Sociedade de classes e violência sexual (7): Para além da noção feminista de liberdade

Sociedade de classes e violência sexual (7): Para além da noção feminista de liberdade

em 25 jul

Embora a estratificação de gênero pareça uma divisão social global e predominante, ela tende a se diluir em outras divisões sociais. Por Maya John

Leia aqui a série completa.

Internalizando o olhar masculino e a cooptação do feminismo

Para proteger as vítimas de estupro da dolorosa culpabilização e ostracismo social, o movimento feminista tratou de despojar o estupro de seu conteúdo sexual. Desgraçadamente, esta estratégia de despojar arbitrariamente o estupro de seu conteúdo sexual não só impede a exposição clara da complexa rede de condições socioeconômicas que constituem os fundamentos da violência sexual, mas também leva a alguns discursos problemáticos e provoca o surgimento de certas correntes elitistas que reduzem o potencial do movimento[48]. O desenvolvimento destas tendências embotou a potência radical do movimento feminista, e reduziu o feminismo a uma panelinha. Enquanto isso as mulheres seguem submetidas às distintas formas de opressão criadas pelo sistema capitalista.

A pior das repercussões do sistema capitalista sobre a sexualidade da mulher é sua cooptação dentro de uma visão tendenciosa e sexista de sua sexualidade, assim como sua crescente participação no fomento de sua opressão e a do restante das mulheres. Boa parte desta cooptação é produto do bombardeio cultural. A indústria da publicidade, a moda e os meios de comunicação etc., popularizaram e normatizaram a sexualidade da mulher sob uma forma objetivada (consumível). Não obstante, esta cooptação também foi promovida, de maneira crescente, por alguns círculos feministas “informados” e “sensibilizados”. Ainda que seja verdade que o movimento feminista é formado por vários elementos e ideologias, não se pode negar que muitas correntes feministas tornaram sua a feminidade patriarcal, por exemplo, declarando que as mulheres podem ganhar poder aceitando com orgulho certas coisas/atitudes/predisposições como algo intrinsecamente feminino.

A crescente popularidade da Marcha das Vadias, os modernos flash-mob, a defesa da legalização da prostituição, assim como certos ramos do feminismo que promovem a roupa hiperfeminina assumindo erroneamente que essa roupa não atrai os olhares sexistas dos homens, tudo isso reflete o quão distante está o feminismo das necessidades e aspirações das mulheres da classe trabalhadora. Por que digo isso? Porque, sem pretender defender os homens sexistas, tento colocar para os leitores os problemas intrínsecos do feminismo, concretamente aqueles associados a algumas de suas aspirações.

Minha principal objeção se centra no grave problema posto por este tipo de feminismo, pois ele criou um obstáculo para a libertação da maioria das mulheres, isto é, as proletárias. É um fato que o movimento feminista, a partir do século XX, foi um produto da progressiva entrada das mulheres no mercado de trabalho, do aumento dos chefes de família femininos, e do aumento da mobilidade social das mulheres no que diz respeito a empregos melhor remunerados e status influente. Com o aumento das mulheres de classe média empregadas na saúde, na educação e nos serviços sociais (fenômeno que impulsionou recentemente a acumulação capitalista), surgiu “um novo romance das conquistas femininas e a justiça de gênero”[49]. Assim, a partir da década dos 70, muitas das campanhas dirigidas por organizações e indivíduos feministas lograram seus objetivos, e as organizações socialistas de massas também pressionaram o Estado para que garantisse os direitos das mulheres à autonomia corporal. Muitas mulheres operárias de todo o mundo se beneficiaram destas exitosas campanhas, por exemplo, no que diz respeito a certas garantias legais contra os maus-tratos etc. Não obstante, as mobilizações feministas estiveram e seguem estando caracterizadas por um preconceito classista, pois as mulheres de classe média reivindicam “liberdades” abstraindo-se a necessidade de reorganizar a estrutura econômica e social existente imposta pelo capitalismo. De fato, o pano de fundo do feminismo continua assentado no terreno da igualdade de direitos com os homens dentro do marco do capitalismo. Assim, esconde as divisões de classe e a necessidade de uma política própria da classe operária, projetando uma divisão artificial entre a classe dos homens e a classe das mulheres, uma divisão que se considera erroneamente como a divisão fundamental (rachadura) dentro do sistema capitalista e da sociedade burguesa[50].

