O levante anarquista e maximalista em Samara, 1918

O levante anarquista e maximalista em Samara, 1918

em 25 abr
Um pequeno relato do levante anarquista e maximalista em Samara, em maio de 1918. Por Nick Heath

Depois de Moscou, Samara, uma cidade no Volga, era um dos bastiões do anarquismo na Rússia no período imediatamente seguinte à Revolução de Fevereiro. David Kogan editou o jornal anarquista “Chemoe Znamia” (Bandeira Negra) em Samara entre 1917 e 1918. Outro importante anarquista local foi Alexânder Moisêievich Karásik (nascido em 1895 na Ucrânia). Ele teve a honra simbólica de ter sido expulso da sinagoga local por suas atividades anarquistas e de ter seu nome expurgado da lista da comunidade judaica local.

Em junho de 1917, o comissário provincial foi forçado a registrar um grupo de anarco-comunistas em Samara. Juntamente com outros grupos políticos, os anarquistas se reuniam numa das salas de comerciantes do restaurante Aquarium, onde estabeleceram seu quartel-general. Eles tomaram parte ativa, ao lado dos bolcheviques, nos eventos de Outubro. No final de 1917 a Federação Anarquista de Samara (FAS) foi formada, incluindo anarquistas, comunistas e anarco-sindicalistas. A Federação foi apoiada por estivadores e portuários organizados num grande sindicato e pelo sindicato de taxistas e carroceiros, assim como muitos marinheiros da flotilha do Volga. A Federação organizou a formação de destacamentos de combate e muitos anarquistas estavam nas brigadas da Guarda Vermelha organizada pelo Comitê Revolucionário local. Tomando de assalto diversos prédios, incluindo edifícios municipais e mansões dos ricos, a Federação teve seu escritório central no Hotel Filimonava na recém nomeada Praça da Revolução. Até o início de 1918 a Federação tinha aumentado seus números consideravelmente.

Muitos destacamentos anarquistas operaram no fronte contra as forças dos Brancos. Houve o Esquadrão Ligeiro do Norte liderado por Smorodinov, o destacamento liderado por Fêdor Popov, o Terceiro Esquadrão do Norte, o primeiro Destacamento Anarquista dos Marinheiros etc. Em meados de março, o anarquista Kudinsky chegou de Moscou com 300 combatentes. Na primavera de 1918, de acordo com alguns relatos, o número total de anarquistas armados em Samara era de mil.

Os bolcheviques no Comitê Executivo de Gubernia queriam enviar tais destacamentos para o front em Orenburg tão cedo quanto possível. Inflamados pelo entusiasmo revolucionário, estes destacamentos foram para lá por vontade própria. O destacamento liderado por Karasik lutou bravamente contra as forças de Dutov. Lá no front, e nos condados[1] de Buguruslan e Buzuluk, destacamentos anarquistas rejeitaram a autoridade dos “especialistas militares” e comissários indicados pelas autoridades militares bolcheviques. Após vários combates com os destacamentos cossacos de Orenburg, Popov e Smorodinov recuaram e tomaram uma grande área no condado de Buguruslan.Smorodinov, com 600 guerrilheiros em carros blindados, ocuparam a cidade de Buguruslan. Lá, por três meses, organizaram uma área autônoma com algumas vintenas de vilas camponesas com uma população de alguns milhares, que funcionava sob princípios anarquistas.

Enquanto isto, na primavera de 1918 na cidade, uma nova força política estava emergindo – a dos maximalistas, a extrema-esquerda dos Socialistas Revolucionários que rompera completamente com o partido SR. Suas ideias eram próximas das dos anarquistas em muitos casos, e começaram ambos a aumentar em número e a formar uma estreita relação de trabalho com os anarquistas. Eles travaram um debate político bem sucedido com os bolcheviques e um de seus líderes, Alexânder Yákovlevich Dorogóychenko (editor do jornal maximalista República dos Trabalhadores) tornou-se o comissário provincial de agricultura e seu associado Kúzmin, Comissário de Finanças e membro do Collegium Militar. Os maximalistas também organizaram seus próprios destacamentos militares em Samara.

Os bolcheviques já planejavam o esmagamento dos seus oponentes mais à sua esquerda. No dia 6 de abril de 1918 o líder bolchevique [Grigóry Konstantínovich] Ordzhonikídze e a Cheka (organização de segurança do Estado soviético) atacaram a Federação Anarquista de Rostov-sobre-o-Don e a esmagaram. De meados de abril ao começo de maio muitos grupos e federações anarquistas em várias regiões, incluindo Sarátov, foram atacados pelos bolcheviques. Houve o maior atentado aos anarquistas de Moscou no dia 12 de abril e o ataque ao destacamento de Petrenko no sul em Tsaristsyn quase ao mesmo tempo do atentado aos anarquistas de Samara e aos maximalistas, que estava prestes acontecer.

