Autodefesa no Encontro Nacional de Mulheres (Argentina)

Autodefesa no Encontro Nacional de Mulheres (Argentina)

em 7 dez

Ao romper ao mesmo tempo se está denunciando a Comissão Organizadora do evento, que faz negociata com os governos de turno, e com a Igreja também. Entrevista realizada por Primo Jonas

Para o Encontro Nacional de Mulheres (ENM) da Argentina de 2017 um grupo de companheiras preparou um material audiovisual sobre a autodefesa. Disponibilizamos aqui a tradução com o intuito de circular o material e as formas de pensar o tema repressivo, NO ENTANTO é necessário ter em conta duas questões: 1) algumas das coisas recomendadas no vídeo dizem respeito muito particularmente às leis e formas nacionais de relação com a polícia; 2) mais importante do que qualquer “receita” ou “manual”, o principal da questão antirepressiva é a forma como a pensamos: como bem diz o vídeo, não existe certo ou errado, o critério sempre deve ser coletivo e baseado nos acordos e objetivos de cada grupo. É importante ressaltar esta questão para evitar um pensamento de “cartilha” que termina saltando um exercício mais coletivo de discussão e que tende a criar verdades e mentiras ao invés de instigar os ativistas e militantes a elaborarem e reelaborarem seus próprios critérios com independência e autonomia a partir dos sempre mutáveis contextos.

Também acompanha o vídeo com legendas uma entrevista com uma companheira que esteve presente no ENM de 2017, estudante de filosofia e integrante da Comissão de Mulheres, Diversidade Sexual e Gênero, uma das comissões de base do Centro de Estudantes da Faculdade de Filosofia e Letras (UBA), a respeito do encontro e da autodefesa preparada para a ocasião.

Primo Jonas: Como foi o ENM deste ano em comparação com os anteriores, em relação ao contexto nacional atual?

Melisa: O encontro foi menor do que o do ano passado em Rosário. Acho que isso se deu porque foi sediado em Chaco [a 800km de Buenos Aires, Capital], o que dificultou o acesso para muitas pessoas. Também afetou a participação por ter sido apenas duas semanas antes das eleições, o que fez com que, na minha opinião, muitas organizações partidárias destinassem menos militância ao encontro. Com relação a como vinham ocorrendo os encontros, acredito que o deste ano teve menos enfoque político nos debates, nas oficinas de debate. Não sei se tem a ver com a baixa assistência ou pela forma como as oficinas foram organizadas pela Comissão Organizadora. O que eu resgato é que este ano tivemos novas oficinas, como uma que me chamou muito a atenção que foi a de “Ativismo Gordx”, assim escrito com x, muito legal e novo. Nestas oficinas se abre espaço para novas discussões interessantes, novos posicionamentos, como por exemplo criticar a ideia hegemônica de beleza, a gordofobia, a questão de sentir-se bem com o corpo, coisas que abrem a cabeça. Todos os anos têm essas oficinas novas, mas creio que esse ano a vanguarda de Chaco foi o ativismo gordx. Bem, mas para além de algumas críticas, da baixa assistência, me parece importante ressaltar o ENM como uma ferramenta muito importante que temos para organizar o movimento. Que se bem tem algumas falências e coisas por construir – por exemplo, é necessário agora terminar de incluir as sexualidades não-hegemônicas, como as travestis e as transexuais. Mas bem, tem de ser disputado no seu interior e seguir construindo, explorando esta ferramenta.

PJ: Como foi organizada a autodefesa, em termos gerais e mais específicos do grupo com o qual você viajou?