Embora a estratificação de gênero ou a discriminação homem-mulher possa parecer uma forma de divisão social particular, global e predominante, há algo que não se pode negar: que esta forma de discriminação tende a se diluir no marco de outras divisões sociais (ou falhas geológicas). Na realidade, a posição da mulher precisa ser situada ontologicamente dentro da complexa rede estrutural da sociedade, de maneira que possa incorporar-se a outras discriminações. Para começar, as mulheres não são uma classe em si mesma, mas estão divididas em distintas classes. As mulheres das classes superiores, por exemplo, tendem a viver e trabalhar associadas com homens de classe alta, e portanto permanecem em um entorno social que as separa da massa de mulheres e homens da classe operária. Devido às condições materiais que compartilham com os homens de sua classe, por exemplo seus altos níveis de formação educacional, sua profissão e suas rendas, as mulheres de classe alta estão situadas em condições que as habilitam para reivindicar mais respeito não apenas dos homens de sua classe, mas também dos de classe mais baixa. Isto significa que a divisão baseada no gênero tende a diluir-se quando consideramos: a) os interesses comuns entre os homens e mulheres de uma classe; b) as agudas desigualdades que sofrem os homens da classe operária comparativamente com as mulheres de classe superior; e c) as desigualdades que sofrem os miseráveis homens das castas inferiores comparados com as poderosas mulheres de casta superior.

Em outras palavras, ainda que a cultura patriarcal ou sexista que reforça as desigualdades de gênero seja predominante, também existe uma tendência a que as famílias patriarcais e os homens sexistas compartilhem interesses com suas mulheres. Podemos ver esta convergência de interesses quando se encoraja que os salários das mulheres aumentem, em circunstâncias em que este incremento no salário da mulher melhoraria substancialmente o rendimento familiar. O emprego de serventes em muitos lares de classe alta também reflete que os homens sexistas desta classe consideram que o trabalho doméstico é uma carga para suas esposas, que deveria ser compartilhada ou passada por inteiro a uma assalariada. Todos estes exemplos representam uma convergência de interesses entre homens e mulheres, e refletem que: a) as divisões de gênero não são um sistema de discriminação independente e universal; e b) que a discriminação baseada na classe, casta e raça determina em última instância o modo e a forma como se articula a divisão de gênero. É importante sublinhar que, ao invés da discriminação de gênero, que pode ser incorporada a outras divisões, aquelas baseadas em classes e castas não se incorporam à divisão social entre homens e mulheres.

Isto significa que a complexa rede de divisões sociais tende a separar os interesses das mulheres de classe média dos das mulheres de classe trabalhadora, até o ponto em que muitas vezes são antagônicos. Tanto é assim que quando as mulheres de classe média desfrutam de certos direitos por seu pertencimento a uma classe particular, ou por haver lutado por estes direitos, não duvidam em descarregar sobre suas irmãs de classe operária o chicote da exploração. A conquista do direito ao trabalho, por exemplo, veio acompanhada do emprego de criada, o qual derivou na brutal exploração das mulheres operárias nas “tarefas” domésticas. A maior parte destas criadas domésticas são mocinhas ou mulheres de tribos pobres que emigram para as cidades depois de se casar ou em busca de emprego. O exaustivo trabalho manual que fazem na maioria das casas de classe média e alta demonstra claramente o débil sentimento de irmandade que existe entre mulheres de distintas classes.

O que se ignora ao generalizar esta experiência de “gênero sobre classe” é o seguinte: a) as mulheres se encontram divididas ao longo das fronteiras de classe, e entre homens e mulheres existe uma divisão semelhante; b) algumas mulheres se converteram nas campeãs da mercantilização da sexualidade feminina; c) quando a reivindicação de autonomia da mulher sobre seu corpo se abstrai das relações sociais que dão forma aos atuais códigos sexuais, estas reivindicações tão somente pavimentam o caminho para meia-liberdades[51].

Como é essa história de que uma parte das mulheres se converteu em defensoras da mercantilização da sexualidade da mulher? Por alarmante que pareça, estamos sendo testemunhas da constante promoção, sob formas cada vez mais descaradas, de uma cultura obscena em nome da libertação sexual da mulher[52]. Entre aquelas que animam esta perversidade estão as mulheres chauvinistas, ou o que prefiro chamar “mulheres compradoras”[53] (aquelas mulheres que empregam a estratégia de converter seu corpo e o de outras mulheres em objeto na tentativa de alcançar o mesmo status e a mesma renda do grupo dominante, neste caso os homens empresários e profissionais). Com seu trabalho, estas mulheres não só convertem em objeto seu próprio corpo, como também o do resto das mulheres, e o mais normal é que proponham ao resto das mulheres que o que deveriam fazer é abraçar o capitalismo e conquistar a maior quantidade de poder e dinheiro possível, para combater a opressão[54]. Exemplos de mulheres chauvinistas ou compradoras são: a empresária que emprega sem vacilar seu poder de classe para agredir seus empregados, homens e mulheres; a mulher repórter das revistas Playboy, Cosmopolitan ou Femina que ganham fortunas dizendo às mulheres o que está na moda; a desenhista de moda que populariza a roupa de tamanho 36 e que com um golpe de mão pode provocar calafrios nas fábricas têxteis dos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos; as produtoras como Ekta Kapoor, cujos filmes exibicionistas popularizaram os argumentos relacionados com escândalos sexuais; todas as burguesas artistas (Kareena Kapoor, Malaika Arora Khan, Priyanka Chopra e semelhantes) que não têm dúvidas em afirmar que seus corpos semi-nus nos cartazes e nas telas não promovem a cultura sexista etc. Assim, pois, os interesses das mulheres capitalistas e de algumas das profissionais em ascensão estão estreitamente envolvidos na perpetuação de uma tendenciosa cultura sexista e opressão de gênero que pesa contra a maior parte das mulheres.

