizer que alguém que goste da própria nação vá tirar essa conclusão. Em certa medida, a separação entre “patriotismo” e “nacionalismo” – discutida no início desse artigo – é possível. Mesmo não acreditando na maioria do “patriotas” que dizem não fazer a transição entre amar a própria nação e menosprezar outras, revelar preconceito contra estrangeiros não vale o esforço. A admitida identificação com a nação é material suficiente para crítica; a tarefa não é provar que a ideologia de alguém é, na verdade, outra coisa, mas mostrar que essa própria ideologia é errônea e prejudicial.

Secessão e libertação nacionais

Alguns estão muito descontentes com a própria subordinação sob o Estado no qual vivem. Se não podem ou não querem se filiar a outra nação e não são críticos à dominação estatal como tal, sobram apenas duas opções: mudar o sistema político do Estado ou fundar um novo. Tanto os movimentos de secessão como os de libertação nacional percebem que o poder que os subordina não tem nada a oferecer. Sua causa é corrigir esse erro; estabelecer a justa dominação por seu próprio tipo. Mesmo onde a base material para o materialismo virtuoso falta, movimentos nacionalistas aplicam esse ideal.

Separatistas baseiam sua discordância na “descoberta” de que há uma segunda unidade dentro da nação, diferente e que deve ser equipada com seu próprio aparato de poder. A base material para essa observação é, muitas vezes, a falta ou má aplicação de tratamento igual. Quaisquer que sejam os mitos fundacionais da sua “nação”, sua própria comunidade é sua opressão. Na maioria dos casos, é essa opressão que cria esse grupo e os movimentos correspondentes.

Por exemplo, o Estado turco suprime os costumes e a linguagem curda. Curdos não são tratados como iguais perante a lei, mas são suspeitos de deslealdade e de prejudicar a unidade da nação. Curdos podem ter a cidadania formal, mas não podem contar com o Estado para perseguir seus interesses caso necessitem, como é o caso dos outros cidadãos turcos. Por consequência, o movimento de libertação curda exige seu próprio Estado. Na Turquia, como é de praxe, a nacionalidade é afirmada pela força e o outro movimento nacionalista, o curdo, não é nada bem-vindo pelo Estado[24]. O Estado turco deseja que todos os cidadãos sejam fiéis a si, não a outro Estado. As enérgicas asserções das forças armadas turcas, que possuem o monopólio da violência, encorajam o movimento separatista. Os movimentos separatistas frequentemente reabilitam a discriminação estatal ao referirem-se positivamente à divisão feita pelas autoridades.

Aqueles que querem libertar uma nação preexistente percebem a violência do Estado que habitam sobre a maioria da população. Não contestam a ideia de nação, nem negam a necessidade de uma dominação análoga. Apenas insistem que o atual arranjo atende a interesses estrangeiros contra a nação. A maioria desses movimentos, após tomar o poder, não melhorou as condições de vida da população, já que não desafiaram os princípios básicos das condições econômicas; focaram-se apenas em livrar-se do pessoal político (e econômico). Contudo, alguém pode se perguntar, há Estados cujas condições de vida melhoraram após a libertação nacional, como é o caso de Cuba[25], um Estado que se desligou do mercado mundial e expropriou grandes capitalistas dentro de suas fronteiras. Não seria esse um sinal de que o nacionalismo tem apelo e pode empolgar as pessoas em favor de um novo tipo de organização social? Se bem sucedido, não seria de grande ajuda na luta contra o modo de produção capitalista? Melhorar a assistência médica, sua provisão, a alfabetização, quem seria contra isso? No entanto, isso não contradiz o fato de coletivos nacionais serem coletivos forçados e que seus mitos continuam incorretos. Ainda por cima, é estranho mobilizar-se em favor das pessoas, de sua provisão, em nome de outra coisa; seja o amor cristão, a solidariedade nacional, a glória do socialismo, a história ou a verdadeira natureza humana. Se um projeto que é ostensivamente a favor da melhora da vida das pessoas apela para coisas que não a abolição da pobreza e da dominação, é um indício de que esses não são seus únicos objetivos.

Os movimentos nacional-libertadores e os separatistas observam o Estado-nação hostil ao povo que dizem representar. A partir desse ponto de vista seria possível compreender e opor o Estado-nação. No entanto, esses movimentos têm tanta apreciação por seu opressor que querem um Estado próprio. Sua principal experiência com o Estado-nação é a supressão pela força bruta. Mesmo assim, isso não é o bastante para convencê-los do real caráter de tal aparato. Todos os massacres realizados em nome da nação não são suficiente para afastá-los de tal ideia. Isso não diminui sua má experiência, mas sua experiência não justifica sua conclusão.

Então, por que antinacional?