M: Antes de viajar, quando estávamos organizando-nos já tínhamos em conta a conjuntura nacional, a avançada repressiva, então tomamos muitas mais medidas em comparação ao que costumávamos tomar. Sempre esteve garantida a lista de todes as visitantes: nome, sobrenome, documento, contato familiar, endereço, tudo isso. Bem, para além das medidas óbvias como saber localizar-se, onde fica o centro, onde fica nossa escola [dormitórios cedidos pela prefeitura local]. Inclusive a escola onde nos puseram ficava a 40 quarteirões da praça central, pois Chaco realmente ficou lotada. Então o que fizemos foi combinar com o motorista do nosso ônibus que nos passasse a buscar todos os dias e que nos levasse também. Tivemos que viver com um “toque de recolher”: era sempre ter que encontrar-nos às 21h na praça central para voltar à escola. Íamos sempre em grupo às oficinas, nenhuma sozinha, tudo isso pois imaginávamos Chaco toda militarizada, coisa que não ocorreu. De todas formas mantivemos as medidas a viagem inteira. Também tendo em conta que viajamos como comissão de base do centro de estudantes, viajamos com um monte de garotas novas, que de repente nunca tinham vivido uma repressão. Então tivemos reuniões da comissão antes de viajar para contar a elas um pouco que coisas devíamos fazer, como atuar em uma repressão, ficar na coluna e não sair correndo sozinha, ficar sempre acompanhada. Também nos reunimos com a FUBA [Federação de estudantes da UBA] para ver se podíamos coordenar uma organização (não pudemos) para ir à Marcha, que é o momento que costuma ser mais complicado de repressão. Essas foram basicamente as medidas que tomamos. Também ocorreu algo que pessoalmente critico. Enquanto comissão aprendemos, ou eu aprendi ao menos, a não descansar com as organizações político-partidárias; temos que autogestionar nossos próprios métodos de defesa, pois pode ser que ocorra que por acima da integridade de companheires sejam colocados os interesses políticos, ao invés de cuidar da segurança. Foi o que ocorreu neste encontro, segundo minha opinião. Você quer que eu conte o que ocorreu na Marcha?

PJ: Se você quiser, conte.

M: Bem, é basicamente que havíamos estabelecido um cordão de segurança que nos ia ser garantido pela FUBA. Mas esse cordão era inexistente, terminei eu tendo que integrá-lo, que meço 1,50m e sou uma pena. Por sorte não aconteceu nada e disto se aprende.

PJ: Como é a questão da famosa Marcha à Catedral, que sempre ocorre nos ENM?

M: Todos os anos já é tradição que exista um percurso oficial da marcha, e depois está o percurso das que decidem romper e passar pela Catedral e pela Casa de Governo. Acredito que isso ocorre todos os anos. A Comissão Organizadora decide não passar pela Catedral e um grande setor rompe, e eu estou de acordo com romper, acho muito importante denunciar o Estado, o Governo e a Igreja, que particularmente neste momento do movimento em que se está pedindo e se está militando pelo aborto legal, questão de morte para muitas mulheres em abortos clandestinos. É muito importante denunciar a Igreja e os Governos que não nos estão dando o aborto legal. E também ao romper ao mesmo tempo se está denunciando a Comissão Organizadora do evento, que faz negociata com os governos de turno, e com a Igreja também, e que por estas razões óbvias decide não passar por aqueles lugares. Ao romper, denunciamos ambos lados. É claro que sempre há que se ter em conta a correlação de forças, nunca indo para o suicídio. Deve-se ter em conta com quem você está marchando, quais seguranças você tem, o que pode chegar a acontecer. Como este ano: a maioria dos organismos de direitos humanos decidiu não romper, mas nós rompemos de todas formas. Na verdade a maioria das que estávamos na comissão não tínhamos acordo, mas bem, foi decidido e ao final o fizemos.

PJ: A Comissão Organizadora é composta por quais forças? São sempre as mesmas?

M: Isso eu não tenho assim totalmente certeiro, mas creio que as fundadoras do ENM são do PCR, as chinesas, essas são como as burocratas máximas do encontro, que dirigem e coordenam. E acho que vão somando-se novas agrupações, este ano por exemplo estava também Patria Grande na organização. Ou seja, da mesma linha: estão com o Papa e com os governos de turno. Aí se entende porque se despolitiza, e por isso creio ser importante disputar a direção destas organizações, para poder enriquecer o encontro, nossa ferramenta. Por isso a importância de romper na marcha.

PJ: Algo mais que queira dizer?

M: Sim. O ENM é lindo, uma experiência muito bonita, para além das situações criadas pelas organizações burocráticas, sempre se pode resgatar um montão de coisas. O ambiente é lindo, são três dias de completa liberação, “sororidade”, e tudo o que você quiser pensar, coisas bonitas e importantes. É uma tremenda experiência, te forma como pessoa.


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