Outro tipo de feministas praticantes são aquelas que pretendem “empoderar-se” reclamando para si a feminidade patriarcal, chegando a defender e celebrar esta feminidade como algo feminista. Sua confusão, em geral, reside em que pensam que as mulheres estão exercendo uma escolha ou vontade ativa ao aceitar a feminidade patriarcal, isto é, coisas como usar roupa curta, pintar as unhas, pôr piercings, silicones, ficar “arrumada” para se sentir poderosa, participar na “marcha das vadias” ou exigir que se tire poder a termos ou expressões como puta, vadia, cadela, buceta, behanchod [N. do T.: termo hindu, mais comum no Paquistão do que na Índia, que designa o sujeito que transa com a própria irmã] ou chutiya [N. do T.: termo hindu que significa fila, ou seja, alguém que faz fila, fica com todo mundo, no Brasil uma tradução seria “galinha” ou “biscate”]. Assim, negar a existência de semelhante escolha na hora de assumir a feminidade patriarcal é algo que se considera uma opressão e algo contrário aos objetivos do feminismo, para não falar de qualquer política emancipatória.

O problema destes comportamentos e destas políticas é sua ridícula suposição de que as mulheres que vestem roupa hiperfeminina estão desafiando o patriarcado e a estrutura sexista da sociedade em seu próprio terreno. Aqueles que defendem estas posturas tendem a argumentar que a roupa sexualizada desafia a imagem predominante da mulher dócil e “tradicional”, cheia de respeitabilidade feminina. Por isso o “direito” a vestir-se com roupa hiperfeminina é uma reivindicação não negociável no atual movimento feminista[55]. Não obstante, vale a pena lembrar que tanto a mulher mercantilizada como a normativa, ou a mulher bhadramahila, são fruto da sociedade capitalista. Estas distintas formas de comportamento sexual da mulher se reforçam mutuamente. Ainda que o segundo tipo de mulher muitas vezes seja depreciado, segue sendo desejada, e ainda que se venere a primeira, também costuma-se rechaçá-la. Assim, pois, tanto a mulher mercantilizada como a bhadramahila são papéis femininos que, mais do que incorporados ou defendidos, há que ser destruídos.

O que acontece quando as mulheres de classe média assumem um comportamento ou vestuário hiperfeminino? Gostemos ou não, terminam reproduzindo as condições não só de sua própria opressão, mas também das mulheres mais vulneráveis, ou seja, as proletárias[56]. Minhas duas principais objeções a todas aquelas que empolgam a consigna política da “livre escolha”, “vestir saia é uma questão pessoal” etc., são: a) quando se escolhe o que promove o patriarcado capitalista, se deveria perguntar se realmente se está escolhendo; e b) você pode garantir que sua indulgência na feminilidade patriarcal não cria condições para a opressão sexual de outra mulher?

Se afrontamos estas questões de maneira crítica, vale a pena ter em conta que o discurso da “livre escolha” reflete um profundo sentido de individualismo e egoísmo burguês. Acaba-se dando prioridade à vontade individual e às liberdades, prestando pouca ou nenhuma atenção à forma e conteúdo que de fato têm estas liberdades e desejos individuais. Cegos por este extremo individualismo, normalmente promovido pela ideologia burguesa dominante, e sem ter em conta as verdadeiras relações socioeconômicas que são requeridas para transformar a psique humana coletiva, as mulheres de classe média terminam participando na reprodução de sua própria opressão. Elas estão surfando nesta objetificação de sua sexualidade porque têm mais acesso ao capital cultural, dinheiro etc., o que lhes permite aderir a códigos estabelecidos da sexualidade feminina (noção de beleza, formas mais modernas de relações pessoais como o “amor livre”, casamentos abertos etc.), com muito mais facilidade do que as mulheres operárias que têm pouco ou nenhum acesso a estes recursos financeiros, capital cultural etc.