Primeiro, nacionalismo, simplesmente, está incorreto: nenhum mito sobre a fundação da nação pode ser justificado e de nenhum dos critérios apresentados infere-se um apoio à nação (ou ao Estado-nação). Esse argumento é suficiente para mostrar que essa ideologia nada tem a ver com o fim da dominação e da exploração.

Segundo, toda nação é um coletivo forçado, é o resultado da dominação. Estimar a nação é estimar a dominação.

Terceiro, nacionalismo é uma ideologia de sacrifício. Ele apresenta a causa da nação como justificativa para menosprezar a necessidade das pessoas[26]. Ainda por cima, nas sociedades capitalistas isso sempre justifica a pobreza generalizada. Essa ideologia localiza-se em posição diametralmente oposta ao luxo para todos.

Quarto, qualquer discurso que tente justificar a exploração e a subordinação merece crítica. Uma dessas ideologias, das mais poderosas, é o nacionalismo, a ideia de pertencimento natural a um contexto de subordinação e as ofertas para as desgraças vividas todos os dias.

Notas:

[1] A inversão do argumento, a saber, que aqueles que torcem para determinado time devem ser partidários da nação correspondente não é necessariamente válido.

[2] Mesmo biólogos e antropólogos (esses últimos, cujo trabalho é categorizar ‘povos’) perceberam que raça não é uma categoria objetiva. Ver por exemplo: ​http://www.aaanet.org/stmts/racepp.htm​. Parece que até para eles os tempos em que cientistas e pseudo-cientistas mediam o tamanho dos crânios humanos para justificar a existência de diferentes raças humanas já passou.

[3] O Estado é a base material de uma nação como uma unidade de poder geralmente aceita. Portanto, o Estado material deve ser analisado perante a nação e sua afirmação pode ser explicada (cf. a seção ‘Fundação da Nação’).

[4] Confundindo esse fato político com algo dado e natural alguns anti-imperialistas fritaram seus miolos procurando por uma justificação: se, de fato, Serbo-Croata era uma língua, a separação da Croácia não seria justificável; mas se fossem duas línguas diferentes, a separação deveria ser defendida sob o argumento da fronteira linguística.

[5] Alguns linguistas reconheceram esse fato. Uma declaração de Max Weinreich ressalta o poder do Estado sobre a definição do que é a linguagem comum e o que é dialeto: “A linguagem é um dialeto com um exército e marinha”.

[6] Quatro ou cinco (adicione-se a Irlanda do Norte) ou seis (adicione-se Cornwall). Não estamos nem aí.

[7] É esperado que todos sigam as regras de um país. Uma maior exigência pode ser colocada sobre pessoas tentando tirar cidadania. Mais e mais Estados modernos, incluindo o Reino Unido, testam seus potenciais novos sujeitos em seus conhecimentos sobre história, língua e leis britânicas. Aqueles que podem fazer esse teste são decididos pelo governo. O critério do patriotismo cívico tem um papel negativo: não se pode juntar-se a um país baseando-se em normas legais ou políticas – a principal característica de imigrante ainda será, de alguma forma, útil para o Estado escolhido. Se alguém é considerado útil, seguir as regras, conhecer as regras e ser testado sobre as regras se torna o próximo passo.

[8] O panfleto “Contra o nacionalismo” da Federação Anarquista contém muitos bons argumentos sobre nacionalismo, imperialismo e as respostas da esquerda. No entanto, como muitos outros na (extrema) esquerda, considera a nação uma ilusão: “A nação é uma cortina de fumaça, uma fantasia que esconde a luta entre as classes dentro e através delas. Não existem nações, mas existem classes com interesses próprios, e essas classes devem ser diferenciadas. Consequentemente, não há um ‘povo’ dentro da ‘nação’, e não há ‘interesse nacional’ comum que os una”. Sua crítica ao nacionalismo é baseada, portanto, no fato de não verem “um mundo de nações em luta, mas um mundo de classes em luta”. Pelo contrário, nesse texto temos a intenção de demonstrar como “um mundo de nações em luta” deve ser explicado com base nas “classes em luta”; como o interesse no trabalho assalariado sugere o interesse na nação.

[9] A definição de quem é sujeito e de quem é estrangeiro está na lei de cidadania. Ao redor do mundo essa leis seguem dois princípios: jus soli​ (direito de solo) e jus sanguinis (direito de sangue). De acordo com o primeiro, nascer em determinado território garante cidadania. De acordo com o último, possuir um antecessor que é ou foi cidadão garante cidadania. Alguns Estados (como a Alemanha) garantem predominantemente o direito de sangue, a maioria dos outros Estados têm uma mistura dos dois. Não conhecemos Estado que não siga, de uma forma ou de outra, o princípio de jus sanguinis, isto é, um Estado onde os filhos dos cidadãos não tenham cidadania garantida. Esse é o caso fundamental onde a herança biológica corresponde à nacionalidade. Vice-versa e ao contrário: ao identificar uma parte da humanidade como cidadãos de um Estado-nação, automaticamente define-se seu oposto. Isso exclui todos os outros sob a mesma regra; a falta dos ancestrais certos nega a entrada. Cada lei de cidadania é racismo prático. A maioria dos Estados modernos têm procedimentos que possibilitam adquirir a cidadania. No entanto, esses esquemas dependem do cálculo do Estado, se o cidadão será útil ou não. Cidadão ou não – todos no território do Estado devem obedecer à lei.