No dia 1º de Maio, os anarquistas e os estivadores realizaram uma mobilização com o slogan “Abaixo a Comissariocracia”. No dia 6 de maio o destacamento de Smorodinov foi desarmado pelos bolcheviques. No dia 8 de maio o Conselho da cidade de Samara, controlado pelos bolcheviques, começou a se referir ao “bando de anarquistas e maximalistas” e puseram-nos na ilegalidade. Popov foi preso naquela noite, e seu destacamento desarmado. O Terceiro Congresso Russo dos Maximalistas reuniu-se entre os dias 10 e 15 de maio e expressou preocupação com os ataques bolcheviques contra seus grupos em Izhévsk, Samara e Vótkinsk.

Entrada do Exército Vermelho em Samara

O Sexto Congresso Provincial dos Sovietes reuniu-se em Samara neste momento. Os bolcheviques, liderados por Galaktionov, exigiram um aumento de impostos em espécie (i. e. confisco de alimentos). Os maximalistas de Dorogoychenko, por outro lado, propuseram o fim da influência política partidária e a criação de um Comitê Executivo Provincial apartidário. Os bolcheviques se opuseram, mas o congresso deixou de confiar neles. Repentinamente Fêdor Popov apareceu. Ele exigiu o confisco de todos os alimentos e outros produtos e uma solução para a pesada requisição de comida sobre os camponeses das zonas rurais. O Congresso adotou tal resolução por maioria. Dorogoychenko tornou-se chefe do Comitê Executivo Provincial, e Kúzmin assumiu o Collegium Militar. O Conselho Municipal continuou controlado pelos bolcheviques. O Comitê Executivo Provincial insistiu em que o Conselho Municipal, controlado pelos bolcheviques, libertasse todos quantos houvessem sido presos, rearmasse os militares para a luta contra os Brancos e suspendesse a proibição da imprensa revolucionária local. Samara estava agora operando independentemente das autoridades bolcheviques e promovendo sua própria guerra independente contra o Exército Branco de Dutov.

Entretanto, as tropas de Dutov começaram a avançar sobre Samara. Os bolcheviques começaram a entrar em pânico e no dia 16 de maio fizeram um apelo pela requisição de todos os cavalos em Samara. Essa foi a última gota para os cidadãos de Samara. A liderança bolchevique não considerou que isto teria graves consequências para a população de Samara, com muitos dependendo de seus cavalos para viver. Além dos numerosos condutores de carros de praça[2], muitos camponeses dependiam de seus cavalos para o transporte e para sobreviverem. Na noite de 16 de maio um destacamento bolchevique armado tentou confiscar os cavalos dos condutores de carros de praça. Na manhã seguinte uma multidão de centenas de pessoas se reuniu em frente ao edifício da Câmara Municipal para protestar contra tal fato, gradualmente aumentando em tamanho e tornando-se cada vez mais irritada. Ao meio dia a Câmara Municipal recuou e revogou o confisco.

Seguiu-se um confronto entre os condutores de carros de praça e as tropas do Exército Vermelho liderados pelos bolcheviques Augenfish e Kotylov. Disparos espocaram e a multidão atacou as tropas. Augenfish foi morto e as tropas fugiram.

Mais e mais pessoas, muitas portando armas, começaram a se reunir em assembleia na praça e então marcharam por Samara cantando palavras-de-ordem antibolcheviques. A Câmara Municipal foi tomada por insurgentes uma hora depois. Oficiais do Exército Vermelho passaram para o lado dos insurgentes e foram colocados no comando de alguns destacamentos. Os combates na cidade duraram a noite inteira. Como resultado, na manhã de 18 de maio os insurgentes tomaram a estação principal dos Correios e Telégrafos, o prédio da polícia e outras delegacias, assim como as prisões, onde todos os prisioneiros, cerca de duas dúzias, foram soltos.

Nas primeiras horas do dia de 19 de maio tropas bolcheviques invadiram o escritório central anarquista – o hotel Filimonova na Praça da Revolução onde o 1º Destacamento de Marinheiros Anarquistas estava sediado, o hotel Telegin na Rua da Catedral, onde Kudinsky e Smorodinov haviam se embarricado, e a Câmara Municipal, agora um quartel-general dos insurgentes. No dia seguinte, os bolcheviques finalmente esmagaram a revolta. O Comitê Executivo Provincial foi oficialmente dissolvido pelos bolcheviques e o poder foi passado para as mãos de um Comitê Revolucionário liderado pelo bolchevique [Valerian Vladímirovich] Kúibishev (Samara foi renomeada Kúibishev entre 1935 e 1990). De acordo com dados incompletos, centenas de participantes ativos da revolta foram fuzilados, mas os arquivos ainda não se tornaram públicos.

No dia 5 de junho 150 combatentes do Esquadrão Ligeiro Anarquista atacaram a prisão de Samara e libertaram 470 prisioneiros bem na véspera da captura de Samara pelas tropas da Checoslováquia. No tiroteio com os guardas, um dos principais militantes da Federação Anarquista de Samara, Aleksêiev, preso depois dos acontecimentos, foi morto.