Ao defender a “escolha individual”, estas mulheres ocultam alegremente que seus esforços para amoldar-se à feminidade patriarcal implicam aceitar e normatizar determinados códigos de comportamento sexual para os homens e mulheres. Na verdade, é difícil imaginar como usar sapatos de salto alto, jeans coladinho na pele, calças sedutoras, tops transparentes, minissaias, enormes brincos, tornozeleiras etc., não provoca automaticamente certos tipos de comportamento hiperfeminino que são fáceis de explorar simplesmente por causa do modo como esses acessórios acabam impactando na forma de caminhar das mulheres, seu peso, sua energia etc. Neste contexto, pode-se apreciar o valor do dito popular que diz que “não se pode desmontar a casa do amo com suas próprias ferramentas”[57]. Ao defender aquilo que vai contra nossos interesses, seguramente terminaremos prejudicando-nos e deixando intacto o status quo[58]. É difícil, ademais, apoiar esse feminismo do “deixa-me ser livre” quando as pessoas (as massas) dificilmente podem distinguir entre uma mulher que caiu vítima da feminidade patriarcal e outra que adere a ela decidida a superá-la. Se não se pode apreciar esta diferença, então esta forma de vestir e de se comportar tampouco pode mudar a forma de consumir e de perceber a sexualidade feminina. Portanto, deveríamos buscar outras estratégias.

Nesse sentido, a feminidade patriarcal é outra expressão para a sexualidade feminina refreada e submetida. É importante assinalar que este refreio ou contenção foi uma das características da sexualidade feminina apesar do surgimento da contracepção a partir da década de 60. A contracepção, ao liberar as mulheres pela “primeira” vez do medo da gravidez não desejada ou não planejada, teve profundas repercussões na sexualidade feminina. Não obstante, apesar do surgimento da contracepção, só as mulheres burguesas e uma pequena parte das de classe média, que lograram a igualdade econômica com os homens de sua classe, chegaram a explorar sua sexualidade de certa forma e puderam exercer uma ativa escolha na hora de eleger seus parceiros sexuais. Não obstante, estas mulheres terminaram caindo em uma espécie de aventureirismo sexual que, muitas vezes, termina abrindo a porta ao oportunismo dos homens, um oportunismo que lhes libera de qualquer responsabilidade, cuidado e compromisso[59]. Isto é precisamente o que faz com que a juventude de classe média se submerja em atos sexuais nos quais tanto eles quanto suas parceiras se veem divorciados da satisfação sexual que implica o amor genuíno e íntimo e o compromisso mútuo. Ademais, o aventureirismo sexual das mulheres de classe alta se exibe de tal forma que supõe para elas uma ajuda ativa na hora de encontrar um parceiro que lhes permita manter-se dentro de sua classe ou adquirir um status superior. Não há nada louvável, pois, nesta forma de aventureirismo sexual promovido pelo capitalismo.

Para demostrar isto, vamos indagar mais profundamente a questão da busca por um parceiro. O normal em um sistema socioeconômico em que um amplo número de mulheres está desempregado, e onde o mercado laboral é altamente inseguro e discriminatório para as mulheres, é que estas se vejam obrigadas a buscar certa segurança em parceiros que pertençam à sua própria classe ou a uma superior. O matrimônio, pois, é um meio através do qual as mulheres e suas famílias podem manter seu estilo de vida ou ascender a outro melhor mediante a hipergamia, isto é, o matrimônio com alguém de um status social mais elevado. Isto há que se entender em um contexto mais amplo. Como se disse acima, a regulação comunitária do casamento foi sendo debilitada com o tempo e, portanto, a sociedade moderna viu como se ia afirmando a “escolha” individual. Os homens e as mulheres, sobretudo nas áreas urbanas, se casam com parceiros que já não pertencem às suas comunidades. Os matrimônios entre membros de distintas castas são um bom exemplo.

Há que se assinalar que em muitas partes da Índia, em particular em Haryana, Punjab e Nova Délhi, os matrimônios entre membros de distintas castas somam 15-20% do total registrado. Estes estados são muito prósperos devido à florescente economia agrícola (cujos lucros vão sendo destinados a outros setores, como o transporte, o imobiliário etc.). Esta prosperidade gerou aspirações de ascensão na escala social. Portanto, boa parte destes matrimônios entre membros de distintas castas refletem esta mencionada hipergamia. Nestes casos, as mulheres tratam de se assegurar um estilo de vida similar, senão melhor, ao que lhes podem proporcionar seus pais. Em outras palavras, a maior parte das mulheres não busca piorar sua situação social com o matrimônio e, portanto, optam por parceiros que podem lhes oferecer uma vida e um status melhor, ainda que não façam parte de sua comunidade. Em troca, os homens aceitam se casar com mulheres de status inferior se são bastante “atraentes”. Ultimamente, a prática da hipergamia pôs as mulheres sob uma forte pressão. Esta se manifesta já não apenas no objetivo de parecer atraente, mas também “melhor que as demais”. E estas tentativas de parecer sempre jovem e bonita etc. requerem alguns comentários.