[10] Num mundo formado por Estados-nação não seria uma decisão inteligente se livrar de seu cartão de membro com a intenção de se libertar do jugo estatal. Não há territórios livres dele. Todos os recursos e terras são pertencentes à iniciativa privada, a sujeitos legais ou a Estados; logo, é praticamente impossível construir outra forma de organizar a reprodução mútua, isto é, viver livre de qualquer dominação.

[11] Isso não quer dizer que as pessoas aceitariam qualquer coisa. A maioria seria bastante crítica: essa decisão do governo, aquele julgamento no tribunal, ou uma certa ação da polícia. Entretanto, o ponto aqui é o seguinte: na maioria das vezes a nação como tal não é posta em questão.

[12] Quando o Estado é ameaçado, em tempo de guerra por exemplo, essa economia pode ser substituída em favor de comando direto.

[13] Vigente no Reino Unido, o trabalhador deve receber meia semana de salário para cada ano trabalhado (se menor de 22 anos) ou uma semana de salário para cada ano (se maior de 22 e menor que 41 anos). Válido somente se há dois anos ou mais no mesmo emprego [N.T.].

[14] É verdade que há diferenças entre o que o governo ou um juiz avalia ser importante. Mas essas são exceções à regra. Mesmo onde os direitos são sistematicamente ignorados, prevalece o sentimento de que eles deveriam ser respeitados (ver abaixo).

[15] No frigir dos ovos, a lei não é um meio para satisfazer necessidades e desejos, já que ela exclui o indivíduo dos meios para satisfazê-los e então fornece os meios para superar as próprias limitações (como a propriedade privada). Ela não colabora para o consumo em nenhum sentido.

[16] Qualquer teoria que postule conseguir derivar o que as pessoas pensam a partir de sua realidade material entra em contradição. O próprio pensamento, que obviamente desvia da consciência derivada, não poderia ser pensado se isso fosse verdade.

[17] Essa figura não representa a realidade corretamente. O tigre pode viver feliz sem o domador. Em contraste, o capitalismo precisa do Estado: desde garantir contratos até educar trabalhadores (para que eles estejam em forma para ser usados como recursos), o capitalismo não funcionaria sem o poder estatal.

[18] Por exemplo, numa versão como “É claro que seria legal se eu pudesse simplesmente pegar o que quisesse no mercado sem pagar – mas se todos fizessem isso, a sociedade pararia de funcionar bem rápido”.

[19] O que as pessoas merecem é objeto de debate político constante: os economicamente liberais defendem que as pessoas merecem aquilo que conseguem no mercado, enquanto mais à esquerda as pessoas tendem a ver o Estado como a instância provedora de justiça para cidadãos razoáveis deixados de lado pelo mercado.

[20] “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país” (John F. Kennedy).

[21] Comentaremos rapidamente a libertação nacional e a secessão logo abaixo.

[22] O slogan nacional-socialista “você não é nada, seu povo é tudo” é um resumo adequado dessa ideia. Enquanto John F. Kennedy pressupõe a separação entre o interesse privado e o interesse nacional quando pede aos cidadãos que considerem o que podem fazer pela nação, os fascistas rejeitam a separação por completo.

[23] Mesmo que o islã político compartilhe muitas características com o nacionalismo, essa característica os separa. O islã aceita todos os humanos na Umma, o coletivo de todos os muçulmanos, assim que se convertem e se tornam fiéis.

[24] A política da ‘questão curda’ é um campo de batalha do establishment político nas forças armadas, na burocracia e na emergente elite do AKP.

[25] Se se considera Cuba um bom projeto ou não, não está em questão. Pode-se dizer, ao menos, que não é um Estado ambicionando a acumulação capitalista. Isso é tudo, é um caso. Ainda, não é a intenção debater se o “socialismo em um só país” é viável.

[26] Isso não quer dizer que qualquer limitação seja não razoável. Se sob uma economia planificada houvesse uma grande tempestade e muitos pés de soja fossem destruídos, faria sentido deixar o leite de soja para os veganos até que a escassez fosse resolvida. Faria sentido por causa da dependência mútua na divisão do trabalho e pela realização desse modo de produção. Essa última não acontece no capitalismo, pois suas severas escassezes são produzidas perpetuamente, não são exceções.


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