Depois dos eventos Dorogoychenko mudou-se para Moscou e continuou as atividades maximalistas por lá. Ele depois se tornou um anarquista e, de acordo com fontes dos órgãos de segurança, retornou a Samara, onde, em 1923, montou uma filial da Cruz Negra Anarquista. Seu destino posterior é desconhecido. Karasik foi preso em 1919 e colocado num campo de concentração até o fim da Guerra Civil. Ele parece ter ido então a Moscou, onde foi preso novamente em 1921 e condenado no ano seguinte como um membro de uma organização anarquista clandestina, pelo que recebeu uma sentença de três anos. Seu destino em seguida é desconhecido. Ele foi reabilitado pelo Gabinete de Moscou em 1997.

Fontes
Anti-Bolshevik uprising in Samara
http://samgd.ru/files/cc/8f/6680e754e6b1d0605df2454e9225.doc
http://news.samaratoday.ru/wheel_d_m.php?m=5&d=17&r=21
http://webground.su/rubric/2010/05/17/nauka_istorija/
http://dlib.eastview.com/browse/doc/7624498

Notas de revisão
[1] O autor fala em condados (counties), divisão administrativo-territorial tipicamente anglo-saxã, quando talvez quisesse se referir ao que os russos chamam de raion, equivalente ao que os anglo-saxões chamam de district, divisão administrativo-territorial submunicipal imediatamente inferior ao county.
[2] A palavra inglesa cab pode ser traduzida tanto como “táxi” quanto como “tílburi”, “tipoia” ou “cabriolé”, tipos de carruagem empregues como veículos de aluguel ou de praça antes da introdução massiva dos automóveis.

Traduzido por Douglas Oliveira e revisado pelo Passa Palavra a partir do original disponível aqui. Este artigo faz parte do esforço coletivo de traduções do centenário da Revolução Russa mobilizado pelo Passa Palavra. Veja aqui a lista de textos e o chamado para participação.


Comentários 2

    • Danilo Chaves Nakamura

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      maio 2, 2017

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      Texto interessante, mas não explica como os anarquistas (ala da Intelligentsia russa) se organizaram. Onde de fato eles eram diferente dos bolcheviques? Onde eles eram uma alternativa para questões centrais da sociedade russa.

      O texto diz: “organizaram uma área autônoma com algumas vintenas de vilas camponesas com uma população de alguns milhares, que funcionava sob princípios anarquistas”. Quais eram os “princípios anarquistas” para as vilas camponesas? Os camponeses russos buscavam se organizar na velha tradição da comuna (mir), os anarquistas tinham isso em vista?

      O texto também diz: “destacamentos anarquistas rejeitaram a autoridade dos “especialistas militares” e comissários indicados pelas autoridades militares bolcheviques”. Como os anarquistas se organizavam militarmente? Como quebravam as hierarquias?

      Por fim, o texto afirma: “Ele (Popov) exigiu o confisco de todos os alimentos e outros produtos e uma solução para a pesada requisição de comida sobre os camponeses das zonas rurais”. Como os anarquistas resolveriam o problema do campo.? O abastecimento das cidades durante a guerra civil? Os sociais democratas oscilavam. Os bolcheviques inicialmente deixaram os camponeses tomarem as terras. Depois procurou dividi-los a partir dos comitês dos camponeses pobres. Já outros, como Rosa Luxemburgo, falavam que desde o inicio da revolução deveria-se organizar a “agricultura socialista”. Um delírio que só existe na cabeça de intelectuais.

      Enfim… A Revolução Russa colocou para esquerda (para humanidade) questões práticas de difícil resolução.

    • Lucas

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      maio 2, 2017

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      Danilo, as tuas perguntas são uma excelente mostra do valor do trabalho de tradução que o PP está capitaneando. Esperemos que os seguintes textos a serem publicados nos ajudem nessa pesquisa, acho que tuas dúvidas são compartilhadas por muitos, eu inclusive.
      Mas quanto a algumas das questões que você coloca, penso no paralelo da Revolução Espanhola, muito melhor documentada em língua latina e onde os anarquistas tiveram um papel mais importante na condução política e social. Primeiro, após ler relatos sobre a coletivização realizada em pequenas aldeias e povoados de Aragão, muitas com não mais do que 5 mil habitantes, para mim fica claro que ao menos nesse período a influência anarquista estava longe de ser restrita à intelligentsia. O comunismo libertário posto em prática lá não apenas socializou meios de produção como fez avançar as forças produtivas, gerando excedentes que eram enviados ao fronte, isso para mim coloca por terra qualquer noção “utopista” de agricultura socialista.
      Por outro lado, o próprio bolchevismo não estava restrito à intelligentsia russa — foi justamente o setor pertencente à intelligentsia, liderado por Lenin, que dominou o partido e extinguiu outros setores opositores. Gerando assim um consenso nefasto sobre a história da revolução russa que parte da inevitabilidade do controle da intelligentsia sobre qualquer outro setor social.

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