O problema que vem junto a esta pressão para se encaixar em certas noções prescritas de “beleza” não se reduz unicamente ao fato de que impulsiona as mulheres (em particular as de classe média, que têm mais recursos) a investir tempo, energias e dinheiro para parecerem “desejáveis” e a interiorizar os correspondentes maneirismos para chamar a atenção dos homens suscetíveis a se converterem em seus parceiros. O problema mais grave que vem junto a esta forma particular de opressão é que ela limpa o caminho para um processo de compromissos e renúncias sem fim. Não se trata só do que as mulheres estão dispostas a fazer a seus corpos para “parecer jovem”, “chamar a atenção” etc., mas do que terminam permitindo que os homens façam com seus corpos. Não é surpreendente que, para que as coisas sigam seu curso, muitas mulheres terminem retrocedendo em outras frentes: carreiras, satisfação sexual, respeito a si mesma etc. Neste processo de tentar manter relações ou encontros “decentes”, muitas mulheres de classe média terminam tolerando namorados autoritários, a violência doméstica, os maridos infiéis etc.

Na realidade, o que esquecem estes ensurdecedores gritos de “o corpo é meu, a vida é minha” é o simples fato de que, ao assumir o vestuário e o comportamento hiperfeminino, muitas mulheres empregam seu corpo e sua sexualidade para satisfazer os parceiros que escolheram dentro de sua própria classe, ou para ascender na escala social atraindo homens de classes mais altas. Os engenhosos argumentos do tipo “faço isso porque me faz me sentir bem” ou “o que há com você foi? este é um país livre!” não são muito convincentes se os situamos no contexto das relações homem-mulher que se dão na sociedade, ou inclusive no contexto das relações que muitas das autoproclamadas feministas cultivam.

Desafortunadamente para todos, fazemos parte de uma sociedade cuja capacidade para amar está em seus níveis mais baixos. Neste contexto de frágeis e egoístas relações homem-mulher promovidas pelo capitalismo, o fato de que as mulheres tolerem e assumam as práticas que encaixam com a visão masculina e a predominante sexualidade feminina simplesmente é uma tentativa de atrair a atenção de seus parceiros (e com isso também, querendo ou não, a do resto dos homens). Esta atenção é cativada sob a forma em que o parceiro está acostumado a ver e sob a que ele espera ver para poder “se apaixonar”. Não nos deixemos enganar, pois, por essas noções de “empoderamento” que nos levam a atuar de uma forma prejudicial para nós mesmas. Certamente, hoje em dia cada vez são mais as mulheres que procuram seus próprios parceiros, comparando com épocas anteriores. Mas o ponto de partida de muitas dessas relações é parecer atrativa, não já desde a perspectiva dos indivíduos “apaixonados”, mas desde a perspectiva que são impostas por forças externas. Portanto, o que muitas mulheres identificam com uma “escolha pessoal” na hora de exercer sua sexualidade, de fato reproduz as condições que permitem que o genuíno sentimento ou amor igualitário seja substituído por uma falsa intimidade entre homens e mulheres, os quais mantêm relações físicas enquanto transformam mutuamente seus corpos em objetos (muitas vezes depois de ter comprovado previamente a quanto chega à conta corrente do outro)[60].

De fato, vestir-se de maneira hiperfeminina é um ato ou uma prática com um determinado caráter de classe. É uma manobra das mulheres de classe média e burguesa para fazer frente à opressão dos homens de sua própria classe. Onde melhor se reflete, talvez, a inclinação classista que têm muitas vertentes do feminismo que defende o vestuário hiperfeminino é no fato de que estas mulheres que reclamam igualdade, sem dar importância ao que vestem ou ao que fazem, poucas vezes buscam parceiros fora de sua classe. Em certo sentido, a natureza de sua demanda por igualdade, bem como a forma de liberação sexual postulada por elas, de forma alguma realmente permite a expansão do seu leque de encontros e casamentos. Por isso, apesar de todas suas reivindicações de liberdade sexual, não costumam transgredir os códigos sexuais de sua classe e não buscam o amor entre os homens da classe operária (ou de mulheres de classe operária, no caso das feministas lesbianas). Portanto, sua ideia de liberação não pode ir além da conquista de direitos e privilégios inéditos, de que já desfrutam os homens de sua mesma classe, como o direito de vestir-se como se queira, ir onde se queira, encontrar-se com quem se queira, e basicamente fazer o que der na telha. Então lamento, mas esta ideia de liberação não diz nada acerca da luta contra a escravidão assalariada, nem tampouco assume sua responsabilidade no aumento da opressão que provoca esta noção pequeno-burguesa de “liberdade” sobre as mulheres proletárias.

Na realidade, a retórica do tipo “meu corpo, minha vida” não dá para muito. Ao contrário, as imagens hiperfemininas que difundem os meios de comunicação capitalistas, assim como a constante e acrítica adoção da feminidade patriarcal por parte das mulheres de classe média, criaram enormes problemas às mulheres de todo o mundo. Malaika Arora Khan, Priyanka Chopra, Sunny Leone etc., bem podem submergir-se na feminidade patriarcal e ganhar pontos mercantilizando em seu corpo, mas, ao mesmo tempo, elas não estão em condições de ser violadas pelo homem comum que vê seus filmes, posters etc. Quem pode burlar os sistemas de segurança, as equipes técnicas e os guarda-costas para obter/consumir fisicamente seus corpos? Do mesmo modo, essa estudante universitária que se veste sensualmente para frequentar os pubs só pode ser vista/consumida pelos homens que vão ao pub, os camareiros, os da segurança e os motoristas que as deixam em casa. Mas por acaso alguém se preocupa em como seus corpos, ou os de Sunny Leone ou Priyanka Chopra terminam se convertendo no objeto das fantasias dos homens? De fato, esta tendência hedonista[61] pequeno-burguesa se plasma em noções pequeno-burguesas de civismo e liberdade que se impõem assim ao resto das massas. Sem dúvida, este “civismo” de classe média requer zonas pacificadas, artificiais (campus universitários, centros comerciais, discotecas etc.), onde pode se exibir. A criação destas zonas pacificadas é possível principalmente graças às forças policiais, às quais se outorga relutantemente a função de conservar estes paraísos de segurança (ou de maior segurança) para que as classes altas desfrutem de sua “azaadi” [liberdade].

Evidentemente, estas mulheres podem não ser violadas e nem molestadas (e claro que esperamos que não o sejam) quando fazem o que fazem. Não obstante, seus corpos passam para as fantasias do homem comum, e também às daqueles que, dependendo da vulnerabilidade (da próxima mulher ou criança que vir a cruzar com eles) e da impunidade que ofereçam as circunstâncias, podem chegar a violar os mais vulneráveis. Isto nos leva de novo ao repetido slogan: “skirt mein, burkhe mein, dono mein rape hota hai” [quer usemos saia ou burka, vão nos estuprar do mesmo jeito – PP]. Deveríamos agora qualificar isso adequadamente, e dizer que as mulheres que usam saia e tops decotados em certa medida são responsáveis pelo estupro das mulheres que usam burka e ghunghats [Um ghoonghat é um lenço ou véu usado por algumas mulheres hindu, jain e sikh casadas para cobrir sua cabeça e, nalguns casos, rosto – PP].

A defesa feminista do comportamento e do vestuário hiperfeminino tem pouco sentido se consideramos que aceita o fato de que este comportamento e esta maneira de vestir-se não são mais que formas mímicas de chamar a atenção de um jeito que, enquanto por um lado pretende atrair um indivíduo concreto, por outro devem supostamente repelir ou provocar indiferença nos demais. É natural, pois, que a retórica feminista acerca do comportamento e o vestuário hiperfeminino careça de sentido para a maioria de homens e mulheres, e ainda que as feministas defendam suas posturas chamando de machistas a todos estes homens e mulheres que criticam a roupa e o comportamento hiperfeminino, sua defesa é bastante frívola.

Portanto, embora seja preciso criticar esse traiçoeiro jogo de culpa que corre solto na (hipócrita) sociedade capitalista quando se produzem estupros, assédios etc., não há razão para jogar o bebê fora com a água suja. Afinal de contas, negar a incômoda verdade oculta nestes esforços para “fazer o que tiver vontade” termina fazendo com que o movimento das mulheres seja incapaz de analisar de maneira mais rigorosa o que torna possível a violência sexual e por que se trata de um fenômeno recorrente na sociedade capitalista.

Socialismo: para além da noção feminista de liberdade

Analisar mais de perto as tensas relações entre as feministas e o movimento operário não entra nos objetivos deste texto. No entanto, é preciso fazer algumas observações. A mais importante é que o movimento internacional da classe operária sempre questionou a presunção feminista de que a opressão da mulher poderia ser erradicada lutando-se única ou especificamente por uma maior igualdade de gênero. Vale a pena assinalar que Alexandra Kollontai já afirmou lucidamente que muitas das reivindicações de igualdade elaboradas pelas feministas não só estavam mal colocadas, mas, além disso, iam contra os interesses das mulheres da classe operária, pois ditas reivindicações não contemplavam um tipo mais abrangente de igualdade. De fato, para a maior parte das mulheres, isto é, as mulheres proletárias, ter os mesmos direitos que o homem só significa sofrer a mesma desigualdade. Claro, sempre haverá feministas que dirão que suas afirmações acerca da desigualdade de gênero não se esquecem da classe, mas o certo é que, embora tenham em conta outro tipo de desigualdades (classe, casta, raça etc.) além da de gênero, costumam considerá-las como outras tantas variantes de discriminação que simplesmente vêm a somar-se à carga que já suportam por si mesmas as mulheres. Em todo caso, a questão é se a classe é tão somente uma a mais nesta lista de discriminações. Se pode reduzi-la a um novo “–ismo”? A resposta, obviamente, é não. Pois a classe é uma força estrutural que corta o gênero, a casta etc., e portanto, dá à discriminação de gênero, de casta etc., uma forma particular de expressão.

Armado com este modo ontológico de considerar o gênero frente à classe, o movimento operário, ao contrário do feminismo, sempre colocou que a desigualdade de gênero só poderá ser erradicada por completo com a desaparição da sociedade de classes. Por isso o movimento operário coloca a igualdade entre homens e mulheres não como uma parte separada, mas como parte integrante de um projeto emancipatório mais amplo, que liga a emancipação da mulher à liberação da maioria, ou seja, dos homens e mulheres de classe operária.

Assim, pois, com a dissolução das divisões de classe sob o socialismo, se abrirão várias possibilidades revolucionárias para a sociedade humana em seu conjunto. Na sociedade socialista, por exemplo, todas as mulheres estarão empoderadas mediante o trabalho e a educação, o que libertará a maior parte das mulheres de sua atual situação de aberta dependência dos maridos que trazem o pão para a casa. Do mesmo modo, quando a socialização do trabalho alcançar certo nível, incluindo o cuidado coletivo dos filhos, refeitórios coletivos etc., as mulheres poderão liberar-se dessa piada de mau gosto que é a escravidão doméstica, que as assolou e submeteu desde os inícios do capitalismo. Ao liberar a maior parte das mulheres de sua situação de dependência e (desvalorizada) domesticidade, o socialismo aportará uma nova imagem da mulher, que está muito longe da imagem de miserável, vulnerável e explorável que alimenta o capitalismo. Quando este espectro da vulnerabilidade já não espreitar as mulheres, nenhuma mulher terá que enfrentar o choque da violência sexual, nem viverá atemorizada.

Ainda mais, o pleno emprego que oferece o socialismo garantirá que nenhum homem ou mulher faça mais trabalho do que lhe corresponde, uma obrigação que reduzirá drasticamente as horas de trabalho que realiza hoje a sociedade. Com este necessário descenso do tempo de trabalho, os homens e as mulheres poderão desfrutar de seu tempo livre. E precisamente graças ao aumento do tempo livre poderão cultivar as relações humanas, e se poderá progredir rumo a um verdadeiro amor e desfrute do sexo romântico e satisfatório. Em outras palavras, ao invés do que faz o sistema capitalista, que cria condições nas quais o coito coercitivo é mais frequente que o sexo voluntário e o verdadeiro amor, a reestruturação socialista do tempo livre e de trabalho pavimentará o caminho para uma verdadeira revolução sexual. Sem divisões de classe, sem ter que suportar largas horas de trabalho desumano e diferenças entre sexos artificialmente acentuadas, sob o socialismo os seres humanos não terão motivos para estuprar, submeter ou usar corpos alheios para benefício próprio.

Assim, até que chegue o momento em que a igualdade de gênero se manifeste simplesmente como igualdade de homens e mulheres da mesma classe, falar de revolução sexual ou de sexo romântico é pouco apropriado. Só quando a igualdade de gênero se manifestar através de uma igualdade mais ampla, só quando as diferenças de classe, casta e raça tiverem sido abolidas, poderá começar a revolução sexual. É evidente, então, que se nossa civilização quer superar as condições que animam a violência sexual e a opressão, e se realmente desejamos uma revolução sexual, então nossos esforços devem focar no objetivo de construir o socialismo. Uma transformação que requer uma luta contra a opressão ligada às distintas identidades de gênero, casta, religião, raça etc., e também intensificar a luta contra a divisão da sociedade em classes.

Notas

[48] Algumas das autoras que estudaram de perto o movimento feminista empregam certos termos que, segundo elas, encerram algumas das preocupantes tendências do feminismo. Veja-se, Melody Hoffman (2010), “Teaching with Feminist Contradictions: The Debate of Dress in Theory and Practice”. Hoffman designa com o termo de feministas “afeminadas” aquelas que recorrem explicitamente ao comportamento e a roupa hiperfeminina. Veja-se também Ariel Levy (2005), Female Chauvinist Pigs: Women and Launch of Raunch Culture (New York: Free Press). Levy emprega termos como “mulheres chauvinistas” ou cultura “obscena” na hora de explicar esta moda do “poder” feminino.

[49] Nancy Fraser (2009), “Feminism, Capitalism and The Cunning Of History” New Left Review, vol. 56: 110.

[50] O movimento feminista foi criticado em todo o mundo por sus concepção da realidade social e suas mobilizações concomitantes. Muitas destas críticas procedem de grupos de mulheres marginalizadas (afro-americanas, hispânicas, Dalit, etc.) ou de organizações marxistas que questionam o predomínio do gênero como nexo de união. As comunistas, em particular, assinalam que o problema do feminismo não é que fale da igualdade entre homem e mulher (algo que também fazem as comunistas), mas que ao particularizar esta aspiração se parcela a sociedade entre homens e mulheres. Veja-se Clara Zetkin (1896), Only in Conjunction With the Proletarian Woman Will Socialism Be Victorious. E também Alexandra Kollontai, Os fundamentos sociais da questão da mulher.

[51] Rachel P. Maines (1989), The Technology of Orgasm: “Hysteria”, the Vibrator, and Women’s Sexual Satisfaction (Baltimore: John Hopkins University Press).

[52] Ariel Levy (2005). Op.cit., nota 48.

[53] A autora aplica aqui uma analogia com o termo “burguesia compradora”. [Nota da tradução espanhola do texto]

[54] Naomi Wolf (1993), Fire With Fire: The New Female Power and How to Use It (New York: Random House). Wolf afirma que “o dinheiro pode liberar a mulher de muita opressão sexual”, mas em realidade seu convite a “fazer-se rica” simplesmente reflete as necessidades das mulheres de classe média em ascensão.

[55] Sreenanti Banerjee (2013), “Sexual Violence, Consumer Culture and Feminist Politics – Rethinking the Critique of Commodification”.

[56] Sheila Jeffreys (2005), Beauty and Misogyny: Harmful Cultural Practices in the West (New York and India: Routledge). Aqui Jeffreys argumenta que o imperialismo cultural que encabeça a indústria internacional de produtos de beleza impôs práticas daninhas que hoje são muito populares entre as mulheres abastadas dos países desenvolvidos e em desenvolvimento e entre algumas faixas de mulheres mais desfavorecidas em todo o mundo.

[57] The master’s tools will never dismantle the master’s house, em inglês. Se poderia traduzir também como “não se pode combater a alienação com formas alienadas”. Ademais trata-se do título de um texto que fala da questão da mulher. [Tradução da Nota de El Salariado]

[58] Audre Lorde (2000), “Age, Race, Class, and Sex: Women Redefining Women,” Wendy Komar and Frances Bartkowski, eds., Feminist Theory: A Reader, p. 292.

[59] Lynn Phillips (2000), Flirting with Danger: Young Women’s Reflections on Sexuality and Domination (New York: NYU Press). Muitas das mulheres entrevistadas neste estudo revelavam que muitos de seus encontros sexuais eram para satisfazer os desejos sexuais do homem, mais que o seu próprio.

[60] Nesta obra está muito bem documentada a forma em que o capitalismo influi em nossas vidas, incluída sua faceta mais íntima: Arlie Hochschild (2003), The Managed Heart: Commercialization of Human Feelings (Berkelei: University of California Press). Veja-se também A. Hochschild (2003), The Commercialisation of Intimate Life (Berkelei: University of California Press).

[61] Como apareceu sem censura em muitas dos slogans que emergiram durante os protestos anti-estupro, tais como: pub jaane ki azaadi (libertade para ir aos bares), marji ke kapde pehenne ki ya na pehenne ki azaadi (libertade para vestir-se como se queira ou para sair pelado), disc jaane ki azaadi (libertade para ir à discoteca), o piney ki bhi azaadi (libertade para beber o que se queira e quanto se queira).

Traduzido por Pablo Polese. O texto de Maya John foi originalmente publicado em Radical Notes. A versão em espanhol do texto, publicada por El Salariado, pode ser lida aqui.

Este texto foi ilustrado com fotografias da Marcha das Vadias em diversas partes do mundo.


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